sábado, 20 de fevereiro de 2010

Dagon - A Transição de Deus Semítico a Horror Lovecraftiano

Dagon foi um Deus Semítico, uma entidade citada no Velho Testamento devotada ao plantio e agricultura, de particular importância para o povo conhecido como filisteus. É claro, Dagon assumiu uma face bem mais sinistra de acordo com a mitologia de Lovecraft. A nefasta entidade figura em duas estórias clássicas: Dagon e A Sombra sobre Innsmouth. Ele é o Senhor dos Deep Ones, uma raça de criaturas meio-homem, meio-peixe. Criaturas que veneram o Grande Cthulhu e que habitam as profundezas dos mares e que tem o incômodo hábito de sequestrar humanos e submeter fêmeas a miscigenação.

Mas como se deu a transição de Dagon, de Deus dos Filisteus para Horror Lovecraftiano?

O Dagon histórico era uma das principais divindades dos filisteus, povo cujos ancestrais migraram de Creta para a costa da Palestina. Ele era um deus da fertilidade, da abundância e das colheitas. Quando ele estava satisfeito contemplava seus seguidores com colheitas abundantes que mantinham longe as privações. Dagon também figurava em conceitos de vida após a morte.

Os Filisteus eram originalmente devotos da Grande Mãe, mas adotaram o culto de Dagon após a invasão de Canaan em 1137 AC. No panteão cananita, Dagon era o pai de Baal e só estava abaixo de El, o Deus Supremo daquele povo. Há registros de seu nome datando da terceira dinastia de Ur, cerca de 25 séculos antes de Cristo.

A iconografia, representa Dagon como uma entidade marinha tendo a parte superior do corpo de homem e da cintura para baixo, sendo peixe. Em outras representações ele é um homem com o corpo coberto de escamas, capaz de respirar, e assim viver no fundo do mar.

Mas porque uma divindade ligada aos campos e plantio seria associada ao mar?

Sempre houve muita controvérsia sobre esse tema. Historiadores acreditam que a associação se deu pelo nome Dagon derivar da palavra hebraica dâg, que significa peixe. A partir de seu nome, Dagon teria ganho o status de entidade marinha.

Alguns estudiosos, no entanto, defendem que Dagon só ganhou uma representação aquática, a partir do momento em que ele passou a ser intimamente associado a deusa Derceto, esta uma entidade que reinava sobre os rios e lagos e que era retratada com o corpo de peixe. Quando Dagon se tornou consorte de Derceto, ele também passou a ter feições marinhas e teria ganho recebido o domínio sobre os mares.

A imagem de Dagon na forma de homem-peixe, porém não é unânime. Existem moedas e documentos em que Dagon é representado como uma divindade terrestre, sem qualquer conotação marinha.

Outra possibilidade é que Dagon tenha sido associado ao mar pelos Fenícios, um povo com longa tradição náutica, que passou a adorar o deus na época em que se lançaram em incursões pelo Mediterrâneo. Os fenícios, teriam transformado a entidade no patrono de suas viagens através de águas desconhecidas e mares perigosos. Há registros que citam os fenícios realizando sacrifícios de animais atirados ao mar para garantir assim a benção de Dagon.

A adoração de Dagon foi bastante evidente na antiga Palestina. A religião era a proeminente em cidades como Azotus, Gaza e Ashkelon. Os filisteus dependiam de Dagon para o sucesso em suas colheitas, mas rendiam a ele homenagens também em tempos de guerra. Para agradá-lo, ofereciam sacrifícios de animais e orações em seus grandes templos. Seus sacerdotes usavam trajes cerimoniais com escamas prateadas e grandes mitras na cabeça. Para seus deveres sagrados usavam bacias de metal e facas curvas empregadas nos sacrifícios.

O culto de Dagon permaneceu ativo até o século segundo da era cristã quando o templo de Azotus foi destruído pelos macabeus. A partir de então a religião de Dagon começou a ser substituída por outras crenças introduzidas pelos povos conquistadores.

Os filisteus são citados em várias oportunidades na Bíblia, retratados como inimigos mortais do povo hebreu e uma constante ameaça à Israel. Segundo o Livro de Samuel, a vitória sobre os Filisteus era essencial para o estabelecimento do povo de Deus. Não é estranho portanto que a religião dos Filisteus tenha motivado severas críticas da parte dos autores bíblicos.
Lovecraft escreveu Dagon logo no início de sua carreira, no ano de 1917. A inspiração, segundo ele, veio de um sonho: "Eu sonhei com algo repulsivo, e ainda posso sentir aquela coisa me puxando para baixo da superfície". Lovecraft pode ter se inspirado também no conto "Fishead" de Irving Cobb que trata de seres míticos metade homem, metade peixe.

Em "Dagon", Lovecraft não deixa claro se o monstro é realmente a entidade semítica venerada pelos filisteus. Não há alusão alguma nesse sentido, além da coincidência dos nomes.

Na mitologia Lovecraftiana, entretanto, existe a idéia que muitos deuses e entidades da antiguidade seriam na verdade criaturas dos Mitos. Nesse contexto, Dagon, o monstro marinho, seria a verdadeira face do Deus semítico.

Contudo, também existe a possibilidade de Dagon ser uma entidade inteiramente diferente do mito filisteu. Uma abominação como tantas outras com um nome impronunciável conhecido apenas pelos Deep Ones.

O nome Dagon nesse caso teria surgido apenas quando cultistas humanos passaram a venerá-lo e buscaram na antiguidade algum personagem mítico com o qual pudessem identificá-lo. A figura de Dagon então se encaixaria perfeitamente como entidade análoga por ser uma divindade dos mares meio homem, meio-peixe.

Essa teoria ganha força quando lembramos dos cultistas de Innsmouth em "A Sombra sobre Innsmouth" (1936), a segunda obra a citar Dagon. Nesse conto, os membros da decrépita Família Marsh e da Ordem Esotérica de Dagon, usavam a indumentária de culto, composta de manto e mitra, que remontava aos trajes dos sacerdotes filisteus, com suas bacias metálicas e adagas curvas. É possível que toda a Ordem Esotérica tenha baseado seus rituais no velho culto fariseu.

Lovecraft jamais deixou clara a origem de Dagon ou qual seria a sua intenção ao nomear a criatura um homônimo da divindade semítica. Como muito de sua obra, os Mitos, em mais de um aspecto, permanecem como um mistério. Insondável, inumano, imutável.

E assim para sempre devem continuar.

10 comentários:

  1. Ficou muito bom post. Outro dia visitei um site que indicava algumas passagens da biblia onde Dagon era citado, vou colocar aqui caso alguém tenha interesse: juizes 16:23; samuel 5:2-7; cronicas 10:10.
    Parabéns!

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  2. Muito bom, gostei de ver. Filisteus e principalmente os fenícios são alguns dos meus povos favoritos além dos seus deuses Dagon e Baal. Gostei da comparação e da dúvida se Dagon dos mitos é ou não o Dagon de antigamente, apesar disso ambos representam futilidade, de um jeito ou de outro. Espero ansioso por outros posts desse tipo.

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  3. Parabéns pelo artigo. Este blgo tem feito um embasamento para seus leitores, adicionando importantes informações aos detalhes citados por Lovecraft em sua obra. Esta pesquisa é muito importante para todos os fãs e principalmente para os mestres de RPG como eu! :D

    Continuem neste caminho!

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  4. eu sempre achei que dagon era metade sapo metade homem!!!!!!!!!!!!

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  5. Tava lendo a Bíblia em Samuel 5:2...la ta falando sobre dagon, quis saber sobre esse assunto..achei essa matéria e gostei muito de ler sobre o assunto dagon..gostei da matéria, parabéns

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  6. Fiz uma adaptação com o conto Dagon escrito por Lovecraft em 1919. Para ver acesse: http://youtu.be/OohCl9CFxmQ

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  7. Textos instrutivos do tipo são muito bons mesmo. Continue com o bom trabalho!

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  8. Que matéria interessante e estava lendo a bíblia, estava falando sobre a estátua de dagon que caiu aos pés da arca da aliança por duas vezes e das coisas terríveis que acontecera ao povo filisteu que ficou com fortes chagas, porque será?e depois tiveram que mandar a arca da aliança de volta, porque não podia ficar ali. é uma história que de fato nos chama a atenção.

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    1. As chagas e doenças, etc. ocorreram pelo povo filisteu ter roubado a arca da aliança e mantido com eles junto com os objetos dos seus deuses. A estátua de Dagon caía por causa da própria arca da aliança, que derrubou a estátua uma vez e como os filisteus insistiram, da segunda vez a estátua caiu sem pernas e braços.

      Os filisteus mais tarde tentaram mandar a arca pra outro povo, tentando acabar com a maldição, mas esses outros acabaram sacando logo e mandaram de volta pro povo de Deus (acho que foi mais ou menos assim o final, não lembro bem xD)

      foi até daí que surgiu a história de que a arca da aliança seria uma arma mortal, esse conceito foi usado naqueles filmes do Indiana Jones, mas na forma de um raio da morte que saia da arca.

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  9. A fábula de Jonas seria um plagio da lenda de “JUNAS E O GRANDE PEIXE”?


    Numa antiguíssima lenda filisteu, por desobedecer seguidamente às ordens do Deus Peixe Dagon (o Deus filisteu da fertilidade e da colheita, que era metade peixe e metade homem), Junas foi engolido por um enorme peixe; mas depois de passar 3 dias e 3 noites dentro do grande peixe Junas foi vomitado vivo, na margem do Rio Ufrat...

    Como mesmo estando no ventre do grande peixe Junas se recusava rezar, ea pedir desculpa...
    O Deus Dagom teria resolvido colocar Junas em outro peixe menor, mais rápido, mais jovem, e do sexo feminino, (uma Leviatã), onde Jonas teria menos conforto...

    O novo peixe enviado por Deus se aproximou do macho em que Junas se encontrava, e depois de anunciar a ordem divina no sentido de Junas ser transferido para a barriga menor de outro peixe; ameaçou devorar a ambos, a menos que Junah fosse transferido para ela...

    Já na desconfortável barriga da Leviatã Junas finalmente reconheceu a inutilidade dos seus esforços para escapar de Deus, e nos dias restantes em que permaneceu temporariamente na barriga do monstro, compôs um hino de ação de graças ao poderoso Deus Dagom...

    Aproveitando que o peixe é o símbolo do suposto Deus Jesus; devido se estar na Era astrológica de Peixe; e para minimizar a milenar Festa Pagã da volta triunfal do Sol que “renasce” em 25 de dezembro, depois de “morrer” por 3 noites e 3 dias...

    Num antropofagismo religioso a Bíblia usou a lenda de Junas e o grande peixe para criar a fábula ninivita onde Jonas, filho de Amitaim, em torno de 750 a.C., após passar 3 dias e 3 noites no ventre de um peixe, foi vomitado na Praia...

    A lenda ou parábola bíblica de Jonas e um grande peixe, é só uma forma de ilustrar a mensagem onde não se poderia desobedecer Deus sem ser castigado.

    O problema estar no fato de que alguns religiosos fundamentalistas teimarem em convencer as pessoas que a lendas de Jonas teria de fato acontecido.

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