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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Morte Silenciosa - Os Venenos e Toxinas mais famosas da história


Uma vez que as pessoas descobriram que era possível matar umas às outras discretamente usando substâncias tóxicas ao invés da violência, o proverbial ovo da serpente foi chocado. Venenos se tornaram uma arma letal usada com astúcia por assassinos com o intuito de eliminar desafetos, para cumprir contratos de morte e garantir o desaparecimento de oponentes. 

Para o bem ou para o mal, os venenos fazem parte da história humana e nos acompanham literalmente desde que nasceram as intrigas. Em tempos bíblicos, venenos já eram usados para matar reis. Provadores de comida e de vinho tinham um trabalho bastante perigoso. Na Roma e na Grécia, o veneno era empregado tanto por senadores e nobres quanto por concubinas e escravos. Na Idade Média, os venenos se tornaram uma maneira rápida de se livrar de oponentes políticos sem levantar suspeitas. Lucrécia Bórgia se tornou notável pelo seu uso. Em meio a intrigas palacianas, o veneno foi proeminente entre nobres e plebeus que mataram e morreram na Revolução Francesa. Venenos e toxinas se tornaram a arma preferida dos espiões, dos dissimulados e dos covardes que não se importavam com honra ou bravura.   

Em tempos mais recentes as pessoas começaram a compreender como funcionavam os venenos e passaram a desconfiar de seu uso sempre que certas circunstâncias surgiam. Alguns venenos se tornaram pouco práticos e acabaram saindo de moda, mas eles ainda são usados e despertam um misto de medo e horror. 


Substâncias Clássicas: Cicuta e Acônito

Vamos começar pelos Clássicos. Quando as pessoas não sabiam a quem recorrer para se livrar de um problema, a cicuta oferecia uma opção mortal. Ela é famosa por ter sido o veneno usado pelo Filósofo Sócrates que bebeu uma dose letal para cometer suicídio. A morte provocada por cicuta não era uma particularmente agradável. Cronistas do período afirmavam que se tratava de uma morte tranquila, apenas uma leve sensação de sonolência, um leve torpor e tudo estava acabado. Infelizmente não é bem assim! Cicuta age como uma substância paralisante que preserva a mente desperta. Ele atinge os músculos e então começa a atingir o sistema respiratório. A morte vem através de asfixia, e o indivíduo permanece consciente até o fim. Sua respiração vai diminuindo até a falência completa.

Acônitos é um veneno natural extraído de uma planta conhecida como capuz de monge. Ele também é conhecido por ter feito uma vítima famosa: o Imperador Claudius teria sido envenenado por sua esposa que colocou acônito em um prato de cogumelos. Acônito também se tornou conhecido como o "veneno das sogras", talvez por que na Roma antiga ele tenha sido usado mais de uma vez para eliminar genros ou noras problemáticos.

A planta do Acônito
As vítimas de acônito também não partem de maneira silenciosa. Os primeiros efeitos da toxina incluem ânsia de vômito e diarreia severa. O organismo da vítima tenta a todo custo expelir a substância que o arruína por dentro. Mas não há como sobreviver a essa exposição. O veneno causa uma arritmia na função cardíaca que vai se intensificando até o coração literalmente não suportar o esforço. O resultado é um ataque cardíaco fulminante. 
     
Cicuta e acônito eram os venenos favoritos dos gregos e romanos. Contudo, eles raramente usavam esses venenos em sua forma natural, ao invés disso, procuravam mascará-lo na carne de cotovias, que segundo alguns disfarçava o gosto. Vinhos fortes também podiam receber uma pequena quantidade de cicuta que os envenenadores dosavam lentamente para que os efeitos fossem disfarçados. Um assassino talentoso podia matar sua vítima sem que essa sentisse nada além de um mal estar confundido com indigestão. Pequenas doses também podias ser colocadas em poços ou cisternas, matando além da vítima desejada todos os habitantes de uma casa. Manipulado cuidadosamente, esses venenos podiam ser indetectáveis. 

Por que esses povos gostavam tanto de usar essas plantas? Bem, primeiro porque era fácil ter acesso a elas. Os médicos da época utilizavam e prescreviam as duas substâncias para uma série de tratamentos comuns, sempre com o alerta de que uma grande quantidade podia ser letal. Cicuta era administrado para espasmos musculares e como um calmante eficiente. Acônito servia para o tratamento de dores de cabeça e para febres. Eles também eram bastante baratos e fáceis de encontrar em boticários do período. De fato, mesmo que a pessoa vivesse no campo, não era difícil encontrar as plantas na natureza e prepará-las para serem usadas como veneno.

Cicuta em espécie
Meticulosos como podem parecer, envenenadores por vezes usam aquilo que está mais à mão quando precisam matar alguém. Um método muito usado por assassinos era fazer com que as pessoas acreditassem que uma morte havia sido acidental. Uma vez que ambas as substâncias estavam na despensa de qualquer pessoa, era perfeitamente natural que acidentes acontecessem. Um descuido numa medida podia levar à morte. E de fato, mortes acidentais por dosagens erradas aconteciam. Um truque usado por envenenadores era substituir uma dosagem prescrita por um boticário por uma mais forte que levava invariavelmente à morte. Por essa razão, venenos eram sempre mantidos em compartimentos trancados. Nobres e pessoas importantes contavam com seu próprio boticário que preparava as dosagens adequadas no momento de usar.  

Os venenos clássicos começaram a ser preteridos quando os efeitos deles se tornaram muito conhecidos. Logo, médicos eram capazes de diagnosticar o que acometia uma pessoa envenenada apenas observando os efeitos. É claro, com a prática vieram aos métodos de tratar e evitar a morte. Além disso, antídotos começaram a se tornar difundidos e indivíduos que se preocupavam com sua própria segurança, passaram a ter ao seu alcance contra-medidas para uma emergência. É claro, o fato dessas civilizações serem tão cosmopolitas, permitiu a introdução de toxinas trazidas de terras distantes que gradualmente substituíram os venenos clássicos.

Por vezes, cicuta e acônito aparecem como opções para envenenadores, mas como muitos deles descobriram os médicos passaram a identificar e tratar essas substâncias com grande nível de sucesso. Ao que parece, ser um envenenador demanda estar em sintonia com as novidades.  

Venefício Medieval: Beladona e Mandrágora


Belladonna
Beladona ganhou seu nome por ser uma substância utilizada por mulheres que a passavam sob os olhos. Tanto as camponesas quanto as nobres se impressionavam com o fato daquela substância deixar as pupilas dilatadas e os olhos brilhantes, por isso seu nome sugestivo. Ela tembém podia ser usada para passar nas bochechas fazendo com que os vasos sanguíneos se dilatassem criando um rubor desejável. Homens e mulheres adoravam aquilo e logo beladona se tornou uma febre na Europa Medieval.

Mercadores italianos foram os primeiros a descobrir o atrativo da substância para o público feminino, embora aquelas que abusavam do cosmético ganhavam mais do que uma aparência angelical. Beladona foi proibida em várias partes da Europa, considerada perigosa e vã, mas coo sempre, a proibição apenas a tornou mais desejada. Algumas mulheres pagavam verdadeiras fortunas por um pouco de beladona e a raridade da substância acabava tornando-a ainda mais perigosa.

Alguns acreditam que a Beladona foi usada para matar ao menos um papa. Outros dizemq ue Macbeth usou Beladona para assassinar um exército inimigo. Ela se notabilizou como o veneno ideal para assassinas que a utilizavam da maneira mais dissimulada: tornavam-se imunes - ou ao menos resistentes aos seus efeitos pelo uso prolongado, e passavam uma quantidade na face ou nos lábios para que esta fosse transferida para seus amantes. Algumas assassinas especialmente criativas podiam aspergir uma pequena quantidade em partes estratégicas de seu corpo, sobretudo aquelas que teriam contato íntimo com a vítima.

Um de seus usos mais frequentes era como alucinógeno. Segundo o folclore ocidental, as bruxas utilizavam pequenas quantidades em seus sabás e tinham uma sensação de flutuar ou mesmo voar. Em outras ocasiões, sob influência de beladona as mulheres viam figuras sinistras, demônios e diabretes saindo de fogueiras ou do interior de caldeirões. Sob a ação dessas alucinações afirmavam ouvir vozes, falar com seres sobrenaturais e se sentiam imunes ao fogo. Não é de se estranhar que muitas que confessavam essas alucinações, acabavam sendo chamadas de bruxas.

Infelizmente a beladona era uma substância extremamente perigosa. Quando uma dose muito grande é consumida - e uma dose grande demais podia ser apenas uma folha, as pessoas sentiam sua ação quase imediatamente. Efeitos comuns incluem náusea, alucinações sensoriais, suor, salivação, pulsação descompassada e arrepios. Por fim, ela provoca hemorragias, cegueira e taquicardia, a morte vinha logo em seguida.

Mandrágora
Já o uso de Mandrágora se tornou difundido na Europa a partir do século XIII, até então ela estava confinada na região onde o tipo mais potente crescia, Espanha e Portugal. Por muito tempo, Mandrágora foi conhecida como um veneno ibérico e seus utilizadores quase todos vinham dessa parte do continente. 

A Mandrágora Ibérica produz um tipo de fruto comestível muito apreciado para produzir licor, já a raiz, não deve ser consumida. Em estado natural ela já é suficientemente perigosa. Por muito tempo a raiz devidamente tratada foi usada para se livrar de verrugas ou para induzir o vômito quando diluída em água. 

Envenenadores ferviam a raiz produzindo uma bebida perigosa, mas o verdadeiro especialista sabia como tratar o resíduo, secar e produzir uma poeira que potencializava a toxidade da substância. Com isso, a Mandrágora podia ser usada para batizar bebidas, em especial alcoólicas já que ela tinha um sabor agradável ou para dispor sobre alimentos. Nobres podiam ser mortos por uma pequena quantidade de poeira misturada com açúcar, por exemplo. Já camponeses podiam ser envenenados com uma pequena quantidade misturada em seu mingau. 

Quando envenenadores da Europa souberam dos efeitos da Mandrágora a planta foi levada para outras paragens e se tornou bastante difundida na Inglaterra, França e Itália. A raiz foi responsável por renovar toda uma cultura de venefício na Europa. O efeito mais danoso da Mandrágora atua sobre os rins, produzindo uma falência múltipla. A vítima sofre uma morte lenta e dolorosa.   

Mandrágora e Beladona foram usados amplamente até que seus efeitos se tornaram bastante conhecidos entre médicos que podiam identificar facilmente seus efeitos nos pacientes. Com o devido tempo de resposta e o antídoto adequado, a vítima podia ser poupada do pior. A medida que as populações começaram a se deslocar para cidades, tornou-se mais difícil colocar as mãos em Mandrágora da espécie correta ou manter um arbusto de beladona em segredo.

Lucrécia Bórgia que ganhou fama como a maior envenenadora de sua época.
Para aqueles que estão sentindo falta de Digitális, um dos venenos mais conhecidos da literatura medieval, aqui vai uma revelação. Nem de longe ele era tão difundido quanto se imagina, em parte por não ser também muito letal. Envenenadores recorrendo a essa planta tinham que saber como destilar a substância o que demorava e precisavam balancear a fórmula para que ela adquirisse a toxidade desejada. 

Digitalis também era bastante rara de obter e exalava um cheiro característico desagradável que a denunciava. Outro problema é que ela era pouco eficiente, muitas vezes, a vítima sentia os efeitos mas se recuperava após vomitar eliminando assim o perigo. Isso não impediu que digitalis ganhasse uma sinistra fama de ser um veneno empregado para matar crianças, bem mais suscetíveis aos seus efeitos danosos. 

Toxinas Industriais: Cianeto, Estricnina e Arsênico   



Pode parecer absurdo, mas cianeto está em todo canto. Ele é usado como conservante na maioria das comidas que ingerimos. Ele está presente também em muitos produtos químicos que utilizamos no dia a dia. Embora substâncias contendo traços de cianeto possam ser traçadas ao longo da história, não foi antes de 1782, quando um químico sueco chamado Scheele destilou hidrogênio cianídrico, que seu potencial tóxico foi compreendido. Ele foi usado primeiro em tinturas e pigmentos muito apreciados pela sua coloração azulada (daí o nome "ciano"). Infelizmente logo descobriu-se que pessoas que usavam essa substância terminavam envenenadas e muitas morriam - geralmente de forma rápida.

Militares começaram a fazer uso de cianeto ainda nas Guerras Napoleônicas quando a substância era usada em prisioneiros de guerra. Espiões famosos carregavam capsulas de cianeto para serem usadas em caso de captura. Os oficiais nazistas possuíam pílulas semelhantes e muitos dos figurões do alto escalão do Terceiro Reich morreram consumindo uma dose fatal de cianeto. Gangsters em Chicago mergulhavam suas balas em cianeto para torná-las ainda mais mortais. 

Este foi o veneno usado para matar o Monge louco Rasputin - embora ele tenha sobrevivido ao envenenamento e morto de outras formas. A famosa assassina Lizzie Borden poderia te sido condenada se o juri recebesse a informação de que ela estava perguntando à farmacêuticos sobre "Ácido da Prússia" (um dos nomes do veneno). Isso pouco antes da suspeita morte de seu pai e madrasta à machadadas. Há um persistente rumor de que os primeiros astronautas da NASA carregavam duas cápsulas em suas viagens espaciais, para o caso de necessidade.

O cianeto causa inconsciência quase imediata, seguido de convulsões e da impossibilidade da absorção de oxigênio pelas células, o que leva à morte. Uma das características que tornam o cianeto um veneno muito popular entre suicidas é a noção de que ele é relativamente indolor. A inconsciência faz com que os efeitos sejam pouco sentidos e mesmo durante os espasmos finais, a vítima permanece desacordada. Por isso ele tinha o apelido de "sono azulado". 

Cianeto era usado amplamente na medicina até o início do século XX, para dores de cabeça, insônia e distúrbios nervosos. Farmácias vendiam a substância no balcão e raramente se preocupavam em fazer perguntas a respeito de seu uso. Era também um veneno presente em fazendas e áreas rurais, para lidar com pestes típicas do campo. Frascos de Cianeto, na forma de um pó refinado de cor azulada, estavam presentes na maioria dos armários de banheiro, e por algum tempo ele foi uma droga muito popular. 


Estricnina levou algum tempo para chegar ao ocidente. Antes disso, ela era bastante conhecida e usada como veneno (e possivelmente remédio) na China e na India. Por séculos foi utilizada por médicos, farmacêuticos e, é claro, assassinos que se valiam de suas propriedades tóxicas. A substância foi apresentada aos europeus no final de 1700 e estes levaram para o continente mudas da árvore Strychnos nux-vomica de onde ela é extraída.

O preparo do veneno exige uma procedimento bastante complicado de isolamento, destilação e coagem. Mesmo químicos experientes consideram a produção dele - sem equipamento próprio, um grande risco já que sua toxidade é alta. Uma vez pronto ela se tornava um veneno que nas plantações afastava pássaros e nas cidades matava os ratos. Os chineses lançavam a substância nos esgotos para eliminar milhões de ratos o que ajudou a conter pestes e epidemias. 

Estricnina, no entanto, é um veneno potente e bastante cruel. Ele causa espasmos musculares incontroláveis, espuma na boca e severas câimbras, eventualmente vem a asfixia quando os músculos tensionam e se tornam incapazes de permitir a respiração. Não por acaso, estricnina era reservada na India aos traidores, prisioneiros condenados por crimes graves e desertores. Era a morte ideal para dar exemplo e "fazer justiça", tanto que haviam execuções públicas através de envenenamento.

O primeiro caso de envenenamento por estricnina registrado na Inglaterra envolveu o Dr. William Palmer, que assassinou seus credores de jogo em 1856. Mas foi o infame caso de Thomas Neil Cream que tornou o veneno famoso. Cream foi condenado por envenenar várias prostitutas, e se gabava de ter matado mais mulheres do que Jack, o estripador, ao menos até ser capturado e enforcado. Agatha Christie ajudou a popularizar esse veneno em suas histórias, como no famoso mistério "The Mysterious Affair at Styles". Ainda que a morte por estricnina seja rápida e dramática, é difícil os efeitos do veneno não serem identificados por um médico. Isso torna a substância um recurso utilizado por indivíduos que querem vingança e pretendem fazer sua vítima sofrer. Atualmente pequenas quantidades de estricnina são usadas na produção industrial, para tingimento e até para realçar sabores de alimentos. 


E chegamos ao topo de nossa lista com aquele que provavelmente é o veneno mais usado de todos os tempos, o Arsênico. Sem dúvida ele é o que está há mais tempo em atividade. Tecnicamente seu uso pode ser traçado até o tempo dos romanos, tendo sido usado fartamente na antiguidade clássica. Encontrado na natureza na forma de metal, ele é bastante similar ao mercúrio. Nãopor acaso, ele já foi chamado de Rei dos Venenos, e caiu nas graças dos Bórgias, que o tinham como seu instrumento favorito para remover oponentes de seu caminho. Há rumores de que Napoleão, George III e Simon Bolivar teriam sido envenenados com arsênico, bem como um bom número de Prelados, Bispos, Cardeais e, é claro, Pontífices. Arsênico era líquido e certo, uma dose bem calculada matava sem risco e deixando relativamente poucos indícios de sua ação letal. 

Mas foi apenas na Era Victoriana que ele ganhou popularidade. Essa perigosa toxina foi descoberta e usada primeiro como um cosmético que tinha o efeito inverso da beladona, comprimindo as veias e concedendo uma face pálida, branca como a neve. As mulheres aprendiam a respeito das propriedades e perigos do arsênico e carregavam o veneno em pequenos frascos cujo conteúdo era diluído em água quente antes do banho. A substância não deixava gosto, cheiro ou alterava a cor da água. Entretanto, era preciso ter cuidado, alguns poucos grãos poderiam matar e de fato, muitas moças da época morriam para ter a palidez que tanto desejavam.

Não demorou para que muitas mulheres vitorianas descobrissem que a substância poderia ser muito útil. O arsênico se tornou um veneno feminino: as mulheres matavam usando arsênico! Algumas poucos grãos eram o bastante para se livrar de um marido tirânico, de um amante indesejado ou de um déspota cruel. 

O caso mais infame de envenenamento por arsênico aconteceu em 1857 e envolveu Madeleine Smith. Ela era uma dama da sociedade que escolheu o amante errado, um homem que começou a fazer chantagem e exigir uma fortuna para não divulgar cartas comprometedoras. Quando ele ameaçou entregar a correspondência indiscreta ao pai de Madeleine, ela decidiu agir. Convidou o sujeito para um chocolate quente e sem perceber, ele bebeu 17 grãos de arsênico. O único azar de Madeleine é que a polícia realizou uma autópsia e encontrou no estômago do casanova o veneno e em seu bolso uma das cartas indecorosas. Juntando as pistas foi fácil apontar o culpado. Mas surpreendentemente Madeleine acabou inocentada das acusações por uma série de tecnicalidades bem exploradas pelos seus advogados. Depois do julgamento ela imigrou para os Estados Unidos levando consigo a fama de ser uma mulher perigosa - apelidada de Lady Arsenic.

"Arsênico Seguro" para senhoras que querem uma compleição pálida. 
Para ser honesto, não só mulheres faziam uso dele. O explorador britânico Charles Francis Hall, famoso pelo tratamento severo - quase desumano, que reservava aos seus subordinados foi morto por uma dose de 40 grãos colocados em seu café. Os responsáveis? Seus próprios homens irritados com a rotina desumana. Na América ele ganhou fama entre golpistas que atraíam mulheres mais velhas e as eliminavam depois destas os incluírem em testamentos.

O caso Smith e o fato da ciência médica ter avançado a ponto de ser possível contar quantos grãos de arsênico uma vítima havia consumido, um exame chamado Teste Marsh, marcaram o fim de uma era. Ainda assim, o arsênico continuou sendo utilizado, mesmo depois da Era Vitoriana. Até o início do século XX ele era fácil de ser comprado em qualquer farmácia ou boticário, bastava pedir. Seus usos justificavam o fácil comércio, médicos prescreviam para uma infinidade de tratamentos que iam de cólicas, dores crônicas até enjoo matutino causado pela gravidez (!). Os farmacêuticos prescreviam a quantidade mais adequada para cada caso e as pessoas tinham de tomar muito cuidado para não exceder. 

Os efeitos diretos do arsênico incluem suor, confusão mental, severas câimbras musculares e dores de estômago que muitas vezes podiam ser confundidos com indigestão. A medida que o arsênico começou a se popularizar em todos os continentes, nenhum médico, por mais inexperiente seria capaz de deixar de perceber os efeitos e atestar seu uso. 

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Quando o objetivo é matar, a história humana atesta que existe muita criatividade nos métodos e meios empregados pelos envenenadores de plantão.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O Homem mais Perverso do Mundo - Os feitos e tempos do Sr. Crowley


"Por que usar a Magia? Porque simplesmente não há como evitar de usá-la, e se for preciso utilizá-la, melhor saber fazê-lo bem, do que mal". 

Na última hora do dia 12 de outubro de 1875, em Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra, nascia uma das figuras mais fascinantes e controversas do século XX. Edward Alexander Crowley que viria a ser chamado entre outras coisas de "O homem mais perverso do mundo" além de "A Grande Besta".

É difícil medir a importância de Crowley e o legado que ele deixou. Para muitos, ele definiu a figura do ocultista no século XX, para alguns ele foi um gênio, dono de uma personalidade forte e brilhante, que vivia intensamente cada minuto de sua existência. Para outros, não passava de uma fraude, ou pior, de um louco desvairado com ideias perigosas.

A infância de Crowley foi marcada por rígidos padrões de comportamento impostos por seus pais, Edward Crowley e Emily Bishop, ativos membros de uma extremada seita Cristã chamada Irmandade de Plymonth. O pai, um rico cervejeiro aposentado, e fanático Irmão de Plymonth, fazia com que Crowley, ainda criança, frequentasse a congregação, forçando-o a realizar diversas leituras da Bíblia Cristã e acostumando-o à vida religiosa da Irmandade. Este fato, muito embora viesse ser de grande valia bem mais tarde, quando da compreensão dos Mistérios com os quais esteve em contato, naquele momento apenas fez nascer na criança, uma intensa repulsa quanto a dogmas religiosos, sobretudo os de natureza cristã. 

Em 1886, com o falecimento de seu pai, Crowley herdou uma boa fortuna e ficou sob os cuidados de seu tio e tutor Tom Bishop. Tamanha era a crueldade de seu tio, que Crowley se referia a este período de sua vida como "A Infância no Inferno".


Chegando a adolescência ele partiu em busca de novos horizontes que acabaram por conduzi-lo ao alpinismo. Foi um praticante desse esporte, chegando a destacar-se, sendo reconhecido como um atleta de alto nível, corajoso e audacioso. Sua carreira de alpinista chegou ao ápice nos anos de 1902 e 1905, quando participou das primeiras tentativas de escalada do Chogo Ri (K2) e do Kanchenchunga, duas das maiores montanhas do mundo, situadas no Himalaia. Crowley era teimoso e não se rendia diante dos desafios, em certa ocasião partiu sozinho para a tomada de um cume, mesmo diante de tempestade e da baixa visibilidade.

Antes porém, destacou-se em várias disciplinas acadêmicas no conceituado Trinity College, em Cambridge, onde ficou no período de 1895 a 1898. Nesta época, Crowley, leitor voraz, estudou intensamente, tomando contato com o que de importante havia na literatura inglesa, francesa, além de diversas outras obras em Latim e Grego clássicos, inclusive filosofia e alquimia; se dedicou a canoagem, ciclismo, montanhismo e xadrez. Praticando o montanhismo, Crowley viria a conhecer um homem o qual passou a admirar profundamente: Oscar Eckenstein. Eckenstein, que, segundo Crowley, era um singular exemplo de dignidade e nobreza, ensinou-lhe, alpinismo. Alguns anos mais tarde, ele demonstraria que seus conhecimentos não se limitavam apenas à conquista de elevadas montanhas e se tornaria um de seus tutores no estudo do ocultismo.

Em Cambridge, seu espírito, como era bem próprio à natureza da Besta, ansiando por um volume maior de conhecimento e aventuras, encontrava-se perturbado com a perspectiva futura. Crowley repudiava ter que se conformar com um trabalho, uma esposa e um papel social definido. Em 1898, pouco antes de sua graduação, abandonou os estudos para se dedicar a algo incomum para um estudante. Crowley havia iniciado a leitura de livros sobre magia e misticismo e se mostrou fascinado pelo tema. Algo começava a tomar forma em seu ser; porém a leitura de Nuvem sobre o Santuário, obra lhe recomendada por A. E. Waite (1867-1940), é que faz com que Crowley decidisse dedicar sua vida ao estudo do Ocultismo e da Magia, empenhando-se com afinco no sentido de encontrar a Grande Fraternidade, uma noção de completude espiritual.

Em 1898, através de dois amigos, Crowley foi apresentado a Samuel Liddell "MacGregor" Mathers, um dos líderes da Ordem Hermética da Aurora Dourada (The Hermetic Order of the Golden Dawn), uma das mais influentes Ordens Místicas do século XIX, que proporcionou a ele sua primeva Iniciação e o contato com os mistérios mágicos que tanto procurava.

A Aurora Dourada fora fundada pelo próprio Mathers, junto com William Winn Westcott e William Robert Woodman em 1887. Segundo seus fundadores, a existência da Ordem era voltada à orientação e aos Conselhos de uma alta iniciada alemã chamada Anna Sprengel, que autorizara a abertura de uma Loja na Inglaterra que representasse a suposta Ordem a qual ela pertencia. A Golden Dawn foi uma das mais importantes sociedades criadas pelo espírito humano, conseguindo reunir em seu corpo de iniciados a nata da intelectualidade britânica e européia da época. Seus membros eram pessoas que buscavam compreender o chamado mundo invisível, partilhar informações e se aperfeiçoar constantemente. Entre seus membros mais famosos, encontravam-se nomes como o prêmio Nobel de Literatura em 1923, Willian Butler Yeats, além dos famosos escritores Gustav Meyrink, Florence Farr, A. E. Waite, Sax Homer, F. L. Gardner e Arthur Machen.

Crowley, iniciado por Mathers em novembro de 1898, ao Grau de Neófito, tomava, como Mote Mágico (um tipo de alcunha), o significativo nome de Perdurabo (eu perdurarei até o fim), começando assim, seus estudos formais na Golden Dawn. Por volta de dezembro, Crowley atinge o Grau de Zelator, sendo o aluno que progrediu mais rápido na Ordem desde sua criação.


Sua capacidade de assimilação de conhecimentos e sua dedicação ao estudo e a prática do Ocultismo o conduziram, também sob a instrução de Allan Bennett, a uma ascensão meteórica nos Graus da Golden Dawn; assim, respectivamente em janeiro, fevereiro e maio do ano seguinte, em 1899, Crowley galgou outros três degraus. Bennett, considerado por Crowley um autêntico Guru, o ensinou várias trilhas mágicas oferecidas pela Ordem. Abriu um leque de conhecimentos que incluíam entre outras coisas a Cabala, a Magia Cerimonial, Consagração de Talismãs, Evocação de Espíritos e muitos outras técnicas.

Este período de sua vida foi fortemente marcado por duas atividades principais. Quando Frater Perdurabo não estava estudando ou praticando, Crowley, sob o pseudônimo de Conde Vladmir Svareff escrevia obras de poesia e pornografia extremamente chocantes para o período. Também cultivava uma intensa vida sexual, a qual escandalizou alguns membros mais rígidos da Golden Dawn. Sua atividade principal, no entanto, continuava a ser a o estudo e prática da Magia na qual ele prosseguia fazendo avanços significativos.

Entretanto, Crowley àquela altura já havia colecionado uma série de desafetos dentro da Ordem, muitos deles pelas suas proezas escandalosas e língua ferina, outros pelos ciúmes e inveja. Alguns iniciados que tiveram um progresso mais lento reclamavam de favoritismo a respeito de Crowley, chegavam a levantar a suspeita de que ele chantageava ou subornava alguns de seus instrutores. Apesar de Crowley demonstrar plena capacidade e vasto talento, sua iniciação ao Círculo Interno foi negada pelos chefes da seção inglesa da Golden Dawn. Nesta época, Mathers, agora único líder da Ordem, residia em Paris e tentava contemporizar a situação geral. Contrariando a opinião dos líderes londrinos, Mathers, fazendo valer sua autoridade, acabou iniciando Crowley no Grau de Adepto. Alguns estudiosos da Ordem identificam aqui o momento em que se inicia a ruína da Golden Dawn.


Pouco antes de sua iniciação, o grande amigo e Instrutor de Crowley, Allan Bennett, decidira partir para o oriente e tornar-se monge Budista. Crowley perdia assim um de seus aliados mais poderosos acabando isolado na Sede londrina da Golden Dawn. A insatisfação dos membros com Mathers já existia, mas o "Caso Crowley" serviu como estopim para o grupo liderado por Yeats, declarar-se independente de seu líder.

O que se seguiu resultou em um período com histórias fantásticas de ataques mágicos envolvendo Crowley e Yeats e, é claro, rumores a respeito de rituais e energias místicas sendo canalizadas entre os dois com o objetivo de ferir e até de matar. A Guerra Mística de Londres, nas ruínas da Golden Dawn, atingiu um nível tal que, dizem, até demônios foam invocados, magia negra empregada e pactos com as trevas firmados.

O próprio Mathers e outros membros conceituados assumiram seus lados na disputa. No fim, Crowley e Mathers ficaram sozinhos, em parte porque a fama de Crowley como feiticeiro afastava até mesmo seus aliados. Logo, a outrora grande Golden Dawn, agora conduzida pelos Novos Chefes, foi progressivamente implodindo e se esfacelando em um sem número de Ordens Cristianizadas, a maioria sem a importância que um dia a Sociedade deteve.

Crowley, sentia que a Era de Ouro das Ordens Herméticas na Europa havia chegado ao fim.


Com efeito, decidiu partir para o Novo Mundo, Canadá, América e depois para o México com o intuito de estudar outras tradições místicas e conhecer seus praticantes mais famosos. A estadia no México constituiu um período bem produtivo. Além de redigir Tannhauser, tratado místico escrito em ininterruptas 67 horas, esse período na América Central representou uma decisiva conquista para o magista que se formava. Ele foi apresentado a Don Jesus Medina, um dos altos chefes da Maçonaria local. Crowley afirmava ter galgado os níveis Maçônicos, alcançando, o mais alto Grau. É possível que ele estivesse, no entanto, apenas se gabando, pois ele jamais foi considerado um Maçom regular.

Após algum tempo viajando e testando seus novos conhecimentos, ele decidiu que era o momento de empreender uma nova viagem ao oriente com o propósito de encontrar Bennett, seu antigo instrutor no Ceilão. Antes, entretanto, realizou uma aventura de alpinismo, com a escalada do K2, no Himalaia, realizada na primavera de 1902. 

Bennett, que havia adotado o nome Bhikku Ananda Meteya, recebeu Crowley e deu início a instrução das disciplinas da meditação transcendental e do ioga. No outono, após a expedição ao K2, ele regressa a Paris. Um novo encontro com Mathers o decepciona a tal ponto que só lhe resta a boêmia vida parisiense. Ele se entrega aos prazeres da Cidade Luz e vaga pelas ruas, cafés e pelo submundo testando os conhecimentos a respeito de sexo tântrico obtidos no oriente.

Nesse meio tempo, formaliza a compra de uma grandiosa propriedade chamada Boleskine, nas proximidades do Lago Ness, na Escócia. Lá realiza um Ritual Enoquiano que visava revelar seu "anjo da guarda", experiência que dá terrivelmente errado e que segundo rumores faz com que ele seja amaldiçoado. Em 1903, buscando algo suficientemente prosaico para si, intitula-se Lorde Boleskine e passa a se apresentar como um herdeiro de clã escocês. Em agosto, casa-se com Rose Kelly, sua primeira esposa.


No ano seguinte revelaria a Crowley o mistério que o acompanharia até seu último momento: A criação da Lei de Thelema. 

Casado com Rose Kelly, de acordo com Crowley, "uma da mais brilhantes e inteligentes mulheres do mundo", viaja pela Europa e Egito. Conforme seus relatos, enquanto estavam no Cairo, após uma série de Rituais e Invocações, um ser sobrenatural, identificado como Aiwass, o Mensageiro de Hórus, surge com o propósito de transmitir a Crowley, o Liber Al vel Legis ou, como passaria a ser conhecido, O Livro da Lei. O livro proclamava que a humanidade estava entrando em uma Nova Era, e que Crowley serviria como Profeta destes novos tempos transmitindo as Leis. Afirmava que uma lei moral suprema deveria ser introduzida: "Faze o que queres, há de ser o todo da Lei". Este livro, e a filosofia que apresentava, tornaram-se a pedra angular da religião de Crowley, Thelema.
Crowley imediatamente expôs sua consecução mágica a Mathers, revelando ter, finalmente, feito contato com os Misteriosos Mestres Secretos que tanto havia procurado. Como de costume, Mathers não aceita a revelação e consequentemente, o mundo do esoterismo novamente é palco de ataques mágicos de Mathers a Crowley e vice-versa. A disputa de egos e de feitiços entre os dois é assunto de muita discussão. Mas o incontestável fato é que isso representaria o fim da convivência entre os dois magos e o início de um amargo ressentimento.

Em 1905, cansado das rivalidades com outros ocultistas, ele decide partir em mais uma expedição ao Himalaia. Desta vez o alvo é o Kanchenchunga, uma das montanhas mais traiçoeiras do mudo. Desentendimentos entre os membros da expedição travaram o avanço para o topo e Crowley acaba abandonado pelos seus colegas que desistem da escalada. Ele decide retornar à Índia onde tem experiências com ópio e outras drogas que passam a fazer parte de sua vida dali em diante. Sob o efeito de drogas ele afirma atingir novos estados de consciência e saber. 

Após sua passagem pelo oriente, ele retorna a Inglaterra em 1907 com o intuito de fundar a Argenteum Astrum (Estrela Argêntea), uma Ordem de cunho místico que substituiria a Golden Dawn de uma vez por todas, tornando-se a Sociedade Hermética mais importante de todos os tempos. A ambição de Crowley era que a A.A. tivesse a mesma influência que a Golden Dawn havia tido, congregando ocultistas, pensadores e intelectuais em suas fileiras.

No período de 1907-1911, Crowley, dedicando seu tempo ao estudo, a prática e a escrita, publicaria cerca de uma dúzia de livros de cunho poético-mágico. Cumprindo as formalidades de sua própria Ordem, ele ascende rapidamente nos graus da Argenteum Astrum, tornando-se em pouco tempo um Mestre. Mas na esfera pessoal, as coisas não estavam tão boas, após a trágica morte de sua filha, Lilith, em 1906, ele se separa de sua esposa, Rose Kelly.

Em 1911 Crowley escreve Liber CCCXXXIII, O Falsamente chamado Livro das Mentiras. Antes porém, outro acontecimento daria um rumo diferente na sua vida. Crowley chama a atenção de Theodor Reuss, um membro do serviço secreto germânico, ocultista, artista e falso maçom, então líder de uma Ordem com sede na Alemanha chamada Ordo Templi Orientis, a O.T.O. Reuss, identificara segredos centrais da filosofia seguida pela O.T.O. na obra de Crowley. 

A O.T.O. era uma organização de cunho maçônico, místico e mágico, fundada por Karl Kellner, em 1902. Kellner, segundo a lenda, teria viajado pelo oriente onde havia sido iniciado por um faquir árabe, chamado Solimam ben Aifha, e yoguis hindus, recebendo os mistérios da Filosofia e do Yoga da Mão Esquerda, a Magia Sexual (tântrica). A O.T.O., assim como muitas outras das assim chamadas Ordens Templárias, reivindica exclusivamente para si a detenção do conhecimento pertencido pelos legendários Cavaleiros do Templo. A O.T.O., de acordo com a sua muito questionável história oficial, assim como ocorreu com a Golden Dawn, afirmava ter reunido entre seus Adeptos vários eminentes ocultistas da época. A título de exemplo temos o famoso ocultista, Rudolf Steiner; o teosofista, Franz Hartmann; o emérito Rosa-cruz, Krumm-Heller; o "pai" da Wicca, Gerald Gardner e o alegado herdeiro místico do próprio Crowley, Kenneth Grant.

Conforme dito por Crowley, seu bizarro primeiro encontro com Reuss, marcaria o destino da Ordem alemã. Crowley, explicou a Reuss que seu saber teria sido obtido durante sua viagem pelo Oriente. Nesta época, Reuss, desejoso de ver sua Ordem expandida pela Europa, conferia a ocultistas importantes títulos honoríficos. Ele decidiu então, nomear Crowley Líder da O.T.O. nos países de língua Inglesa. Essa tarefa foi exercida por Crowley através da alcunha Baphomet.


Crowley passaria a escrever (e também reescrever) os Rituais da Ordem. sob a luz de seu Liber Legis fundindo assim a doutrina da Thelema e a O.T.O. Isso deu origem ao seu famoso livro "Magia em Teoria e Prática" (conhecido por "Magick") um complexo tratado sobre Magia e sua realização. Ele passa a chamar a si mesmo de 666, e de se intitular "a Grande Besta".

Um de seus mais curiosos feitos, teve lugar com a fundação, em 1920, da Abadia de Thelema, em Cefalu, Sicília, Itália. A Abadia funcionou até 1923, quando uma sucessão de escândalos e rumores a respeito de atividades sexuais, perversidade e uso de drogas, no interior da abadia chegaram aos ouvidos do governo italiano. A gota d'água foi a morte de Raul Loveday um dos membros da Abadia, morto após uma infecção. Crowley acaba expulso da Itália por ordem do Ditador Benito Mussolini que se diz ultrajado pela presença do mago. 

Em 1925 Theodor Reuss falece. Crowley é convocado para uma reunião internacional da O.T.O., onde os rumos da Ordem seriam traçados. A Besta é "convidada" a se tornar o Chefe Internacional da Ordo Templi Orientis. Aceita e assume o nome de "Deus est Homo". 

Durante os anos seguintes, Crowley viveu alternadamente na França, Alemanha e Norte da África. A publicação de suas "Confissões", uma espécie de biografia de próprio punho, proporcionou a Crowley enorme notoriedade e infâmia onde quer que seu livro fosse publicado. Ele passa a ser atacado pela imprensa que o rotula com o título "homem mais perverso do mundo". Jornais se referem a ele como um degenerado, um lunático e um decadente viciado em drogas. A exposição pública é arrasadora e ele acaba expulso da França em 1929 sob acusação de ser espião alemão. Crowley retorna à Inglaterra mas fica pouco tempo em seu país natal, ele decide se estabelecer em Berlin onde continua a escrever seus tratados esotéricos, confraternizando com dissidentes políticos, intelectuais e outros indesejados pelo Governo Nazista que estava em formação. Quando Hitler ascende ao poder a O.T.O. é banida e Crowley decide partir da Alemanha prevendo que a Guerra está próxima.


Com o início da Segunda Guerra Mundial, ele se apresenta para o Departamento de Defesa da Grã-Bretanha, afirmando que sua consultoria em assuntos esotéricos poderia ser essencial no esforço de guerra. Segundo Crowley, os nazistas possuíam um corpo de ocultistas trabalhando nos bastidores da Guerra para favorecê-los no campo místico e assim garantir um trunfo nos rumos do conflito mundial. Crowley contava ter sido contratado pelo Governo Britânico como conselheiro em assuntos esotéricos, tendo realizado vários rituais para contra-atacar os místicos à serviço dos nazistas e proteger a Inglaterra de uma invasão no campo mágico. Nos dias da Guerra ele teve de se mudar constantemente de casa, temeroso dos bombardeiros e da proximidade do conflito.

Seus últimos anos foram vividos em Hastings, onde uma série de novos discípulos continuavam a visitá-lo, recebendo instruções. Kenneth Grant, John Symonds, Grady McMurty, visitavam a casa e nessas ocasiões eram instruídos a respeito do futuro da Thelema quando a Besta não mais estivesse entre eles. Sua preocupação era que seus ensinamentos sobrevivessem a ele mesmo e que continuassem a ser difundidos. 

No primeiro dia de dezembro de 1947, aos 72 anos, Aleister Crowley, serenamente para alguns, exultante segundo outros, e espantado, conforme terceiros, faleceu, vítima de bronquite crônica e complicações cardíacas. Os anos de exageros, o uso contínuo de drogas e seu estilo de vida desregrado arruinaram seu corpo de tal maneira que ele não conseguiu se recuperar. Ele teria aberto seus olhos quando todos julgavam que ele já estava morto e proferido a frase "Estou perplexo!" antes de sucumbir em definitivo. Alguns acreditam que suas palavras finais foram decorrentes do que ele vislumbrou do pós-vida. 

Quatro dias depois, no crematório de Brighton, assistido por um reduzido número de admiradores e discípulos, foi realizada a cerimônia que ficou conhecida como "O Último Ritual", com a leitura de trechos da Missa Gnóstica e do Hino a Pã. Alguns jornais estamparam manchetes escandalosas afirmando que uma Missa Negra havia sido conduzida, mesmo depois de morto, ele continuava a causar polêmica. 


Aleister Crowley entrou para a história como o mais conhecido e influente ocultista e místico dos tempos modernos. Seus admiradores viam nele uma espécie de profeta da Nova Era, cujos objetivos eram causar um despertar espiritual em toda humanidade. Seus detratores o denunciavam como satanista e egocêntrico. Crowley provavelmente era um pouco de cada coisa, e muito mais. 

Sua mensagem encontrou ouvidos em diferentes grupos, ele foi citado e debatido exaustivamente, nos anos 1960, suas palavras tornaram-se a base para um ressurgimento de Ordens Místicas que resultaram em Seitas como a Igreja de Satã e até a Cientologia. O mundo do Rock rendeu a ele homenagens e até louvores, dos Beatles até Ozzy Osbourne, passando por Led Zeppelin e até Raul Seixas. Não foram poucos os artistas que o citaram. O mesmo ocorrendo na literatura, no cinema e na televisão. Crowley se tornou pop, uma figura lembrada e comentada mais agora do que em vida. 

Crowley ainda é, para o bem ou para o mal, uma influência marcante em nosso mundo.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Canibais, zumbis e Maldições contra Hitler - A vida no limite de William Seabrook


Em 22 de Janeiro de 1941, um grupo de pessoas se trancou em uma cabana nas florestas do estado norte-americano de Maryland com uma importante missão: eles tentariam matar Adolf Hitler.

Seu método e a escolha das armas era no mínimo curiosa. Um manequim, um uniforme nazista, alguns machados, uma caixa de pregos, bebida alcoólica suficiente para embriagar um exército e uma forte crença nos poderes da Magia Negra. 

Hoje em dia, a história continua sendo das mais estranhas, e entre os participantes desse peculiar ritual estava uma das figuras mais estranhas da História dos Estados Unidos. Hoje pode parecer apenas uma excentricidade, mas para os indivíduos que tomaram parte do experimento, não foi nenhuma brincadeira. Eles realmente acreditavam que os poderes envolvidos da magia negra invocada conseguiriam amaldiçoar Hitler e enviar sua alma gritando para o inferno. E para mostrar que falavam sério, eles convidaram um fotógrafo e repórter da Revista LIFE para documentar todos os acontecimentos. 

Quem conduziu o experimento ritualístico de magia negra foi ninguém menos do que William Seabrook um dos mais polêmicos e influentes jornalistas do período. Isso talvez explique a credibilidade de uma loucura desse tamanho ganhar as páginas da mais importante publicação da época.

Atualmente poucas pessoas sabem quem era ele, mas Seabrook foi muitas coisas durante sua vida: Autor, pesquisador, viajante, explorador, ocultista e membro de uma Geração Perdida. Um homem estranho mesmo entre os estranhos, capaz de testar os limites da civilização e quebrar tabus que a maioria das pessoas viraria o rosto nauseadas. Ah, sim, Seabrook foi entre outras coisas, ao menos uma vez, um canibal.


Foi durante uma viagem pelo continente africano em 1935, onde Seabrook trabalhava como correspondente internacional, que ele conseguiu fazer contato com a perigosa Tribo Guéré. Os nativos habitavam uma região selvagem na então colônia francesa da Costa do Marfim. Eles eram hostis e atacavam qualquer um que ousasse adentrar seu território. Meses de negociação permitiram ao repórter e um pequeno grupo, não apenas encontrar o líder Guéré, mas negociar com ele. Dizem que Seabrook presenteou o Chefe Tribal com uma caixa de rifles e munição para ganhar sua atenção. Ainda assim, o presente não garantia que ele, ou seus companheiros, conseguiriam sair de lá com vida.

O objetivo da expedição, era ainda mais ousado. Seabrook queria encontrar verdadeiros canibais e registrar sua sociedade para um livro que ele planejava escrever, "Jungle Ways" (Costumes da Selva). Mas como sempre, ele esperava ir além, desejava comungar com os nativos e experimentar sua cultura ao máximo para assim compreender seu comportamento. Queria ser um deles, e para isso teria de se alimentar como eles... de carne humana. Os Guéré, no entanto, o enganaram e embora tenham lhe oferecido uma refeição afirmando se tratar de carne humana, na verdade lhe entregaram carne de gorila. Furioso o repórter partiu da aldeia por pouco não causando a morte de toda expedição. De lá seguiu para o Sudão onde conheceu um feiticeiro tribal que também era cozinheiro, um homem que prometeu saciar sua obsessão pelo canibalismo. O feiticeiro cumpriu sua parte no acordo e como resultado, o explorador escreveu um parágrafo sobre a bizarra experiência culinária:

"A carne humana crua, em aparência, era firme, um tanto quanto densa quando comparada a outras carnes de animais próprias para o abate. A textura dela, crua, tanto aos olhos quanto ao toque, lembra um bife normal. Na cor, entretanto, ela era um pouco menos vermelha do que carne de gado. Ainda assim tinha um vermelho sangrento. Ela não era cinzenta ou rosada como a carne de carneiro ou porco".

De acordo com o livro de Seabrook, publicado no ano seguinte, carne humana tinha gosto "de um bom pedaço de vitela" e de fato "nenhuma pessoa com um paladar além do ordinário, e dos sentidos normais, seria capaz de distinguir essa carne em especial, da vitela que pode ser comprada em qualquer açougue no mundo civilizado". Embora apenas uma pequena parte de "Jungle Ways" tratasse do mergulho do repórter em um dos maiores tabus da humanidade, seu livro ficou conhecido como uma obra medonha, proibida em vários países. O livro talvez não definisse a carreira do jornalista, mas dizia muito a respeito dele.

Em vida, William Seabrook era ao mesmo tempo um homem notável e uma caricatura do ridículo. O Rei das Viagens Impossíveis e dos livros sobre povos e civilizações perdidas. Desde sua morte, a obra de Seabrook desapareceu e se tornou obscura. Recentemente, um de seus livros, Asylum foi republicado, lançando uma luz sobre a vida e obra desse cronista do absurdo.



Nascido em Maryland em 1884, Seabrook iniciou sua vida como um homem de respeito. Ele cursou a universidade e recebeu um cargo importante no semanário August Chronicle, que lhe garantiu uma vida de viagens pela Europa. Ele casou com a filha de um importante executivo da Coca-Cola e fundou uma agência de propaganda. Mas essa vida convencional logo se tornou uma espécie de inferno particular para Seabrook. Ele desejava algo mais em sua existência, embora a essa altura não 
soubesse exatamente o que.

A resposta veio em 1916, quando a Europa já mergulhava no segundo ano de uma catastrófica Guerra em que milhares de homens morriam diariamente. Seabrook deixou uma carta para esposa e colegas de trabalho alegando que precisava tomar parte no acontecimento que nas suas palavras "iriam moldar o século XX". Ele não esperou pelos Estados Unidos e antes desse se juntar ao esforço de Guerra, alistou-se como voluntário na França e recebeu a incumbência de dirigir uma ambulância no fronte. A adrenalina e o caos fizeram seu sangue fluir mais rápido do que ele poderia imaginar, dali em diante ele estava contaminado pela excitação da vida no limite.


Depois da Guerra, Seabrook fez uma séria tentativa de entrar no mundo da Literatura e passou a conviver com os círculos de boêmios do Greenwich Village. Um desses boêmios era Tony Sarg, que apresentou o jornalista a Deborah Luris a mulher que por sua vez introduziu Seabrook ao mundo proibido do sado-masoquismo. Mas para a maioria dos críticos literários, ele não passava de um repórter marginal que atraia um nicho muito específico de pessoas com histórias sobre crimes, ocultismo e sobrenatural. Ele era um jornalista que pertencia a Imprensa Marrom, um grupo que não era levado à sério.

Embora seu tempo no Greenwich Village não tenha trazido grandes benefícios para sua carreira literária, Seabrook conheceu pessoas interessantes como o estudante libanês Daoud Izzedin que encantava seus colegas da Universidade de Columbia com narrativas do Mundo Árabe. Izzedin e Seabrook se tornaram bons amigos e quando o primeiro o chamou para uma viagem até Beirute, este aceitou de pronto. Alguns meses depois, Seabrook estava vivendo entre os beduínos do Deserto da Arábia, participando de cerimônias envolvendo dervishes turcos e vagando pelo deserto no norte do Iraque sob a influência de drogas exóticas, ópio e coisas piores.

Ele retornou de suas peregrinações com histórias empolgantes a respeito de terras exóticas onde homens brancos raramente eram vistos ou apreciados. Trabalhando como correspondente, Seabrook não tinha ideia do quanto suas narrativas eram populares. Nem mesmo sabia que elas estavam sendo publicadas em várias revistas. Ele era tratado então como uma espécie de celebridade, um herói que explorava os mundos proibidos da África do Norte e do Oriente Médio trazendo para a "civilização ocidental suas experiências pessoais com os povos mais estranhos do globo" - ou assim prometiam as revistas que publicavam suas aventuras.  


Com o passar dos anos, a fama de Seabrook crescia e quando finalmente ele retornou a América encontrou um público que queria ouvir ainda mais a respeito de suas jornadas. Ele foi convidado para presidir palestras em grandes universidades. Em uma dessas palestras ouviu falar pela primeira vez das religiões africanas praticadas no Haiti e se surpreendeu com o Vodu.

Não demorou até que o obstinado jornalista conseguisse patrocínio para sua próxima aventura. Ele havia ouvido falar de um curioso mito envolvendo o folclore caribenho e que havia se firmado durante o comércio colonial de escravos. Zumbis ainda eram pouco conhecidos na época e Seabrook foi um dos primeiros americanos a se interessar pelos rumores de mortos que caminhavam. O zombi cadavre imediatamente atraiu a sua atenção e ele partiu para Port au Prince disposto a explorar a origem da lenda.

Através de um coletor de impostos mulato chamado Constant Polynice, Seabrook ouviu falar de um feiticeiro vodu (um bokor) que trabalhava para uma companhia açucareira americana. O sujeito supostamente criava zumbis para servir de mão de obra barata para a plantação. O jornalista viajou até a região e entrevistou o feiticeiro, na verdade, ele e sua esposa, que eram os responsáveis por criar os zumbis e negociar com os empresários estrangeiros. Seabrook conseguiu convencer o casal a mostrar como eles criavam os zumbis. Ele os acompanhou até uma visita a um cemitério e assistiu um cadáver ser exumado e preparado para o ritual. O morto recebeu uma pitada de sal sob a língua e foi "batizado" com um novo nome a fim de esquecer quem ele era anteriormente. Segundo a narrativa de Seabrook ele ficou na companhia dos feiticeiros por alguns dias, mas teve de fugir às pressas quando um grupo de aldeões furiosos invadiu a casa onde os bokor viviam e os massacraram.

Ainda no Haiti ele visitou o vilarejo de La Gonave, onde esteve cara a cara com outro bokor que controlava zumbis e os "alugava para trabalho escravo". Seabrook participou de um "ritual de criação de zumbis"  no qual descreveu o uso de substâncias entorpecentes cujo propósito era deixar a pobre vítima dócil e suscetível a comandos. As explorações do jornalista pelo Haiti se tornaram um livro lançado em 1929 e intitulado "In the Magic Island" (Na Ilha Mágica) que se tornou um bestseller. É possível que esse tenha sido um dos primeiros trabalhos a respeito do mito dos zumbis e vodu publicados nos Estados Unidos. É provável ainda que o livro tenha sido usado como base para a utilização de zumbis em filmes e histórias de horror ao longo da década de 1930.


O livro tornou Seabrook ainda mais popular e permitiu a ele participar de novas aventuras. Em 1933, ele esteve no Norte da África na companhia da recém criada Força Aérea Francesa em uma campanha cartográfica para mapear essa parte do continente. Foi nessa época que ele participou de sua famosa jornada pela Costa do Marfim que o tornou persona non grata e lhe valeu a fama de canibal e o apelido "Abominável Seabrook". A vida intensa de viagens e empolgação cobrou um preço alto do jornalista. Adepto de drogas experimentais e quantidades devastadoras de álcool, Seabrook mergulhou em um acentuado declínio antes de chegar aos 50 anos. 

Para combater sua dependência química e psíquica ele aceitou se internar em um asilo e enfrentar uma longa terapia que durou mais de sete meses. Ao fim do tratamento ele já tinha um novo livro pronto, "Asylum" (Asilo) que tratava de seu período sob "tutela de médicos psiquiatras e na companhia de notórios insanos". O livro foi visto com curiosidade e se mostrou um de seus últimos trabalhos que alcançou o público. Mas algumas críticas negativas tiveram um efeito devastador e ele voltou a beber. Ainda assim ele continuava a pesquisar e escrever cada vez mais interessado em temas incomuns e bizarros: Percepção extra-sensorial, reencarnação, bruxaria, satanismo e viagens astrais se tornaram parte de sua literatura especulativa e renderam mais quatro livros. 

Em 1941, Seabrook voltou a ganhar exposição ao tentar seu ritual para assassinar Hitler utilizando o Vodu. Estranho como possa parecer, ele ainda tinha seus fãs, entre eles, um grupo de jovens que vivia em Washington D.C e que havia lido o livro "Witchcraft: It's power in the World Today" (Bruxaria: Seu poder no mundo atual) e estavam interessados em aprender com ele métodos de encantamento e magia negra. O grupo contatou Seabrook e pediu a ele que os liderasse em uma tentativa de matar o líder nazista através de feitiços. Sabendo que aquilo traria alguma atenção da mídia, ele aceitou.

"Feitiços Vodu", ele explicou na entrevista publicada na revista LIFE, "funcionam apenas quando a vítima do malefício sabe que está sendo atacada pelo feiticeiro". Por essa razão, ele convidou a Revista para documentar todo o experimento.

Seguindo as instruções de Seabrook, um manequim foi vestido com um uniforme nazista. Um ajudante usou um chocalho sobre a cabeça do manequim, enquanto o grupo repetia as palavras em uníssono: "Você é Hitler! Hitler é você!"


O grupo então começou a martelar pregos em uma foto de Hitler colocada sobre o peito do manequim ao mesmo tempo que repetia as palavras: "Nós estamos enfiando pregos e agulhas no coração de Adolf Hitler". Para terminar o ritual, um grupo recebeu machados e fez o boneco representando o ditador nazista em pedaços. 

"Istam!" gritou Seabrook afirmando que a palavra invocava uma entidade pagã, "Envie 99 gatos pretos para arranhar seu coração e 99 cães negros para comer o coração de Adolf Hitler".

Quando o ritual terminou, Seabrook e seus colegas enterraram o manequim em uma vala. Ali os vermes deveriam devorá-lo, até que o homem amaldiçoado encontrasse seu fim. Os fotógrafos fizeram a festa e detalharam todo o processo. A reportagem foi publicada na Revista LIFE com o título "Feitiço para Amaldiçoar Hitler e terminar com a Guerra". No artigo Seabrook garantia que até o final do ano o líder alemão estaria morto e o conflito terminado.

Hitler é claro não morreu em 1941. Ele viveria por mais três anos antes de morrer em um bunker de Berlin em 30 de abril de 1945.

William Seabrook morreria um ano depois de Hitler, também pelas suas próprias mãos ingerindo uma dose maciça de pílulas para dormir. Ele deixou para trás, uma das vidas mais bizarras e incomuns que um homem poderia desejar.

quarta-feira, 8 de março de 2017

A Grande Viajante - A vida e as jornadas de Alexandra David-Neel


Todo ano, nessa data específica em que se celebra o Dia Internacional das Mulheres, o Mundo Tentacular prepara uma postagem especial com alguma mulher que marcou época. 

Na ficção lovecraftiana o que não falta são mulheres a frente de seu tempo. O mais interessante a respeito delas, contudo,  é que muitas vezes elas foram inspiradas por mulheres verdadeiras de carne e osso que tiveram existências inacreditáveis. Uma dessas mulheres incríveis é Alexandra David-Neel, nascida na França, mas com o coração no Oriente, ela é um exemplo de aventureira cuja vida incrível parece coisa de ficção. 

*          *          * 

Mistica, contestadora, ocultista e viajante, Louise Eugenie Alexandrine Marie David nasceu em Paris em 24 de outubro de 1868. A atmosfera de sua casa durante sua infância era, segundo a maioria das pessoas, bastante austera e rígida. Quando criança, os livros favoritos da pequena Louise eram as histórias de ficção científica escritas por Jules Verne. Como uma maneira de se rebelar contra sua severa criação, ela prometeu a si mesma que um dia teria uma vida tão vibrante quanto a daqueles personagens. 

Uma das primeiras indicações de seu desejo de liberdade e anseio por aventuras foi ela ter fugido de casa aos cinco anos, logo após a família ter se mudado para Bruxelas. Só depois de ser procurada por uma noite inteira, a menina foi encontrada e conduzida a contra gosta até uma gendarmeria. Aos quinze anos de idade, Alexandra, que havia exigido o direito de estudar, tomou conhecimento do mundo oculto e ficou fascinada pelo tema. Logo ela passou a se corresponder com Elisabeth Morgan, que era membro da Sociedade da Suprema Gnosis, uma ordem de estudos do sobrenatural.

Naquele verão, a família passaria os feriados de fim de ano em Ostend, mas Alexandra queria algo mais interessante e conseguiu escapar para a Holanda onde atravessou o canal para a Inglaterra afim de encontrar a Srta. Morgan e receber instrução sobre o oculto. Morgan ficou chocada ao descobrir que ela era uma adolescente e a mandou embora. Em 1885, quando tinha 17, Alexandra fugiu mais uma vez de casa. Dessa vez, decidiu viajar de Bruxelas até a Suíça de trem. Dali seguiu a pé pela Passagem de Saint-Gotthard Pass até atingir os Lagos alpinos na Itália.

Parecia claro que nada deteria Alexandra de viajar pelo mundo. Em 1888 seus pais enfim cederam e aceitaram permitir que ela estudasse em um Conservatório em Londres. Alexandra no entretanto tinha outras ideias. Finalmente ela foi aceita na Sociedade da Suprema Gnosis provando seu conhecimento teórico de ocultismo diante de uma comissão presidida pela mesma Srta. Morgan. Entre as pessoas presentes à sabatina estava a ninguém menos que a conceituada Madame Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, cujas ideias esotéricas tiveram enorme influência sobre Alexandra e sobre os ocultistas do período. 


Aos vinte anos, ela retornou a Paris e foi aceita na Universidade Sorbone, tornando-se uma ativista política. Dizem que mantinha uma pistola e munição em seu apartamento e que se envolveu com radicais anarquistas em planos de sabotagem. Mas logo se separou deles por não concordar com alguns conceitos. Em 1891, quando tinha completado 23 anos, disfarçou-se de homem e invadiu um culto estabelecido em Paris por Sri Ananda Sarawati que usava haxixe para obter visões.

Nesse mesmo ano uma herança por parte de sua avó permitiu que ela viajasse para o Ceilão e India. Fascinada pelo mistério, magia e pelas melodias da música tibetana, ela partiu em uma peregrinação religiosa até Adyar, uma cidade próxima de Madras, onde conheceu outra ocultista, a britânica Annie Besant com quem passou a estudar sânscrito. Na Cidade sagrada de Benares, ela teve o primeiro contato com meditação transcendental e ioga com o Swami Bhaskarananda. Segundo sua biografia lá aprendeu várias técnicas que lhe permitiam entre outras coisas realizar viagens astrais, contatar entidades superiores e até flutuar. Infelizmente ela se viu obrigada a retornar a Europa quando seu dinheiro terminou.

Em 1899, Alexandra escreveu um tratado sobre política e feminismo que os editores franceses ficaram receosos de publicar. Suas ideias eram tão avançadas para os padrões comportamentais que seus detratores afirmaram que ela sofria de doenças mentais. Entre 1894 e 1900, Alexandra viveu como aspirante a atriz e cantora. Eventualmente, aceitou um trabalho na recém inaugurada Casa de Opera em Tunis, no Norte da África. Nesse trabalho conheceu Phillip Neel, um engenheiro ferroviário tão inquieto quanto ela própria, por quem se apaixonou. Os dois casaram em 1904 e passaram a viver em La Goulette, um vilarejo próximo do Mar Mediterrâneo.  

Em 1911, Alexandra empreendeu sua segunda viagem a India, desembarcando em Pondicherry, uma colônia francesa estabelecida no sub-continente, lugar de grande agitação política com agentes separatistas agindo em todos níveis. Por volta de 1912, ela chegou a Calcutá, onde se juntou a uma Escola de Fakirs, mais uma vez disfarçada como homem. Fotos da época mostram Alexandra deitada em camas de pregos, subindo por cordas mágicas e flutuando em pleno ar. Ela também tomou parte em Rituais Tântricos e se tornou a das mais jovens iniciada a tomar parte no Ritual das Cinco Sustâncias Proibidas. Dizia ser capaz de viver apenas de pequenas quantidades de água de rosas, de curar doenças através de ativação dos chacras e de processar venenos em seu corpo. Ela progrediu rápido em seus estudos de sânscrito e foi agraciada com um Doutorado honorário em Filosofia pela Escola de Benares, a primeira mulher européia a receber tal honra.


Quando decidiu se estabelecer no pequeno Vilarejo de Sikkin, no Himalaia imediatamente se sentiu em casa, sendo aceita pela população local. Ela também conheceu o Príncipe Sidkeong de quem, dizem, tornou-se amante. Alexandra foi a primeira mulher ocidental a ser formalmente apresentada ao Dalai Lama, que pediu que ela fosse aceita no Monastério Budista de Lachen, um dos mais importantes da tradição tibetana. Durante os anos que se seguiram, Alexandra foi introduzida nos segredos do budismo tibetano, aprendendo os segredos do "tumo" a arte de gerar calor corporal e usar a voz para produzir ondas sonoras capazes de curar e matar. 

Um visitante britânico de passagem pelo lugar descreveu Alexandra como uma visão impressionante. Uma mulher alta e imponente, com os trajes cerimoniais de um monge, usando um rosário de fragmentos de osso ao redor do pescoço, um avental bordado com símbolos místicos e uma adaga ritualística na cintura, uma lâmina que ela afirmava ser mágica, capaz de cortar através de pedra, metal e espíritos.  

Dois anos mais tarde ela conheceu um jovem chamado Aphur Yogden, e estabeleceu com ele uma amizade que duraria por toda suas vidas, e que resultaria na adoção de Yongden como seu filho. Os dois se mudaram para uma caverna localizada a 4000 metros na cadeia montanhosa de Sikkin onde passaram por uma provação que os obrigou a viver como eremitas. Seu objetivo no entanto era viajar até a Cidade Sagrada de Llasa. Infelizmente o Tibet raramente abria as suas fronteiras para europeus, quanto mais mulheres européias. A despeito disso, Alexandra e Yongden tentaram duas vezes, o que resultou em sua expulsão de Sikkin em 1916.


A Grande Guerra tornou impossível que ela retornasse a Europa, então ela decidiu viajar para o Japão. Em uma carta escrita ao marido - que ela não via há mais de uma década, ela confessou seus sentimentos a respeito do oriente:

"Eu tenho saudades de uma terra que não é minha. Eu sou assombrada pelas lembranças das estepes, da solidão das montanhas, da neve que jamais derrete e dos céus de um azul escuro impenetrável. Até mesmo as dificuldades: a fome, a sede, o vento que golpeia a face e atravessa os casacos, tudo isso me faz falta. Eu preciso retornar o quanto antes ao Tibete, pois lá é minha casa".  

Com o fim da Guerra, Alexandra conseguiu voltar a India e em Kum Bum estudou as técnicas de criação de um Tulpa, uma entidade criada pelo poder psíquico, produzida através de intensa concentração e rituais místicos repetidos ao longo de meses. Testemunhas afirmam que Alexandra criou a figura etérea de um monge, que se tornou seu companheiro de viagens e guardião. Para alguns sensitivos, o tulpa podia ser visto e ouvido como uma pessoa normal. Alexandra dizia que a criatura que ela construiu através do ritual era um amigo fiel que a defendia de maneira implacável. Certa vez, no entanto, o fantasma foi responsável por matar um bandido de estrada, o que fez Alexandra se culpar pelo ocorrido. Ela usou de toda sua concentração para "dissolver" o tulpa, mas ele continuou a acompanhando, mesmo quando ela tentou exorcizá-lo. Até o fim de sua vida, o tulpa a assombrou como uma presença constante em sua vida.

Em fevereiro de 1921, Alexandra e Yongden se disfarçaram de mendigos e tentaram entrar novamente em Lhasa. A viagem foi uma expedição épica de três anos, com os detalhes relatados em seu livro "Jornada a Lhasa" editado em inglês em 1927. A rota escolhida era uma peregrinação de 3900 milhas por um terreno montanhoso extremamente difícil, evitado até mesmo pelos viajantes mais experientes pelo temor de avalanches e desmoronamentos.


Em uma etapa da viagem, em meados de 1923, os dois seguiram para o Norte e chegaram ao Deserto inóspito do Gobi. De lá, retornaram através da China e seguiram para o oeste, cruzando a fronteira do Tibet com uma caravana de camelos. o longo do percurso cruzaram o caminho de bandoleiros, revolucionários, enormes tigres siberianos e clima selvagem. Ela relatou até mesmo o avistamento de um dos legendários homens das neves.

Em outro fenômeno estranho, a caravana se deparou com um "Lung-Gom", uma espécie de espírito (lama) que se movia em velocidade inacreditável. Alexandra foi alertada para não olhar na direção da silhueta tremeluzente que os seguia sob o risco dele arrancar sua alma. Ela contrariou os conselhos dos guias e conseguiu ver a forma verdadeira do lama que corria no vazio. Alexandra usou sua adaga mágica para espantar o espírito que se lançou num despenhadeiro quando ela entoou cânticos em uma língua ancestral.

Em fevereiro de 1924, Alexandra e Yongden enfim chegaram no território de Lhasa sob disfarce e puderam explorar o lugar por três meses. Enquanto na cidade, ela ganhou acesso a templos e bibliotecas e pode estudar pergaminhos e livros raros. Alexandra visitava um riacho toda manhã, onde gostava de se banhar, certo dia ela foi vista por peregrinos que a denunciaram ao governador. Uma vez que a dupla estava em Lhasa clandestinamente, isso poderia ser um sério problema, mas por sorte, o um dos conselheiros do Governador era súdito do Principe de Sikki que a avisou a tempo dela e Yongden escaparem.

Cumprida sua grande meta, Alexandra decidiu que era hora de retornar a Europa, ela chegou a Paris em 1925, e foi recebida como uma grande heroína. De comum acordo, ela e o marido decidiram pelo divórcio amigável e ela se estabeleceu em Digne, na Provence onde começou a escrever um livro de memórias. Também estabeleceu lá um "Samten-Dzong", um templo chamado "Fortaleza da Meditação". Ela publicou vários livros a respeito de meditação, ioga, sobre suas viagens, misticismo e religiões orientais. Foi convidada a presidir palestras em várias instituições acadêmicas da Europa com enorme sucesso.


Em 1937, com 70 anos, Alexandra fez uma nova viagem a China,a companhada de Yongden, usando a Ferrovia Transiberiana. Infelizmente eles chegaram no início da violenta Guerra contra o Japão, quando fome e doença eram triviais. Ela escreveu cartas e artigos para a imprensa internacional, chamando a atenção da opinião pública para a brutal campanha de expansão militar do Império do Japão. Ela chegou a ser acusada de espionagem e teve que se refugiar em um monastério ao ser procurada pelos japoneses. Eventualmente, ela conseguiu escapar da China e chegou a India onde permaneceu até o final da Guerra.

Ela voltou a França e se estabeleceu novamente na propriedade em Digne.

Em 1955 Yongden, quase 30 anos mais jovem que Alexandra morreu enquanto estava em Samten-Dzong. Alexandra trabalhou para ter seu passaporte renovado e por credenciais para retornar a India para levar as cinzas do filho adotivo. Mas beirando os 100 anos, ela não teve seu desejo atendido.

Alexandra recebeu a medalha de ouro da Sociedade Geográfica de Paris, uma grande honra e em 1969 foi agraciada com com o título de Dama da Legião de Honra. O governo do Tibet a concedeu o posto de Lama. 

Ela morreu em 8 de setembro de 1969, com 101 anos de idade.


Em 1973, suas cinzas foram levadas para o oriente e espalhadas junto com as de Yongden nas águas do Rio Ganges, diante da Cidade Sagrada de Benares. Em 1982, o Dalai Lama prestou tributo a Alexandra David-Neel visitando a casa de Digne e consagrando o local como um Lugar de Peregrinação. Hoje, lá existe um Museu devotado a sua vida e aos ensinamentos do Budismo. Os visitantes podem ver objetos pertencentes a Alexandra David-Neel e uma série de fotografias de suas viagens.

A Grande Viajante escreveu mais de 30 livros, publicados em 15 idiomas a respeito de Religião oriental, filosofia e suas viagens mais exóticas que tiveram enorme influência em numerosos autores que se inspiraram em suas narrativas. Jack Kerouac (1922-1969) e Allen Ginsberg (1926-1997) citaram as peregrinações de Alexandra como base para seus próprios trabalhos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O Barão Sangrento - Os Lamas e Videntes do Barão e sua fixação com o Outro Mundo (Parte 2)



Artigo originalmente publicado em 30/11/2012

Continuação. Não esqueça de ler a primeira parte: nesse link

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Os Lamas e Videntes do Barão

Ungern era fascinado por todas as formas de adivinhação. Ele supostamente carregava consigo um baralho de Cartas de Tarô, mesmo no calor da batalha. Como notado, em Kobdo ele se reunia com lamas adivinhos e em Urga se cercava com um pequeno exército de videntes (tsurikhaichi), feiticeiros e xamãs. Aloishin recorda que os adivinhos do Barão estavam sempre consultando as omoplatas assadas de ovelhas, se debruçando nas linhas "para determinar onde as tropas devem ser estacionadas, e como avançar contra o inimigo." Em outras ocasiões, Ungern ordenou que suas tropas acampassem "em vários campos de batalha antigos para captar a energia dos guerreiros ali enterrados."

O médico do Barão, Dr. N. M. Riabukhin, maldisse os adivinhos como "insolentes, sujos, ignorantes e mancos" e lamentou o fato de que Ungern "nunca dava um passo importante" sem consultá-los. Os adivinhos o convenceram de que ele era a encarnação de Tsagan Burkhan, o Deus da Guerra. Para o oficial Branco Boris Volkov, a dependência do Barão nesses tipos parecia prova da "mentalidade imbecil de um degenerado que se imaginava o salvador da Rússia." Volkov no entanto era cuidadoso de jamais emitir essa opinião diante do Barão.

Antes de sua investida contra a Sibéria Vermelha, Ungern gastou uma verdadeira fortuna para contratar milhares de lamas para "realizar um elaborado ritual nos templos e para convocar em seu auxílio poderes místicos." A previsão de uma feiticeira drogada de que o fim do Barão se aproximava provou-se sombriamente precisa, e ajudou a convencê-lo a realizar a desastrosa invasão. Os lamas videntes falharam com ele quando eles o aconselharam a atrasar em dois dias o ataque contra Troitskosavsk, uma cidade fronteiriça chave. Isso deu aos vermelhos a oportunidade de trazer reforços e repelir o ataque. Posteriormente, oficiais subornaram um adivinho buriat para mudar as previsões, o que levou Ungern a cancelar outros ataques e ordenar uma retirada para a Mongólia. Quando o Barão descobriu essa traição, o feiticeiro foi amarrado a quatro cavalos que despedaçaram seu corpo. 

Mas se Ungern foi influenciado - e ludibriado - pelo sobrenatural, ele também sabia como usá-lo para sua vantagem. Antes de seu último ataque contra Urga, ele enviou videntes para a cidade onde estes "encheram os soldados chineses com medo supersticioso" pela previsão da iminente chegada de um Senhor da Guerra como nenhum outro. Espalharam rumores de que o Barão Sangrento era imune a balas e podia aparecer e desaparecer à vontade. Disseram ainda que ele falava com os espíritos, comia carne humana e podia levitar alcançando as nuvens. Ungern ordenou que fossem acesas fogueiras noturnas nas colinas circundantes a Urga. Seus agentes mongóis disseram aos crédulos  chineses que as fogueiras marcavam piras  de sacrifícios onde os inimigos do Barão eram imolados.

Uma pessoa impressionada desde cedo pela natureza peculiar do Barão foi o filósofo místico Conde Hermann Keyserling que conhecia Roman e seu irmão Constantin desde a infância. Keyserling depois considerou o Barão como "a pessoa mais impressionante que ele teve a sorte de conhecer," mas também como um indivíduo contraditório. Ele via Ungern como alguém cuja "natureza havia sido suspensa no vácuo entre o céu e o inferno," alguém "capaz das mais altas intuições e gentis amabilidades" junto com "a mais profunda aptidão para a metafísica da crueldade." As idéias metafísicas do Barão, acreditava Keyserling, estavam "fortemente relacionadas àquelas dos tibetanos e hindus." Keyserling estava convicto de que Roman possuía o poder oculto da "segunda visão" e "a faculdade da profecia".

Keyserling não foi o único que chegou a essas conclusões. Anos depois, o filósofo fascista e ocultista Julius Evola opinou que o Barão Ungern possuía "faculdades supranormais" incluindo clarividência e a habilidade de "olhar dentro das almas" dos outros. Ferdynand Ossendowski afirmou que ele fez exatamente isso em seu encontro inicial: "Eu estive em sua alma e sei tudo," afirmou o Barão, e a vida de Ossendowski estava garantida.


Muito do mesmo é repetido nos testemunhos de outros que conheceram Ungern. Aloishin achava que o Barão era insano, mas também sentia que ele "possuía o perigoso poder de ler os pensamentos das pessoas." Ele relembra como Ungern inspecionava recrutas olhando no rosto de cada homem, "sustentava aquele olhar por alguns momentos, e então rosnava: 'Para o Exército; 'De volta para o gado'; 'Liquidar'." Riabukhin menciona que em seu primeiro encontro "era como se o Barão quisesse tomar minha alma." Outro oficial anônimo relembra que "Ungern olhava para todo mundo com os olhos de um predador," e isso instilava medo em todos os que o encontravam. Um soldado polonês em serviço mongol, Alexandre Alexandrowicz, aceitava a "segunda visão" do Barão, mas acreditava que era seu intelecto "superior" que o ajudava a "avaliar cada homem em poucos minutos."

O Misterioso Ferdynand Ossendowski

Aparentemente, ninguém fez mais para criar a imagem recorrente do Barão Ungern do que o acima mencionado escritor polonês Ferdynand Ossendowski. Porém, ele está longe de ser uma fonte impecável. Antes de seu encontro com o Barão, Ossendowski tinha uma longa história como espião, criador de intrigas e fornecedor de documentos falsos. Ele quase certamente foi um agente da polícia secreta czarista, a Okhrana. Em 1917-1918 ele estava envolvido com os infamens Documentos Sissons, um dossiê fraudulento (ainda que acertado) sobre as intrigas germano-bolcheviques. Posteriormente, na Sibéria, Ossendowski serviu ao "Supremo Governante" Branco Almirante Kolchak como conselheiro econômico e, provavelmente, espião. Ossendowski chegou na Mongólia como refugiado da maré Vermelha. Em seu muito lido livro de 1922, "Feras, Homens e Deuses", o polonês descreve seu encontro com o "Barão Sangrento" em detalhes vívidos, e não sem alguma simpatia pelo indivíduo. Não obstante, Ossendowski sabia que "diante de mim estava um homem perigoso," e que "eu senti alguma tragédia, algum horror em cada movimento do Barão Ungern." Nem Ossendowski mediu palavras sobre o clima de medo que assolava Urga sob o Barão. Ele descreve o suporte de subalternos homicidas de Ungern tais como o "estrangulador" psicótico Leonid Sipailov, o igualmente repelente Evgeny Burdukovsky e o sádico Dr. Klingenberg. O que Ossendowski convenientemente se esquiva de explicar é o mistério de sua própria sobrevivência nesse ambiente precário.


Nas opiniões de outros que testemunharam o governo do Barão, Ossendowski não era apenas umobservador inocente. Konstantin Noskov observa que do momento de sua chegada a Mongólia, o "Professor" Ossendowski teve um "estranho papel compreendido por ninguém." "Ele interferia em tudo," afirma Noskov, "brigava muito habilmente e tecia complicadas intrigas políticas..." Pershin acusa que Ossendowski era outro que explorava a obsessão de Ungern com o sobrenatural, uma opinião ecoada por outro dos oficiais do Barão, K.I. Lavrent'ev. Ao encorajar "a fé do Barão no ocultismo e em outras coisas do além," Ossendowski tornou-se "conselheiro" do Barão, o que pode explicar uma afirmação posterior de que o polonês tornou-se o "Chefe de Inteligência" de Ungern.

Ossendowski, segundo Pershin, "cavou um caminho até uma posição próxima ao Barão" e então "extraiu todas as vantagens que ele queria." Essas incluíam dinheiro e passagem segura para a Manchúria "em conforto e, talvez, com algo mais que isso." Dr. Riabukhin e Noskov, ambos se lembram que Ossendowski foi inexplicavelmente o único sobrevivente entre um grupo de refugiados cujos outros membros foram assassinados sob as ordens de Ungern. Boris Volkov afirma ainda que Ossendowski teve um papel chave na formulação da infame e "mística" Ordem do Barão, e assim garantiu sua vida e uma grande soma de dinheiro. Noskov claramente declara que Ossendowski foi o criador da Ordem.

A "Ordem #15", o mais perto que Ungern chegou de definir uma filosofia ou missão, merece um exame mais atento. Como o Barão não estava no hábito de pronunciar ordens numeradas, a #15 é desprovida de sentido nesse contexto. Segundo Aloishin, esse número e a data de seu pronunciamento eram mais a obra de "lamas eruditos" que os escolheram como números da sorte. Basicamente, a Ordem define um esquema grandioso de iniciar uma onda expansiva de Contra-Revolução que limparia a Rússia de seu contágio radical e restauraria o trono Romanov sob o irmão do czar Nicolau, Mikhail Alexandrovich. O Barão, como muitos outros, não sabia que Mikhail já estava morto desde junho de 1918. A Ordem proclamava que "o mal que veio à Terra para destruir o princípio divino da alma humana deve ser destruído em sua raiz," e que "a punição só pode ser uma: a pena de morte, em vários graus."

O artigo mais notório, porém, era o #9 que declara que "Comissários, comunistas e judeus, junto com suas famílias, devem ser destruídos." O Barão possuía um ódio patológico dos judeus, e onde quer que seu poder alcançasse preponderância havia um impiedoso extermínio dessa comunidade. Até mesmo Pershin, que sentia que "as histórias acerca da impiedade de Ungern tem sido muito exageradas," admitiu que os assassinatos em massa dos judeus eram infelizmente verdadeiros e que o Barão era implacável nessa questão. Volkov sentia que Ungern usava pogroms como um instrumento para explorar o anti-semitismo entre os emigrados e as tropas, mas havia um zelo quase religioso em seu ódio. Em uma carta a um associado russo Branco em Pequim, o Barão alertou contra o "Judaísmo Internacional" e mesmo contra a influência insidiosa dos "Capitalistas Judeus" que eram um "onipresente, ainda que normalmente não percebido, inimigo." Em seu julgamento, o Barão garantiu a seu promotor judeu-bolchevique, Emelian Yaroslavsky, que "a Internacional Comunista foi organizada 3.000 anos atrás na Babilônia." Em seus sentimentos em relação aos judeus, Ungern certamente prefigura a mentalidade nazista, e muito do mesmo poderia ser dito a respeito de toda sua mistura estranha de anti-modernismo místico.

Em agosto de 1921, o reino despótico do Barão chegou a um fim quando oficiais desesperados da Divisão Asiática Montada ensaiou um golpe contra ele e sua pequena elite. Quase miraculosamente, Ungern escapou do massacre geral e encontrou um refúgio final breve entre seus soldados mongóis. Eles também logo o abandonaram aos Vermelhos que se aproximavam, mas sem arrancar um fio de seu cabelo; eles ainda estavam convencidos de que ele era o Tsagan Burkhan e não podia ser morto.

Os soviéticos não sofriam dessas ilusões. Em seu julgamento em Novo-Nikolaevsk, ele foi um prisioneiro calmo, até mesmo digno. Ele havia previsto seu destino e o aceitado. A promotoria estava mais interessada em retratá-lo como um agente dos japoneses, o que ele negou. Porém, o Barão imediatamente admitiu os massacres e outras atrocidades que havia cometido com autêntico orgulho. "Matei todos os meus inimigos, destrui suas casas, suas famílias e espírito. Minhas vitórias foram completas". No que concerne a sua disciplina brutal, ele se proclamou um crente em um sistema que havia existido "desde Frederico o Grande." Ele se apresentou diante do pelotão de fuzilamento convicto de que eventualmente ele retornaria.

Um último ponto nos traz de volta a Ossendowski, que afirmou que o Barão buscava contato com o reino subterrâneo místico de Agartha e seu governante misterioso, o "Rei do Mundo." Agartha, é claro, é idêntica a Shambhala, uma terra mística exaltada na mitologia hindu e budista.

No início do século XX, a história foi revisitada por escritores esotéricos ocidentais como Alexandre Saint-Yves d'Alveydre e Nikolai Roerich que acreditavam que ela descrevia um reino realmente oculto em algum lugar no norte do Tibet ou na Ásia Central. Por uma interessante coincidência, outro oficial da Divisão de Ungern foi Vladimir Konstantinovich Roerich, o irmão mais novo de Nikolai. Roerich é citado no conto "Nas Montanhas da Loucura" de Lovecraft como um dos únicos artistas que seria capaz de retratar a monumental cidade inumana no Platô da Antártida graças às suas visões espiritualizadas.

Para alguns o Barão Sangrento não morreu diante do pelotão de fuzilamento comunista. Ele teria de alguma forma sobrevivido a execução, talvez graças aos seus poderes sobrehumanos ou a pura determinação. Ele teria então marchado pelas estepes desoldas ao longo de dias retornando eventualmente a Ásia Central onde foi finalmente acolhido em Agartha com as honras dispensadas a um legítimo Senhor da Guerra.