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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Anatomia da Corrupção - Os estágios da Decomposição Humana


É algo comum em quase todo cenário de RPG, em especial de Horror. Em determinado momento, o grupo de investigadores irá encontrar um cadáver e terá que buscar pistas nele para auxiliar na resolução de um mistério.

Esses tempos narrei uma aventura com a premissa de ser uma investigação sobre uma série de assassinatos e percebi o quão pouco eu sabia à respeito dos pormenores que norteiam a descoberta de um cadáver e como descrever suas condições. Como ele é categorizado? Como identificar quando a pessoa morreu? Sob quais circunstâncias? Existem vários elementos e fatores que envolvem a sinistra descoberta de um cadáver.

Pensando nisso, fiz uma breve consulta em páginas que se dedicam justamente a esse tema e encontrei farto material. A ideia, obviamente não é apresentar o assunto de forma completa e minuciosa, mas sim, esclarecer alguns pontos que ajudem a tornar mais realista emular isso em uma mesa de jogo. Dessa forma, me desculpo de antemão por possíveis incorreções e dados falhos que possam estar presentes aqui. Também cabe fazer um alerta quanto ao conteúdo gráfico de imagens e fotos desse artigo. Pessoas sensíveis podem se sentir incomodadas e se esse for o caso, recomendo que não sigam adiante na leitura.

O Básico:
     
Vamos começar com o conceito mais simples de todos entender o que é exatamente a Decomposição?

Em biologia, decomposição, mineralização e em alguns casos, apodrecimento, é o processo de transformação da matéria orgânica em minerais, que podem ser assimilados pelas plantas para a produção de matéria viva, fechando assim os ciclos biogeoquímicos.

E em seguida o que entendemos por Putrefação?

A Putrefação é um dos estágios da decomposição do corpo de um animal morto. À temperatura ambiente ela se inicia geralmente de 12 a 24 horas após a morte. É causado principalmente devido às atividades das bactérias do intestino que digerem as proteínas e excretam gases (como metano, cadaverina e putrescina) gerando um forte odor desagradável. Os gases se acumulam na cavidade abdominal produzindo um aspecto esverdeado e inchaço do corpo em decomposição em seus primeiros estágios. O forte odor atrai moscas que depositam seus ovos e aceleram o processo, sendo os insetos o fator catalizador direto.


A análise direta do cadáver pode revelar uma série de informações vitais para determinar não apenas quando ocorreu o óbito, mas em que condições, de que maneira, quais agentes envolvidos e outras informações essenciais.

Sempre que Peritos Forenses encontram um corpo, seja em caso de homicídio, acidente ou suicídio, é importante que o tempo de decomposição seja avaliado. Com isso é possível fazer a estimativa do intervalo de morte, ou seja, a quanto tempo se passou entre a morte do indivíduo até o corpo ser descoberto. A ciência que estuda e descreve os processos envolvidos na decomposição de cadáveres é chamada de Tafonomia, originada do grego taphos (enterro ou sepultura) e nomos (leis), traduzindo literalmente pode ser interpretado como as "Leis do Enterro". Os maiores especialistas em tafonomia, geralmente não são os peritos forenses, mas sim arqueólogos, paleontólogos e antropólogos que estudam detalhadamente os fatores ligados a decomposição.

Quando se investiga um corpo, as mais diversas “evidências físicas” precisam ser categorizadas em três intervalos: Antemortem, Perimortem e Postmortem.

Antemortem – refere-se ao intervalo de fatos que aconteceram antes da morte da vítima, muitas vezes não sendo relacionada com o caso, pois pode se tratar de experiências de vida. São característicos pela cicatrização da pele ou dos ossos, pois tiveram tempo de se regenerar.

Perimortem – refere-se a ao intervalo e a fatos que aconteceram durante a morte ou próxima a ela. Diferente das injurias antemortem, aqui não existiu um tempo de cicatrização.

Postmortem – Não existe uma barreira exata que determinar quando terminar o intervalo perimortem e quando começa o postmortem, sendo um desafio muito grande para os especialistas. Mas os processos de decomposição podem indicar as transições.

É preciso ter em mente que estes períodos são artificiais e utilizados por convenção para categorizar evidências e injurias. A Tafonomia prioriza estudar e descrever os processos que ocorrem no intervalo postmortem, sendo os do perimortem estudados por patologistas forenses.

A decomposição do corpo possui diversas variáveis, sendo as principais a temperatura e o acesso de insetos ao cadáver. Por isso, os resultados podem variar conforme a localidade, principalmente quando se trata de regiões temperadas e polares, onde as taxas de decomposição variam. Via de regra, cada perito conhece os dados sobre a região em que atua e pode confrontar as informações obtidas.

Os estágios da decomposição

O Método Payne (definido em 1965 e ainda usado) dividiu em seis etapas o processo de Decomposição animal que pode ser utilizado para cadáveres humanos. Os referenciais levam em consideração uma temperatura média de 26◦C do solo e um ambiente ao ar livre, com presença de insetos decompositores atraídos para a cena.

1) Fresco (dia 0) 


No estágio inicial, basicamente nenhuma característica forte da decomposição é visível. 

Aqui é exatamente onde se encontra maior dificuldade em dividir o intervalo perimortem do postmortem. O cheiro ainda é o que estava presente no animal (ou pessoa) quando vivo e a variação é pouco pronunciada ou inexistente. Depois de um tempo (minutos ou horas, variando de acordo com a localidade), as primeiras moscas da família Calliphoridae começam a ser atraídas.

Nesse primeiro estágio há quatro passos distintos no processo de decomposição que podem ser observados: 

- Pallor Mortis é o primeiro estado e pode ser percebido por uma súbita palidez na pele, causada pela falta de circulação capilar. Ele se instala entre 15 e 25 minutos após o óbito.

- Algor Mortis é o esfriamento do cadáver e a redução de sua temperatura que obedece a uma escala linear. O corpo esfria em média entre 1 e 1,5 graus centígrados por hora após a morte. Considerando que a temperatura normal de uma pessoa varia entre 36,5 e 37, é razoável assumir que o cadáver atinge a temperatura do ambiente em no máximo 24 horas. Através da Equação de Glaister é possível determinar quando o cadáver veio à óbito simplesmente medindo sua temperatura nesse estágio. O algor mortis tem importante papel na resolução de crimes, já que dependendo da temperatura do cadáver é possível estimar a hora da morte.

- Rigor Mortis é a rigidez cadavérica causada pela mudança bioquímica nos músculos que ocasiona um enrijecimento nos restos. O cadáver assume uma postura rígida, como um manequim. Esse processo se inicia entre 4 e 8 horas após o óbito e perdura por um espaço de tempo entre 24-36 horas quando o relaxamento retorna.  É nesse estágio que geralmente os cadáveres são movidos por uma questão de facilidade, mas eles são deixados de lado até que a rigidez termine naturalmente. 

- Livor Mortis diz respeito ao surgimento de manchas na pele dos cadáveres decorrente dos depósitos de sangue estagnado nas partes mais baixas do corpo. Essas manchas podem ser usadas como indicativo da posição original em que o cadáver foi deixado. Com base na análise dessa etapa, é possível determinar se um cadáver foi movido, tocado, transportado ou incomodado pela ação de terceiros após o óbito. 

Em termos de jogo: Um personagem com perícia médica é capaz de identificar cada um desses estágios. É perfeitamente possível também determinar a hora aproximada da morte recorrendo a um termômetro simples inserido na cavidade retal. Um médico também conseguiria determinar, através de um teste da habilidade Medicina, se o local onde o cadáver foi encontrado é o local exato do óbito, se ele foi movido ou transportado.

Esse é o estágio mais propício para a coleta de pistas e indícios num cadáver. O corpo Fresco retém sinais que podem ser interpretados até mesmo numa análise superficial e qualquer pessoa com treinamento mínimo pode obter algumas informações relevantes.

Custo de Sanidade: A perda de sanidade por encontrar um cadáver a essa altura do processo de decomposição é consideravelmente menor uma vez que o corpo ainda retém as características que possuía em vida. O Custo de Sanidade  pode variar entre 0/1d3. Manipular um cadáver para indivíduos não habituados a tal coisa pode ter um custo adicional de 0/1d4.

2) Inchado (dia 1) 


O nome é dado pela principal característica do estágio, o inchaço do corpo devido a concentração de gases liberados pela ação de bactérias no estômago. Há uma evidente descoloração na pele na região do abdômen e um pronunciado inchaço. Os membros também podem apresentar esse súbito inchaço deixando-os informes e com uma textura incomum. A pele em determinados casos pode se rasgar liberando no ambiente os gases internos que atraem insetos, sobretudo moscas.

Esse é um momento essencial para a decomposição e dele irá decorrer todo o processo posterior. Em temperaturas mais baixas a liberação dos gases pode ser impedida enquanto em temperaturas mais elevadas ela é mais acelerada. O cheiro forte de putrefação é um indicador claro de que o processo já se iniciou e que o cadáver progrediu para essa segunda etapa.

Em termos de Jogo: Um cadáver nesse estágio dificilmente passa desapercebido por um grupo de busca ou resgate. O cheiro é bastante forte e pode ser sentido a até 150 metros dependendo da situação. Animais de busca, como cães de resgate podem farejar um cadáver nessas condições a mais de dois quilômetros de distância. Mover um corpo nessas condições é especialmente problemático pois a integridade começa a se perder e ele pode rebentar.  

Um personagem pode reconhecer facilmente através de um teste de "Medicina" o estágio em que se encontra o cadáver. Uma vez que o corpo já se encontra na temperatura ambiente, não há mais como precisar a quanto tempo ele veio à óbito. A presença de moscas no entanto pode fornecer alguma informação para peritos criminais que conheçam a região. 

Custo de Sanidade: A descoberta de um corpo inchado pode ser uma visão chocante, sobretudo quando acompanhada do cheiro e da presença de insetos. O Custo de Sanidade pode variar entre 1/1d4, com agravantes se o cadáver estiver especialmente deteriorado chegando a 1/1d6.

3) Decomposição ativa (dia 2-4) 


Nesse estágio, talvez um dos mais dramáticos da putrefação, o corpo começa a sofrer um processo cada vez mais acelerado de decomposição. Este pode ser ainda mais acelerado por fatores exteriores. O calor é um fator relevante pois os aspectos bioquímicos nos músculos cedem em temperaturas elevadas. A pele também começa a se rasgar expondo a musculatura e o contorno dos ossos. A gordura presente tende a se liquefazer em uma substância amarela macilenta que pode se tornar fosforecente. Os gases e fluidos corpóreos são liberados em grande quantidade no ambiente, fazendo com que o inchaço da etapa anterior diminua.

É nesse estágio que larvas de insetos começam a penetrar os orifícios, pele e tecidos em busca de depósitos de gás ainda presentes no corpo. Esse processo força os insetos a ir cada vez mais fundo no corpo, acelerando o processo de decomposição. A liberação desses depósitos também pode atrair animais maiores que se alimentam de restos, como aves carniceiras, raposas e cães selvagens.

Durante a Putrefação Ativa os tecidos assumem uma textura gosmenta, pegajosa e informe. Veias descoloridas aparecem sob a pele. Órgãos se desmancham e a aparência é de total ruína.

O transporte do cadáver a essa altura é difícil já que os músculos perdem sua capacidade de coesão e porções inteiras podem se soltar, desprender ou transbordar. O cheiro ainda é pronunciado, mas começa a diminuir gradualmente.

Em termos de Jogo: A deterioração nesse estágio já se encontra pronunciada. Ainda é possível fazer um reconhecimento visual que pode revelar a identidade do indivíduo, mas essa pode ser prejudicada pelo estado geral dos restos. Da mesma forma as digitais podem ser parcialmente perdidas. Não é possível aferir detalhes sobre tempo transcorrido do óbito ou se houve alteração do local onde ocorreu o mesmo. Da mesma maneira, alguns exames periciais que dependem da análise de tecidos podem ser comprometidos pela deterioração dos restos. A putrefação nesse estágio pode ser adiada pela ação de substâncias venenosas se estas foram as causadoras da morte. Antimônio, arsênio, ácido carbólico e cloreto de zinco são conhecidos por inibir a decomposição uma vez que repelem insetos.

Custo de Sanidade: Ninguém quer encontrar um cadáver,  especialmente nesse estágio! Isso é fato. Os sinais de corrupção são evidentes e podem causar um grande choque quando descobertos por alguém que não está habituado a tal coisa. A perda de sanidade por encontrar um cadáver em tais condições é entre 1/1d8, podendo chegar a 2/1d8+1 em certos casos.

4) Decomposição avançada (dia 5-10) 


Nessa fase, boa parte das vísceras já foram devoradas pelos insetos e outros organismos presentes no ambiente, o que reduz consideravelmente os odores causados pelos gases internos. O ambiente (pedras, grama ou solo) no entanto pode absorver parte desse mau cheiro e mantê-lo ativo por algum tempo. Os tecidos moles, em especial a pele, começam a se liquefazer por total e o reconhecimento visual do indivíduo através da aparência se torna mais difícil, sendo virtualmente impossível depois de 15 dias. As cartilagens e tecidos mais robustos, no entanto, ainda podem se manter por algumas semanas ou mesmo meses dependendo dos fatores externos. 

Os ossos ainda não estão expostos, mas os contornos dos mesmos podem ser vistos com facilidade despontando no que restou da pele. O corpo pouco a pouco perde volume e vai diminuindo, assim como a diversidade de insetos presentes na área.

Em termos de Jogo: O estado de Decomposição Avançada deixa bem menos para ser analisado pelos especialistas em Medicina. De modo geral, apenas os médicos legistas são capazes de obter informações pela análise destes restos tão deteriorados (exceto se elas forem bastante óbvias). Um corpo nesse estágio ainda é difícil de ser movido ou transportado, podendo se desfazer. Uma vez que o cheiro é menos flagrante, a localização dele pode ser também dificultada, ainda que cães treinados possam encontrar o rastro. 

Custo de Sanidade: Horrível como pode parecer, a descoberta de um cadáver nesse estágio pode não ser tão traumática quanto no estágio de degradação que o precede. Ainda assim, a perda de sanidade estará na casa de 1/1d6.

5) Seco (dia 11 a 20) 


Nesse estágio preparatório para a esqueletização somente tecidos mais densos, cartilagem e ossos estarão presentes e poderão ser encontrados. A matéria mais macia e mole, já terá se liquefeito e a maior parte do corpo terá se desmanchado, sendo absorvido pelo solo. Os músculos se expostos a condições atípicas poderão se manter íntegros, mas a essa altura, eles já estão ressecados. O termo "seco" é bastante correto para tratar das condições do corpo a essa altura já que ele se assemelha a um saco ressecado. 

Os insetos decompositores a já abandonaram o cadáver e outros artrópodes aproveitam a diminuição da competição para obter recursos. Centopeias, caracóis, milipedes, entre outros podem ser encontrados. O mau cheiro se dissipou por completo e não há mais depósitos de gases. 

Em termos de Jogo - Nessa altura há pouco que possa ser feito para identificar o cadáver ou obter pistas sobre causas ou tempo do óbito. Os restos são pouco mais que um arremedo de pedaços que se soltam com enorme facilidade se transportados, tanto que eles são recolhidos em bandejas e não mais, macas ou sacos plásticos de transporte.

Custo de Sanidade - A essa altura, o cadáver pode até passar desapercebido, a não ser que os ossos estejam discerníveis. Os restos parecem ocupar uma área incomodamente pequena para um cadáver humano, o que faz com que as pessoas não os reconheçam como os restos de um indivíduo. Ainda assim a descoberta de um cadáver nessas condições pode ocasionar a perda de 0/1d3 pontos de sanidade.

6) Restos mortais (21 dias em diante)


É difícil determinar quando inicia a fase final, porém é bem provável que dentro de quatro semanas, a carcaça já esteja nessa categoria. O cheiro é bem fraco, porém ainda impregnado no solo, sobretudo na vegetação que absorveu os restos liquefeitos. Toda a carne e pele já não se encontram presentes, somente os tecidos musculares mais densos, fibras, cabelo e ossos que começam a se destacar.

O termo "resto mortal" realmente é bastante adequado para descrever esse estágio, visto que o que sobra são realmente os restos mais resistentes e que irão se deteriorar até restar apenas o esqueleto. 

Em Termos de Jogo - Um legista ou um antropólogo forense são os profissionais mais adequados para examinar os restos humanos. Nessa etapa de deterioração, o exame consiste em montar um quebra-cabeças de peças soltas que podem fornecer algum indício do que levou à morte e em quais circunstâncias. Um médico pode auxiliar nesse exame, mas apenas aqueles especializados em tal procedimento podem testar sua habilidade "medicina".

Custo de Sanidade - É claro que ninguém está isento do choque de descobrir restos humanos. Apenas algumas pessoas endurecidas estão imunes a encarar a condição humana e dar de ombros. Ossos e alguns poucos restos, contudo, são bem menos chocantes do que um monte de carne putrefata. O Custo de sanidade por descobrir restos humanos é de 0/1d2. 

Notas:

Um desafio para os médicos forenses é que a taxa de decomposição pode ocorrer de forma não-homogênea em cada cadáver, sendo importante avaliar com cuidado e utilizar diferentes técnicas para diminuir a imprecisão da estimativa. Cada característica nos diferentes estágios é fundamental para o conhecimento detalhado do processo de decomposição, entendendo como é o funcionamento e por consequência oferecendo diversas informações sobre a morte do indivíduo. Qualquer variação pequena, pode alterar este processo químico. Roupas, ambiente, mudança de local do corpo, biodiversidade local e principalmente o acesso aos insetos concedem fatores aleatórios. 

Por exemplo, quando insetos não conseguem acessar um corpo, pode ocorrer um processo de mumificação natural no qual a pele se torna seca e rígida. 

Os porcos são utilizados para estudos de deterioração, devido a semelhança de seus tecidos com os humanos. Alguns artigos demonstram que em certos aspectos ovelhas são mais semelhantes Porcos contudo, ainda são mais usados para esses estudos.

Corpos humanos doados para fins de estudo científico são utilizados por Institutos Médicos Legais para análise e formação de novos profissionais. Algumas universidades possuem áreas externas para realização do estudo da decomposição em indivíduos. São as chamadas "Fazendas de Corpos" (do inglês “body farm”) que oferecem a oportunidade de estudar os efeitos in loco. Esses institutos obtém os espécimes através da doação de corpos de indivíduos que preenchem um formulário quando vivas ou com a doação da família após o falecimento do parente, contribuindo assim com o estudo forense.

Embora o estudo forense focado na decomposição humana não seja um campo exatamente novo, ele sempre foi tratado como tabu. Apenas no século XIX ele passou a ser matéria examinada mais à fundo e os profissionais dedicados a ele foram menos discriminados. A primeira "Fazenda de corpos" no entanto, surgiria apenas nos anos 1970 no campus da Universidade de Tennenssee e se tornaria referência mundial no tema.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Lobotomia - Ferindo o olho da Insanidade


Por Marco Poli de Araújo

A idéia de uma lobotomia (na verdade leucotomia - ressecção células brancas do tálamo) existia em 1890, sendo apresentada e efetuada formalmente em 1935, quando o cirurgião português ANTONIO EGAS MONIZ, de Lisboa, descobriu que a interrupção do córtex frontal ao tálamo aliviava os sintomas psicóticos em alguns de seus pacientes. O procedimento era uma cirurgia e não era indicado para todos os casos.

Em 1936, o americano WALTER FREEMAN desenvolveu a "lobotomia com picador de gelo". Efetuada rapidamente e com anestesia local, o procedimento consistia em martelar um picador de gelo acima de cada olho e movimentá-lo de um lado ao outro (posteriormente o picador foi substituído por um espeto mais elegante, com a mesma função). O procedimento não era complicado e demorava alguns minutos nas mãos de um cirurgião experiente.

Entre 1936 até 1950 cerca de 40 a 50 mil pacientes foram submetidos à lobotomia para as mais diversas afecções, psiquiátricas ou não (como rebeldia ou desvios sexuais por exemplo). Hoje considerada ultrapassada, foi fundamental como origem e teoria das atuais cirurgias neuropsíquicas exterotáxicas.

A lobotomia corta as conexões do tálamo anterior, responsável pelas transmissões para as zonas racionais do encéfalo, eliminando as respostas conscientes aos impulsos emocionais.

Walter Freeman realizando uma demonstração do procedimento de Lobotomia.
Em casos de psicoses, o paciente fica "calmo e tranquilo", pois os disparos emocionais constantes causadores da doença cessam. Diferente de uma psicocirurgia estereotáxica, a lobotomia é muito grosseira. As interconexões cortadas são importantíssimas; levando à perda da empatia, noções de auto preservação, interpretação e conscientização de emoções, atenção focada, controle de estados conscientes e a perda de alguma agressividade e medo tidos como saudáveis.

O indivíduo fica dócil, comportado e treinável, mas perde características de personalidade tidas como humanas, que decorrem justamente da conscientização emocional.

As descrições clínicas de sucesso dizem respeito à casos extremos de psicose (que realmente melhoram com o procedimento) ou consideram sucesso a adequação do indivíduo aos moldes sociais aceitáveis para a época. Daí a percepção pública que a lobotomia "mata a alma" da pessia, tornando-a apática.

Aspectos como linguagem, escrita, coordenação, pensamento racional e sentidos NÃO SÃO afetados em procedimentos bem feitos. Também ficam preservados os impulsos iniciais de medo e ódio, sendo reações inconscientes. O indivíduo percebe estas emoções mas não consegue processá-las ou interpretá-las (pode reagir mas não conscientizar a reação).

Usando Lobotomia em Chamado de Cthulhu

Lobotomia traria vantagem à um personagem de CoC em relação a perda de sanidade? Considere o resultado: o procedimento é irreversível (exceto talvez por mágica) e sujeito à complicações graves tanto físicas quanto mentais. A incapacidade de interpretar emoções já restringiria o personagem como investigador. Mesmo um procedimento moderno, sem os mesmos riscos, acarretaria isto.

As ferramentas da Lobotomia
Se considerarmos magia, as restrições aumentam. Podemos imaginar que qualquer interrupção na integridade das conexões cerebrais (seja por conceito anatômico, chakras, cabala etc.) inviabilizaria o personagem de usar QUALQUER feitiço, ou mesmo resistir a seus efeitos. Embora fosse seguro admitir que resistiria a feitiços que causem medo ou insanidade, poderia ficar mais vulnerável a compulsões, encantos, dominações ou mesmo ilusões.

A lobotomia poderia ser usada em um feiticeiro para impedi-lo de continuar a praticar magia; uma solução "mais humana" que a fogueira...

Sugiro que os personagens lobotomizados testem primeiro sua CON (pode ser um teste percentual no CoC moderado ou como preferir no seu sistema) para ver se sobrevivem ao procedimento, seguido de um teste de sanidade (1d10/2d10) onde insanidade temporária ou indefinida fossem catatonia ou apatia. Verdadeiras cirurgias (a original de Egas ou a psicocirurgia) dispensam testes de CON e levam a menor perda de sanidade (1d6/1d10). Sobrevivente ou recuperado, o personagem teria:

Penalidade em todas as habilidades sociais/investigativas (20% ou -4)
Penalidade em aparência, carisma (-1)
Impossibilidade de praticar magia (itens mágicos, exceto pergaminhos OK)
Penalidade em resistir efeitos mágicos de encanto/domínio/ilusão (-20% ou -4)
Bonus em resistir efeitos mágicos de medo ou emoção (+ 25% ou +5)
Imune a efeitos mágicos de insanidade

Propaganda dos anos 1920 para material de Lobotomia
Procedimentos mal sucedidos que não matem o personagem resultam em insanidade permanente, o dobro das penalidades além de penalidades em atividades motoras de 20% (-4). Mas mantêm os bonus e imunidades.

Insanidade:

O personagem NÃO precisaria testar sanidade. Nunca mais. Nem sofrer seus efeitos. Mas SEMPRE perderia o MÍNIMO de sanidade nos encontros (a parte inconsciente do horror). Também não recuperaria sanidade com tratamentos ou magia, apenas receberia o mínimo de recompensa após a sessão, mas sempre receberia.

A falta de conscientização e racionalização dos horrores cósmicos, embora proteja o indivíduo de seus efeitos piores, não impediria a gradativa e inexorável degradação do investigador, mesmo que ele não percebesse.

Racionalmente ele até poderia entender que faz algo heróico, mas seria incapaz de processar totalmente o resultado de suas ações, para o bem ou para o mal.

ANATOMIA E FISIOLOGIA:


O cérebro tem uma organização vertical, onde áreas superiores são mais conscientes que as inferiores. A central de recepção e retransmissão dos vários impulsos entre o cérebro consciente e o cérebro instintivo é o tálamo (estrutura ovóide em cada lado do córtex). Nele estão as interconexões entre o córtex e os vários sistemas cerebrais, como o límbico e o hipofisário.

O córtex cerebral é responsável pelas sensações conscientes, pensamento racional e abstrato, memória, raciocínio e planejamento. O sistema límbico é responsável pela emoção e memória de longo prazo, assim comi respostas ao ódio e medo (região da amígdala).

O córtex frontal abriga os centros racionais e de interação social. Quando ocorre um estímulo emocional, as informações do sistema límbico são enviadas ao córtex frontal e pré frontal, produzindo as sensações e ações conscientes. Este circuito depende da integridade das conexões tálamo - córtex, onde as ligações com o sistema hipotálamo - hipófise - amígdala são fundamentais para as reações conscientes e respostas à raiva e medo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tratamento Hospitalar - A Medicina que era praticada nos Anos 1920


Voltando ao tema medicina no início do século iniciado pela resenha do seriado "The Knick", que tal a gente falar do que existia nos hospitais e do que era praticado como tratamento de doenças nos anos 1920.

Esse artigo é bem interessante para dirimir dúvidas de narradores que ficam sem saber se determinado procedimento existia ou não na época de sua campanha.

Ao se analisar a evolução da Medicina ao longo dos séculos, um ponto fortemente positivo do século XX em relação aos demais foi o extermínio ou a redução quase completa da incidência de doenças que chegaram a devastar populações inteiras, como cólera, varíola e difteria. Muito embora, a gripe espanhola tenha causado danos devastadores, a incidência dessas epidemias foi menor. Além disso, no século XX, um extraordinário desenvolvimento da cirurgia, das técnicas imunológicas e da genética garantiram uma verdadeira explosão de conhecimentos na área médica.

A Medicina incorporou aspectos da psicologia, a qual ficou mais científica ao explicar o comportamento do homem.

Foram descobertas muitas substâncias que dominam o organismo e o advento dos antibióticos que representaram um salto na prevenção de doenças causadas por bactérias.

A cirurgia asséptica levou a passos grandes e deu lugar aos transplantes de órgãos e à vídeo-cirurgia de invasão mínima.

Câncer

Apesar do desenvolvimento de técnicas cirúrgicas capazes de extrair tumores, o temor ao câncer, doença já conhecida desde a antiguidade, aumentou consideravelmente, tendo-se em vista a imprevisibilidade de descoberta para a cura da doença. Estudos estatísticos comprovaram que neste século, a freqüência de casos de câncer tem aumento consideravelmente e, além disso, o órgão-alvo tem mudado; antes de 1900 o câncer de pulmão era raro, hoje é um dos mais frequentes, sendo também elevado o número de casos de câncer de colo e mama.

A grande conquista do século XX contra o câncer foi sem dúvida a quimioterapia. O uso de componentes arsenicais no combate ao câncer começou a ser empregado a partir da descoberta de substâncias químicas na Primeira Guerra e da confirmação na Segunda, de que alguns compostos podiam reduzir o crescimento de células malignas em curto tempo.

Mais tarde foi comprovada a eficácia de um derivado do ácido fólico na inibição de leucemia aguda em crianças. Desde então, uma série de compostos químicos têm sido desenvolvidos de plantas e micróbios, cada um agindo em diferentes estágios de transformação e proliferação de células malignas. A principal limitação no tratamento do câncer diz respeito à ação danosa dos medicamentos sobre as células normais. O principal objetivo da quimioterapia é encontrar agentes com toxicidade mínima capazes de agir seletivamente nos tumores malignos.

Antibióticos


Paul Ehrlich descobriu, no início do século XX, uma "cápsula mágica" que matava germes no corpo sem destruir células que eram responsáveis pela síntese do composto efetivo no tratamento da sífilis, mas os princípios que ele anunciou não rumaram para uma efetiva batalha contra os micro-organismos.

Michael Heidelberger, décadas depois, trabalhou em pneumococos (agente causador da pneumonia) investigando um soro especifico para cada tipo de germe, mas sem muitos resultados. Em 1917, Charles Heidelberger e W.A. Jacobs relataram que a sulfanilamida era eficaz contra bactérias, mas nenhum investigador atentou-se para esse fato. Na Alemanha, Gerhard Domagk, também testou a atividade antibacteriana em várias colorações, relatando o prontosil, que ataca o streptococo em camundongos. A introdução da química em terapias foi então alterada devido a muitas infecções que causavam até a morte. Trefouel na França mostrou que o prontosil causou no corpo produção de sulfanilamida, uma substância com atividade antibacteriana. Estudos subsequentes descobriram derivados: sulfapiridina, sulfaguanidina e drogas para tratamento de infecções urinárias.

Outras drogas antibacterianas forma desenvolvidas. Foi provado nesse momento o efeito do Isoniazid contra o bacilo da tuberculose, causando uma revolução do tratamento da mesma.

Pasteur observou antagonismos entre bactérias. Investigadores tentaram impedir o crescimento de uma espécie de bactéria por cultura ou extratos, mas os resultados foram incertos ou também produziram toxinas.

Entretanto, publicações dos séculos XIX e XX indicaram que bactérias mais fortes e fungos também destruíam certas bactérias. Em 1912, denominaram essa bactéria Penicilium notatum. Em 1921, foi provado que o Penicilium destruía os bacilos e impedia os estafilococos.

Depois disso, outros tipos forma descobertos rapidamente. Streptomicina contra tuberculose. Cada antibiótico possuia suas atividades potenciais, mas também limitações. Com o tempo, essas bactérias foram adquirindo resistência, necessitando de novas drogas. Além disso, comprovou-se que cada bactéria era sensível a um tipo de antibiótico.

Diálise renal

Um dos mais corajosos produtos do século XX foi a renovação de um órgão doente através do transplante por um órgão saudável de outra pessoa. O transplante renal foi dos que conseguiram maior sucesso, mas isso não foi possível sem que o paciente com o rim doente ficasse esperando enquanto se avaliava o rim do doador.

Em 1913, criou-se o primeiro rim artificial, utilizado primeiramente em cães. Esse método foi muito útil para os humanos, envolvendo o uso de tubos com anticoagulantes e aparato para que o rim fosse substituído. Em 1945, o procedimento foi utilizado com sucesso em humanos.

Hipertensão

A primeira pessoa a medir a pressão sanguínea foi o padre Stephen Hales, em 1733, enfiando um tubo oco no pescoço de um cavalo enquanto anotava até onde o sangue numa coluna de vidro.

Em 1876, Ritter Von Bash, criou um instrumento que podia medir a pressão sanguínea de um humano. Ele media, após a compressão do braço, a pressão quando se sentia o primeiro pulsar, era no caso a pressão sistólica. Só em 1905, com Korotkoff, criou o uni-estetoscópio e descobriu que quando o pulso desaparecia, estabelecia a pressão da diástole. Investigadores descobriram no inicio do século XX. um complexo enzimático de mecanismo hormonal para regulação da pressão sanguínea em que os rins, as adrenais e o sistema nervoso possuíam importante participação. Tratamentos para controle de pressão sanguínea alta até então eram dieta, operação nos rins, adrenais, artérias, no sistema nervoso simpático e o uso de agentes químicos reguladores.

Imunologia


Nessa área, os cientistas conseguiram explicar porque as pessoas que contraem certas infecções como a varíola, tornam-se resistentes a ela quando expostas novamente ao agente infeccioso. Essa explicação foi importante, sobretudo, para se estudar formas de indução de resistência antes que a doença ocorresse.

A descoberta de que nosso organismo era capaz de combater agentes estranhos pôde ser diretamente relacionada aos insucessos freqüentes das cirurgias de transplantes de órgãos; o organismo tende a reagir ao órgão enxertado como reagiria a um agente infeccioso qualquer que nele penetrasse.

Em 1930, foi descoberto que as proteínas moleculares responsáveis pela resposta imunológica do organismo estavam presentes na fração gama globulina do sangue, sendo capazes de um grande número de interações funcionais (por exemplo com o vírus da poliomielite e com as toxinas do tétano e da difteria). Essa descoberta foi essencial para a criação dessas vacinas.

Virologia

A invenção do microscópio eletrônico no inicio do século XX permitiu o exame da estrutura dos vírus com grandes detalhes e o estudo de suas relações com as células que infectam. Além disso, as pesquisas também avançaram no sentido de se buscar a compreensão dos fenômenos de multiplicação e mutação vir ais.

O vírus que causa a paralisia infantil foi isolado pela primeira vez em 1909 e, em 1954 foi desenvolvida nos Estados Unidos a primeira vacina contra a doença, garantindo, nos anos seguintes, redução considerável de sua incidência.

Descobriu-se também que a rubéola, embora na prática raramente fosse fatal em crianças e adultos, se contraída durante a gravidez, o bebê poderia sofrer sérios danos permanentes ou morrer. O isolamento do vírus da rubéola na década de 1920 ajudou a desenvolver uma vacina eficaz que passou a fazer parte das políticas de imunização de vários países.

Cardiologia


Nos primeiros anos do século XX, Willem Einthoven descobriu um instrumento que permitiu acompanhar a marcação da atividade elétrica do coração humano, o eletrocardiograma. Com isso foi possível determinar a taxa cardíaca e seu ritmo. Assim, aumentou-se a preocupação com o estudo das coronárias, promovendo uma redução na taxa de mortes por doenças cardíacas graças a prevenção.

Estudos na primeira metade do século XX sobre pressão alterada e sopros no coração em animais, ocorrendo naturalmente ou de forma induzida geraram os primeiros fundamentos para a moderna cardiologia e para a cirurgia cardíaca.

No início dos anos 40, André Cournande e Dickinson W. Richards em Nova York evidenciaram um método para a medida da pressão do coração humano. Além disso, várias drogas foram descobertas contra doenças cardíacas. Enfim, essas descobertas foram essenciais para o desenvolvimento da cardiologia. Assim, entendendo as bases moleculares das doenças cardíacas surgiram benefícios para principalmente duas áreas (arteriosclerose e arritmias).

Cirurgia Cardíaca

Por um longo período o coração era considerado fora dos limites da cirurgia.

Até que em 1896, Ludwig Rehn reparou uma laceração num coração. Primeiramente, descobriram-se métodos sobre a anestesia para uma operação no tórax, até que se introduziram gases anestésicos na traquéia, obtendo êxito em 1948, quando Robert Cross fez uma cirurgia de enxerto de tecido na aorta de um paciente. Em 1952, Hufnagel implantou uma válvula sintética em um paciente. Em 1956 foi permitida a visualização da cateterização cardíaca ou seja do interior do coração através da injeção de substâncias radiopacas. Além disso, houve grande avanço das cirurgias para correção de anomalias congênitas.

Gastroenterologia

Raramente um campo da ciência desenvolve-se da noite para o dia, mas pode-se dizer que a gastroenterologia moderna nasceu na manhã de 6 de junho de 1822, quando o Dr. William Beaumont tratou uma grave ferida de um paciente que deixou seu estômago exposto através da parede abdominal. Os vários experimentos conduzidos por Beaumont provaram a presença do ácido clorídrico no suco gástrico, estabeleceram a intima relação entre o estado emocional, a secreção gástrica e a digestão, ou seja, abriram as fronteiras para pesquisas fisiológicas na gastroenterologia.

Em 1902, William Bayliss e Ernest Starling descobriram que uma substância química do tecido intestinal (a que eles chamaram de secretina) era capaz de estimular a secreção pancreática. Esse fato revolucionou as ciências biológicas ao provar que a função de um órgão pode ser regulada por substâncias químicas.

Em 1905, Bayliss criou a palavra hormônio (do grego: provocar atividade) que designava todas as classes de mensageiros químicos como a secretina do mesmo tempo. John Edkins demonstrou a presença de uma substância química estimuladora da secreção gástrica no estômago de cães, a que ele nomeou gastrina.

Endocrinologia



Talvez a mais famosa contribuição para a endocrinologia foi o isolamento da insulina por Frederick Banting e Charles Best em 1921.

Na década de 20 foram descobertos os princípios da estimulação dos órgãos sexuais pela glândula pituitária. Pouco depois, as estruturas químicas dos hormônios sexuais femininos foram delineadas e sua relação com o ciclo menstrual explicada. Baseado nisso, os contraceptivos orais foram, posteriormente, introduzidos na década de 50.

A descoberta, após 1900, que substâncias da camada interna das glândulas adrenais aumentavam a pressão sanguínea, possibilitou aos médicos diagnosticarem os efeitos dos tumores das adrenais e levou ao entendimento do mecanismo de hipertensão.

Com o acúmulo de mais informações, a glândula pituitária foi vista como sendo a estação central de controle de todas as outras glândulas endócrinas.

Oftalmologia

Na virada do século, muitas das ferramentas básicas da oftalmologia já eram conhecidas. As estruturas microscópicas do olho na saúde e na doença eram bem conhecidas, mas detalhes completos de como o olho funciona ainda não tinham sido estudados. Em termos de tratamento, havia uma cirurgia grosseira para eliminação de cataratas e alguns procedimentos para o glaucoma.

Por volta de 1900, urna operação razoavelmente satisfatória substituiu a antiga técnica em que a catarata era simplesmente empurrada para fora da linha da visão. No século XX a remoção da lente era feita consideravelmente de modo mais prático com o advento da anestesia local. Com o passar dos anos, o aperfeiçoamento dos instrumentos e das técnicas cirúrgico fez com que a cirurgia se tomasse mais segura e eficaz.

Ortopedia

Por muitas décadas, ortopedistas eram médicos e cirurgiões interessados em doenças e deformidades músculo-esquelética, tais como escoliose, infecções dos ossos e articulações, paralisia devido à poliomielite, defeitos congênitos, além de fraturas e deslocamentos.

Em 1908, Erich Lexer relatou, aparentemente, grande sucesso com transplante de toda articulação do joelho de uma pessoa para outra, mas este procedimento nunca foi assumido por outros ortopedistas, provavelmente porque resultados tardios não confirmavam as expectativas. Em 1911, Russel Hibbs revolucionou o tratamento de escoliose e tuberculose espinhal por criar uma cirurgia de fusão espinhal que continua a ser aperfeiçoada e modificada.

O deslocamento do disco intervertebral foi reconhecido como sendo causa comum de dores na parte inferior da coluna em 1911. Uma hérnia de disco foi removida pela primeira vez em 1934.

Neurologia


Na primeira década do século XX, a estrutura e função das fibras e células nervosas foram esclarecidas pelas investigações de Camillo Golgi e Santiago Ranión. Os métodos de cultura de tecido criada em 1907 para determinar como as fibras nervosas regeneravam após uma lesão tornaram-se uma ferramenta essencial para pesquisa em outras áreas, como cirurgia vascular e virologia.

Charles Sherrington e Edgar Adrian receberam um Prêmio Nobel em 1932 por suas investigações em reflexos, impulsos nervosos e no mecanismo da sensação. Posteriormente George Wald e Ragnar Granit também receberam prêmio Nobel por suas descobertas na fisiologia da visão.

Nos últimos vinte anos, as neurocirurgias têm sido utilizadas não só para a remoção de tumores e aneurismas, mas também para o alívio da dor, redução de tremores e comportamentos anormais, e modificações benéficas dos mecanismos hormonais no tratamento do câncer.

Cronologia da Medicina no Século XX

1901 – O japonês Jokichi Takamine isola a epinefrina (adrenalina).

1902 – O francês Charles Robert Richet descobre a anafilaxe (sensibilidade anormal do paciente a tratamento com soro) e a forma de testa-la.

1904 – O norte-americano William Crawford Gorgas desenvolve o modo de erradicar a febre amarela, até então o combate a doença era realizado com doses de quinino.

1905 - Protótipos de máquinas de Raio X manuais passam a ser usadas em grandes hospitais e centros médicos. As máquinas são perigosas e expõem os pacientes a doses altas de radiação, mesmo assim a descoberta é significativa para a medicina.

1906 – O austríaco Clemens von Pirquet define a sintomatologia da alergia. Óxido Nítrico ainda é usado como agente anestésico, apesar de testes com etileno e acetileno. Cocaína também é utilizada largamente, mas seus riscos induzem a criação de um derivado sintético a Novocaína.

1907 – O geneticista norte-americano Thomas Hunt Morgan estuda como as características da mosca-das-frutas são transmitidas às crias. Percebe, então, que essas características passam de pai para filho gravadas em pedaços de cromossomos.

1909 – A palavra gene é criada pelo botânico dinamarquês Wilhelm Ludvig Johannsen. Ele quis usar uma expressão curta para designar os pedaços de cromossomos identificados por Thomas Morgan.

1910 - Vacinas para catapora e sarampo passam a ser usadas para inocular populações. Testes preliminares demonstram seu sucesso, mas elas são vistas com reservas em várias partes do mundo. 

1912 – O norte-americano Paul Ehrlich usa a acriflavina como anti-séptico. O inglês Frederick Hopkins descobre a importância das vitaminas na prevenção e tratamento de raquitismo, escorbuto e beribéri. 

1913 – Aprofundando o estudo das vitaminas, o bioquímico norte-americano Elmer Cerner McCollum demonstra que elas são essenciais à saúde. Vitaminas passam a ser vendidas em farmácias.

1914 – O francês Aléxis Carrel faz a primeira operação cardíaca bem-sucedida em um cachorro.

1916 – O romeno Toma Ionescu faz a primeira simpatectomia (remoção de parte do sistema nervoso simpático), para aliviar a angina pectoris. É descoberto o processo de refrigeração do plasma sanguíneo para transfusões.

1920 – O norte-americano Harvey Williams Cushing desenvolve técnicas de cirurgia cerebral.

1921 – Os franceses Albert Calmette e Camille Guérin preparam a vacina BCG contra a tuberculose. O alemão Friedrich Dessauer faz a utilização terapêutica dos raios-X.

1922 – Começa a ser usada no tratamento da diabetes a insulina artificial. O francês Aléxis Carrel descobre a função dos glóbulos vermelhos do sangue.

1924 – A insulina é purificada pelo médico canadense Frederick Grant Banting e seu assistente Charles Herbert Best. Eles extraem a substância diretamente do pâncreas de um cachorro.

1928 – Por puro acaso, o bacteriologista escocês Alexander Fleming descobre a penicilina, o primeiro antibiótico. Por esquecimento, ele deixa sem proteção um caldo de micróbios que estava criando no laboratório. No dia seguinte, vê que um pouco de mofo tinha crescido em alguns pontos do caldo e que, nesses locais, os micróbios estavam mortos. Purificando o mofo, observa que é capaz de liquidar diversos tipos de bactérias.

1930 – O norte-americano Max Theiler desenvolve vacina contra a febre amarela.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Tratamento de Choque - A Verdadeira História da Terapia Eletroconvulsiva



Esses tempos narrei um cenário de Call of Cthulhu que se passava em um manicômio em que os personagens eram internos. Um dos momentos mais tensos envolvia a clássica cena do Eletrochoque.

Para ajudar a entender o procedimento, fiz uma pesquisa a respeito do eletrochoque que foi a base para esse artigo.


Ah sim, tenham em mente que eu não sou médico ou psiquiatra, assim sendo espero que os colegas que eventualmente trabalhem na área e tem conhecimento do assunto relevem alguns pequenos erros. Por sinal, aqueles que quiserem corrigir esses mesmos erros fiquem à vontade para fazê-lo.




Quando se pensa em manicômios e sanatórios mentais, uma imagem recorrente que vem à mente é a do notório Eletrochoque.


O procedimento, cujo nome correto é Terapia Eletroconvulsiva (ECT), consiste na aplicação de choques de pequena voltagem através de eletrodos fixados nas têmporas do paciente com objetivo terapêutico no tratamento da depressão severa, catatonia, mania e quando foi criado como opção no tratamento da esquizofrenia.


Muitas pessoas, ainda hoje, acreditam que a aplicação do Eletrochoque constitui exclusivamente uma forma de punição aos pacientes rebeldes. Ou que a utilização dele é algo cruel e reprovável. De fato, o histórico de abusos cometidos, a falta de informação e a própria natureza do tratamento sempre geraram controvérsia. 


A Terapia Eletroconvulsiva foi desenvolvida pelos médicos italianos Ugo Cerletti e Lucio Bini que estudavam a relação existente entre convulsões e esquizofrenia. A teoria corrente era que esquizofrenia e epilepsia não podiam se manifestar simultaneamente em um mesmo paciente, portanto forçando um quadro de epilepsia a outra doença (mais grave) desapareceria naturalmente. 


Os psiquiatras na década de 1920, acreditavam que a melhor forma de controlar a esquizofrenia era portanto estimular convulsões usando para isso métodos não-ortodoxos. 


Primeiro foram feitas experiências que visavam induzir o coma. Doses maciças de insulina eram ministradas nos pacientes esquizofrênicos com objetivo de deixar o paciente em estado de inconsciência. Revertendo o processo, alguns médicos acreditavam que os pacientes manifestavam melhora significativa. Uma segunda vertente utilizava substâncias que causavam convulsões como forma de moderar surtos esquizofrênicos. Para isso injetavam um derivado de cânfora direto no paciente para que ele manifestasse uma reação convulsiva semelhante a epilepsia.  


Em 1937, um neurologista italiano chamado Ugo Cerletti estava convencido que as convulsões induzidas pela substância metrazol eram úteis para o tratamento de esquizofrenia. Contudo, a solução era perigosa já que não havia um antídoto para parar as convulsões depois de iniciadas. Além disso, os pacientes tinham um temor profundo do tratamento.


Cerletti sabia que uma pequena descarga elétrico aplicada na cabeça gerava como resposta convulsões, pois, como um especialista em epilepsia, ele tinha feito experimentos com animais para estudar as consequências neuropatológicas do mal. 


O neurologista desenhou um equipamento simples visando provocar crises epilépticas em cães e outros animais. Ele utilizou a máquina em mais de 300 animais obtendo em alguns casos horríveis resultados, mas aos poucos a potência ideal foi ajustada. A ideia de usar o choque eletro-convulsivo em seres humanos ocorreu-lhe pela primeira vez ao observar porcos sendo anestesiados com um método semelhante, antes de serem abatidos nos matadouros em Roma. A técnica era empregada há anos e deixava os animais dóceis e submissos.



Cerletti convenceu dois colegas Lucio Bini e L.B. Kalinowski (um jovem médico alemão) a ajudá-lo a desenvolver o equipamento usado para produzir breves choques elétricos em seres humanos.


Eles experimentaram vários tipos de dispositivos, até determinar os parâmetros ideais e aperfeiçoarem a técnica. Os pacientes escolhidos em manicômios e asilos no norte da Itália sofriam de esquizofrenia aguda. Após 10 a 20 eletrochoques em dias alternados, a melhora na maioria dos pacientes começou a se tornar evidente. 

Um dos benefícios inesperados do eletrochoque trans-craniano foi que ele provocava amnésia retrógrada, ou seja, uma perda de todas as memórias de eventos imediatamente anteriores ao choque, incluindo a sua percepção. Assim, os pacientes não tinham sentimentos negativos relacionados à terapia, como acontecia com o choque causado por metrazol, muitas vezes  traumatizante. Além disso, o eletrochoque era mais seguro e mais bem controlado, além de ser menos nocivo para o paciente do que a indução de elementos químicos.

Em 1939, Kalinowski começou um tour para anunciar a terapia por choque eletro-convulsivo ao redor do mundo, visitando a França, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. 

Pesquisadores que adotaram o método de Cerletti-Bini logo descobriram que ele parecia ter efeitos espetaculares sobre os distúrbios afetivos. De acordo com E.A. Bennett, 90% dos casos de depressão severa que eram resistentes a todos os outros tratamentos, desapareceram após três ou quatro semanas de eletrochoques. Logo, o curare e escopolamina estavam sendo usados em conjunto com a terapia eletroconvulsiva, e gradualmente substituíram o choque induzido por insulina e metrazol. O eletrochoque começava então a sua longa jornada como a terapia de mais utilizada na maioria dos hospitais e asilos ao redor do mundo.

Outros tipos de terapia por choque foram brevemente testados, tais como a indução de febre por meio de microondas radio-magnéticas, anóxia cerebral transitória induzida pela respiração de uma mistura de oxigênio e nitrogênio, e pela crioterapia (redução abrupta da temperatura corporal). Os resultados foram dúbios na maioria das vezes, e estas técnicas foram logo abandonados em favor da terapia eletroconvulsiva, mais prática, eficiente e barata.

A técnica de eletrochoque foi aperfeiçoada  desde então, incluindo o uso de relaxantes musculares sintéticos, o uso de EEG para monitoração da crise, e construção de melhores dispositivos para ministrar o choque trans-craniano.  Apesar destes avanços, a popularidade da terapia eletroconvulsiva diminuiu gradualmente nas décadas de 60 e 70, devido ao uso de neurolépticos mais efetivos e como resultado de um forte movimento antagônico ao eletrochoque em psiquiatria. Entretanto, a terapia eletroconvulsiva voltou a ganhar evidência nos últimos 15 anos, devido à sua eficácia. É a única terapia somática da década de 1930 que permanece em grande uso ainda hoje. Calcula-se que entre 100.000 e 150.000 pacientes são submetidos à terapia por eletrochoque anualmente apenas nos EUA.

Terapia de Choque em cenários de Horror


Para cenários repletos de horror e loucura, a Terapia Eletroconvulsiva oferece várias oportunidades para criar tensão e medo.


Uma vez que a maior parte dos cenários se passa nos anos 20-30, podemos assumir que o tratamento ainda estava em etapa de experimentação e muitos médicos realizavam testes com suas próprias máquinas. Adaptando essa noção para o universo de terror é possível imaginar médicos sem muita ética ou até mesmo sádicos cruéis realizando experiências bizarras nos pobres pacientes de manicômios.


Máquinas caseiras ou modificadas poderiam ser usadas por "médicos" interessados em literalmente cozinhar o cérebro de suas vítimas. Choques consecutivos em uma potência acima do que é considerado seguro visando diretamente o cérebro poderiam causar horríveis danos mentais. Uma sessão prolongada poderia resultar em uma lobotomia. É importante salientar que no mundo real, tais experiências foram incrivelmente raras - o que não significa que tais coisas não possam ocorrer no reino da ficção. Nos anos 40 e 50, o cinema de horror e a literatura, trataram de transformar o Tratamento Eletro-Convulsivo em algo assustador, dramático e brutal.


Em termos de jogo, o tratamento eletro-convulsivo pode ser incrivelmente traumático para quem assiste uma sessão e não sabe exatamente como ele funciona. Existe uma série de preparativos e a maneira como o equipamento é empregado pode causar a impressão de que o paciente está sofrendo uma verdadeira tortura. 

Em Call of Cthulhu, o custo por presenciar uma pessoa passando por esse procedimento é de 0/1d3, o montante aumenta para 1/1d4 caso o paciente seja algum conhecido, parente ou amigo próximo. Em Rastro de Cthulhu, os testes de Estabilidade por presenciar esse tratamento tem dificuldade 2 e 4, respectivamente.



Ironicamente, o tratamento tem como consequência direta desorientação e perda de memória do paciente, o que inibe a perda de Sanidade do paciente. Imagino que o tratamento poderia ser usado em um investigador que acaba de sofrer uma perda acentuada de sanidade a fim de fazer com que ele esqueça de algo incrivelmente traumático. Francamente, eu mesmo não saberia dizer se esse procedimento de choque seria válido na minha mesa de jogo. 


Via de regra, máquinas usadas em Tratamento Eletro-convulsivo estão restritas a asilos, manicômios, casas de repouso e hospitais e são operadas por médicos e profissionais treinados. Apenas um médico atuante nessa área tem as credenciais necessárias para operar esse equipamento legalmente. 


A partir de 1940, surgiram as primeiras máquinas portáteis (como essa aí da foto) que podiam ser alimentadas com baterias semelhantes às usadas em automóveis. Esses aparelhos eram igualmente eficientes e tinham a vantagem de poder ser levados para qualquer lugar. Hoje em dia, muitas dessas máquinas portáteis são consideradas valiosas peças de coleção.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A Medicina a serviço do RPG | IV. Lesões por fogo, frio e eletricidade


Por Rodrigo Spohr
Comentários de Luciano Giehl (em azul)

Por uma questão de sensibilidade optei por não colocar fotos de indivíduos feridos pelos tipos de dano descritos nesse artigo. Os textos no entanto são bem evocativos e contém uma descrição detalhada do que acontece quando alguém é queimado, congelado ou atingido por uma descarga elétrica.

Uma das formas mais sombrias de se morrer, em minha opinião, é a morte trazida pela combustão. Certamente estaria no meu “top 3” das mortes mais cruéis, onde estão inclusas morte por asfixia (seja por estrangulamento, afogamento...) e por tortura, mas isto fica para um próximo artigo.

Neste tópico, abordaremos três tipos de lesões que são mais semelhantes do que se imagina: são elas o dano térmico (fogo/calor e frio) e o dano por eletricidade.

1)Fogo (vulgo “Calor”)

O fogo é considerado uma entidade própria para muitas culturas e religiões. Representa energia, opulência, paixão...e também o fim. Deparamo-nos com o fogo e, principalmente, com o “calor” (no sentido de temperatura elevada, não no sentido literal da física), quando nos alimentamos (forno, fogão), quando nos deslocamos (combustão de gasolina, álcool, diesel), quando trabalhamos (“restos” da geração de eletricidade nos computadores, lâmpadas, máquinas...)...Estamos eternamente manipulando o calor e o fogo para a nossa melhor qualidade de vida. Sendo, então, de uso tão comum, acidentes com fogo não são raros.

Não por acaso em cenários lovecraftianos existem vários cultos devotadas ao fogo que glorificam seu aspecto de criador e destruidor da vida. Cthugha uma entidade chamada de "A Chama Viva" é a personificação do Fogo em seu estado de consciência. Cthugha se assemelha a uma colossal bola de fogo que habita algum lugar na constelação de Formaulhaut.

A) Como nos machucamos?

Lembram as aulas de Ciências? De forma rudimentar, podemos dizer que somos um saco d’água envolto por uma carapaça de tecido, que chamamos de pele. A pele protege nossos órgãos internos da perda d’água, do ataque de microorganismos, de agentes químicos, da radiação ambiental e solar. A pele é esta fortaleza dinâmica que permite ao ser humano sobreviver ao dificílimo ambiente externo. Podemos viver com um rim ou pulmão a menos, sem metros de intestino delgado, sem a maior parte do intestino grosso, sem 80% do fígado, sem metade de nosso cérebro, sem nosso dois olhos, com surdez total, sem tato, olfato e paladar...mas não podemos sobreviver se estivermos sem nossa pele.

E o que pele tem a ver com lesões por calor?

Na imensa maioria das vezes entramos em contato com o calor/fogo através do ambiente externo. Logo, nossa pele é o alvo a ser atacado inicialmente, servindo como defesa ao nosso interior. E podemos nos queimar de diversas formas, seja pelo contato com sólidos, líquidos ou gases quentes ou mesmo pela radiação. Nossa pele reage ao contato com essa energia, mas acaba se lesionando de forma variada, dependendo o tipo de calor, a forma que ele se encontra, a temperatura e o tempo de contato.
O calor destrói as células, avançando sobre nosso corpo, lesionando, dependendo da intensidade, nossos nervos, músculos e até mesmo ossos.

B) Queimaduras doem muito, não?

Depende! Isto é um fator importante: a queimadura que mais costuma doer é a chamada Queimadura de Primeiro Grau, que afeta apenas a pele. É aquela queimadura de sol na praia, ou pelas águas-vivas (malditas criaturas Cthulhicas!)...ou quando pegamos uma xícara quente demais, ou algo que tiramos do forno sem proteção adequada...é aquela queimadura que deixa APENAS vermelhidão.

Em termos de jogo seriam as queimaduras mais convencionais. Um personagem que toca em um cano de calefação, que é atingido por água quente ou que é golpeado brevemente por uma tocha acesa usada como clava. É claro também diz respeito ao rápido toque de um Vampiro de Fogo ou a contemplação de Cthugha a grande distância.

Queimaduras de Segundo Grau são mais profundas, e deixam BOLHAS. Interessante é que podem doer menos, pela possiblidade delas alcançarem a camada dos nervos, e destrui-los. Logo, não há como sentir dor...

Me vem a cabeça a queimadura de óleo fervente (arma muito eficaz na idade média), uma queda sobre uma fogueira, a exposição a uma pira acesa e outros horrores. O toque prolongado de um Vampiro de Fogo ou o tentáculo de Cthugha podem causar esse tipo de destruição.

A Queimadura de Terceiro Grau é a mais preocupante, pois atinge os músculos e ossos. Deixa seqüelas importantes, como cicatrizes grosseiras, e não há recuperação da pele. É a queimadura que ocorre frequentemente quando entramos em combustão.

Ter o corpo envolvido pelas chamas causadas pela explosão de um tanque de gasolina, ser banhado por azeite fervente, a labareda direta de um lança chamas da Grande Guerra. No campo esotérico os efeitos da Combustão Humana Espontânea causariam esse tipo de dano. Fora isso o abraço de Cthugha ou o avanço de um enxame de vampiros de fogo podem reduzir a vítima a um monte de ossos calcinados.

Além disso, não doem nada, pelos mesmos motivos da queimadura de segundo grau.
Alguns autores citam a existência da queimadura de Quarto Grau, que seria basicamente a pulverização: quando restam apenas cinzas.

C)E quando alguém sobrevive as chamas, está salvo, certo?

Errado. Existem várias formas de se morrer em um incêndio...Uma causa freqüente é intoxicação com o gás Monóxido de Carbono, o que leva ao sufocamento. Outra causa são os gases do ambiente queimar nosso aparelho respiratório, levando igualmente ao sufocamento. Uma outra maneira é quando há queima importante de pele e músculos em nosso tórax, levando a incapacidade de usar tais músculos para ativar os pulmões levando a um...sufocamento. Como pode ser visto claramente, sempre deve-se pensar em sufocamento como causa de morte em um incêndio fechado. Mas falaremos do sufocamento em um próximo artigo!

Uma das maneiras de se identificar a causa da morte de uma pessoa no local onde ocorreu um incêndio é verificar na autópsia se há indícios de fuligem no pulmão ou queimaduras no sistema respiratório (boca, garganta e pulmão). Se esses fatores não estiverem presentes é seguro afirmar que a vítima estava morta antes do fogo chegar até ela. Muito provavelmente nessas circunstâncias a cena foi armada para disfarçar com um incêndio uma morte ocasionada por outro fator.

Quando noticiam na televisão que “a vítima do incêndio sofreu queimaduras em mais da metade do corpo”, isso não é apenas um detalhe macabro. Quanto mais o nosso corpo for queimado, mais nosso organismo está exposto ao ambiente cruel que nos cerca, logo as bactérias tem acesso a nossa apetitosa persona. Quanto maior o grau da queimadura, menos extensa precisa ser para levar a infecções graves e consequentemente, a morte.

Como regra geral, mais de 50% do corpo tomado por queimaduras importantes deve levar a infecção de difícil tratamento.

E isso em ambientes hospitalares. Uma vítima de fogo na minha opinião dificilmente poderia ter pontos restaurados pela habilidades Primeiros Socorros. Nada menos que Medicina poderia preservar esse ferido e mesmo assim apenas temporariamente. Eu costumo usar como House Rule que ferimentos ocasionados por fogo são especialmente cruéis e os Hit Points perdidos só podem ser restaurados mediante tratamento médico hospitalar.

Outro fator importante é que danos por fogo deixam marcas muito distintas no corpo da vítima. Como regra opcional eu costumo aplicar que a cada três pontos de dano sofrido diretamente por fogo, a vítima perde 1 ponto em seu atributo Appearance (APP = aparência física).


D)E como usar isso em uma campanha de CoC?

Muitas criaturas têm acesso ao poder de combustão, além de haver magias pavorosas que levam um indivíduo a ser incinerado. Esqueça as aventuras de D&D, onde o mago lança uma bola de fogo e nada mais grave do que 10d6 de dano costuma ocorrer. Mostre aos seus jogadores o quão letal e perigoso é o poder destrutivo das chamas. Uma simples queimadura deve ao menos doer bastante, e as queimaduras mais graves inexoravelmente levarão a infecções. Lembrem-se: os antibióticos só surgiram com força DEPOIS da Segunda Grande Guerra, então não existe NENHUM tratamento efetivo para as grandes queimaduras. Além disso, usava-se muitos ungüentos e emplastros, que levam apenas a uma PIORA da lesão.

Dica: pergunte a algum idoso como tratar queimaduras, e vai entender como funcionava a mentalidade a respeito disto há algumas décadas atrás... (no Pronto Socorro é comum os pacientes utilizarem as milagrosas pasta de dentes, pó de café, salmoura, banha de porco...)

Narrador, utilize TODOS os sentidos dos seus jogadores: descreva as queimaduras de forma fatalista (“a pele se foi, deixando espaço para a carne vermelha, muito vermelha, exposta, com grande quantidade de líquidos e de aspecto gosmento”); se for uma queimadura mais extensa, faça questão de narrar o aspecto oleoso da gordura amarelada queimada, e o seu cheiro insuportável e adocicado de churrasco. Caso um jogador faça os primeiros socorros, descreva o tato aquecido, a secreção que escorre aos poucos pelas mãos do socorrista. Faça-os escutar os gritos de dor e pânico, mutile as extremidades das vítimas, e suas lesões por Fogo nunca mais serão as mesmas.

O horror ligado a experiência de ser queimado pode ser deveras severo. Uma queimadura profunda jamais é um efeito que pode ser descartado. A dor e as marcas persistem a passagem do tempo. O keeper pode aplicar perda de sanidade a esse tipo de dano. Na minha opinião queimaduras simples estariam isentas, queimaduras de segundo grau poderiam causar a perda de 1d3 pontos de sanidade e grandes ferimentos um montante de 1d6. Em certas situações apenas a sugestão de ser queimado pode causar a perda de sanidade. Um soldado enfrentando um inimigo com um lança chamas poderia estar sujeito a perda de 1d8 pontos de sanidade e alguém preso a uma estaca de mandeira numa típica fogueira medieval é submetido a 1d10. Já alguém aprisionado num forno aceso não deveria perder menos que 1d20.

E)Piromania e Pirofobia:

Respectivamente, impulso maníaco por incinerar objetos, e medo de fogo. A primeira doença pode causar grandes estragos, tanto para o doente (o piromaníaco), quanto às outras pessoas, devido à necessidade desenfreada de atear fogo em certas estruturas. Piromaníacos tem prazer em ver objetos sendo consumidos pelas labaredas, e tem nesta atividade perigosa e criminal como uma fuga de sua realidade. Costumam fazê-lo em repetição.

Piromaníacos quando em momentos de stress precisam do conforto do fogo. A visão das chamas e a sensação do calor proporcionado por elas é uma necessidade quase física, uma espécie de vício. Um investigador sofrendo desse distúrbio pode se converter em um grave risco para a segurança de seus colegas. Considere que um personagem piromaníaco tem uma chance de 5% para cada ponto de sanidade perdido de ser dominado pelo desejo de iniciar um incêndio.

Já a pirofobia é semelhante as demais fobias, como medo de lugares fechados, de altura, aranhas, multidões...o doente evita a todo custo estar próximo a uma chama, e se não houver como escapar desta situação, estará provavelmente em pânico, suando frio, com o coração acelerado, boca seca, e o pensamento voltado inteiramente à fuga, não conseguindo concentrar-se em absolutamente mais nada.
Ambas condições poderiam ser as seqüelas psicológicas de uma vítima exposta ao terror de, por exemplo, um incêndio, ou ser ateada com fogo.

2) Frio

Por incrível que pareça, lesões por contato a substâncias muito frias são extremamente parecidas com lesões por fogo e calor! A expressão “queimar de frio” é mais verdadeira do que se imagina...

Diferença básica é que o contato ao frio costuma colar a pele ao objeto (experimente “pegar” um cubo de gelo da forma apenas com o contato do dedo), e não costuma levar a lesões de gravidade tão importante como as causadas por fogo. A não ser, óbvio, que se mantenha o contato por bastante tempo.

Lembrar-se sempre da chamada Hipotermia. Nosso organismo foi feito para operar a uma temperatura ideal, que oscila externamente por volta dos 36ºC. Quando somos expostos a temperaturas muito baixas, nosso corpo precisa equilibrar a perda de calor, o que nos deixa, por exemplo, mais pálidos (o sangue sai da periferia e vai para dentro do corpo), e nos faz tremer (o tremor gera calor!). Se mantidos numa temperatura muito baixa por um longo período, acabamos perdendo nossas extremidades onde o calor é menor (dedos, por exemplo), e cedo ou tarde o nosso organismo entra em colapso.
Nas suas sessões, lembre-se disto quando as aventuras forem ambientadas em ambientes polares, por exemplo. A dor causada pelo vento gelado REALMENTE pode ser muito semelhante à lâmina de uma navalha! Caso os jogadores percam suas proteções térmicas, narre o desespero da dor que não passa, a ânsia em buscar abrigo, a nostalgia que a lembrança de uma cabana com uma boa lareira causa...

A pele humana congela a uma temperatura de -6 graus célsius. A exposição prolongada a temperaturas extremas de frio causa um efeito conhecido como congelamento (frostbite).Personagens submetidos a temperaturas muito baixas por determinado tempo começam a sofrer efeitos nocivos que possuem uma graduação semelhante a exposição ao fogo. O primeiro sinal de congelamento é um vermelhão ou marcas amareladas na pele, seguido por bolhas de 12 a 24 horas após a exposição. Frio pode ser um perigo extremo e a recuperação pode demorar semanas. Em casos mais graves as lesões são causadas nos músculos (que congelados) causam terrível dor e impedem o movimento normal. A gangrena no entanto é o pior dos riscos, ela ocorre quando há necrose da pele e o consequente acúmulo de bactérias.

As extremidades do corpo (mãos, braços, pés, pernas) tem mais propensão a congelar e nesses pontos a pele morta se torna escura, seca e enrugada. Na maioria dos casos (na ausência de antibióticos) é necessário realizar procedimento de amputação para que a infecção não se espalhe pelo corpo. A sanidade para esse tipo de dano deve ser ajuizada pelo keeper, uma perda acentuada

Um detalhe: quando expostos à água, a hipotermia apresenta-se mais depressa! Estar molhado em um ambiente glacial é estar abraçado à morte.

É o risco de cruzar um lago congelado e cair na água gelada. A dor nesses casos é comparada a ter centenas de agulhas enfiadas no corpo, não por acaso o termo frostbite pode ser traduzido ao pé da letra como "mordida de frio".

Não se esqueça, também, das alucinações que um ambiente polar pode causar, seja pelo branco onipresente das neves (que pode cegar temporariamente aquele que não utilizar um óculos escuro, por exemplo), ou pela diminuição de sangue no cérebro, ou ambos...será que aquilo é uma miragem, ou é mesmo o pavoroso Ithaqua...?

Ithaqua será assnto para um próximo artigo que vai se referir também a alucinações e terrores causados pela neve e clima congelante.

3) Eletricidade

E eis o terceiro tipo de energia a ser abordada em nosso artigo. Em nosso meio é mais comum que o dano por frio, mas não se pode dizer o mesmo nos cenários puristas, em geral norte-americanos, de CoC: depende muito da época e local onde a narrativa se passar. Também é importante lembrar que a energia elétrica nem sempre estará disponível aos jogadores em épocas passadas, pelo menos não da maneira abundante como é hoje!

Mas falemos primeiramente em como a eletricidade faz mal ao ser humano...

Quase todos já tomaram um choque, seja leve (como um mau-contato em um aparelho eletrônico portátil) ou mais sério (choque direto na tomada). Mas poucos de nós já tomamos (e ficamos vivos e inteiros para contar...) uma descarga elétrica de uma rede de alta tensão, ou mesmo um raio. Eletricidade machuca, sim, mas depende muito - como aqueles que estão acompanhando a série de artigos têm sempre visto aqui - de vários fatores. No caso, depende da quantidade de energia transmitida, do local no corpo onde há o contato com a vítima e se a mesma possui algum tipo de proteção (um isolante elétrico, como roupas/luva de borracha), entre outros.

Quando entramos em contato com uma corrente elétrica, se a mesma for de intensidade considerável, irá agir em nosso corpo. Danificará nossas células, seja pela quantidade absurda de energia, ou pelo efeito joule (transformação de energia em calor – literalmente, queima!) e como somos um “condutor elétrico ambulante” (já que 70% de nosso corpo é água e temos muitos e muitos íons espalhados por toda nossa estrutura), a corrente irá agir por várias partes do nosso corpo. Detalhe especial: se a mesma passar pelo coração, existe chances importantes de fazê-lo parar na hora, e ter morte instantânea – se for por um raio, isso é chamado de Fulminação.

Não há muitos horrores lovecraftianos com ataques baseados em eletricidade, mas eu poderia citar Yog-Sothoth como uma entidade capaz de fulminar indivíduos com raios. Sem dúvida, algumas manifestações de Nyarlathotep também teriam acesso a esse tipo de dano. De um ponto de vista prático, muitas criaturas inteligentes ligadas ao Mythos dominam formas de energia como a eletricidade. A Grande Raça de Yith desenvolveu as notórias Lightning Guns (Armas de Raios parecidas com máqinas fotográficas) que disparam descargas elétricas mortais. Os Mi-go também usam eletricidade e muitas de suas máquinas e aparatos são alimentadas por energia elétrica. Pode não ser uma boa idéia tocar nesses artefatos com as mãos nuas. Considere que uma descarga elétrica leve (um fio desencapado) ocasiona um dano de 1d2pontos, um choque mediano (tomada) causa 1d6 pontos de dano, uma forte descarga elétrica causada por uma rede de alimentação causaria no mínimo 1d10 pontos de dano. Mas não se está limitado a isso: uma carga prolongada pode gerar dano contínuo a cada rodada até que o personagem seja morto.

Logo, a eletricidade queima, devido a conversão de energia em calor, e pode cessar a atividade de nosso coração. Quanto mais energia, maior será o dano, obviamente.
Quem sofre um choque elétrico de proporções mais sérias costuma ficar com algum tipo de seqüela, costumeiramente física (há lesão dos nervos, músculos), podendo haver, além de cicatrizes feias, perda de função de membros (não conseguir usar direito a mão, braço ou perna afetados) ou mesmo danos neurológicos (perda de memória, fala, emoções, visão, audição, capacidade de comunicar-se...).

A visão que me vêm a mente é a dos surfistas ferroviários. Quando atingidos por um fio de alta tensão a descarga era tão forte que o sujeito literalmente derretia produzindo um buraco no teto das composições.

Dica: Caso queira colocar este tipo de mecanismo de dano contra os seus jogadores, ressalte a dor provocada pelo choque elétrico: realmente é uma dor “afiada”! Não dê muito tempo para o jogador refletir sobre o ocorrido: quem leva um choque não tem esse tempo de reflexão... faça seus jogadores perderem a memória do evento, devido a importância da lesão e sua repercussão em todo o organismo; faça seus jogadores, caso seja uma carga elétrica elevada, serem arremessados para longe, e talvez tenham suas mortes na queda, e não no choque!

Caso queira ser mais sutil, faça seus cultistas torturarem os infelizes investigadores, eletrocutando-os com correntes cada vez mais intensas, para obterem quaisquer informações pertinentes. Não se esqueça de mencionar a dor em “puxão” que o membro eletrocutado reflete e o cheiro de carne carbonizada!

Espero que estas informações sejam úteis em suas mesas de jogo. Comentários sempre são bem vindos, igualmente. Até mais!