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segunda-feira, 30 de abril de 2018

O Alienista - A caçada a um assassino no final do século XIX


Eu li o livro mais famoso de Caleb Carr, "O Alienista" faz muitos anos. 

Lembro que ele foi lançado quando o tema "serial killer" ainda era uma novidade e "O Silêncio dos Inocentes" era o principal romance de ficção a respeito. Hoje existem centenas de livros, programas de televisão, filmes, documentários, quadrinhos, seriados sobre o assunto. Serial Killer se transformou em um assunto corriqueiro. Até então, não havia tanto alarde e o tema ainda era uma curiosidade um tanto espinhosa.

O romance de Carr se destacava por misturar o tema "caça ao assassino" com uma rica pesquisa de época e por ter como pano de fundo um período de profundas transformações na sociedade americana. Eu gostei muito do livro e ele se tornou um dos meus romances favoritos de mistério policial e investigação procedimental.

Quando "The Alienist" se tornou um bestseller em meados de 1994, os direitos para transformá-lo em filme foram comprados por um grande estúdio de Hollywood. A ideia é que ele recebesse um roteiro o quanto antes e que tivesse uma produção bem caprichada. Uma lista de bons diretores esteve envolvidas na produção, assim como um elenco classe A. Mas as coisas nem sempre saem como se espera. A dificuldade de condensar o romance em um filme de duas horas consumiu mais de uma década sem resultados e por fim, "O Alienista" nunca foi além de um projeto. O tempo passou, o autor ficou um tanto desanimado com essas indas e vindas e tudo indicava que ele jamais se tornaria um filme.


Finalmente depois de muitas negociações, alguém em Hollywood chegou a conclusão de que o livro de Carr poderia ser transformado em uma série e dessa maneira toda sua profundidade e detalhes poderiam ser mantidos, sem a necessidade de retalhar e modificar a história. Uma vez que os roteiros para televisão estão dando um verdadeiro show de qualidade, com programas cada vez mais elaborados, o novo formato caiu como uma luva. O Alienista, foi ao ar nos EUA pelo canal TNT em janeiro desse ano e fez bastante sucesso de crítica e público. Agora ele chega ao Brasil através do Netflix e já está disponível na grade de programação no formato de uma série fechada com 10 episódios. 

O Alienista não é uma série que redefine o gênero introduzindo muitas novidades, mas é um excelente programa a respeito da caçada a um maníaco no final do século XIX. Não é exagero nenhum fazer uma ousada comparação e afirmar que ele é uma espécie de True Detective de época. De fato, muito do clima soturno de "O Alienista" remete a True Detective, sobretudo por que um dos produtores executivos é Cary Fukunaga, criador da série da HBO. Há também algo de Mindhunter e de Ripper Street na série, o que resulta em um emaranhado suspense psicológico e uma viagem aos porões escuros da mente de um psicopata.

Passando-se na metrópole em franco crescimento de Nova York, no ano de 1896, o Alienista começa com uma macabra descoberta, o cadáver horrivelmente mutilado de um menino vestido com roupas de mulher. A vítima trabalha em um medonho bordel frequentado por uma rica clientela com apetites extravagantes. Ninguém normalmente daria a mínima para a morte de um imigrante pobre, a polícia preferia fazer vista grossa, entretanto a natureza grotesca do crime acaba atraindo um especialista na recém surgida ciência comportamental. O Dr. Lazlo Kreizler, é um pioneiro no estudo daqueles indivíduos considerados "alienados pela natureza", pessoas que agem e se comportam de maneira imprevisível - ele é o "Alienista" do título.


A descoberta desse primeiro corpo faz com que Lazlo tome conhecimento de que o jovem é apenas uma das várias vítimas que um assassino sem rosto está deixando. E esse matador parece agir com um propósito misterioso que a princípio só faz sentido em sua mente degenerada. O alienista reúne então uma equipe com o propósito de investigar os crimes e determinar não apenas a identidade do criminoso, mas os motivos que o levam a agir com tamanha brutalidade. Sob a autoridade do então Comissário de Polícia, Theodore Roosevelt - que anos mais tarde se tornaria presidente dos Estados Unidos, o time de Lazlo inclui o ilustrador do New York Times John Moore, a secretária feminista Sara Howard, dois irmãos policiais entusiastas de métodos científicos e alguns ex-pacientes de Kreizler que se tornam seus ajudantes.

Mergulhando no submundo obscuro de Lower Manhathan, região repleta de sujeira, decadência e pobreza extrema, a equipe de Kreizler, composta de indivíduos da classe média alta fica chocada com a maneira como a maioria da população de New York vive. Saindo de ambientes suntuosos e requintados com restaurantes e mansões vitorianas, a investigação vai revelando, a medida que se aprofunda, uma teia sinistra e sórdida, expondo que o crescimento desenfreado da cidade teve um custo muito elevado. Em uma época de profundas transformações sociais, a América, Terra das Oportunidades e destino final de imigrantes, mostra uma face hedionda de descaso, crueldade e desesperança.

O horror dos cortiços claustrofóbicos habitados por famílias inteiras faz o contraponto com os ataques do maníaco que vão se tornando cada vez mais violentos. A caçada resulta em várias investigações paralelas que começam a incomodar pilares da alta sociedade, policiais com acordos escusos e políticos corruptos.


Através dos primeiros episódios somos apresentados ao trio de protagonistas Kreizler, Moore e Howard, interpretados respectivamente por Daniel Bruhn (de "Bastardos Inglórios"),  Luke Evans (de "O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos") e Dakota Fanning (que faz filmes desde os oito anos de idade e tem uma carreira que nem caberia nessa resenha). Os personagens principais são muito bem desenvolvidos, o espectador passa a conhecer vários detalhes da personalidade e de suas motivações, bem como defeitos e virtudes que os tornam muito mais interessantes. Enquanto o Dr. Kreizler é mais intelectual e frio, Moore é mais emocional e reage às revelações do caso com perplexidade. Já a atuação de Dakota Fanning mostra que ela deixou para trás os papéis de meninas e adolescentes e abraçou de vez o pepel de uma mulher forte e decidida em um conturbado momento histórico.  

Tendo lido o livro, eu sei que os demais personagens coadjuvantes da série, deviam ter um papel mais determinante no romance. Roosevelt  (Brian Geraghty), por exemplo, fica meio apagado no decorrer dos episódios e sua participação que no livro é central, acaba caindo para segundo plano. O mesmo acontece com os irmãos gêmeos da polícia (Douglas Smith e Matthew Shear) que pelo menos recebem um pouco mais de atenção, como pioneiros a usar investigação científica. 

O elenco que conta ainda com alguns rostos conhecidos - entre os quais Ted Levine e Sean Young em participações especiais, é bastante sólido. Os primeiros episódios cumprem o seu papel de vender a série e atrair a audiência. Não se surpreenda se depois de assistir o primeiro e segundo episódios você se ver fisgado e engrenar uma maratona ininterrupta. Se bem me lembro o livro é um daqueles que você devora e vira as páginas avidamente querendo saber como a trama termina.


Assim como acontece no romance, "O Alienista" se passa em uma época anterior ao surgimento da Ciência Forense, da compreensão do papel das doenças mentais como catalizador para crimes em série e de técnicas rudimentares de investigação. A equipe de Kreizler, e o próprio alienista parecem investigar o caso com uma venda sobre os olhos que os impede de compreender as razões para que crimes tão medonhos estejam sendo praticados. Eles realmente não sabem com o que estão lidando e isso deixa tudo ainda mais aterrorizante. Esse acaba sendo um dos elementos mais fascinantes a respeito da série, ver como as pistas afetam os investigadores e como eles precisam driblar preconceitos, superstições e a falta de recursos para se manter focados na caçada.

"O Alienista" é uma série a respeito dos horrores da mente humana e da perversidade do ser humano. O assassino responsável por deixar uma pilha de cadáveres mutilados, cujos olhos são arrancados é realmente assustador em seus delírios, mas ele está longe de ser o único personagem capaz de enorme maldade. A própria cidade de Nova York, dividida por um abismo social, favorece o surgimento de indivíduos perversos dispostos aos atos mais baixos para manter as coisas como estão.


Com uma produção extremamente caprichada, a cidade de Nova York surge de uma maneira impressionante, quase como um personagem em todo seu esplendor. Os vários cenários são muito bem explorados permitindo que se conheça o interior iluminado das mansões da elite novaiorquina, os teatros requintados e restaurantes sofisticados, bem como os casebres podres, prostíbulos degenerados e os porões de manicômios que eram verdadeiros depósitos de loucos. Recorrendo a um realismo sujo, a série não poupa o espectador da degradação, miséria humana e de doses generosas de gore (sangue, vísceras e autópsias detalhadas estão presentes em praticamente todos episódio). Há algo de Penny Dreadful e From Hell no estilo sombrio da filmagem e quem gostou dessas produções vai adorar a série.

Na superfície, "O Alienista" parece apenas mais uma série de procedimento policial com um bom e velho "quem cometeu o crime?", e um grupo intrépido determinado a pegar o culpado. Nesse ponto ele cumpre e até excede as expectativas, uma vez que a investigação é empolgante e nos deixa atentos do início ao fim. Entretanto, a série vai muito além disso, retratando os questionamentos a respeito de um período cheio de injustiças. Para quem deseja substância e provocação, essa série é quase obrigatória.

Trailer:

sábado, 7 de abril de 2018

Todos os que habitam esse corpo - Casos Verdadeiros de Múltiplas Personalidades


Parece bastante evidente que cada um de nós possui um lado obscuro. Uma porção maligna, maliciosa e predisposta a fazer coisas que nós normalmente consideraríamos impossíveis de serem feitas. A maioria das pessoas convive relativamente bem com essa metade negra, sendo perfeitamente capaz de manter essa faceta oculta sob controle bem enterrada no subconsciente. Nós podemos até pensar em certas coisas, mas jamais chegamos às vias de fato. Entretanto, é possível em momentos específicos que a porção maligna de cada pessoa venha à superfície? 

Existem casos mundo afora que atestam essa possibilidade e mostram que pessoas comuns são capazes de cometer atos nefastos quando as paredes da moral e da ética desmoronam ao seu redor.

Uma desordem psicológica que se tornou objeto de estudos nos tempos recentes é a Desordem de Múltipla Personalidade, também chamada de Desordem de Identidade Dissociativa. A psicologia compreende que essa desordem se manifesta quando uma pessoa desenvolve pelo menos duas identidades distintas habitando o mesmo corpo, com casos extremos de indivíduos exibindo mais de 100 alter egos simultaneamente. Cada uma dessas personalidades possui sua própria voz, padrões de comportamento, sotaque, sexo, idade, altura, peso e até diferentes conhecimentos e experiência de vida. Em geral, essas personalidades vem à tona para "proteger" o indivíduo de algo que difícil de lidar ou encarar. Nesses casos a personalidade assume totalmente o controle deixando a personalidade original inconsciente e incapaz de compreender e participar dos acontecimentos. Para todos efeitos, o indivíduo experimenta o que muitos classificam como "apagão" (blackout). Em alguns casos a personalidade alternativa que assume o comando parece totalmente diferente, tomando decisões e agindo de uma forma inteiramente distinta do convencional. Não é estranho que algumas personalidades ingressem em um comportamento reprovável e cometam crimes.

Um dos primeiros casos documentados e amplamente estudados envolvendo múltiplas personalidades envolveu a morte de uma menina de seis anos chamada Suzanne Degnan no ano de 1946. Os pais da menina vinham de uma família de posses e ela foi raptada em uma vizinhança de Chicago enquanto era levada para uma consulta num pediatra. A única pista deixada pelos criminosos na cena do crime foi um bilhete com rabiscos, escrito às pressas, exigindo um resgate de 20 mil dólares em dinheiro. Em seguida, apareceram vários outros pedidos e condições para a entrega do dinheiro, cada um mais estranho do que o anterior, feitos sempre através de telefonemas apressados encerrados abruptamente com o aparelho sendo desligado. Parecia claro que o sequestrador estava sob grande stress e paranoia, acreditando que a ligação seria rastreada. O pai da menina, James Degman, cada vez mais desesperado, desempenhou um papel central nas negociações, inclusive participando de programas de rádio, implorando ao sequestrador que fizesse contato e aceitasse o resgate. Nada funcionava e o caso foi se arrastando com o criminoso no fim, desaparecendo por completo.


Então veio a tragédia! Duas semanas depois do último contato telefônico, um lixeiro fez uma descoberta macabra numa galeria de esgotos próxima de onde a menina havia sido levada. Acharam um braço de criança bloqueando uma grade de coleta de água da chuva. Ao longo dos dias que se seguiram, a polícia vasculhou os esgotos e lixeiras, encontrando várias outras partes da criança. Um exame pericial apurou que Suzanne havia sido estrangulada com um fio elétrico e desmembrada postumamente pelo sequestrador. O crime chocou a todos, mas o pior ainda estava por vir: o assassino deixou para trás uma carta escrita com batom no local onde abandonou a cabeça de Suzanne. No bilhete, preso entre os dentes da menina, lia-se um tétrico apelo: 

"Pelo amor de Deus, apanhem-me antes que eu mate novamente. Eu não consigo me controlar".

Quando a informação chegou até os jornais, o assassino ganhou o apelido de "Matador do Batom". As autoridades seguiram diversas pistas do caso, mas elas resultaram em um beco sem saída e tudo indicava que o crime permaneceria sem solução.

Mais ou menos na mesma época, um rapaz de 17 anos chamado William George Heirens, que havia entrado e saído várias vezes de reformatórios ao longo de sua vida, por uma infinidade de crimes, foi preso uma vez mais por roubo. Quando a polícia vasculhou seu dormitório em uma pensão barata encontrou vários objetos com símbolos nazistas. Dentro de uma caixa com a suástica, os detetives acharam uma calcinha infantil e uma fita de cabelo que supostamente pertenciam a Suzanne Degman.

O suspeito foi levado até o Departamento de Polícia e durante o longo interrogatório, que incluiu pesada brutalidade policial, bem como doses de sódio pentatol, Heirens confessou envolvimento em pelo menos três assassinatos na área de Chicago. Apesar de reconhecer sua participação na horrível morte da menina, ele dizia que um homem chamado George Murman havia sido o responsável direto pelas mortes. A polícia, no entanto, não conseguiu encontrar qualquer evidência a respeito dessa pessoa e nem sequer foi capaz de confirmar sua existência.


A despeito da falta de progresso nas investigações, Heirens continuava dizendo que Murman existia e que era o verdadeiro "demônio responsável pela morte da garota". Segundo o rapaz, ele havia conhecido George quando tinha apenas 13 anos, um sujeito realmente perverso que sentia prazer em roubar e matar suas vítimas. De fato, Heirens dizia que George era responsável por escolher as pessoas e por força-lo a participar de crimes violentos. Os objetos com insignia nazista pertenciam a esse comparsa, que havia lutado na Guerra da Europa e trazido aquelas coisas, inclusive uma baioneta da SS, como espólios recolhidos durante a ocupação.

Apesar de fornecer uma descrição completa de seu comparsa, a polícia acreditava que George Murman não existia. Nenhum soldado com o nome Murman serviu na Europa e não havia nenhum documento oficial a respeito dele. Para os detetives, Heirens estava inventando uma pessoa em quem tentava jogar a culpa. Enquanto isso, a imprensa também começou a procurar pelo homem misterioso, sem nenhum sucesso.

A grande reviravolta no caso veio quando alguns conhecidos de Heirens que reconheceram sua fotografia vieram à público e contaram que o rapaz havia se apresentado a eles com o nome George Murman. Contaram ainda que quando ele usava esse nome se comportava de maneira diferente, assumindo um ar malicioso e perverso. Ele afirmava ter participado do Desembarque na Normandia e que nos meses seguintes havia matado muitos nazistas na Europa. Logo começou a se desenhar um caso notável de dupla personalidade que foi tratado pelos jornais como uma versão real do fictício Dr. Jekyll e Mr. Hyde. A despeito dos protestos de Heirens de que era inocente ele foi julgado e sentenciado a prisão perpétua.

Por muitos anos se debateu se o rapaz teria inventado a personalidade homicida ou se realmente ele sofria de episódios de Múltipla Personalidade. Especialistas em psiquiatria se dividiam a respeito de seu diagnóstico e a dúvida persistiu por muitos anos. Para muitos, o caso de Heirens é um dos mais bem documentados casos verídicos de Múltiplas Personalidades. Ele morreu em 2012, aos 83 anos de idade, um prisioneiro modelo em uma das unidades prisionais mais vigiadas de Illinois.

Há outro caso também bastante impressionante, ele envolve um pintor chamado Kim Noble, que nasceu no Reino Unido nos anos 1960. Noble alegadamente sofreu  de abusos mentais e físicos desde criança, e possivelmente foi o stress que fez com que sua personalidade se dividisse em várias outras identidades. Sua frágil condição mental também a levou a usar drogas e a tentativas de suicídio. Noble foi internada em vários hospícios para tratamento e após anos de tratamento, encontrou uma aparente tranquilidade assumindo a profissão de motorista de entregas. Sem que ninguém soubesse ou suspeitasse nessa época, uma segunda personalidade chamada Julie começou a assumir o controle de sua persona. Julie era agressiva, amarga e vingativa e certo dia, em um ataque de fúria lançou a van que estava conduzindo contra um automóvel que fez uma manobra que ela não gostou.


Depois do acidente, ela correu até o motorista e começou a morder seu rosto furiosamente. O homem sobreviveu com sérios ferimentos em sua face. Levada para uma unidade psiquiátrica, Kim foi diagnosticada como esquizofrênica e recebeu tratamento extensivo por quase um ano. Quando finalmente foi liberada, ela se envolveu com uma quadrilha de criminosos que exploravam pedofilia, ou ao menos foi o que ela contou. Kim tentou denunciar o bando e eles se vingaram incendiando sua casa, tentando queimá-la. A casa queimou por inteiro, mas Kim conseguiu escapar com queimaduras menores.

As autoridades policiais investigaram as acusações de Kim, mas encontraram poucos indícios a respeito da tal quadrilha de pedofilia. Descobriram entretanto que Kim sofria estranhos blackouts, durante os quais nãos e recordava do que havia acontecido ou o que havia feito. Em 1995, psiquiatras diagnosticaram Kim como possuidora de desordem de identidade dissociativa. Em uma entrevista sob os efeitos de hipnose, eles descobriram que ela havia criado várias personalidades que de tempos em tempos assumiam o controle. A mais forte personalidade pertencia a uma mulher de meia idade, calma e focada, chamada Patricia. Outras eram a violenta Julie que tinha tendências ao sadismo e se divertia jogando peixinhos de um aquário no liquidificador, o Espírito da Água, uma personalidade estranha que se dizia uma mistura de homem e peixe, uma adolescente obesa de 15 anos chamada Judy, uma maníaca suicida Rebecca, a libidinosa Bonny que gostava de correr nua, uma garota chamada Hayley que ajudava os pedófilos a encontrar vítimas, um playboy chamado Ken, uma artista de rua que se identificava como Ria e muitas outras identidades que viviam sob a mesma pele. Ao fim de várias entrevistas, a medida que as personalidades emergiam chegou-se a contagem de mais de 100 diferentes identidades diversas.

Essa miríade de identidades pareciam co-existir de forma separada umas das outras, sem que nenhuma suspeitasse da existências das demais e chegando ao ponto de cada uma ter seu próprio endereço de e-mail para o qual as demais não conheciam a senha. Kim afirmava sofrer frequentemente de perda de memória e episódios em que despertava em lugares onde não se recordava de ter ido. Nenhuma das personalidades tinha qualquer lembrança do que as outras haviam feito enquanto estavam assumindo seu corpo. Uma das personalidades chegou ao ponto de acreditar estar grávida e sentir os efeitos da gravidez, comprar roupas de criança e agendar entrevistas de pré-natal. Kim foi convidada para vários programas de auditório e chegou a aparecer no famoso programa de Oprah Winfrey em 2012. Ela  escreveu um livro sobre as suas experiências com o título "Eu por Inteira: Como aprendi a conviver com personalidades compartilhando meu corpo".

Talvez, um caso ainda mais conhecido é o que envolve três estudantes em um campus na Universidade de Ohio que foram raptados, arrastados para uma localização isolada, e violentamente brutalizados ao longo de 12 dias em outubro de 1977. Desde o início as vítimas deram testemunhos que apontavam para mais de um criminoso, uma vez que um deles afirmava ter sido atacado por um homem com sorte sotaque estrangeiro, enquanto outro descrevia alguém aparentemente jovem com um sotaque do meio oeste, finalmente o terceiro dizia ter ouvido alguém que se comportava como uma criança. Confuso como isso pudesse parecer, as análises de impressões digitais deixadas na cena acabaram apontando para apenas um perpetrador, um rapaz de 22 anos chamado William Stanley Milligan, que estava em condicional e tinha uma longa ficha criminal que incluía roubo, estupro e outros crimes pesados. 


Um exame em Milligan, feito por psicólogos e psiquiatras concluiu que o sujeito sofria de uma desordem mental severa que o levava a criar múltiplas personalidades. De fato, duas de suas personalidades eram as responsáveis diretas pelo crime, enquanto o próprio Milligan nem imaginava que a atrocidade havia sido cometida. As personas eram descritas como sendo um homem velho comunista especialista em munições chamado Ragen e uma lésbica de 19 anos que atendia pelo nome de Adalana. Como resultado dessas bizarras descobertas, os advogados de Milligan alegaram insanidade, justificando que o rapaz era inocente e que suas personalidades bestiais tinham a culpa. A imprensa fez um grande estardalhaço com o caso, tratando-o como um verdadeiro acontecimento midiático que mereceu ampla cobertura. 

O estranho julgamento ocorrido em 1978, atraiu enorme interesse da sociedade. Billy Milligan se tornou a primeira pessoa nos EUA a ser considerado inocente em face de múltiplas personalidades, e ao invés da prisão ele foi enviado para uma instituição mental. Durante o período em que esteve sob intenso tratamento psiquiátrico, descobriu-se que ele tinha nada menos do que 24 personalidades diferentes. Ele foi tratado e finalmente liberado em 1988 quando medicamentos e terapia se mostraram suficientes para controlar seu estado. Milligan morreu de câncer em 2014, aos 59 anos. Ele foi a base para o livro "As mentes dentro de Billy Milligan" bem como um documentário, além de ter servido de inspiração para o filme Fragmentado (Split) de M. Night Shyamalan.

Um outro caso que ganhou notoriedade ocorreu no ano de 1979, quando uma faxineira de hotel de 23 anos chamada Juanita Maxwell foi presa sob a suspeita de ter assassinado Inez Kelley, sua supervisora de 72 anos. A vítima foi morta de uma maneira brutal, tendo recebido uma surra e mordidas, e finalmente ser asfixiada até a morte. Maxwell era a principal suspeita  em face de uma mancha de sangue da vítima encontrada em seu sapato. Quando detida, Juanita negou qualquer envolvimento e ficou sem palavras quando o sangue no solado do sapato a incriminou. 

Após um interrogatório, veio a superfície uma personalidade totalmente diferente que se mostrou apenas uma de um total de seis diferentes indivíduos que habitavam o seu corpo. Uma dessas pessoas atendia pelo nome de Wanda e era uma mulher agressiva cujo temperamento volátil se diferenciava totalmente da moça. Quando Juanita foi levada para a Corte em 1981, Wanda assumiu seu papel e confessou como havia matado Kelley com suas próprias mãos. A mudança de personalidade foi tão inesperada que alguns jurados afirmaram que até sua postura e maneirismos haviam mudado por completo.


Juanita Maxwell foi considerada inocente por motivo de insanidade, mas pelo seu histórico criminal, apurado durante o julgamento, ela teve de ser confinada em um manicômio judiciário. Ela foi finalmente liberada quando a personalidade de Wanda enfim foi contida através de drogas e terapia.

Outro caso muito conhecido envolveu o estuprador Thomas Huskey, que entre 1991 e 1992 violentou e estrangulou quatro prostitutas em Knoxville, Tennessee. Apelidado de "Homem do Zoológico" por causa de seu trabalho anterior tratando animais no Zoológico de Knoxville Zoo, Huskey alegava não ter qualquer lembrança dos horríveis assassinatos que lhe eram imputados. Após várias entrevistas, psicólogos perceberam a aparição de uma personalidade chamada Kyle que afirmava ser a responsável pelas mortes. Kyle explicava em detalhes como ele e não Thomas havia enforcado cada mulher. Durante esses episódios Huskey assumia um comportamento totalmente diferente, que incluía sotaque, cadência de fala, expressões faciais e até um tique nervoso próprio. Além disso, ele era canhoto, enquanto Huskey era destro. As evidências atestavam que ele não era culpado e que sua personalidade era de fato a responsável.

O caso sem precedente no Tennenssee foi a julgamento, com advogados alegando insanidade. O procedimento se arrastou por meses e se tornou um dos mais caros da história do estado. O juri ficou em um beco sem saída e não conseguiu chegar a um consenso o que levou as acusações a serem retiradas. Huskey recebeu tratamento e foi inocentado dos homicídios. Muitos especialistas afirmam que ele se aproveitou de uma estratégia e inventou tudo, mas quem pode saber ao certo?

Mas nem todos os casos que vão para a corte de justiça favorecem o acusado. No julgamento de Billy Joe Harris, preso no Texas em 2008 com acusações de ter atacado sexualmente uma idosa nas primeiras horas da manhã, o que lhe valeu o apelido de "Estuprador da Alvorada" as coisas não saíram como ele esperava. Quando ele foi acusado com base em uma evidência de DNA, Harris disse que sofria com apagões e que não se recordava muitas vezes do que fazia. Ele chegou a alegar sofrer com Múltiplas Personalidades em face de abusos sofridos quando criança, e que portanto isso seria um atenuante.


Durante o julgamento, uma personalidade chamada "Bobby"emergiu em vários momentos em que Harris assumia uma postura diferente e uma voz mais abafada. Houve muito ceticismo, uma vez que apenas um dos psiquiatras arrolados pela defesa concordava com a tese, enquanto que os da promotoria concluíram que aquilo não passava de encenação. Apesar disso, as dramáticas aparições de Bobby serviram para impressionar o juri. Nos últimos dias do julgamento a promotoria trouxe um dos psiquiatras mais famosos dos EUA, o Dr. James Bartlet para inquirir Harris e testar a alegada personalidade. Não demorou mais do que vinte minutos para que o psiquiatra conseguisse pegar o réu em contradições que provaram que Bobby sabia de acontecimentos da vida de Harris, o que seria impossível se ele realmente sofresse de Múltiplas Personalidades.

A defesa estabeleceu um novo patamar para as alegações de insanidade e fez com que muitos casos fossem declarados como fraudes e tentativas de ludibriar jurados com espetáculos de encenação. Esse caso foi importante para diminuir a frequência de alegações de insanidade que vinham se tornando cada vez mais comuns.

No fim, Billy Joe Harris acabou sendo condenado a prisão perpétua.

Igualmente sem sucesso foi a tentativa de alegar insanidade de Ernie Allan Hosack, que em 2012 matou brutalmente e desmembrou seu amante, Richard Falardeau. Quando a polícia chegou à casa que os dois dividiam em uma região de classe média da Pennsylvania, encontrou uma cena de crime absolutamente macabra; além de sangue nos tapetes e numa faca que estava na pia, descobriram na geladeira várias partes da anatomia de Falardeau, incluíndo dedos, o saco escrotal, pênis e suas orelhas. O torso havia sido colocado em uma bolsa de viagem e aguardava ser abandonada. Mais cedo naquele mesmo dia, Hosak havia se livrado dos membros e da cabeça que foram deixados em lugares diferentes da cidade.

Quando Hosack foi trazido para interrogatório, ele fingiu desmaiar e quando acordou uma personalidade diferente parecia ter assumido o controle de suas ações. Mais estranho, a figura alegava ser o avô paterno de Hosack, um homem conservador que alegava ter matado o "maldito viado" por não aceitar que ele tivesse um relacionamento com seu neto.


O interrogatório provou ser bizarro além das palavras, com Hosak assumindo no curso do questionamento várias outras personalidades, todas elas extremamente agressivas. Entre as personalidades havia um homem que alegava vir do futuro e que vivia em Marte no ano 2088, um padre que abusava de crianças, uma mulher histérica além de outras tantas personas estranhas. A todo momento a personalidade do avô vinha à tona gritando impropérios e xingando o neto, acusando-o de levar uma vida de pederastia e vergonha. Outra personalidade estranha disse que fora responsável por desmembrar Falardeau e guardar seus pedaços para que mais tarde "fossem usados em rituais de magia negra e bruxaria". 

Apesar do show, os psiquiatras chamados para atestar a sanidade de Hosak concluíram que ele estava fazendo uma encenação e que não sofria de transtornos de personalidade. Além de ser um excelente ator, descobriu-se que ele havia feito uma pesquisa a respeito do assunto que lhe concedeu a base para sua encenação. No fim, ele acabou sendo julgado culpado e recebeu uma sentença pesada.

O que podemos dizer de casos como estes? No fim das contas, a maioria das pessoas se divide entre a veracidade e a invenção em crimes envolvendo múltiplas personalidades. Seriam estas pessoas meramente mestres da manipulação? Haveria outras condições mentais além da esquizofrenia que seria capaz de ocasionar o surgimento de personalidades? Mesmo os especialistas na área de psicologia e psiquiatria se dividem quando o tema envolve múltiplas personalidades. Muitos acreditam que os casos são imensamente raros e que a grande maioria das alegações não passam de tentativas de escapar de punições mais severas. Mas há casos capazes de nos deixar estarrecidos.

A verdade é que a mente humana ainda constitui um terreno inóspito que as ciências comportamentais apenas começaram a mapear. Ainda existe muito a ser descoberto e compreendido, e por enquanto, é justo afirmar que ainda estamos tateando no escuro, tentando entender o que nos cerca.

domingo, 25 de março de 2018

A morte onde menos se espera - Um crime macabro a bordo de um ônibus


Existem crimes, e existem CRIMES.

No caso de Tim McLean, um jovem que foi vítima de uma chocante violência enquanto viajava de ônibus a caminho da cidade canadense de Winnipeg, os detalhes vão muito além de um crime convencional. O assassinato, horrível e grotesco deixou uma marca impossível de ser apagada na mente das testemunhas e desafiou o eficiente sistema de justiça do Canadá. Esta viagem de ônibus ao inferno não apenas custou a vida de um jovem de 22 anos, mas expôs de uma maneira até então inimaginável a realidade do que pode acontecer quando uma pessoa atormentada por uma grave doença mental perde o controle. 

Quando Vincent Li, um paciente diagnosticado com esquizofrenia, decidiu embarcar em um ônibus naquele dia, ninguém podia imaginar as consequências de seus atos e o terror que as vozes em sua mente desencadeariam. Mais tarde, chamado de "Matador do Ônibus Greyhound", Li cometeu um dos mais perturbadores e inacreditáveis assassinatos da década. Ele se tornou referência de horror, medo e choque em todo mundo. O que faz esse caso ser especialmente perturbador, aterrorizante não são os macabros detalhes, mas o fato de que poderia ter acontecido com qualquer um que estivesse no lugar errado, na hora errada.

Foi por volta das 18 horas, do dia 30 de julho de 2008 que Vince Li, um sujeito alto e forte de origem asiática, embarcou em um ônibus da Empresa Greyhound que seguia da Colúmbia Britânica para Winnipeg. Com quase 1.90 m e mais de 110 quilos, Li era uma figura fácil de ser percebida. Quando subiu no ônibus ele parecia confuso e agitado, alguns passageiros lembram que ele subiu e desceu duas vezes, supostamente para buscar alguma coisa em sua bolsa de viagem no compartimento de bagagens. Apesar disso, ele não parecia ameaçador. 

Li escolheu uma poltrona bem na frente do veículo, não falou com ninguém, e eventualmente desceu do ônibus rapidamente em uma parada para fumar um cigarro. Quando voltou para seguir viagem ele decidiu mudar de assento, escolheu um bem no fundo perto do banheiro, ao lado de Tim McLean que estava viajando sozinho.

Com apenas 22 anos de idade, McLean era um atleta e filho modelo, amado por sua família e amigos. Ele tinha uma família numerosa e estava voltando para Winnipeg, depois de conseguir uma folga em seu emprego como animador numa firma de entretenimento. Ele embarcou no ônibus 1170 passando por Saskatchewan e esperava chegar a tempo de encontrar seu irmão e sobrinho.


Quando Li mudou de assento, ele não disse nada, apenas removeu a mochila que estava ao seu lado sobre a poltrona e a acomodou na parte de cima. Segundo testemunhas Tim havia dormido encostado na janela ouvindo música no fone de ouvido. Não há razão para acreditar que ele tenha suspeitado do que estava para acontecer.

Vince Li não era um sujeito simpático. Antes de embarcar no ônibus naquela tarde, ele já vinha demonstrando alguns sinais de que estava perto de um surto mental. Ele passou a tarde inteira na estação rodoviária esperando a hora da partida. As câmeras de vigilância o filmaram sentado com o olhar fixo no vazio por várias horas. Em um determinado momento ele apanhou o celular e postou uma mensagem em um site de vendas: "Laptop à venda, 300 dólares". Em seguida apanhou a bolsa de viagem abriu, conferiu as coisas dentro e se deteve em algo embrulhado em uma camisa de flanela vermelha. Guardou a mochila entre as pernas e voltou a olhar o vazio com a mesma expressão distante. Por mais de seis horas ele permaneceu assim, vez ou outra repetia o ritual de abrir a mochila cuidadosamente e verificar o que levava embrulhado na camisa.

Li recebeu uma confirmação de venda do laptop enquanto ainda estava na estação. O aparelho foi comprado por um estudante, mas a polícia o confiscou após os acontecimentos. Quando os auto-falantes anunciaram a chegada do ônibus 1170, Vince levantou do banco, se espreguiçou e andou calmamente até ele. Uma fila já se formava e ele foi o quarto a embarcar.

Vince Li tinha 44 anos de idade e havia imigrado da China para o Canadá em 2001. Desde sua chegada havia encontrado dificuldades em se estabelecer, trabalhava em uma lanchonetes num Wallmart como funcionário de meio expediente. Dizia que tinha um outro emprego, mas na verdade dormia a manhã toda, às vezes com o auxílio de remédios controlados. As drogas eram para bloquear as vozes e os ruídos que ele afirmava escutar. O som, em seus delírios, era produzido por uma espécie de aparelho que havia sido implantado cirurgicamente por alienígenas na sua cabeça. Li dizia que havia sido abduzido por alienígenas e que eles o monitoravam constantemente, plantando pensamentos e tentando controlar suas ações.

Fazia duas semanas que Vincent Li havia cedido a outro delírio, o de que Deus havia dado a ele a missão de se livrar destes extraterrestres. Deus o instruiu a parar de tomar os remédios e jogá-los fora, Naquela manhã, ele havia feito um corte fundo com uma faca ao lado da orelha esquerda procurando o implante. Quando não o achou, decidiu cauterizar o corte com um ferro quente de passar roupa. Frustrado fez também cortes nos braços e pernas com a lâmina afiada. Os ferimentos auto infligidos ainda doíam, mas ele os disfarçou com um cachecol e roupas de manga comprida. Li costumava ficar diante de espelhos procurando transmissores sob a pele, em certa ocasião havia perdido o emprego depois de ser flagrado nu em um vestiário coletivo.

As vozes, é claro, eram um sintoma da esquizofrenia profunda que ele sofria. Li acreditava que aquele dia seria especial: Deus havia falado com ele e dito para que ele viajasse para Winnipeg onde encontraria os alienígenas que deveriam ser destruídos. De acordo com Deus, ele estava fazendo aquilo que era correto e necessário para salvar a humanidade.


Cerca de 40 minutos depois do ônibus continuar viagem, ele respirou fundo e falou sozinho em um tom enérgico. As pessoas que estavam próximas lembram que a voz soou nervosa em meio ao silêncio geral. Ele disse algo como "Está bem, está bem! Eu vou fazer". Mas todos imaginaram que ele estivesse simplesmente falando em um celular, não houve alarde. McLean com os fones no ouvido nem se deu conta.

Li então desembrulhou o objeto envolvo na camisa de flanela vermelha que estava escondido no seu casaco. Era uma faca de caça que ele havia comprado dias antes, a mesma lâmina que ele usou para se ferir. Calmamente, Li segurou a faca com a ponta para baixo e se inclinou sobre McLean que estava dormindo. O primeiro golpe atingiu violentamente o pescoço do rapaz que abriu os olhos com o susto. A faca foi removida e seguiram-se mais dois ataques, ambos no peito, antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo e gritar em desespero. Os gritos alertaram os demais passageiros que perceberam uma agitação no assento dos fundo.

A essa altura Li já havia desferido mais dois ataques brutais e a vítima não mais reagira As testemunhas que se depararam com a cena dizem que o agressor parecia calmo e seus movimentos eram quase robóticos. Ele não demonstrava nenhuma emoção. A faca continuava entrando e saindo do corpo de McLean e o sangue escorria em profusão.

Com os gritos e correria, o motorista encostou urgentemente na estrada. Imediatamente os passageiros começaram a descer do veículo, alguns caindo e levantando. Logo todos haviam saído e muitos telefonavam em celulares para reportar aquele horror à polícia.

Enquanto isso, no fundo do ônibus Li continuava a esfaquear o corpo já sem vida de McLean, produzindo um total de 62 estocadas distribuídas pelo pescoço, face, tórax e estômago. Alguns golpes foram tão fortes que quebraram o osso da face enquanto outros fraturaram costelas e perfuraram os pulmões. McLean morreu depois da quinta investida.


Os passageiros do lado de fora gritavam e tentavam parar algum carro. Finalmente o motorista e dois bravos passageiros decidiram entrar no veículo para tentar ajudar a vítima. Li percebeu o grupo e os perseguiu para fora, com a faca em punho e coberto de sangue. A visão era simplesmente apavorante!

Assim que o primeiro carro de polícia apareceu com as luzes da sirene piscando, cerca de 15 minutos haviam se passado. Li apareceu então na porta do ônibus e gritou algumas palavras sem sentido. Em seguida apanhou alguma coisa dentro do ônibus e atirou na direção da viatura. Era a cabeça de Tim McLean que havia sido decepada com a faca de caça. Ele voltou para o interior do veículo e se deitou entre os bancos empapados com o sangue pegajoso.

O policial enviou uma mensagem por rádio solicitando que outras viaturas fossem despachadas imediatamente. Havia a possibilidade de algum passageiro ainda estar lá dentro com o maníaco e se configurar numa situação com reféns. A Polícia Montada Real Canadense respondeu ao chamado e chegou ao local cercando a área e interrompendo o tráfego. Também tiveram o cuidado de desligar os cabos de ignição do motor.

Três policiais se prepararam então para abordar o ônibus e verificar a situação. Nenhum deles estava preparado para o que iriam ver. A cena no interior da cabine dos passageiros era de completa desordem, havia sangue para todo canto acumulando em poças e pegadas no chão, escorrendo nas paredes, nas janelas e poltronas. O cheiro era horrível já que o ambiente estava todo fechado. Algumas bolsas, malas e jornais estavam jogados pelo corredor central. No fundo do ônibus eles ouviram alguém xingando em uma língua estranha, mas estava muito escuro. 

Então, repentinamente viram um homem grande que estava escondido entre os assentos levantar. O sujeito estava coberto de sangue a ponto de seus cabelos ficarem emplastados. Ele segurava uma faca de caça e gritava alguma coisa fazendo menção de avançar. Um dos policiais armado com um taser disparou uma carga de eletricidade. O homem continuou avançando e outro taser foi acionado crepitando com uma luz azulada. O sujeito diminuiu o ímpeto, mas ainda foi preciso que o terceiro policial disparasse, com isso, finalmente, ele caiu inconsciente. 

Os policiais carregaram o assassino para o lado de fora onde ele foi imediatamente algemado e colocado em uma ambulância para ser levado a um hospital. Os paramédicos correram para socorrer a vítima, mas encontraram apenas uma cena dantesca. Nos quinze minutos em que ficou sozinho com McLean, o assassino se dedicou a mutilar o corpo e desmembrá-lo. Mais tarde ele explicou que em seus delírios via o rapaz como um dos alienígenas que o perseguiam e que ele regenerava os ferimentos e ainda parecia estar vivo.


Ainda mais chocante, em sua fúria, Li havia mordido e arrancado pedaços da vítima que foram mastigados e engolidos. Em determinado momento ele vomitou, mas então voltou a morder e lacerar. A polícia encontrou o nariz e a língua do rapaz dentro do bolso da calça do assassino, ambos foram arrancados a mordidas. O corpo mutilado e decapitado também não tinha o coração, supostamente este foi removido e devorado.

Embora Li fosse obviamento o único responsável pelo horrendo crime, a lei canadense concedia um tratamento relaxado para casos envolvendo doença mental. Li se recusava a aceitar um advogado e teve de ser colocado sob efeitos de tranquilizantes nas duas vezes em que foi apresentado a defensores públicos. Por fim, decidiram que ele deveria ser primeiro medicado até que seu surto diminuísse. Eventualmente ele acabou se acalmando e ofereceu completa cooperação com os médicos psiquiatras e autoridades.

Li abriu mão de se defender e reconheceu sua participação naqueles acontecimentos medonhos pelos quais pediu perdão. Ele aceitou se internar no Centro Selkirk de Saúde Mental em Manitoba onde foi mantido sob vigilância constante. Durante o tratamento para o quadro agudo de esquizofrenia ele se mostrou um paciente cooperativo e com o tempo ganhou o privilégio de receber visitantes e de sair de sua cela. Li adotou o nome Will Baker.

A família de Tim McLean preferiu não se manifestar a respeito do ocorrido, embora "Baker" tenha enviado a eles repetidos pedidos de perdão por conta de toda dor e sofrimento que ele havia causado. Através de uma entrevista em um jornal, os pais de McLean disseram que não queriam encontrar com o assassino de seu filho e que não estavam prontos para perdoá-lo pelo que havia acontecido. Eles afirmaram compreender que na ocasião o assassino não tinha controle sobre seus atos, mas que ainda assim, não teriam condições de encontrá-lo.

Muitas testemunhas daquela viagem de horrores também nunca se recobraram por completo do trauma. Alguns desenvolveram sintomas semelhantes a SPT (stress pós-traumático) e experimentavam pesadelos, crises de ansiedade e pavor em espaços confinados ou ao ouvir sons altos. A coisa que a maioria dos passageiros dizia se lembrar com perfeita clareza era o som dos gritos desesperados da vítima e acordar em meio aquele terror. Muitos afirmam que jamais conseguiram esquecer daquele som aterrorizante.

Em fevereiro de 2017 a corte de justiça do Canadá decidiu que Will Baker não representava mais uma ameaça significativa a segurança pública e para a comunidade. Por isso decidiram liberá-lo para a vida em sociedade, treinando-o em uma ocupação, garantindo a ele total reintegração. Entre as condições para sua soltura, ele deve tomar remédios regularmente e reportar a um médico toda semana. 

O Crime no Ônibus Greyhound é considerado ainda hoje um dos casos mais terríveis ocorridos no Canadá, um país seguro e com uma taxa de homicídios muito baixa. Uma pesquisa realizada em 2014 apurou que o incidente no ônibus 1170 se encontra no topo de uma lista de medos mais profundos entre a população.