Por Ransey Campbell
Traduzido por Arthur Ferreira Jr, extraído do Blog "Domínio Publicano"
IMPRESSÃO FRIA
…mesmo os servos de
Cthulhu não ousam mencionar Y'golonac, pois virá o tempo em que Y'golonac
libertar-se-á da solidão das eras para mais uma vez caminhar entre a
humanidade...
—REVELAÇÕES DE GLAAKI,
VOLUME 12
Sam Strutt lambeu seus dedos e os
limpou no seu lenço; as pontas de seus dedos estavam cinzentas e sujas de neve
da barra da plataforma de ônibus. Então puxou seu livro da sacola de politeno ao
seu lado, retirou o tíquete de ônibus do meio das páginas, uniu-o à capa para
proteger esta de seus dedos, e começou a ler. Como muitas vezes acontecia, o
condutor assumia que o tíquete autorizava a jornada atual de Strutt; e este não
o corrigia. Lá fora, a neve rodopiava, descendo pelas ruas laterais e escorrendo
por entre as rodas dos carros estacionados.
O
barro enlameou suas botas quando saiu da Brichester Central e, escondendo a
sacola sob seu casaco para melhor protegê-la, arrastou-se até a banca de livros,
quase escorregando nos flocos de neve que se assentavam sobre a rua. As vidraças
da banca não estavam bem fechados; a neve havia se infiltrado e caído sobre as
brochuras lustrosas. “Olha só isso!” reclamou Strutt com um jovem que estava
perto dele e ansiosamente esquadrinhava a multidão, colocando seu pescoço por
dentro da gola, como se fosse uma tartaruga. “Não é nojento? Essas pessoas não
se importam mesmo!” O jovem, ainda observando os rostos úmidos, concordou de
maneira abstraída. Strutt foi ao outro lado da banca, onde o assistente
distribuía jornais. “Ei!” chamou Strutt. O assistente, separando troco para um
cliente, fez gesto de pedir que esperasse. Sobre as brochuras, pelo vidro
esfumaçado, Strutt percebeu o jovem correr e abraçar uma garota, e então
gentilmente enxugar o rosto dela com um lenço. Strutt notou o jornal segurado
pelo homem que aguardava o troco. Lia-se ASSASSINATO BRUTAL EM IGREJA EM RUÍNAS;
na noite anterior um corpo fora encontrado dentro das paredes sem teto de uma
igreja de Lower Brichester, quando a neve foi retirada de uma imagem de mármore,
revelou macabras mutilações sobre o cadáver, mutilações ovais que pareciam – O
homem tomou do jornal e seu troco e saiu para a estação. O assistente voltou-se
para Strutt, sorridente: “Desculpe fazê-lo esperar.” “Sim,” disse Strutt. “Você
percebe que esses livros estão pegando neve? As pessoas podem querer comprá-los,
sabe.” “Você quer comprar um?” respondeu o assistente. Strutt apertou os
lábios e voltou-se para o vento que trazia a neve. Por trás dele ouviu o retinir
de vidraça contra vidraça.
A banca BONS LIVROS PRA LER NA ESTRADA
servia de abrigo a quem passasse; ele fechou a vidraça que batia e começou a
checar os livros. Nas prateleiras, os títulos atuais mostravam a capa frontal
enquanto outros, a contracapa. Garotas riam próximo a cartões de natal
engraçados; um homem de barba por fazer foi pego por uma rajada de vento, cheia
de flocos de neve incômodos, e parou, olhando ao redor, incerto. Strutt apertou
a língua com os dentes; não deveriam permitir que vagabundos ficassem nas
livrarias, sujando os livros. Atento com a visão periférica, para ver se o homem
dobraria as capas dos livros, ou quebraria as encadernações, Strutt moveu-se
entre as prateleiras, mas não conseguiu achar o que procurava. Porém,
conversando com o caixa, estava um assistente que havia conversado com ele,
elogiando Noites Violentas no Brooklin quando Strutt comprara esse
volume, semana passada, e pacientemente ouvira uma lista das leituras recentes
do
professor, embora
houvesse parecido que ele não reconhecera os títulos. Strutt aproximou-se e
inquiriu:
“Olá
– tem outros livros empolgantes para esta semana?”
O
homem o fitou, confuso. “Outros...?”
“Você
sabe, livros como este?” Strutt levantou a sacola de politeno para mostrar a
capa cinzenta de O Mestre do Chicote, de Hector Q., da editora Ultimate
Press.
“Ah,
não. Acho que não temos.” Tamborilou os lábios. “Exceto – Jean
Genet?”
“Quem?
Ah, você quer dizer, Jennet. Não, não, obrigado, ele é chato feito água
parada.”
“Bem,
desculpe, senhor, mas acho que não posso ajudá-lo, então.”
“Oh.”
Strutt sentiu-se rejeitado. O homem parecia não tê-lo reconhecido, ou talvez
estivesse fingindo. Strutt havia conhecido esse tipo de gente antes, sempre
reprovando intimamente seu gênero de leitura. Ele buscou pelas prateleiras
novamente, mas nenhuma capa chamou sua atenção. Na porta, desabotoou
furtivamente a camisa, para proteger seu livro mais ainda, quando sentiu uma mão
descer sobre seu braço. Cheia de gordura, a mão deslizou até tocar sua sacola.
Strutt a expulsou com raiva e confrontou o vagabundo.
“Espera
um pouco!” sibilou o homem. “Você está procurando mais livros como esse? Eu sei
onde pode encontrar alguns.”
Esta abordagem ofendeu o senso
orgulhoso de leitura de Strutt, que não tinha razão para ser suprimido. Ele
puxou a sacola dos dedos que dela se aproximavam. “Então, gosta desse tipo de
literatura também, não é?”
“Ah,
sim, tenho vários.”
Strutt
fisgou a isca para ver se valia a pena. “Tipo quais?”
“Oh,
Adão e Evandro, Me Leve Onde Quiser, todas as aventuras do Harrison, você
sabe, são várias.”
Strutt
admitiu, resmungando por dentro, que a oferta do sujeito parecia genuína. O
assistente os observava; Strutt devolveu o olhar. “Muito bem,” disse. “Onde é
esse lugar de que você está falando?”
O
outro tomou de seu braço e puxou-o com disposição para a neve que soprava.
Erguendo sobre os rostos suas golas, os pedestres deslizavam por entre os
carros, enquanto esperavam pela remoção de um ônibus que havia derrapado; os
flocos de neve esmagavam-se nos cantos dos para-brisas e sobre os limpadores. O
homem arrastou Strutt por entre as buzinas que soavam e gritavam, e então por
entre duas vitrines de lojas, onde moças fitavam presunçosas enquanto vestiam
manequins sem cabeça, e então por um beco. Strutt reconheceu a área como um
lugar onde havia procurado em vão por livrarias escondidas; desapontantes
alcovas de revistas masculinas, o ocasional hálito quente e pungente de
cozinhas, carros cheios de coberturas de neve, bares ruidosos oferecendo calor
contra o clima frio. O guia de Strutt esgueirou-se pela porta de um bar público,
para espanar o casaco; a camada branca rachou e caiu. Strutt juntou-se ao homem
e ajustou o livro em sua sacola, aninhada sob sua camisa. Bateu as botas no
chão, para tirar a crosta de neve, parando enquanto o outro seguia; não queria
ficar conectado àquele homem, mesmo numa ação tão trivial. Observou com
desagrado o companheiro, seu nariz inchado que agora fungava, a barba rala que
se mexia nas bochechas que inflavam quando o homem soprava as próprias mãos
trêmulas. Strutt tinha horror de tocar qualquer pessoa que não fosse
meticulosamente limpa. Além da porta, os flocos de neve já começavam a cobrir
suas pegadas, e o homem disse: “Sempre sinto tanta sede, ao caminhar rápido
assim.”
“Era esse seu jogo, não era?” Mas a
livraria o esperava. Strutt andou pelo bar e pediu duas doses a uma enorme
garçonete, de busto arrepiado de frio, que ia e voltava com os copos e girava as
torneiras com gosto. Velhos fumavam cachimbo em vagas alcovas, um rádio
blaterava marchinhas, os homens segurando canecos alvejavam com jovial
imprecisão tanto um jogo de dardos quanto as escarradeiras. Strutt dobrou seu
casaco e ficou próximo ao homem; o outro permaneceu como estava e ficou olhando
para a própria cerveja.
Determinado a não falar, Strutt prestou atenção aos
espelhos turvos que refletiam grupos gesticulantes ao redor de mesas lotadas,
fora de sua linha de visão direta. Mas gradualmente ficou surpreso com a
taciturnidade de seu companheiro de mesa; era certo que essas pessoas (assim
pensava ele) eram notavelmente loquazes, na verdade, virtualmente impossíveis de
calar a boca? Aquilo era intolerável; sentar à toa num boteco de esquina
abafado, quando podia estar caminhando, ou lendo – algo devia ser feito. Engoliu
a própria cerveja e bateu com o vidro no protetor de mesa. O outro o imitou. E
então, visivelmente embaraçado, começou a bebericar, parecendo estranhamente
nervoso. Ficou depois óbvio que o sujeito estava brincando com a espuma, e então
pôs o copo na mesa e começou a fitá-lo. “Parece que é hora de irmos andando,”
disse Strutt.
O
homem olhou para cima; o medo arregalou seus olhos. “Jesus Cristo, eu estou todo
molhado,” resmungou. “Levo você lá assim que a neve baixar.”
“Era
esse seu jogo, não era mesmo?” Gritou Strutt. Nos espelhos, alguns olhos o
fitaram.
“Você não vai tirar esse drinque de mim, a troco de nada! Não vim até
aqui pra...!”
O
homem andou para lá e para cá, encurralado.
“Tá
bom, tá bom, mas pode ser que eu não encontre o lugar nesse tempo
feio.”
Strutt
achou que essa última frase havia sido idiota demais para merecer resposta.
Levantou, e abotoando seu casaco, atravessou as arcadas nevadas, olhando para
trás para ter certeza de que estava sendo seguido.
As
últimas vitrines de lojas, e por trás delas pirâmides de latas, marcadas com
rótulos mal escritos, eram substituídas por linhas de janelas furtivamente
acortinadas, postas em panoramas cansativos de tijolo vermelho; por trás das
vidraças, decorações de Natal penduradas como coroas de flores fúnebres.
Atravessando a rua, enquadrada pela janela de um quarto, uma mulher de
meia-idade puxava as cortinas e escondia o rapaz adolescente em seu ombro.
Strutt não perguntou exatamente aonde estavam indo; achava que podia controlar a
figura à frente sem falar com ele, e de fato não tinha interesse de falar com o
homem quando ele parava, trêmulo, sem dúvida devido ao frio, e voltava a andar,
apressado, enquanto Strutt, cinco centímetros mais alto que o metro e setenta do
outro, e de melhor físico, continuava a segui-lo. Por um instante, quando um
pedaço de neve caindo o empurrou para a rua, os flocos superexpondo o ambiente e
cortando suas bochechas como navalhas temporárias de gelo, Strutt ansiou por
conversar, falar das noites que passara acordado em seu quarto, ouvindo a filha
da senhoria ser espancada pelo pai, no quarto um andar acima, tentando pegar os
sons abafados que vinham do ranger de camas, talvez do casal abaixo. Mas esse
momento passou, levado pela neve; o fim da rua havia se aberto, separado por uma
demarcação em duas pistas acarpetadas de neve grossa, uma virando para
esconder-se entre as casas, e a outra mais curta, pegada à rotatória. E agora
Strutt sabia onde estava.
De um ônibus que pegara antes, naquela semana, havia
notado aquela placa de MANTENHA À ESQUERDA jogada inútil sobre a demarcação, sua
face voltada para baixo.
Cruzaram a rotatória,
embrenharam-se pelos restos decompostos de relheiras, cheios de poças
enganosamente cobertas, acumuladas por trás do rastro de escavadeira de uma obra
de restauração do bairro, e adiantaram através do remoinho branco até um trecho
de terreno baldio, onde uma fogueira solitária esgotava a força da neve. O guia
de Strutt esgueirava-se para dentro de um beco e o professor o seguiu,
tencionando manter-se próximo do outro conforme este batia a neve granulada das
tampas das latas de lixo e esquivava-se de portões de quintais onde cães
arranhavam e grunhiam. O homem virou à esquerda, e então à direita, por entre os
paredes próximas e labirínticas, entre casas cujos cantos cruéis das vidraças
quebradas e portas oscilantes e tortas, nem mesmo a neve, mais gentil para com
prédios do que para com seus ocupantes, pode suavizar. Uma última virada e o
homem deslizou para uma calçada sob os restos de uma loja, sua fachada quase
vazia, salvo por garrafas de vinho sob um pôster com os dizeres, HEIN 57 VARIET.
Uma massa de neve caiu dos frangalhos de toldo, apenas para ser engolida pelo
bueiro abaixo. O homem ficou ali tremendo, mas quando Strutt o confrontou,
apontou temerosamente para a calçada oposta: “Ali está, já
chegamos.”
Rastros
de lama da neve derretida molharam as calças de Strutt ao atravessar a rua,
enquanto este checava mentalmente que, enquanto o homem tentara desorientá-lo,
ele havia deduzido qual avenida principal estava a cerca de quinhentos metros
dali, e então leu a inscrição por sobre a loja: LIVROS AMERICANOS: COMPRA E
VENDA. Tocou uma cerca que protegia uma janela opaca abaixo do nível da rua,
deixando uma ferrugem úmida irritá-lo sob as unhas, e observou a vitrine na
janela diante de si: História do Flagelo – um livro que achara monótono –
dividindo espaço com romances de ficção científica de Aldiss, Rubb e Harrison,
que escondiam-se envergonhados por entre capas lascivas; Le Sadisme au
Cinéma; o Voyeur de Robbe-Grillet, parecendo estar perdido; Almoço
Nu – nada que valesse sua jornada até ali, refletiu Strutt. “Tudo bem, é
hora de entrar,” impeliu o homem para dentro, e com uma olhadela por cima do
tijolo vermelho erodido na janela do primeiro andar, notando as costas do
espelho de penteadeira encaixado para substituir uma vidraça, Strutt também
entrou. O outro pausou mais uma vez e por um segundo desagradável, os dedos do
rapaz roçaram o casaco úmido do sujeito. “Vamos lá, onde estão os livros?”
exigiu, abrindo alas para entrar na loja.
A
amarelada luz solar fazia-se ainda mais sombria pela influência da vitrine e das
revistas de pin-up penduradas pelo lado de dentro da janela almofadada; a poeira
flutuava preguiçosamente pelos raios de luz dispersos. Strutt parou para ler as
capas das brochuras enfiadas em caixas de papelão em uma mesa, mas as caixas
continham apenas faroestes, fantasias e erotismo americano, vendidos por metade
do preço. Fazendo careta diante dos livros que tinham as pontas esticadas como
pétalas em flor, Strutt passou pelos encadernados e espiou atrás do balcão,
levemente preocupado; quando havia fechado a porta ao passar pelo sino sem
lingueta, havia imaginado ouvir um grito em algum lugar próximo, rapidamente
contido. Sem dúvida, seria o tipo de coisa que se ouve o tempo todo por aqui,
pensou, e voltou-se para o outro: “Bem, eu não vi ainda a razão para ter vindo
aqui.
Ninguém trabalha nesse lugar?”
De olhos arregalados, o homem fitava
para além dos ombros de Strutt; este olhou para trás e viu o painel de vidro
fosco de uma porta, um canto do vidro completado com papelão, negro contra uma
diáfana luz amarelada, que filtrava-se através do painel. Presumiu ser o
escritório do livreiro – será que ele havia ouvido o comentário de Strutt? O
professor confrontou a porta, pronto para enfrentar alguma impertinência. Então
o homem passou por ele, buscando distraidamente algo por trás do balcão, abrindo
descuidadamente uma cristaleira cheia de volumes de sobrecapas de papel marrom,
e finalmente extraindo um pacote de papel cinzento de seu esconderijo em um
canto da cristaleira. Jogou o pacote para Strutt, resmungando, a pele sob seus
olhos pinicando em tiques: “Olha um aí, olha um aí,” e observou Strutt rasgar o
pacote.
A
Vida Secreta de Wackford Squeers – “Ah, esse é bom,” aprovou Strutt,
distraindo-se momentaneamente e metendo a mão no bolso em busca da carteira; mas
dedos gordurentos agarraram seu pulso. “Pague na vez seguinte,” implorou o
homem. Strutt hesitou; será que dava pra ficar com o livro sem pagar? Naquele
exato momento, uma sombra tremulou por sobre o vidro fosco: um homem sem cabeça,
arrastando algo pesado. Decapitado pelo vidro fosco e por sua posição agachada,
racionalizou Strutt, percebendo então que o livreiro deveria ter contato com a
Ultimate Press; e ele não deveria prejudicar este contato, roubando um livro.
Empurrou os dedos frenéticos do sujeito para o lado e contou duas libras; mas o
outro recuou, esticando os dedos num visível temor, e escolheu-se contra a porta
do escritório, de cujo painel a silhueta de antes havia desaparecido, antes de
quase aninhar-se contra o peito de Strutt. O professor o empurrou e deixou as
notas no espaço deixado na cristaleira, onde estava antes o Wackford
Squeers, e então virou-se para o sujeito: “Não vai embalar o livro? Aliás,
não, pensando melhor, eu mesmo faço isso.”
O
cilindro no balcão soltou de maneira estrondosa uma faixa de papel marrom;
Strutt tirou um pedaço descolorido. Ao empacotar o livro, afastando o pé da
embalagem anterior, algo caiu no chão. O outro havia recuado até a porta da
frente, quando fez um botão solto de seu punho puxou a borda de uma caixa cheia
de livros; ficou pasmo diante dos livros espalhados no chão, mãos e boca bem
abertas, um pé sobre um romance aberto como se fosse um mariposa pisada, e ao
seu redor flutuavam os ciscos de poeira por entre os raios de luz salpicados de
neve solta. Em alguma parte, ouviu-se o clique de uma tranca. Strutt respirou
fundo, fechou seu pacote com fita adesiva e, rodeando o homem com ar de
desagrado, abriu a porta. O frio atacou suas pernas. Começou a subir os degraus
e o outro disparou em seguida. O pé do homem estava na soleira da porta, quando
passadas fortes aproximaram-se, sentidas no tremer das tábuas. O homem deu
meia-volta, e abaixo de Strutt, a porta bateu. Strutt esperou; mas então
ocorreu-lhe que poderia se apressar e livrar-se do guia. Alcançou a porta e uma
brisa purulenta de neve alfinetou-lhe as bochechas, limpando a poeira velha da
loja. Virou o rosto e, chutando a casca de neve que formara-se sobre a manchete
de um jornal molhado, dirigiu-se para avenida principal, que ele sabia ser
próxima.
Strutt acordou tremendo. O sinal
em neon do lado de fora da janela de seu apartamento, algo clichê, mas teimoso
como uma dor de dente, definia-se extravagante contra a noite a cada cinco
segundos, e baseado nisso e nas rajadas de vento frio, Strutt soube que era
manhãzinha. Fechou novamente os olhos, mas embora suas pálpebras estivessem
quentes e pesadas, sua mente não se anuviou. Além dos limites de sua memória,
espreitava o sonho que o havia acordado; ele movimentava-se temeroso. Por alguma
razão, havia pensado numa passagem de sua leitura noturna anterior: “Quando Adão
chegou à porta, sentiu a mão de Evandro agarrar a sua, torcendo seu braço para
trás, forçando-o a ajoelhar-se no chão...”
Seus olhos abriram-se e buscaram a
estante, em busca de alívio; sim, o livro existia, seguro dentro de sua capa,
cuidadosamente alinhado a seus companheiros. Lembrou-se de retornar para casa
uma noite, para encontrar Senhorita Whippe, Governanta à Moda
Antiga, enfiado dentro de
Prefeitos e Bichas, escangalhado dentro de Prefeitos e Bichas; a senhoria explicou que ela deve ter
substituído erroneamente após a limpeza, mas Strutt sabia que ela os havia
danificado de propósito. Comprou uma estante com tranca, e quando a senhoria
pediu a chave, ele respondeu: “Obrigado, acho que posso lidar com os livros eu
mesmo.” Você não consegue fazer amizades hoje em dia. Ele fechou os olhos
novamente; o quarto e a estante, criados em cinco segundos pelo neon e
destruídos em igual regularidade, encheram-no de seu vazio, lembrando-o que
ainda restavam semanas até o começo do novo período letivo, quando enfrentaria a
primeira aula da manhã e adicionaria o “Vocês já me conhecem” à usual
apresentação no estilo “Vocês jogam limpo comigo e eu jogo limpo com vocês,”
aviso que algum garoto certamente testaria, e Strutt teria de lidar com ele; ele
viu a extensão de cadeiras de ginásio espalhadas, lá onde ele bateria um tênis
de ginástica com força revigorante – Strutt relaxou; embalado pelo eco
totalizante de pés como pilões sobre o chão de madeira do ginásio, o balançar
febril das barras de parede quando os rapazes subiam como enxame na direção do
teto, e olhando fixamente para cima, acabou adormecendo.
Ofegando,
obrigou-se a fazer os exercícios matutinos, e então bebeu rapidamente o suco de
frutas que era sempre sua primeira escolha na bandeja trazido pela filha da
senhoria. Maldosamente bateu com o copo ao devolvê-lo à bandeja; o vidro trincou
(ele iria dizer que era uma acidente; ele pagava aluguel suficiente para cobrir
esse prejuízo, e podia muito bem ter um pouco de satisfação com esse dinheiro).
“Imagino que você teve um Natal estupendo,” falou a garota, inspecionando o
quarto. Ele pensou em agarrá-la pela cintura e satisfazer aquela feminilidade
arrogante – mas ela já havia ido embora, as pregas de sua saia dançando,
deixando o estômago de Strutt embrulhado e quente de
antecipação.
Depois,
arrastou-se até o supermercado. De vários jardins vinha o arranhar de pás
limpando a neve, ruído de fazer rangir os dentes; esses sons diminuíam e eram
respondidos pelo chiados da neve engolindo as botas que andavam. Quando emergiu
do supermercado, abraçado a um monte de latas, uma bola de neve roçou seu rosto
para esmagar-se contra a janela, formando uma barba translúcida, que descia pela
vidraça como o muco dos narizes daqueles rapazes que mais sentiam a cólera de
Strutt, pois ele tinha o propósito de extrair aquela feiura, aquela hediondez,
na base dos castigos físicos. Strutt olhou ao redor, buscando quem havia
arremessado a bola de neve – um menino de sete anos, que subia em seu triciclo
para fugir com rapidez; Strutt moveu-se involuntariamente, como se fosse puxar o
garoto para dar-lhe uma surra. Mas a rua não estava deserta; logo a mãe da
criança, de bobes saindo por debaixo de um lenço, batia na mão do filho: “Eu te
avisei, não faça isso – Desculpe,” dirigiu-se ela a Strutt. “Está bem,”
resmungou, e marchou de volta a seu apartamento. Seu coração batia
incontrolavelmente. Desejava de maneira febril que pudesse conversar com alguém,
como havia conversado com o livreiro dos limites de Goatswood, que compartilhava
de seus instintos; quando o homem morrera, no começo daquele ano, Strutt
sentira-se abandonado num mundo hostil e de conspiração tácita. Talvez o dono da
nova loja pudesse provar-se similarmente simpático? Strutt teve esperanças de
que o homem que o havia conduzido até ali não fosse um atendente, mas se ele
era, certamente poderia ser alguém de quem se podia livrar – um livreiro com
contatos com a Ultimate Press certamente deveria ser alguém similar ao próprio
Strutt, que se oporia tanto quanto ele à presença daquele sujeito, enquanto
estivessem conversando com franqueza. Além desses devaneios, Strutt precisava de
livros para ler naqueles feriados natalinos, e o Squeers não duraria o
suficiente; a loja com certeza estaria fechada na Véspera de Natal. Tendo
definido seus propósitos, largou as latas na mesa da cozinha e desceu correndo
pelas escadas.
Strutt
saltou do ônibus em silêncio; a barulhada do motor rapidamente foi sumindo e
abafou-se por entre as casas cobertas de neve. A neve empilhada aguardava a
vinda de algum som. Ele chapinhou por entre os rastros de carros até a calçada,
a camada de neve sobre esta marcada por incontáveis pegadas sobrepostas. A rua
serpenteava; tão logo a avenida principal estivesse fora de vista, a rua lateral
revelava seu verdadeiro caráter. A neve acumulada sobre as entradas das casas
tornava-se gasta; protusões enferrujadas surgiam em meio à brancura. Uma ou duas
janelas mostravam árvores de Natal, suas carumas envelhecidas caindo, seus
galhos encurvados com as luzes voluptuosamente faiscantes. Contudo Strutt não
tinha olhos para esses detalhes, mas mantinha seus olhos na calçada, buscando
evitar as manchas circuladas por pegadas de cães. Seu olhar acabou encontrando o
de uma velha senhora que fitava um ponto abaixo de sua janela, que talvez fosse
o limite de seu mundo exterior. Sentindo um calafrio momentâneo, apressou o
passo, seguido por uma mulher que, dado o conteúdo de seu carrinho de bebê,
havia parido uma pilha de jornais, e parou diante da loja.
Embora
o céu alaranjado mal podia iluminar o interior da loja, nenhum brilho elétrico
era visível por entre as revistas, e a placa quebrada pendurada por trás do
entulho poderia talvez ter escrito a palavra FECHADO. Lentamente, Strutt desceu
pelos degraus. O carrinho de bebê rangeu próximo, os últimos flocos de neve
espalhando-se por sobre os jornais em seu interior.
Strutt fitou sua curiosa
proprietária, voltou-se e quase caiu numa súbita escuridão. A porta havia se
abrido e uma figura bloqueava o umbral.
“Não
estão fechados, imagino?” falou Strutt com a língua enrolada.
“Talvez não. Em que posso ajudá-lo?”
“Estive aqui ontem. Livro da
Ultimate Press,” respondeu Strutt ao rosto na mesma altura do seu,
desconfortavelmente próximo.
“Claro
que esteve, sim, eu lembro.” O outro oscilava sem cessar, como se fosse um
atleta fazendo aquecimento, e sua voz variava constantemente de baixo para
falsete, o que perturbava Strutt. “Bem, entre antes que a neve te pegue,” disse
o outro, e bateu a porta por trás deles, evocando uma nota do fantasma de
lingueta do sino.
O
livreiro – este deveria ser ele, presumiu Strutt – assomou por detrás dele, uma
cabeça mais alto; descendo por entre a meia-luz, entre os vagos e vindicativos
cantos das mesas, Strutt sentiu uma obscura compulsão de assegurar-se de alguma
forma, e comentou: “Espero que tenha encontrado o dinheiro do livro. Seu homem
parecia não querer que eu pagasse.
Algumas pessoas teriam levado isso ao pé da
letra.”
“Ele
não está hoje conosco.” O livreiro ligou a luz dentro de seu escritório. Quando
seu rosto de dobras e linhas gordas recebeu luz, pareceu crescer; os olhos
afundaram-se em estrelas flácidas de rugas; as bochechas e a testa rebentaram
com tantas linhas de expressão; a cabeça flutuava como um balão inflado pela
metade, por sobre o paletó de lã. Por baixo do bulbo luminoso descoberto, as
paredes se apertavam, cercando uma mesa bastante desgastada, da qual fluíam
cópias cheias de impressões digitais da revista O Livreiro, jogadas de
lado por uma máquina datilográfica negra, cheia de poeira, do lado da qual
descansavam um toco de cera de lacre e uma caixa de fósforos aberta. Duas
cadeiras opostas em cada lado da mesa, e por trás desta uma porta fechada.
Strutt sentou-se diante da mesa, espalhando pó pelo chão. O livreiro caminhou de
um lado para o outro ao redor de Strutt e subitamente, como se atingido pela
própria pergunta, disparou: “Diga-me, por que você lê esses
livros?”
Aquela
era uma pergunta muitas vezes dirigida a Strutt por aquele professor de inglês
na sala de docentes, até que parasse de ler seus romances durante os intervalos.
O súbito retorno da pergunta o pegou desprevenido, e conseguiu apenas soltar seu
velho contra-argumento:
“Como assim, por quê? E por que não?
“Eu
não estava te criticando,” apressou-se o outro, movendo-se inquieto atrás da
mesa.
“Estou genuinamente interessado. Eu iria perguntar se você não deseja que
o que lê aconteça, de certa forma?”
“Bem,
talvez.” Strutt ficou desconfiado com o rumo que a conversa estava tomando, e
desejou poder impor seus próprios termos; mas suas palavras pareciam cair
naquele silêncio coberto de neve que escondia-se por dentro das paredes
empoeiradas, para desaparecerem de imediato, sem deixar
rastros.
“Quero
dizer: quando você lê um livro, não o faz acontecer diante de si, dentro de sua
mente? Em particular se tentar conscientemente visualizar, mas isto não é o
essencial. Você pode afastar-se do livro, é claro. Conheci um livreiro que
trabalhava com esta teoria; você não tem muito tempo para ser você mesmo nesse
tipo de área, mas quando ele podia, trabalhava na questão, embora nunca a tenha
formulado apropriadamente – Espere só um segundo, vou mostrar te uma
coisa.”
Pulou da mesa para dentro da loja.
Strutt imaginou o que estava além da porta por trás da mesa. Semiergueu-se,
espreitando para trás, mas viu o livreiro já retornando pelas sombras
esvoaçantes, segurando um volume extraído em meio a Lovecrafts e
Derleths.
“Este
aqui tem a ver com seus livros da Ultimate Press, sério,” disse o outro, batendo
a porta do escritório ao entrar. “Estarão publicando um livro de Johannes
Henricus Pott no ano que vem, assim ouvi falar, e que também trata de sabedorias
proibidas, como este aqui; você sem dúvida se encantaria em saber que eles acham
que podem deixar algo do Pott no latim original. Este aqui deve interessá-lo,
contudo; é a única cópia. Provavelmente, você não conhece as Revelações de
Glaaki; é uma espécie de Bíblia escrita sob orientação sobrenatural.
Existiram apenas onze volumes – mas este é o duodécimo, escrito por um homem no
alto de Mercy Hill, guiado por sonhos.” Sua voz ficou menos firme, conforme
continuava a falar. “Não sei como foi que foi que ganhou as ruas; suponho que a
família do homem possa tê-lo encontrado em algum sótão, após sua morte, e com
ele ganho um punhado de cobres, quem sabe? Meu livreiro – bem, ele conhecia as
Revelações, e percebeu que este exemplar era sem preço; mas não queria
que o fornecedor percebesse que tinha uma descoberta em mãos e talvez a levasse
à biblioteca ou à Universidade, de modo que o tomou como parte de um lote maior
e disse que iria usá-lo para rascunho.
Quando leu – Bem, havia uma passagem
aqui, que parecia ter sido feita especialmente para testar sua teoria. Olhe
só.”
O
livreiro mais uma vez deu a volta por Strutt e colocou o livro em seu colo, seus
braços descansando nos ombros do professor. Strutt comprimiu os lábios e deu uma
olhadela no rosto do outro; mas alguma força diminuiu, recusando-se a apoiar sua
desaprovação, e ele abriu o livro. Era um velho livro-razão, de encadernação
craqueante, suas páginas amareladas cobertas por linhas irregulares de finas
linhas manuscritas. Por todo o monólogo introdutório, Strutt ficara atônito;
agora que o livro estava diante de si, lembrou vagamente daqueles pacotes de
folhas datilografadas duplicadas, que eram passadas adiante nos banheiros de sua
adolescência, pois “Revelações” sugeria algo proibido. Assim intrigado, leu de
maneira aleatória. Ali em Baixo Brichester, o bulbo exposto definia cada pedaço
de tinta descascada da porta à sua frente, e mãos moviam-se em seus ombros, mas
em alguma parte lá no fundo, sentia-se perseguido através da escuridão, por
pegadas vastas e sutis; e quando virou-se para olhar o que era aquilo, uma
figura inchada e brilhante já estava sobre ele – Mas o que era tudo aquilo? Uma
mão apertava seu ombro esquerdo e a mão direita virava as páginas; e finalmente
um dedo sublinhou a seguinte sentença:
Além
dum abismo na noite subterrânea, uma passagem leva a uma muralha de tijolos
massivos, e além da muralha está Y'golonac, esperando para ser servido pelas
esfarrapadas figuras sem olhos da escuridão. Há muito ele tem dormido além da
muralha, e aqueles que rastejam por sobre os tijolos passam por sobre seu corpo,
sem saber que ali está Y'golonac; mas quando seu nome é pronunciado ou lido, ele
atende para ser venerado ou para alimentar-se e assumir a forma e alma daqueles
de que se alimenta. Pois aqueles que leem sobre o mal e buscam a forma desse mal
dentro de suas mentes convocam o mal, e assim poderá Y'golonac retornar para
caminhar entre a humanidade e esperar aquele tempo quando a terra será limpa e
Cthulhu ascenderá de sua tumba entre as algas, Glaaki arrebentará o alçapão de
cristal, a prole de Eihort nascerá para a luz do dia, Shub-Niggurath forçará e
esmagará a lente lunar, Byatis destruirá sua prisão, Daoloth rasgará a ilusão
para expor a realidade que está oculta por trás dos
véus.
As
mãos em seus ombros mudavam constantemente a pressão, afrouxando e apertando. A
voz flutuava: “O que achou disso?”
Strutt
pensou que era um lixo, mas de alguma forma, sua coragem escorregou e se desfez;
replicou de maneira bem mais suave: “Bem, não é – não é o tipo de coisa que se
vê à venda.”
“Achou o trecho interessante?” A
voz se aprofundava; agora era um baixo arrebatador. O outro rodou para trás da
mesa; parecia maior – sua cabeça batia no bulbo, lançando sombras que
espreitavam pelos cantos, e recuavam, e mais uma vez espreitavam. “Está
interessado?” Sua expressão era intensa, se é que aquilo podia-se chamar de
expressão; pois a luz movia as trevas nos buracos de seu rosto, como se a
estrutura óssea estivesse visivelmente derretendo.
Lá
no fundo da mente ofuscada de Strutt, surgiu uma suspeita; ele não ouvira falar
de seu querido amigo morto, o livreiro de Goatswood, que um culto de magia negra
existia em Brichester, um círculo de jovens dominado por um certo Franklin, ou
Franklyn? Será que estava sendo entrevistado para admissão no culto? “Eu não
diria isso,” argumentou.
“Ouça.
Houve um livreiro que leu este trecho, e eu contei a ele que você podia ser o
alto sacerdote de Y'golonac. Você convocará os vultos da noite para venerá-lo,
em certas épocas do ano; prostrar-se-á diante dele e em troca, sobreviverá
quando a terra for limpa para os Grandes Antigos; irá além dos limiar para
aquilo que se separa da luz...”
Antes
que pudesse terminar, Strutt interrompeu sem pensar: “Vocês estavam falando de
mim?” Acabara de perceber que estava sozinho com um louco, num recinto
fechado.
“Não,
não, quis dizer o livreiro. Mas a oferta agora é para você.”
“Bem,
desculpe, mas tenho outras coisas para fazer.” Strutt preparou-se para
levantar.
“Ele
também recusou.” O timbre da voz feria os ouvidos de Strutt. “Eu tive de
matá-lo.”
Strutt
congelou. Como lidar com alguém insano? Pacificando-o. “Espere aí, espere aí,
espere só um segundo...”
“Que benefício lhe traria a dúvida?
Tenho mais provas à sua disposição do que você seria capaz de suportar. Você
será meu alto sacerdote, ou jamais deixará esta sala.”
Pela
primeira vez em sua vida, enquanto as sombras entre as paredes opressivas
moviam-se mais lentas, como se antecipantes, Strutt batalhava para conter uma
emoção; submergiu sua mescla de medo e cólera com calma. “Se não se importar,
tenho de encontrar uma pessoa.”
“Não
quando seu destino está aqui entre essas paredes.” A voz engrossara. “Você sabe
que eu matei o livreiro – estava em seus jornais. Ele fugiu para a igreja em
ruínas, mas eu o segurei com minhas mãos... E então deixei que o livro na loja
para ser lido, mas o único que o pegou, por engano, foi aquele homem que o
trouxe aqui... Um tolo! Enlouqueceu e entrou em posição fetal no canto da sala,
quando viu as bocas! Eu o mantive porque pensei que ele poderia trazer alguns de
seus amigos que chafurdam nos tabus físicos e perdem as verdadeiras
experiências, aqueles lugares proibidos ao espírito. Mas ele acabou por
contatá-lo e trazê-lo logo quando eu estava me alimentando. Aparece comida aqui,
de vez em quando; jovens rapazes que vêm buscando livros, em segredo; eles têm
de ter certeza de que ninguém saiba o que estão lendo! – e podem ser persuadidos
a ler as Revelações. Imbecil! Ele não pode mais trair-me com seu desleixo
– mas eu sabia que você iria retornar. E agora será meu.”
Os
dentes de Strutt rangiam silenciosamente, até que ele pensou que suas mandíbulas
iriam estourar; levantou-se, assentindo a cabeça, e passou o volume das
Revelações para a figura; estava pronto para, assim que a mão se fechasse sobre
o encadernado, sair correndo pela porta do escritório.
“Você
não pode sair, sabe disso; está trancado.” O livreiro balançou os pés, mas não
fez movimento na direção de Strutt; as sombras agora estavam impiedosamente
claras, e a poeira estava suspensa no silêncio. “Você não está sentindo medo –
parece ser calculista demais. É possível que ainda não acredite? Tudo bem...”
colocou suas mãos na maçaneta da porta por trás da mesa: “...você quer ver o
que restou de minha comida?”
Uma
porta abriu-se na mente de Strutt, e ele recuou horrorizado do que poderia estar
além dela. “Não! Não!” gritou. A fúria seguiu-se a sua involuntária demonstração
de medo; desejou ter uma bengala, com que subjugar a figura que o intimidava.
Julgando por seu rosto, pensou, as massas proeminentes no paletó de lã devem ser
de gordura; se eles brigassem, Strutt venceria. “Vamos deixar isto claro,”
gritou, “já brincamos demais aqui! Ou você me deixa sair ou eu...” mas
encontrou-se procurando uma arma qualquer. Subitamente, pensou no livro que
estava ainda em sua mão. Roubou a caixa de fósforos da mesa, por trás da qual a
figura observava, ominosamente impassiva. Strutt riscou um fósforo, e então
segurou as capas por entre o dedo indicador e o polegar, balançando as páginas.
“Eu vou queimar o livro!” ameaçou.
A figura ficou tensa, e Strutt
ficou frio de medo de seu movimento seguinte. Ele tocou a chama no papel, e as
páginas viraram-se, consumindo-se tão rapidamente que Strutt teve a impressão de
fogo brilhante e sombras crescendo instavelmente massivas nas paredes, antes do
livro tornar-se cinzas no chão. Por um momento, encararam um ao outro, imóveis.
Depois das chamas, uma escuridão correu até os olhos de Strutt. Através dela,
ele enxergou o paletó rasgar-se com estrépito, diante da expansão da
figura.
Strutt
jogou-se contra a porta do escritório, que resistiu. Girou seu punho, e observou
num estranho deslocamento atemporal o punho estilhaçar o vidro fosco; o ato
pareceu isolá-lo, como se suspendendo toda ação além de si mesmo. Através das
facas de vidro, na qual brilhavam gotas de sangue, viu os flocos de neve
dançarem na luz âmbar, infinitamente distante; distante demais para que pudesse
chamar por ajuda. Assaltou-o um horror de ser seguro por trás. Do fundo do
escritório, veio um som; Strutt virou-se, mas ao fazê-lo fechou os olhos,
aterrorizado demais para encarar a fonte daquele som – mas quando os abriu, viu
a razão pela qual a sombra no vidro fosco, ontem, parecia sem cabeça, e então
gritou. Quando a mesa foi jogada para o lado, pela gigantesca figura nua, e cuja
pele ainda prendiam-se trapos do paletó de lã, o último pensamento de Strutt
fora uma inacreditável convicção de aquilo só estava acontecendo porque ele lera
as Revelações; em algum lugar, alguém havia desejado que aquilo
acontecesse com ele. Não era justo, ele não fizera nada para merecer aquilo –
mas antes que pudesse gritar em protesto, seu fôlego foi cortado, quando as mãos
desceram sobre seu rosto e nas palmas, abriram-se bocas úmidas e
vermelhas.
Cold Print originalmente publicado em Tales of the Cthulhu Mythos,
1969.