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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Outubro Assustador - Sete sugestões de leitura para o mês do Horror


Eu achei muito interessante a sugestão do blog Biblioteca do Terror: indicar sete livros de horror em sete temas diferentes para serem lidos no mês de Outubro.

Acredito que não haja problema em replicar a ideia aqui no Mundo Tentacular, com as minhas escolhas pessoais dentro dos temas sugeridos pelo autor do artigo original Rafa Filth Michalski. Para ler o artigo e ver as sugestões do Biblioteca do Terror, basta clicar no link a seguir: "Mês do Horror".

Minha lista reúne alguns dos meus favoritos, obras que eu devorei (no sentido literal da palavra) e que eu indico sem restrições aos fãs do Horror.

A seguir as minhas escolhas pessoais, fiquem à vontade para comentar:

1 - O Horror Onírico de H.P. Lovecraft



Não é preciso apresentar H.P. Lovecraft aos leitores habituais do Mundo Tentacular. Se você chegou a esse blog, deve conhecer Lovecraft, com sorte já leu boa parte de sua obra, se não, o que está esperando? Com seu estilo único, Lovecraft conquistou lugar entre os maiores Mestres do Horror de todos os tempos. Além de, é claro, ter influenciado gerações de autores a expandir e desenvolver a sua própria mitologia. Nesse tema em especial, eu fujo um pouco do óbvio, que seria indicar uma obra do próprio Lovecraft; ao invés disso, aponto uma coleção com contos de autores que beberam de sua inesgotável fonte de pesadelos e destilaram suas próprias visões aterrorizantes dos Mitos Ancestrais.

Meu indicado é:

TALES OF THE CTHULHU MYTHOS por H.P. Lovecraft e Outros



Comentários: Esse livro tem de tudo! Uma antologia completa com alguns dos mais conceituados autores que seguiram os passos de Lovecraft e contribuíram para aprofundar os conceitos e noções dos Mitos de Cthulhu. Excelente coleção que inclui Robert Bloch, Colin Wilson, Ramsey Campbell, Fritz Leiber, Brian Lumley e até Stephen King. "Tales of the Cthulhu Mythos" constitui um macabro tributo a obra imortal de Lovecraft. Para os fãs do RPG Call of Cthulhu, é a chance de conhecer as estórias que inspiraram muitos dos horrores contidos no Livro Básico.

2 - Criaturas Sobrenaturais: Monstros que nos Assustam



O Medo do que está além de nossa imaginação. O asco inominável diante do estranho, do repulsivo, do inominável... quando não somos capazes de compreender o que vemos, de entender o que sentimos ou de racionalizar o imponderável nos deixamos dominar por uma forma de horror mais pura e primitiva. E é então que eles surgem: os monstros que se escondem nas sombras, que rastejam para baixo da cama e se ocultam no fundo do armário. Durma com a luz acesa e feche os olhos... se tiver coragem!

Meu indicado é:

O FORTIM por F. Paul Wilson


Comentários: Por si só, "O Fortim" poderia estar no tema seguinte, pois se trata de um novo e legítimo clássico do horror. Se você não conhece F. Paul Wilson, um excelente autor de Horror contemporâneo, procure saber mais a respeito dele e, se ficar curioso, comece a explorar sua obra através de "O Fortim"(The Keep). Nessa novela claustrofóbica, cheia de atmosfera, um grupo de elite de soldados alemães durante a Segunda Grande Guerra se vê aprisionado em uma antiga Fortaleza Medieval na Romênia. O lugar encerra algo antigo e aterrorizante em seu interior, algo que aos poucos começa a fazer vítimas e testar a sanidade dos ocupantes do lugar. Eu li já tem um tempo e gostaria de ler a edição que acaba de ser lançada com nova tradução. 


3 - Os Clássicos Assombrados




Um clássico do Horror é mais do que uma estória escrita muitos anos atrás, à luz de velas, redigida com pena e tinta. Um clássico pode surgir a qualquer momento, quando as palavras impressas reverberam na mente do leitor por dias, meses, anos e se tornam mantras medonhos, difíceis de esquecer... um clássico do horror fica registrado para sempre, como uma cicatriz indelével em nossa mente. Por mais que você queira esquecer, ele está lá...

Meu escolhido é:

O GRANDE DEUS PAN (The Great God Pan) por Arthur Machen


Comentários: Arthur Machen. Esse é um nome consagrado do horror que todo fã deveria conhecer. Machen escrevia a respeito dos horrores antigos, não necessariamente cósmicos como Lovecraft, mas a respeito de criaturas faéricas (que ele chamava de O Povo Pequeno) e demais seres da natureza selvagem. Nessa novela, uma das preferidas de Lovecraft, Machen narra a trajetória de uma mulher atormentada por uma entidade ancestral que corrói a sua sanidade a medida que ela descobre seu legado e como sua existência está interligada a essa monstruosidade.


4 - Antologias Macabras




Antologias são coleções de contos rápidos, diretos e geralmente com um desfecho brutal. Nesta categoria encontramos aquelas estórias angustiantes, contadas de forma seca, em poucas e enervantes linhas que nos fazem virar as páginas sem parar. O desafio aqui é ler apenas um conto e fechar o livro antes de terminar todas as estórias...

Meu escolhido é:    

SHADOWS OVER BAKER STREET por vários autores


Comentários: Não faltam boas antologias de horror, um gênero que se ajusta muito bem a narrativas curtas que vão direto ao ponto. Entre as muitas possibilidades nesse quesito, escolhi a antologia "Shadows over Baker Street" que reúne os Mythos de Cthulhu a um dos ícones da literatura mundial: Sherlock Holmes. Com estórias escritas por nomes consagrados como Neil Gaiman, Poppy Z. Brite e James Lowder temos uma excelente coleção de estórias vitorianas onde o mais brilhante detetive de todos os tempos - e vários personagens ligados ao seu universo, confrontam casos extraordinários e mistérios insondáveis do sobrenatural.  Eu escrevi uma resenha a resepeito desse livro qu epode ser lida aqui.

5 - O Horror nos Cinemas




Vários livros de horror foram adaptados para o cinema. Nem sempre o resultado fica dentro do esperado, mas às vezes a sétima arte dá a sua contribuição para potencializar um horror e torná-lo ainda mais assustador. Aqui temos um livro que se tornou filme, descubra por conta própria as diferenças e semelhanças entre os dois.

Meu escolhido é:

THE HELLBOUND HEART por Clive Barker

Comentários: Alguns leitores não gostam de ler estórias que já foram adaptadas para o cinema por considerar que as surpresas acabam sendo dirimidas... eu francamente não penso assim. Muitas vezes, um roteiro de cinema precisa compartimentalizar ou abreviar as estórias para se encaixar na duração de um filme. Nessa transição, não raramente, muita coisa se perde, as motivações e pensamentos, sobretudo. Embora o roteiro do filme Hellraiser tenha sido adaptado pelo próprio Clive Barker, e o resultado tenha sido notável, ler o original, "The Hellbound Heart", é quase uma nova experiência. E essa edição da Dark Side é incrivelmente caprichada, um verdadeiro deleite para os olhos e sentidos... Barker é um monstro e nessa estória em especial ele estava em estado de graça.

6 - Páginas de Sangue: Serial Killers




Comentários: Nos últimos tempos, os monstros sobrenaturais tem cedido espaço para uma nova modalidade de predador que habita os centros urbanos e coleciona vítimas. Esses monstros têm uma face humana e se misturam com naturalidade entre as pessoas que se tornam suas presas. Muitas vezes, o assassino em série não parece sequer ameaçador: "ele sempre foi tão gentil", "ele era tão quieto", "ele era um ótimo vizinho", dizem as pessoas, quando descobrem a medonha verdade. Repulsivos como são, eles se tornaram protagonistas em muitos livros que não cansam de nos causar um incômodo fascínio.

Meu escolhido é:

O ALIENISTA por Caleb Carr


Comentários: Eu não sei se "O Alienista", o mais conhecido trabalho de Caleb Carr, ainda está no catálogo da Editora Record, mas não é difícil encontrá-lo em sebos. Eu li há muitos anos, e não faz muito tempo, li pela segunda vez antes de experimentar sua continuação "O Anjo das Trevas". O romance acompanha os esforços de uma equipe de Psiquiatras Forenses em capturar um assassino em série que aterroriza Nova York. Até aí, nenhuma novidade, contudo, a estória se passa no final do século XIX, quando os mistérios da mente humana ainda estavam sendo mapeados e os especialistas tinham de enfrentar olhares de reprovação e críticas de todos os lados. Uma mistura perfeita de suspense e pesquisa histórica do período, altamente recomendado para os que gostam de investigações procedimentais e de mergulhar na mente de monstros homicidas.  

7 - O Horror Nacional




Alguns dizem que no Brasil não há uma boa produção de Horror. Bobagem! Basta procurar e você irá encontrar muitos autores talentosos. O horror verde e amarelo está entre nós meus amigos, olhem a sua volta e vocês descobrirão nas palavras familiares de nosso idioma, estórias que hão de tirar seu sono.

Meu escolhido é:  

O BAIRRO DA CRIPTA por Marcos R. Terci


Comentários: Vou direto ao ponto, sou fã do trabalho de Marcos Terci. Não faz muito tempo, escrevi uma resenha sobre "O Bairro da Cripta - As Elegias" que pode ser lida aqui no blog. Resenha
Com um estilo rebuscado e inquietante, o autor constrói uma tapeçaria de horrores habitando uma pequena cidade no interior do Brasil, um lugar fantasmagórico onde assombrações se reúnem, onde os mortos caminham e onde o medo empesteia o próprio ar. Uma ótima leitura para os aficionados, sobretudo aqueles que acham que no Brasil não temos boas estórias de horror... se você pensa assim, está na hora de conhecer a vizinhança de Tebraria. Por falar nisso, o "Tomo II - Os Epitáfios" já saiu e dá continuidade aos pavores da provinciana e nem por isso menos sinistra cidadezinha...

*     *     *

Então é isso!

Sete sugestões para o mês de Outubro, mês do Horror, mês do Halloween!

Boa leitura e bons sustos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Horror que veio com minha Caixa de Orient Express


Quinta feira, 10 de setembro de XX

Uma das maiores bençãos do mundo, creio eu, é a incapacidade que tem a mente humana de correlacionar todos os acontecimentos. A inaptidão de reconhecer causa e efeito entre elementos aparentemente discordantes e suas implicações. Se por ventura compreendidos em sua plenitude, essas ocorrências terminariam por nos levar urrando para a aparente segurança das cavernas mais profundas.

Tome por exemplo o que ocorreu dias atrás quando o imponderável teve lugar.

Era um dia como qualquer outro e como tal transcorreu, sem eventos até o momento fatídico do fim de tarde, quando uma presença se anunciou nos umbrais de minha morada: 

"Tem uma caixa grande aqui com seu nome. Pode vir apanhá-la?" vociferou uma voz gutural, destituída de face através do portão.

Eu realmente nem pensei muito a respeito, não esperava nada de importante.

De fato, a essa altura, toda esperança parecia ter esvanecido como as folhas de uma primavera longínqua. No meu entender, aquilo que eu aguardava já há três anos - sim, já faziam três longos anos, jamais chegaria por intermédio dos trâmites convencionais. Em meu desalento, já havia ido às raias da loucura, contatado os Antigos e quando mesmo eles não deram solução aos meus insistentes apelos, desisti. Havia tentado sacrifícios, promessas, suborno, coisas vis das quais, não me orgulho... tudo em vão. Sem êxito, me sentia colérico, traído e frustrado. Além disso, havia o temor de que conquanto chegasse, aquilo que eu tanto desejava, provavelmente seria interceptado e onerado implacavelmente pela ganânica dos homens, e eu teria que pagar com sangue ou minha própria alma para que fosse liberado dos trâmites viciados do sistema.

Como em um delírio onírico me dirigi para receber a tal encomenda tendo em mente que podia ser qualquer bugiganga frívola. Podia nem ser algo para minha pessoa, como não raro ocorre. Fosse lá o que fosse, não parecia ter muita importância, e logo, minha atenção foi desviada para outra ocorrência mais premente. Ao atentar para o alto, me deparei com um céu plúmbico, com nuvens escuras e carregadas que se avolumavam no horizonte e na abóboda celeste, sinalizando com uma tempestade que aprochegava. Sem aviso, sem alarde até então, escapara de meus sentidos por completo ou do nada se formara. Parei por um momento, percebendo a aproximação do temporal, captando a densa umidade no ar que me envolvia como um manto etéreo. Um trovão então rugiu ao longe: a água não tardaria a cair, pensei entrementes. Cães ladravam pela vizinhança e as pessoas comuns, o populacho ignóbil e as massas sujas, corriam para o refúgio de suas casas. Um vento tépido soprou, sabe lá de onde, e me roubou do estupor momentâneo. 


Dei de ombros e prossegui. Ao chegar ao meu destino, um dos rapazes que auxilia no portão, observou com uma expressão bovina, meio indolente e sinalizou para que eu fosse retirar o pacote com meu nome. Sem muito interesse quando perguntei onde estava, ele apontou distraído com o queixo:

"Ali em cima! É bem pesado..."

Meus olhos correram para o outro extremo da sala e nesse ínterim, dei conta de que poderia ter ocorrido um milagre, que poderia ser a encomenda que eu aguardava ansiosamente há tanto tempo, pela qual cansei de pedir e pela qual acendi velas e proferi votos caso um dia chegasse às minhas mãos. Teriam os esguios Nightgaunts ou os quiméricos Byakhee feito o translado desse fardo? Teria ele atravessado o véu entre os espaços, por intermédio do Portão e da Chave? Teria ele, sido depositado sobre a bancada onde ora repousava, por um dos Andarilhos Dimensionais que vagam manquitolando pelas sendas enevoadas? Como? Quando? 

Antes de ver o pacote, senti meus nervos tensionando. A boca seca de antecipação, as palmas das mãos suadas e escorregadias... um arrepio elétrico correu pelas minhas costas, terminando no meio da minha nuca, como um fragmento de gelo derretido... O pulsar nas minhas têmporas eram tamboros frenéticos. Sim, eu já sabia o que iria encontrar e antes de compreender as implicações daquilo, um sorriso jubiloso já se desenhava na minha face tomada momentaneamente de um devaneio angustiante, misto de desvairio e insânia.

"Sim! Deuses e Demônios do Céu e da Terra! Finalmente chegou! Só pode ser ele!" pensei - ou ao menos acho que pensei, pois o sujeito, me olhou com uma expressão peculiar, percebendo que eu estava parado contemplando por tempo demais a caixa sobre a tampa. Repleta de carimbos e estampas de terras distantes pelas quais viajou, manipulada por tantas pessoas insuspeitas de seu conteúdo profano.

Eu a apanhei com mãos trêmulas, incapaz de responder aos detalhes do translado e questões pendentes, que o rapaz propunha. Apanhei a caixa, sentindo o peso considerável, acautelado quando o conteúdo moveu de um lado para o outro em seu interior: "O Caos está aqui dentro, em verdade, só pode ser!" ponderei em um sussurro, no qual eu era o único interlocutor em toda Terra.

Retornei a passos céleres, meio trôpego como um ébrio delirante, sem reparar que as primeiras gotas da chuva já se precipitavam do céu cinzento. Ao chegar em casa, coloquei a chave na fechadura e no momento que girei, não foi o estalo metálico do ferrolho que ouvi, mas um trovão crepitante à distância. Prenúncio de uma magnífica borrasca com certeza, mas que diabos, que um aluvião lavasse a terra se preciso, pois nada disso importava...

Enquanto me dirigia para o interior claustrofóbico equilibrando o pesado fardo, acendi as luzes ansioso por abrir o pacote e remover de dentro seu conteúdo blasfemo. Mas então, do nada, um novo rugido irrompeu do lado de fora e súbito, as luzes apagaram, deixando a sala imersa em escuridão tão indevassável que as sombras formavam uma muralha negra que por um instante pareceu viva e pulsante. A total treva se apoderou do aposento e nublou meus sentidos por inteiro.

As luzes se apagaram, mas ainda assim eu tencionava seguir com meu plano. Eu precisava inspecionar o quanto antes, o conteúdo da caixa e precisava tomar ciência do que havia chegado.

Corri para o lado de fora com um abridor de cartas na mão e a caixa - a amaldiçoada caixa, nos braços. "Não hão me deter! Não irão!" gritei em represália aos trovões furiosos.


A noite já chegara, com uma obscuração atípica e uma ventania insistente que fazia a copa das árvores se agitar de lado a lado. Ao redor estava tudo embotado e o céu reclamava, formando um funil nebuloso bem acima do telhado em água furtada de minha casa. Uma cascata corria em profusão, caudalosa e rumorosa. Decidido em um átino frenético, rompi os lacres que cerravam a caixa, prometendo que nada iria me deter. Abri a tampa e como um cirurgião experiente removi do interior o conteúdo, colocando de lado, como se realizasse uma cerimoniosa necrópsia, na qual extirpava vários órgãos gotejantes.

A chuva à essa hora, já desancava a cair com pingos pesados que como previ, lavaram a rua furiosamente por horas levando aquela gente a rezar por seu cessar. O negrume era total de modo que foi apenas sob a luz tênue de velas, que vislumbrei os tomos repletos de horror que brotavam de dentro do pacote. O luzir tremeluzente da chama revelou as páginas cobertas de palavras eivadas com maus agouros e promessas de maravilhas proibidas. Eu as li com cuidado, dando graças aos Grandes Antigos pela sua benção, descrita naquelas páginas repletas de erudição atávica que eu cheguei a supor, nessa vida, jamais haveria de folhear.

Imerso naquele estupor contemplativo comecei a perscrutar o conteúdo e não me dei conta do passar do tempo, pois o que é tempo para aquele que sorve a doce seiva do saber proibido? 

Foi só muito mais tarde... após aquele verdadeiro dilúvio amainar e diminuir em seu ímpeto, depois dos trovões e ventania cessarem por completo e da luz afinal retornar, que despertei de meu transe. Só então, dei conta que já ia longe a madrugada. Havia lido sem parar por horas como evidenciava a vela já quase inteiramente consumida disposta sobre a mesa.

Não sei e provavelmente eu jamais venha a saber das invocações ignotas que recitei enquanto lia furiosamente as páginas. Meus olhos ardiam, minha boca tinha gosto metálico e a ponta dos meus dedos estavam gastas pelo ato contínuo de virar páginas. Talvez ilhas pútridas e medonhas tenham se erguido n'algum oceano insondável, talvez portais tenham se escancarado em algum pântano ermo iluminado pela lua gibosa, quem sabe uma janela tenha se formado e através dela algo observou avidamente nossa realidade. Quem pode dizer ao certo o que se deu quando a leitura terminou. Resta apenas imaginar o que foi desencadeado, e o árduo exercício da meditação concernente ao corrido, me enche de temor, ainda que todavia eu saiba, de modo alguma procederia de outra maneira.

Agora mesmo, enquanto rabisco esse registro tacanho, ela repousa sobre a tampa maciça da minha escrivaninha nos recônditos de meu santuário; a própria matéria dos pesadelos em forma de um tomo volumoso. Eu ouço enquanto ele sussurra promessas metafísicas, aguardando meu retorno para uma nova leitura. 

Com certeza, não terá de esperar demasiadamente...

*     *     * 

E foi assim que minha caixa de Horror on the Orient Express chegou.


À saber, leitor descrente que aponta o dedo acusando-me de descalabrio exagero, que vários fatos aqui relatados são perfeitamente verídicos.

Meu estado mental deplorável, agravado pela longa espera é fato, como podem corroborar vários de meus queridos amigos. Os pilares de minha sanidade há muito já haviam ruído e eu repetia quase como um mantra que jamais veria o referido livro.

A descrição do que ocorreu após a chegada da caixa também é factual. A tempestade monumental, os raios e trovões, a queda de luz na vizinhança, a abertura da caixa no pátio à luz de velas... tudo isso aconteceu e há testemunhas. A tempestade eventualmente amainou depois de um final de semana sombrio no qual choveu como à tempos não acontecia.

Há de ser comentada ainda a posterior e inédita infestação de oligoquetas (obrigado aos amigos que as identificaram) ocorrida no pátio dos fundos e na frente da minha casa. Esses pequenos seres vermiformes parecem ter sido trazidos à superfície, atraídos por algo bem menos trivial que a forte chuva. Após dias se contorcendo no piso de pedra, para horror primitivo de minha esposa (que perdeu boa parte de sua sanidade) morreram deixando suas formas chapadas no chão, para serem raspados laboriosamente. 

Também me chamou a atenção a foto que registra a chegada do pacote, enquanto eu o carregava para dentro de casa. Reparem na estranha luminosidade amarelada nos meus olhos, resultado provável de um mero reflexo fotográfico... ou assim prefiro imaginar, julguém por conta própria:



Não vou comentar os insistentes latidos no meio da madrugada e o curioso odor de frutas passadas que venho sentindo nesses últimos dias... eu as considerarei apenas como uma inoportuna coincidência. Quem sabe, assim possa sossegar meus temores e aplacar meus nervos em frangalhos.

Mas não obstante, a caixa chegou... e é isso que importa. Não?

As fotos do unboxing seguem seguem abaixo:

Eu sei que muitos dos amigos já devem ter recebido as suas devidas caixas, pois até onde sei, sou o último infeliz a tê-la em mãos! Como um De La Poer ou um selvagem mohawk, sou o último na linha... Eu inclusive já publiquei um unboxing do conteúdo da caixa (aquele que quiser ler pode buscá-lo AQUI). 

Eis na sequência os extras do Financiamento Coletivo:

O Material todo em cima da mesa.
Cartões postas de várias cidades visitadas pelo Oriente Express.
Adesivos para malas, bloco e emblema do Orient Express
Passaportes internacionais (faltou o britânico e francês!)
Lápis, envelopes, tickets e moeda comemorativa.
Ticket de embarque no Orient Express (esse prop ficou demais!)
Camisa da Campanha (preta)
Camisa Comemorativa de 1000% atingido (azul)
A Caixa e a bolsa de lona

terça-feira, 11 de agosto de 2015

"The New Annotated H.P. Lovecraft" - Antologia com os principais contos vem com notas e comentários


Mais uma antologia com os contos de H.P. Lovecraft.

"Outra? Sério? Mais um livro contendo os contos principais do escritor, sua biografia e alguns extras"...

Foi isso o que eu pensei ao saber do lançamento desse livro, intitulado "The New Annotated H.P. Lovecraft", um tremendo volume (quase um tomo, no melhor sentido da palavra) com nada menos do que 850 páginas, capa dura, sobrecapa, papel de alta qualidade e acabamento de luxo.

Mas apesar de ser um belo livro, essa não é a única antologia disponível.

Existem várias outras antologias dedicadas a Lovecraft, com destaque para a edição da Gollancz (com capa preta imitando couro) e a da Barnes and Noble (com a capa roxa), as duas muito bonitas e previamente resenhadas aqui no Mundo Tentacular. Além de terem um acabamento caprichado, elas podem ser encontradas com relativa facilidade na internet com um preço até acessível.

Com isso em mente, nem pensei muito a respeito de adquirir mais uma "coleção completa" de contos, já que isso pareceria não apenas redundante, mas um desperdício. Afinal, o que uma antologia poderia oferecer que já não tivesse sido visto anteriormente nas demais edições, que francamente, são lindas?

A resposta está no próprio título: "Annotated" (anotado), algo que faz toda a diferença. O fato desse livro conter notas de roda-pé, fornece uma série de interessantes comentários a respeito da obra, da vida e de curiosidades sobre Lovecraft e sua época. As anotações são muito bem vindas, fornecendo um colorido diferente a estórias que muitos leitores já conhecem de cor e salteado. É interessante descobrir as fontes de inspiração usadas por Lovecraft, o nome de artistas que ele admirava, as estórias que ele leu e em quais conceitos ele se baseou para escrever determinados trechos de suas estórias.

Não bastasse esses detalhes, essa antologia possui um diferencial diante das outras citadas anteriormente. Ela é ricamente ilustrada com fotografias, desenhos, capas de livros e trechos contendo a intrincada caligrafia do autor. A variedade de fotografias (mais de 200!) torna o simples ato de folhear as páginas um prazer que nenhum bibliófilo deveria se furtar. Melhor ainda, as ilustrações são em sua grande maioria coloridas e com uma resolução excelente.

Esses fatores talvez tornem Lovecraft Annotated a melhor antologia dentre as que foram lançadas até o momento. Uma obra de respeito sobre o Cavalheiro de Providence e suas mais famosas narrativas. Se você for um grande fã, eu indico dar preferência a essa antologia, sobre todas as outras, já que ela possui não apenas as melhores estórias, mas uma fartura de detalhes únicos. 

Outra boa adição a essa antologia é a introdução escrita por ninguém menos do que Alan Moore que tece comentários muito elogiosos a respeito de Lovecraft e sobre como sua obra foi decisiva para construir a sua própria identidade como escritor. É um relato muito interessante de um dos mais celebrados autores de ficção dos dias atuais a respeito de um escritor do início do século, que continua, nas suas palavras "incrivelmente contemporâneo e atual".
   
Resta então a pergunta: "E quanto aos que já possuem uma das outras antologias? Vale a pena comprar mais essa?"

A resposta não é muito fácil e depende do grau de devoção e interesse do leitor na obra de H.P. Lovecraft. Há de se considerar ainda, o preço elevado do dólar. O que posso dizer é que essa é uma excelente coleção que deixará mesmo os leitores mais exigentes plenamente satisfeitos. Ela não contém TODAS as estórias escritas pelo autor, mas estão lá seus trabalhos quintessenciais, apresnetados de uma maneira muito competente e em uma embalagem irretocável. 

Eu acabei não aguentando e cedi à tentação de comprar, mas não me arrependo. Essa é de longe a melhor antologia.


Para complementar essa pequena resenha, incluí uma série de fotografias da antologia que mostram alguns detalhes internos.

Julguem por conta própria:

O tamanho do livro e seu peso tornam um tanto difícil manuseá-lo. Não é um livro que sairá de sua casa ou será levado por aí, o lugar dessa antologia é na estante, saindo de lá para eventuais consultas.


Aqui podemos ver o índice e a introdução:


Logo em seguida, temos uma introdução do editor Leslie S. Klinger na qual ele fala sobre a vida e a época de Lovecraft. Não se trata de uma biografia muito extena, mas é bastante completa, ainda que concisa.


Aqui podemos ver as anotações de rodapé, no caso, as anotações (em vermelho) ficam nas margens do texto (na cor preta). O leitor encontra frequentes comentários nas margens que ajudam a compreender mais detalhadamente os contos.


As imagens são excelentes. Algumas são bastante conhecidas dos fãs, fotos e ilustrações encontradas na maioria dos livros dedicados ao Cavalheiro de Providence, mas existem algumas mais raras e curiosas, bem como desenhos e anotações feitas pelo próprio Lovecraft.


É uma maneira bem envolvente de dar um enfoque diferente e mais profundo aos contos que todos nós já conhecemos.


Aqui estão as anotações sobre "Nas Montanahs da Loucura", uma das estórias centrais:


Abaixo podemos ver o rascunho do manuscrito original - repleto de correções e notas, feito por Lovecraft enquanto ainda estava imaginando o final da estória.



... vemos ainda desenhos feitos por colegas de correspondência de Lovecraft que tentaram dar vida às terríveis criaturas e às cenas contidas nas estórias.

... descobrimos quando cada estória foi publicada originalmente, em que revista e como ficaram as ilustrações feitas pelos artistas da época, bem como, os comentários de Lovecraft a respeito dos desenhos.


Além disso, temos no final do livro uma série de apêndices que fecham com chave de outro o volume. O primeiro apêndice apresenta uma completa cronologia de "eventos lovecraftianos".


Os demais se dedicam a elementos recorrentes da ficção de Lovecraft, como a Universidade Miskatonic, a história do Necronomicon e outros documentos manuscritos.


Há ainda uma lista da cosmologia e das principais entidades que compõem os Mitos de Cthulhu, uma cronologia das estórias por ele publicadas e de suas revisões:


Finalmente temos um capítulo dedicado a influência de Lovecraft na cultura popular, onde o autor analisa como Cthulhu e demais criações lovecrafianas se tornaram populares entre leitores de todo o mundo.  


Quadrinhos, filmes, RPG, seriados, tirinhas... o livro analisa como Lovecraft deixou de ser um autor obscuro e se converteu em objeto de culto.


Em resumo, "The Complet Anotated Lovecraft" é um livro muito interessante para quem tem curiosidade em se aprofundar na obra do autor e conhecer mais detalhes. A quantidade de informações e curiosidades é enorme e sem dúvida vão fazer a festa dos leitores mais devotados.


domingo, 12 de abril de 2015

Algo Cthuliano em Westeros - George R.R. Martin e a inspiração de Lovecraft


Reedição do artigo de 13 de Maio - 2013

Quem lê a saga A Song of Ice and Fire ou acompanha a série da HBO "A Game of Thrones" é apresentado a um mundo fantástico de intriga, aventura, guerra e magia.

Westeros o continente onde se passa boa parte da ação de Game of Thrones é uma terra dividida pela ambição de Famílias Nobres que ambicionam o poder representado pelo Trono de Ferro. No decorrer da intrincada trama, urdida pelo genial autor George R. R. Martin, conhecemos personagens apaixonantes: heroicos, valorosos, repulsivos, amáveis, covardes, determinados, mas acima de tudo humanos.

Um dos grandes méritos da Saga é tratar de personagens perfeitamente reais, ainda que habitem um mundo fictício.

A obra de Martin não por acaso é apontada como um novo clássico que conquista fãs e seguidores a cada dia. O autor já foi chamado até de o novo Tolkien, tamanho o impacto de sua obra na literatura de fantasia mundial. A riqueza de detalhes quando ele descreve os personagens, suas ações, seus objetivos e desejos mais íntimos, é simplesmente fantástica. As guerras, o cotidiano e a vida em Westeros também é tratada em detalhes e o leitor vai aos poucos aprendendo sobre sua conturbada história.

Martin sempre deixou claro que "A Game of Thrones" é uma síntese de tudo aquilo que ele leu e absorveu ao longo de sua vida e que as inspirações para compor sua terra fantástica vieram  de inúmeras fontes desde as mais óbvias como J.R.R. Tolkien, Robert Jordan, Robert Heinlein, passando por Jack Vance, Robert E. Howard e é claro H.P. Lovecraft.

O verdadeiro Lorde de Westeros
"H.P. Lovecraft teve um grande impacto em mim a certa altura da minha vida. Suas estórias e contos me deixavam apavorado". comentou Martin em uma entrevista alguns anos atrás.

Mais recentemente ele respondeu a uma pergunta sobre os autores que mais o inspiraram:

"Eu sempre amei Lovecraft, quando era mais jovem eu era doido por seus contos. Ele era sem dúvida um dos meus escritores favoritos, quando eu estava no segundo grau. Eu lia tudo dele, tudo em que conseguia colocar as mãos. Ocasionalmente eu cheguei a escrever alguma coisa baseada em sua obra. Há um personagem em meu romance Wild Cards, que é assombrado por pesadelos envolvendo as criaturas do Mythos. Eu escrevi uma série de pesadelos, que são a minha melhor imitação de Lovecraft. Não tenho certeza se me sai bem, mas tentei fazer o meu melhor para capturar o tom das estórias dele".


Procurando na obra mais conhecida de Martin, justamente Game of Thrones, não é difícil encontrar certos acenos a obra de Lovecraft, que o próprio autor reconheceu como sendo propositais. Uma espécie de homenagem, assim como ele rende pequenos tributos a outros autores que o influenciaram.

A mais clara dessas homenagens é sem dúvida a mitologia que cerca o "Deus Afogado".

Essa divindade das Ilhas de Ferro é reverenciada em um tipo de religião severa e brutal, adequada ao estilo de vida austero desse povo. Na história de Game of Thrones, os Andalos, o povo que invadiu Westeros, forçou os primeiros homens a adotar as suas tradições, entre elas a crença nos Sete, mas os ândalos que tomaram as Ilhas de Ferro, acabaram ao invés disso sendo convertidos a crença local. De acordo com as crenças do povo das Ilhas, o Deus da Tempestade uma divindade maligna lançou o Deus Afogado nas profundezas e o sepultou abaixo da superfície. Ele vive desde então no fundo do mar e é para lá que migram as almas dos mortos que acreditam nele. Os homens das ilhas não temem morrer afogados em alto mar, seu mantra religioso é "O que está morto não pode morrer, mas volta a erguer-se, mais duro e mais forte." (What is dead can never die, but rises again, harder and stronger.)

Em um dos rituais mais importantes, os seguidores do Deus Afogado tem a sua cabeça imersa em uma bacia de água salgada até quase a morte, e trazidos de volta no último instante como sinal de renascimento. Os devotos acreditam ainda em sacrifícios e costumavam executar seus inimigos lançando-os no mar presos a ferros.    

Um cultista do Deus Afogado
George R. R. Martin revelou que "O Deus Afogado" teve como inspiração direta duas entidades marinhas do Mythos, Dagon e o próprio Cthulhu, que ele claramente homenageou ao criar um pequeno verso que sintetiza toda a crença de seus seguidores (similar ao verso: "Não está morto aquele que eternamente pode jazer, e em estranhas eras mesmo a morte pode morrer" que guia os cultistas de Cthulhu).

Alguns leitores apontam ecos lovecraftianos em outra divindade presente na saga de Martin. R'hllor, o Senhor da Luz e Deus da Chama e da Sombra poderia ser encarado como um tipo de Grande Antigo, venerado por sacerdotes (cultistas?) que aprendem inclusive magias e rituais, alguns deles bastante sinistros.

Mas nesse caso específico, Martin situou a divindade como uma espécie de Zoroastrismo, uma crença que surgiu na Pérsia. O aspecto dualista da crença, onde o deus pode ser tanto bom quanto mal (luz e sombra), foi extraído de discursos escritos pelos Cátaros, uma seita medieval europeia que foi declarada herética e aniquilada pelos cruzados Albigenses.

O nome R'hllor no entanto é puro Lovecraft, como reconhece o autor. Parece algo extraído de um compêndio sobre deuses e criaturas do Mythos. E não é apenas isso... os seguidores do Senhor da Luz são inimigos de uma outra crença, essa sim, totalmente baseada no Mythos, o Black Goat (a Cabra Negra) de Qohor, uma divindade obscura de fecundidade e uma das formas do "Deus de Muitas Faces", uma entidade que assume aspectos diferentes para cada povo. É essa Black Goat a deusa da fecundidade citada pelo eunuco Varys como possuidora de dezesseis tetas que alimentam seus muitos filhotes.

Ora, os fãs de Lovecraft sabem muito bem que a deusa Shub-Niggurath, umas das mais importantes do Mythos, dedicada a fecundidade, é chamada exatamente de Black Goat in the Woods (A Cabra Negra da Floresta) e que ela possui inúmeros "filhos". Da mesma forma, "Deus de Muitas Faces" está bem próximo de definir uma das características centrais de Nyarlathotep (o Deus das Máscaras, cujos avatares se espalham pelo mundo, sendo venerados em cada lugar em uma forma diferente). "Um único deus, sob muitos disfarces".

 Em nenhum dos casos, a semelhança de nome e do conceito, são mera coincidência.

Outro claro aceno a mitologia Lovecraftiana é passagem de Aria Stark pela terra de Braavos em "A Dança dos Dragões" quando ela tem um breve contato e fica sabendo da existência de inúmeras entidades obscuras. A Ilha dos Deuses, segundo o livro é um local onde todos os deuses são honrados pelo povo de Braavos, e muitas dessas divindades tem clara inspiração no Mythos.

E se não bastasse George R. R. Martin ser um senhor tão legal e cordial, que escreveu uma saga incrível, ele ainda é um jogador veterano de RPG há mais de 30 anos... mas essa é outra estória.