sábado, 4 de fevereiro de 2017

Os Ladrões de Corpos - A Assustadora história de Burke e Hare


Em uma segunda feira, 3 de novembro de 1828, a cidade de Edinburgo acordou com horríveis notícias a respeito dos crimes mais atrozes praticados naquela década - talvez até, no século até então, como sugeriu um jornal. Os atos medonhos foram cometidos no distrito de West Port na parte antiga da cidade, conhecida por ser um lugar perigosos e escuro. Os criminosos eram William Burke e William Hare, que juntos com as comparsas Helen McDougal e Margaret Hare, eram acusados de matar nada menos do que 16 pessoas ao longo de doze meses.

O pior de tudo eram os motivos torpes para cometer os crimes. O grupo formava uma quadrilha que passou a ser notória em toda Escócia não apenas por serem ladrões de corpos, mas Assassinos impiedosos. O macabro bando liquidava suas vítimas e negociava os cadáveres de suas vítimas com hospitais, escolas e universidades médicas para suprir a demanda de espécimes para dissecação. O comprador dos cadáveres era ninguém menos do que o Dr. Robert Knox, um conhecido professor de anatomia de uma das mais conceituadas instituições da capital escocesa, o Surgeons College. A chocante investigação criminal e o subsequente julgamento levantou diversas questões delicadas sobre a prática da Medicina e a melhor maneira de se obter espécimes para que os médicos pudessem aprender seu ofício. Trouxe também uma série de questionamentos a respeito da maneira como a força policial estava equipada para a tarefa de proteger o público.

Os dois criminosos retratados na época do julgamento.
Os crimes foram revelados quando dois inquilinos de Burke, Ann e James Gray, começaram a suspeitar do misterioso desaparecimento de uma hóspede, Madgy Docherty, que eles haviam conhecido na Pensão de Hare uma noite antes. Eles encontraram o que parecia ser indícios de luta em um dos quartos e manchas de sangue no assoalho. Seguindo o rastro encontraram o corpo sem vida de Docherty escondido em baixo da cama de um aposento trancado. "A expressão de horror na face pálida da pobre mulher fez com que procurássemos a polícia", contou Gray mais tarde.

Burke, McDougal, e os Hare foram presos pelo assassinato de Docherty. William e Margaret Hare aceitaram delatar seus comparsas, convertendo-se em testemunhas. A narrativa do casal para a promotoria, em troca de imunidade, revelou um caso ainda mais macabro que deixou a cidade em estado de choque. Burke e McDougal foram julgados por assassinato em Dezembro de 1828. Contra McDougal as provas não foram suficientemente conclusivas e ela acabou sendo liberada, já Burke foi sentenciado à morte. Ele foi executado em 28 de janeiro de 1829. Seu corpo ironicamente foi enviado para o Colégio de Medicina, dissecado e publicamente exibido para os curiosos. O método usado pela quadrilha para matar suas vítimas, sufocamento através de pressão compressora sobre o peito, passou a ser conhecido universalmente como "burking", uma forma cruel de matar usando o peso corporal em um processo de esmagamento dos pulmões. As vítimas morriam de hemorragia, literalmente afogando-se em seu próprio sangue.

A história de Burke e Hare, no entanto, não parou por aí. Ela encontrou seu caminho através de revistas populares, os chamados Penny Dreadful, publicações baratas vendidas para os cidadãos sedentos por narrativas criminais sanguinolentas e escandalosas. Publicado em semanários como a Blackwood's Magazine, a história se tornou famosa em toda Europa, chegando à América. O estardalhaço foi tamanho que o famoso autor Robert Louis Stevenson - de O Médico e o Monstro, escreveu um romance baseado no caso e uma peça de teatro foi encenada com enorme sucesso. Até o famoso Museu de cera de Madame Tussaud ganhou uma ala com os assassinos retratados em sua horrenda rotina homicida.

Burke e Hare carregando uma de suas vítimas
Mas o que levou esse seleto grupo a escrever seus nomes entre os mais temidos e mórbidos assassinos de sua época?

Antes de se voltarem para uma vida de crimes, nem William Burke e tampouco William Hare tinham qualquer passagem pela justiça ou histórico de comportamento criminoso. William Burke era natural da Irlanda, um jovem imigrante em busca de oportunidades na cidade grande. Ele havia chegado à Escócia em 1817 para trabalhar como marinheiro, mas acabou servindo como pedreiro na construção do Union Canal. Ele era casado e  tinha duas crianças na Irlanda, mas quando escrevia para a família, era enfático dizendo que eles jamais deveriam se juntar a ele:

"A vida em Edimburgo é terrível, tudo é triste e cinzento. A desesperança está em cada canto. As pessoas não vivem nessa cidade, elas fazem o necessário para sobreviver", escreveu para a esposa. Burke provavelmente conheceu Helen McDougal quando trabalhava na grande obra do canal próximo a Sterling. Em meados de 1828, o casal decidiu viver junto, convivência que resultou em um relacionamento longo de 10 anos que muitos acreditavam ser um casamento respeitável. Burke trabalhava em várias atividades, eventualmente se tornando sapateiro, moleiro e entregador. Ele sabia ler e escrever, o que não era comum para alguém de sua classe social, também era um sujeito charmoso e persuasivo, requisitos necessários para todo assassino em série prolífico.

William Hare também havia chegado a Edimburgo como operário; ele trabalhou na mesma grande obra do canal, vendeu peixe e foi atendente em um pub. Casou-se com Margaret Hare por volta de 1826. Ela era uma viúva; seu marido possuía uma pensão barata em Tanner's Close no West Port, uma das regiões mais pobres e perigosas da cidade. Margaret assumiu o negócio depois da morte do marido. Ela tinha apenas um filho de seu prévio casamento, e outra com Hare. Essa segunda era um bebê na época do julgamento, e portanto, é razoável afirmar que ela estava grávida na época dos horríveis crimes.

Burking
Burke e Hare admitiram a participação em 16 homicídios. Todos que conheciam a dupla e suas esposas afirmaram que as mulheres deviam saber a respeito dos acontecimentos e que provavelmente teriam ajudado nos crimes, ou ao menos facilitado as mortes. Burke e Hare dividiam o dinheiro que recebiam pelas entregas, enquanto Margaret Hare descontava sempre uma libra pelo uso da pensão onde ocorriam as mortes. Muitas pessoas assumem que Helen McDougal era apenas uma cúmplice menor, mas sua ligação com a quadrilha era óbvia. Alguns afirmaram que cabia a ela selecionar muitas das vítimas e direcioná-las para seu fim na pensão. Também provou-se durante o julgamento que ela tinha em sua posse as roupas pertencentes a uma vítima, Mary Paterson. Burke, no entanto, conseguiu livrar sua companheira da forca, afirmando que ela não tivera participação em nenhum dos assassinatos e que ela meramente acreditava que o grupo era parte de uma quadrilha de ressurrecionistas, ladrões de sepulturas. Esses bandos invadiam cemitérios e escavavam sepulturas para abastecer os colégios de medicina com cadáveres recém enterrados. 

O primeiro cadáver obtido por William Burke e William Hare havia morrido de causas naturais na pensão de Hare. Foi a facilidade com a qual o cadáver foi vendido e o alto preço da negociação que fez com que os dois concluíssem que poderiam ficar ricos com essa atividade. Cada cadáver era vendido por oito ou dez libras, uma verdadeira fortuna na época. Um negócio tão bom que Burke teria dito, "só um idiota pararia depois de fazer pela primeira vez." E eles continuaram: entre janeiro a outubro de 1828, mataram um total de três homens, doze mulheres e uma criança. 

Os três homicídios que concentraram a atenção da opinião pública envolviam Mary Paterson, James Wilson (conhecido como Daft Jamie) e Madgy (Margery) Docherty. Paterson, também identificada como Mary Mitchell, era uma "garota das ruas", uma designação comum para as prostituta. Circulavam rumores de que ela era extraordinariamente atraente. Wilson por sua vez era um sujeito bastante conhecido na região, com uma mãe e irmã, que viviam praticamente como vizinhas da Pensão Hare. Docherty a vítima derradeira, e o único cadáver encontrado pela polícia, havia chegado recentemente a Edimburgo e poucas pessoas a conheciam. Essas três vítimas foram as mais citadas no julgamento, e em virtude das estórias descritas nas publicações de época, verdadeiras ou inventadas, são aquelas de que se sabe algo de concreto hoje em dia. Durante o curso do julgamento, Hare entrou em contradição a respeito do número de vítimas, dizendo em determinado momento que havia perdido a conta dos homicídios cometidos. Em outros casos, ele parecia perfeitamente seguro sobre quantas pessoas pereceram em suas mãos. Dezesseis foi o número final, mas a certa altura do inquérito ele reconheceu que poderiam ter sido muito mais, "entre 20 e 30, embora 40 mortes possam não ser um exagero", disse em certa ocasião.

O Dr. Knox, retratado como um Cientista louco de sua época.
O médico Robert Knox, Professor do Royal College of Surgeons de Edinburgh, comprou todos os dezessete cadáveres oferecidos por Burke e Hare. O primeiro havia morrido de causas naturais, mas os demais eram fruto de crimes. Médicos atualmente são unânimes em afirma que ele poderia facilmente concluir que haviam sido vítimas de homicídio. Um simples exame apontaria para violência como causa da morte. As vítimas passavam pelo método de execução da quadrilha, o "burking"  uma maneira eficaz de matar sem danificar demasiadamente o espécime. O papel de Knox, durante o processo sempre foi considerado enigmático. Seu advogado afirmou até o fim que ele desconhecia a procedência dos cadáveres e que acreditava serem eles parte do comércio de defuntos necessário para abastecer os colégios e universidades locais. Os promotores falharam em provar que Knox sabia o que estava acontecendo, e conseguiram apenas que ele fosse culpado de "não perguntar a procedência dos corpos" e por negociar cadáveres para as lições de anatomia. É provável que tendo grande influência na época, Knox tenha conseguido abafar o escândalo se eximindo de culpa. 

Apesar de ter se livrado de uma punição mais severa, Knox ficou marcado pelo caso. Caricaturas dele na época, o comparavam a um açougueiro perguntando aos assassinos se a carne estava fresca. Ele também ganhou o apelido de "Dr. Ghoul" (carniçal) um monstro mítico que devorava cadáveres frescos. Mesmo assim, grandes jornais se limitaram a dar destaque menor a sua participação. Depois do escândalo, Knox foi afastado do Royal College, mas continuou atendendo a clientes e no fim de sua carreira voltou a lecionar para turmas de novos médicos.

É curioso, mas nem todos os cadáveres vendidos a Knox e por conseguinte ao Royal College foram dissecados nas aulas do curso de anatomia. Isso levanta suspeitas de que Knox poderia estar agenciando a venda de cadáveres para outras instituições de ensino. Parte dos cadáveres jamais foram dissecados, ao menos não no Royal College o que gera dúvidas a respeito do destino dos corpos, um tema soturno tratado pela imprensa da época da maneira mais escandalosa possível. Alguns afirmavam que eles teriam sido dissolvidos com ácido e cal virgem afim de aproveitar seus ossos nos mais variados fins (até teclas de piano eles poderiam ter virado!). Outros sugeriam que os cadáveres teriam sido vendidos para inescrupulosos donos de restaurantes que teriam usado a carne fresca para incrementar seu cardápio. Finalmente, haviam aqueles que apontavam para missas negras e cerimônias profanas presididas pelo Hellfire Club (o Clube do Fogo do Inferno), uma instituição que gozava da pior reputação possível.

Filme britânico de 1972 a respeito da vida dos criminosos.
Também existia outra possibilidade. Knox precisava dos cadáveres não apenas para os cursos básicos de anatomia, mas para experiências mais ousadas, entre as quais programas de comparação anatômica que ele coordenava. O médico havia se tornado curador do Museu do Colégio de Cirurgiões de Edimburgo, e também estava escrevendo livros a respeito de anatomia. Entre seus interesses figurava o projeto de criar uma ala no museu em que corpos e partes da anatomia humana seriam expostos, uma forma de desmistificar o temor das pessoas diante da morte. O projeto de Knox, contudo, nunca foi adiante.

O julgamento de dezembro de 1828 chamou a atenção das autoridades competentes para o imoral comércio de cadáveres na Grã-Bretanha uma prática ilegal, mas extremamente difundida e lucrativa. Na primavera anterior ao julgamento, bem antes do público tomar conhecimento a respeito das atividades de Burke e Hare, um comitê do Parlamento foi incumbido de investigar como os Colégios de Medicina e Universidades conseguiam seus espécimes. Os assassinatos em Edimburgo ajudaram a aprovar uma deliberação chamada Ato de Anatomia de 1832.  Através dessa medida, cadáveres de indigentes e de voluntários que aceitavam "vender seus corpos para a ciência" passaram a ser entregues às Instituições, pondo um fim aos negócios dos inescrupulosos Ressurrecionistas. 

Desse mesmo ato surgiu uma espécie de colaboração entre a força policial e as escolas de medicina. Após os crimes, Edimburgo resolveu se modernizar quanto forma de buscar Lei e Ordem. A capital da Escócia tornou-se uma das cidades pioneiras quanto ao emprego de técnicas forenses como auxílio da investigação policial. A cidade foi uma das primeiras da Europa a estabelecer uma polícial de caráter profissional. A colaboração entre polícia e médicos também foi essencial para implementar o uso de técnicas para obtenção de evidências, criação de exames de autópsia e comparação de armas com ferimentos produzidos. A polícia fazia reconhecimento e registro fotográfico, além de muitas outras inovações. 

O Esqueleto de William Burke na Escola de Cirurgiões de Edinburgo
Não por acaso, a força policial de Londres "tomou emprestado" vários procedimentos criados em Edinburgo. Prova disso, é que o Departamento de Investigação da Capital do Império Britânico passou a ser chamado Scotland Yard (Quintal Escocês) em decorrência da quantidade de profissionais especialmente trazidos da Escócia para ensinar suas técnicas.

Os nomes Burke e Hare, no entanto se tornaram sinônimo de medo e crime em Edimburgo, e mesmo hoje são tidos como os mais notórios assassinos da história da Escócia. Ironicamente, o esqueleto de William Burke ainda é usado pela Escola de Medicina de Edinburgo como uma ferramenta de aprendizado, ele se tornou na morte, parte do comércio que fomentou ao longo de sua vida.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A Arte de Esfolar - Detalhes a respeito de uma das mais horrendas torturas conhecidas pelo homem


Com base no texto de Laura Allan do Blog Ranker

As vezes é chocante imaginar o quanto as pessoas podem ser cruéis.

Não é agradável descobrir o quanto alguns homens podem ser perversamente criativos quando o assunto é infligir dor e tormento em seus inimigos. A morte surge como um objetivo menor, é sim desejada, mas a tortura é o principal intento.

Entre as muitas modalidades de tortura existentes, uma se sobressai como especialmente perversa e hedionda. Ser esfolado vivo pode ser considerada uma das formas mais terríveis de tortura imagináveis pelo ser humano. É um processo lento e doloroso, no qual a vítima estará consciente o tempo todo e do qual não há escapatória.

O esfolamento (também chamada de depelar ou flagelar) foi documentado como um método de execução praticado desde o ano 800 a.C no Norte da África. Desde então, o esfolamento foi usado como forma de tortura ao longo dos séculos, em todas as épocas, em cada canto do planeta. Ele foi praticado pelos Astecas em seus rituais de sacrifício ao Deus Sol, esteve presente na Civilização Grega, na China Imperial, e no Continente Africano. Vários mártires cristãos sofreram com o esfolamento, sendo que São Bartolomeu é o Santo mais conhecido por ter enfrentado esse destino por ordem do Rei da Armênia. É claro, o esfolamento foi amplamente realizado durante a Era Medieval, como punição para traidores, saqueadores e criminosos. Até o século XVIII era uma punição empregada pela Igreja contra heréticos e indivíduos que negavam a existência de Deus. Os japoneses ironicamente a usaram contra missionários cristãos que tentavam introduzir sua fé no oriente. O esfolamento era comum em Papua Nova Guiné, uma forma de reconhecer o valor de um morto ilustre era arrancar sua pele e esticá-la na parede de casa. Birmaneses, os povos dos Urais, Indianos, os habitantes da Terra do Fogo, muitas tribos de nativos americanos (os Apaches e Cree, em especial) e os anglo-saxões.

Todos utilizavam o esfolamento!    

Embora o esfolamento seja raramente empregado hoje em dia (ainda bem!), isso não torna o conceito menos apavorante. Muitas pessoas se sentem morbidamente curiosas a respeito de como era conduzida essa tenebrosa tortura. Uma vez que não e nada recomendável tentar isso em primeira mão, vamos falar a respeito do que acontece durante a experiência,  passo a passo, rumo ao amargo fim.

Nem é preciso dizer que o texto a seguir e as imagens - todas elas autênticas obras de arte onde o esfolamento constitui o tema principal, podem ser profundamente perturbadoras. Portanto esse material deve ser evitado por pessoas impressionáveis, prossiga por sua própria conta e risco.

1 - A vítima precisa ser preparada para que sua pele saia mais fácil.



Como você pode imaginar, arrancar a pele inteira do corpo de um ser humano não é a tarefa mais fácil do mundo. Com isso em mente, você deve corretamente imaginar que quando alguém esfola a pele de outra pessoa, é preciso haver certo grau de preparação antes de iniciar os trabalhos.

Pensando nisso, algumas culturas estabeleceram regras procedimentais para o esfolamento. Por exemplo, esquentar a pele com panos aquecidos era uma maneira de soltar a pele dos músculos e fazer com que os tecidos epiteliais soltassem mais facilmente. Os Astecas costumavam deixar a vítima dourar ao sol durante um dia inteiro, por vezes passando sobre seus corpos óleo de milho ou girassol. Isso não apenas preparava a pele, como permitia que a tortura fosse mais longa, já que os músculos permaneciam aquecidos por mais tempo. A pele vermelha e queimada pelo sol era mais fácil de ser removida de uma só vez. O segundo método era mais extremo. Usado frequentemente durante a Idade Média ele consistia em cozinhar a vítima em um grande caldeirão de água fervente e/ou óleo. Cozinhando a vítima por pelo menos 30 minutos imersa em um tacho, os músculos naturalmente irão relaxar permitindo o trabalho do esfolador. Era importante não deixar a vítima tempo demasiado no banho quente para evitar que ela fosse cozinhada viva.

2 - O esfolamento se inicia com cortes longos



Então, como se dava início ao trabalho de esfolar uma pessoa?

A tortura se iniciava com alguns cortes bastante específicos e bem calculados. Em geral, a primeira pele a ser removida era a da face; depois dela, o corpo era marcado em vários lugares permitindo que pedaços inteiros fossem removidos em uma única peça (ou no menor número de peças possível). Essa marcação envolvia realizar cortes transversais precisos que dependiam de certo conhecimento de anatomia humana. Em especial, era preciso conhecer o mínimo sobre a musculatura, para determinar como as camadas de pele se distribuem pelo corpo. Uma marcação básica, estabelecida pelos gregos e aprimorada pelos romanos, envolvia fazer cortes ao longo dos braços até os pulsos, na lateral das pernas até os tornozelos e no peito até o pescoço. Com esses cortes calculados era possível descascar a pele mais facilmente.

Para serem efetivos, esses cortes não precisavam ser necessariamente profundos. Contudo, eles precisavam se estender através das camadas de tecido, atingido a porção entre a pele e o músculo. Os turcos seljúcidas, mestres na arte da esfolação, acreditavam que quanto mais afiada a faca, menor seria a dor provocada e com menos trauma produzido, maiores as chances da tortura perdurar por horas. Por essa razão, os torturadores especializados em esfolar, mantinham seu equipamento em perfeito estado e as lâminas sempre afiadas. 

3 - A pele era removida em grandes pedaços 



Aparentemente, não havia propósito em esfolar uma pessoa se tudo o que restava dela, no final, fossem pequenos pedaços. Em geral, o ato de esfolar envolvia remover a pele em porções grandes, isso porque muitas culturas gostavam de expor as peles recém arrancadas como um símbolo de poder e justiça.

Historiadores sabem disso através de indícios bastante sinistros.

Existem não apenas relatos históricos escritos a respeito do destino de peles esfoladas, mas evidência física. Por exemplo, na antiga Igreja de Hadstock em Essex, existe a lenda de um saqueador dinamarquês que foi acusado de sacrilégio e que acabou esfolado como punição. Segundo os registros da época, sua pele foi esticada e pregada na porta da Igreja como um aviso para que nenhum outro saqueador ousasse profanar o templo sagrado. Séculos mais tarde, quando a porta teve de receber reparos, foram achados restos de pele humana sob a ponta de pregos antigos que ainda estavam cravados na madeira. A distância entre os pregos indicava o notável tamanho do pedaço de pele ali disposto. Da mesma maneira, na Catedral de Worcester está guardada uma grande prancha de madeira que foi usada para expor um pedaço de pele humana pertencente a outro saqueador nórdico, um dinamarquês acusado de tentar roubar o sino da igreja.

4 - A vítima sentia cada nervo sendo esticado ao máximo



Uma das perguntas centrais a respeito dessa horrível forma de tortura diz respeito a quanta dor ela irá produzir na vítima? A resposta curta e grossa é que será provavelmente a maior e mais lancinante dor que a pessoa jamais experimentou. As terminações nervosas se estendem até as ramificações mais profundas da pele, possibilitando o sentido do tato. É por essa razão que as pontas de nossos dedos são tão sensíveis, e por essa razão qualquer dano na pele tem uma pronta resposta em nossas terminações nervosas. Estas avisam imediatamente ao cérebro que o corpo está em perigo. A resposta é desencadeada por nervos sensoriais chamados nociceptores que captam os estímulos de dor.

Quando alguém é esfolado, a pele é literalmente rasgada, não apenas cortada em pequenos pedaços. A ação de rasgar entretanto, não implica em danos às terminações nervosas, que continuam ativas, enviando para o cérebro sinais de dor.   

5 - A Vítima irá perder uma enorme quantidade de Sangue



Como é de se imaginar, ter a pele arrancada não deve ser especialmente bom para o sistema circulatório. Há muitas maneiras do esfolamento resultar na morte da vítima e uma delas é pela perda maciça de sangue, algo chamado exsanguinação. Entretanto, essa modalidade de morte não é tão frequente como se pode imaginar. Acredite ou não, pessoas podem sobreviver a uma perda acentuada de sangue. Em termos gerais, é possível sobreviver a perda de aproximadamente 40% ou até mais de sangue antes disso se tornar letal.

Assumindo que a vítima seja pendurada de cabeça para baixo, como era frequentemente o caso, o sangue escorria mais rapidamente para a cabeça e dali para o chão, lavando o corpo inteiro em uma torrente escarlate. Nesse caso a exsanguinação podia ocorrer, terminando o suplício mais rapidamente. Sabendo disso, muitos torturadores evitavam deixar a vítima de ponta cabeça, prolongando assim seu martírio.

6 - A Infecção vai começar imediatamente



Embora mil coisas pudessem matar a vítima do esfolamento, a infecção constitui um sério problema. A pele é um órgão vital que protege o sangue e os músculos de agentes externos como bactérias e virus no ar. Sem a camada protetora da pele, cada parte do corpo está mais exposta ao ataque de micro-organismos hostis. Insetos são naturalmente atraídos por sangue, e supõe-se que a descarga de adrenalina faça com que urina e dejetos sejam evacuados durante a tortura, o que é um elemento agravante de impurezas. Lâminas e objetos de tortura com restos de sangue também podem ser uma fonte de doenças.

Infecções conseguem penetrar no sistema circulatório e dali se espalhar pelos órgãos vitais, instalando um quadro de septicemia em poucas horas. Assumindo que o indivíduo sobreviva, digamos, caso a tortura seja interrompida ou cancelada na metade, uma infecção provavelmente acabaria por terminar o serviço. 

7 - A vítima vai sentir muito frio



Uma das funções da pele é regular a temperatura corporal. A pele fornece uma das principais defesas do organismo contra o frio. Sem ela, o sangue, os músculos e nervos ficam expostos ao ar e esfriam com grande facilidade. De fato, uma das possíveis causas de morte por esfolamento pode ser a hipotermia.

Por sorte, hipotermia é uma morte relativamente indolor, o que levava alguns torturadores a manter o ambiente em que ocorria a tortura aquecido.

8 - A Vítima vai entrar em choque...



A medida que a tortura se inicia, o corpo, o cérebro e os nervos enlouquecem por completo, registrando todos os estímulos até o ponto de entrar em curto. Impulsos elétricos literalmente saem de controle, e o cérebro tem que lidar com essa elevada descarga sensorial. Diante da enorme quantidade de estímulos ele acaba se desligando, então, como seria de se imaginar, o resultado é o choque.

O choque ocorre quando não há sangue suficiente se movendo em seu sangue para oxigenar as suas células. A pessoa está perdendo muito sangue, sua pressão estará alterada pelo horror, sinais claros de que o choque é iminente. Em termos gerais, isso resulta em tontura, confusão e falta de ar. A pessoa experimenta um frio profundo, paralisia nas extremidades, náusea e dores agudas no estômago. E possivelmente, se a vítima tiver sorte...

9 - ...é provável que perca os sentidos.



Um dos sintomas principais de entrar em choque é perder a consciência. Os torturadores sempre tentam manter a vítima acordada por vários métodos, incluíndo agressão, queimaduras, banhos de água ou colocando a pessoa de ponta cabeça. Porém, em certos momentos, a perda de sangue será grande demais. O cérbero, percebendo que não há uma maneira de lidar com a situação, em um ato de auto-preservação tende a desligar. A pressão sanguínea cai muito rapidamente e a pessoa simplesmente desmaia, um estado do qual possivelmente jamais irá despertar.

É importante perceber que esse desmaio é muito comum em vítimas de esfolamento. Alguns relatos mencionam que a maioria das vítimas de esfolamento perdiam a consciência antes que a pele do torso fosse removida. Dada a medonha sensação de ser esfolado vivo, estes desmaios eram uma benção bem vinda. 

10 - A pessoa irá morrer, sem dúvida.



Uma questão recorrente que surge envolve as chances de sobrevivência após ser esfolado vivo. A resposta mais direta é: "Não existem chances de sobreviver". Embora possa não parecer, a pele é um dos nossos órgãos vitais. Ela contém infecções, protege nossos músculos e sangue, e age como uma barreira contra os elementos. O mais grave é que apenas uma porção da pele é capaz de regenerar, portanto, se a pessoa perde uma grande quantidade de sua pele não haverá tempo dela crescer antes de alguma infecção se mostrar mortal.

Pessoas com queimaduras severas que perdem parte de sua pele sofrem algo semelhante. Existem várias camadas de pele revestindo o corpo, queimaduras, assim como o esfolamento faz com que uma grande quantidade doa proteção seja perdida. Demora mais ou menos um mês para que a pele cresça novamente, e não há como sobreviver por tanto tempo nessas condições. É por isso que vítimas de queimaduras precisam de enxertos de pele para prevenir infecções e proteger dos elementos que podem ser mortais. Mesmo assim, as chances de sobrevivência são relativamente pequenas. Além disso, há outro problema no esfolamento, visto que esse envolve uma perda acentuada de sangue, um elemento importante para a recuperação da pele. 

11 - Pode demorar muito até a vítima expirar. 



Então, exatamente quanto tempo leva para uma pessoa perecer depois de ser esfolada? Infelizmente, esse tipo de tortura tende a durar muito tempo. É verdade que a vítima pode morrer de perda de sangue, hipotermia ou choque em poucas horas, e muitos perdem a consciência e não recobram os sentidos. Mas é bem possível que a vítima se manterá consciente ao longo de toda tortura e algumas horas depois dela ser concluída. Os relatos obtidos por cronistas antigos dão conta de que pessoas conseguiram sobreviver por várias horas e até dias após serem esfoladas, presumivelmente em dor excruciante até o fim. 

*          *          *

Diante de tudo isso, a que conclusões podemos chegar?

Em se tratando de criatividade e crueldade, a raça humana demonstrou ao longo dos séculos um inenarrável potencial para torturar, ferir e matar seus semelhantes. Se o esfolamento é o pior ou não, o auge de nossa perversidade, é difícil saber ao certo, mas sem dúvida essa modalidade tenebrosa de tormento imposta por uma pessoa a outra, encontra-se na lista das mais atrozes.

UPDATE - Me pareceu extremamente curiosa a quantidade de pinturas renascentistas com o tea de um Sátiro (criatura mitológica semelhante a um homem com patas e chifres de carneiro) sendo esfolado vivo.

Pesquisei um pouco a respeito e descobri que se trata do Mito de Marsias.

Marsias era um músico extremamente talentoso e arrogante que encontrou a flauta pertencente a Deusa Atena perdida na Terra. Tomando o instrumento de sopro, ele se converteu em um músico tão perfeito e convencido de seu dom que teve a ousadia de desafiar o Deus grego Apolo para uma competição. Pelas regras da disputa, o vencedor teria o direito de punir o derrotado da maneira que desejasse.

O sátiro tocou sua flauta e se saiu extremamente bem, tanto que aqueles que julgariam o desafio afirmaram que Apolo não teria chance de se sair vitorioso. Os comentários irritaram o Deus de tal maneira que ele se esmerou ao máximo em sua apresentação com a Lira, um instrumento até então desconhecido na Terra. Impressionando a todos com sua performance, Apolo foi apontado como vencedor da disputa.

Em um momento de crueldade típica dos deuses do Olimpo, Apolo decidiu que o fauno seria punido da maneira severa por ousar se achar melhor que um Deus. Como punição ele seria esfolado vivo - uma punição à altura da heresia por ele cometida. Sem pensar duas vezes, o Deus amarrou o pobre sátiro em uma árvore e começou a arrancar sua pele, tortura que resultou em sua morte.

Segundo versões do Mito, as lágrimas de Marsias teriam dado origem a um rio de águas salgadas com o mesmo nome.


Moral da história? Jamais desafie um Deus para uma disputa, mas se o fizer, tenha certeza de que vai vencer...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

The Things we Leave Behind - Resenha da Antologia de Aventuras da Stygian Fox


Não é exagero nenhum dizer que estamos vivendo um período de redescoberta do RPG Call of Cthulhu.

Call of Cthulhu está se tornando um título recorrente e cada vez mais gente sabe do que se trata, ao invés de rolar os olhos e perguntar "O que é isso?", sobretudo quando você cita o nome do monstro que dá nome ao jogo.

Muito dessa redescoberta se deve claro à Chaosium, a editora que ao criar o jogo, não apenas se tornou a primeira a adaptar a obra de H.P. Lovecraft, mas inaugurou o gênero de Horror no universo dos RPG. Após uma longa e escura tempestade agravada por um Financiamento Coletivo que quase destruiu a empresa, a Chaosium finalmente está conseguindo dar a volta por cima sob nova direção.

Mas não é apenas a Chaosium que está patrocinando esse revival. Uma série de outras editoras estão aproveitando a hype que se formou ao redor dos Mythos de Cthulhu e adquirindo licenças para publicar livros, aventuras e suplementos inspirados por Call of Cthulhu e o novo sistema de regras. O lendário Delta Green está sendo revisto pela Arc Dream, a Golden Goblin está investindo em Cthulhu Invictus e a Dark Cults Games lançou uma campanha chamada The Star on the Shore, todos eles usando Financiamento Coletivo para capitalizar fãs novos e antigos.

Dentre as novas editoras que surgiram com o retorno do RPG Call of Cthulhu, a Stygian Fox Publishing desponta como uma das mais promissoras e é sobre ela que vamos falar nesse artigo.


O primeiro lançamento da companhia com sede no País de Gales e capitaneada por Jeffrey Moeller foi "Things We Leave Behind" (que podemos traduzir como "Coisas que Deixamos para trás"). Uma antologia composta por seis cenários para Call of Cthulhu sétima edição, todos eles se passando nos Estados Unidos dos dias atuais. O time responsável por criar essa antologia é formado por autores veteranos como o próprio Moeller, Oscar Rios e Brian M. Sammons, figuras conhecidas entre os fãs de Cthulhu. Lançado após uma Campanha de Financiamento Coletivo bem sucedido, as aventuras buscam inspiração em obras dos gêneros suspense, policial e horror. O próprio texto na contra capa sugere que o filme Fargo e as séries televisivas True Detective e Hannibal foram usadas como referência para construir as estórias. E realmente, é possível perceber que os autores se esmeraram em escrever cenários adultos aterrorizantes na América atual, cenários estes que servem a um público mais maduro.

Mas vamos falar um pouco de cada cenário, tomando cuidado para não cair em spoilers.

A antologia se inicia com "Ladybug, Ladybug, Fly Away Home" (Joaninha, joaninha, voe de volta para casa) de Jeffrey Moeller que também é o editor do livro. O cenário trata do sequestro de uma criança de cinco anos em um subúrbio da cidade de Cleveland, Ohio. Logo fica claro que o caso é mais complicado do que parece: Primeiro porque um dos sequestradores comete suicídio logo depois de entregar a menina a um comparsa. Segundo porque o sequestrador suicida era um respeitado ex-membro de uma agência do governo. E terceiro porque os pais da menina são líderes de uma Igreja Cristã Fundamentalista. A questão não é apenas recuperar a criança, mas entender o que levou um agente federal aposentado de ótima reputação a cometer um crime e em seguida tomar a própria vida.


Trata-se de um excelente cenário investigativo no qual o grupo deve correr contra o relógio para trazer a menina de volta em segurança. A medida que a investigação avança, descobertas perturbadoras vem à tona, sugerindo que nem tudo é o que parece ser. Essa aventura é especialmente adequada para um grupo de personagens que façam parte da polícia ou que sejam membros do FBI. De fato, parece ser uma ótima ideia adaptar para Delta Green - o que pretendo fazer!

Misturando paranoia e fanatismo religioso, Ladybug é um cenário poderoso no qual os elementos dos Mythos se confundem com a maldade humana. O horror sobrenatural é muito mais sugerido do que mostrado, assim como ocorre na série True Detective. Em vários momentos, os personagens ficam em dúvida se estão imaginando coisas, sobretudo diante de horrores sutis que vão se tornando cada vez mais bizarros. É um impressionante cenário de abertura que estabelece o tom para o restante das aventuras.

Após a abertura seca de "Ladybug", a segunda estória "Forget Me Not" (Não esqueça de mim) é um soco na boca do estômago. Escrito por Brian M. Sammons, o cenário começa com os investigadores acordando sem saber onde estão, o que houve e nem mesmo quem são. Tudo o que eles sabem é que sofreram algum tipo de acidente numa estrada isolada do meio-oeste e que terão de refazer seus passos para entender como chegaram lá. As pistas estão dentro da van arruinada onde eles acordam, na forma de fitas de video e relatórios do que parece ser uma investigação sobre atividade paranormal em uma casa supostamente assombrada.


Nesse contexto, o grupo terá de descobrir não apenas os acontecimentos que levaram ao acidente, mas suas verdadeiras identidades. É claro, não se trata de uma aventura simples, ela funciona melhor com os jogadores assumindo personagens pré-concebidos e distribuídos pelo mestre. Cenários com amnésia funcionam como um quebra cabeças que vai sendo montado e via de regra são bastante interessantes, ainda que dependam da perfeita sintonia entre o mestre e jogadores. Para o grupo correto, esse será um cenário absolutamente memorável!

O terceiro cenário da antologia com o título "Roots" (Raízes) é de autoria de Simon Brake e tem lugar no meio-oeste dos Estados Unidos. Ele também trata de uma criança desaparecida, dessa vez a filha adolescente de um amigo dos investigadores. Tudo tem início quando a menina, que foi adotada ainda bebê, expressa o desejo de conhecer seus pais biológicos. Após investigar sua origem as pistas acabam levando-a a um estranho vilarejo isolado onde ela foi vista pela última vez. Os jogadores podem fazer o papel de amigos preocupados ou de investigadores contratados para recuperar a garota, mas na minha opinião, essa é outra ótima oportunidade para inserir Delta Green na trama.

Roots é uma daquelas aventuras a respeito de segredos de família trancafiados à sete chave e esquecidos. Segredos que desencadeiam um efeito avassalador em todos que são tocados por ele. Quem conhece o clássico filme de horror "O Homem de Palha" (The Wicker Man) vai encontrar várias referências ocultas envolvendo sacrifícios, paganismo e rituais incomuns que remetem diretamente a essa produção. Há também algo de conto de fadas e fantasia dark no roteiro que é muito bem estruturado. 

"Hell in Texas" (Inferno no Texas) escrita por Scott Dorward leva o grupo a uma jornada de horror no coração do maior estado americano, onde eles precisam elucidar o mistério de uma manifestação sobrenatural que parece surgir durante o Halloween. A história também trata de um tema recorrente: o fanatismo religioso e os exageros de certas seitas que enxergam pecado em todo canto e estão preparadas para punir/purificar os pecadores. Temas polêmicos como sexo, aborto, homosexualidade, drogas e álcool são pincelados ao longo da narrativa que conduz a uma dramática escolha entre Inferno e Paraíso.


Os jogadores podem se envolver de diferentes maneiras, seja como agentes contratados para descobrir a verdade ou como membros da congregação que compartilham da visão "fogo e enxofre" da sua Igreja. Sinceramente, a segunda opção me parece mais desafiadora, embora exija um grupo com certo grau de maturidade já que envolveria interpretar indivíduos preconceituosos.

Obviamente, por se tratar de um cenário de horror, coisas medonhas espreitam ao longo da narrativa, não necessariamente fantasmas como é sugerido mo início, mas coisas dentro do escopo dos Mythos ancestrais. Uma aventura bem interessante.

O cenário seguinte escrito por Jeffrey Moeller tem o título "The Night Season" (A Temporada Noturna) é é de longe o mais incomum da antologia. A história tem início quando os investigadores são contratados para revisar os fatos envolvendo o suicídio de um adolescente na cidade de Anchorage, Alasca. O que teria feito o rapaz a se matar e quais circunstâncias o levaram a isso?


A história se inicia de forma tranquila, mas a medida que avança, elementos estranhos, alucinações e sonhos vão se acumulando fazendo com que os personagens se perguntem se estão realmente acordados ou sofrendo pesadelos. O mais curioso a respeito da aventura é que ele não e necessariamente um conto de horror, tudo depende da maneira como o Keeper irá apresentar a história. Uma das grandes sacadas da trama diz respeito a uma série de ficção científica que se torna real envolvendo os personagens em uma espécie de realidade a parte na qual o que eles veem na televisão se torna parte do mundo real. Uma ótima opção, seria adaptar alguma série conhecida pelos jogadores e fazer com que eles participem dela, como personagens inseridos em um episódio. O conceito é no mínimo... divertido.

Fechando a antologia temos "Intimate Encounters" (Encontros Íntimos), um cenário bônus de Oscar Rios. Os jogadores, dessa vez encarnem jornalistas atrás de uma história suculenta ou investigadores particulares com a árdua tarefa de rastrear um assassino em série apelidado de "Lipo Killer" (Matador da Lipoaspiração), uma vez que ele drena a gordura corporal de suas vítimas. A história é simples e bem direta, mas muito bem escrita e divertida.

Tudo nesse cenário sinaliza afirmativamente para uma homenagem a séries de TV que tratam de investigadores do paranormal às voltas com algo inacreditável, no melhor estilo Arquivo X, com direito a "Monstro da Semana" responsável pelos acontecimentos. A inspiração principal do cenário, aliás é um episódio da série Kolchak: The Night Stalker, que infelizmente é pouco conhecida no Brasil. "Encounters" é um cenário mais convencional, com o grupo visitando cenas de crime, entrevistando testemunhas, coletando pistas e juntando as pontas soltas que eventualmente irão levá-los a um confronto com o horror.


"Things we Leave Behind" é uma antologia com ótimas opções de cenários de horror moderno. Alguns fãs de Call of Cthulhu tendem a torcer o nariz para aventuras modernas, sobretudo porque alguns julgam que o horror dos Mythos acaba diluído no contexto dos dias atuais. Outros defendem que um dos grandes charmes da ambientação é usar como pano de fundo a década de 1920 ou a Era Victoriana. Eu mesmo reconheço que sempre tive uma certa resistência a respeito de rolar cenários contemporâneos, mas essa antologia em especial me deixou muito animado para uma campanha nos dias atuais. O horror dos Mythos contido nessas aventuras não é de modo algum diluído, pelo contrário, ele parece perfeitamente inserido nas nossas aflições, alimentando-se de nossas dúvidas a respeito do mundo que construímos.

A apresentação física do livro é excelente. O visual é limpo e simples, mas ainda assim bastante atraente, remetendo aos livros antigos de Call of Cthulhu. A capa é discreta, com uma bela fotografia de árvores antigas numa floresta, algo que evoca perfeitamente o clima de isolamento das estórias. A arte interna me agradou muito, os trabalhos em preto e branco conseguem passar a dramaticidade das cenas e concedem referências visuais valiosas para os acontecimentos - exatamente  que se deseja encontrar num suplemento de aventuras prontas.    

A edição que chegou às minhas mãos, gentilmente oferecida pela Stygian Fox tem capa dura e um acabamento impecável. É um livro que definitivamente vale a pena ter na coleção e cujo conteúdo "pede" para ser usado na mesa de jogo. Para grupos que apreciam aventuras investigativas, bem elaboradas e adultas, essa antologia é uma excelente pedida. Material de altíssima qualidade, assinado por veteranos que sabem o que estão fazendo e que prometem sangue novo para o Horror Moderno de Cthulhu.


UPDATE: Antes de concluir essa resenha, a Stygian Fox, esperta como uma raposa (desculpe o trocadilho) já atacou novamente. Está em curso outro Financiamento Coletivo pelo Kickstarter, uma segunda antologia de aventuras modernas de Call of Cthulhu 7th edition. Com o título "Fear's Sharp Little Needles" (Pequenas e afiadas agulhadas de medo, em uma tradução mandrake) é uma nova antologia contendo aventuras curtas - destinada a uma única sessão de jogo, se passando novamente nos dias atuais.

Com a chancela de "Things we Leave Behind", não é de se estranhar que a meta inicial do Financiamento tenha sido batida em apenas 5 horas e 16 minutos. Os apoios continuam subindo em um ritmo alucinante e não vai ser surpreendente que ele vá atingir um belo total quando a campanha se encerrar dentro de 30 dias.

Fiquem de olhos abertos para a Stygian Fox, esses caras ainda vão dar o que falar!

Fear's Sharp Little Needles - Página do Kickstarter



sábado, 28 de janeiro de 2017

Rizocéfalo - O mais medonho (e assustador) parasita da Natureza


Scoop de José Luiz F. Cardoso
Com material da página Deep Sea News

Caras, isso é realmente aterrorizante!

Tanto que quando terminei de escrever parei e refleti a respeito daquele velho ditado que algumas pessoas gostam de repetir: "A Natureza é sábia!

Minha mãe adora repetir isso quando vê, por exemplo, um animal de espécie diferente adotando outro (gatinhos sendo adotados por uma cadela que lhes dá de mamar, são um must).

Ora, com todo respeito aos que pensam dessa forma, inclusive minha mãe, eu prefiro pensar de outra maneira:

A Natureza não é "sábia", ela é sim, implacável com todos os seres vivos. 

A Natureza impõe a toda e qualquer forma de vida que anda, nada, voa ou rasteja nesse planeta que se adapte da melhor maneira possível. Se a adaptação não acontecer corretamente e a tempo, a própria Natureza se encarrega de cobrar um alto preço: simplesmente varrer a espécie para baixo do tapete evolutivo em uma extinção da qual não há retorno. Sobrevivência é o nome do jogo disputado dia a dia desde o início dos tempos. Se nós estamos vivos como espécie, é apenas por que fomos capazes de superar as dificuldades impostas pela natureza ao longo de nossa existência. E se a sua espécie não se adapta às condições adversas que surgem? Bem, pergunte o que aconteceu aos dinossauros se você encontrar um deles.

Nesse jogo perigoso, algumas espécies se superam na maneira para garantir sua própria sobrevivência. No panorama inclemente da Natureza, vale tudo para garantir os três elementos fundamentais para perpetuar a espécie: alimentar, crescer, reproduzir.

Nesse contexto, nenhuma espécie é mais canalha, mais insidiosa, mais cruel do que um pequeno crustáceo marinho chamado Rizocéfalo (da classe Cirripedia que inclui entre seus primos, criaturas como a craca e o percebes).


O Rizocéfalo é um parasita grotesco saído dos pesadelos niilistas de um maníaco. E eu estou sendo bonzinho nessa descrição, pois quando li a respeito dessa coisa, perdi meu apetite e mesmo agora, ele é capaz de me dar arrepios. O pequeno Rizocéfalo faz o sangrento ciclo reprodutivo dos xenomorfos da franquia Alien parecer um conto de fadas de amor e carinho entre as partes envolvidas. E o pior, é que ao contrário dos aliens, essa coisa é real.

Por onde começar a descrever o que esse grande Filho da P*** faz com suas vítimas?

Bem, pelo começo, creio eu.

Para entender o horror que representa esse monstro, você precisa se colocar no lugar de um outro animal. No caso, a pobre criatura que será a vítima do Rizocéfalo. Imagine que você é um inocente Caranguejo do Pacífico, e para aumentar o efeito geral, imagine que você pertence ao gênero masculino.

Pois bem, você é um Caranguejo macho e como tal procura as pedras da praia e a luz do sol onde o alimento é abundante. Você atingiu seu tamanho adulto, esquivando-se de todos os perigos. A vida segue normal, até que um belo dia, depois de passar por cima de algumas pedras, as coisas começam a ficar estranhas. Você começa a desenvolver um desejo de proteção - algo quase maternal - como se alguma força dentro de você estivesse forçando um comportamento diferente do normal.

Esse é o primeiro sinal de que há algo errado acontecendo. O caranguejo não sabe, mas quando passou sobre algumas pedras no litoral, um parasita se prendeu a sua placa de quitina e se alojou na parte de baixo de seu corpo. O rizocéfalo demora apenas alguns dias para iniciar seu ataque. Ele espalha ramificações sob a pele do caranguejo que chegam até seu cérebro. O que ele faz então é assustador: ele começa a mexer com seu comportamento.

Sendo bem direto, ele transforma o Caranguejo num zumbi.

Não é por acaso que o Rizocéfalo é considerado um dos mais estranhos grupos de animais conhecidos.
Um caranguejo afetado por um parasita eclodindo em seu corpo.
No início de sua vida, a fêmea da espécie é perfeitamente normal, tendo um corpo semelhante aos das demais larvas de sua espécie. O que a difere é um tipo de agulha serrilhada que surge na sua cabeça, uma estrutura semelhante a um espinho serrilhado. Quando a larva encontra um caranguejo ela usa essa agulha para se fixar na barriga do hospedeiro, prendendo-se tenazmente. 

Dali em diante começa a mudar: ela abre mão de sua concha de quitina, de seus olhos, de suas pernas para se transformar em uma massa amorfa de filamentos semelhante a mofo negro que recobre a área em que se fixou. A medida que progride para a idade adulta, a larva do Rizocéfalo tem seu corpo retorcido e deformado tornando-se algo semelhante a um tumor.

O espinho continua crescendo no interior do pobre hospedeiro, injetando células no organismo do caranguejo como se fosse uma agulha hipodérmica. Tudo que ela faz é se espalhar como um câncer que busca cada vez mais espaço infectando os tecidos. Seus tentáculos fibrosos se alimentam da gordura e das secreções do caranguejo que vai adoecendo.

Mas quando você imagina que não pode piorar, as coisas ficam ainda piores.

O abdomen do hospedeiro começa a rachar e de dentro dele emergem as gônadas do Rizocéfalo, exatamente no lugar onde antes existiam os genitais do caranguejo. Os ovários do parasita atraem os machos rizocéfalos que se aproximam para procriar. A primeira reação do Caranguejo seria repelir esses pretendentes indesejados, mas as células do parasita já conseguiram mudar seu comportamento de tal maneira que ele sente que a procriação é bem vinda, mesmo que seja por uma espécie diferente. Em última análise ele permite ser fertilizado por uma espécie diferente da sua.

A essa altura, o caranguejo já não sabe mais o que é.

O rizocéfalo inseriu em seu cérebro filamentos que lançam doses maciças de substâncias químicas que o confundem e o controlam. O hospedeiro passa a acreditar que é uma fêmea, e que seu abdomen, carregado de ovos estranhos são, ainda assim, seus próprios ovos. A medida que os ovos amadurecem, o Caranguejo começa a protegê-los e limpá-los como se fossem seus.

O Rizocéfalo já tomou esse hospedeiro e ele está pronto para se reproduzir.
Em um dia fatídico, o pobre hospedeiro sente um irresistível impulso de se mover para o litoral. Seu corpo, antes rígido e quitinoso, foi mudado com o propósito de proteger os ovos. Ele foi emasculado e transformado em algo que não era originalmente. Na costa, sua casca arrebenta e começa a liberar centenas de filhotes, onda após onda. 

A despeito de tudo, o caranguejo acredita que está gerando uma nova ninhada e que cumpriu seu propósito reprodutivo. O pior é que seu corpo será devorado pelas pequenas criaturas que estão saindo de seu interior. O caranguejo é literalmente comido pelas larvas que eclodem de dentro dele, uma geração que irá contaminar e se espalhar entre os seus irmãos como um cancer do qual não existe salvação e nem cura.

Natureza sábia?

Natureza nobre?

Ou seria, Natureza Implacável?

*     *     *

Não sei quanto a vocês, mas o comportamento desse parasita me parece ser o mais próximo na natureza de algo realmente lovecraftiano.

Pense bem:

Totalmente alienígena, absolutamente irrefreável em seu propósito de expandir, sobreviver e proliferar. Indiferente quanto ao destino dos outros seres dos quais ele se aproveita em benefício próprio.

Essa coisa, o Rizocéfalo, é um monstro absurdamente assustador.

Imagine agora se a humanidade fosse afetada por algo desse tipo, algo que altera o comportamento, que causa mudanças corporais severas, que se aproveita de um hospedeiro e que o usa como alimento depois que seu propósito principal se encerra.

Eu não gostaria de viver no mesmo mundo que essa coisa medonha.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Cidade das Névoas - o Grande Fog de Londres em 1952


Postagem original de 17/01/2013

Moradores que vivem atualmente em
 Londres podem atestar que a cidade não é tão enevoada quanto se pensa. Essa melhoria tem um bom motivo, já que o n
evoeiro da capital inglesa, o tradicional fog, é resultado direto da poluição do ar. Menos poluição no ar, menos nevoeiro... 

É claro, o fog, pode se formar por causas naturais, mas a frequência com que ele surgia na cidade (a ponto de se tornar uma "marca registrada") se devia a fatores externos, leia-se as chaminés fumegantes das indústrias que despejavam fumaça nos céus da cidade.

Em 1952, a situação descambou para algo impensável. Algo que ficou conhecido como "The Great Smog" ("A Grande Fumaceira" em uma tradução livre). Um nevoeiro como nunca antes visto desceu sobre Londres e quando se foi, havia deixado um saldo de milhares de mortos.

Ninguém gosta de fumaça, mas os londrinos consideravam a sua presença algo inevitável, ela fazia parte inerente de viver na capital do império. Um fruto amargo do progresso e modernidade. É preciso lembrar que Londres foi o berço da Revolução Industrial e que chaminés de indústrias, localizadas bem próximas às cidades, lançavam diariamente toneladas de fumaça no ar. Se isso já não fosse ruim, na Era Vitoriana, quase todos os habitantes da cidade tinham um braseiro de carvão dentro de casa. Os braseiros crepitavam dia e noite, sobretudo durante o inverno. O resultado? Céus acinzentados, partículas de carvão no ar e fuligem que caía do céu como flocos de neve. Outra consequência direta? Nevoeiro diariamente.

No início da década de 1950 a qualidade do ar estava comprometida por décadas de saturação e partículas de carbono liberadas na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Em dezembro de 1952, a situação se tornou crítica. Um fenômeno conhecido como anticiclone se formou acima de Londres. O anticiclone é uma área de alta pressão que conserva o ar em seu interior e não permite o deslocamento ou renovação dele. Com o anticiclone, o ar vindo de cima se aquece e desce, suprimindo a formação de nuvens e chuva. Quando o anticiclone começou a fluir em forma de espiral, houve uma inversão térmica e a formação de um nevoeiro cada vez mais denso, agravado pelas partículas da atmosfera.

O fog resultante, para algumas pessoas, parecia algo vivo. Uma força consciente e maligna. 

Em 5 de dezembro o dia havia sido claro e seco, sem nuvens no céu azulado, mas no início da tarde as coisas começaram a mudar rapidamente. A temperatura baixou abruptamente e o nevoeiro começou a se formar de forma compacta, como uma cortina de fumaça cinzenta que filtrava os raios de sol criando uma coloração fosforescente. O nevoeiro era tão denso que a visibilidade foi reduzida para alguns poucos metros. Nas ruas, avenidas e praças, a iluminação pública de postes se acendeu automaticamente. Carros  transitavam lentamente. O Aeroporto de Heathrow foi fechado para pousos e decolagens. As pessoas saíam de casa ou de seus trabalhos e não conseguiam ver além de alguns poucos metros. Muitos tossiam ou engasgavam, a maioria começou a tapar a boca e o nariz com lenços e pedaços de pano.

No começo da noite, a surpresa inicial já se tornara uma real preocupação. A polícia ordenou que carros fossem abandonados no local onde estivessem, tinha havido inúmeros atropelamentos, batidas e confusão nas estradas. Os rádios advertiam as pessoas para evitar sair de casa, manter janelas fechadas e espalhar bacias de água pela casa para combater a secura no ar. Uma visão que trazia arrepios aos mais velhos, começou a se tornar cada vez mais frequente: pessoas usando antigas máscaras de gás dos tempos da Grande Guerra, quando o terror das armas químicas era uma realidade. Os trens e ônibus pararam de transitar, o metrô estava super-lotado e para conter o risco de acidentes as estações também foram fechadas. Cinemas, teatros e parques fecharam suas portas. Não havia segurança: lojas e apartamentos foram saqueados. Lojistas montavam barricadas para evitar a ação de ladrões.

Londres teve uma noite agitada e perigosa. Mas em algum momento, o nevoeiro deveria cessar.

A noite se foi e na manhã seguinte o fog continuava pesado. Pessoas que haviam deixado roupas no varal podiam verificar o efeito da fumaça no tecido - havia fuligem em toda parte, as janelas estavam escuras. Para piorar, a noite havia sido fria e boa parte da população ainda utilizava braseiros de carvão em suas casas. Havia mais uma grave preocupação, o nevoeiro durante o dia havia adquirido um odor característico, resultante da formação de dióxido de enxofre manifestada pela coloração verde escura (daí o apelido "peasouper" ou sopa de ervilha). As pessoas que se aventuravam fora de casa ou à caminho do trabalho levavam lanternas. Elas começavam a sentir o incômodo logo depois de algumas quadras: fraqueza, tontura, náusea, dormência... havia gente literalmente envenenada após adentrar no nevoeiro.

Os hospitais começaram a ficar lotados. Pessoas eram carregadas às pressas com falta de ar, desmaiadas ou sufocando. Balões de oxigênio eram muito necessários, mas logo ficaram escassos. As ambulâncias não davam conta das chamadas, carroças começaram a transitar em caráter emergencial, os cavalos sangrando pelo nariz, pela boca e pelos olhos em meio a nuvem tóxica. No dia 6, havia mais de 500 mortos por decorrência direta do nevoeiro. Os animais também sofriam: Pássaros caíam do céu, cães uivavam e os animais do zoológico municipal estavam acuados.  

Por volta de meio-dia era noite em Londres.

O cenário era de catástrofe, semelhante ao imaginado por H.G. Wells em seu clássico "A Guerra dos Mundos". A neve sobre o gramado do Hyde Park estava coberta de fuligem que a tornava suja, escura, horrível. Carros haviam sido abandonados nas ruas de qualquer maneira. As pessoas haviam recebido ordem de ficar em casa, ninguém deveria sair, exceto em caso de extrema necessidade. A Família Real foi evacuada e passou a acompanhar os acontecimentos de fora da cidade. As estradas que levavam para fora estavam congestionadas e muitos desistiram e retornaram para suas casas. O número de crianças e velhos que haviam se perdido era estarrecedor: pessoas que sequer conseguiam achar o caminho de volta para casa. Era uma crise sem precedentes e não havia previsão de melhoria.

O governo agiu rapidamente. Um grande contingente de soldados foi enviado para Londres a fim de  patrulhar as ruas e combater distúrbios. Os soldados portavam rifles com lanternas amarradas no cano, vestiam máscaras de gás e trajes pesados de lona e borracha. A ordem era clara: em caso de distúrbio os militares tinham permissão de atirar para matar. Carros de som circulavam com as lanternas ligadas avisando a todos para manter a calma. Para limpar o caminho e permitir a passagem de veículos de emergência, os militares operavam tratores que retiravam os automóveis.


Boatos se espalhavam rapidamente: para alguns era o fim do mundo. Rumores davam conta de que toda Inglaterra era vítima do maldito nevoeiro, toda a Europa, o mundo. Ele teria se originado das profundezas da terra, as emanações do próprio inferno, alardeavam os mais extremos. Rádio e televisão tentavam manter as pessoas informadas, mas o que se sabia era muito pouco. Ninguém sabia de onde havia vindo aquela fumaceira ou quando ela iria embora. Como consequência, houve uma quantidade alarmante de suicídios.

Na manhã do dia 7, a visibilidade era de apenas 30 centímetros. O dióxido de enxofre havia se misturado a outros poluentes para formar nuvens de ácido sulfúrico e hidrocloreto que queimava os olhos e pulmões. Pessoas chegavam aos hospitais com os lábios arroxeados, o nariz sangrando e em severa crise respiratória. O hidrocloreto quando inalado danificava as pleuras do pulmão que reagia produzindo líquido, causando um efeito semelhante ao afogamento. Além disso, muitas pessoas que não protegeram os olhos adequadamente descobriram que a longo prazo, a exposição ao nevoeiro as deixaria cegas.

A população não saia mais. Simplesmente não era seguro! Nas ruas desertas era possível ver os sinais medonhos da tragédia. Havia cadáveres largados, pessoas que tentavam chegar em casa ou aos hospitais e que não avançaram muito além de algumas quadras.

No dia 9 de dezembro, dia em que mais de 400 vítimas fatais haviam sido contabilizadas nos hospitais montados pela cidade, um vento súbito se iniciou e o fog começou, enfim, a se dissipar. Era um alívio em meio ao sofrimento pelo qual a população passou. Mesmo assim, as autoridades advertiram todos a ficar mais um dia em casa: suprimentos foram distribuídos de porta em porta junto com máscaras confeccionadas às pressas fora da cidade. Costureiras trabalhavam dia e noite na criação de máscaras anti-fog. Em algumas moradias, ninguém respondia às batidas. Nelas, a fumaça havia se insinuado e as pessoas haviam morrido durante o sono. Algumas delas com a pele recoberta por um filme de fuligem preta.

No dia 10, os habitantes de Londres deixavam seu confinamento e se aventuravam nas ruas, encontrando uma cidade escurecida pelas partículas de carvão.  

O Grande Smog de 1952 foi a maior tragédia ambiental da história da Inglaterra. Oficialmente, o número de mortos foi estimado em 4.000 pessoas. A causa mais comum foi asfixia e infecção pulmonar aguda. Nos anos seguintes ao evento, uma enorme quantidade de pessoas expostas ao nevoeiro reportaram doenças respiratórias contraídas em decorrência da exposição: broncopneumonia, bronquite purulenta ou bronquite crônica se tornaram endêmicas. Cerca de 12.000 indivíduos teriam morrido nos cinco anos seguintes em função daqueles cinco dias que Londres foi coberta pelo terrível nevoeiro. Um número igual a 1/3 dos mortos durante quatro anos de bombardeios na Segunda Guerra Mundial.  

Após a tragédia, as autoridades inglesas mudaram radicalmente a sua atitude a respeito da qualidade do ar no país. Regulamentos e duras multas passaram a ser aplicadas a indústrias que ainda despejavam fumaça no ar. Muitas delas foram relocadas para fora da zona metropolitana. Veículos que rodavam com óleo-diesel foram adaptados para combustíveis menos agressivos. Londres baniu os braseiros que queimavam carvão mineral das casas. Como efeito direto das medidas, a qualidade do ar melhorou progressivamente, embora apenas no final da década de 1960 os efeitos tenham sido suficientes para eliminar definitivamente o risco de uma nova tragédia.

É curioso, como os erros do passado retornam para nos assombrar.

Essa semana, observadores manifestaram uma séria preocupação a respeito da qualidade do ar na China. Várias províncias amanheceram cobertas por uma densa cortina de fumaça escura. Pequim registrou ao longo de três dias os piores índices de poluição da história da capital, registrando a taxa de 886 microgramas de poluentes por metro cúbico. Para se ter uma idéia, a qualidade do ar é considerada comprometida a partir de 150 microgramas.

Medidas já estão sendo tomadas para evitar que uma catástrofe venha a acontecer num futuro bem próximo.

Londres 1952
Pequim 2013
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