quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Prodígio da Weird Tales - Robert Bloch e sua contribuição para criar o Mythos


baseado no texto de Lin Carter

Quando Robert Bloch era apenas um rapaz de quinze anos, em meados de 1933, ele começou a se corresponder com H.P. Lovecraft, tornando-se um dos mais jovens membros do chamado Círculo Lovecraftiano. Como os demais, Bloch era um aspirante a escritor que tinha, em comum, o gosto pela ficção macabra e o entusiasmo pelo horror. Ele escreveu para a legendária revista Weird Tales e desde o início da carreira estabeleceu uma cordial amizade com Lovecraft, que se tornou uma espécie de mentor. Alguns membros dessa primeira geração do círculo, como Clark Ashton Smith já eram profissionais, outros como o próprio jovem Robert Bloch, eram amadores. Com o tempo alguns continuaram, tornando-se nomes recorrentes nas capas da Weird Tales, enquanto outros caíram no esquecimento.

Bloch, é claro, construiu seu próprio nome. A partir de sua primeira estória publicada ("The Feast in the Abbey", Weird Tales, janeiro de 1935), ele conseguiu vender nada menos do que oitenta e cinco contos para essa revista e suas concorrentes diretas. Algumas estórias foram escritas com a ajuda de colaboradores, outras sob um nome fictício (Tarleton Fiske), mas é impressionante que ele tenha atingido a marca de 85 contos em apenas 17 anos.

Já em sua segunda aparíção na Weird Tales ("The Secret in the Tomb", em maio de 1935), Bloch assumiu seu lugar ao lado de Clark Ashton Smith e Robert E Howard escrevendo contos relacionados com a fantástica mitologia criada por Lovecraft, os Mythos de Cthulhu. Mais tarde, obviamente, ele enveredou por temas mais modernos que se encaixavam na sua própria personalidade - Bloch obteve enorme sucesso como roterista para séries de televisão, rádio e cinema. De fato, ele é lembrado como o autor da novela que inspirou Psicose (Psycho) que se tornou um dos filmes mais populares da carreira de Alfred Hitchcock - e até hoje o filme preto e branco mais bem sucedido da história. Ironicamente, Bloch não foi chamado para adaptar sua obra para o cinema, fato do qual ele sempre se ressentiu.

Mas é como contribuidor para a mitologia de Cthulhu que vamos focar nesse artigo.

O Mythos de Cthulhu é uma coleção heterogênea de estórias curtas, algumas novelas, poemas, sonetos, e uma miscelânea de outras coisas, ambientado num mesmo universo fictício. Uma mitologia, se você preferir. Muito bem, uma demonologia, melhor dizendo. Os autores que contribuiram com ele - e os autores que ainda contribuem, uma vez que o Mythos continua em expansão - jogam conforme as regras definidas por Lovecraft, Smith e Howard, que foram os primeiros a se aventurar no gênero. As regras são que cada novo autor deve inventar um ou dois demônios / deuses / entidades, um tomo ancestral de conhecimento blasfemo, e se possível uma ambientação, em geral um povoado decadente, ou uma cidade semi-abandonada, com uma onipresente aura de feitiçaria ou de cultos demoníacos em seu passado... E geralmente em seu presente também.

Lovecraft inventou Cthulhu, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath, e a tenebrosa bíblia do Mythos o profano Necronomicon do árabe Abdul Alhazred. Clark Ashton Smith criou o Ubbo-Sathla, Tsathoggua e Abhoth, e o legendário Livro de Eibon. Robert E. Howard inventou Golgoroth, Koth (algumas vezes confundido como sendo uma cidade, um símbolo cabalístico misterioso, ou uma coisa demoníaca), e o Unaussprechlichen Kulten de Von Junzt. Auguste Derleth tomou emprestado de Ambrose Bierce o mito de Hastur, Cthugha, os Fragmentos de Celaeno, e o Cultes des Goules do Comte d’Erlette. Lovecraft populou a Nova Inglaterra com decadentes cidades como Arkham e Kingsport, além de lugarejos obscuros como Innsmouth e Dunwich para suas estórias - a chamada Lovecraft County. Smith situava as suas na pré-histórica Hyperborea ou na Averoign medieval. E assim por diante.

Em sua segunda estória, “The Secret of the Tomb”, Bloch deu sua contribuição para a biblioteca do Mythos cheia de livros proibidos, mencionando a Cabala of Saboth e o Occultus of Hierarchus, e é claro, o ocultista Ludwig Prinn. Prinn foi o único que ele desenvolveu além de uma única estória, embora tenha criado ainda o Black Rites of Luveh-Keraph, do sacerdote egípcio da Deusa Bast, e uma quantidade de livros e lendas redigidas por Simon Maglore e Edgard Gordon, ambos personagens centrais de seus contos.
Foi entretanto o feiticeiro flamenco Ludwig Prinn, e seu livro infernal De Vermis Mysteriis (ou os Mistérios do Verme), que se tornaram e que continuam sendo a maior contribuição de Robert Bloch para o universo do Mythos. Em sua estória “The Shambler from the Stars” - que incidentalmente ele dedicou à Lovecraft - ele constrói a vida e história de Prinn e revela o terrível conteúdo de seu tomo. Citando o conto em questão: “o volume certamente pertencia à mesma prateleira empoeirada, ao lado de tomos como Unaussprechlichen Kulten e o Livre d’Ivonis”.

Além de tudo, Robert Bloch tinha um enorme senso de humor. Humor e horror jamais estiveram tão profundamente misturados quanto na obra de Bloch. Os companheiros de Círculo Lovecraftiano não tratavam seu trabalho com grande solenidade. De fato, eles se deleitavam em fazer piadas uns com os outros em suas estórias. Por exemplo, o Comte d’Erlette, que é o autor do Cultes des Goules, foi sugerido por Lovecraft como uma piada para o sobrenome de Derleth. Da mesma forma, Bloch criou o escriba egípcio Luveh-Keraph como uma corruptela de Lovecraft. Além disso, fez deste personagem uma adorador de gatos, coisa que Lovecraft também era. Também Lovecraft acrescentou em uma de suas estórias uma referência ao “Ciclo Mitológico de Commoriom”, escrito pelo alto sacerdote Atlante Klarkash-Ton, uma óbvia brincadeira com Clark Ashton Smith.

Por volta de 1935, Bloch escreveu a Lovecraft perguntando se ele se importaria de ser transformado em personagem de um de seus contos. Lovecraft respondeu enviando um documento de permissão formal ratificado por Abdul Alhazred, autor de Necronomicon, Gaspard Du Nord, tradutor do Livro de Eibon, e o Grande Lama Tcho-Tcho de Leng, no qual autorizava a criação e utilização deste personagem. Bloch escreveu então sobre um jovem autor, que aspirava deixar sua marca no mundo da ficção (obviamente uma referência a si mesmo). Vivendo em uma região isolada do Meio-Oeste Americano, ele se corresponde com “um eremita das montanhas do oeste” (Smith), “um sábio das montanhas do norte” (Derleth) e “um místico sonhador da Nova Inglaterra” (vocês sabem quem). O narrador e este místico sonhador juntos investigam rituais secretos no “Mistérios do Verme”, e é este pobre coitado (o místico) que acaba sendo devorado vivo por um monstro invisível.

Não muito tempo depois, foi a vez de Lovecraft retribuir a “homenagem” com “The Haunter of the Dark”, no qual um jovem e promissor escritor do Meio-Oeste, um certo Robert Blake (não Bloch: Blake) acaba sofrendo um fim ainda pior ao investigar um mistério em Providence, Rhode Island (onde Lovecraft vivia). Incapaz de resistir, Bloch escreveu uma espécie de continuação para o conto no qual um amigo de Blake, chamado Edmund Fiske retoma o caso e prossegue na investigação. Nem é preciso lembrar que Fiske era um dos nomes que Bloch usava em algumas estórias.

Quando essa continuação foi publicada, Lovecraft havia acabado de falecer prematuramente e de forma repentina. Muitos de seus correspondentes sequer sabiam que sua saúde estava tão precária. Em uma carta a Lin Carter, Bloch sintetizou o sentimento de todos os correspondentes e amigos sobre a morte de seu mentor: “A brincadeira perdeu toda a graça depois disso”. Aos poucos Bloch foi se afastando dos Cthulhu Mythos e passou a buscar trabalhos que lhe concederam maior viabilidade e retorno financeiro. Ele escreveu alguns romances, entre os quais Psicose, assinou o roteiro de séries de televisão bem sucedidas como Star Trek, Alfred Hitchcock Presents e Twilight Zone (nosso Além da Imaginação).

Apesar de cada membro do Círculo criar seus próprios deuses demoníacos, Bloch preferia outra abordagem de seus horrores ancestrais. Ele descreveu o Velho Han e a Serpente barbada Byathis (depois desenvolvida por Ramsey Campbel), mas jamais se aprofundou muito na origem destas entidades. A razão disso parece envolver o interesse de Bloch no folclore e mitologia do Egito Antigo. Ele fez dessa terra e dessa época o pano de fundo para contos como “The Faceless God” e “The Fane of the Black Pharaoh”, usou a religião egípcia como base para “The Secret of Sebek” e as superstições envolvendo maldições em “The Eyes of the Mummy”. Bloch era um entusiasta da egiptologia e seu interesse transparece na sua ficção. Aos poucos, ele foi inserindo elementos que ligavam uma das mais sinistras criações de Lovecraft ao místico passado do Egito. Nyarlathotep se tornou figura recorrente em vários de seus contos ambientados nas terras do Nilo, envolvendo dinastias negras de faraós e sacerdotes corruptos devotados ao Caos Rastejante. Foi Bloch o responsável por expandir o papel de Nyarlathotep no panteão dos Deuses Exteriores sacramentando títulos como “Demônio Mensageiro”, “Deus do Deserto”, “Mensageiro de Karnetter” (o inferno egípcio) entre outros que ajudaram a definir a biografia de um dos monstros preferidos do Mythos.

No fim de sua carreira, Bloch retornou às suas origens e escreveu alguns contos envolvendo o Mythos de Cthulhu deixando claro que não havia qualquer ressentimento ou negação ao início de sua carreira. Ele sempre deixou claro que muito do que ele aprendeu sobre o ofício de escrever havia sido ensinado por Lovecraft quando ele ainda era um rapaz de quinze anos almejando uma carreira nas letras.

 Robert Bloch faleceu em 1994, após uma longa luta contra um câncer. Ele inspirou vários escritores com suas estórias e sempre será lembrado como um senhor bem humorado que por acaso sabia escrever sobre coisas apavorantes.   

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sede de Sangue - Anatomia dos Vampiros Espaciais


Os tomos esotéricos com conhecimento profano do Mythos, afirmam que existem coisas medonhas habitando os confins do espaço sideral. Uma das mais tenebrosas Raças Independentes que vivem entre as estrelas, sem dúvida são os Vampiros Espaciais.

Não se sabe qual o lar original dessas abominações extraterrestres, nenhum estudioso do Mythos é capaz de intuir de onde eles vieram, embora existam teorias não inteiramente corroboradas. Para Ludwig Prinn, que escreveu a respeito dessas terríveis criaturas no célebre "De Vermis Mysteriis", os Vampiros Espaciais teriam se originado em um outro plano de realidade, em algum universo paralelo e migrado para nosso plano de existência mediante alguma distorção espacial ou singularidade não inteiramente identificada. Prinn afirma ser possível que os Vampiros tenham sido invocados através de portais dimensionais que temporariamente ligam o nosso universo a outros. Os raríssimos Manuscritos Pnakoticos, uma coleção de escritos copiados pelos cronistas abduzidos da Grande Raça mencionam que os Vampiros Espaciais seriam uma espécie de praga cósmica que é atraída em busca de alimento, para planetas que suportam formas de vida . Os Yithianos, responsáveis por catalogar o conhecimento do universo em seus livros, chamam a atenção para o incrível perigo que essas criaturas representam. Segundo um trecho contido no Pnacótika, os Vampiros Espaciais foram responsáveis pela devastação de inúmeras esferas planetárias.

Eles também são conhecidos pelos Fungos de Yugoth. Os Mi-Go realizam uma cuidadosa vigilância contra essas criaturas e sempre que registram o aparecimento de uma agem imediatamente para eliminar sua presença uma vez que temem o surgimento desses invasores em seus domínios. Há indícios de que bases dos Mi-Go em planetas distantes já sofreram ataques por parte de hordas famintas de Vampiros Espaciais. Se isso for verdade, essas criaturas estariam em um patamar equivalente aos Pólipos Voadores no que diz respeito a agressividade e animosidade com outras raças do Mythos.

Vampiros Espaciais já foram avistados na Terra, espécimes solitários que foram atraídos pela perspectiva de se alimentar das formas de vida existentes. Felizmente estes ficaram pouco tempo em nosso planeta partindo logo depois de se saciar. É possívelq ue nossa atmosfera não seja ideal para os Vampiros, o que explica porque nenhum espécime, até onde se sabe, jamais se fixou na Terra. 

A grande maioria dos vampiros encontrados em nosso planeta, foram invocados através de magias envolvendo conceitos de hiper-matemática e metafísica. Alguns livros explicam os encantamentos e ensinam os rituais para invocação de tais entidades. 

Ao longo dos séculos, feiticeiros usaram essas magias para trazer Vampiros Espaciais e tentar submetê-los ao seu controle. Nem todos foram bem sucedidos nesse intento e vários feiticeiros morreram durante suas tentativas obstinadas de controlar essas forças cósmicas. Por alguma razão, vários livros afirmam que os Vampiros Espaciais podem ser compelidos a realizar tarefas designadas por aqueles que os invocam. Essa afirmação é apenas meia verdade. Há casos de famosos magos que, de fato, conseguiram esse feito que exige força de vontade inquebrantável. O famoso ocultista Barão Hauptmann, líder do perigoso secto Irmandade da Besta e o arquiteto mor de uma conspiração global, gabava-se ter em seu poder um Vampiro Espacial que protegia o Observatório em seu Castelo na Transilvânia contra invasores. Ephraim Waite, um velho feiticeiro de Arkham também mantinha sob seu poder um pergaminho no qual havia anotado um encantamento que lhe permitia invocar um Vampiro Espacial sobre o qual ele exercia controle. Não se sabe ao certo se essa informação procede, mas conhecendo a carreira mística de alguém como Waite, a possibilidade existe.

Há ainda um rumor que aponta como tendo sido um Vampiro Espacial a criatura responsável pela morte do erudito árabe Abdul Al-Hazred, autor do Al-Azif, obra mais conhecida no ocidente como Necronomicon. Segundo um biógrafo persa, Al-Hazred teria sido feito em pedaços por um "demônio invisível em plena luz do dia num bazar de Damasco". É possível que Hazred tenha sido eliminado por um inimigo que invocou um Vampiro Espacial para cumprir a tarefa? Ou teria sido ele vítima de uma criatura que ele próprio tentou dominar, mas que rompeu seu controle? Há muitos mistérios sobre a vida de Al-Hazred e sua morte não poderia ser menos enigmática.

Vampiros Espaciais são normalmente invisíveis, ainda que um observador cuidadoso possa discernir uma leve distorção no ar quando eles se movem. Essas criaturas são compostas de uma substância estranha à nossa realidade que reflete o espectro luminoso, criando um mecanismo natural de camuflagem. A presença deles, no entanto, pode ser detectada por um som gutural, descrito em alguns casos como um tipo de ronco gorgolejante ou chiado asmático. Alguns preferem atribuir a esse som uma característica ainda mais humana, definindo o ruído peculiar como uma risada sinistra.
Eles são atraídos por animais de sangue quente e provavelmente possuem algum tipo de sensor térmico que os avisa da presença de presas com essas características. Os Vampiros Espaciais não possuem olhos, mesmo assim são plenamente capazes de se guiar e perceber o que está ao seu redor. Eles também possuem um olfato extremamente sensível, sendo capazes de farejar o odor cúprico do sangue à uma distância de pelo menos 500 metros. Na ausência de um sistema auditivo, eles podem discernir sons, através de vibrações no ar, detectadas por finas cerdas corporais. Embora seja impossível estabelecer uma conversa coerente com essas criaturas usando idiomas humanos, alguns estalos e soluços emitidos por Vampiros parecem compor um rudimentar sistema de comunicação que pode ser interpretado. Essas criaturas possuem uma inteligência equivalente a dos seres humanos, podendo aprender, interpretar e racionalizar problemas.

O termo "Vampiro" decorre da voraz forma de alimentação dessas criaturas. Eles são hematófagos, alimentando-se exclusivamente de sangue de criaturas vivas. Um Vampiro extrai proteínas e lipídios diretamente do plasma, incorporando ao seu organismo os nutrientes necessários para sua sobrevivência. O sangue adicional é depositado em glândulas semelhantes a bolsas, repletas de anti-coagulante que mantém seu conteúdo líquido para ser sorvido quando necessário. Esse mecanismo permite ao Vampiro estocar  alimento para suas longas viagens espaciais, de modo semelhante ao que o urso polar faz ao consumir grande quantidade de gordura antes de hibernar.

Uma característica peculiar aos Vampiros Espaciais é que eles se tornam visíveis logo depois de se alimentar. Quando invisíveis, eles são consideravelmente menores, dilatando-se a medida que se alimentam. O sangue no interior de seus organismos circula por vasos capilares que se diletam conduzindo o material extraído, para o estômago pendular e bolsas coletoras. O processo, entretanto, se mantém por poucos instantes, o suficiente para que a forma do Vampiro possa ser vista em todo seu glorioso horror.

Um vampiro recém alimentado (e portanto visível) se assemelha a uma bolha pulsante avermelhada e inchada, de aspecto repulsivo, pingando sangue. Ele flutua delicadamente no ar como um balão de ar quente. Uma massa de tentáculos tubulares de coloração escarlate se move na superfície, cada qual dotado na sua extremidade de uma boca arredondada. Esse mecanismo bucal possui em seu interior cerdas ósseas, semelhantes a agulhas ocas que são usadas para furar e sugar o sangue mais facilmente. No momento que uma dessas bocas alcança a vítima, centenas de cerdas perfuram a pele profundamente e começam a sugar o sangue. Uma vez afixada, a boca tentacular administra uma saliva anti-coagulante para facilitar a extração e manter o fluxo constante. Logo em seguida, vários outros tentáculos se aproximam com o intuito de drenar a vítima. Em menos de 15 segundos, uma única boca é capaz de sugar 1 litro de sangue. Um Vampiro Espacial pode drenar totalmente um homem adulto em menos de um minuto se conseguir fixar bocas extratoras suficientes em sua vítima.


Alguns membros dessa raça possuem uma grande bocarra, repleta com os mesmos dentes finos e afiados, mas curiosamente nem todos os membros da espécie possuem essa característica. O que sugere a existência de mais de uma espécie com diferenças anatômicas marcantes entre si.

Para auxiliar o ataque e imobilização da presa, o Vampiro é dotado de um par de braços esguios a ponto de parecerem descarnados, com tendões a mostra, mas que são incrivelmente fortes. Cada um destes braços compridos possui uma mão com quatro dedos e garras recurvas. Ao agarrar uma presa com esses membros, o Vampiro tenta arrastá-la para a massa corporal a fim de morder. Em alguns casos os braços podem ser usados para segurar, afastar ou golpear os oponentes. Os dedos são hábeis o bastante para manipulação, permitindo ao vampiro executar tarefas como virar maçanetas, apanhar objetos e destrancar portas.

Os Vampiros Espaciais podem flutuar livremente em nossa atmosfera e se deslocar dessa forma como se estivessem levitando. O corpo dessas criaturas supostamente é preenchido por um gás neutro mais leve que o ar. O modo de ataque preferido dessa criatura é flutuar sobre a vítima, aproveitando sua invisibilidade e cair sobre ela mordendo logo de início. Em alguns casos o som de sua "risada macabra" pode alertar o alvo e permitir um instante de reação, antes do bote fatal.

Com os meios disponíveis em nosso planeta é extremamente difícil matar um Vampiro Espacial. O material alienígena de seu corpo é resistente a balas e reage como uma armadura de borracha vulcanizada diante da maioria das agressões. Explosivos surtem um efeito mais eficaz, mas mesmo granadas e dinamite, tem sua potência mitigada. Estes seres não precisam respirar, resistem bem ao frio do vácuo espacial e ao calor de raios solares. 

Diante da ineficácia de tais armas, magia parece ser a melhor opção para lidar com tais criaturas. Alguns feiticeiros acreditam que a melhor maneira de submeter essas aberrações a seu serviço é demonstrando seu conhecimento de magias poderosas a ponto de causar dano ao Vampiro. Isso e um estoque regular de sangue pode garantir a devoção das criaturas, ao menos por algum tempo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O Errante das Estrelas (Parte 2) - Conto de Robert Bloch

A conclusão do conto "O Errante das Estrelas" por Robert Bloch
Traduzido por Arthur Ferreira Jr
Blog Dominio Publicano


O ERRANTE DAS ESTRELAS

II

Providence é uma cidade adorável. A casa de meu amigo era antiga e esquisitamente georgiana. O primeiro piso era uma joia da atmosfera colonial. O segundo sob antigos telhados de duas águas que sombreavam a imensa janela, serviam como escritório para meu anfitrião.

Foi ali que ponderamos naquela noite lúgubre e fatídica de fim de abril; ali sob a janela aberta que contemplava o mar azul. Era uma noite sem lua; opressiva e melancólica com sua bruma que enchia a escuridão de sombras quirópteras. Em minha mente posso ainda vê-lo – o minúsculo aposento iluminado por lampião, com uma grande mesa e as cadeiras de espaldar alto; prateleiras delimitando as paredes; manuscritos estocados em arquivos especiais.

Eu e meu amigo sentamos na mesa, com o misterioso volume diante de nós. Seu perfil magro jogava uma perturbadora sombra na parede, e seu rosto de cera era furtivo à luz pálida. Havia um inexplicável ar de portentosa revelação, bastante perturbador em sua potência; eu pressentia a presença de segredos querendo ser revelados.

Meu companheiro também o detectara. Longos anos de experiência ocultista haviam aguçado sua intuição a um espantoso grau. Não fora o frio que o fizera tremer ao sentar na cadeira; não foi a febre que fez seus olhos flamejarem como fogos incrustados como joias. Ele sabia, mesmo antes de abrir o amaldiçoado tomo, que este era malévolo. O cheiro embolorado que sabia daquelas páginas antigas carregava consigo os miasmas da tumba. As folhas estavam mordidas de traças nas bordas, e os ratos haviam roído o couro da capa; ratos que talvez tivessem uma comida mais sórdida como sua ração comum.

Havia contado a meu amigo a história do volume naquela tarde, e desembrulhado o tomo em sua presença. Senti então que ele estava ávido e disposto a uma tradução imediata. Mas agora, punha dificuldades e objeções.

Não seria sábio, insistia ele. Aquele era um conhecimento maligno – quem poderia dizer que segredos temidos até pelo demônio continham aquelas páginas, ou que males poderiam cair sobre o ignorante que buscasse brincar com seu conteúdo? Seria bom não aprender tanto, e homens já haviam morrido por exercer a sabedoria pútrida que aquelas folhas continham. Meu amigo implorou-me para abandonar a busca, enquanto o livro ainda permanecia sem ser aberto, pedindo-me que buscasse minha inspiração em coisas menos insalubres.

Fui um tolo. Desfiz suas objeções com palavras rápidas, vãs e vazias. Eu não tinha medo. Que pelo menos contemplássemos os conteúdos de nosso prêmio. Comecei a virar as páginas. O resultado foi desabonador. Era, afinal de contas, um volume de aparência comum – folhas amareladas e apodrecidas cheias de textos em latim, escritos com letras negras. Isto era tudo; sem ilustrações nem desenhos alarmantes.

Meu amigo não conseguiu resistir mais ao fascínio de tal guloseima bibliófila. Num momento estava olhando por cima de meu ombro, com atenção, ocasionalmente murmurando trechos de frases em latim. O entusiasmo o dominou, finalmente. Agarrando o precioso tomo com ambas as mãos, sentou-se próximo à janela e começou a ler alguns parágrafos aleatórios, de vez em quando traduzindo-os para o inglês.

Seus olhos cintilavam com uma luz feral; seu perfil cadavérico ficou mais tenso, conforme esquadrinhava aquelas runas mofadas. As sentenças trovejavam numa temível litania, e então decaíam em tons abaixo de um sussurro, conforme sua voz ficava tão suave quanto o sibilar de uma víbora. Compreendi apenas algumas frases aqui e ali, pois em sua introspecção, ele parecia haver esquecido de mim. Estava lendo algo sobre feitiços e encantamentos. Lembro de alusões a certos deuses da adivinhação como o Pai Yig, o sombrio Han, e Byatis de barba de serpentes. Senti calafrios, pois já conhecia esses nomes antigos, mas sentiria ainda mais calafrios se ao menos soubesse o que estava para acontecer.

A coisa aconteceu rápido. Subitamente ele voltou-se para mim com grande agitação, sua voz empolgada num tom estridente. Perguntou-me se eu lembrava das lendas da feitiçaria de Prinn, e das histórias dos servos invisíveis que ele ordenava que descessem das estrelas. Assenti, pouco compreendendo a causa de seu súbito frenesi.

Ele contou-me então a razão. Ali, num capítulo sobre familiares, encontrara uma oração ou feitiço, talvez o mesmo usado por Prinn para convocar seus servos invisíveis de além das estrelas! Deixe-me ouvir o que ele lia.

Sentei ali parvamente, feito um tolo ignorante e estúpido. Por que eu não gritava, tentava escapar, ou arrancava aquele monstruoso manuscrito de suas mãos? Em vez disso sentei ali – sentei enquanto meu amigo, numa voz rebentando de empolgação antinatural, lia em latim uma longa e sonorosamente sinistra invocação.

“Tibi, Magnum Innominandum, signa stellarum nigrarum et bufoniformis Sadoquae sigillum.…”

O ritual grasnante prosseguiu, e então alçou voo nas asas de um horror medonho e noturno. As palavras pareciam contorcer-se, como chamas no ar, queimando meu cérebro. Os tons trovejantes soavam ecos no infinito, além da mais distante das estrelas. Pareciam passar por entre portais primevos e adimensionais, buscando um ouvinte para convocá-lo à terra. Seria tudo aquilo uma ilusão? Não parei para pensar em nada.

Pois a convocação involuntária foi respondida. Mal a voz de meu companheiro se calara, naquele pequeno aposento, veio o terror. O aposento ficou frio. Um súbito vento gritou pela janela aberta; um vento que não era da terra. Trazia um mal que balia de longe, e com esse som, a face de meu amigo tornou-se uma pálida máscara branca de horror recém-desperto. Então houve um rachar nas paredes, e o peitoril da janela ruiu diante de meus olhos arregalados. Daquele nada além da abertura veio uma súbita explosão de gargalhada lúbrica – uma risadaria histérica, nascida da loucura completa e avassaladora. Subiu até a mais casqueante quintessência de todo horror, horror sem uma boca que o proferisse.

O resto aconteceu com apavorante rapidez. Num átimo, meu amigo começou a gritar, perto da janela; gritar e agitar selvagemente as mãos no ar vazio. À luz do lampião, vi suas feições contorcerem-se num esgar de agonia insana. Um momento depois, seu corpo ergueu-se do chão, sem que nada o estivesse segurando, e começou a torcer-se para trás, num ângulo capaz de quebrar-lhe as costas. Um segundo mais tarde, veio o nauseante som de ossos quebrados. Sua forma agora pairava no próprio ar, olhos vidrados e mãos apertando convulsivamente algo que parecia invisível. Mais uma vez atroou o som de escárnio maníaco, mas daquela vez dentro do quarto!

As estrelas moviam-se numa angústia vermelha; o vento frio matraqueava em meus ouvidos. Aninhei-me em minha cadeira, olhos pregados naquela espantosa cena. Meu amigo agora estava guinchando; seus gritos misturavam-se à exultante e atroz gargalhada que vinha do ar vazio. Seu corpo pendurado, pendulando no espaço, mais uma vez contorceu-se e brotou sangue de seu pescoço rasgado, esguichando como se de uma fonte de rubis.

Esse sangue jamais alcançou o chão. Parou em meio ao ar, e a gargalhada cessou, substituída por um nojento ruído de sucção. Imerso num novo e acelerado horror, percebi que o sangue estava sendo drenado para alimentar a invisível entidade do além! Que criatura do espaço havia sido tão súbita e involuntariamente invocada? O que era aquela monstruosidade vampírica que eu não conseguia enxergar?

Naquele momento uma horrível metamorfose começou a acontecer. O corpo de meu companheiro ficou murcho, emaciado, sem vida. Finalmente foi jogado ao chão e ficou lá, repugnantemente imóvel. Mas no próprio ar, outra mudança, ainda mais macabra, começou a ocorrer.

Um brilho avermelhado encheu o canto da janela – um brilho sangrento. Lenta, mas constantemente, os contornos vagos de uma Presença começaram a se exibir; os contornos sujos de sangue daquele invisível e desengonçado errante das estrelas. Era vermelho e gotejante; uma imensidade de geleia pulsante se movia; uma bolha escarlate e suas miríades de trombas tentaculares, que se mexiam, e se mexiam... Haviam ventosas nas pontas dos apêndices, e estes abriam e fechavam numa volúpia carniceira... A coisa era inchada e obscena; uma massa sem cabeça, nem rosto, nem olhos, de mandíbula voraz e as garras titânicas de um monstro nascido nas estrelas. O sangue humano do qual havia se alimentado revelava os contornos até então invisíveis da coisa que se banqueteava. Não era uma visão própria para olhos de gente sã.

Felizmente para meu estado mental, a criatura não se demorou. Abandonando a coisa morta, cadavérica e mole no chão, com decisão voltou-se para a abertura. Nela desapareceu, e ouvi sua risada zombeteira à distância, flutuando nas asas do vento, enquanto ele reentrava nos abismos de onde havia vindo.

Isto foi tudo. Fui deixado sozinho no aposento, com aquele corpo mole e sem vida a meus pés. O livro havia desaparecido; mas haviam impressões sangrentas na parede, poças de sangue no chão, e o rosto de meu pobre amigo era uma massa sangrenta, que morta fitava as estrelas.

Por um longo período de tempo, sentei sozinho, em silêncio, antes que ateasse fogo ao aposento e a tudo que ele continha. Depois disso, saí correndo, rindo, pois eu sabia que as chamas erradicariam todo traço do que permanecia ali. Havia chegado pouco antes, naquela tarde, e ninguém me conhecia, e ninguém havia me visto, e parti antes que as chamas brilhantes me denunciassem. Tropecei por horas por entre as ruas tortuosas, e rebentava numa gargalhada contínua e idiota toda vez que olhava para as estrelas sempre vigilantes, sempre ardentes, que observavam-me furtivamente através dos rolos de névoa assombrada.

Depois de muito tempo acalmei-me e tomei um trem. Permaneci calmo durante toda a longa jornada para casa, e calmo permaneci enquanto escrevi este relato. Até mesmo permaneci calmo quando li sobre a curiosa morte acidental de meu amigo, no fogo que destruíra sua morada. É somente nas noites em que as estrelas brilham, que os sonhos devolvem-me a um gigantesco labirinto de medos frenéticos. E então me afundo nas drogas, numa vã tentativa de banir essas memórias insistentes de meus sonhos. Mas na verdade não me importo, pois sei que não permanecerei aqui por muito tempo.

Tenho uma curiosa desconfiança de que verei novamente o errante das estrelas. Penso que ele retornará logo, mesmo sem ser convocado de novo, e sei que quando ele vier, me perseguirá e me carregará para a escuridão que abriga meu amigo. Às vezes eu quase anseio pelo advento desse dia, pois nele desvendarei de uma vez por todas os Mistérios do Verme.

domingo, 4 de novembro de 2012

O Errante das Estrelas (Parte 1) - Conto de Robert Bloch

Conto "The Shambler of Stars" por Robert Bloch
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.
Blog Dominio Publicano

Robert Bloch  um de meus autores favoritos favoritos no universo do Mythos. Aqui esta um de seus mais conhecidos contos usando a mitologia criada por H.P. Lovecraft, o conto seminal que apresentou os tenebrosos Vampiros Espaciais.


O ERRANTE DAS ESTRELAS

I

Eu sou o que professo ser – um escritor de ficção bizarra. Desde a mais tenra infância, fui escravizado pela enigmática fascinação do desconhecido e do indecifrável. Os medos sem nome, os sonhos grotescos, os caprichos mórbidos e quase intuitivos que assombram nossas mentes, sempre causaram em mim um prazer potente e inexplicável.

Na literatura, tenho caminhado pelas trilhas da meia-noite com Poe, ou furtivamente andado pelas sombras com Machen; esquadrinhado os reinos das estrelas horrendas com Baudelaire, ou imerso na loucura interna da terra, entre as histórias da sabedoria antiga. Um talento medíocre em esboços e trabalho com crayon levou-me a tentar rudes pinturas envolvendo os habitantes alienígenas de meus pensamentos noturnos. O mesmo tipo soturno de intelecto que atraiu-me na arte interessava-me nos obscuros reinos da composição musical; as melodias sinfônicas da Suíte dos Planetas e coisas do gênero eram as minhas favoritas. Minha vida interna logo tornou-se um banquete macabro de horrores sobrenaturais e irresistíveis.

Minha existência mundana era comparativamente morna. Conforme passava o tempo, encontrei-me caindo cada vez mais na vida de um recluso pobretão; uma existência tranquila e filosófica entre um mundo de livros e sonhos.

Mas um homem tem de viver. Por natureza constitucional e espiritualmente averso ao trabalho manual, a princípio fiquei confuso diante da escolha de uma vocação adequada. A depressão complicou as coisas a um grau quase intolerável, e por um certo tempo, estive perto do total desastre econômico. Foi então que decidi escrever.

Procurei uma máquina de escrever gasta, uma resma de papel barato, e alguns papéis carbono. Que melhor campo, se não os reinos infinitos da imaginação colorida? Poderia escrever sobre horror, medo, e sobre o enigma que é a Morte. Pelo menos, na insensibilidade de minha falta de sofisticação, era isto que eu tencionava.

Minhas primeiras tentativas logo convenceram-me de quão completamente eu havia falhado. Triste e miseravelmente, não havia atingido minha meta aspirada. Meus vívidos sonhos, no papel, tornavam-se amontoados sem sentido de adjetivos ponderosos, e não encontrei palavras comuns para expressar o terror maravilhado do desconhecido. Meus primeiros manuscritos eram documentos miseráveis e fúteis; as poucas revistas que utilizaram tais materiais foram unânimes em sua rejeição.

Mas eu tinha de viver. De forma lenta, mas constante, comecei a ajustar meu estilo às minhas ideias. Laboriosamente, experimentei com palavras, frases, estruturas de sentenças. Era um trabalho, e um trabalho duro. Logo aprendi a me esforçar. Todavia finalmente uma de minhas histórias foi bem recebida; e então uma segunda, uma terceira e uma quarta. Logo, tive de começar a dominar os truques mais óbvios da área, e o futuro enfim parecia mais brilhante. Foi com a mente menos carregada que voltei à minha vida de sonhos e a meus amados livros. Minhas histórias rendiam-me um viver um tanto apertado, e o por um tempo isto foi suficiente. Mas não por muito tempo. A ambição, essa ilusão eterna, foi a causa de minha ruína.

Almejava escrever uma história real; não do tipo estereotipado e efêmero que aparecia nas revistas, mas uma obra de arte real. A criação de uma obra-prima assim tornou-se meu ideal. Eu não era um bom escritor, mas isto não se devia totalmente a meus erros no estilo mecânico. Na verdade, a falha estava no meu assunto abordado. Vampiros, lobisomens, carniçais, monstros mitológicos – estas coisas constituíam material de parco mérito. Imagética de lugar-comum, tratamento adjetival corriqueiro, e um ponto de vista prosaicamente antropocêntrico eram os principais detrimentos na produção de uma boa história bizarra.

Devo buscar novos assuntos, material de tramas verdadeiramente incomum. Se pelo menos pudesse conceber algo que fosse teratologicamente inacreditável!

Ansiava aprender as canções que os demônios cantam quando rodopiam entre as estrelas, ou ouvir as vozes dos deuses mais antigos quando sussurram seus segredos ao vazio ecoante. Almejava conhecer os terrores do túmulo; o beijo das larvas em minha língua, a fria carícia de uma mortalha apodrecida sobre meu corpo. Tinha sede do conhecimento encontrado nos poços de olhos mumificados, e queimava pela sabedoria conhecida apenas pelo verme. E então poderia de fato escrever, e ter minhas esperanças genuinamente realizadas.

Busquei uma forma. Quietamente, comecei a trocar correspondências com pensadores e sonhadores isolados, de todo o país. Havia um eremita nas colinas a oeste, um sábio nas florestas ao norte, um sonhador místico na Nova Inglaterra. Foi deste último que aprendi sobre os antigos livros que detém estranha sabedoria. Ele citava reservadamente o lendário Necronomicon, e falava timidamente de um certo Livro de Eibon, que tinha a reputação de superar o primeiro no caráter totalmente selvagem de suas blasfêmias. O místico em si havia sido estudante desses volumes de temor primordial, mas não gostava da ideia de me ver pesquisando longe demais. Ele ouvira muitas coisas estranhas quando garoto na cidade de Arkham, assombrada pelas bruxas, onde as antigas sombras ainda espreitam e caminham furtivas, e desde então havia sabiamente evitado o conhecimento mais sombrio e proibido.

Após muita pressão de minha parte, ele relutantemente consentiu em prover-me os nomes de certas pessoas que considerava aptas a ajudar em minha busca. Ele era escritor de notável brilhantismo e ampla reputação entre os poucos relevantes, e eu sabia que ele estava avidamente interessado no resultado da demanda em si.

Tão logo sua preciosa lista chegou em minhas mãos, comecei uma ampla campanha postal para obter acesso aos volumes desejados. Minhas cartas atingiram universidades, bibliotecas privadas, videntes famosos e os líderes de cultos cuidadosamente ocultos e obscuramente designados. Mas estava fadado ao desapontamento.

As réplicas que recebia eram definitivamente inamistosas, quase hostis. Ficava evidente que os falados possuidores de tais conhecimentos ficaram irritados com a ideia de seus segredos assim revelados por um espião estranho. Fui subsequentemente alvo de várias ameaças por carta, e pelo menos uma chamada telefônica alarmante. Isto não me incomodou mais que a percepção desapontadora de que minhas empreitadas haviam falhado. Negativas, evasões, recusas, ameaças – estas coisas não me ajudariam. Deveria buscar em outra parte.

Livrarias! Talvez em alguma prateleira embolorada e esquecida pudesse descobrir o que buscava.

Comecei então uma interminável cruzada. Aprendi a suportar meus numerosos desapontamentos com uma calma inabalável. Ninguém no tipo comum de livraria parecia jamais ter ouvido falar do temível Necronomicon, no maligno Livro de Eibon, ou no inquietante Cultes des Goules.

A persistência traz resultados. Numa pequena e velha livraria da South Dearborn Street, entre prateleiras empoeiradas aparentemente esquecidas pelo tempo, cheguei ao fim de minha busca. Ali, seguramente encaixado entre duas edições de Shakespeare datadas de dois séculos, estava um grande volume negro, com adornos protetores de ferro. Sobre ele, em letra manuscrita, estava a inscrição De Vermis Mysteriis, ou, “Os Mistérios do Verme.”

O proprietário não sabia dizer como foi que aquele livro havia chegado a sua posse. Anos antes, talvez, tenha sido incluído em algum lote variado, de segunda mão. Obviamente não estava ciente de sua natureza, já que eu o comprei por apenas um dólar. Ele embalou para mim a ponderosa coisa, bastante satisfeito com a venda inesperada, e me deu um satisfeito bom-dia.

Saí apressadamente, meu preciso prêmio sob o braço. Que descoberta! Havia ouvido falar antes deste livro. Ludvig Prinn era seu autor, que havia perecido na fogueira inquisitorial em Bruxelas, quando os julgamentos das bruxas estavam em seu auge. Um estranho personagem – alquimista, necromante, reputadamente um mago – gabava-se de ter chegado a uma idade miraculosa, quando finalmente sofreu a imolação flamejante nas mãos do braço secular. Dizia ele ser o único sobrevivente da malfadada Nona Cruzada, exibindo como prova certos documentos embolorados que o atestavam. É verdade que um certo Ludvig Prinn estava entre os cavalheiros vassalos de Montserrat, nas mais antigas crônicas, mas os incrédulos rotularam Ludvig como um impostor insano, embora talvez um descendente direto do guerreiro original.

Ludvig atribuía seu aprendizado feiticeiro aos anos que passara cativo entre os magos e taumaturgos da Síria, e falava longamente dos encontros com os gênios e efreets da mitologia do Oriente Médio. Sabe-se que ele passou algum tempo no Egito, e existem lendas entre os dervixes líbios falando dos feitos do velho vidente em Alexandria.

De qualquer forma, seus dias de declínio foram passados no país flamingo das terras baixas, onde havia nascido e onde residia, apropriadamente, nas ruínas de uma tumba pré-romana erguida na floresta próxima a Bruxelas. Ludvig tinha a reputação de habitar ali entre um enxame de familiares e conjurações temerariamente invocadas. Os manuscritos ainda existentes falam dele de maneira reservada, como sendo atendido por “companheiros invisíveis” e “servos vindos das estrelas.” Os camponeses evitavam a floresta à noite, pois não gostavam de certos ruídos que ressoavam sob a lua, e muito certamente não estavam ansiosos de ver o que andava venerando nos velhos altares pagãos que erodiam em certos bosques mais soturnos.

Qualquer que seja a verdade, essas criaturas que ele comandava jamais foram vistas após a captura de Prinn pelos lacaios inquisitoriais. Os soldados perseguidores encontraram a tumba totalmente deserta, muito embora tenha sido saqueada nos mínimos detalhes, antes de sua destruição. As entidades sobrenaturais, os instrumentos e componentes incomuns – todos haviam curiosamente desaparecido. Uma busca nas florestas proibidas e um exame temeroso dos estranhos altares não adicionou informação alguma. Haviam manchas frescas de sangue nos altares, e também na roda de tortura, antes do fim das sessões de questionamento de Prinn. Uma série de torturas particularmente atrozes falharam em suscitar quaisquer revelações adicionais do mago silencioso, e depois de muito os exaustos interrogadores cessaram de tentar e lançaram o envelhecido feiticeiro numa masmorra.

Foi na prisão, enquanto aguardava o julgamento, que escreveu as linhas mórbidas e pressagiosas de horror do De Vermis Mysteriis, conhecido hoje como Mistérios do Verme. Como ele fora contrabandeado para além dos guardas atentos foi em si um mistério, mas um ano após sua morte ele foi impresso em Cologne. Foi imediatamente suprimido, mas umas poucas cópias já haviam sido distribuídas em privado. Estas por sua vez foram transcritas e embora houvesse uma impressão posterior, censurada e deletada, apenas o original em latim é aceito como genuíno. No decorrer dos séculos apenas uns poucos eleitos houveram lido e ponderado sobre seus conhecientos. Os segredos do velho arquimago são conhecidos hoje apenas pelos iniciados, e estes descorajam quaisquer tentativas de espalhar sua fama, movidos por certas razões bastante definidas.

Era isto, em resumo, o que eu sabia da história do volume, na época em que ele me caiu nas mãos. Como item de colecionador, apenas, o livro era uma descoberta fenomenal, mas quanto a seus conteúdos, não poderia fazer avaliação. Estava em latim. Já que posso falar ou traduzir apenas umas poucas palavras desse idioma erudito, fui confrontado por uma barreira, tão logo abri as páginas emboloradas. Era enlouquecedor ter tal cofre do tesouro de conhecimento obscuro ao meu dispor e ainda assim carecer da chave que o abriria.

Por um momento entrei em desespero, pois estava indisposto a abordar algum erudito clássico ou entendido em latim, portando livro tão horroroso e blasfemo. Veio então a inspiração. Por que não ir a leste buscar a ajuda de meu amigo? Ele era estudante dos clássicos e estaria menos propenso a ficar chocado com os horrores das revelações nocivas de Prinn. Portanto enderecei a ele uma carta ansiosa, e logo após recebi minha resposta. Ele teria prazer em ajudar-me – eu devia apressar-me em ter com ele.
Conclui na parte 2.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"A Transformação de Eli" - Uma Lenda bizarra envolvendo loucura, maldições, artefatos e porcos.

Bom, Halloween acabou de passar mas essa estória me parece bem adequada para a ocasião.

Em teoria é uma daquelas estórias verdadeiras, ao menos ela tem a reputação de ser verídica. O mais provável é que seja um tipo de lenda urbana restrita ao interior dos estados de Missouri, Arkansas, Kansas e Oklahoma, mais especificamente na região compreendida nas Montanhas Ozark que até o século passado possuía pequenas comunidades de fazendeiros vivendo em áreas bastante isoladas. O fato de ninguém saber ao certo detalhes concretos, o nome do lugar onde os fatos ocorreram ou mesmo o nome dos envolvidos contribui para a probabilidade da estória não passar de folclore. Mesmo assim, é uma estória bizarra.

A dramática narrativa da "Transformação de Eli" começou a circular pelo centro-sudoeste dos Estados Unidos por volta do início da década de 1930 e ainda hoje é bem conhecida. Alguns situam os eventos um pouco antes, em algum ponto entre 1870 a 1900. Há pequenas variações na maneira como a lenda é contada, mas em essência a estória é sempre a mesma.

A estória é mais ou menos a seguinte:

Havia uma pequena comunidade na parte mais profunda da floresta, formada por batistas que viviam na região mais arborizada das Montanhas Ozark. Tudo ocorreu no auge da Grande Depressão quando o pequeno grupo de habitantes lutava para manter o vínculo estebelecido não apenas pelo sangue, mas por um forte sentimento de solidariedade mútua.
Todos sofriam miseravelmente com o caos financeiro que havia dominado o país a partir de 1929. Todos tinham pequenas fazendas a beira da ruína financeira, mas de alguma forma buscavam se manter juntos e confiantes. A crise teria de passar mais cedo ou mais tarde. O que faltava para uma família era suprido pela do vizinho. Embora as coisas fossem complicadas, eles tinham o suficiente para comer e levar uma vida saudável, o que era mais do que a maioria podia dizer naqueles tempos difíceis.

Eli o personagem principal da estória era proprietário de uma fazenda de porcos em um terreno solitário, triste e afastado na margem dessa comunidade. Apesar de viver a muitos quilômetros do centro do povoado, ele sempre fazia o caminho até lá, ao menos duas vezes por semana: domingo de manhã para a missa semanal e no serviço religioso das quartas-feiras. Eli fazia questão de trazer a família, não importando se fizesse chuva ou sol, na saúde ou na doença. Todos viajavam na carroça até o centro comunitário.

Ele nunca se importou com a política local e jamais demonstrou interesse em ocupar qualquer cargo público apesar de sua opinião ser respeitada. Eli tinha uma vida íntegra, cuidava de sua família e esposa, cumpria suas obrigações e sempre que necessário estendia a mão para ajudar os vizinhos menos afortunados. Ele era ajudante paroquial, sua esposa catequista e ambos auxiliavam a Igreja local, pagando do próprio bolso o custo de reparos urgentes que surgiam de tempos em tempos. Seus três filhos tinham idades entre 12 e 16 anos e eram queridos por todos na comunidade. Eli e sua esposa Emma os educaram pessoalmente e tinham orgulho de cada um deles.

Mas poucas semanas antes de completar 50 anos algo aconteceu com o Irmão Eli. Uma espécie de transformação.

Será que a estátua seria algo parecido com isso?
Alguns de seus amigos mais próximos na Igreja disseram que tudo começou quando os porcos de sua fazenda escavaram uma coisa estranha enterrada na lama. 

Eli contou ter sido despertado pela manhã pelo barulho dos porcos. Ele foi até o cercado e removeu os animais para outra coxilha, e em seguida começou a procurar o que havia causado tamanha agitação. Encontrou uma coisa meio enterrada no lodaçal e usou uma pá para completar o trabalho. Logo algo estranho surgiu. Era uma estátua de madeira escura, embora aqueles que examinaram o objeto, tenham contado que a coisa era dura como pedra e tinha a aparência de ter sido fossilizada. A estátua era de uma figura claramente humana do tamanho de uma criança. A cabeça era grande e desproporcional, com olhos largos e sem uma boca, nariz ou orelhas visíveis. Ela tinha braços finos dobrados sobre o abdomen, as mãos eram delicadas com quatro dedos, sem polegares. As pernas também eram muito finas e estavam juntas de tal forma que pareciam formar um único membro. Colocada de pé a estátua ficava perfeitamente equilibrada em uma superfície plana. Uma das coisas mais estranhas é que nas mãos da estátua havia uma espécie de tubo - que claramente era feito de um material diferente do resto da estátua, e que alguns afirmaram ser metálico.

Eli examinou cuidadosamente a estátua, lavou a superfície com água e sabão, esfregou com um pano para tentar ver mais claramente os detalhes. Descobriu então que o tubo tinha uma tampa encaixada que removida revelou um pedaço de pergaminho com um tipo de escrita curvelínea diferente de tudo que ele já havia visto.

O fazendeiro resolveu ir até a cidade e contar aos seus amigos o que havia encontrado. Ele também teve o cuidado de mostrar o estranho papel ao pastor que examinou o fragmento e disse não ter certeza absoluta, mas que poderia se tratar de algum tipo de dialeto hebraico. A essa altura todos na pequena comunidade já falavam da descoberta e muitos perguntaram se podiam dar uma espiada na coisa.

Eli concordou e alguns de seus vizinhos foram até a fazenda de porcos para ver a estátua e sugerir uma possível origem. Dizem que um rapaz muito sensível que foi até a fazenda sofreu uma convulsão ao ver a estátua e que teve de ser levado às pressas para casa a fim de se recuperar - mas essa pode ser uma liberdade com os fatos. Ninguém conseguiu determinar o que representava a estátua, mas a maioria concordava com a teoria de que ela devia ser um tipo de relíquia indígena. Os nativos americanos povoavam as Montanhas Ozark muito antes da chegada dos colonos europeus e poderiam ter deixado algo semelhante para trás.

Alguns sugeriram que Eli procurasse a gazeta local e que anunciasse a descoberta, mas os fazendeiros das Ozarks são famosos pela reclusão. Envolver forasteiros em seus assuntos pessoais não é da natureza deles e Eli não estava interessado chamar a atenção. Além disso, logo a estátua deixou de ser uma novidade e as coisas voltaram ao normal. Eli transportou o achado para um celeiro e o deixou lá, encostado na parede. O pergaminho ele guardou dentro de casa para ser mostrado a curiosos, amigos e ocasionais visitantes.

Cerca de um mês depois da descoberta coisas estranhas começaram a acontecer na fazenda. Eli acordou certa manhã e quando foi alimentar os porcos encontrou metade deles mortos. Não havia sinais ou marcas nas carcaças, mas ao redor dos olhos, narinas e boca ele descobriu sangue seco. Os animais pareciam ter sido vítimas de algum tipo de hemorragia interna. Os sobreviventes também agiam de forma peculiar. Eles avançavam contra o cercado violentamente chegando a se ferir. Imaginando que estivessem em pânico por causa dos outros que haviam morrido, um dos filhos de Eli abriu o portão para mudar os animais de cercado. Assim que abriu o portão, eles derrubaram o rapaz e correram para fora como se estivessem sendo perseguidos por algum predador invisível.

Deus, como eu detesto porcos...
Levou quase dois dias para encontrar os porcos fugitivos e arrastá-los de volta para a fazenda. Alguns foram encontrados mortos com os mesmos sintomas que os que foram encontrados originamente na véspera. Um dos porcos chegou a atacar um dos filhos de Eli durante a recaptura. Não é totalmente estranho que um suíno de grande porte ataque, sobretudo quando acuado, mas Eli comentou na ocasião com um conhecido, que o comportamento do animal foi incomum já que ele investiu contra eles ao invés de simplesmente tentar escapar.

Alarmado e intrigado pelo animal, não restou outra alternativa ao fazendeiro além de abrir fogo com uma espingarda contra o enorme animal e torcer para que o ferimento o derrubasse. Com o tiro, o suíno tombou, mas mesmo gravemente ferido ainda dava sinais de agressividade. Eli contou que teve de recarregar a arma e desferir outros dois tiros à queima roupa para finalmente matar a criatura. Houve boatos de que os porcos na fazenda pudessem ter contraído raiva, mas Eli jurou que todos os animais estavam saudáveis poucos dias antes e que mesmo antes de receber o tiro de misericórdia havia sangue nos olhos e nariz do animal que os atacou. 

Apesar da grande perda, a carcaça de todos os porcos mortos foram incineradas em uma fogueira para impedir que a doença, seja lá qual fosse, se espalhasse. Os que restaram no cercado ainda se comportavam de modo estranho, mas depois de um tempo acabaram se acalmando.
Uma semana depois desse episódio, a mulher de Eli bateu a  porta da sacristia em busca do Pastor no meio da noite. Ela estava muito nervosa e contou que uma discussão entre Eli e um dos filhos havia resultado em uma briga séria. Eli teria ameaçado o rapaz com um machado de cortar lenha. Ninguém havia se ferido, mas

Eli vinha se comportando de modo estranho desde o que havia acontecido com os animais.

Emma contou que ele murmurava para si mesmo e ria baixo, dizia coisas sem sentido e parecia de alguma forma confuso. Certa noite ela despertou e descobriu que estava sozinha no quarto. Percebeu então que havia luz vindo do celeiro e logo em seguida viu o marido saíndo lá de dentro. Quando Emma questionou o que ele estava fazendo, ele fechou o punho e ameaçou lhe agredir. Eli a advertiu para que não fizesse perguntas e que o respeitasse. Depois de alguns minutos ele pareceu perdido e Emma o levou de volta para a cama onde ele teve um sono agitado e atormentado por pesadelos.

Nos dias seguintes Eli parecia sempre agitado, nervoso e prestes a explodir por qualquer motivo. Ele frequentemente se ausentava de casa e ia até o celeiro onde ficava por horas. Emma contou que em certa ocasião ouviu o marido gritar coisas ininteligíveis e que quando bateu na porta para saber se estava tudo bem ele abriu negando veementemente que tivesse gritado. Pela fresta do portão ela percebeu que havia luz de velas no interior do celeiro e um cheiro nauseante.
Emma não demorou a conectar o estranho comportamento do marido com a relíquia que havia sido encontrada. Eli não queria mais ir ao povoado e começou a ficar dia e noite trancado dentro do celeiro. Certo dia, um dos filhos espiou por uma janela e disse ter visto o pai cantando (ou melhor entoando) palavras sem sentido diante da estátua. Aos pés da coisa haviam velas acesas de todos os tamanhos como se a imagem fosse um ídolo religioso. Foi nessa ocasião que ele discutiu violentamente como rapaz chegando a apanhar o machado e ameaçá-lo para que o deixasse em paz.
Essa estátua de Quachil Uttaus aliás ficou bem legal
O pastor foi de pouca ajuda. Disse simplesmente que Emma deveria tentar conversar com o marido que estava sob forte pressão em virtude do que havia acontecido com os animais. Ele garantiu que iria visitar a fazenda no dia seguinte e que levaria consigo dois amigos para conversar e contemporizar a situação. Emma teve a idéia de visitar um primo chamado Thomas e implorou para que ele viesse até a fazenda para ver como estava a situação.
Quando Emma e Thomas voltaram, reuniram os filhos que confirmaram o que estava acontecendo. Na opinião deles o pai estava sob algum tipo de poder maligno ou maldição. Eles não tinham dúvida que a estátua era a causa mais provável para esse comportamento bizarro. Emma e os filhos, amparados por Thomas decidiram tomar uma atitude e aproveitaram um raro momento em que Eli havia se ausentado para entrar no celeiro. Lá dentro encontraram velas dispostas em um círculo ao redor da estátua.
Um dos rapazes apanhou a estátua e a jogou em uma lareira acesa, no exato momento em que Eli surgiu na porta furioso armado com um machado. Ele gritou palavras sem sentido e tentou atacar sua família com intensão homicida. Felizmente Thomas conseguiu desarmá-lo, mas ainda assim o fazendeiro avançou na direção da lareira para tentar salvar a estátua de qualquer forma. No processo sofreu queimaduras nos braços e no rosto espalhando labaredas pelo celeiro. Os outros finalmente conseguiram dominar o fazendeiro e o arrastaram para o lado de fora aos gritos enquanto o prédio pegava fogo. 
Um dos rapazes correu até o vizinho mais próximo e chamou ajuda. Dois dias depois, Eli acordou em um hospital para onde havia sido enviado para receber tratamento. As queimaduras eram graves, mas por sorte ele não sofreu qualquer infecção e poderia se recuperar. Ele não tinha qualquer memória de seu frenesi assassino. De fato a última semana parecia um grande borrão em sua memória. Embora não apresentasse nenhum sintoma de raiva, ele foi tratado com vacina. Não havia nenhum animal restante para ser dissecado para provar que o incidente fora causado por raiva.

Eli se recuperou totalmente nos meses seguintes e jamais teve um episódio semelhante. A família teria decidido abandonar a fazenda onde viveram o horrível pesadelo. Eles supostamente reuniram seus pertences e partiram com destino ao oeste. Nenhuma evidência da estátua foi encontrada no celeiro que foi inteiramente consumido pelas chamas.

A propriedade foi consagrada pelo pastor e abençoada para que qualquer presença maligna fosse de uma vez por todas neutralizada. Mesmo assim, a fazenda teria se incendiado espontaneamente alguns meses depois uma vez que ela estava deserta.

Se a estória tem algum fundo de verdade não se sabe ao certo. Como eu disse, os nomes e a localização permanecem desconhecidos e como ocorre com a maioria das lendas ninguém é capaz de separar fato de realidade. Mesmo assim, a lenda da "Transformação de Eli" continua sendo contada.

Quando li essa estória foi impossível dissociar os acontecimentos narrados de um típico conto de horror envolvendo antigas maldições. Quer dizer, tudo se encaixa de maneira tão incrivelmente bizarra!   

O que seria a estátua petrificada? De onde ela veio e o que representava? Será que através dela era possível contatar algum tipo de entidade maligna que habitava recessos além do tempo e espaço? Será que Eli foi capaz de invocar essa entidade e ela de alguma forma se apoderou dele?

Se a estória é baseada em algo que realmente aconteceu, então o que transformou um generoso fazendeiro em um maníaco homicida semelhante ao personagem de "O Iluminado", de Stephen King.

Ah, essas lendas urbanas...