quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Mesa Tentacular: Cenário "The Hopeful" para Call of Cthulhu no Dungeon Carioca de Julho


E aí pessoal,

É com grande prazer que escrevo o registro de mais uma Mesa Tentacular narrada no tradicional Encontro do Dungeon Carioca, edição de Julho. O DC acontece mensalmente na Zona Oeste do Rio de Janeiro. ntes que alguém pergunte, sim essa postagem está muito atrasada.

Aproveitei a ocasião para dar o ponta-pé inicial em uma nova mini-campanha que batizei como "Horrores da Nova Inglaterra".

A ideia é conduzir uma série de investigações com uma pegada mais introspectiva de horror, utilizando as sombras e a imaginação dos jogadores de maneira mais discreta e menos evidente. O objetivo é fazer com que os personagens realmente não tenham certeza do que estão presenciando ou do pesadelo em que estão se metendo. Algo bem dentro da proposta purista de horror inominável, indescritível, impronunciável... 

Uma vez que eu sou fã de cenários mais inclinados para o gênero pulp - onde os investigadores lutam com unhas e dentes, disparando rajadas de tommy-guns e chumbo de espingardas contra hordas de cultistas ensandecidos ou aberrações tentaculares babonas e gigantescas. Esse estilo mais purista, tem sido, portanto, um desafio considerável. Na primeira aventura por exemplo, o máximo que o grupo viu foram olhos brilhando na escuridão e indivíduos bizarros que ainda assim podiam ser encarados como humanos (bem pouco, mas enfim).

A segunda proposta dessa campanha é revisitar as principais localidades que compõem a Lovecraftian Country, todas as pequenas cidades assombradas e lugarejos isolados clássicos criados por H.P. Lovecraft como pano de fundo para suas estórias mais famosas. Eu me dei conta que fazia tempo que eu não usava a Lovecraftian Country nas minhas estórias (com exceção de Arkham!). Em parte, é complicado, porque os jogadores geralmente conhecem as estórias e facilmente antecipam o que está por vir em cada uma delas. Mas longe de atrapalhar, isso acaba sendo mais um desafio; fazer com que o grupo se surpreenda com reviravoltas inesperadas em lugares notórios.

Programei a campanha para ter quatro capítulos, cada um deles situado em alguma das cidades amaldiçoadas da Nova Inglaterra - Arkham, Innsmouth, Dunwich e Kingsport.

Diferente do que acontece nos encontros, os jogadores puderam criar seus próprios personagens e estes terão a chance de progredir ao longo das aventuras, a medida que decifram alguns dos segredos mais escabrosos da Nova Inglaterra.

O primeiro cenário escolhido foi "The Hopeful" escrita por Oscar Rios e publicada no suplemento "More Adventures in Arkham Country" da Editora Miskatonic River Press.


Nesse primeiro capítulo, os investigadores, orgulhosos moradores de Arkham, são contratados por um jovem estudante da Universidade Miskatonic que teme pelo seu promissor futuro como atleta do time de natação. O grupo inicia a investigação que parece ser algo bastante convencional, banal até, mas a medida que eles começam a se aprofundar na trama, escavando segredos do passado, descobrem que nem tudo é tão simples e logo o clima de paranoia vai crescendo até descambar para a violência.

Em "The Hopeful" o grupo eventualmente é levado até a sombria cidade costeira de Innsmouth, lar da decrépita família Marsh, um clã que esconde segredos ancestrais e que há muitos séculos firmou um pacto diabólico com seres do Mythos.


O mais legal é que o desfecho do cenário poderia ser usado como desculpa perfeita para desencadear o infame Raid of Innsmouth, quando o Governo Federal e Militares do Exército Norte-Americano reclamaram a cidade das garras de criaturas das profundezas.

Eu sempre quis narrar essa aventura clássica, quem sabe dessa vez acaba rolando essa aventura contida no livro Escape from Innsmouth.


Para acompanhar o cenário preparei vários handouts para a sessão. Originalmente a aventura trazia alguns poucos documentos, mas como havia a chance de incluir mais algumas pistas caprichei nas fotografias, documentos, cartões e mensagens a serem descobertas no curso da investigação.


No fim das contas, a aventura foi bem divertida e como se trata de uma mini-campanha não quero "aniquilar" física e mentalmente os personagens, como acontece nos cenários one-shot que costumo narrar nos encontros regulares.

Vejamos até onde os intrépidos investigadores conseguirão chegar explorando as cidades que compõem a terra de Lovecraft e até onde eles conseguirão suportar as revelações que cada uma delas tem a oferecer.


Placar da primeira rodada: nenhuma baixa entre os investigadores - mas sabem como é, sempre há um dia da caça e um do caçador.

Nos veremos no próximo capítulo da campanha.

domingo, 17 de agosto de 2014

Ouçam o Chamado - Primeiro vídeo com a edição brasileira de Chamado de Cthulhu


Olá para todos,

Nosso colega Pedro Ziviani, da editora Terra Incógnita divulgou um vídeo com uma versão 99% pronta da Edição brasileira do Livro Básico de Chamado de Cthulhu.

Não vou me estender muito em considerações, deem uma olhada e julguem por conta própria:


Francamente, eu achei muito bom!

Excelente diagramação, ótima arte (em alguns casos, melhor até que a original!), sacadas muito boas como, por exemplo, o uso de cantoneiras nas fotografias, capa empolgante e novos desenhos para personalidades e cenários que só vem a acrescentar.

Numa visão rápida achei o resultado extremamente promissor e mal posso esperar para ter esse livro nas mãos.

A data para recebimento do PDF segundo o Pedro é nesse final do mês, enquanto o livro físico deve chegar aos apoiadores do Financiamento Coletivo em Outubro.

Olhem para o céu cultistas, as estrelas estão alinhadas...

sábado, 16 de agosto de 2014

O Homem de Duas Faces - Diprosopia e o fantástico caso de Edward Mordake


Duas caras.

Todos já devem ter ouvido essa expressão. Não é a melhor das coisas ser rotulado dessa forma, já que o termo indica uma pessoa que guarda uma opinião pessoal, enquanto expressa exatamente o oposto. Para muitos é a maior das manifestações de falsidade. A expressão, geralmente, não se refere ao fato de alguém ter realmente duas caras. Geralmente...

Há casos muitíssimo raros, em que o termo "duas caras" se aplica de forma literal.

A medicina conhece essa condição como Diprosopia. A palavra greco-latina pode ser traduzida como "duas faces". Trata-se de um perturbador defeito genético de nascimento. O nome "duplicação craniofacial", também é popular entre médicos, e dá uma boa ideia do que as pessoas com essa condição sofrem. A condição não deve ser confundida com policefalia – quando pessoas ou animais nascem com duas ou mais cabeças. A diprosofia se refere especificamente a características faciais replicadas. Geralmente, a duplicação ocorre através de um único elemento, como uma orelha, olhos ou um nariz extra, mas em casos extremos, uma face inteira pode ser duplicada.

Dentre os casos conhecidos de Diprosopia o de Edward Mordake se sobressai.

Mordake supostamente nasceu em uma família tradicional e com boa situação financeira. Ele era o único herdeiro de um importante título dentro da nobreza britânica na segunda metade do século XIX. Isso lhe garantia todos os benefícios e obrigações inerentes. Ele também deveria receber uma propriedade e uma quantia considerável ao longo de toda sua vida. Para se ter uma ideia da importância de seu status, nos dias atuais, apenas membros da Família Real possuem um benefício semelhante ao de Mordake, uma qualidade chamada peerage que é transmitida de forma cerimonial para membros de famílias detentoras de um assento perpétuo  na Câmara dos Lordes

Isso era o mesmo que nascer tendo ganho na loteria, mas Mordake não teve tanta sorte. Ele nasceu com diprosopia. 

Na parte posterior do crânio, Edward tinha uma segunda face completamente formada. O rosto claramente humano, ainda que flácido e levemente desfigurado, brotava em meio aos seus cabelos e era impossível de ser disfarçado. As pessoas que contemplavam essa segunda face a classificavam como assustadora e ficavam atordoadas diante da visão bizarra. O próprio Edward classificava seu rosto supérfluo como "demoníaco". Relatos da época afirmavam que olhar essa face diretamente era extremamente desconfortável, as pessoas diziam que os olhos expressavam uma centelha de inteligência, acrescida de cólera e raiva. Eles costumavam seguir as pessoas lentamente. Outros relatos apontavam para uma espécie de sorriso que lentamente se formava nos lábios como se quisesse demonstrar um sarcasmo inerente. Era quase impossível observa-la por muito tempo.

Apesar de levar uma vida solitária e triste, sempre em confinamento, Edward cresceu como um jovem brilhante, com aptidão para calculo e música. Ele desfrutou de tutores que lhe educaram de maneira respeitável para se tornar um cavalheiro a altura de seu título. Sua esperança era que algum médico fosse capaz de solucionar sua condição, arrancando a face que lhe atormentava. Nenhum médico de respeito, contudo, ousava sugerir uma maneira de extrair o rosto, visto que o procedimento sem dúvida resultaria em morte.

O pouco que se sabe a respeito da vida de Mordake é fruto de especulação e exageros. Sabe-se que ele teria vivido em reclusão numa vasta propriedade, tendo a companhia exclusiva de criados regiamente pagos para preservar a discrição. Médicos de toda Europa o visitavam para tentar oferecer uma solução ao dilema que o afligia.

Apenas quando Edward morreu, detalhes sobre sua condição vieram à público de modo que não se pode afirmar com certeza até que ponto as narrativas sobre sua deformidade são verdadeiras. Empregados que cuidavam de Mordake disseram que a face era capaz de se manifestar rindo ruidosamente em alguns momentos. Imputavam a ela a capacidade de sussurrar e lamentar longamente, na maioria das vezes, enquanto Edward dormia. Criados chegavam a afirmar terem ouvido a "face demoníaca" roncar, rosnar e até repetir algumas palavras incongruentes. O mais enervante entretanto seriam os ruídos de choro que ela produzia à todo momento.

Muito do que se sabe a respeito da existência de Edward Mordake advém de um livro editado no ano de 1900 intitulado "Anomalias e Curiosidades da medicina" (Anomalies and curiosities of medicine), escrito por George M. Gould, um dos médicos que examinaram o herdeiro e que ficaram mais tempo em sua companhia. 

Gould escreveu:
“Uma das mais notáveis e melancólicas estórias de deformidade humana envolveu o caso do jovem Edward Mordake, herdeiro de um dos mais elevados títulos de nobreza da Inglaterra. Ele jamais clamou pelo título, que era seu por direito de nascimento. O jovem Mordake cometeu suicídio na tenra idade de 23 anos. Ele viveu uma existência em total isolamento, recusando visitas e tendo como companheiros apenas os criados e médicos. Ele era um jovem homem de índole agradável e inegável brilhantismo intelectual. Sua aparência era impecável, com uma graça e finesse distintas, sua face era altiva e poderia ser descrita como aprazível. Mas no lado oposto ao seu rosto, havia uma segunda face com traços grotescos. Esse rosto adicional ocupava apenas uma pequena porção do crânio posterior de Mordake. Ela era capaz de manifestar sinais óbvios de inteligência. Notavelmente, ela chorava, sobretudo quando Mordake estava feliz. Os olhos se moviam e piscavam, enquanto os lábios articulavam palavras desprovidas de propósito. Sua voz era rouca quase inaudível, dotada de uma aspereza enervante para todos que a ouviam. Mordake se referia a essa face como seu próprio "demônio" e que ela era responsável por condená-lo a uma existência infernal. Nenhuma imaginação é capaz de conceber essa imagem e como médico, eu lamentei não ser capaz de oferecer algum alento que pudesse remover essa deformidade, sem colocar o paciente em grave perigo. "Trata-se de algo diabólico, pois um diabo ele é. Meu desejo é que ela fosse removida, esmagada, apagada" repetia Mordake quando se referia a sua face, sempre de maneira obstinada. Apesar de ser cuidadosamente vigiado, o rapaz conseguiu convencer um de seus acompanhantes a lhe fornecer veneno, que uma vez ingerido provocou a sua morte. Ele deixou uma carta requisitando que a "face demoníaca" fosse removida cirurgicamente após seu falecimento para que ele pudesse ser enterrado sem esse fardo. O pedido foi satisfeito pelos doutores Manvers e Treadwell". 
Embora curta, a existência de Mordake teria sido tortuosa.

Entretanto, há questionamentos de que ele sequer tenha existido. A fotografia reputada a ele (que está no alto desse artigo) não pertence necessariamente a Edward Mordake. Uma vez que ninguém é capaz de creditar a autenticidade ou mesmo a fonte da foto, não há como dizer quem é essa pessoa. Também não há comprovação de que ela seja autêntica ou uma montagem. Dada a extrema reclusão em que vivia, parece improvável que Edward permitisse a tomada de uma fotografia. 

As biografias dos médicos que teriam cuidado de Mordake também são questionáveis. O Dr. George Gould era conhecido por apresentar e (dizem algumas fontes) explorar curiosidades médicas em benefício próprio. Ele teria sido um dos médicos que requisitaram uma entrevista com o famoso Joseph Merrick, que na Era Vitoriana ficou conhecido como Homem Elefante. O médico particular de Merrick proibiu o acesso de Gould por considerá-lo um tratante interessado apena em auto-promoção. Os demais médicos, Manvers e Treadwell citados no livro também são obscuros e podem jamais ter existido. Da mesma forma, não se sabe onde Mordake teria sido sepultado ou qual foi o destino de sua "face demoníaca" uma vez removia postumamente, conforme relatou Gould. Se tal procedimento cirúrgico foi realmente executado seria de se supor que a amostra fosse preservada, ainda que como curiosidade científica.

Se realmente existiu, Mordake aparentemente foi único por ter uma segunda face capaz de manifestar expressões e chorar. Indivíduos com Diprosopia não possuem qualquer reação em sua face adicional, ela é estática. Até onde os relatos são confiáveis, talvez jamais venhamos a saber, mas o que se sabe ao certo é que ele não foi o único a sofrer com esse terrível destino.   

Alguns relatos mencionam a existência de um homem, contemporâneo de Mordake, conhecido como "O Mexicano de Duas Cabeças". O nome verdadeiro desse sujeito era Pasqual Pinon, e ele supostamente nasceu com uma face se projetando no lado oposto ao seu rosto original. Na época, médicos que examinaram Pinon determinaram que ele era uma fraude. A estrutura que crescia no outro lado de sua cabeça era um enorme tumor categorizado como craniopagus paraciticus, que não se relaciona com a diprosopia. Ele foi descoberto por promotores de uma trupe de variedades americana, o Sells Floto Circus que viajava para vários lugares apresentando pessoas deformadas em shows, algo que fazia muito sucesso no século XIX. A segunda face de Pinon não passava da massa do tumor acrescida de elementos de cera para que parecesse um grotesco rosto artificial.

Quase todas as pobres almas que nasceram com Diprosopia morreram horas depois, isso quando elas não foram abortadas naturalmente. Uma menina chamada Lali Singh, nascida em Saini, nos arredores de Delhi, em 2008 sobreviveu por dois meses após um complicado parto. Ela tinha quatro olhos, dois narizes, duas bocas e oito orelhas. Na sua curta existência, ela chegou a ser venerada em seu vilarejo natal como a encarnação humana da Deusa Hindu Durga (que segundo a mitologia possui vários olhos).

Há também o caso de Faith e Hope Howie, nascidas na Austrália em maio de 2014. Elas tinham um único crânio, mas duas faces e dois cérebros independentes ainda que mal formados. Os médicos perceberam que nos 19 dias de vida, as duas tinham comportamento individual. Crianças com diprosopia possuem outras deformidades que impedem seu desenvolvimento e por isso sua sobrevivência é rara além de alguns poucos meses. Isso lança dúvidas sobre o caso de Mordake ou o torna único.

Historicamente pessoas ou animais nascidos com esse grau de deformidade eram vistas com uma mistura de piedade e mórbida curiosidade. Para alguns, sobretudo no passado, elas eram resultado de maldições ou da danação impingida por severos deuses. É possível, entretanto que os vastos avanços no mapeamento do genoma e nas pesquisas genéticas um dia possam oferecer uma solução para esses casos.

Nota - Eu fui propositalmente econômico nas imagens desse artigo. Acredito que não seja necessário se valer de imagens chocantes para salientar o que está descrito no texto. Compreendo que algumas pessoas podem se sentir incomodadas com esse tipo de imagem e confesso que eu mesmo não gosto de usar tais imagens. A exceção é a que está no topo do artigo e que supostamente pertence a Edward Mordake, mas que provavelmente não passa de uma montagem engenhosa.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sob o Espectro da Epidemia - Usando a Gripe Espanhola em Call of Cthulhu

Tudo muito interessante, tudo muito adequado a uma campanha centrada no mundo real s se passando no início do século XX, mas qual a praticidade das informações sobre a Epidemia de 1918 em uma mesa de jogo. Como isso pode afetar os investigadores em um cenário de Call of Cthulhu, por exemplo?

Formalmente, não existe nenhuma regra que obrigue os jogadores a incluir a Epidemia no background dos seus personagens. Eles obviamente não precisam ter sido afetados diretamente pelo flagelo, contudo é importante lembrar que a epidemia foi um dos grandes acontecimentos da época e repercutiu em todos que viveram ao longo dessa década. Supor que um indivíduo não foi afetado ainda que indiretamente pela Epidemia, é o mesmo que presumir que um habitante da França Ocupada ou da Alemanha Nazista, tenha passado pela Segunda Guerra Mundial sem "ver nada de estranho" em seus respectivos países.

Essa regra opcional, fornece diretrizes para que o Keeper/Guardião envolva os personagens de sua campanha no contexto da Epidemia que dizimou milhões de pessoas. Ela parte do pressuposto que as pessoas que vivenciaram essa época negra, tiveram suas vidas de alguma maneira afetadas pela experiência. Entretanto, a decisão final permanece nas mãos do Keeper (e claro, dos jogadores): a eles cabe decidir se desejam ou não adicionar um possível detalhe de tragédia ao seu histórico. É direito deles fazê-lo, ou simplesmente assumir que seus personagens tiveram a sorte de passar pela experiência sem maiores repercussões.

Através dessa regra opcional durante a criação dos personagens, fica em aberto para o jogador, decidir rolar uma tabela aleatória de possíveis acontecimentos relacionados à Epidemia de 1918. Se ele optar por não rolar a tabela, não deve haver sanção alguma ao jogador, contudo se ele o fizer, o Keeper deverá deixar claro que os resultados são IRREVOGÁVEIS, ou seja não poderão ser desconsiderados. Call of Cthulhu é um jogo que prima pelo detalhismo e pela trajetória dos personagens, não raramente esses indivíduos são pessoas calejadas por acontecimentos marcantes em suas vidas, o que só ajuda para o desenvolvimento de um bom roleplay.

Para aqueles que optam por rolar a tabela aleatória, há um pequeno benefício. O Guardião agracia esse jogador com 20 pontos de desenvolvimento de personagem que podem ser distribuídos em quaisquer habilidades de sua escolha. Esse benefício é válido mesmo que a rolagem aleatória conceda alguma vantagem para o personagem ou não produza efeitos. O objetivo é agraciar aqueles que aceitam testar a sua sorte rolando a tabela. É claro, uma vez que se trata de uma tabela envolvendo uma Epidemia, alguns resultados são potencialmente ruins, portanto o Guardião deve explicar essas condições aos seus jogadores.  

Antes de apresentar a Tabela, falemos sobre como a Epidemia de Gripe Espanhola afetou o mundo.


*     *     *

Não é exagero afirmar que o mundo mudou dramaticamente a forma de encarar a vida e a mortalidade após os dramáticos acontecimentos entre 1918 e 1919.


Parentes, vizinhos, amigos... um número assombroso de pessoas adoeceu e morreu em decorrência da epidemia mortal. Mesmo os que não foram diretamente afetados, é razoável supor que testemunharam os efeitos daninhos da epidemia corroendo o tecido social. Bastava sair às ruas para ver ambulâncias carregando doentes, assistir sepultamento coletivos e se deparar com o pavor estampado na face de todos... tudo isso fazia parte do dia a dia.

O mundo todo foi pego de surpresa pela epidemia. A saúde de todos estava em risco, o que fazia aflorar um sentimento crescente de paranoia. As Igrejas e Templos viviam cheios, pastores tentavam atrair os fiéis e confortá-los durante esse período de séria provação. Charlatães e curandeiros alardeavam a realização de milagres e alguns chegavam a afirmar que o "fim dos tempos" estava próximo.

Junto com o temor, sentimentos de racismo e xenofobia encontraram um terreno fértil para aflorar entre as pessoas. Estrangeiros eram vistos com desconfiança, tidos como causadores ou fomentadores de doenças trazidas de países exóticos e insalubres. O próprio termo "gripe espanhola" era pejorativo, referindo-se a um povo como causador da moléstia, ainda que tal acusação fosse injusta e absurda pois a doença não se originou no país ibérico. Em alguns países a epidemia foi chamada de "Gripe Turca" ou "Gripe africana".

"Tão perigoso quanto gás venenoso" diz o cartaz
A desconfiança generalizada impulsionou o surgimento de bairros e distritos exclusivos para estrangeiros (verdadeiros guetos) para concentração de pessoas vistas com reservas. Era uma forma de excluir aqueles que eram tidos como forasteiros e que ainda cultivavam "hábitos estranhos" de suas terras. Por muito tempo vigorou o rumor de que a gripe havia se originado entre populações de judeus - boato absurdo que foi propagado (e alimentado) até os anos 1940. Durante seus discursos racistas, Hitler chamava a Gripe Espanhola de "Mal Judaico". No Leste Europeu os ciganos achava-se que os ciganos haviam dado início a epidemia. No Oeste dos Estados Unidos os dedos foram apontados para nativos americanos. 

Medidas de profilaxia e higiene pessoal tornaram-se mais comuns. As pessoas lavavam as mãos compulsivamente e alguns evitavam o gesto de se cumprimentar. Havia um consenso de que as pessoas com boa higiene eram mais resistentes ao contágio. Sabonetes, talcos e cremes supostamente anti-bacterianos (de utilidade questionável) eram vendidos em todo canto. A indústria farmacêutica colocou à disposição da população um sortimento quase inesgotável de drogas para combater a gripe e seus efeitos. Vitaminas estavam no seu auge, estima-se que cada pessoa ao longo da década de 1920 consumia três vezes a dose necessária de vitamina C, diariamente. Termos como vírus, bactérias, septicemia e contágio se tornaram populares e corriqueiros entre a população.

Durante a epidemia, médicos, enfermeiras e profissionais de saúde foram socialmente excluídos. Havia a crença de que essas pessoas por terem estado em contato com doentes pudessem carregar o vírus dormente em seus corpos. Alguns estabelecimentos, como restaurantes e cinemas, se reservavam o direito de não servir indivíduos que sofreram com a doença ou que trabalharam próximo a pessoas convalescentes. Posteriormente, os mesmos profissionais passaram a receber agradecimentos e elogios pelo seu trabalho humanitário, em parte graças a um esforço civil para mudar a opinião pública.

Mesmo terminada a epidemia, qualquer sintoma da gripe era visto com temor. Pessoas que contraíam simples resfriados eram colocadas em quarentena compulsória por autoridades sanitárias dotadas de poder de polícia. Em São Francisco, por exemplo existiam brigadas de inspeção de saúde, que visitavam vizinhanças e recebiam denúncias de possíveis doentes. Algumas cidades, reservavam alas hospitalares inteiras, preparadas para receber uma nova leva de pacientes caso a gripe retornasse. Jornais sensacionalistas exploravam o medo da população e publicavam manchetes bombásticas sobre o surgimento de focos epidêmicos.

Até meados de 1925, era muito comum as pessoas levarem no bolso máscaras feitas de gaze para serem usadas em ambientes aglomerados. De fato, pessoas com máscaras tampando o rosto eram uma visão corriqueira, sobretudo nas grandes metrópoles. Mas para alguns isso não bastava! Quando o excedente de equipamento usado na Grande Guerra foi vendido para civis, máscaras de gás (do tipo usado nas trincheiras) se esgotaram rapidamente. Um jornal de Boston publicou em 1919 um artigo no qual sugeria que no futuro próximo, máscaras de gás seriam essenciais para qualquer pessoa que quisesse se proteger de doenças infecciosas. Várias empresas chegaram a produzir e vender esse artigo.

Teatros, circos, restaurantes e cinemas sofreram um grave revés nos anos de epidemia. Muitos estabelecimentos foram obrigados a fechar as suas portas em virtude de Leis proibindo aglomerações de pessoas em ambientes fechados. Artistas perderam seus empregos e tiveram de procurar outras carreiras. Charles Chaplin, chegou a cogitar outro trabalho quando a maioria dos teatros fecharam.

Em ordem de vítimas os países mais atingidos foram Estados Unidos, Japão, Itália, França, Reino Unido, México, Canadá, Austrália, Brasil, Argentina e Nova Zelândia.

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Se os jogadores quiserem explorar as consequências da Gripe Espanhola no Background de seus personagens, aqui está uma tabela aleatória de possíveis acontecimentos. Note que há uma grande chance de nada acontecer com o personagem, nesse caso, nesse caso, ele terá passado pela experiência sem maiores problemas, como a maioria das pessoas que seguiram em frente com suas vidas.

Após criar o personagem role o d% e veja o resultado na tabela abaixo:

01 - O personagem foi afetado diretamente pela Gripe Espanhola. Ele contraiu o vírus e teve de passar um período de 1d4+2 meses convalescendo em algum hospital ou pavilhão médico. Ele teve de receber cuidados médicos e mais de uma vez foi desenganado. O personagem inicia o jogo com -2 pontos de CONstituição e com menos 2d4 pontos de SANIDADE pela sua experiência traumática. O investigador é familiarizado com morte, doença e sofrimento, testes de sanidade decorrentes desses efeitos são mais brandos (a critério do Guardião) em decorrência da experiência.

02 - O personagem contraiu a Gripe Espanhola e teve de ser mantido em isolamento por pelo menos 1d4 meses. Nesse período ele perdeu 1d6 pontos de sanidade. Seu personagem é familiarizado com morte, doença e sofrimento, testes de sanidade decorrentes desses efeitos são mais brandos (à critério do Guardião) em decorrência da experiência.

03 - O personagem contraiu a Gripe Espanhola, passou 1 mês em isolamento, perdendo 1d3 pontos de sanidade. Seu personagem é familiarizado com morte, doença e sofrimento, rolamentos de sanidade decorrentes desses efeitos são mais brandos (à critério do Guardião) em decorrência da experiência.

04-06 - Seu personagem contraiu a Gripe em uma modalidade mais fraca. Ele chegou a ser internado em um hospital para tratamento, mas não foi isolado por mais de alguns dias. Ele começa o jogo com 1d2 pontos menos de sanidade.

07-09 - A Família do seu personagem foi afetada diretamente pela Epidemia de Gripe Espanhola. Ele perdeu alguém próximo para a doença: Pai, Mãe, irmão, tio, noiva ou alguém mais que tivesse um elo ou relação familiar estabelecida. Isso pode custar 1d2 pontos de sanidade a critério do Guardião.

10-15 - Amigos ou Conhecidos próximos ao seu personagem foram afetados diretamente pela Gripe Espanhola. Guardião e jogador devem decidir quem foi (ou foram essas pessoas) e como a tragédia afetou o investigador.

16-18 - Seu personagem foi afetado financeiramente pela Gripe Espanhola. Por alguma razão seu trabalho, negócio ou patrimônio foram afetados. Seu personagem já teve um padrão de vida melhor (um nível acima do atual), mas este foi reduzido e ele ainda não se recuperou. Não é necessário fazer mudanças na ficha,apenas considere que o padrão de vida um dia foi mais elevado.

19-21 - Seu personagem esteve envolvido no esforço humanitário para auxiliar as vítimas da Epidemia. Fica ao critério do personagem e do Guardião definir como ele se envolveu - talvez ele tenha arregaçado as mangas e ajudado em um pavilhão hospitalar, mas é satisfatório que ele tenha publicamente feito doações para hospitais ou angariado fundos. Adicione 1d6 +6 pontos ao Credit Rating inicial de seu personagem.

22-23 - Seu personagem (se conveniente) estava no exterior na época em que a epidemia atingiu sua cidade natal. Ele não testemunhou o ápice da crise ou o auge da tragédia humana. Alguns de seus conterrâneos podem considerar que o personagem "fugiu" ou "abandonou" as pessoas. Isso pode acarretar algum ressentimento ou mesmo censura de outros moradores. Diminua seu Credit Rating Inicial em 1d6 pontos em sua cidade natal.
     
24-25 - Seu personagem foi afetado financeiramente pela Gripe Espanhola, mas ao contrário da maioria das pessoas, ele se favoreceu com a crise. Talvez ele tenha feito investimentos ou comprado ações de companhias farmacêuticas ou ainda recebido a herança de um tio ricaço que morreu de gripe. Seja lá o que aconteceu, seu personagem ascendeu para uma vida melhor. A maneira como ele encara esse benefício deve ser planejada por ele e Guardião. Não é necessário fazer alterações na ficha, presuma apenas que seu personagem tinha menos recursos do que detém atualmente. 

26 - Seu personagem possui um parente próximo (pai, mãe, irmão) que foi afetado fisicamente pela doença. A pessoa em questão contraiu a Gripe Espanhola e apesar de ter sobrevivido, jamais se recobrou inteiramente ficando com sequelas físicas. Essa pessoa depende constantemente de você, ela precisa ser atendida em uma instituição de saúde e demanda cuidados especiais. Guardião e Jogador devem decidir quem é esse personagem. 

27 - Seu personagem possui um parente próximo (pai, mãe, irmão) que foi afetado psicologicamente pela doença. A pessoa em questão contraiu a Gripe Espanhola e apesar de ter sobrevivido, jamais se recobrou ficando com sequelas psicológicas. Essa pessoa depende constantemente de você, ela precisa ser atendida em uma instituição mental e demanda cuidados especiais. 

28 - Seu personagem esteve muito bem informado durante toda a epidemia. Ele lia compulsivamente manuais médicos, publicações e sabia perfeitamente como proceder caso fosse infectado. Talvez ele tenha cuidado pessoalmente de alguém ou auxiliado uma pessoa que não teve a mesma sorte. Seja como for, esse grau de informação lhe garantiu um conhecimento prático que acrescenta 1d6 +6 pontos iniciais na habilidade Medicina.

29 -30 - Seu personagem pressentindo os efeitos nocivos da Gripe, resolveu deixar a sua cidade natal por uma ou duas temporadas a fim de se isolar no interior. É sabido que cidades pequenas sofreram consideravelmente menos as agruras da Epidemia. Se esse for o caso, seu personagem pode escolher uma localidade onde ele se estabeleceu temporariamente. Guardião e Jogador devem decidir se esse tempo fora teve algum efeito na história do personagem. Se ele ficou dois anos fora pode ter perdido aulas ou seu emprego.   

31-95 - Seu personagem passou incólume pela epidemia de Gripe Espanhola, ao menos, até onde tal coisa é possível. É claro ele testemunhou o pavor nas ruas, mas nem ele e nem seus entes queridos foram diretamente afetados. Ele tem direito aos 20 pontos para distribuir nas habilidades de sua escolha.

96-97 - Seu personagem passou incólume pela epidemia de Gripe Espanhola, ao menos, até onde tal coisa é possível. É claro ele testemunhou o pavor nas ruas, mas nem ele e nem seus entes queridos foram diretamente afetados. Ele tem direito aos 20 pontos para distribuir nas habilidades de sua escolha. Além disso, ele pode acrescentar mais 10 pontos em habilidades gerais em decorrência de ele passar um período absorto, lendo ou estudando por conta própria.

98 - Seu personagem passou incólume pela epidemia e demonstrou uma fortaleza mental invejável para suportar os períodos mais negros da crise. Talvez ele seja apenas alguém racional e prático, acrescente +2 pontos ao PODer inicial de seu personagem (máximo 18).

99 - Seu personagem passou incólume pela epidemia graças a sua perfeita saúde. De fato, seu personagem não precisou tomar precauções especiais. Talvez tenha sido apenas sorte, talvez ele tenha uma resistência acima da média. Seja como for, acrescente +2 pontos à CONstituição inicial de seu personagem (máximo 18).

00 - "Mente sã em corpo são". Seu personagem combina uma saúde invejável a uma determinação que lhe concedem +2 em PODer e CONstituição.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A Epidemia de 1918 - Quando a Gripe Espanhola varreu o mundo


Nestes dias, as pessoas se preocupam com gripe suína, gripe aviária, gripes em geral, AIDS e Ebola. Mas há noventa anos atrás, ocorreu uma epidemia que colocaria todas as nossas preocupações atuais no chinelo. 

O nome dessa crise era Gripe Espanhola. Sua primeira e mortal aparição no palco do mundo se deu no ano de 1918, e ela se manteve uma ameaça por quatro temporadas até que misteriosamente desapareceu tão rápido quanto havia surgido por volta do final de 1919. Infelizmente nos últimos momentos de sua performance dezenas de milhões de pessoas estavam mortas naquela que provavelmente foi a mais mortal pandemia dos tempos modernos, e sem dúvida a mais letal epidemia registrada pela história, superando até mesmo a catastrófica Peste Negra de 1340.

"A Influenza Espanhola", como foi chamada, surgiu na Europa e foi levada para outros países ao redor do mundo, pelas tropas retornando da Grande Guerra (1914-1918). O contingente de homens viajando grandes distâncias ajudou a espalhar o vírus permitindo a ele infectar um número crescente de pessoas. A despeito de seu nome, não existe uma prova concreta de que a Influenza tenha surgido na Espanha. Cientistas modernos acreditam que a "Gripe Espanhola" era originalmente um vírus animal, muito semelhante a moderna gripe aviária e suína e que ele teria sofrido uma mutação para uma configuração especialmente agressiva contra humanos. A Gripe Espanhola era incrivelmente contagiosa e milhares de pessoas morreram logo nos primeiros meses. Estima-se que algo em torno de 75 milhões de pessoas pereceram na Peste Negra, enquanto algo entre 70 e 100 milhões (os números variam muito) morreram em decorrência da Gripe Espanhola.

A Influenza era uma doença terrível. Menos parecida com a molestia que conhecemos hoje em dia e mais semelhante a uma brutal pneumonia, a Influenza, no final da década de 1910 era impossível de ser tratada. As pessoas que contraíam o vírus sentiam primeiro os efeitos de uma gripe comum: cansaço, fraqueza, tontura. Os médicos encorajavam os pacientes a dormir e repousar como qualquer médico dos dias atuais faria diante de um resfriado. Entretanto, os sintomas logo pioravam. De um resfriado comum, surgia uma dificuldade crônica de respiração, tosse seca, falta de ar e eventualmente vômito. Esses dois últimos sintomas eram  resultado do ataque do vírus aos pulmões, o que causava ainda sangramento interno e produção de fluidos. Alguns conseguiam expelir essas secreções, mas no fim das contas, os pulmões ficavam tão cheios de pus e sangue que a pessoa literalmente se afogavam.


A Influenza Espanhola foi descoberta em 1918, enquanto a Grande Guerra ainda estava sendo travada na Europa. É provável que os primeiros soldados feridos ou de licença dos campos de batalha tenham carregado consigo o vírus enquanto retornavam do front. Os soldados americanos que retornavam da França tiveram contato com a doença e logo que a guerra terminou, foram eles que levaram a Influenza para a America. A primeira epidemia ocorreu em uma base do exército no Kansas, o Forte Riley que recebia contingentes de soldados que haviam lutado além mar. Dali, ela se espalhou rapidamente por todos os EUA, ajudada pelo movimento de tropas viajando de trem pelo país voltando a suas cidades natais. A gripe era extremamente contagiosa, e acredita-se que sua disseminação atingiu mais de 15 milhões de pessoas em apenas 25 semanas.

Logo ficou claro que as autoridades precisavam intervir para conter a epidemia. Mas na época haviam muitos obstáculos. Para começar, quando a gripe foi descoberta, o mundo ainda estava em guerra e a maior parte dos profissionais da área médica estavam voltados para o fronte, tratando os feridos. Os hospitais também estavam cheios de vítimas da guerra, na França por exemplo, não havia vagas para atendimento e os primeiros infectados foram colocados ao lado de soldados em estado já debilitado multiplicando as vítimas. A microbiologia estava apenas engatinhando, o termo só havia sido cunhado em 1910, e a ciência ainda não compreendia a natureza dos vírus. Os cientistas conheciam as bactérias e como elas funcionavam, além de como evitá-las, vírus, no entanto eram um mistério. Para combater a proliferação da doença, tornou-se obrigatório para todas as pessoas usar máscaras enquanto estivessem em público. Uma medida inútil uma vez que o vírus podia facilmente penetrar nas simples máscaras que a maioria das pessoas usava. Um slogan popular sobre as medidas de saúde a serem empregadas dizia:

“Obedeça as leis,
Coloque sua máscara de gaze,
Proteja a si mesmo
Das patas da septicemia”.


Ainda que as pessoas tentassem obedecer as leis, essa medidas de precaução surtiam muito pouco efeito. Na primeira onda, a doença causou 675,000 mortes nos EUA; 200,000 na Grã-Bretanha, 400,000 na França. Em seu ápice nos EUA, as cerimônias funerárias foram limitadas a 15 minutos por pessoa, sepulturas em massa foram escavadas para enterrar os mortos, enquanto médicos e cientistas lutavam para achar uma cura. Alguns especialistas tentaram desenvolver vacinas para proteger as pessoas ainda sadias, mas a exposição ao vírus contido na proopria vacina resultava em mais convalescentes.

Um fato enigmático a respeito da gripe é que ao invés de atacar os muito jovens ou velhos, ela parecia afetar especialmente as pessoas no auge de seu desenvolvimento. Homens e mulheres entre 20-30 anos eram as principais vítimas sucumbindo ao vírus com maior rapidez, enquanto pessoas nos extremos da escala etária permaneciam intocadas.

Houve duas grandes ondas da gripe espanhola, algo que a maioria das pessoas na época não perceberam. A primeira onda se iniciou no início e meio de 1918 e amainou por volta do final daquele mesmo ano. A segunda onda veio no início de 1919 e se manteve ativa até o final daquele ano, até começar a perder sua força e desaparecer. Essa segunda onda foi mais devastadora e causou um número maior de óbitos. Ela era mais forte, mais virulenta e infecciosa do que sua predecessora, provavelmente por ter sofrido outra mutação.

Controlar a disseminação da doença era difícil. Os oficias de saúde na sua maioria ignoravam os conselhos dos médicos que encorajavam quarentenas e a ação de dispersar grandes multidões para reduzir o risco de contágio. O fim da Grande Guerra havia aumentado o furor patriótico nos países vencedores, manifestações e paradas em homenagem aos heróis retornando da Europa acabavam reunindo milhares de pessoas. O final da guerra em Novembro de 1918 fez com que as pessoas se reunissem em igrejas, salões, casas de festa, lugares que ficavam apinhados de pessoas, o que ajudava muito a proliferação. 


Com o termino da Guerra, o governo norte-americano finalmente começou a concentrar seus esforços nas medidas para contenção da epidemia. Mas então, já era tarde demais. Uma pandemia em larga escala havia se iniciado e estava muito adiantada para ser debelada. Hospitais, clínicas e pavilhões para doentes estavam lotados com mortos e moribundos. Grandes prédios de apartamento, haviam se convertido em instalações de isolamento já que todos lá dentro estavam doentes. Teatros, cinemas e escolas fecharam suas portas e passaram a receber doentes, uma vez que seu funcionamento havia sido vetado. 

Ao redor do mundo, pessoas tentavam suas próprias receitas para evitar a gripe espanhola. Elas ficavam longe umas das outras, vestiam máscaras de gaze e rezavam por um milagre. Algo que fizesse diferença e os salvasse da infecção letal. Se as pessoas tivessem compreendido desde o início a natureza da doença - quando ela estava mais fraca, poderiam ter tido tempo de se preparar para enfrentá-la. A demora em reconhecer o tamanho da ameaça permitiu que a epidemia se tornasse uma "mega-pandemia" tão grande que nada na história da humanidade podia se comparar. 

Serviços de saúde pública em todas as grandes cidades estavam despreparados para esse tipo de emergência e não sabiam exatamente como lidar com a questão. Uma das melhores ideias que eles podiam ter, era espalhar pôsteres nas paredes para conscientizar a população. 

Um desses cartazes emitido pela Secretaria de Saúde concedia as seguintes informações:

"EPIDEMIA DE INFLUENZA (ESPANHOLA)".

Esta doença se espalha muito facilmente. 

Ela se desenvolve como uma gripe comum que se transforma numa severa pneumonia.

Não existem remédios eficazes contra ela.

Fique longe de reuniões públicas teatros e lugares com grande concentração de pessoas. 

Se alguém em sua casa ficar doente, mantenha-a isolada e não tente prestar ajuda.

O local deve ser fechado e quente.

Qualquer pessoa que venha a ter contato com a pessoa infectada deve usar máscara a todo momento.


Por dois anos, a Gripe Espanhola pairou como uma sombra sobre a cabeça de milhões de pessoas assustadas. Qualquer um podia morrer, a qualquer momento. As pessoas falavam a respeito dela com reverência e um temor que beirava o sobrenatural. As crianças brincando nas ruas pulavam corda, repetindo uma cantiga que ficou muito famosa:

"Eu tinha um pequeno pássaro,
seu nome era Enza,
Eu abri minha janela,
E In Flu Enza" 
(trocadilho com "in flew Enza - pra dentro voou Enza)

Os resultados da Gripe Espanhola no mundo foram significativos. Hoje, poucas pessoas lembram do que aconteceu naqueles dias negros de medo e incerteza, alguns sequer sabem a dimensão do terror que foi aquela epidemia mortal, uma que tomou dos dedos da Peste Negra o primeiro lugar em letalidade.

A epidemia começou silenciosa, mas logo devastou cidades inteiras, matou indiscriminadamente ricos e pobres, pessoas de todas as etnias, credos e raças. Ela desapareceu tão rápido quanto surgiu. Em meados de 1920, casos de Influenza já eram bastante raros, e nos anos seguintes a doença desapareceu como um pesadelo esquecido ao longo do dia.

Mas ela ainda existe hoje em dia, adormecida e silenciosa. Contudo, a Gripe Espanhola é uma lembrança aterradora da nossa fragilidade diante de um minúsculo assassino, letal e invisível.