sábado, 11 de março de 2017

O Espelho do Rei - Um Livro Medieval de Lendas, Horrores e Maravilhas inacreditáveis


Ao pesquisar a história de acontecimentos estranhos, Charles Fort é um nome frequentemente lembrado. Sua contínua pesquisa a respeito de tudo que é incomum e inexplicável na primeira metade do século XX tornou-se um marco para uma comunidade crescente de seguidores que iriam posteriormente promover seu trabalho e seu nome. Hoje, incidentes de natureza peculiar muitas vezes são categorizados com o nome "Forteano", um termo reconhecido por estudiosos do assunto. 

A crônica do inexplicável de Fort inclui informações datando de muito antes da sua época, algumas vezes, documentando incidentes fantásticos como o aparecimento de veículos voadores, misteriosas "chuvas" de animais ou outros elementos incomuns caindo do céu, luzes no céu e nas profundezas do mar, e todo tipo de coisa esquisita que permanecem como um enigma indevassável. 

Entretanto, as pessoas podem se questionar, desde quando tais acontecimentos "Fortianos" tem ocorrido. A resposta mais razoável para essa pergunta pode ser: "Desde sempre"!


Ao tomar como exemplo alguns velhos arquivos e documentos ancestrais, é possível supor que acontecimentos extraordinários ocorriam no passado tanto quanto ocorrem nos dias atuais, deixando as pessoas sem palavras e incapazes de explicar de maneira razoável o que estavam vendo.

Um documento especialmente curioso data do ano de 1250. Ele oferece o que parece ser, um dos mais surpreendentes exemplos de "Fortiana" da Idade Média.

Conhecido como Konungs skuggsjá, que pode ser traduzido do Antigo Norueguês como "O Espelho do Rei" (Spekulun Regale em latim), ele é uma peça de literatura especulativa de primeira grandeza. 

O documento oferece fatos e descrições de maneira tão clara e detalhada a respeito de seus assuntos que pesquisadores por décadas acreditaram ser ele uma fraude. Escrito na forma de um diálogo entre um pai e filho, o "Espelho do Rei" trata de política, moralidade, a formação de estados, embora como mencionado anteriormente, exista espaço para vários temas fascinantes que vão muito além do convencional.

Embora atribuído a um norueguês, o autor desconhecido do "Espelho do Rei" discorre a respeito de outras nações, incluindo Islândia e Irlanda. Nele, vários "horrores e maravilhas" são apresentadas, coisas que o autor considera acontecimentos milagrosos. A descrição de estranhas criaturas e sua captura estão em um capítulo com o título "As Maravilhas da Natureza", que documentam o avistamento e a captura de animais fantásticos que guardam enorme similaridade com os relatos modernos do Pé Grande ou Sasquatch:

"Certa vez ocorreu nessa nação (no caso, o autor se refere a Irlanda) que uma criatura estranha foi capturada viva na floresta. Ninguém era capaz de dizer ao certo se ela era um homem ou algum tipo de animal até então desconhecido: Ela tinha a forma de um homem, em cada detalhe, as mãos, os pés e a face eram perfeitamente condizentes com um homem, mas seu corpo era coberto por pelos espessos como as bestas, e nas suas costas, havia uma longa crina de cabelos grossos como de um cavalo. A criatura produzia sons estranhos e parecia entender aquilo que seus captores diziam, como se fosse capaz de compreender o idioma, mas não era capaz de se expressar por conta própria. Ela andava ereta, caminhava como um homem e apanhava objetos que lhe eram entregues. Ninguém foi capaz de determinar a sua origem, e ela permaneceu em uma jaula até morrer depois de uma semana de cativeiro".

Em um trecho, o autor deixa claro que nem tudo no mundo ainda é compreendido, mas dá uma inequívoca demonstração de um espirito Fortiano: 

"Há coisas nesse mundo cuja explicação nos escapa, coisas que ainda esperamos encontrar novamente e que talvez então, possam oferecer uma explicação razoável".


Mais adiante, o autor se dedica a descrever vários avistamentos de coisas que flutuavam no ar. O primeiro trecho descreve algo que circulou a torre de uma Igreja também na Irlanda deixando as testemunhas estupefatas:

"Em Cork, havia uma Igreja dedicada a memória de um homem santo chamado Kiranus. Em um domingo enquanto a população do vilarejo estava reunida para a missa, algo estranho surgiu no céu. Não era uma nuvem, nem um pássaro e menos ainda a lua. As pessoas correram para ver e se maravilharam com a estranha coisa que flutuava. Era arredondada e feita de metal, lustrosa e brilhante, emanando uma luminosidade branca. De repente uma comporta se abriu em sua superfície e de dentro dela saiu um homem que também flutuava no ar, como se este fosse feito de água, e o estranho nadasse. As pessoas o chamaram e tentaram atirar pedras para derrubá-lo, mas ele estava muito alto para ouvir ou ser atingido. O Bispo que estava presente nessa ocasião, disse que aquele poderia ser um milagre divino, embora nem todos tivessem certeza do que estavam vendo. Assim que o homem completou meia dúzia de voltas em torno do objeto, retornou para o interior da comporta que se abriu uma vez mais. O objeto então voltou a se mover lentamente desaparecendo atrás das nuvens".

Enquanto obviamente fantástico em seus detalhes, é válido perceber que o testemunho guarda incríveis similaridades com as narrativas de fantásticos veículos aéreos, de tecnologia desconhecida que hoje em dia convencionamos chamar de Discos Voadores

Em outro trecho, o autor menciona um objeto similar, dessa vez sobrevoando os céus da Noruega:

"Tinha a forma de um escudo metálico arredondado. Luzes piscavam de seus lados como se fossem velas. Emitia um som contínuo, um rosnado baixo que chamava a atenção e obrigava as pessoas a sair de suas casas para ver sua passagem. Todos olhavam e apontavam surpresos. Movia-se devagar e por vezes parecia simplesmente parar. Então, luzes brilharam com mais força e de repente ele começou a se mover velozmente, deixando um rastro de fumaça branca que rasgou os céus".


Finalmente, um terceiro trecho é ainda mais evocativo a respeito da frequência com que tais objetos eram vistos nos céus da Noruega:

"As pessoas que viviam em Dermond sequer se importavam mais com a passagem daquelas esferas luminosas. Por vezes seis, sete delas surgiam ao mesmo tempo, voando em forma de cunha pelo céu, muito alto. A noite, quando surgiam, eram como estrelas cadentes que se moviam com velocidade, mas que ao contrário destas, evoluíam pelo céu e dançavam como vaga-lumes. Nessas ocasiões, era como se as estrelas estivessem se movendo no firmamento. Certa vez, algumas sobrevoaram o vale mais baixo lançando fachos de luz que iluminaram a escuridão como se o sol tivesse despontado no meio da madrugada".

Há muito debate entre estudiosos a respeito das narrativas descritas no "Espelho do Rei". Alguns suspeitam que o texto seja uma compilação de vários documentos, ou mais provável, de testemunhos e lendas do período, preservadas no formato de histórias orais. Há indícios de poemas e documentos até mais antigos que o "Espelho do Rei"  que tratam de temas similares, especialmente aqueles discutidos no capítulo "Maravilhas da Natureza". Os galeses documentaram uma série de encontros com animais estranhos em um documento medieval chamado "Topographia Hibernica" que pode ser uma das fontes do Espelho.

Laurence Larson do Departamento de História da Universidade de Illinois fez o seguinte comentário na introdução de uma monografia a respeito do Espelho do Rei:

"Por tudo que consta no tratado a respeito da Irlanda, pode-se afirmar com certeza que o autor tinha um grande conhecimento da geografia e topografia da região sobre a qual escreve. As histórias são suficientemente detalhadas para que se assuma que elas foram escritas (ou narradas)  por alguém que realmente conhecia a região por experiência própria. É perfeitamente possível que as descrições tenham sido oferecidas por viajantes que exploraram o interior da Irlanda, que navegaram pelos mares e usaram o sistema de rios. É provável que os noruegueses ainda tivessem colônias na Irlanda nesse período, ainda que a maioria da ilha estivesse sob controle dos ingleses o que explica a escolha do idioma".


É possível que o texto tenha sido coletado por exploradores ou membros de Expedições de noruegueses a Irlanda. Hakron II, um famoso explorador norueguês liderou uma expedição a Irlanda em 1239 na qual descreveu como encontrou ainda nos vilarejos algumas pessoas que falavam seu idioma.

O Espelho do Rei também descreve lendas e incidentes envolvendo o avistamento de estranhos animais marinhos: Sereias, Tritãos (homens peixe) e Krakens estão relacionados entre as "coisas que vivem nos mares e abaixo das ondas". Especificamente, a porção do documento que trata dos Kraken, que são discutidos em conjunto com outros animais de grande porte como baleias (tratados como "peixes grandes"), é interessante:

"Existe um animal, mencionado por marinheiros que viajam pelas águas a leste da Islândia que é tão grande que muitos homens o consideram uma lenda. Mas o Kraken de fato existe nessas águas geladas e profundas, ainda que seja muitíssimo raro. Ele é visto apenas por alguns poucos indivíduos que se afastam o suficiente da costa. É possível que exista apenas um ou dois deles hoje em dia. O Kraken vive em mar aberto e dado seu tamanho colossal, pode ser confundido com uma ilha ao invés de um animal. Eles precisam de muita comida para sobreviver, e talvez por isso sejam tão raros. Alimentam-se de cardumes e de baleias inteiras que são atraídas para seus tentáculos que as agarram e não permitem que escapem. Quando estão famintos, produzem um arroto altíssimo de baixo da água e liberam comida semi-digerida que atrai peixes de todos os tipos, grandes e pequenos, que surgem de lugares recônditos para se fartar com os restos. O monstro mantém a sua enorme bocarra aberta, com uma abertura tão vasta quanto um fjord e quando a fecha, devora tudo ao seu alcance que é empurrado goela abaixo. Por vezes, um kraken pode atacar uma embarcação. Ele lança seus tentáculos e agarra os barcos que se partem como gravetos lançando os tripulantes ao mar. O monstro então os engole inteiros. Ninguém que tenha sido jogado na água em que nada um Kraken, viveu para andar novamente em terra firme". 


Há trechos similares tratando de sereias e tribos inteiras de lendários homens peixe:

"As fêmeas dessa espécie marinha, muito mais antiga do que a dos homens, vive sob as ondas e respiram água. Elas tem a pele lisa e azulada e parecem mulheres, mas a parte inferior de seus corpos é escamosa. Não possuem pernas, e sim rabos dotados de barbatanas que as impulsionam na água. Nadam velozmente e são conhecidas por acompanhar embarcações tanto perto quanto em mar aberto. A noite, produzem um canto estranho, parecido com o lamento das baleias. Muitos homens que ouvem esse canto se sentem compelidos a saltar na água e nadar a luz das estrelas. Esses não voltam nunca mais, pois as sereias coletam escravos para servi-las".

Igualmente impressionante é a descrição feita das tribos de Homens-Peixe que habitam os despenhadeiros rochosos no litoral da Irlanda e a costa recortada da Islândia:

"São homens com escamas, olhos grandes de peixe e boca com dentes afiados. Nadam com grande velocidade e caçam com lanças e facas de pedra afiada. Eles não falam ou cantam como as sereias, as fêmeas da espécie e nem podem ser confundidos com homens comuns, pois suas feições são medonhas. No passado, dizem, eles atacavam vilarejos, apanhavam presas que eram arrastadas para de baixo d'água, mas com o tempo pararam de vir à terra, preferindo atacar as embarcações pesqueiras que se aventuram além da arrebentação. Em noites de lua eles são mais comuns, mas estão sempre nadando próximo dos barcos esperando a chance de puxar alguém para a água. Dizem que comem suas vítimas, mas também as escravizam".  


As mitologias da antiga Europa, consideradas da perspectiva forteana, sugerem uma longa e profunda relação entre a humanidade e certas criaturas lendárias. Nós somos pressionados pela razão a desconsiderar narrativas de nossos antepassados a respeito de humanos peludos, de objetos voadores tripulados cruzando os céus medievais, de luzes pulsantes, lulas gigantescas e tribos de humanoides marinhos. Talvez eles não sejam nada além do que narrativas bizarras cujas fontes são no mínimo questionáveis, relatos e superstições coletadas em uma mesma compilação de incidentes no distante ano de 1250.

Desde então, a percepção das coisas que nos cercam e do mundo em que vivemos mudou incrivelmente. 

Ainda assim, é surpreendente se deparar com descrições tão vívidas de seres tão curiosos que talvez jamais tenham existido, mas que ainda assim, se mostram um fascinante testemunho de crenças ancestrais que mesmo hoje ainda se encontram entre nós, na forma de criptídeos e ovnis.

quarta-feira, 8 de março de 2017

A Grande Viajante - A vida e as jornadas de Alexandra David-Neel


Todo ano, nessa data específica em que se celebra o Dia Internacional das Mulheres, o Mundo Tentacular prepara uma postagem especial com alguma mulher que marcou época. 

Na ficção lovecraftiana o que não falta são mulheres a frente de seu tempo. O mais interessante a respeito delas, contudo,  é que muitas vezes elas foram inspiradas por mulheres verdadeiras de carne e osso que tiveram existências inacreditáveis. Uma dessas mulheres incríveis é Alexandra David-Neel, nascida na França, mas com o coração no Oriente, ela é um exemplo de aventureira cuja vida incrível parece coisa de ficção. 

*          *          * 

Mistica, contestadora, ocultista e viajante, Louise Eugenie Alexandrine Marie David nasceu em Paris em 24 de outubro de 1868. A atmosfera de sua casa durante sua infância era, segundo a maioria das pessoas, bastante austera e rígida. Quando criança, os livros favoritos da pequena Louise eram as histórias de ficção científica escritas por Jules Verne. Como uma maneira de se rebelar contra sua severa criação, ela prometeu a si mesma que um dia teria uma vida tão vibrante quanto a daqueles personagens. 

Uma das primeiras indicações de seu desejo de liberdade e anseio por aventuras foi ela ter fugido de casa aos cinco anos, logo após a família ter se mudado para Bruxelas. Só depois de ser procurada por uma noite inteira, a menina foi encontrada e conduzida a contra gosta até uma gendarmeria. Aos quinze anos de idade, Alexandra, que havia exigido o direito de estudar, tomou conhecimento do mundo oculto e ficou fascinada pelo tema. Logo ela passou a se corresponder com Elisabeth Morgan, que era membro da Sociedade da Suprema Gnosis, uma ordem de estudos do sobrenatural.

Naquele verão, a família passaria os feriados de fim de ano em Ostend, mas Alexandra queria algo mais interessante e conseguiu escapar para a Holanda onde atravessou o canal para a Inglaterra afim de encontrar a Srta. Morgan e receber instrução sobre o oculto. Morgan ficou chocada ao descobrir que ela era uma adolescente e a mandou embora. Em 1885, quando tinha 17, Alexandra fugiu mais uma vez de casa. Dessa vez, decidiu viajar de Bruxelas até a Suíça de trem. Dali seguiu a pé pela Passagem de Saint-Gotthard Pass até atingir os Lagos alpinos na Itália.

Parecia claro que nada deteria Alexandra de viajar pelo mundo. Em 1888 seus pais enfim cederam e aceitaram permitir que ela estudasse em um Conservatório em Londres. Alexandra no entretanto tinha outras ideias. Finalmente ela foi aceita na Sociedade da Suprema Gnosis provando seu conhecimento teórico de ocultismo diante de uma comissão presidida pela mesma Srta. Morgan. Entre as pessoas presentes à sabatina estava a ninguém menos que a conceituada Madame Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, cujas ideias esotéricas tiveram enorme influência sobre Alexandra e sobre os ocultistas do período. 


Aos vinte anos, ela retornou a Paris e foi aceita na Universidade Sorbone, tornando-se uma ativista política. Dizem que mantinha uma pistola e munição em seu apartamento e que se envolveu com radicais anarquistas em planos de sabotagem. Mas logo se separou deles por não concordar com alguns conceitos. Em 1891, quando tinha completado 23 anos, disfarçou-se de homem e invadiu um culto estabelecido em Paris por Sri Ananda Sarawati que usava haxixe para obter visões.

Nesse mesmo ano uma herança por parte de sua avó permitiu que ela viajasse para o Ceilão e India. Fascinada pelo mistério, magia e pelas melodias da música tibetana, ela partiu em uma peregrinação religiosa até Adyar, uma cidade próxima de Madras, onde conheceu outra ocultista, a britânica Annie Besant com quem passou a estudar sânscrito. Na Cidade sagrada de Benares, ela teve o primeiro contato com meditação transcendental e ioga com o Swami Bhaskarananda. Segundo sua biografia lá aprendeu várias técnicas que lhe permitiam entre outras coisas realizar viagens astrais, contatar entidades superiores e até flutuar. Infelizmente ela se viu obrigada a retornar a Europa quando seu dinheiro terminou.

Em 1899, Alexandra escreveu um tratado sobre política e feminismo que os editores franceses ficaram receosos de publicar. Suas ideias eram tão avançadas para os padrões comportamentais que seus detratores afirmaram que ela sofria de doenças mentais. Entre 1894 e 1900, Alexandra viveu como aspirante a atriz e cantora. Eventualmente, aceitou um trabalho na recém inaugurada Casa de Opera em Tunis, no Norte da África. Nesse trabalho conheceu Phillip Neel, um engenheiro ferroviário tão inquieto quanto ela própria, por quem se apaixonou. Os dois casaram em 1904 e passaram a viver em La Goulette, um vilarejo próximo do Mar Mediterrâneo.  

Em 1911, Alexandra empreendeu sua segunda viagem a India, desembarcando em Pondicherry, uma colônia francesa estabelecida no sub-continente, lugar de grande agitação política com agentes separatistas agindo em todos níveis. Por volta de 1912, ela chegou a Calcutá, onde se juntou a uma Escola de Fakirs, mais uma vez disfarçada como homem. Fotos da época mostram Alexandra deitada em camas de pregos, subindo por cordas mágicas e flutuando em pleno ar. Ela também tomou parte em Rituais Tântricos e se tornou a das mais jovens iniciada a tomar parte no Ritual das Cinco Sustâncias Proibidas. Dizia ser capaz de viver apenas de pequenas quantidades de água de rosas, de curar doenças através de ativação dos chacras e de processar venenos em seu corpo. Ela progrediu rápido em seus estudos de sânscrito e foi agraciada com um Doutorado honorário em Filosofia pela Escola de Benares, a primeira mulher européia a receber tal honra.


Quando decidiu se estabelecer no pequeno Vilarejo de Sikkin, no Himalaia imediatamente se sentiu em casa, sendo aceita pela população local. Ela também conheceu o Príncipe Sidkeong de quem, dizem, tornou-se amante. Alexandra foi a primeira mulher ocidental a ser formalmente apresentada ao Dalai Lama, que pediu que ela fosse aceita no Monastério Budista de Lachen, um dos mais importantes da tradição tibetana. Durante os anos que se seguiram, Alexandra foi introduzida nos segredos do budismo tibetano, aprendendo os segredos do "tumo" a arte de gerar calor corporal e usar a voz para produzir ondas sonoras capazes de curar e matar. 

Um visitante britânico de passagem pelo lugar descreveu Alexandra como uma visão impressionante. Uma mulher alta e imponente, com os trajes cerimoniais de um monge, usando um rosário de fragmentos de osso ao redor do pescoço, um avental bordado com símbolos místicos e uma adaga ritualística na cintura, uma lâmina que ela afirmava ser mágica, capaz de cortar através de pedra, metal e espíritos.  

Dois anos mais tarde ela conheceu um jovem chamado Aphur Yogden, e estabeleceu com ele uma amizade que duraria por toda suas vidas, e que resultaria na adoção de Yongden como seu filho. Os dois se mudaram para uma caverna localizada a 4000 metros na cadeia montanhosa de Sikkin onde passaram por uma provação que os obrigou a viver como eremitas. Seu objetivo no entanto era viajar até a Cidade Sagrada de Llasa. Infelizmente o Tibet raramente abria as suas fronteiras para europeus, quanto mais mulheres européias. A despeito disso, Alexandra e Yongden tentaram duas vezes, o que resultou em sua expulsão de Sikkin em 1916.


A Grande Guerra tornou impossível que ela retornasse a Europa, então ela decidiu viajar para o Japão. Em uma carta escrita ao marido - que ela não via há mais de uma década, ela confessou seus sentimentos a respeito do oriente:

"Eu tenho saudades de uma terra que não é minha. Eu sou assombrada pelas lembranças das estepes, da solidão das montanhas, da neve que jamais derrete e dos céus de um azul escuro impenetrável. Até mesmo as dificuldades: a fome, a sede, o vento que golpeia a face e atravessa os casacos, tudo isso me faz falta. Eu preciso retornar o quanto antes ao Tibete, pois lá é minha casa".  

Com o fim da Guerra, Alexandra conseguiu voltar a India e em Kum Bum estudou as técnicas de criação de um Tulpa, uma entidade criada pelo poder psíquico, produzida através de intensa concentração e rituais místicos repetidos ao longo de meses. Testemunhas afirmam que Alexandra criou a figura etérea de um monge, que se tornou seu companheiro de viagens e guardião. Para alguns sensitivos, o tulpa podia ser visto e ouvido como uma pessoa normal. Alexandra dizia que a criatura que ela construiu através do ritual era um amigo fiel que a defendia de maneira implacável. Certa vez, no entanto, o fantasma foi responsável por matar um bandido de estrada, o que fez Alexandra se culpar pelo ocorrido. Ela usou de toda sua concentração para "dissolver" o tulpa, mas ele continuou a acompanhando, mesmo quando ela tentou exorcizá-lo. Até o fim de sua vida, o tulpa a assombrou como uma presença constante em sua vida.

Em fevereiro de 1921, Alexandra e Yongden se disfarçaram de mendigos e tentaram entrar novamente em Lhasa. A viagem foi uma expedição épica de três anos, com os detalhes relatados em seu livro "Jornada a Lhasa" editado em inglês em 1927. A rota escolhida era uma peregrinação de 3900 milhas por um terreno montanhoso extremamente difícil, evitado até mesmo pelos viajantes mais experientes pelo temor de avalanches e desmoronamentos.


Em uma etapa da viagem, em meados de 1923, os dois seguiram para o Norte e chegaram ao Deserto inóspito do Gobi. De lá, retornaram através da China e seguiram para o oeste, cruzando a fronteira do Tibet com uma caravana de camelos. o longo do percurso cruzaram o caminho de bandoleiros, revolucionários, enormes tigres siberianos e clima selvagem. Ela relatou até mesmo o avistamento de um dos legendários homens das neves.

Em outro fenômeno estranho, a caravana se deparou com um "Lung-Gom", uma espécie de espírito (lama) que se movia em velocidade inacreditável. Alexandra foi alertada para não olhar na direção da silhueta tremeluzente que os seguia sob o risco dele arrancar sua alma. Ela contrariou os conselhos dos guias e conseguiu ver a forma verdadeira do lama que corria no vazio. Alexandra usou sua adaga mágica para espantar o espírito que se lançou num despenhadeiro quando ela entoou cânticos em uma língua ancestral.

Em fevereiro de 1924, Alexandra e Yongden enfim chegaram no território de Lhasa sob disfarce e puderam explorar o lugar por três meses. Enquanto na cidade, ela ganhou acesso a templos e bibliotecas e pode estudar pergaminhos e livros raros. Alexandra visitava um riacho toda manhã, onde gostava de se banhar, certo dia ela foi vista por peregrinos que a denunciaram ao governador. Uma vez que a dupla estava em Lhasa clandestinamente, isso poderia ser um sério problema, mas por sorte, o um dos conselheiros do Governador era súdito do Principe de Sikki que a avisou a tempo dela e Yongden escaparem.

Cumprida sua grande meta, Alexandra decidiu que era hora de retornar a Europa, ela chegou a Paris em 1925, e foi recebida como uma grande heroína. De comum acordo, ela e o marido decidiram pelo divórcio amigável e ela se estabeleceu em Digne, na Provence onde começou a escrever um livro de memórias. Também estabeleceu lá um "Samten-Dzong", um templo chamado "Fortaleza da Meditação". Ela publicou vários livros a respeito de meditação, ioga, sobre suas viagens, misticismo e religiões orientais. Foi convidada a presidir palestras em várias instituições acadêmicas da Europa com enorme sucesso.


Em 1937, com 70 anos, Alexandra fez uma nova viagem a China,a companhada de Yongden, usando a Ferrovia Transiberiana. Infelizmente eles chegaram no início da violenta Guerra contra o Japão, quando fome e doença eram triviais. Ela escreveu cartas e artigos para a imprensa internacional, chamando a atenção da opinião pública para a brutal campanha de expansão militar do Império do Japão. Ela chegou a ser acusada de espionagem e teve que se refugiar em um monastério ao ser procurada pelos japoneses. Eventualmente, ela conseguiu escapar da China e chegou a India onde permaneceu até o final da Guerra.

Ela voltou a França e se estabeleceu novamente na propriedade em Digne.

Em 1955 Yongden, quase 30 anos mais jovem que Alexandra morreu enquanto estava em Samten-Dzong. Alexandra trabalhou para ter seu passaporte renovado e por credenciais para retornar a India para levar as cinzas do filho adotivo. Mas beirando os 100 anos, ela não teve seu desejo atendido.

Alexandra recebeu a medalha de ouro da Sociedade Geográfica de Paris, uma grande honra e em 1969 foi agraciada com com o título de Dama da Legião de Honra. O governo do Tibet a concedeu o posto de Lama. 

Ela morreu em 8 de setembro de 1969, com 101 anos de idade.


Em 1973, suas cinzas foram levadas para o oriente e espalhadas junto com as de Yongden nas águas do Rio Ganges, diante da Cidade Sagrada de Benares. Em 1982, o Dalai Lama prestou tributo a Alexandra David-Neel visitando a casa de Digne e consagrando o local como um Lugar de Peregrinação. Hoje, lá existe um Museu devotado a sua vida e aos ensinamentos do Budismo. Os visitantes podem ver objetos pertencentes a Alexandra David-Neel e uma série de fotografias de suas viagens.

A Grande Viajante escreveu mais de 30 livros, publicados em 15 idiomas a respeito de Religião oriental, filosofia e suas viagens mais exóticas que tiveram enorme influência em numerosos autores que se inspiraram em suas narrativas. Jack Kerouac (1922-1969) e Allen Ginsberg (1926-1997) citaram as peregrinações de Alexandra como base para seus próprios trabalhos.

domingo, 5 de março de 2017

Demônio Vermelho - A macabra história do Garoto Diabólico de Boston


















Pode parecer injusto classificar o comportamento de crianças como educadas e malcriadas, sem considerar as nuances cinzentas entre um e outro aspecto. Em geral, todas as crianças variam de um extremo para o outro e são capazes de nos surpreender pelas suas atitudes para o bem e para o mal. Entretanto, no caso específico de um menino nascido em Boston, no século XIX, malcriado não chega nem perto de descrever seus horríveis atos.

Essa história é tão medonha que talvez os leitores mais sensíveis devessem parar de ler imediatamente. Não estou exagerando, certos detalhes são horrendos e o teor da postagem em certos momentos beiram o perturbador. 

Jesse Harding Pomeroy nasceu em 29 de novembro de 1859 e antes de completar 15 anos de idade, já havia se transformado no mais jovem criminoso sentenciado por assassinato em primeiro grau na história de Massachusetts.

O horror foi uma companhia constante na vida de Jesse que não teve uma infância feliz, longe disso. Quando criança, ele era ridicularizado por causa de uma deformidade facial - a córnea de seu olho direito era coberta por uma grossa película branca. Ele passava a maior parte de seu tempo sozinho, lendo revistas baratas de um níquel, a respeito de crimes, morte e violência que alimentavam sua imaginação com ideias perversas. O menino era estranho, seu silêncio e olhares disfarçados revelavam uma criança tímida, quieta e inteligente. Os garotos da rua eram companhia apenas ocasional, em parte, porque tinham medo de Jesse e porque seus pais os proibiam de chegar perto daquele garoto grandalhão e desajeitado.

O pai de Jesse, era um alcoólatra chamado Thomas Pomeroy que abusava fisicamente da mãe e dos filhos. A disciplina na casa era severa e as punições beiravam o sadismo com maus tratos explícitos que variavam entre surras com cintos, chibatas e fios de cobre, passando por períodos sem comida e até afogamentos em banheiras com água gelada. Certa vez, Thomas obrigou um dos filhos a colocar na boca um carvão em brasas, noutra enfiou u prego através da palma da mão. Thomas era um homem especialmente ruim e sua maldade parecia contaminar justamente o filho mais novo. A mãe de Jesse, Ruth Ann simpatizava com o menino e o tratava como seu "pequeno homem", um apelido que ele detestava. Apesar de toda proteção, ela fazia pouco para proteger o filho dos desmandos de seu marido tirânico. Quando ele voltava para casa bêbado, qualquer coisa podia ser motivo para um espancamento e agressão.

Mapa de Boston uma das maiores cidades americanas no século XIX
Esse ambiente tenebroso sem dúvida contribuiu negativamente e ajudou a criar a personalidade de um rapaz nervoso e sombrio. Jesse não podia ter animais de estimação: havia matado dois gatinhos que ganhara da mãe, usando as próprias mãos. Se desculpou afirmando que os abraçou com tanta força que eles morreram. Na verdade, ele gostava de matar animais, costumava atraí-los com tigelas de leite e quando os apanhava apertava seus pescoços até que parassem de brigar. Guardava as carcaças em uma caixa num depósito de lixo, ficava horas olhando para elas, abrindo os corpos e assistindo os vermes os devorarem. 

Aos 12 anos, Jesse tinha um comportamento que se assemelhava ao de seu pai. O fato de ser grande e corpulento para sua idade o ajudou a transformá-lo num bully que atacava gratuitamente todos os garotos menores e mais fracos. Uma de suas "brincadeiras" favoritas era se aproximar pelas costas de outra criança e imobilizar sua cabeça em um abraço até que ela desmaiasse. Morria de rir quando a face de suas vítimas ficava roxa. 

No inverno de 1871 na cidade de Chelsea, Massachusetts, veio à tona a notícia de que um menino chamado Payne havia sido brutalmente agredido na rua. Sem que a comunidade de Boston ou o Boston Globe, o principal jornal, que chamou o agressor de "Diabo Sádico" soubessem, o culpado era outra criança, Jesse Pomeroy.

Desde o início, os ataques de Jesse foram marcados pela extrema violência - não apenas espelhavam as surras que ele recebia do pai, mas se tornavam ainda mais cruéis. Jesse explorava a natureza inocente de suas jovens vítimas, prometendo doces e presentes para atraí-los para um lugar afastado e deserto. Uma vez sozinhos, ele forçava suas vítimas a se despir e começava a torturá-los usando qualquer coisa que estivesse ao seu alcance e que pudesse ser usado como arma. Canos, pedaços de pau, cordas, fios elétricos, garrafas... Pomeroy era especialmente maldoso com as crianças que choravam, gritando que elas eram "covardes"  e que "deviam aguentar uma surra como homens", palavras que ele sem dúvida ouvira do pai. Quando as crianças desmaiavam ele parava de bater e ficava ao lado delas até que acordassem. Avisava então que se eles o acusassem, mataria seus pais com uma faca que mostrava para amedrontá-los.   

South Boston
A medida que o número de vítimas crescia, os métodos de Jesse se tornavam cada vez mais brutais. Procurava crianças nas ruas, qualquer uma servia aos seu propósito. Ele agora usava sua faca e alfinetes de chapéu para cortar e perfurar a pele de suas vítimas. Sua crueldade havia alcançado um novo patamar e combinada com o despertar sexual da adolescência, evoluiu para incluir abuso sexual à tortura. As crianças se sentiam aterrorizadas pelas gargalhadas de Jesse que assumia uma nova e diabólica personalidade, a do "Demônio Vermelho", uma figura que ele encarnava para produzir o máximo de choque. Ele confessou que quando pintava o rosto com tinta vermelha ou com o sangue de suas vítimas, algo se apossava dele, algo maligno que parecia forçá-lo a cometer aquela barbárie.

A mãe de Jesse tomou conhecimento a respeito dos acontecimentos em Boston e passou a desconfiar de seu filho. Em uma tentativa de proteger o menino de suspeitas, a família decidiu mudar de endereço; de Chelsea para South Boston, uma das regiões mais violentas da cidade. Subsequentemente, os ataques em Chelsea cessaram, enquanto South Boston experimentava uma onda de horríveis agressões a crianças. O caminho escuro, pavimentado de sangue que Jesse decidiu trilhar o conduzia a uma existência cada vez mais dantesca.

Ele continuava procurando crianças da mesma maneira que fazia em sua antiga vizinhança, prometendo presentes se os pequenos o acompanhassem. Jesse tinha um novo lugar para agir, um velho depósito de trilhos de trem que fora abandonado perto da praia. Jesse contou que ia até lá afim de preparar o ambiente para sua próxima vítima. Sozinho fantasiava como seria a próxima sessão de tortura. Instalou um espelho que achou na rua em uma parede para que pudesse olhar para si mesmo, com a face coberta de sangue ou tinta. O pensamento o excitava e ele se masturbava encarando a própria imagem na superfície rachada. Jesse relatou que a imagem no espelho por vezes era diferente: ele não via um garoto de 13 anos, mas um monstro de pele avermelhada, dentes afiados e chifres no topo da cabeça. Ele havia encarnado de uma vez por todas a imagem do "Demônio Vermelho". Pintava desenhos medonhos nas paredes do depósito, desenhava cenas que retratavam as torturas e escrevia o nome de seu alter-ego com sangue. Forçava as crianças a molhar suas mãos no próprio sangue fresco e aplicar na parede, como uma espécie de assinatura terrível na qual "tomava posse" de sua vítima, de corpo e alma.

"Conte para alguém que fui eu e você me verá matar seus pais e beber o sangue deles", repetia gargalhando em tom de ameaça.

Em agosto de 1872, um jovem menino chamado Robert Gould foi encontrado abandonado na área portuária de Boston. O menino havia sido amarrado a um poste telefônico e sofrera uma terrível surra, além de violência sexual. Ao menos, ainda estava vivo. A agressão fora tão brutal que não conseguia falar nada coerente por vários dias. Repetia apenas que havia sido vítima de um Demônio Vermelho.


Jesse Pomeroy segundo um jornal da época
Quando a notícia se espalhou, pais e crianças já estavam apavoradas, temendo o terrível agressor que podia ser qualquer um. Alguns imaginavam que o culpado era um nativo americano, pois só a selvageria de um autêntico "pele-vermelha" poderia se encaixar naquele padrão medonho. Outros achavam que a culpa recaía sobre um imigrante polonês, notório por perseguir crianças e assustá-las na vizinhança. Mas alguns, os mais supersticiosos, acreditavam que aquela barbárie só poderia ter sido perpetrada por uma entidade infernal. 

A despeito do trauma sofrido, Robert começou a lembrar de alguns detalhes a respeito de seu agressor. Lembrou por exemplo, que ele gargalhava, que tinha o rosto vermelho e que um de seus olhos tinha uma cor branca leitosa. A descrição foi publicada nos jornais e algumas pessoas fizeram a associação com o garoto Pomeroy. Dois policiais foram até a casa da família e perguntaram a Ruth Ann se ela desconfiava de alguma coisa, a mulher só conseguiu chorar compulsivamente. Quando Jesse chegou em casa e os homens o confrontaram com a acusação, ele apenas sorriu e acenou com a cabeça: "Sim, eu sou o Demônio Vermelho".

Uma corte juvenil julgou Jesse culpado dos ataques e o enviou para o Reformatório Westborough, onde ele deveria ficar preso até completar 18 anos. 

A única pessoa que visitava Jesse no reformatório era sua mãe, que nos meses seguintes fez tudo ao seu alcance para que a sentença do filho fosse atenuada. Ruth Ann era extremamente persuasiva e aproveitou as eleições locais para convencer políticos de que a soltura de seu filho representava uma demonstração inequívoca de piedade cristã. Graças ao apoio de religiosos, Ruth começou a discursar a respeito da mudança de seu filho, uma ovelha desgarrada que havia mudado nos meses que se seguiram, arrependido de seus erros era outra criança.

Por fim, depois de um ano e meio de campanha, os esforços de Ruth Ann tiveram sucesso.

Ruth Ann Pomero, mãe do monstro
Em fevereiro de 1874, o estado concordou em libertar Jesse sob a supervisão de sua mãe. O garoto estava livre e se dizia mudado. O pai de Jesse havia abandonado a família depois de ter sido apontado como uma das causas do comportamento do filho. Por pouco não foi linchado por uma turba furiosa. Ruth Ann sustentava a família cuidando de uma loja de vestidos, enquanto os filhos trabalhavam para ajudar. Todos vigiavam Jesse que parecia realmente ter abandonado seus dias de maldade, ou assim eles pensavam.

Um mês após a soltura, as ações de Jesse se tornaram letais. Em 18 de março de 1874, Katie Curran de nove anos desapareceu. O último lugar em que ela havia sido vista ficava próximo da loja de vestidos em que Jesse trabalhava como atendente. A polícia procurou o rapaz e fez perguntas, mas não descobriu nada. Ruth Ann disse que Jesse estava com ela o dia todo e que era inocente. 

Um mês mais tarde, dois irmãos andando pela praia fizeram uma descoberta sinistra em um trecho de areia em Dorchester Bay. O corpo de um menino de 4 anos chamado Horace Millen estava semi-enterrado na areia. A garganta havia sido cortada, e em seu corpo contava-se 18 apunhaladas no abdomen, virilha e até na face. Seus olhos, nariz e orelhas haviam sido arrancados, bem como seus genitais.

A polícia visitou novamente a casa dos Pomeroy e perguntou onde estava o jovem Jesse. A mãe disse que ele estava fazendo entregas, mas um vizinho lembrou de ter ouvido o rapaz saindo de casa de madrugada carregando uma maleta de viagem. Estava claro que o jovem estava em fuga após ter feito uma vítima fatal. Em seu quarto os policiais encontraram um sapato com areia da praia e uma mancha de sangue que o ligava ao crime.

Jesse Pomeroy, o Garoto Demoníaco
Jesse foi preso na estação ferroviária de Boston, ao ser reconhecido levantou as mãos, sorriu e disse "podem me levar, estou aqui". Com a segunda prisão decretada, a loja de Ruth Ann Pomeroy foi destruída por uma multidão que apedrejou o lugar e ateou fogo aos seus vestidos. Dias depois, os bombeiros que inspecionavam os restos incendiados encontraram no sótão da casa um baú e no interior deste o corpo em decomposição de Katie Curran.

Jesse admitiu que havia matado a menina depois de atraí-la prometendo um caderno de desenho se ela subisse com ele até um quarto de costura. Atacada de surpresa, Katie teve a garganta cortada e morreu imediatamente. O corpo foi então mutilado de uma forma muito parecida a de Horace Millen. Jesse colocou o cadáver em um baú e o escondeu no sótão. Quando perguntado se teve a ajuda de alguém sorriu daquela forma maligna e acenou com a cabeça: "O Demônio Vermelho me ajudou!"

Jesse foi visitado por médicos que desejavam entrevistar o garoto diabólico de Boston e saber o que o motivava a matar. A psiquiatria ainda engatinhava, e médicos neurologistas discutiam o que moldava a personalidade de um assassino, o ambiente em que ele vivia (Nurture) ou a própria natureza (Nature), um tema que ainda hoje é aberto ao debate. 

"Eu não conseguia me conter," explicou o rapaz para um dos médicos, "era mais forte do que eu. Eu via um deles e sabia que deveria matá-lo. Precisava matá-lo! Se não o fizesse, não conseguia dormir, não conseguia comer, não conseguia pensar em outra coisa. Depois eu me sentia bem... só depois de matar eu me sentia verdadeiramente feliz". 

UM pequeno santuário dedicado ao jovem Millen
Jesse dizia que a figura maligna que tomava seu corpo o transformava em um assassino e o protegia. Ele contou que o Demônio Vermelho lhe concedia poderes, entre os quais o de andar invisível sem que ninguém  percebesse o que o enchia de confiança. Pouco antes de assassinar Horace Millen, segundo uma entrevista, dois homens pararam exatamente ao lado de onde estava o assassino e sua vítima. Os dois ficaram ali por quase uma hora e não perceberam a presença nem de Jesse e nem Horace que chorava e implorava ajuda. "Era como se eles não pudessem nos ver ou ouvir!" se gabou o rapaz.

Após matar Kate Curran, Jesse contou algo ainda mais perturbador. Pouco antes de dar a facada mortal, a menina foi capaz de vê-lo como o Demônio Vermelho, disso ele tinha certeza: "Os olhos da menina se arregalaram, ela olhou pra mim, mas viu além de mim! Viu como eu era de verdade!"

Segundo Jesse, foi por esse motivo que ele teve o cuidado de arrancar os olhos da menina, pois temia que a última visão dela poderia ficar registrada na retina. Quando perguntado a respeito do que havia feito com os olhos ele foi direto: "O que você acha? Eu os engoli!" 

Meses depois de ter confessado os assassinatos e de ter revelado mais uma dezena de surras, Jesse começou a mudar sua história. Disse que "contava o que os médicos queriam ouvir" e que "não poderia ter feito todas aquelas coisas horríveis". Em uma delirante autobiografia, escrita enquanto estava encarcerado, ele declarava sua inocência. Dizia que imaginava aquelas coisas e afirmava que um assassino havia colocado o corpo da menina Curran no sótão da loja, para que ele fosse responsabilizado.

Em dezembro de 1874, o jovem Jesse Pomeroy foi julgado pelo crime de assassinato em primeiro grau. Ele tinha 14 anos de idade. O juiz inicialmente o sentenciou a uma pena de morte por enforcamento, mas o Governador de Massachusetts recusou a pena aconselhado por médicos que emitiram um laudo de que Jesse sofria de uma grave doença mental. Ele foi trancafiado em uma Instituição para Doentes Mentais em Boston até completar 17 anos, e depois transferido para um Manicômio Judiciário em Charleston. 

Pomeroy em dois momentos, aos 70 e aos 35
Pomeroy passou a maior parte de sua vida atrás das grades, perigoso demais para ser colocado em libertdade teria tentado escapar repetidas vezes, mas nunca conseguiu deixar os limites do manicômio. Apenas em 1914, após anos de aparente tranquilidade ele teve aceso ao pátio e contato com os outros internos, em 1917 uma junta médica defendeu que ele estaria reabilitado e poderia voltar a sociedade, mas nenhum juiz permitiu que ele deixasse o manicômio.

Jesse Pomeroy morreu no Hospital Bridgewater para Criminosos Insanos em 1932, aos 71 anos.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Tsathoggua - O Hibernante Faminto (conclusão)


Acesse o link para ler a primeira parte do artigo: Tsathoggua primeira parte

Alto Sacerdote do Culto de Tsathoggua é geralmente um feiticeiro habilidoso e zeloso de seu status. Ele aprende rapidamente a comungar com as Crias Amorfas e utilizam seus serviços e proteção. A proximidade com o Deus garante ao Alto Sacerdote um conhecimento mais amplo dos Mythos que raramente é dividido com seus subalternos. A estrutura do culto se assemelha a uma pirâmide, com o líder ocupando o topo. Alguns poucos discípulos, escolhidos à dedo e de inteira confiança, servem a ele, que em troca, oferece alguma instrução. A função dos aprendizes é coordenar os demais cultistas e mantê-los na linha. O Alto Sacerdote e seus discípulos se importam bem pouco com esses cultistas subalternos, eles não passam de material para abastecer com energia vital os rituais ou sacrifícios nas ocasiões em que o Deus desperta e sua fome precisa ser aplacada.

Os maiores e mais importantes ritos devotados a Tsathoggua são realizados na véspera do Halloween. É nesse período que o Deus desperta brevemente de sua hibernação e é invocado para abençoar o Culto com sua presença nefasta. Nessas ocasiões ele aparece esperando um tributo e em troca oferece ensinamento, magias ou artefatos coletados pelo Alto Sacerdote. Os rituais são sempre realizados nas noites de lua nova entre a meia noite e as três da manhã. Em geral, tais rituais se iniciam na superfície e passam para um ambiente subterrâneo com um acesso a cavernas ou grutas profundas. Tsathoggua costuma se manifestar nesses lugares subterrâneos onde surge através de portais que abre unindo as Cavernas de N'Kai ao local de invocação. Imediatamente ao se manifestar ele espera receber seu sacrifício. Se satisfeito após se alimentar, ele passa para a segunda parte do ritual, no qual agracia os cultistas com presentes, retornando à escuridão onde desaparece logo a seguir.

Muito se fala da ira de Tsathoggua quando o tributo de sangue não é suficiente para saciar sua fome voraz. O Deus-Sapo se alimenta de carne, e devora todos aqueles que lhe forem oferecidos, contudo sua fome varia, assim como seu humor. Se por acaso ele ainda estiver faminto após devorar os sacrifícios, o Deus simplesmente começará a se banquetear dos cultistas. Não se sabe quando a fome será aplacada, mas para evitar problemas, os cultistas tendem a capturar um grande número de vítimas a serem oferecidas nos festivais para que não haja riscos. Sabe-se de alguns cultos que foram virtualmente exterminados por Tsathoggua em sua glutonaria.


Ironicamente, dentre os seres dos Mythos de Cthulhu, Tsathoggua talvez seja o menos inerentemente maligno. Ainda assim, ele não poderia jamais ser considerado benigno. Sua característica mais marcante é sua indiferença diante da condição humana. É bem provável que o Deus-Sapo simplesmente prefira ignorar os seres humanos e seus pequenos dramas uma vez que para ele, tais seres mortais em sua irritante transitoriedade nada representem. A única instância em que o Deus devota alguma ínfima parcela de atenção para com humanos, é quando ele está faminto.

A gula de Tsathoggua aliás é bem conhecida. O Livro de Eibon - outro texto que trata detalhadamente sobre o Deus-Sapo, menciona que ele está SEMPRE faminto e que sua plena satisfação é impossível. Ele pode entretanto, ignorar momentaneamente a sua fome para tratar de outros assuntos prementes, como por exemplo barganhar com seus cultistas. Não se sabe ao certo, entretanto, se comer é uma necessidade ou um prazer pelo qual ele tem grande apreço. Na maioria das representações em que é retratado, Tsathoggua surge se alimentando ou prestes a se alimentar de algum sacrifício que lhe é ofertado. Também há imagens dele refastelado numa cama de ossos triturados ou com vítimas desesperadas tentando escapar de sua bocarra. Em todas cenas, Tsathoggua parece sempre disposto a devorar mais vítimas, dando a impressão de que nada pode aplacar sua fome.

Outra característica marcante nas imagens de Tsathoggua diz respeito a sua indolência. O Deus é tratado com epítetos como o sonâmbulo, o hibernante, o adormecido e até de preguiçoso ele é chamado. Tais adjetivos dizem respeito ao fato de que Tsathoggua ser um Deus de pouca atividade, que se mantém dormindo ou meditando a maior parte do tempo, acordando por poucos e preciosos momentos.


Fisicamente Tsathoggua é uma entidade impressionante pelo seu porte, tendo pelo menos seis metros de altura. Ele é contudo, um ser de corpanzil atarracado e mau distribuído, com uma barriga saliente em forma de bojo na qual se formam inúmeras dobras de pele flácida. O abdomen é tão vasto que dá a impressão de poder comportar dúzias de pessoas ao mesmo tempo, o que é verdade. A aparência geral do Deus lembra uma mistura de uma preguiça gigante e de um sapo boi, inchado além da conta. O Deus tem um aspecto morbidamente obeso, mas ainda assim rotundo, sendo que a flacidez se resume ao imenso ventre.

As pernas são curtas e compactas terminando em enormes pés adaptados para sustentar seu imenso peso. Unhas escuras e recurvas se projetam dos quatro dedos em cada pé. Os braços são bastante longos e também terminam em quatro dedos dotados das mesmas unhas escuras. Quando se move, ele o faz com um balançar que lembra o movimento de um imenso urso se equilibrando nas patas traseiras. Ele jamais se move nas quatro patas, sendo um humanoide. Tsathogua é coberto de um pelo grosso, com fios semelhantes aos de um gorila que descem pelas suas costas e se acumulam no peito, pernas e na área dos genitais. Esse cabelo corporal é áspero e tende a reter emplastros de sujeira e restos de comida que ficam presos produzindo um fedor de putrefação nauseante. A coloração varia: nas costas ele é majoritariamente negro com uma tonalidade verde escura pendendo para o cinza no peito.

Tsathoggua possui uma longa cauda que se arrasta pelo chão e permite a ele um pouco mais de equilíbrio ao se mover. Essa cauda curiosamente não possui pelos, sendo lisa e musculosa quase como o apêndice de um anfíbio ainda em formação. Além de auxiliar no equilíbrio, a cauda não tem nenhuma função prática. Ela se enrola na sua frente quando ele está sentado. Tsathoggua aliás é encontrado quase sempre sentado, deixando o peso do corpo se acomodar sobre as pernas que ficam acocoradas, os braços pousados sobre a circunferência da barriga como uma caricatura de um macabro buda.


A respiração do Deus é possante, produzindo um leve som esfolegante a medida que a pança sobe e desce ritmadamente. Fora isso, ele emite sons parecidos com pigarros e grasnados que reverberam ruidosamente. Tsathoggua não fala verbalmente, ao invés disso comunica-se através de telepatia. Ele conhece todas as línguas humanas e se dirige aos seus interlocutores com um timbre gutural de barítono que soa imensamente desagradável. Ao se comunicar permanece totalmente imóvel sem olhar na direção da pessoa e na maioria das vezes, sem abrir os olhos.

A face de Tsathoggua é horrivelmente alienígena, mas ainda assim, encontra similaridade em animais terrestres. Alguns comparam sua cabeça a de um imenso morcego vampiro, com orelhas longas e pontudas se projetando nas laterais. Os olhos são comparativamente pequenos e arredondados com órbitas negras, embora permaneçam no máximo semi-cerrados. Abaixo dele pendem bolsas de pele cobertas de remela. O focinho talvez seja o que mais remeta a um morcego; empinado e com fossas nasais profundas das quais brotam filetes de muco escorrendo abundantemente. 

A boca é larga como  a de um sapo, estendendo-se longitudinalmente de um lado ao outro da face. Dela escorre uma baba caudalosa pelos cantos, pingando constantemente sobre a barriga. A bocarra é dotada de pequenos dentes, todos do mesmo tamanho e formato em "v" dispostos em fileiras lado a lado. Os dentes não são necessariamente afiados, mas a força da mandíbula se assemelha a uma prensa hidráulica podendo cortar um homem adulto ao meio com uma única mordida. Os dentes cumprem seu papel de processar os alimentos, triturando os ossos e cartilagens que são empurrados goela abaixo pela saliva. Tsathoggua possui uma língua comprida que se assemelha a de um sapo. Essa língua é vermelha e musculosa, coberta por uma saliva grossa e pegajosa que serve para colar as presas e puxa-las para a bocarra. Uma vítima colhida dessa maneira é engolida inteira de uma vez só. O destino dessa vítima é irreversível uma vez que a bile ácida e os sucos digestivos do estômago do Deus são especialmente potentes. Uma pessoa engolida, no entanto, pode ter a sorte de morrer rapidamente, esmagada pelos movimentos estomacais.


Acredita-se que Tsathoggua seja capaz de alterar sua forma de acordo com o ambiente em que se encontra. Em Saturno ele parecia bastante diferente do que na Terra - ou assim dizem alguns textos. Há indícios suficientes sugerindo que ele possa voluntariamente mudar sua forma e tamanho conforme suas necessidades. Se isso for verdade, é provável que o Deus utilize como "matéria-prima" para a forma escolhida o perfil de animais nativos, o que explica porque um ser alienígena teria traços de seres da fauna terrestre.

Provavelmente imortal pela passagem do tempo, Tsathoggua é uma das entidades principais entre os Grandes Antigos, um ser de grande poder e vasto conhecimento que tende a ser em alguns momentos subestimado como um Deus menor. Enganam-se entretanto aqueles que confundem a aparente leniência de Tsathoggua com complacência, o Deus sempre foi, e continuará sendo uma das forças cósmicas mais importantes a habitar nosso Sistema.  

quarta-feira, 1 de março de 2017

Tsathoggua - O Deus-Sapo das Profundezas de N'Kai


Entre os Grandes Antigos, é provável que apenas o Cthulhu e talvez Hastur, possuam cultos maiores e mais difundidos do que Tsathoggua. O medonho mestre dos recessos subterrâneos é conhecido por vários nomes, obtidos ao longo das eras, por diferentes povos que lhe renderam adoração e obediência cega. Ele já foi chamado de Sadogui nas florestas amazônicas, de Saint Crapaud na Gália e na França Medieval, de Zhothaqquah na China e Sadogua pelas tribos do Norte da África. Mas é através do nome Tsathoggua que ele é mais conhecido.

O genealogista kmer Pnom, possivelmente uma das maiores autoridades a respeito de Tsathoggua mantém que ele é a prole de duas entidades obscuras chamadas Ghisguth e Zstylzhemghi, habitantes de outra galáxia remota que foram atraídos para o Mundo de Yuggoth (que no futuro se tornaria uma das bases dos Mi-Go). Pouco se sabe a respeito da progênie de Tsathoggua, mas há rumores de que ele seja o único membro remanescente de sua ninhada. A criatura ainda infante teria encontrado refúgio nas cavernas profundas de Yuggoth onde conseguiu se desenvolver ao longo de milênios.

Uma vez atingindo a maturidade, Tsathoggua desenvolveu consciência de suas capacidades cósmicas e conseguiu empreender uma jornada de Yuggoth até Saturno (ou possivelmente uma das Luas desse planeta solar). Nesse novo lar, Tsathoggua estabeleceu um novo abrigo no qual concluiu a segunda etapa de seu amadurecimento, o que deve ter demorado mais alguns milênios.


Durante esse período a entidade passou a maior parte de seu tempo hibernando em meditação, expandindo sua mente para sondar os confins da Galáxia. Nesse período a criatura tomou consciência das principais entidades cósmicas: a existência de Azathoth e sua Corte no centro do Universo, o papel dos Deuses Exteriores, a função de cada um e é claro, a existência dos demais Grandes Antigos que dividem com ele a mesma descendência. Nesse período, a criatura deve ter aprendido o suficiente a respeito de manipulação da realidade por formulações místicas - o que as tradições herméticas humanas classificam sob o nome genérico de "magia".

Não se sabe ao certo como, mas em um determinado momento de sua residência em Saturno, Tsathoggua empreendeu uma nova jornada rumo ao terceiro planeta do sistema solar, a Terra, que então possuía formas de vida quase inócuas. Segundo os Pergaminhos de Pnom, os habitantes de um planeta escuro na fronteira de nosso sistema teriam se encarregado de transportar Tsathoggua até a Terra. O mesmo documento cita que essa civilização desconhecida realizou esse serviço em troca de instrução mística por parte da criatura. Esta talvez seja a primeira menção de Tsathoggua como preceptor de conhecimento místico, função que ele aparentemente executou repetidas vezes desde então.

Uma vez na Terra, Tsathoggua se estabeleceu em Yuth, uma cidade em ruínas originalmente pertencente às mesmas criaturas alienígenas com quem ele barganhou seu translado. O período em Yuth, contudo foi breve, e logo ele fixou residência nas Cavernas de N'Kai (também chamado de Golfo Negro de N'Kai). Por eras ele permaneceu em hibernação, permitindo que suas emanações psíquicas se mantivessem ativas, enquanto seu corpo entorpecido repousava no seu sepulcro invernal, despertando apenas em breves períodos. Em um desses períodos desperto, Tsathoggua descobriu a existência de seres vivos complexos, os Voormis que passaram a adorá-lo como uma divindade. Habitando as profundezas do Monte Voormithadreth, Tsathoggua se tornou uma entidade lendária, temida pelos povos humanos que sucederam aos Voormis e fundaram a nação Hyperborea.


Antes dos humanos, entretanto, Tsathoggua foi o Deus Principal do Povo Serpente, uma raça de humanóides reptilianos que construiu um vasto Império na superfície. Em Torres de Basalto Negro ele foi louvado e recebeu sacrifícios, compartilhando parte de seus conhecimentos, usados para sedimentar as bases para o Império de Valúsia. O povo serpente entrou em decadência e foi coagido pelos humanos que em maior número os guiaram para o interior da Terra. A essa altura, os répteis já haviam se deteriorado a ponto de terem abandonado Tsathoggua, adotando Yig, o pai das Serpentes como uma de suas divindades principais.

Os humanos descobriram o Culto de Tsathoggua e formaram ao redor dele uma nova religião considerada herética pelos Reis de Commorium. Quando a civilização Hyperborea também enfrentou sua destruição, os sobreviventes que se estabeleceram em colônias ao redor do mundo carregaram consigo o conhecimento sobre Tsathoggua. Uma das principais colônias de descendentes de Hyperboreos se estabeleceu em Averoigne, na atual França, fundada pelo feiticeiro Klarkash-Ton, responsável por preservar o Culto do Deus-Sapo.

Os Druidas de Averoigne reverenciavam o Deus que falava através de um oráculo, este, o representante de Tsathoggua nos períodos de hibernação. Este culto se tornou muito difundido e se espalhou pela Europa Central, confundindo-se com as religiões pagãs primitivas que também ganhavam espaço. Seus líderes entraram em atrito com os romanos que expandiam seu império e por pouco não os exterminaram. Obrigados a ocultar seus rituais, os seguidores do Deus Sapo tiveram de se esconder até que o Império Romano entrasse em decadência. Durante o Período Medieval, o Culto de Tsathoggua estabelecido na França ressurgiu. Agindo em segredo em enclaves rurais, o Culto formou uma estrutura sólida mesmo durante as perseguições a feiticeiros empreendida pela Igreja Católica.


As demais colônias que se espalharam pelos continentes também preservaram o culto de Tsathoggua que se estabeleceu na América, na África e na Asia, ainda que, com menos sucesso. As tribos nativas Narrangasett e Wompanoags da Costa Leste dos Estados Unidos adoravam Tsathoggua. Assim como nômades Tuaregs que viviam no Saara e tribos indígenas da Bacia Amazônica no Brasil. O último baluarte de Tsathoggua se estabeleceu na China, mas esse perdeu espaço para outras divindades sobretudo Chaugnar Faugn, Cthulhu e Atlach-Nacha que empurraram os cultistas para o Sudeste Asiático, com algumas poucas células fixando-se na atual Coréia.

A flagrante falta de interesse de Tsathoggua em manter seus cultos ativos e os longos períodos de hibernação, sem dúvida foram responsáveis por um encolhimento significativo no número de seguidores. No século XX, seus cultistas lutavam para não desaparecer por completo, sendo que apenas o secto de Averoigne se mantinha coeso e organizado. Mas no século XXI, Tsathoggua experimentou um súbito renascimento, sobrevivendo em santuários clandestinos em grandes cidades, ganhando poder com orgias e sacrifícios. Seus seguidores são interessados em neo-paganismo e magia ritual o que se encaixa bem em alguns preceitos do culto.

Alguns dizem que Tsathoggua desperta em momentos de instabilidade e guerra, extraindo sustento das aflições humanas. Outros acreditam que ele se importa bem pouco com a devoção de seus serviçais mortais, repartindo com eles meras migalhas de seu conhecimento arcano. Aqueles que atendem aos rituais voltados a Ele tendem a degenerar com o tempo, ganhando características bestiais pela proximidade nociva do Deus Sapo. Não é estranho que alguns cultistas tenham uma aparência claramente batráquia, com panças inchadas, pescoços curtos, olhos esbugalhados, bocas extremamente largas e pouco (ou nenhum) pelo facial ou corporal. Alguns cultistas tem a pele lisa e fria ao toque com mãos sempre úmidas.

As bestas da floresta são especialmente subservientes a Tsathoggua. Há uma lenda de que gatos tendem a vigiar os arredores de seus templos em Averoigne, uma prática que pode ter originado a crença em familiares, animais à serviço de feiticeiros. Carneiros e Javalis também são servos frequentes usados pelos druidas. Cadáveres animados por feitiçaria também são usados como servos do Culto, sobretudo quando é necessário defender seus templos e preservar esses locais da presença de invasores.

Além de animais e mortos vivos, Tsathoggua é auxiliado por uma raça amorfa conhecida apenas como Prole Amorfa de Tsathoggua. Não se sabe exatamente qual o grau de relacionamento entre o Deus e estes seres conscientes, formados por uma substância coloidal negra semelhante a piche. Tudo indica que eles são servos fiéis devotados ao Deus. Os Pergaminhos de Pnom sugerem que esta raça pode ter alguma ligação com os seres que construíram Yuth, ainda que algumas outras fontes atestem que estas criaturas são nativas de N'Kai. 

Leia AQUI a conclusão do artigo