domingo, 16 de setembro de 2012

Memórias de uma grande Campanha - Idas e vindas da minha caixa de "Horror on the Orient Express"

O anúncio de que a campanha Horror on the Orient Express será relançada pela Chaosium em uma edição especial caprichada é uma grande notícia.

Para quem não teve a oportunidade de jogar essa campanha, será uma chance de ouro para conhecer um dos grandes livros de RPG lançados nos anos 90. Um produto que marcou época e que ainda hoje é lembrado com carinho por saudosistas que tiveram a chance de "viajar à bordo do Orient Express na vã esperança de frustrar os planos dos cultistas do Mythos".

É óbvio que estou incluído entre esses saudosistas incorrigíveis. Joguei essa campanha entre 1993-1994 com meu antigo grupo de RPG.

Foi uma das melhores experiências em mesa de jogo que tive em minha - posso dizer - longa vivência como entusiasta da nobre arte de contar estórias e rolar dados.

Lembro da animação do grupo quando conseguimos comprar a campanha que estava à venda na lendária loja Gibiteria e Bárbaras Magias, no centro do Rio de Janeiro. Foi preciso um esforço de todos envolvidos para adquirir a caixa, já que o preço de capa era de exorbitantes US$ 49,99, um dos livros mais caros daquela época. Para se ter uma idéia, nesses tempos a gente comprava uma caixa da TSR (antiga editora do AD&D) por US$ 25,00 mais ou menos. E eram os famosos Boxed Set como o de Dark Sun ou Dragonlance, que vinham recheados de posters/mapas e vários booklets.

Quando vi a caixa pela primeira vez através da vitrine, foi um daqueles típicos casos de amor à primeira vista. Nosso grupo jogava Call of Cthulhu há menos de um ano, mas era muito difícil conseguir livros da Chaosium, minha coleção se resumia a dois suplementos e uma cópia xerox do livro Básico.

Corri para telefonar para meus colegas (celular? hahaha, orelhão mesmo!) e começamos a reunir fundos para comprar o livro, antes que alguém fosse mais rápido. Em 93 eu estava no colégio, portanto não era tão fácil comprar livros de RPG dependendo de mesada. Além disso, quero lembrar a todos que compras pela internet não eram garantidas e lojas on-line, como o Amazon, não existiam. [Hora dessas, vou contar sobre a nossa primeira compra na Chaosium, feita por telefone (!!!!)]

Enfim, quando um jogo aparecia você tinha de ser rápido no gatilho, do contrário perdia a chance. Por sinal, pensando em retrospectiva agora, essa foi a única vez que vi um exemplar de HotOE à venda.

Depois de muita negociação finalmente conseguimos resolver a questão financeira e rumamos para a loja, mas quando chegamos descobrimos que a caixa não estava mais na vitrine. O horror, o horror...

Falando com a Esther (quem lembra da antiga dona da Gibiteria?) descobrimos que a caixa estava reservada para outra pessoa. O sujeito tinha ficado de vir buscar à qualquer momento. Foi um verdadeiro balde de água gelada...


Mas aí, felizmente, veio a reviravolta.

Dois amigos que estavam no grupo que ia rachar o livro, tinham ajudado a Esther durante a realização da primeira edição da RPGRio, um dos primeiros eventos de RPG na cidade. Eles tinham trabalhado na organização, e tinham ralado praticamente de graça, apenas pelo prazer de participar do evento. Com um pouco de jogo de cintura (e talvez um rolamento crítico de Persuade ou Fast Talk) eles conseguiram levar uma conversa com ela e a convenceram a vender a caixa apesar dela estar reservada.

Sucesso!!!! Horror on the Orient Express voltou para casa conosco.

Quando abrimos a caixa nos deparamos com um material diferente de tudo que já tínhamos visto. Na lateral da caixa estava escrito: "Uma campanha luxuosa através de um continente", mas a coisa era mais bonita do que podíamos imaginar. Hoje em dia, a caixa original de HotOE talvez não seja mais tão impressionante, afinal temos livros totalmente coloridos, em impressão de alta qualidade e acabamento de primeira. Mas em 1993 aquilo era incrível, simplesmente sensacional: Mapas, handouts, passaportes, posters coloridos, props, adesivos, livros em cadernos separados. Tudo aquilo era novidade.

Quem compra livros de RPG conhece aquela sensação, um misto de ansiedade e curiosidade, ao folhear um livro recém comprado, cheirando a novo. Isso não chega aos pés da sensação de explorar o conteúdo de uma caixa recém aberta. Os colegas veteranos devem saber do que estou falando...

O keeper que ia narrar a campanha era nosso mestre habitual de Call of Cthulhu, um dos melhores mestres com quem já joguei. Ele leu o resumo da campanha e os primeiros dois cenários ("Dancers in the Evenning Fog" e "The Doom Train") em uma noite. No dia seguinte, já estávamos prontos para rolar nossos personagens e dar início a nossa investigação sobrenatural.

Cada jogador criou três personagens para a campanha, seguindo as dicas de que Horror on the Orient Express era literalmente um "moedor de carne" de personagens. Construí meus três personagens, o Dr. Wayne Abbercon (pesquisador médico e cientista interessado em reproduzir a fórmula do Elixir Reanimator de Herbert West), o escritor americano Stephen Barker (eu sei, o nome tosco é uma homenagem aos meus dois autores preferidos na época Stephen King e Clive Barker) sendo que ele era um autor de contos de horror e finalmente a diletante Lady Helen Marie Olenska, uma condessa britânica, típica mulher à frente de seu tempo.

Todos os personagens faziam parte de uma sociedade chamada Clube de Hades , uma instituição com sedes em Londres e Arkham que se dedicava a estudar o ocultismo e o paranormal. Usar o Clube de Hades como base para estabelecer as relações entre os personagens foi um achado. Muitos jogadores e mestres em Call of Cthulhu se queixam da dificuldade de estabelecer um vínculo entre os personagens, através desse recurso o grupo estava estabelecido quase que imediatamente.

Jogamos Horror on the Orient Express ao longo de um ano e meio. Foi uma campanha longa e cheia de detalhes, mas recompensadora para todos os que participam dela. Uma verdadeira experiência de role-playing e interação entre jogadores. Eu guardo lembranças muito boas de nossos jogos e de cada sessão.

A sessão final, que marcou o dramático retorno a Londres, aliás foi disputada com os jogadores vestidos à caráter e o mestre trajando smoking. Foi uma das aventuras mais legais das quais participei até hoje, uma pena que eu não tenha mais as fotografias desse jogo memorável.

Terminada a viagem do Orient Express, o saldo da campanha foi de notáveis ONZE personagens mortos. Mais dois irremediavelmente insanos. Cinco personagens sobreviveram a campanha, sendo que a Condessa Olenska escapou viva (com 20 pontos de sanidade, sem um olho e com graves cicatrizes físicas e emocionais). Ainda assim, ela conseguiu se aposentar em sua propriedade em Kensington (onde como gosto de acreditar, vive até hoje).

É engraçado, mas pouco depois do encerramento da campanha, o grupo acabou se separando. HotOE marcou o fim dos nossos jogos. Alguns colegas que participaram da campanha se mudaram, outros haviam deixado de jogar RPG e alguns simplesmente perdi o contato. Por vezes, aqueles que são nossos melhores amigos em um determinado momento, inexplicavelmente acabam sumindo com o passar do tempo... eu mesmo estava cursando a Faculdade e não tinha muito tempo livre.

Por uma enorme coincidência, uns cinco ou seis anos depois, acabei esbarrando por acaso na mãe de um desses colegas com quem joguei HotOE. Ela me deu notícias sobre esse meu amigo, contou que ele havia se mudado e que estava feliz vivendo em outra cidade. Em seguida disse que ele havia deixado para trás vários livros, alguns que inclusive podiam ser meus já que a gente sempre estava emprestando livros uns aos outros.

Respondi que iria ver, hora dessas, mas ela retrucou que estava de mudança e que planejava jogar a maior parte daquela tralha no lixo. Para ser sincero, eu nem imaginava o que ia encontrar, pensei que poderia achar algumas revistas em quadrinhos que havia emprestado "séculos" atrás, mas acabei concordando em dar uma olhada.

Olhando aqui e ali, acabei descobrindo de baixo de uma pilha heterogênea de revistas e livros antigos, a caixa do Orient Express. A mesma caixa que nós tínhamos comprado e que eu supunha estava perdida. Até as fichas que usamos no jogo estavam dentro da caixa. Perguntei se poderia pegar a aquilo de volta, e ela respondeu: "Claro eu já tinha separado isso ontem, para jogar fora hoje. Leve o que quiser".

E foi assim que a caixa de Horror on the Orient Express acabou voltando para as minhas mãos.

Hoje, ela está na minha prateleira, ocupando um lugar de destaque, como uma espécie de jóia da coroa da minha coleção de livros de RPG. Ela pode não está completa, infelizmente os posters, um dos mapas e três dos passaportes se perderam mas pensar que por pouco ela não acabou sendo jogada no lixo, compensa essas falhas.

Tive a chance de mestrar a campanha em 2004 e foi bem legal retornar ao trem dessa vez, não como passageiro, mas Condutor.

Orient express continua sendo um dos meus itens prediletos, pelas memórias que evoca e pela história que acabei de contar.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Luxo no Orient Express - Como deve ficar a nova versão da Chaosium para a campanha Horror on the Orient Express



Lançada originalmente em1991, Horror on the Orient Express (HotOE) conquistou um lugar de destaque no cenário dos rpg, sendo considerada por muito tempo como "a mais luxuosa campanha lançada até aquela data".

De fato, a caixa contendo 4 livros era belíssima e inovava ao trazer goodies que podiam ser usados como props para realçar a experiência de jogo. Réplicas de passaportes, mapas do trajeto do trem, adesivos para colar em bagagens faziam parte do pacote. Isso sem falar em suplementos escritos com base em uma profunda pesquisa e um nível de detalhismo nunca antes visto em um produto de rpg.

Orient Express era sensacional!

Como os leitores do Mundo Tentacular devem saber, a editora americana Chaosium, criadora do RPG Call of Cthulhu e responsvel pela campanha, anunciou recentemente seus planos de relançar "Horror on the Orient Express". A notícia foi celebrada pelos fãs novos e antigos de Call of Cthulhu.

A venda do produto está sendo feita por um Kickstarter (Sistema de Financiamento) vendido antecipadamente pela internet. A Chaosium esperava arrecadar o valor de US $ 20,000 para bancar o projeto. A resposta foi imediata e em poucos dias, ela não apenas havia atingido a meta como ultrapassado e muito as pretensões estipuladas, o que vai garantir uma série de melhorias no produto final e benefícios para quem adquiriu o pacote.

No momento o Kickstarter está com mais de US$ 120,000 arrecadados e segue em frente oferecendo updates e brindes como camisas, bolsas de viagem, dados, handouts adicionais, livretos etc... uma maneira muito inteligente de atrair os compradores.

Com o sucesso desse projeto é possível que a editora tenha enfim encontrado o caminho certo e possamos ver em um futuro não muito distante outras campanhas clássicas relançadas em edições de qualidade superior. É preciso lembrar que os livros de Call of Cthulhu na Europa já são lançadas faz algum tempo com belo acabamento: papel de qualidade, capa dura, textos adicionais, arte interna renovada e interior totalmente colorido.

A Chaosium lançou a moda das campanhas luxuosas, mas acabou sendo deixada para tráz por editoras européias como a Edge (Espanha), Sans Detour (França) e Pegasus Spielle (Alemanha) que oferecem produtos incríveis. Por muito tempo, os fãs esperavam algo semelhante da Chaosium.

Ainda não se sabe ao certo qual vai ser a aparência da campanha, mas podemos imaginar que dado o interesse e os recursos obtidos, será algo capaz de colocar no chinelo a versão original.

Rumores mencionaram que a nova versão do HotOE será inspirada na magnífica edição italiana da campanha. Se essa informação for verdadeira podemos esperar um belíssimo produto, provavelmente o livro mais bonito lançado pela Chaosium até hoje.

Aqui estão algumas fotos da edição italiana, se o resultado final for semelhante a esse, pessoalmente eu vou ficar muito satisfeito.

Os quatro livros da campanha tem capa capa cartonada colorida e papel couché de alta qualidade.


O material que acompanha o livro inclui handouts melhorados, mapas coloridos e suplementos especiais.


O diagrama do trem (que vinha na caixa original) tem um projeto gráfico mais bem acabado e em papel de qualidade.


O mesmo vale para o mapa do trajeto do Orient Express pela Europa. reparem na qualiadde da impressão desse mapa.
Os Handouts são muito bem feitos. As pistas vindas de jornais contém fotografias, manchetes, propagandas, tudo que ajuda a tornar o jogo mais envolvente e realista.
O livro de bordo do Orient Express (item que já foi confirmado pela Chaosium) é uma espécie de guia para o passageiro que fica sabendo detalhes sobre o funcionamento e serviços disponíveis à bordo do luxuoso expresso.
"Strangers on a Train" é um caderno contendo NPCs e personagens que podem ser incluídos pelo keeper durante a campanha ou personagens que os jogadores podem assumir se necessário. Na versão italiana, esse caderno assume a forma de uma pasta.
Cada NPC apresentado nesse encarte possui uma fotografia.
E no verso as informações de background e estatísticas que pode ser destacada e entregue aos jogadores como uma ficha de jogo.
Os livros em preto e branco possuem novos mapas e textos adicionais com detalhes de cada cenário.
Cada capítulo possui uma folha de rosto.
Há pouco espaço para desenhos, a versão italiana utiliza ao invés disso várias fotografias.
As fotos sãoperfeitas para auxiliar a narrativa do mestre e funcionam como recurso visual para os jogadores.
É claro, não poderiam faltar mapas de cada cidade por onde o Orient express passa. Esses mapas é claro, são os usados na época em que se passa a campanha (1925).
Detalhes sobre as cidades e o que pode se encontrar em cada lugar.
A Campanha é tão detalhada que acompanha até mesmo uma versão do cardápio do restaurante à bordo do luxuoso trem. Esse aliás é outro goodie que foi confirmado na edição da Chaosium.
Reparem na quantidade de fotografias e ilustrações em cada capítulo. Não há uma única página sem ilustração.

Ainda há tempo para quem quiser embarcar no Orient Express...

O Kickstaer encerra suas atividades em 30 de setembro, o preço doproduto final é US$ 60,00 mas vários brindes são oferecidos para quem quiser contribuir com um valor maior.

O endereço é o seguinte:

http://www.kickstarter.com/projects/448333182/horror-on-the-orient-express-a-chaosium-publicatio

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Horror na Parede de um Manicômio - Seria a prova de que o Slender Man existe?


Já que abordamos uma vez mais o Slender Man, que tal jogar um pouco de lenha na fogueira?

Um dos aspectos fundamentais dessa lenda urbana envolve insanidade e paranóia. Segundo dizem, as pobres vítimas atormentadas pelo Slender Man enloquecem gradualmente a medida que a criatura vai chegando cada vez mais perto.

Aqueles que acabam atraíndo a atenção do monstro tentam a todo custo provar sua existência e fazer com que outras pessoas acreditem no perigo que elas estão correndo. Na maioria das vezes, é impossível convencer os demais do pesadelo que se está vivendo.

É de se supor que essas pessoas sejam consideradas instáveis ou mentalmente perturbadas. Podemos imaginar também que mais de um indivíduo teria sido colocado sob os cuidados de alguma instituição de tratamento mental.

Um lugar como Cane Hill.

Asilo Cane Hill, localizado em Coulsdon nos arredores de Londres foi fundado em plena Era Victoriana e desativado em meados de 1991. O imenso complexo formado por um enorme hospital, asilo psiquiátrico e prédios que serviam como alojamento para os pacientes chegou a abrigar mais de 2000 mil internos em seu período de ouro. Quando as atividades se encerraram, o lugar lentamente se converteu em uma ruína abandonada que foi se deteriorando com o passar dos anos.

Ainda hoje, ele atrai inúmeros curiosos interessados em explorar seus corredores e vasculhar os aposentos que um dia foram ocupados por milhares de pacientes. Esses "exploradores urbanos" costumam retornar de suas visitas com estórias e lembranças.

Recentemente, um grupo afirmou ter encontrado em Cane Hill algo inesperado que remete a uma lenda muito mais recente e que supostamente não deveria existir na época em que o Asilo estava em funcionamento. É provável que o desenho em questão, supostamente descoberto na parede de uma cela, tenha sido feito há pouco tempo. É bem possível que algum visitante recente deixou sua marca nessa paredes como uma forma de homenagem -- ou mesmo com o intuito de evocar choque e dúvida nas pessoas.

Ao menos é o que prefiro imaginar...

Do contrário, eu teria de acreditar que algum paciente encarcerado em Cane Hill usou a parede de sua cela como tela e nela pintou o horror que o assombrava:


Essa fotografia tirada nas ruínas do Asilo de Cane Hill tem rodado o mundo, aparecendo em várias comunidades e Redes Sociais.

Sem dúvida é o Slender Man. Há quanto tempo ela está lá, ninguém sabe.

E é assim que as lendas crescem...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Mito Contemporâneo - O Sucesso do Slender Man


É impressionante como as coisas acontecem...

Quando conheci a história do tal Slender Man, ponderei um bocado antes de publicar o artigo sobre sua origem e história. Em um primeiro momento achei que não fazia muito sentido dar crédito a uma lenda urbana tão recente. Francamente, não acreditava que haveria muito interesse por parte dos leitores do Blog.

Tanto é verdade que depois de escrever o artigo deixei ele de lado na pasta de rascunhos por pelo menos um mês. Sempre aparecia algo que eu julgava "mais interessante" para ser publicado e que empurrava o artigo mais para baixo. Confesso que em pelo menos uma ocasião senti aquela coceira no dedo para apagar o artigo... mas desisti na última hora. Parei para refletir um pouco: o Slender Man é uma espécie de mito contemporâneo e o Mundo Tentacular se dedica a esse tipo de coisa. Além do mais, ainda que não esteja ligado ao Mythos de Cthulhu, trata-se de algo legitimamente horrível, misterioso, assustador e instigante.

Isso - e o fato de eu ter assistido todos os vídeos da série Marble Hornets em uma tarde de ociosidade no serviço - salvaram o artigo de ser lançado na lata do lixo.

O tal artigo com o título "Slender Man - Lenda urbana se espalha rapidamente pelos Estados Unidos" foi publicado no dia 10 de junho de 2012, sem grandes pretensões e nos primeiros dias não houve um grande movimento de leitores. Não foi abaixo da expectativa, mas também não foi nada fantástico.

Mas então algo aconteceu...

Mês passado, principalmente, o artigo explodiu. Mais do que isso, ele começou a pipocar em todo canto. Vi o artigo copiado em pelo menos três páginas, gente me pediu para reproduzir em seus blogs, houve vários compartilhamentos no facebook e comentários... como resultado, o número de visualizações não parava de aumentar. Como um foguete ele passou todos os outros artigos e conquistou o primeiro lugar como a matéria mais lida do Mundo Tentacular.

Hoje ele chegou a notável marca de 100.000 visualizações, um número considerável, mais do que o dobro do segundo colocado, algo que comprova o peso desse mito contemporâneo.

Eu queria buscar algo que ajudasse a conpreender a atração que o Slender Man exerce sobre os leitores e fuçando pela internet achei um artigo assinado por um psiquiatra que avalia o impacto do Slender Man no imaginário contemporâneo. Achei interessante e fiz uma tradução:

O Surgimento de um Mito Moderno, o Caso do Slender Man

Por Richard Stevens

O Slender Man é um mito moderno: um perseguidor silencioso sem rosto que observa da escuridãozombando da forma humana enquanto sua silhueta delgada causa paranóia e desespero sem fim. Geralmente ele viaja pelo mundo, invisível, a menos que seja acidentalmente fotografado ou inadvertidamente filmado por uma câmera. Se você for capaz de vê-lo e atrair sua atenção, então já é tarde demais. Mesmo pensar nele é perigoso.

Engraçado que há cinco anos, um tempo relativamente curto, ele sequer existia.

Como tudo isso começou?

Diferente de muitas lendas urbanas, cuja origem é difícil de se traçar, com o Slender Man é justamente o contrário. Por volta de junho de 2009, os frequentadores de um  fórum de horror chamado Something Awful se juntaram para criar falsos boatos sobre criaturas sobrenaturais. Seu objetivo era inventar lendas urbanas que parecessem verdadeiras e que realmente despertassem dúvida e apreensão. Quando um usuário chamado Victor Surge postou duas fotos de uma figura misteriosa, na companhia de crianças, algo especial aconteceu. Como se uma fagulha tivesse se acendido no imaginário coletivo, a coisa tomou forma. Surge escreveu dois trechos de texto juntamente com as fotografias que criaram o conceito que definiu o Slender Man. Essa seria a base para o mito que nos meses e anos seguintes cresceria fora de controle.

A partir desse início humilde o tal Slender Man passou a ocupar um lugar de destaque na cultura digital. Versões de sua história foram publicadas em todo o espaço público na Internet, suas aparições assustadoras foram compartilhadas e Creepypastas afloraram de uma hora para outra. Essencial para sedimentar a imagem icônica do Slender Man foram os vídeos divulgados no You-Tube, dedicados à exploração do Mito. Marble Hornets é sem dúvida o mais conhecido, mas não o único.

Cada abordagem ajudou a moldar a imagem perturbadora da criatura e transformar a lenda em algo sofisticado e cada vez mais elaborado.


Quando surgiu, o Slender Man era uma entidade paranormal que perseguia crianças, mas com o passar do tempo ele se transformou em algo mais sinistro. O Slender Man se converteu em uma entidade enigmática e ameaçadora cujo propósito ninguém sabe. Ele persegue suas vítimas e a medida que as enlouquece, vai chegando cada vez mais perto, até o momento em que resolve atacar. A lenda se cristalizou em algo que atraiu mais e mais pessoas interessadas em saber, discutir e trocar ideias sobre a "criatura".

A velocidade com a qual o Slender Man se fixou no universo digital talvez possa ser atribuída à natureza aberta da sua criação. Escritores pegaram o que queriam a partir do material original, descartando o resto, e acrescentaram suas próprias versões do mito. Entretanto, a mutação memética aconteceu em um período de tempo incrivelmente  comprimido. Um dia, ninguém tinha ouvido falar dele, no dia seguinte, ele estava em todo lugar. Já em mil variações distintas.

Há duas razões, acredito eu, para o sucesso do Slender Man: a primeira é a maneira como ele evoca um tipo particular de terror iconográfico. O Slender Man é uma figura absolutamente estranha. Ninguém sabe nada sobre sua origem. Suas motivações são deixadas em aberto. Por que esse horror escolhe determinadas pessoas e ignora outras? Por que ele observa de longe ao invés de se aproximar? O que acontece com suas vítimas? O Mito é repleto de perguntas sem resposta, o que cria uma aura de incerteza. Quando se sabe tão pouco a respeito de algo, como ter certeza de que se está à salvo? Um vampiro ou um lobisomen, por exemplo, não são uma ameça durante o dia ou sem uma lua cheia despontando no céu. O Slender Man, por outro lado, pode surgir em qualquer lugar, à qualquer momento.
Outro fator que causa perturbação é a ausência de uma face humana. A falta de uma fisionomia, torna suas motivações ainda mais enigmáticas. Não há como ler suas intensões, como presumir o que ele está pensando ou como vai agir. Na cultura popular, dizem que os olhos são o espelho da alma, a ausência deles poderia representar que não há uma alma habitando esse ser?

Além disso, há nuances de "O Grito" a obra prima de Munch, que provoca um misto de fascinação e repulsa em todos que a admiram. Os membros do Slender Man são alongados além do natural e há algo perturbador na desproporcionalidade corporal. Artistas clássicos afirmavam que a beleza reside nas proporções exatas do ser, seria possível que as bizarras diferenças anatômicas do Slender Man sejam responsáveis pelo horror que ele evoca? A cabeça lisa e calva, tem uma tendência a se inclinar lentamente para o lado e por alguma razão tal coisa acessa um sentido primal remetendo aos predadores da natureza. 

No estudo da psicologia é sempre difícil determinar porquê uma manifestação em especial afeta o imaginário das pessoas. Porque uma forma em particular ressoa tão profundamente no inconsciente coletivo. O que é interessante é a forma que o Slender Man cria uma imagem ao mesmo tempo sutil e perturbadora. Analisando em um primeiro momento, não há nada no Slender Man terrível a ponto de causar temor, entretanto, por algum motivo, a imagem se faz assustadora.
A segunda razão que torna o Homem Magro tão popular, parece-me, encontra-se dentro dos limites da própria mitologia que ele criou. Vivemos em uma época que em qualquer mito pode ser dissecado e analisado exaustivamente​​; o acesso a informação é nosso aliado constante na batalha contra a superstição e o medo. Compreender um mito é uma forma efetiva de desmistificá-lo, torná-lo corriqueiro e acessível.

Mas como Slender Man é justamente o contrário. A origem da "criatura" é bem conhecida, mas mesmo assim um número crescente de pessoas tende a subverter sua origem a fim de encará-lo como algo real. O Slender Man se tornou um pesadelo de domínio público, cada pessoa acrescenta ao mito uma pequena parcela de informação até um ponto em que não se sabe mais o que pode ser considerado válido em seu background original. O mito está em constante transformação.

Assim, nossa inteligência analítica, acaba subvertetida. Para um mito se desenvolver ele precisa ser alimentado e no caso do Slender Man o número de indivíduos dispostos a ajudá-lo a crescer é monumental. Cada um parece disposto a contribuir com alguma pequena peça do quebra cabeça que vai se tornando mais e mais intrincado sem jamais permitir que o desenho seja visto com clareza.

Em suma, o Slender Man não é sobre sangue ou violência, mas sobre a paranóia que rasteja em nossa mente criativa. Ele conjulga medos que nós mesmos escolhemos incorporar a sua origem.

O mito se enraíza onde existe espaço para dúvida, ignorância ou medo, e é perpetuado por nosso próprio desejo de explorar cada uma de suas facetas e completar as lacunas que validam sua existência.

O que torna o Slender Man tão asustador?

Na minha opinião, é ver onde ele chegou em tão pouco tempo com a ajuda de tantas pessoas interessadas em propagar sua imagem onde quer que seja.

O Slender Man está "vivo" e continuará nos assustando por um bom tempo.

sábado, 8 de setembro de 2012

O Apocalipse vem aí - Como uma epidemia Zumbi poderia acontecer no mundo real

 

E já que estamos falando de zumbis...

Com base no texto de Ed Grabianowski

Poderiam zumbis existir no mundo real? O que seria necessário para animar cadáveres humanos e fazer com que eles atacassem outros indivíduos? A maioria das pessoas pensa que zumbis são uma impossibilidade cientifica - mas, na verdade, uma epidemia embora altamente improvável, não é inteiramente impossível.

Acha exagero? Pois bem...

Vamos contemplar algumas possibilidades que poderiam resultar no temido Apocalipse Zumbi.

Para começar nosso exame sobre uma epidemia zumbi, precisamos fazer algumas suposições básicas e estabelecer limites. Em primeiro lugar, vamos ignorar todas as origens sobrenaturais dos zumbis. Nada de vodu, necromancia ou magia negra. Também vamos deixar de lado coisas como radiação espacial, cometas misteriosos ou satélites russos. Nosso foco será nos aspectos biológicos que poderiam desencadear o surgimento dos mortos vivos. Claro, há muitos cenários diferentes com zumbis em livros e filmes, e nenhuma teoria é capaz de cobrir todos eles perfeitamente.
 
A explicação mais comum dentro do reino da ficção científica para surtos de zumbis é a ação de algum vírus desconhecido - contudo, os vírus e infecções bacterianas não são conhecidos por construir novas estruturas físicas em organismos orgânicos. Então, vamos descartar os vírus. No lugar deles, precisamos estabelecer um mecanismo na natureza que seja capaz de permitir a ativação de partes do corpo em estado progressivo de deterioração. Essa é a pedra fundamental do que constitui um zumbi. Nesse contexto, a mais forte teoria envolveria algum tipo de infecção fúngica.
 
Sabemos que os fungos podem infectar os seres humanos. Sabemos também que redes de fungos existem na maior parte das florestas do mundo. Estas redes frequentemente estabelecem uma relação simbiótica com árvores e outras plantas na floresta, criando uma troca de nutrientes para benefício mútuo. Estas redes podem ser muito grandes, e há estudos que demonstram que sinais químicos podem ser transmitidos de uma planta para outra através dessa rede micorrízica.

Mas isso poderia se estender também a animais? Para que isso acontecesse, seria preciso que os filamentos de fungos desempenhassem funções vasculares e neurais dentro de um cadáver.
 
Isso nos leva ao seguinte cenário: esporos microscópicos são inalados, ingeridos, ou transmitidos através da mordida contagiosa de um indivíduo infectado. Esses esporos são eventualmente dispersos por todo o organismo através da corrente sanguínea. Então eles ficam adormecidos. Quando o hospedeiro morre, os sinais químicos (ou, mais precisamente, a ausência de sinais químicos) dentro do corpo aciona os esporos que começam a crescer. A rede fúngica preenche funções específicas no organismo e passa a transportar nutrientes para os músculos, permitindo a animação deles e a atividade motora.
 
Parte da rede fúngica se desenvolve no interior do cérebro, onde interage com a medula, cerebelo, assim como outras partes do cérebro responsáveis pela visão, audição e possivelmente olfato. Substâncias químicas liberadas pelos fungos ativam as respostas básicas dentro destas áreas do cérebro. Os fungos passam a constituir uma interface cerebral e são capazes de converter os sinais electroquímicos dos neurônios em sinais químicos que transmitidos ao longo da rede de fungos, se estende pelo organismo. Esta interface é lenta e imperfeita, o que resulta em movimentos descordenados e vacilantes que caracterizam os zumbis. Esse mecanismo comprovaria a validade dos "headshot" (tiro na cabeça) como uma forma de eliminar os zumbis. Um ferimento pesado afetando o cérebro ou a coluna vertebral, destruiria a interface estabelecida, deixando o zumbi totalmente inerte.

Isso ainda deixa em aberto a questão do metabolismo zumbi. Onde os zumbis obteriam os nutrientes necessários para realizar a atividade física, além dos nutrientes necessários para alimentar o ciclo de vida dos fungos? Isso poderia ser explicado pela necessidade constante que os zumbis da ficção demonstram em devorar carne. A rede de fungos ainda precisaria de algum mecanismo para metabolizar a carne consumida, digerir e transformá-la em energia.
É possível que este fungos em especial tenha desenvolvido uma forma de extrair a energia e os nutrientes a partir de carne, de uma maneira semelhante a realizada pelas plantas carnívoras. É possível ainda que os fungos extraissem energia a partir da decomposição do próprio material orgânico do hospedeiro, o que efetivamente colocaria um período de vida mais curto nestes zumbis. Quase um prazo de prescrição. A medida que o cadáver se deteriora e as estruturas são consumidas, a rede de fungos entra em colapso.

Agora que estabelecemos uma teoria viável baseada em zumbis criados por fungos, devemos estabelecer como a doença poderia surgir. O objetivo de qualquer organismo biológico é viver tempo suficiente para se reproduzir, mas muitos patógenos são auto-limitados pela sua própria letalidade. O hospedeiro morre antes que ele tenha a chance de se multiplicar. Isso nos deixa dois caminhos para o desenvolvimento de um fungo zumbi. Primeiro, uma espécie de fungos que seja capaz de utilizar o trato digestivo dos animais para contaminar outrosEm outras palavras, os animais ingerem o fungo e defecam os esporos que contaminam outros animais sadios. Contudo, na maioria dos casos, o sistema imunológico do hospedeiro seria capaz de  destruir a infecção. Uma mutação poderia fazer com que os esporos  se desenvolvessem após a morte do hospedeiro, como um gatilho. Sem recursos para barrar a infecção fúngica, ela se espalharia sem controle.

Uma outra possibilidade é que a infecção fúngica seja extremamente agressiva, capaz de causar a morte do hospedeiro sem que o organismo tenha tempo de combater a invasão. Existem fungos potencialmente letais na natureza, mas nenhum que mate tão rápido. 

É claro, uma coisa é um fungo ativar a coordenação de um hospedeiro morto, outra bem diferente é esse hospedeiro morto se levantar e começar a atacar outras pessoas. Há muitos passos evolutivos entre uma coisa e outra, razão pela qual uma origem zoonótica parece o caminho mais viável.

Nessa hipótese, o fungo sofre mutações a medida que se dissemina entre hospedeiros. Ele poderia, por exemplo, ser ingerido por animais domésticos ominívoros, como porcos. Populações de suínos em cativeiro, sujeitos à superlotação, poderia ser o lugar perfeito para o fungo se espalhar e sofrer mutações. Em algumas fazendas de porcos mal gerenciadas, suínos mortos infectados poderiam ser parcialmente devorados por animais saudáveis, permitindo que as cepas fúngicas se espalhem pela população sofrendo mutação. O método de transferência a partir da população de porcos para a população humana seria muito simples pela alimentação.

É claro, a infecção fúngica não seria capaz de animar animais mortos infectados sem que houvesse várias mutações. Mas depois de muitas gerações, esta capacidade de mobilidade post-mortem se tornaria uma vantagem, um tipo de plataforma móvel para distribuição de esporos. Tanto a animação dos zumbi quanto o ataque deles a outros indivíduos teriam como objetivo dissiminar a contaminação para o maior número possível de espécimes saudáveis. Nesse contexto, o cenário de uma epidemia em larga escala seria algo assusutador.

Embora uma epidemia desse tipo possa parecer incrivelmente improvável, precedentes perturbadores na própria natureza. Várias espécies de vespas parasitas são capazes de reprogramar os padrões comportamentais de seus hospedeiros (abelhas, formigas e até mesmo lagartas), criando comportamentos complexos benéficos para a vespa e prejudicial para o hospedeiro. Enquanto os anfitriões nesses casos não estão mortos, isso não demonstram que as substituições químicas complexas podem evoluir na natureza.

Em outros casos, fungos encontrados em selvas isoladas, são capazes de infectar insetos e fazer com que eles se comportem de uma maneira bizarra que favoreça ao crescimento do próprio fungo a partir da morte do hospedeiro. Colônias de formigas tendem a se livrar de indivíduos contaminados para evitar uma contaminação em larga escala que poderia ser fatal para a coletividade.

Seria possível tal coisa acontecer entre animais superiores, ou mesmo com humanos?

Esperemos que os cientistas possam desenvolver um fungicida anti-zumbi eficaz antes d etal coisa acontecer...