O que não falta no mundo são lugares misteriosos e ruínas estranhas e esquecidas.
Eles se destacam como testemunhos do nosso progresso, dos nossos sonhos e, por vezes, até mesmo da nossa natureza violenta. Há lugares que parecem marcados por acontecimentos trágicos e macabros. Eventos que deixaram impressos em suas paredes de pedra, algo particularmente terrível que jamais foi esquecido e que persiste a passagem do tempo.
Tais lugares parecem acumular uma espécie de energia sombria, atraindo forças que talvez nunca sejamos capazes de compreender. Os supostos lugares mal-assombrados do mundo surgem de histórias sombrias e perturbadoras, de crimes e traições, bem como da angústia da guerra. Um desses lugares fica na capital do Peru. Aqui, conheceremos uma antiga fortaleza que testemunhou muitas batalhas e muito derramamento de sangue, e que também é um dos locais mais assombrados do país.
No século XVII, a cidade de Lima, no Peru, era assolada pela indesejável ameaça de piratas. O principal porto e cidade do país — então uma rica colônia da Espanha — sofria constantes incursões de piratas implacáveis, o que desestabilizava o transporte marítimo e levou o vice-rei Melchor de Navarra y Rocafull a ordenar a construção de um ambicioso sistema de muralhas ao redor da cidade entre 1684 e 1687: as Muralhas de Lima. Essas fortificações imponentes deveriam afastar os saqueadores graças a defesas alinhadas ao longo da estrutura. Casamatas e estações de vigília com canhões guardavam a entrada do porto e qualquer embarcação desconhecida podia ser facilmente avistada e neutralizada por ferro e fogo.
Por muitos anos a Muralha cumpriu seu papel até que o terremoto de Lima-Callao, em 1746, as reduziu em grande parte a escombros. Um novo projeto foi então iniciado pelo vice-rei José Antonio Manso de Velasco para criar uma grande fortaleza na região de Callao, na Grande Lima, visando reforçar a defesa do porto estrategicamente vital. Batizada de Fortaleza Real Felipe — em homenagem ao rei espanhol Felipe V —, a estrutura seria colossal, estendendo-se por 70.000 metros quadrados e contando com muralhas à prova de bombas, torres de vigia, um fosso de 16 metros de largura, quartéis e baluartes; tudo isso guarnecido por um arsenal formidável de 188 canhões de bronze e 124 de ferro. Na época, era a maior fortaleza espanhola construída nas Américas.
A construção foi uma façanha grandiosa e dramática. A Coroa Espanhola destinou recursos para a obra, enviando navios com carregamento de moedas de prata e dobrões de ouro para abastecer os cofres de Lima. O dinheiro fluía e as obras levaram anos para serem concluídas. Maior do que qualquer gasto foi o custo humano do empreendimento. Para assentar as fundações foi escavada uma monumental trincheira, seguido do transporte de pedras e finalmente da edificação. A coroa recorreu largamente a mão de obra escrava, valendo-se de nativos e negros que foram compelidos a trabalhar ininterruptamente na majestosa construção. É impossível precisar, mas milhares de pessoas perderam suas vidas nos canteiros de obra. Dizem que os ossos de um sem número de trabalhadores foi usado para fortalecer os alicerces da fortaleza pois nada foi desperdiçado.
Por fim, a Fortaleza despontou grandiosa, tornando-se um baluarte na Defesa do Porto de Lima.
Durante as guerras de independência do Peru, no início do século XIX, a Fortaleza Real Felipe foi uma potência militar, desempenhando um papel fundamental para repelir o inimigo. Ela resistiu a vários grandes ataques navais e bloqueios, forçando o general argentino José de San Martín a abandonar uma incursão marítima e, em vez disso, invadir Lima por terra em 1816. Após um longo cerco marcado por combates ferozes, a fortaleza inexpugnável acabou sendo vencida pela escassez de provisões e por um surto crescente de cólera; na sequência, o general realista José de La Mar rendeu-se às forças republicanas. A fortaleza seria retomada pelos espanhóis sob o comando do brigadeiro José Ramón Rodil y Campillo, mas posteriormente reivindicada pelo Peru quando os espanhóis se renderam cedendo à Independência.
Por algum tempo, a fortaleza serviu como prisão para inimigos capturados, ganhando a reputação de ser um ambiente brutal marcado por tortura e condições deploráveis. Ser enviado para lá equivalia a uma sentença de morte. Nos tempos modernos ela abriga o Museu do Exército Peruano e é considerada uma importante atração histórica em Lima; no entanto, como costuma acontecer com locais de história tão sombria e violenta, diz-se que a Fortaleza Real Felipe está repleta de fantasmas, sendo considerada, inclusive, um dos lugares mais assombrados do Peru.
Uma das histórias paranormais mais famosas da Real Felipe é a do fantasma de uma mulher desconsolada vestida inteiramente de branco, conhecida como La Perricholi. Dizem que ela foi uma artista e membro de uma família espanhola de alta linhagem que buscou refúgio na fortaleza durante uma revolta na guerra de independência. Lá, a pobre coitada teria sido capturada e violentada por rufiões. Envergonhada e enlouquecida ela se suicidou e segundo os rumores nunca encontrou descanso. Ela vaga pelos corredores e pátios internos, sussurrando e gemendo e quando encontra um homem o toca com suas mãos gélidas. A "Dama de Branco" segue pela Fortaleza sendo frequentemente ouvida cantarolando de forma sinistra uma melodia fúnebre; sua atividade é mais intensa na ponte levadiça do Torreón del Rey (Torre do Rei).
Essa ponte levadiça aliás parece atrair muitos fenômenos paranormais: frequentemente avistam-se soldados fantasmagóricos e uma figura não identificada que salta da ponte apenas para desaparecer sem jamais atingir o chão. Muitos dos soldados, vestem antigos uniformes em farrapos com manchas de sangue e apresentam ferimentos medonhos. Alguns sem membros, queimados, deformados e ao menos um com a cabeça decepada. Os soldados gritam, urram e até xingam as pessoas que os veem tratando qualquer um como inimigo. Esses soldados carregam rifles, espadas e porretes que são brandidos com fúria.
Outra área ativa da fortaleza é a masmorra situada sob as Torres do Rei e da Rainha. Era lá que prisioneiros sofriam tortura na época das guerras coloniais. As paredes de pedra são tão geladas que formam uma camada de gelo na alta madrugada. Essas rochas são profundamente marcadas por uma história de sofrimento e morte; era um local onde prisioneiros recebiam banhos de água fervente, sofriam esmagamento e eram amontoados em celas minúsculas e úmidas, definhando em meio à própria sujeira. A lista de fenômenos estranhos que ocorrem nessa penumbra é extensa. Vultos, objetos que se movem, quedas bruscas de temperatura, anomalias luminosas, sons estranhos — como passos, sussurros, lamentos e diversas batidas e pancadas —, a sensação de ser empurrado ou cutucado por mãos invisíveis, e uma intensa sensação de pavor e pânico que toma conta de alguns visitantes, a ponto de sentirem uma vontade incontrolável de fugir.
Entre as aparições vistas na masmorra, estão vultos de prisioneiros mortos há muito tempo que gemem e suspiram na escuridão perene. Mais assustador entretanto é uma misteriosa forma sombria — descrita mais como uma besta do que como um ser humano. Essa criatura disforme é tratada como uma bolha de escuridão que se arrasta silenciosamente pelas celas e escorre pelas paredes. Ela teme a luz do sol e por isso se mantém nas catacumbas mais profundas. Quem a viu comenta que se trata de algo profundamente maligno. Há também histórias sobre pequenas criaturas semelhantes a duendes do tamanho de crianças e feições de rato que correm pelos corredores e se escondem nas frestas e buracos. Esses seres, chamados de Crianças da Fortaleza são especialmente conhecidos por roubarem objetos e de tempos em tempos arrastar algum infeliz para as catacumbas afim de devorá-la.
Juntando-se a esse elenco de personagens fantasmagóricos está o espírito de um menino pequeno, vestido com roupas de marinheiro do século XIX e aparentando ter cerca de dois anos de idade; ele corre de um lado para o outro e se esconde entre as exposições militares na área da Casa do Governador. Esse menino espectral aparentemente se esconde e aguarda ser encontrado antes de sair correndo e desaparecer no ar, quase como se estivesse brincando de esconde-esconde. Dizem que ele frequentemente deixa pequenas pegadas na poeira do piso de pedra.
Dizem que visitantes sensíveis são tomados por um medo avassalador e por um impulso de saltar do topo. Infelizmente, desde o século XIX, a Fortaleza detém um triste registro como um dos lugares preferidos para suicidas que escolhem se lançar do alto das torres no mar lá embaixo. O som de corpos caindo e mergulhando nas águas turvas são algo relativamente comum para os vigias noturnos. É algo tão corriqueiro que eles nem comentam mais à respeito dos incidentes. Os vigias aliás colecionam histórias sinistras sobre os fantasmas e criaturas que habitam a Fortaleza Assombrada.
Todas essas histórias parecem estar em perfeita sintonia com a temática geral de lugares mal-assombrados, visto que este foi o cenário de acontecimentos históricos trágicos e sombrios que parecem ter ficado gravados, de alguma forma, na própria estrutura. Por razões desconhecidas, forças muito estranhas se vincularam a este lugar, tornando-o um dos mais mal-assombrados do país e um refúgio para espíritos inquietos que não parecem ter qualquer intenção de partir tão cedo.
E porque deveriam? Essa é a morada que eles escolheram habitar. Talvez nós, os vivos, sejamos os verdadeiros invasores.




