quarta-feira, 11 de abril de 2012

Algo Cthulhiano próximo ao Sol - O que seria essa forma gigantesca?

Imagens divulgadas recentemente pelo Observatório Orbital Solar Dynamics mostram algo estranho que aparece próximo ao Sol.

A coisa, que aparenta ser um enorme objeto em formato esférico (possivelmente com dimensões maiores que a própria Terra) não apenas está próximo, mas parece estender longos filamentos dirigidos ao sol como se de alguma forma estivesse absorvendo a energia diretamente da estrela.

O objeto ficou nessa posição por vários dias até simplesmente se afastar velozmente, provocando um turbilhão solar com seu deslocamento.

Cientistas da NASA relacionaram o acontecimento com um fenômeno natural e apresentaram outras imagens em que o tal fenômeno pode ser visto. No entanto, o fenômeno ocorrido em 12 de Março parece bastante diferente daquele demonstrado pelos astrônomos.

Tirem suas próprias conclusões a respeito do que pode ser:



Parte 2:



* * *

Apesar do tom sensacionalista do programa, as imagens são bem legais. Não sei quanto a vocês, mas essa imagem me lembra (e muito!) um dos Great Old Ones mais absurdos do Mythos.

Na verdade, quanto mais eu vejo, mais parece uma "câmera indiscreta" flagrando CTHUGHA, o Senhor das Chamas de Formaulhaut estendendo seus tentáculos para drenar energia de nossa estrela.

Será que algum culto apocalíptico aqui na Terra conseguiu contatar brevemente Cthugha e ofereceu nosso Sol como sacrifício?


Em um vasto universo de coisas inimagináveis, com fenômenos igualmente maravilhosos e aterradores, nós, meros humanos, só podemos nos conformar em ser observadores ao mesmo tempo maravilhados e aterrorizados com a grandiosidade do que está lá fora e nossa absoluta insignificância.

Achou interessante? Então leia também:

- 1833 - O Fim do Mundo em uma chuva de estrelas:

http://mundotentacular.blogspot.com.br/2010/03/1833-o-fim-do-mundo-em-uma-chuva-de.html

- Kuracinth: Uma entidade cósmica do Mythos:

http://mundotentacular.blogspot.com.br/2010/02/kuracinth-um-horror-cosmico-para-call.html

- Lovecraft e a astronomia:

http://mundotentacular.blogspot.com.br/2010/02/o-interesse-de-lovecraft-pela.html

terça-feira, 10 de abril de 2012

Horrível Sincretismo (Parte II) - O Divino e o Mythos lado a lado

Para fechar o tema, aqui estão mais alguns objetos e artefatos inspirados em elementos das Religiões formais com um perverso twist do Mythos de Cthulhu.

Os dois primeiros foram criados por Bobby Derries, os dois últimos são criações minhas.

O Apocalypse de R'leyh

Os apócrifos Cristãos e Judaicos (textos não canônicos) relatam muitos apocalipses, sonhos e visões proféticas que revelam o destino da humanidade. Os mais famoso Apocalipse está contida a bíblia e lida com os últimos dias da Terra, o retorno do messias e o julgamento final de Deus sobre a humanidade.

O Apocalipse de R'Lyeh é um texto dessa mesma natureza, a transcrição das visões de um pescador judeu do Mar da Galileia chamado Yigael ben Yeshua. Escrito em aramaico por volta de 50 dC. o livro descreve o fim do mundo, causado por um segundo dilúvio, o resultado do despertar de um Leviatã, que dormia nas profundezas do mar aguardando um alinhamento das estrelas. A maior parte das visões de Yigael são uma tentativa de compreender os acontecimentos dentro do contexto de suas crenças, o que leva a várias contradições.

Para a maioria dos estudiosos que tiveram a oportunidade de examinar o documento, o Apocalipse de R'Lyeh não passa de um trabalho absurdo relatando os devaneios de uma mente perturbada. Notavelmente intrincado, muitos especialistas o desqualificam como uma obra digna de atenção acadêmica. Indivíduos com conhecimento do Mythos de Cthulhu, entretanto são capazes de reconhecer no confuso texto referências óbvias a Abissais, a Raça Anciões, Dagon, Hydra e outras entidades. O livro também se mostra acurado sobre alinhamentos cósmicos e fornece magias de contato e invocação.

O documento foi encontrado por pastores de ovelhas em 1939 no interior de uma caverna na Palestina. Os manuscritos em pele de carneiro estavam acondicionados em um grande jarro de cobre. Seus descobridores, venderam os rolos que acabaram parando nas mãos de estudiosos na Universidade do Cairo. Quando a Segunda Guerra teve início, agentes alemães no Egito foram incumbidos de saquear a biblioteca da universidade em busca de artefatos religiosos e ocultos.

Supõe-se que o manuscrito tenha sido removido nessa ocasião e contrabandeado para a Europa. A tradução teria sido realizada em meados de 1942 pelo ocultista Karl Hans Dietrich, membro proeminente da Sociedade Thulegesselshaft. Durante a guerra, trechos do documento que ensinavam a magia para contatar os Abissais foi usada pelos nazistas para tentar uma aliança com o povo das profundezas. Com o fim do conflito, o documento foi recuperado em um bunker junto com outros importantes documentos saqueados ao redor do mundo. A Operação de reintegração desse material foi supervisionada pela divisão conhecida como Delta Green. É provável que os documentos originais ainda estejam em poder dos americanos, não se sabe quantas cópias desse documento foram feitas no período em que ele esteve em poder dos alemães.

A Genizah de Salamanca

Na tradição judaica, nenhum texto que comtém o nome sagrado de Deus pode ser destruído. Muitos documentos religiosos, bem como arquivos e contratos que são jurados em nome de Deus, são dessa forma preservados. As sinagogas possuem um aposento especial onde tais documentos são armazenados, as genizah. Não por acaso esses arquivos se tornaram com o passar dos séculos depositários de conhecimento para arqueólogos, historiadores e caçadores de tesouros.

A prática de manter a genizah persistiu até os tempos medievais, inclusive na próspera comunidade judaica estabelecida na cidade espanhola de Salamanca. Salamanca era uma cidade antiga, fundada pelos romanos e conquistada pelos mouros durante o período de ocupação islâmica na Península Ibérica. A cidade foi um dos centros de comércio e cultura mais importantes da Europa, sendo que a fabulosa universidade era uma das mais antigas e prestigiadas instituições da Idade Média.

Em parte pela universidade, em parte pela presença de muçulmanos e judeus, Salamanca sempre teve uma reputação de misticismo e religiosidade. Rumores abundavam sobre depósitos secretos abaixo da cidade, onde estudantes da universidade se reuniam secretamente para realizar experimentos ocultos. A população ignorante falava de pactos com o diabo, feitiçaria e consórcio com as forças mais negras ocorrendo no submundo.

De fato, tais boatos se originaram a partir da existência da Genizah de Salamanca - um depósito subterrâneo de textos judaicos que reunia entre outras coisas um extenso acervo de tomos ligados ao Mythos. A Genizah era fechada e só podia ser consultada por rabinos confiáveis, capazes de manter a discrição à respeito do conteúdo de alguns desses trabalhos blasfemos. Muitos dos livros escritos em árabe e em hieroglifos egípcios eram criteriosamente traduzidos pelos rabinos e estudiosos. Muitos acreditam que uma facção judaica usava esse conhecimento adquirido para confrontar as forças do Mythos.

A Genizah de Salamanca se manteve até a fatídica ordem de expulsão dos judeus da Espanha decretada pela Rainha Isabel I no final de 1400. Impossibilitados de remover o vasto conteúdo da Genizah, um rabino tentou incendiar o acervo para que ele não caísse em mãos erradas. O homem foi detido tendo destruído apenas parcialmente o depósito que foi saqueado no caos que se seguiu à fuga dos judeus.

A maior parte do material se perdeu, anos e anos de conhecimento, mas dentre os saqueadores haviam alguns que conheciam o valor de papéis antigos. Estudiosos do Mythos cogitam que entre os tesouros mais valiosos contidos na coleção encontrava-se um volume do Al-Azif em árabe, possivelmente a última cópia conhecida do tratado escrito por Al-Hazred.

O Sudário Negro

Um dos maiores mistérios da cristandade diz respeito ao Sudário de Turim, o pano que supostamete teria coberto o corpo de Jesus Cristo após sua morte no calvário. O pano, um simples tecido de linho é considerado pela Igreja Católica como uma de suas mais importantes relíquias. O Sudário que acredita-se tem as marcas do corpo no qual ele esteve envolvido teria sido protegido por cultos cristãos e levado até a cidade de Constantinopla onde ficou em poder de uma família que realizava negócios com autoridades em Jerusalém. Quando a terceira cruzada destruiu a Capital Bizantina, o Sudário foi roubado e levado para a França. Séculos mais tarde ele foi ofertado à Igreja tornando-se a mais valiosa relíquia adornando a Catedral de Turim.

Para alguns, a importância do Sudário está acima das incertezas sobre a sua autenticidade. A Igreja submeteu o Sudário a perícia científica que atestou se tratar de um tecido contemporâneo a época medieval. Suspeitas de erro na datação por carbono 14 sempre foram levantadas e muitos cientistas se dividem à respeito.

O que poucas pessoas sabem é que outros sudários apareceram ao longo da história. Um dos tecidos mortuários mais notórios esteve em poder da Catedral da cidade de Düsseldorf na Alemanha. Ao contrário dos outros sudários, este não era exposto como relíquia embora sua importância fosse incontestável para a história do catolicismo. Tratava-se do alegado Sudário que recobriu o corpo de Judas Iscariotes, aquele que traiu Cristo por 30 moedas de prata.

A história de Judas nos textos bíblicos se encerra quando ele, corroído pelo remorso comete suicídio enforcando a si mesmo. Pouco se sabe à respeito do destino de seu corpo, mas supõe-se que ele tenha sido recolhido e depositado em uma cripta. No século VIII, ladrões de sepultura invadiram um lugar nos arredores de Jerusalém de onde extraíram um sudário que recobria um corpo horrivelmente deformado. Tendo encontrado uma placa com o nome Judas, acreditaram que a cripta encerrava os restos do traidor, punido pelo seu crime com a deformidade dos seus restos mortais. Os ladrões recolheram o tecido negro e o venderam. Ao longo dos séculos, o sudário, doravante chamado de "O Sudário Negro" passou por famílias nobres, segundo as lendas trazendo tragédias e amargor. Tamanha a sina dos que o possuíram, acreditava-se pesar sobre ele uma maldição.

No século XVIII ele foi ofertado a Igreja e recolhido a um aposento na Catedral de Düsseldorf. Em 1944, um pesado bombardeio aliado destruiu a Catedral e o misterioso tecido se perdeu nos destroços.

O Sudário Negro não foi o pano que recobriu Judas Iscariotes. No passado ele foi usado para proteger o cadáver de um feiticeiro devotado aos Mythos. Esse feiticeiro também chamado Judas (um nome comum na Judéia), havia se aliado a raça dos ghouls, os abutres de homens. Por muito tempo ele andou na companhia dessas criaturas imundas partilhando de seus costumes medonhos, saciando sua fome com o fruto proibido do canibalismo. O feiticeiro ambicionava se tornar líder dos ghouls comandando um culto devotado ao Grande Antigo, Mordiggian. As horríveis deformidades em seus restos evidenciavam que ele estava em processo de se transformar em um ghoul.

Ignorado por todos, o tecido não foi destruído no bombardeio. Farejando a importância do pedaço de tecido, ghouls abriram caminho nos restos fumegantes da Catedral e recolheram o tecido carregando-o consigo para os subterrâneos. Um culto de ghouls se formou ao redor desse macabro artefato e a raça de escavadores espera um dia, com a benção de Mordiggian, conseguir trazer de volta à vida o poderoso feiticeiro que usou esse tecido maldito.

O Selo de Babel

A história da Torre de Babel, palavra que em hebráico significa "muitas línguas" é bem conhecida. Ela narra uma história de orgulho na qual os homens desejavam construir uma torre tão alta e magnífica que seria possível através dela ascender aos céus e encontrar Deus.

A torre é uma metáfora sobre os perigos da obstinação humana e da sede do homem em revelar os segredos do divino e sondar os mistérios de Deus. Para punir os homens pela sua ousadia, Deus fez com que se os trabalhadores da torre de uma hora falassem línguas diferentes. Com cada grupo falando um idioma distinto, os homens não conseguiam mais se entender e a colossal obra foi gradualmente abandonada caíndo no esquecimento.

Apesar de parecer apenas uma parábola, a Torre de Babel é mais verdadeira do que se pode imaginar e tal construção chegou a ser edificada na antiga Babilônia.

No idioma de Yith, "babel" significa "Portal Infinito" e era esse o objetivo da construção comandada ao longo de gerações por engenheiros que dominavam notável conhecimento matemático. Os responsáveis pela construção, embora parecessem humanos, eram controlados pelas poderosas mentes da Grande Raça de Yith, uma forma de vida que habitava o passado ancestral da Terra. O plano da Grande Raça era construir um monumento maior do que qualquer coisa já feita pelas mãos do homem. Através dessa construção tencionavam abrir um portal cósmico que lhes permitiria migrar fisicamente do passado da Terra para aquela época em especial. Com isso, poderiam escapar do destino apocalíptico que havia extinguido sua raça quando invasores espaciais, os Pólipos vieram do espaço (todos leram "Shadow out of Time"?)

A Torre com fundações gigantescas e blocos de pedra ciclópicos, começou a ser construída e levou gerações para que se erguer do chão. Logo tornou-se uma enorme empreitada atraíndo milhares de operários em um esforço coletivo que só podia ser equiparado a construção das Pirâmides do Egito.

Na ocasião em que a Torre foi concluída, selos cristalinos projetados com a avançada ciência de Yith foram posicionados no alto da construção para acionar o portal. Mas o plano da Grande Raça, cuidadosamente urdido ao longo de gerações, estava fadado ao fracasso. Não se sabe ao certo o que ocasionou o efeito inesperado: a sabotagem deliberada de algum culto (Hastur é um inimigo mortal dos Yithianos!), o envolvimento de alguma sociedade secreta ou mesmo um erro de cálculo.

Quando o último selo cristalino foi acionado, uma explosão devastou toda a região matando imediatamente quem estava num raio de 25 quilômetros e condenando outros tantos a uma lenta morte por envenenamento radioativo. A Torre de Babel foi colhida por uma explosão nuclear de 50 megatons (só para constar a bomba de Hiroshina registrou 15!) que destruiu totalmente a construção em um flash de 6.500 graus célsius. Tamanho poder desencadeado foi comparado a Ira de Deus.

A história real da Torre de Babel foi esquecida pelos cronistas e a lenda incorporada à parábola bíblica. Mas ignorado por todos, a tecnologia cristalina de Yith não foi destruída na explosão e um dos Selos que desencadeou a explosão sobreviveu arremessado à quilômetros de distância aterrizando na fronteira do atual Irã.

Arqueólogos do Instituto de História Nacional encontraram em 1982 fragmentos radioativos cristalinos no deserto ao norte do Irã. Esses fragmentos vem sendo estudados com interesse pela Comissão de Energia do Governo de Teerã que pretende usá-los para fins pacíficos de geração de energia e para o programa secreto de construção de armas nucleares.

sábado, 7 de abril de 2012

Horrível Sincretismo - O Mythos e o Divino lado a lado


Com base no texto escrito por Bobby Derrie que assina como Ancient History.


A história das religiões ocupa uma parte essencial de nossa cultura.

Trabalhos religiosos e especulativos sobre o tema preenchem bibliotecas inteiras e as sagradas escrituras tem o poder de agir como lentes de aumento permitindo compreender quase tudo na vida... inclusive os Mythos de Cthulhu.

Enquanto muitos keepers podem se sentir pouco à vontade em adicionar elementos sobre religiões do mundo real em seus jogos, é importante lembrar que de um ponto de vista puramente histórico, religião faz parte do background do universo lovecraftiano. Foi o Patriarca Michael de Constantinopla quem queimou as cópias da versão grega do Necronomicon e foi o monge Olaus Wormius quem traduziu o mesmo livro para o latim. A Ordem de Dagon se estabeleceu em Innsmouth apenas depois de expulsar as igrejas cristãs. A perseguição às bruxas em larga escala na Europa e na América, a Inquisição, supostamente enfrentou cultos devotados ao Mythos além de eliminar bruxos e feiticeiros à serviço dessas forças. Estes são exemplos de acontecimentos religiosos narrados na obra de Lovecraft, outros autores são até mais generosos ao detalhar acontecimentos importantes e o Mythos.

O ponto chave desse artigo é usar a riqueza de informações oriunda das principais religiões do mundo e adicionar à elas elementos do Mythos. Em um mundo onde supostamente entidades, divindades e criaturas absurdas existem, seria inconcebível supor que em algum momento elas não tivessem cruzado o caminho das crenças humanas.

Este artigo apresenta uma série de artefatos, tomos e relíquias que se referem ao mesmo tempo ao Mythos e as Religiões organizadas da atualidade.

O Evangelho de Leng


O Novo Testamento canônico cristão não inclui todos os evangelhos escritos ou os documentos mais primitivos escritos no início da cristandade. A decisão final à respeito de quais livros deveriam ser considerados canônicos - e portanto serem inclusos na bíblia sagrada, foi pronunciada no Concilio de Trento em 1546. Muitos evangelhos, apocalipses, cartas e outros trabalhos perdidos foram deliberadamente excluídos do cânone, incluíndo todos os Evangelhos Agnósticos e os livros que supostamente explicavam a vida de Jesus entre o seu nascimento e o início de seu ministério.


Tais trabalhos circularam desde a aurora do cristianismo e se dissiminaram durante o Período Medieval, mas através dos esforços da Igreja Católica o cânone se tornou sacrosanto enquanto os evangelhos menores se tornaram obscuros, sendo em alguns casos proibidos ou destruídos. Apenas recentemente foram feitas descobertas sobre textos que até então pouco se sabia ou que sequer eram conhecidos. Coletivamente, esses trabalhos não canônicos são conhecidos como apócrifos.

O Evangelho de Leng é um destes documentos. Ele descreve a peregrinação de um homem santo para o oriente e sua exposição aos ensinamentos de religiões obscuras, menciona ainda a terrível jornada até o proibido Platô de Leng, e os mistérios blasfemos que ele aprendeu com os cultistas que habitam essa região insalubre. Ou assim está escrito.

O Evangelho de Leng não é totalmente claro, ele é composto por uma série de velhos manuscritos em aramaico misturado a uma forma de Naacal, e portanto apenas parcialmente traduzido. Ele teria sido descoberto por um missionário que entrou em contato com uma tribo Tcho-Tcho habitando a Ásia Menor. Esses Tcho-tchos acreditavam no Evangelho de Leng e haviam criado uma religião baseada em estranhas práticas cristãs pervertidas por medonhos rituais de canibalismo e sacrifício humano. O culto, considerado herético para os outros tcho-tchos teria sido aniquilado em meados do século XIX por tribos rivais. Trechos do documento foram ditados pelo missionário -- totalmente enlouquecido após passar anos na companhia dos tcho-tcho -- em seu leito de morte.

O conjunto de manuscritos descrevem a viagem até Leng de um homem-santo do oeste e seus estudos com os sacerdotes de uma estranha ordem. Ele relata sua iniciação no culto, como ele veio a dominar grandes poderes e como ele finalmente partiu de volta ao ocidente para cumprir seu destino. O nome "Jesus" não aparece em momento algum no manuscrito original. Os tcho-tcho provavelmente interpretaram erroneamente a identidade do peregrino, supondo que ele seria o messias cristão.

Não se tem notícia de manuscritos sobreviventes, mas as anotações feitas a partir dos devaneios do missionário cristão (jamais identificado) se encontram na biblioteca da Universidade de Milão, na Itália.

O Totem de Tsathoggua


Satanismo em momento algum da história foi uma religião organizada, trata-se de um culto que tenta deliberadamente imitar, ridicularizar e inverter o sentido das práticas da Igreja Católica. Rituais satânicos incluem a chamada "missa negra" que pretende ser uma versão pervertida da celebração católica. Conduzida sobre um altar nu, utilizando regalias religiosas roubadas e devidamente profanadas, o conceito da missa negra parece ter se enraizado no imaginário coletivo a partir da Idade Média. Elementos clássicos como gatos pretos, orgias, consumo de sangue, o desenho d epentagramas, a presença de bodes entre outros sinais, se tornaram sinônimo de consórcio com o inimigo de Deus e marca indelével desses cultos.


O Totem de Tsathoggua é um ritual do Mythos que foi inadvertidamente abraçado por cultos satânicos e adotado em celebrações dentro dessa tradição. O sapo é um dos símbolos de Tsathoggua, uma entidade amorfa reverenciada na antiga Hyperborea; satanistas na França medieval descobriram manuscritos que descreviam um ritual que envolvia a crucificação de sapos e assumiram que se tratava de uma forma de blasfêmia contra Cristo. Na verdade, o manuscrito descrevia um ritual cujo objetivo final era contatar o Deus Sapo.

O Ritual do Totem de Tsathoggua é uma variação da magia Contatar Tsathoggua que requer o apropriado sacrifício de um sapo ou outro anfíbio em um altar devidamente preparado. O animal é empalado com espetos de ferro ou crucificado com pregos em uma tábua. Outros participantes do ritual devem cantar palavras de poder que abrem os canais para a vinda de Tsathoggua.

Podemos apenas supor que a inseperada chegada de Tsathoggua deve ter causado surpresa aos primeiros satanistas que realizavam esse ritual sem saber das suas implicações. Posteriormente o foco de muitos destes cultos mudou, de Satã para Tsathoggua, quando os cultistas compreenderam a natureza do ritual. Isso explica porque o culto de Tsathoggua foi reavivado na europa ocidental do século XVI, desaparecendo posteriormente graças ao traballho da Inquisição. Em meados do século XVIII, um novo culto que honrava o Deus Sapo se instalou nos arredores de Amsterdam.

Manuscritos descrevendo o Ritual do Totem de Tsathoggua existem em Universidades e Museus da Europa. Sabe-se de exemplares em poder de instituições na Holanda, Dinamarca, França e Espanha, outros devem existir com colecionadores (ou mesmo cultistas de Tsathoggua).

O Tabernáculo da Montanha Sagrada


Na região central dos Estados Unidos, nos Apalaches, ondas de fervor religioso deram origem a intensas variações do cristianismo. Muitas dessas interpretações surgiram e desapareceram. Uma prática particularmente estranha surgida e difundida a partir dos anos 1920 envolvia a manipulação de serpentes e veneno.


Esses estranhos e pequenos ministérios eucarísticos em geral eram congregações que se reuniam em êxtase para testemunhar como os pastores domavam a serpente, representando as forças do mal, mais especificamente Lúcifer (a Serpente do Paraíso). Nessas celebrações também era comum a realização de curas pela fé, o anúncio de profecias, pessoas falando em línguas estranhas e é claro acidentes envolvendo envenenamento. Muitos dos fiéis mais antigos traziam em seus corpos os sinais de inchaço e descoloramento da pele ocasionado pelas picadas de cobras.

O Tabernáculo da Montanha Sagrada é um pequeno ministério que realiza serviços religiosos itinerantes pelo interior da América. Seu público alvo são os habitantes ignorantes de povoados isolados, homens brancos da classe trabalhadora facilmente impressionáveis diante de alegados milagres de fé. O ministro, um jovem milagreiro que atende pelo nome de Joachim Smith, costuma falar em línguas misteriosas e tem visões fantásticas, ele lê as parábolas extraídas de uma velha e obscura bíblia cheia de notas de rodapé e desenhos estranhos.

O Tabernáculo não está diretamente conectado ao Mythos, embora ele pareça ser um típico culto devotada aos Antigos. Um grupo de investigadores experientes pode supor que os membros do culto são inimigos, uma presunção à princípio falsa.

A tragédia que recai sobre Joachim Smith é que ele é um descendente distante do Povo Serpente e que em seu poder encontra-se uma Cria Sagrada de Yig (uma enorme serpente venenosa). Sua familiaridade faz com que ele seja imune ao veneno de serpentes e consiga exercer um certo grau de controle sobre os animais peçonhentos.

Infelizmente os seguidores da congregação não tem o mesmo benefício e Smith é obrigado a viajar para evitar problemas com as autoridades sempre que um de seus seguidores morre.

Embora não seja necessariamente maligno, o culto sob influência de Smith está fadado a enveredar por um caminho de fanatismo e auto-destruição. As visões inflamadas do reverendo e o uso de veneno da Cria de Yig em rituais tem potencial para condenar seu rebanho a loucura.

A Heresia de Averoigne


Quando a Igreja Católica ainda estava se estabelecendo, a doutrina religiosa foi duramente imposta. Como resultado, heresia florescia e a corrupção reinava entre os clérigos ocupando posições de poder. À despeito de muitas tentativas de realizar uma reforma institucional, demorou quase mil anos até a Igreja de Roma estabelecer regras quanto a temas delicados como celibato e costumes rurais abundantes no interior da Europa. Arianismo, a Heresia dos Cátaros, Albigeneses e outros conflitos menos lembrados compõem a violenta história de contestação e repressão empreendida pela Igreja.


Na pequena província rural de Averoigne, localizada em Gales, coisas blasfemas eram sussurradas a respeito de Azédarac, o Arcebispo de Vyones. Como alguns religiosos do período, Azédarac tinha reputação de ser um necromante. As más línguas diziam que ele negociava seu malefício para aqueles que lhe pagassem em dinheiro, influência ou luxúria. Sua reputação questionável não evitou que ele fosse canonizado como um santo.

A Heresia de Averoigne se iniciou quando fiéis em Vyone e Ximes (cidade natal do "santo") começaram a tratá-lo como um verdadeiro messias. Os fiéis contagiosos pelo fervor religioso seguiam à risca as curiosas parábolas escritas por Azéderac, entoavam os salmos e hinos que ele havia composto e acreditavam que o Santo ressurrecto voltaria para guiá-los pessoalmente ao Reino dos Céus.

Anos depois da morte do arcebispo em meados de 1198, uma cruzada foi conclamada contra os hereges de Averoigne. Ximes e Vyones as cidades onde a heresia grassava abertamente foram cercadas: tumbas, igrejas e palácios acabaram destruídos e saqueados.

A verdade é que Azédarac em vida foi um poderoso feiticeiro e servo devoto dos Grandes Antigos, sobretudo Yog-Sothoth. Ele usava sua posição de prestígio no clero para disfarçar suas atividades, realizando cerimônias profanas no interior da própria igreja de Vyones. Após sua morte, os seguidores e aprendizes de Azéderac espalharam rumores sobre milagres que ele havia supostamente realizado. O plano era trazer a população lentamente para a adoração aos Antigos. Rumores sobre rituais profanos praticados pelos sacerdotes alertou as autoridades que ficaram horrorizadas.

Após a cruzada, vários tomos e artefatos dedicados ao Mythos que pertenciam a Azéderac foram saqueados e espalhados pelas províncias adjacentes. Investigadores podem encontrar esses tesouros ainda em poder de famílias nobres ou colecionadores.

É possível que padres seguidores de Azáderac tenham sobrevivido à cruzada e escapado carregando consigo outros artefatos e iniciando seu horrível ministério em áreas afastadas. Quem sabe, nas criptas de alguma Igreja medieval ainda possam ser encontrados documentos, tomos e outras coisas remanescentes dessa época. Personagens acadêmicos, historiadores e estudantes podem tomar conhecimento da Heresia de Averoigne e empreender uma busca a esses tesouros e quem sabe até descobrir que o culto continua ativo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Religião e o Mythos - Relacionando os Antigos com as crenças de ontem e hoje

Muitos autores que trabalham com o Mythos evitam fazer conexões diretas entre suas criações fictícias e as religiões formais existentes.

Esse ponto de vista tem menos a ver com ateísmo do que com o materialismo: nas estórias, cultistas do Mythos tipicamente veneram "entidades" feitas de carne e osso (ou algo similar), e se associam com seres não-humanos em suas cerimônias, como os Abissais e outras raças, compartilhando seus fundamentos e crenças. De certa forma, eles sabem da existência concreta das criaturas por eles veneradas, enquanto as demais religiões "tradicionais" dependem quase que puramente da fé.

H.P. Lovecraft sempre deixou claro que um dos grandes diferenciais de sua obra para seus predecessores é o caráter materialista do universo por ele vislumbrado. Suas criações não são formalmente deuses ou demônios dentro de um contexto puramente religioso. As "divindades lovecraftianas" provém de outras realidades, outros planetas, outras esferas além do tempo e espaço, e embora possam ser considerados como "deuses" em virtude de seu poder, a designação não é inteiramente apropriada.

Se as formigas em um jardim fossem dotadas de consciência e discernimento, será que elas tomariam os gigantes humanos que andam pelo quintal como deuses? E mais importante esses "deuses" as perceberiam de alguma forma?

Na obra de Lovecraft, o que faz dos Grandes Antigos "deuses" é a percepção e a sujeição das pessoas que se congregam em cultos ao redor deles. A consciência da insignificância da humanidade diante dessas forças colossais, simplesmente compele os indivíduos a se atirar de joelhos implorarando pelo favor ou por piedade. Podemos dizer que Lovecraft era tendencioso ao explicitar que culturas "inferiores", "primitivas" e "mestiças" tinham maior tendência a se sujeitar a essas entidades de corpo e alma. Assim é por exemplo em "O Chamado de Cthulhu" onde o Grande Antigo é o foco de um culto global cujos centros de poder se encontram nos pântanos, nos ermos e nos recônditos do mundo civilizado.

Os deuses, se tanto, poderiam ser as entidades cósmicas, os Deuses Exteriores que representam tempo, vida, caos... mas mesmo estes, Lovecraft não tratava como entidades: Yog-Sothoth, Azathoth, Shub-Niggurath não controlam o universo, ao invés disso são a personificação dos elementos que compõem o universo. Sem eles tudo desmoronaria. Eles não são, por analogia os regentes do castelo, e sim o próprio castelo, as paredes, a argamassa e a estrutura.

Nesse sistema complexo qual seria a função das religiões formais? Qual o papel do cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo...

Lovecraft em momento algum de sua obra afirmou categoricamente que Deus não existe. O que é curioso para alguém como o próprio Lovecraft, que se definia como um ateu convicto.

Alguns defendem que os Deuses Antigos (Elder Gods) são uma tentativa de Lovecraft de inserir no universo tumultuado do Mythos as divindades tradicionais. O mais conhecido representante desse Panteão é Nodens, uma divindade concebida na mitologia celta. Se o deus celta é também um Deus Antigo, os outros deuses também o são?

Lovecraft jamais entrou nesse mérito e com a sua morte outros tentaram responder essa pergunta. August Derleth um de seus seguidores mais próximos tentou traçar uma linha divisória que separava o universo em duas frentes bem definidas: o bem e o mal.

Na concepção de Derleth, os Grandes Antigos seriam forças elementares malignas (Cthulhu=água, Cthugha=fogo, Hastur=ar e Nyarlathotep=terra), enquanto os Deuses Antigos representariam forças benevolentes que tentariam preservar a humanidade. Os dois lados antagônicos se enfrentariam desde o início dos tempos. Derleth chegava até a sugerir que o alinhamento de estrelas responsável por aprisionar os Grandes Antigos teria sido impetrado pelos Deuses Antigos através de alguma magia ou ritual poderoso.

O ponto de vista de Derleth tem muito a ver com sua crença pessoal cristã, em contraponto com a visão de Lovecraft de um universo onde a existência de deuses "que se importam com a humanidade" é no mínimo questionável.

Muito criticado pelas suas idéias, Derleth foi acusado de desvirtuar um dos dogmas centrais do Mythos: a Indiferência Cósmica. Ao afirmar que os Deuses Antigos tentam defender a humanidade contra as depredações dos Grandes Antigos, assumia que a humanidade tinha alguma importância ou função nessa guerra cósmica. O ponto de vista entra inclusive em contradição se considerarmos que a humanidade foi gerada por acidente nos laboratórios dos Elder Things (como alude Lovecraft em Montanhas da Loucura).

Após a morte de Derleth, alguns autores tentaram contornar a questão e desmentir essa relação de dicotomia, bem versus mal.

Os Deuses Antigos começaram a ser descritos não como entidades bondosas e generosas, mas como seres distantes da humanidade. Sua luta contra os Grandes Antigos estaria acima de tudo, inclusive do bem estar da própria humanidade. Se de alguma forma, a humanidade se beneficiasse dessa postura, seria por mero acaso, puro Deus ex Machina.

Ao contrário de Derleth, a maioria dos autores a partir de então preferiu evitar inserir entidades do passado na classe dos Deuses Antigos. De um modo geral, essa classe inteira ficou defasada em relação aos Grandes Antigos, muito mais numerosos. Formalmente, além de Nodens, podemos citar apenas Hypnos (um deus grego), Bast (uma deusa egípcia), Ulthar e mais alguns poucos nomes obscuros.

Além disso, muitos autores começaram a interpretar deuses do mundo antigo, venerados por civilizações do passado, como disfarces assumidos por uma mesma entidade superior.

Dentro do universo de indiferença dos Mythos para com a humanidade, existe uma notável exceção: Nyarlathotep.

O Caos Rastejante não apenas tem ciência da existência da humanidade, mas aparentemente se diverte manipulando, incentivando ou coibindo seus esforços ao longo das eras. Há rumores que dão conta que ele foi ele o responsável por sussurrar na mente dos homens a idéia para armas terríveis, do arco e flecha ao gás mostarda, das armas de cerco até os mísseis intercontinentais. Quando cientistas romperam o átomo, teria sido Nyarlathotep quem possibilitou a façanha.

Porque Nyarlathotep se importa com a humanidade é um segredo, um enigma, um mistério sem explicação.

Fato é, que Nyarlathotep assume a forma de inúmeros avatares para interagir com povos ao redor do mundo e é visto como um deus por muitos deles. Pelo cânone do Mythos, Nyalarthotep é a identidade verdadeira de várias divindades: Aku-Shin-Kage (no Japão), o Barão Samedi (entidade do Vodu), Pan (na Grécia Clássica), Cernunnos (deus celta), Kokopelli (deus nativo americano), Pazzuzu (demônio sumério-babilônico), Set e Thoth (ambos deuses egípcios), Loki (Deus Nórdico), Tezcatlipoca (divindade Azteca)...

Todos esses aspectos pertenceriam a Nyarlathotep, o Grande Enganador, fazendo-se passar por divindades que um dia foram seguidas por homens e mulheres.

Isso nos leva a um ponto delicado. E se isso ainda estivesse acontecendo? E se as principais religiões fossem na verdade uma terrível e derradeira brincadeira de Nyarlathotep para manipular espiritualmente a humanidade ao seu bel-prazer?

Fanatismo, intolerância, perseguições, terrorismo, guerras... embora a maioria das religiões professem a sabedoria do bem e a virtude da paz, é inerente ao homem perverter esses ensinamentos e transformá-los em algo aberrante. Há muitos exemplos ao longo da história e eles continuam acontecendo à despeito de nossa alegada civilização.

Pensando no poder e influência que as religiões detinham até recentemente (e que ainda detém em vários cantos do mundo) não seria totalmente improvável que Nyarlathotep fosse o idealizador e controlasse as maiores religiões da atualidade.

O conceito de Nyarlathotep sendo a verdadeira face por trás do demônio da tradição judaico-cristã não é exatamente novo. Mas o que aconteceria se o Caos Rastejante tivesse decidido jogar dos dois lados para assim garantir seu domínio sobre a humanidade? Há uma infinidade de Anjos, Santos, Mártires e mesmo de Messias que poderiam secretamente esconder a face sardônica do Grande Enganador.

É o tipo do pensamento terrível que poderia ocupar toda uma campanha com duras revelações capazes de abalar permanentemente algumas das crenças mais profundas da humanidade.

Nota: a imagem no alto desse artigo é baseada no quadro "One Nation Under God", uma adaptação apocalíptica do arrebatamento de uma nação diante de um Grande Antigo, no caso Cthulhu.

Nota 2: Esse artigo não busca desvirtuar qualquer aspecto da fé alheia ou criar polêmica. Ele parte do pressuposto que esse é um blog de horror que explora aspectos obscuros da ficção fantástica e nesse âmbito é plenamente válido uma certa latitude ao tratar desses temas.

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terça-feira, 3 de abril de 2012

Investigando os Mythos mais obscuros - Baoht Z'uqqa-Mogg

Que tal fugir um pouco do óbvio?

Uma das coisas interessantes à respeito do Mythos de Cthulhu é que essa mitologia particular não é estática. Ela está sempre em movimento, sempre em expansão. Cada novo autor acrescenta algo, uma lenda, um tomo, um horror...

Dentro desse universo em expansão, sempre há espaço para algo novo e terrível, a idéia desses tópicos é investigar alguns destes horrores obscuros e trazer à luz essas criaturas pouco conhecidas.

Vamos começar com algo especialmente desagradável:

BAOTH Z'UQQA-MOGG

O Grande Antigo Baoht Z'uqqa-Mogg é uma aberração quase desconhecida, obscura mesmo para os parâmetros do Mythos de Cthulhu.

Descrito em alguns poucos tomos, ele é chamado de "Disseminador da Pestilência", embora seja também conhecido como "Aquele que traz as doenças" e "A Peste Rastejante".

Baoht Z'uqqa-Mogg é descrito como uma monstruosidade semelhante a um imenso escorpião, coberto por placas segmentadas de quitina negro-esverdeada. A face do Grande Antigo é uma massa bulbosa dotada de uma quelícera gotejando veneno e uma infinidade de olhos insetóides multifacetados abrindo e fechando. Ele possui duas garras de caranguejo que estalam ruidosamente e vários pares de pernas cobertas de grosso cabelo escuro e áspero. O corpo brilhante e oleoso verte uma espécie de pus nauseante que atrai uma infinidade de insetos que se abrigam cavando e se escondendo nos recessos de seu exoesqueleto e espaços entre suas asas dorsais. No segmento final, ergue-se uma cauda serrilhada com um afiado ferrão na ponta, usado como arma.

Poucas coisas podem ser mais tenebrosas que a proximidade dessa aberração hedionda.

O fedor que exala da criatura é indescritível. Uma mistura de ninho de inseto, leite estragado e terra que pode ser sentida a longa distância. Outro fator que tende a denunciar a proximidade de Baoht Z'uqqa-Mogg é a presença de insetos de todos os tipos e tamanhos infestando a área por ele tocada. Infestações desse tipo podem se manter ativas por anos, como se a presença da criatura fosse um fator que congregasse todos insetos de uma região. Em alguns casos, mudanças podem ser percebidas em insetos que apresentam crescimento além do normal, coloração doentia e alterações grotescas.

Há rumores que Baoht Z'uqqa-Mogg seja nativo de Shagghai, o mesmo planeta que um dia abrigou uma raça de insetos dotados de inteligência e malevolência. Assim como os Sham, o Great Old One de alguma maneira conseguiu escapar da destruição de Shaggai, embora os meios utilizados por ele sejam ignorados. Não se sabe ao certo qual o seu lar atual, mas alguns teóricos acreditam que Baoht Z'uqqa-Mogg só constrói um corpo físico quando invocado, sendo normalmente uma força incorpórea habitando outra realidade.

Talvez isso explique porque ele só pode ser invocado em lugares onde impera um cenário de sujeira e corrupção, como depósitos de lixo, pântanos, esgotos e cemitérios. Quando o ritual para invocar Baoht Z'uqqa-Mogg é concluído, ele emerge do solo, escavando o chão ruidosamente, em meio a uma verdadeira erupção de sujeira, terra e bile virulenta. Não demora até que uma massa rastejante e voadora de insetos, seja atraída recobrindo cada centímetro de seu corpo como se fosse uma enorme casca de ferida viva.

Não há um culto humano devotado a Baoht Z'uqqa-Mogg, sua natureza insalubre tende a afastar mesmo os mais degenerados cultistas.

No entanto, há rumores que no passado essa divindade foi venerada, sobretudo em períodos de provação em meio a pestes e pragas. No Império Bizantino do século VI aflorou um culto devotado a essa entidade nefasta. Os cultistas acreditavam que a entidade era o causador da Praga de Justiniano que assolou o império. Para se livrar da doença eles ofereciam sacrifícios ao Grande Antigo. Não é preciso dizer que nada disso acontecia.

Na caótica Europa Central, durante o conturbado século XIII uma ordem monástica seguidora de Baoht Z'uqqa-Mogg surgiu em Praga. Essa ordem tencionava disseminar doenças e aniquilar a humanidade, acreditando que apenas aqueles livres de pecado seriam poupados da doença. Embora a ordem tenha falhado, a destruição deflagrada por inúmeras doenças -- entre as quais a peste negra -- devastou quase 60% dos habitantes da Europa no período. Se a ordem teve ou não relação com essa alta taxa de mortalidade, nunca saberemos.

Uma das razões que tornam o menor contato com Baoht Z'uqqa-Mogg perigoso é o fato dele ser portador de terríveis doenças contagiosas.

A bile que goteja do Grande Antigo é um verdadeiro coquetel de toxinas letais que causam uma infecção quase incontrolável. Vítimas mordidas pela quelícera, picadas pelo ferrão ou expostas à substância no corpo do Grande Antigo são infectados automaticamente. Estas experimentam uma morte horrenda e dolorosa à medida que cada órgão no corpo apodrece, desmancha e se liquefaz.

A doença avança rapidamente e pode ser transmitida através de contato físico. As vítimas sofrem com efeitos que se assemelham ao estágio terminal da lepra. Insetos que tem contato com a substância que recobre o monstro, podem se converter em vetores da doença, embora nesse caso a potencialidade seja mitigada. A picada desses insetos pode transmitir uma versão menos potente -- ainda que altamente debilitante -- da doença.

Em 1998, uma equipe do Centro de Doenças Infecciosas (CDI) foi chamado para lidar com um foco de infecção (hot zone) até então desconhecida no México. O foco principal na cidade de Jalisco foi neutralizado, junto com um grupo de cultistas que havia inadvertidamente invocado Baoht Z'uqqa-Mogg. No entender dos epidemiologistas envolvidos no episódio a situação esteve próxima de fugir do controle e criar uma zona de contágio em larga escala. Apesar do CDI negar, em seus laboratórios são mantidas amostras com a cepa dessa doença misteriosa.

Felizmente a influência de Baoht Z'uqqa-Mogg sobre a humanidade continua sendo discreta.

* * *

Recentemente o ilustrador Paul Carrick, um dos mais talentosos artistas a dar vida ao Mythos apresentou esse trabalho com base em Baoht Z'uqqa-Mogg.

O desenho é para o futuro lançamento da Editora Chaosium, Cthulhu Atomic Age (que deve trazer cenários centrados na paranóia dos anos 50).

Acompanhe abaixo a evolução do desenho feito por Carrick: