Mostrando postagens com marcador Artigos Especiais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigos Especiais. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Seres das Trevas - Vampiros adaptados para Call of Cthulhu


Este artigo apresenta vampiros especialmente adaptados para a realidade de Horror Cósmico dos Mythos de Cthulhu.

Cada um desses terríveis "Seres das Trevas" foi criado com base na série de artigos a respeito de Vampiros. As fichas dos vampiros com suas estatísticas estão de acordo com as habilidades e poderes de vampiros conforme o Livro Básico de Chamado de Cthulhu - Capítulo Beasts and Animals.

Eu recomendo seguir três diretrizes para usá-los:

1 - Chamado de Cthulhu é um jogo a respeito de Horrores Cósmicos, nada impede o uso de uma criatura de Horror Gótico, ainda mais se adaptada a realidade dos Mythos, CONTUDO o foco do cenário devem ser os Mythos. O vampiro em questão é apenas mais uma criatura afetada pelos horrores dos Mythos.

2 - Vampiros são raros, muito raros. Leve em consideração que devem existir pouquíssimas dessas criaturas no mundo e que via de regra eles não se interessam em criar outros de sua raça. Vampiros são paranoicos, eles não se interessam em criar uma força capaz de um dia sobrepujá-los.

3 - Vampiros não são humanos. Quanto mais estranhas e bizarras as suas ações melhor. Mesmo os vampiros que vivem em sociedade o fazem apenas para ter acesso a alimento, vampiros, em especial estes vampiros, deixaram para traz qualquer resquício de humanidade.

Borska, o Maldito


Nas frias estepes do Cáucaso, próximo a fronteira que separa o norte da Turquia da Rússia resistem à passagem do tempo antigas lendas que são sussurradas com um misto de respeito e temor. Uma dessas lendas menciona Borska, aquele que atende pela alcunha de o Maldito.

Ninguém sabe o quão antiga é essa lenda, mas os mais antigos lembram de tê-la ouvido dos lábios de seus avós, que por sua vez, ouviram de seus próprios avós quando eram apenas crianças.

Borska é um bicho papão no Cáucaso, uma figura aterrorizante usada para assustar as crianças e fazer com que elas obedeçam seus pais e não se afastem de seus olhos zelosos. "Se você não se comportar, Borska vem te pegar!" dizem os pais e os pequenos obedecem temerosos de atrair a atenção do monstro.

Em vida Borska foi um feiticeiro de enorme poder, um homem que segundo as lendas era capaz de invocar demônios das estrelas que obedeciam suas ordens. Ele vivia como eremita em uma caverna aos pés do Monte Elbrus (na atual Geórgia), onde conduzia seus experimentos e flertava com as trevas. Todos temiam a caverna e evitavam o lugar pois coisas de fora desse mundo eram vistas e ouvidas na calada da noite. O feiticeiro era odiado pelos poderosos chefes guerreiros que desejavam tê-lo como aliado, mas que eram desprezados por ele. Borska não se envolveria em pequenas disputas, ele tinha coisas mais sérias a tratar, como a busca pela imortalidade e o poder que apenas os Grandes Antigos podiam conceder.

Em um ritual obscuro, Borska invocou a Escuridão Viva, o Grande Antigo, chamado Nyogtha e firmou com ele um pacto de imortalidade. O longo ritual drenou as forças do feiticeiro e esgotado ele baixou suas guarda. Um de seus inimigos, um chefe guerreiro, aproveitou a oportunidade e invadiu sua caverna acompanhado de 12 homens. Encontraram Borska em transe e sem pensar duas vezes o assassinaram. Seu corpo foi então amarrado a cavalos e despedaçado. Os restos foram atirados em um fosso profundo, no interior de uma de suas cavernas. Extasiados com a vitória, os guerreiros seguiram para comemorar a façanha.

Borska permaneceu morto por dias, mas o pacto firmado com Nyogtha seria honrado na próxima noite sem lua. O Antigo preencheu o interior do cadáver apodrecido com parte de sua essência negra como piche, o bastante para animá-lo e para emendar os ferimentos de seu cadáver mutilado, fazendo-o andar sobre a terra como uma criatura sobrenatural... um vampiro.

A vingança de Borska contra aqueles que o mataram foi cruel e é a parte mais conhecida da lenda. Os guerreiros envolvidos não foram mortos, ao invés disso, o vampiro foi atrás de cada um e os forçou a beber de uma taça onde havia regurgitado a escuridão dentro de sua carcaça apodrecida. Isso os transformou em seus servos pela eternidade, incapazes de resistir aos comandos de seu novo mestre. Borska forçou cada um deles a destruir tudo que lhes era querido: suas famílias, suas terras, seus amigos, seus animais. O vampiro fez com que os próprios homens tomassem parte no vilipêndio: em cada morte, cada destruição e violação impingida.

Quando mais nada restava a eles senão o sentimento de perda e a insanidade, ele os tornou seus seguidores devotados a Nyogtha até o final dos tempos. Dizem que Borska ainda vive no interior das cavernas no Cáucaso e que continua realizando suas experiências e adorando os demônios de além do tempo e do espaço.

Borska aguarda há séculos a realização de uma Profecia revelada a ele por Nyogtha. Quando a data marcada pelas estrelas chegar, a Terra será coberta pela escuridão em um longo eclipse. Um poderoso ritual então tornará essa noite perpétua e com essas condições Borska pretende libertar Nyogtha. Os seguidores do poderoso vampiro, todos eles vampiros como o próprio, vagam pelo mundo coletando indícios de que o eclipse se aproxima. Há rumores de que o Tempo das Trevas sem Fim estão próximos.

Nas profundezas de sua caverna, Borska aguarda pacientemente.

Borska, cruel feiticeiro e vampiro, idade desconhecida 3000+ anos

FOR 120
CON 75
TAM 60
INT 90
POD 120
DES 75
Bônus de Dano: +1d6
PV: 14
Ataques: Mordida 50%, dano 1d4 +
Garra* 50%, dano 1d4 +db
Olhar ** (compare POD x POD) o vampiro deve estar se concentrando na vítima.

A Essência de Nyogtha:

O corpo de Borska é um depositário da Essência de Nyogtha e ele pode liberar parte dela na forma de uma massa escura como uma sombra viva.

Tentáculos (1d4 ataques/round): 60%, dano 1d6 ou Agarrar

* Em um rolamento oposto de POD x POD, o toque do vampiro drena 1d3 pontos de magia que é transferido para o vampiro.
** Se o teste for bem sucedido a vítima é hipnotizada e obedecerá simples instruções. Se essas instruções forem autodestrutivas ou contra a moral do personagem, ele pode fazer um teste de INT x5 para quebrar o transe.

Armadura: O corpo do vampiro recebe dano normal mas se recupera na proporção de 1 PV por hora até ser totalmente regenerado. Se o corpo for destruído, a essência negra de Nyogtha em sua forma amorfa continua ativa. A essência negra de Nyogtha que preenche o interior do corpo é imune a todos os danos físicos. Magia, armas mágicas, fogo e eletricidade causam dano normal.

Habilidades Relevantes: Cthulhu Mythos 41%, Tortura 62%, Psicologia 65%, Ocultismo 78%, Russo 85%

Magias: Qualquer uma que o Guardião julgar adequada.

Poderes e Limitações como Vampiro: Necessita de Sangue humano, Afetado pela Luz do Sol (1d6 pontos/rodada), imune a símbolos sagrados, imune a estacas, Repelido pelo próprio reflexo, necessita repouso no interior de cavernas, domínio através da ingestão da essência de Nyogtha (POT 25).

Sanidade: 0/1d4 ao descobrir que se trata de um vampiro, - 1/1d6 se a sua essência negra for revelada.

Enloch


O Culto devotado ao Grande Antigo Rlim Tegoth sempre existiu no pequeno vilarejo de Cyoghan, no sudoeste da Irlanda.

Praticamente todos os habitantes são cultistas fiéis a Rlim Tegoth, chamado por eles de "O Verme Pálido". A população se reúne há gerações para venerar seu Deus em uma antiga construção de pedra erguida numa colina no centro de Cyoghan. No passado essa construção foi um templo dedicado aos antigos. Abaixo da construção existe um complexo infindável de túneis que adentram nas profundezas da terra e levam até o covil de Rlim Tegoth onde o verme dorme até que as estrelas estejam certas e ele possa despertar em definitivo.

Dentre os cultistas se destaca um indivíduo raramente visto, exceto quando se aproxima a época dos mais sagrados rituais que ocorrem a cada quatro anos.

A figura pálida e musculosa, com longa cabeleira castanha e barba. Ele habita os túneis abaixo do templo e dorme a maior parte do tempo despertando apenas quando sua presença se faz necessária. Os cultistas o respeitam e temem na mesma medida pois ele é o mensageiro de Rlim Tegoth. Em Cyoghan ele sempre foi chamado de Enloch, ninguém conhece sua estória ou sua origem, tudo o que sabem é que há muito ele não é um homem e sim um vampiro.

Ao despertar o povo de Cyoghan prepara uma festividade solene. Duas jovens virgens e uma criança do sexo masculino são entregues ao vampiro para apaziguar sua fome. Diante da comunidade reunida em um círculo ele se alimenta vorazmente do sangue das duas jovens até drená-las por completo. Se ficar satisfeito, ele escolta a criança para o interior dos túneis para ser entregue como sacrifício para o verme branco. Se por algum motivo Enloch não ficar satisfeito com a oferenda, sua fúria será sentida por todos no vilarejo e ele irá punir os cultistas matando quantos achar necessário.

Se tudo correr bem, Enloch retornará na noite seguinte com uma dádiva de Rlim Tegoth: o veneno mortal que é a bile do colossal verme. Quando diluída e consumida em pequenas doses essa substância proporciona visões premonitórias e alucinações. Esse presente blasfemo é compartilhado por todos os cultistas com deferência. Sob o efeito da substância eles se entregam a uma orgia desenfreada cujo frenesi perdura por vários dias.

Enloch cumpre um segundo papel de suma importância perante o culto. Quando alguém ousa quebrar as leis ou ameaça a estabilidade no vilarejo, o vampiro é invocado para fazer valer a justiça do Verme Pálido. Sua atuação tende a ser rápida e sangrenta e todos os inimigos do culto são eliminados sem piedade.

Enloch, aquele que defende o Culto, idade desconhecida aproximadamente 700+ anos

FOR 140
CON 90
TAM 85
INT 60
POD 80
DES 75
Bônus de Dano: +2d6
PV: 18
Ataques: Mordida 60%, dano 1d4 +db
Garra 65%, dano 1d4 +db *
Olhar ** (compare um teste oposto de POD x POD) o vampiro deve estar se concentrando na vítima.

* Em um rolamento de POD x POD, o toque do vampiro drena 1d3 pontos de magia que é transferido para o vampiro.
** Se o teste de resistência for bem sucedido a vítima é hipnotizada e obedecerá simples instruções. Se essas instruções forem autodestrutivas ou contra a moral do personagem, ele pode fazer um teste de INT x5 para quebrar o transe.

Armor: O corpo do vampiro recebe dano normal mas se recupera na proporção de 3 PV por rodada mesmo que seja reduzido a zero ou menos PV. Dano causado por fogo, eletricidade, magia ou armas mágicas não é regenerado. Ferimentos dessa natureza são regenerados 1 PV/hora a menos que o corpo seja decapitado e carbonizado.

Habilidades Relevantes: Agarrar 55%, Psicologia 50%, Furtividade 75%, Gaélico 70%

Magia: Qualquer uma que o Guardião julgar adequada.

Poderes e Limitações como Vampiro: Necessita de Sangue Humano, Enfraquecido pela luz do sol (POD/2 durante o dia), suscetível a símbolos sagrados (cruzes), suscetível a estacas através do coração (dano dobrado), necessita repouso no solo, capaz de assumir a forma de morcego e lobo.

Sanidade: 0/1d4 ao descobrir que se trata de um vampiro. 1/1d4 ao presenciar transformação.

Umbassi


A exploração dos europeus na África Ocidental subsaariana foi pontuada por genocídio e atrocidades inenarráveis. Tribos inteiras foram exterminadas e outras tantas submetidas a indignidade da escravidão. No Senegal, os portugueses fundaram a Cidade Porto de Dakar e lá estabeleceram um lucrativo tráfico de escravos.

Em meados do século XVII, temendo pelo futuro de seu povo, feiticeiros da outrora orgulhosa tribo Lebou, tomaram uma decisão drástica. Séculos antes o ancestral culto devotado ao Deus Ahtu havia sido banido e seus praticantes dispersados pelos Lebou que consideravam os macabros rituais uma aberração.

O Culto de Ahtu, também chamado de Deus da Língua Sangrenta, foi aniquilado apenas depois que seu alto-sacerdote, Umbassi, foi morto e seu espírito espúrio aprisionado por um ritual. Mas diante da loucura e cobiça dos homens brancos, os feiticeiros concluíram que precisavam de algo mais poderoso para enfrentá-los. Eles decidiram que o espírito de Umbassi deveria ser libertado e compelido a enfrentar os invasores.

Uma cerimônia de magia negra foi realizada e como resultado o espírito de Umbassi foi conjurado. Mas antes que o ritual para controlar o espírito pudesse ser concluído, ele se apossou do corpo de um dos feiticeiros. Com a fúria acumulada pelos séculos, o espírito espúrio matou cada um dos feiticeiros e bebeu o sangue quente de suas veias, transformando-se em uma monstruosa criatura nem viva e nem morta.

Histórias sobre a criatura se espalharam pela população nativa e passaram a ser repetidas para os colonos brancos que a tratavam como mera superstição. Em 1664, uma sangrenta revolta eclodiu em Dakar. Durante os massacres que se seguiram, Umbassi foi atraído pelo odor de sangue até a cidade. Em meio ao caos reinante o vampiro começou a atrair seguidores que o reverenciavam. Prevendo que era o momento certo para estabelecer novamente o Culto há muito destruído, Umbassi proclamou a si próprio Chefe Feiticeiro da Língua Sangrenta.

Após a revolta, os portugueses perderam a cidade para os ingleses que se estabeleceram e proibiram o tráfico escravo. Apesar do rígido controle dos britânicos, o Culto de Ahtu continuou a crescer clandestinamente com os cultistas exercendo forte influência sobre a população nativa. Umbassi sozinho detinha o poder de vida e de morte sobre a população local e comandava uma legião de cultistas fanáticos que prosperavam com tráfico ilegal de escravos, pirataria e todo tipo de ativiadde criminosa. Os britânicos tentaram erradicar o culto mas falharam, pouco antes de partirem e ceder o território aos franceses, o Governador Colonial foi morto pelo próprio Umbassi em uma tétrica demonstração de força.

Os franceses aceitaram negociaram diretamente com Umbassi que consideravam não passar de um chefe tribal usando de superstição para controlar os nativos. O vampiro concordou em deixar Dakar e se retirou para o interior do Senegal ocupando terras na província interior de Kolda. Lá o Culto da Língua Sangrenta fincou suas raízes tornando-se a verdadeira autoridade agindo das sombras. Paralelamente Umbassi continuou controlando o tráfico de escravos e contrabando, além de fomentar revoltas tribais e disputas étnicas.

No início do século XX, Umbassi continua controlando o culto em Kolda, agora uma cidade com presença de colonos franceses. As autoridades locais sabem da existência de cultos nativos, alguns praticantes de magia negra e sacrifício, mas tendem a fazer vista grossa desde que os cultistas não importunem a população branca. Enquanto isso a população negra de Kolda vive em constante terror imposto por Umbassi e seus seguidores.

Umbassi, Sumo-Sacerdote do Culto de Ahtu, a Língua Sangrenta, idade desconhecida 900+ anos

FOR 140
CON 100
TAM 70
INT 80
POD 100
DES 90
Bônus de Dano: +1d6
PV: 17
Ataques: Mordida* 65%, dano 1d4 +db
Garra** 55%, dano 1d4 +db
Olhar *** (teste de POD x POD) o vampiro deve estar se concentrando na vítima.

* A mordida de Umbassi é extremamente dolorosa, alguém ferido dessa forma deve fazer um Teste de Constituição para não perder a rodada seguinte em virtude da dor lancinante.
** Em um teste de POD x POD, o toque do vampiro drena 1d3 pontos de magia que é transferido para o vampiro.
*** Se o teste de resistência for bem sucedido a vítima é hipnotizada e obedecerá simples instruções. Se essas instruções forem autodestrutivas ou contra a moral do personagem, ele pode fazer um teste de INT x5 para quebrar o transe.

Armadura: O corpo do vampiro recebe dano normal mas se recupera na proporção de 3 PV por rodada mesmo que seja reduzido a zero ou menos PV. Dano causado por fogo, eletricidade, magia ou armas mágicas não é regenerado.

Magias: Todas que o Guardião achar adequadas.

Habilidades Relevantes: Cthulhu Mythos 25%, Ocultismo 58%, Furtividade 50%, Rastrear 70%, Navegação 80%, Dialetos tribais 80%, Francês 15%

Poderes e Limitações como Vampiro: Necessita de Sangue Humano, Enfraquecido pela Luz do sol (POD/2 durante o dia), afetado por símbolos sagrados de crenças africanas, imune a estacas, suscetível a água corrente (1d6 pontos de dano/rodada), necessita repouso no solo, Capaz de assumir a forma de morcego vampiro, tigre, abutre, babuíno, serpente, escorpião (milhares) e chacal. Capaz de controlar predadores selvagens com o olhar.

Sanidade: 0/1d4 ao descobrir que se trata de um vampiro - 1/1d4 ao testemunhar transformação em animal.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Holodomor - A grande fome que varreu a Ucrânia


"Oh, minha mãe, onde está a comida
Oh, meu pai, por que não há pão.
Oh, meu Deus, onde está meu irmãozinho.
A Fome, é grande e o sofrimento não tem fim"

Canção Ucraniana sobre o Holodomor

É difícil aceitar certos fatos históricos, o horror por vezes assume a forma de abuso, força e sujeição. Quando uma nação mais forte obriga outra a enfrentar privações já é algo terrível, mas o que dizer quando o terror é praticado pelos governantes contra seu próprio povo? Quando aqueles que deveriam promover o bem estar geral são os responsáveis pelas maiores atrocidades. 

A primeira grande fome registrada na Ucrânia ocorreu entre 1919 a 1922 e levou possivelmente entre 1,5 a 2 milhões de vidas. Ela foi causada por uma severa seca que atingiu as províncias do sul e devastou as colheitas, causando uma enorme onda de fome e privações na população. Os habitantes locais não tiveram ajuda do governo que ainda lidava com as reverberações da Revolução que destituiu o Czar e instalou os Bolcheviques no poder. Com os campos vazios, um número considerável de camponeses foi migrou para outras partes em busca de sustento, ocasionando perdas devastadoras na agricultura.

Era algo sem precedentes já que a Ucrânia sempre foi famosa por seus solos negros e férteis. Seu setor agrícola era conhecido como "O Celeiro da Europa" contando com uma produção de trigo na casa dos milhões de toneladas. Além disso, o país também era um dos maiores produtores mundiais de açúcar, óleo de girassol e carne, comodities extremamente rentáveis no mercado internacional. A simples menção da Ucrânia evocava visões de plantações à perder de vista, paisagem esta que estava até representada em sua bandeira nacional, onde o azul do céu se sobrepunha ao dourado, aludindo aos campos de trigo.

Como então, um país tão rico e cheio de recursos agrícolas pode ter enfrentado uma crise de abastecimento desesperadora? 


A explicação envolve o fator humano. Em novembro de 1929, o governo soviético através de Joseph Stalin tomou a decisão de coletivizar a agricultura no país. O objetivo era evitar uma nova catástrofe no abastecimento que pudesse comprometer os planos soviéticos de promover uma industrialização acelerada. Para custear o processo industrial era imprescindível atingir metas elevadas de produção agrícola e exportar tudo que fosse possível. Com os recursos assim obtidos o país esperava prosperar, mas é claro, alguns teriam de sofrer mais do que outros.

A coletivização previa uma apropriação brutal feita pelo Estado soviético das terras, colheitas, gado e alfaias pertencentes aos camponeses. Nada mais pertenceria ao indivíduo, mas sim ao Estado. Da mesma forma, o Estado controlaria o planejamento da colheita e estabeleceria metas para a produção agropecuária e sua distribuição. Isso permitiria abastecer as cidades e as forças armadas, bem como exportar para o estrangeiro o excedente. 

Para atingir seus planos, os soviéticos começaram eliminando a camada social mais próspera da Ucrânia, os kulaks, que eram os donos originais das terras que controlavam a produção. Aqueles que resistiram a coletivização forçada foram simplesmente expropriados e deportados para que não causassem problema. 

Mas a política de coletivização instituída em 1929 teve um efeito desastroso sobre a produtividade agrícola. Os kulaks conheciam melhor do que os técnicos do governo como plantar e obter resultados, sem eles as colheitas foram pífias. Em 1932, Stalin se comprometeu a exportar grande parte da produção de grãos da Ucrânia para o exterior. Isso significava que não haveria grãos suficientes para alimentar os camponeses, já que a lei soviética exigia que nenhum grão podia ser dado aos membros da fazenda até que a cota estabelecida fosse atingida. Os trabalhadores tinham de realizar jornadas de trabalho cada vez mais longas e árduas para conseguir cumprir as metas e ter direito a algum retorno. Do contrário, morreriam de fome. 


É importante entender que a Ucrânia sempre teve grãos suficientes para alimentar sua população, contando que esses alimentos fossem mantidos no país e não escoados para outros cantos. Durante o período da Coletivização, as autoridades soviéticas confiscaram a produção agrícola que serviria para alimentar várias vezes a população. Os grãos colhidos na Ucrânia eram estocados em silos vigiados pelo exército até poderem ser transportados para a Rússia. 

A decisão de Stalin e os métodos usados ​​para implementá-la condenaram milhões de camponeses à morrer de fome. Assim teve início o Holodomor (Extermínio pela Fome) que até hoje assombra a Ucrânia. Entre os anos de 1932 e 1933, estimativas sugerem que entre 3,5 e 7,5 milhões de pessoas teriam morrido de fome no país, ainda que certos historiadores sugiram que esse número pode ser muito maior, beirando os 10 milhões de mortos. Segundo o Tribunal de Recursos de Kiev, o Holodomor teria ceifado aproximadamente um quinto da população camponesa da Ucrânia. Outras áreas sofreram com as privações: o norte do Cáucaso e a região do baixo Volga também experimentaram três ondas sucessivas de fome impostas pela política de coletivização forçada de Stalin. Contudo, as perdas mais pesadas ocorreram na Ucrânia, que até então havia sido a área agrícola mais produtiva da União Soviética

Stalin estava determinado a esmagar todos os vestígios de nacionalismo ucraniano e a ferramenta escolhida para atingir esse objetivo foi a fome. Antes disso, expurgos devastadores da intelectualidade ucraniana e do próprio partido comunista ucraniano limparam o caminho para o Holodomor. A fome foi planejada por Moscou para devastar os camponeses ucranianos que ainda resistiam ao ideal revolucionário. Muitos vilarejos lutavam pela sua independência e se ressentiam da dominação russa de suas terras e produção. Os soviéticos estabeleceram que eles sofreriam não por serem camponeses, mas por serem ucranianos. O regime extremo quebrou a vontade dos camponeses de resistir e deixou a Ucrânia traumatizada política, social e psicologicamente, uma condição que se manteve na memória nacional por décadas. 


O auge do Holodomor ocorreu em 1932 que ficou conhecido como o Ano da Grande Carestia. À medida que o tempo passava, as forças soviéticas aumentavam a quantidade de grãos a ser produzida para benefício estatal até atingir um patamar impossível. Para intimidar os camponeses aldeias eram destruídas, populações remanejadas e líderes executados. Oficiais do partido, com a ajuda de tropas regulares e unidades da polícia secreta, travaram uma impiedosa guerra de desgaste contra os camponeses. Tudo era passível de confisco: Qualquer homem, mulher ou criança pego escondendo um punhado de grãos que fosse poderia ser, e muitas vezes era, executado ou deportado. Aqueles que não pareciam estar morrendo de fome eram frequentemente suspeitos de acumular grãos e espionados. Os camponeses foram impedidos de deixar suas aldeias pelo órgão mais impiedoso do estado, o NKVD que mais tarde daria origem a temida KGB.

Em janeiro de 1933, Stalin ordenou a um aliado próximo, Pavel Postyshev que fosse à Ucrânia verificar como estava a situação. Postyshev, um membro-chave do Partido Comunista Ucraniano recebeu ordens de aumentar ainda mais a meta, ordenando que ainda mais grãos fossem coletados, apesar de não restar, na prática, nenhum. Brigadas especiais do Partido foram enviadas para revistar as fazendas e casas em toda a Ucrânia e tomar qualquer comida e gado restantes dos camponeses, apesar do já preocupante número de pessoas morrendo de fome.

Após uma longa estadia na Ucrânia, Postyshev voltou a Moscou no outono de 1933, afirmando que os "ucranianos haviam finalmente sido quebrados". Segundo ele, os camponeses estavam à beira da total inanição, mas o restante do país seria alimentado e poderia honrar seus acordos comerciais. O relatório fornecido por Postyshev era bastante completo e não censurava detalhes perturbadores sobre a situação do campesinato ucraniano e pelo que ele estava passando. 

A repressão era total e qualquer suspeita de sabotagem punida com severidade. Havia um sistema através do qual informantes eram incentivados a denunciar seus amigos, colegas e vizinhos, apontando qualquer um que estivesse prejudicando o cumprimento das metas impostas. A recompensa podia ser algo tão simples quanto um punhado de comida para o delator e sua família. Com isso a rede de informantes e o temor se espalhavam com rapidez alucinante. A pena para quem era apontado variava: os que simplesmente eram deportados para um gulag tinham sorte - sabotadores eram geralmente fuzilados sem direito a julgamento. Bastava criticar ou reclamar das condições desumanas para sofrer uma retaliação. Em algumas aldeias foi instituído um método de repressão chamado "quadros negros" no qual as pessoas podiam escrever numa lousa denuncias na qual indicavam os "inimigos do povo". Quando um nome era escrito no quadro, os agentes investigavam e apuravam se essa pessoa estava minando os esforços da coletividade.


Ironicamente, os silos de estocagem, construídos próximos das estações de trens estavam sempre abarrotados de grãos à espera de serem transportados para o Leste. Soldados armados faziam a proteção destes e impediam que os camponeses famintos se aproximassem. Estes choravam e se desesperavam quando eram obrigados a carregar os alimentos para os vagões de carga, sem poder tirar sequer um grão para saciar a fome que os consumia. 

Outro fator desnorteante era a proibição de deslocamento para outras regiões. As autoridades se preocupavam com o número cada vez maior de fugas e definiram que ninguém teria permissão de deixar uma área sem o aval do Estado. Os camponeses ficaram proibidos de viajar e quando eram designados para uma fazenda comunal, lá deveriam ficar até receber autorização e um passaporte interno emitido pela NKVD. Quem fosse pego sem tais documentos podia sofrer penas severas ou simplesmente desaparecer. Segundo o relatório, havia casos de camponeses tão aterrorizados em não descumprir as ordens que ficavam nas fazendas comunais mesmo sabendo que não sobreviveriam ao inverno. Muitos simplesmente morriam no lugar que lhes era designado.

Mas nada disso se comparava ao sofrimento causado pela fome.

A face mais cruel do Holodomor se manifestava justamente na incapacidade das pessoas de obter sustento mínimo para subsistir. Os camponeses se viam impossibilitados de reagir diante da fome extrema à qual estavam submetidos. Para substituir os alimentos que lhes eram negados, as populações recorriam ao que estivesse ao seu alcance, apelando para fontes de proteína alternativas como cães, gatos e ratos, mas quando estes começaram a rarear, buscavam pássaros, vermes e até mesmo insetos. Na ausência destes, recorriam a madeira fervida, sopa com folhas, palha seca ou mesmo ossos e couro cru de animais.

No momento que o Holodomor se tornou insuportável algumas pessoas acabaram rompendo com um dos maiores tabus da civilização e abraçaram o canibalismo. As informações sobre atos de canibalismo vinham de várias partes da Ucrânia e à princípio foram tratadas como simples boatos e desconsiderados. Contudo, é sabido que os transtornos mentais causados pela fome podem alterar o sistema de valores morais e éticos, fazendo a pessoa tolerar ações que até pouco tempo acreditavam ser invioláveis. Com efeito, é justo acreditar que o canibalismo acontecia e que era até mesmo aceito em certas áreas rurais afastadas onde o tabu de alimentar-se da carne dos semelhantes caiu por terra.


Desaparecimentos eram notificados diariamente, mas sendo as mortes algo relativamente comum, as autoridades não se preocupavam de investigar os casos. Os desaparecimentos, sobretudo de crianças se tornaram uma epidemia no inverno de 1933, quando o canibalismo parece ter se tornado mais e mais frequente, ainda que poucos aceitassem falar abertamente sobre ele. 

Os poucos que mencionavam os incidentes salientavam a extrema necessidade pela qual os envolvidos passavam, como no relato de uma certa Anna Kravchenko:

“ A fome é mesmo algo inominável. As pessoas começaram a comer gente pois não havia mais nada o que comer. Então ordenaram à polícia que desse um basta no canibalismo. Aqueles que escolheram essa forma de sobreviver, cozinhavam carne humana à noite e todos sabiam quem eram. Ninguém dizia nada! A milícia chegou ao meu povoado ao entardecer, subiu um morro e olhou lá de cima em busca de qual chaminé saia fumaça à noite. O fedor de carne humana é terrível, mas mesmo assim dominava a rua, porque a fumaça saía pela chaminé.

A polícia chegou à aldeia na estrada de Belovodsk para Markivka. Lá acharam Semyon e um amigo. A porta da casa estava encostada de modo que ninguém barrou os policiais. Ao cruzar a soleira o cheiro se fazia sentir, havia sangue respingado no chão e nas paredes e um machado do lado para partir os restos em quartos. Três cadáveres estavam na despensa iluminada por uma vela. Uma mulher em trapos - a mãe de Symeon, se colocou diante dos policiais. Ela estava com a faca ensanguentada nas mãos e a usava para preparar a carne. Ela teria dito aos homens: "Que bom que vocês chegaram, me ajudem a tirar o fígado. Amanhã as pessoas se reunirão para jantar e pelo menos alguma coisa elas terão para comer." 

Afastaram a velha decrépita e revistaram o forno que estava aceso. Tiraram um grande ferro, e encontraram ali dentro uma criança inteira e uma perna e um braço de adulto. Semyon apareceu pouco depois e caiu de joelhos pedindo perdão: "Desculpe, desculpe, é a fome que me obrigou. Não ter o que comer me deixa louco.

Quando amanheceu a milícia levou Symeon e o amigo para serem julgados. Nunca chegaram lá, mataram-nos com uma bala na cabeça de cada um. A velha louca, deixaram para trás, não falava coisa com coisa e parecia fraca demais, dificilmente sobreviveria ao inverno. Perguntaram se havia mais canibais na região, os camponeses disseram que não havia mais nenhum. E claro, estavam mentindo. A milícia por sua vez, também sabia. Mas ninguém queria investigar aquilo".


Haviam outros casos, como o relatado na Vila de Shaparsky:

"No dia 20 de fevereiro deste ano, às 4 da tarde, uma cidadã da aldeia de Shaparske, distrito de Novopskovsky, Khrypun Domniziya Vasylivna, juntamente com sua filha Khrypun Ulyta, esfaqueou uma menina de 8 anos, filha de Domnizia, irmã mais nova de Ulyta, cujo coração e fígado foram cortados e fervidos em um caldeirão para consumo."

Do caso de investigação nº 137 da cidade de Berezovo:

"Durante o interrogatório de Hylinychiv Gvarinich foi estabelecido que em 27 de junho, aproximadamente às 19h00, Varina Gilinych, com o consentimento e na presença de seu marido Andriy, esfaqueou sua filha Anna, de um ano, que estava sentada em um banco, e cortou-a em pedaços. A carne foi cozida e comida. Naquela mesma noite, quando seu filho de 4 anos, Petro, foi para a cama e adormeceu, Andriy Gvarinich, estrangulou seu filho adormecido com as mãos e também a cortou em pedaços, que foram devorados".

Casos medonhos como estes se tornaram tão comuns à certa altura que a polícia instituiu que os camponeses envolvidos não seriam mais julgados, mas executados sumariamente com ajuda de soldados. Não se sabe o número exato de casos de canibalismo, mas acredita-se que tenham sido milhares.

O número de mortos no Holodomor na Ucrânia foi estimado na casa dos milhões. De acordo com um autor soviético, "Antes de morrer, as pessoas muitas vezes perdiam os sentidos e deixavam de ser seres humanos". No entanto, um dos tenentes de Stalin na Ucrânia afirmou em 1933 que a fome foi um grande sucesso. Mostrou aos camponeses "quem era o senhor. Custou milhões de vidas, mas o sistema de fazendas coletivas veio para ficar".

O governo americano supostamente obteve informações oportunas sobre a Grande Fome ainda na década de 30, mas não tomou qualquer medida para amenizar a situação ou divulgar na época o incidente. Pelo contrário, a administração dos EUA concedeu reconhecimento diplomático ao governo soviético em novembro de 1933, imediatamente após receber denúncias graves sobre o Holodomor. Depois de voltar de Moscou em 1933, o famoso dramaturgo e pensador britânico George Bernard Shaw declarou que "não havia fome [na Ucrânia]", porque lá participou de um dos melhores jantares de sua vida - um exemplo das exibições luxuosas com que o governo regalou os estrangeiros para isolá-los da vida real na Ucrânia.


Após a tragédia do Holodomor, as autoridades soviéticas mantiveram o sistema de coletividade em funcionamento, embora tenham suspendido gradualmente as metas elevadas de produção, permitindo que os camponeses voltassem a ter acesso aos alimentos. Isso se deu principalmente porque a URSS precisava manter o mínimo da mão de obra local, sobretudo depois de "colocá-la na linha". Os grãos da Ucrânia eram necessários e eles não queriam perder esse recurso valioso. 

Em 1983, alguns países quebraram parcialmente o silêncio sobre a Grande Fome ucraniano, oferecendo o testemunho de pessoas que viveram o ocorrido e estavam dispostas a falar à respeito. Vários historiadores já suspeitavam do Holodomor e ratificaram uma carta aberta pedindo esclarecimentos à respeito, embora a União Soviética negasse veementemente tudo relacionado ao caso. As Nações Unidas ofereceram dezenove conclusões de uma comissão formada para examinar o ocorrido. Os pontos condenam a inação e o silêncio deliberado do governo americano e reconhecem que a fome foi uma ação planejada por Moscou contra os ucranianos. Várias conferências internacionais reconheceram a Grande Fome de 1932-33 como um dos maiores crimes do século XX.

Apontando para o fato de que o grão foi requisitado à força, muitos historiadores sustentam que Stalin conscientemente provocou a fome para intimidar a população da República Ucraniana e quebrar a resistência dos camponeses diante do plano de coletivização. Com base na tese de que a fome na Ucrânia foi um "genocídio" deliberadamente planejado pelo governo soviético, nacionalistas ucranianos imputaram à Rússia que ela deveria assumir a responsabilidade por aquilo que promoveu. 

Por sua vez, a Rússia insiste que a fome não pode ser considerada um ato que teve como alvo os ucranianos, já que milhões de pessoas de diferentes grupos étnicos também perderam a vida em vastos territórios da União Soviética. O país tampouco aceita a acusação de ter usado a fome como ferramenta para "quebrar o espírito dos ucranianos". Não existem documentos reconhecendo os planos soviéticos de causar a fome, mas acredita-se que estes documentos, se é que um dia existiram, foram classificados como altamente secretos ou destruídos. Mesmo hoje existem aqueles que duvidam do Holodomor e o apontam como uma ficção criada pelas nações do ocidente para atingir a credibilidade da então União Soviética. Amparam-se numa ausência de provas documentais, dando o benefício da dúvida a um regime conhecido pela forma sigilosa e pouco transparente com que trata as questões internas. 


Em janeiro de 2010, um tribunal em Kiev considerou líderes bolcheviques, incluindo o ditador Joseph Stalin, culpados de genocídio contra ucranianos durante o Holodomor. Antes disso, em novembro de 2006, Verkhovna Rada deputada ucraniana aprovou um projeto de lei declarando o Holodomor (Grande Fome) de 1932-33 como um genocídio. O projeto de lei impôs multas por declarações públicas ou divulgação de materiais negando o Holodomor, algo semelhante a lei em vigor na Alemanha, imposta sobre aqueles que negam o Holocausto de Judeus. Mesmo assim, muitos russos e ucranianos com descendência russa, bem como simpatizantes ideológicos continuam negando que o Holodomor um dia aconteceu.

Provar a verdade sobre o Holodomor por um lado confirmaria que o ser humano é capaz de atrocidades inenarráveis, mas talvez seja a única maneira de impedir que algo semelhante um dia venha a acontecer novamente. A face horrível da Grande Fome precisa ser encarada e reconhecida.

É o mínimo que as vítimas do Holodomor merecem.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Segredos da Ucrânia - Estranhos artefatos e antigos mistérios arqueológicos


Continuando nossa série sobre os Segredos da Ucrânia.

Os mistérios desse país do Leste Europeu vão muito além de criaturas, monstros e animais mutantes alterados pela radiação liberada por Chernobyl. A nação inteira está mergulhada em estranhos enigmas históricos que desafiam a compreensão dos estudiosos há séculos. Provavelmente, o mais antigo artefato encontrado na Ucrânia é o controverso Livro de Veles, um manuscrito supostamente redigido entre os séculos VI e VIII aC. O livro é uma obra tão desconcertante que os estudiosos que tentaram estudá-lo não conseguiram sequer determinar sua autenticidade. 

O tomo teria sido encontrado em um compartimento secreto num antigo castelo ucraniano saqueado em 1919 por um ambicioso tenente russo chamado Fedor Arturovich Izenbek. O militar czarista havia trabalhado em museus de São Petersburgo e sabia reconhecer objetos de valor histórico que poderiam se traduzir em lucro. O livro tinha um texto enigmático entalhado cuidadosamente em uma série de tábuas de madeira medindo 38 cm de largura, 22 cm de altura e cerca de 0,5 cm de espessura. As bordas irregulares eram unidas no topo por dois orifícios que o mantinham íntegro como um bloco de notas. As tábuas haviam sido preparadas antes de serem talhadas, foram pintadas com algum tipo de substância betuminosa que embora tenha se desvanecido ao longo dos séculos o protegeu da corrosão. Ainda que desgastado era possível ver letras bizarras e ininteligíveis e uma variedade de formas, como sóis, cabeças de touro e vários animais distribuídos em cada prancha.


Izenbeck acreditava estar diante de algo único e tentou negociar o livro com museus e colecionadores durante uma passagem por Belgrado, entretanto, não teve sucesso. Ninguém se interessou em adquiri-lo, em parte porque o dono se negava a revelar onde havia encontrado a peça. Izenbeck acabou guardando as tábuas em uma caixa de papelão no porão de sua casa em Bruxelas e lá elas ficaram por anos. Durante esse tempo, ele não pensou muito sobre as pranchas até conhecer um excêntrico cientista russo chamado Yuriy Mirolyubov. Este seria o primeiro a estudá-las formalmente transcrevendo, fotografando e tentando traduzir o manuscrito ao longo de mais de uma década. Izenbeck se recusava a permitir que o livro fosse levado para fora de sua casa ou que fosse analisado em laboratórios que poderiam atestar sua autenticidade. Mirolyubov se viu forçado a fazer todo seu trabalho no mesmo lugar.

O livro continha confusos caracteres cirílicos que o estudioso desconfiava ser um tipo de idioma pré-eslavo, talvez até uma das primeiras formas de escrita da região. Aos poucos ele conseguiu decifrar o material e entender sobre o que ele versava. O Livro de Veles era uma obra vasta e completa sobre folclore, costumes e tradições de tribos que haviam vindo de um lugar descrito como a "terra dos sete rios além do mar". Esta tribo até então desconhecida teria migrado através da Síria para os Cárpatos no século X aC. O tomo também fazia menção a esse povo sendo escravizado e travando guerras com povos selvagens, adorando deuses e se estabelecendo temporariamente em diferentes territórios. As tábuas continham a descrição de rituais dedicados a entidades ancestrais como Belbog, e sua contraparte, o maligno deus negro, Chernobog. Dentre os rituais haviam sangrentos sacrifícios, cerimônias de Solstício de Verão e modalidades de adoração que incluíam automutilação, tatuagens e escarificação.

Mirolyubov deu prosseguimento ao seu estudo do Livro de Veles até a invasão nazista de Bruxelas. Ele temia que o Livro de Veles caísse nas mãos dos nazistas, sobretudo depois da morte de Izenbeck em 1941. Os alemães estavam recolhendo artefatos históricos para suas coleções particulares e ele decidiu contratar um ladrão para subtrair o livro. No entanto, algo aconteceu e o artefato acabou se perdendo indo parar, possivelmente nas mãos de algum colecionador particular ou interceptado pelos próprios alemães. O único material restante foram as anotações e fotografias reunidas por Mirolyubov durante seus estudos. 


Após a guerra, ele as levou consigo quando imigrou para os Estados Unidos, tendo as repassado para um professor chamado Andrey Kurenkov em 1953. A partir daí o livro se tornou um tema controverso e muito debatido, com vários pesquisadores concordando ou discordando de sua autenticidade. Mais estranho ainda, autoridades soviéticas negaram que ele fosse verdadeiro e proibiram seu estudo no país. De fato, os Soviéticos chegaram a tentar comprar as anotações e fotos com o intuito de destruí-las.

Os céticos apontaram que análises linguísticas das anotações sobre o Livro de Veles revelaram o que seria uma mistura de várias línguas eslavas, sem uma gramática consistente, tendo porções que pareciam completamente inventadas e passíveis de inúmeros erros linguísticos. Esses indícios lançaram uma sombra sobre o trabalho de Milyubov, sugerindo que ele teria inventado boa parte da tradução. Lascas do artefato que haviam sido salvas em 1930 também foram analisadas e embora os resultados tenham sido inconclusivos, parecia certo que a madeira não era anterior ao século V da Era Cristã.

Infelizmente, com o livro em si foi perdido, era praticamente impossível dizer quando ele havia sido criado. Tudo que restava eram as evidências e testemunhos fornecidos por Mirolyubov, e só podemos rastrear com segurança a história do Livro de Veles até a década de 1950. Além disso, muitas versões modernas do livro possuem textos diferentes entre si, uma vez que ele foi alterado e deturpado largamente nos últimos anos. 


Muitos pesquisadores chegaram à conclusão de que o livro era uma farsa elaborada, possivelmente perpetuada pelo próprio Mirolyubov, e que ele teria sido fabricado em tempos mais recentes e não no passado distante. Apesar dessas conclusões desanimadoras, ainda há estudiosos que insistem que o Livro de Veles é genuíno, um tratado fantástico sobre as origens dos povos eslavos.

Após o fim da União Soviética, a abertura de documentos até então mantidos em segredo revelaram que os soviéticos viam o livro como um perigo em potencial, pois era uma obra que glorificava o orgulho eslavo ucraniano. Por essa razão, ele teria sido alvo de uma tentativa de censura. Outra curiosidade é que uma alegada versão do Livro de Veles chegou a ser publicado na Ucrânia em 2008 tornando-se um sucesso editorial. Pouco depois vieram à tona rumores sobre a descoberta do livro original em uma coleção particular na França e que seu dono estava disposto a vende-lo para o Museu de História de Kiev. O boato foi negado pelos diretores da instituição, a localização do Livro de Veles permanece desconhecida.  

Outro mistério histórico impressionante da Ucrânia diz respeito a enigmática cultura Cucuteni-Trypillian, que habitou uma vasta região da Europa Oriental, incluindo porções da moderna Moldávia, Romênia e Ucrânia entre 5400 e 2700 aC. O grande mistério à respeito desse povo é o que teria acontecido com ele, já que parece ter desaparecido da história sem deixar vestígios claros de sua passagem. 


A cultura recebeu o nome da vila em que seus restos mais importantes foram descobertos, um lugar chamado Cucuteni, na Romênia, rico em peças de cerâmica e estranhas figuras de terracota achadas em 1884 pelo arqueólogo Teodor T. Burada. As descobertas à princípio não chamaram muita atenção, já que se imaginava que seriam tão somente fragmentos de povos eslavos, contudo, um exame mais criterioso demonstrou que esses artefatos eram bem diferentes, evidenciando a existência de uma civilização até então ignorada. Alguns pesquisadores chegaram a dedicar a essas descobertas uma série de artigos, afirmando que elas poderiam constituir resquícios de uma civilização antediluviana dispersa após a destruição do Grande Dilúvio bíblico. 

Escavações eventualmente revelaram antigas ruínas da cultura, centrada no Oeste da Ucrânia, perto da vila de Trypillia, em 1893. À medida que os arqueólogos exploravam essas ruínas misteriosas, tornou-se evidente que essa cultura havia construído cidades extremamente desenvolvidas para sua época, de fato, algumas das maiores da história neolítica europeia, exibindo um incrível conhecimento arquitetônico e notável engenhosidade para sua época.

Isso já seria intrigante o suficiente, pois até essa descoberta se pensava que não haviam contribuições particularmente significativas feitas pela antiga Europa Oriental para o avanço da civilização na Europa. A descoberta arqueológica era portanto algo inovador e de suma importância. No entanto, os mistérios desta antiga civilização estavam apenas começando. 


Um dos grandes mistérios é que as evidências sugeriam que a cultura Cucuteni-Trypillian havia  deliberadamente incendiado seus próprios assentamentos. Constatou-se que muitos assentamentos foram construídos diretamente em cima de locais anteriores que haviam sido destruídos pelo fogo, com habitações destruídas ao longo de um ciclo que durou entre 60 a 80 anos. Não há sinais de que a devastação foi causada por invasões, pilhagem ou povos inimigos, não há sepulturas comunais, oq ue geralmente aponta para esse tipo de ação exterior. No caso dessa civilização, tudo aponta para um momento em que eles próprios decidiram destruir suas realizações e apagar intencionalmente sua passagem pelo mundo.

Ninguém sabe ao certo o que levaria um povo antigo, aparentemente capaz de construir e se estabelecer a arrasar suas próprias cidades, aldeias e plantações. Muito debate se seguiu sobre o assunto, com alguns historiadores supondo que uma epidemia ou quem sabe um movimento religioso central tenham sido a causa desse comportamento. Estudiosos supõem que em determinado momento, uma profecia pode ter motivado o povo Cucuteni-Trypillian a cometer uma espécie de suicídio cultural, algo bastante raro.

Outro mistério à respeito desse povo envolve os estranhos artefatos que eles deixaram para trás. Vários santuários sagrados foram encontrados entre as ruínas que abrigavam uma infinidade de estatuetas e relicários enterradas por alguma razão desconhecida. Consideradas de natureza religiosa, as estatuetas retratam homens e mulheres, com as mulheres sendo retratadas como inexpressivas, enquanto as dos homens mantêm características proeminentes ou exageradas. Alguns estão nus e alguns vestidos, e todos eles mostram uma clara progressão de diferentes penteados e estilos de roupas ao longo dos tempos. Suspeita-se que eles fossem totens mágicos de algum tipo, destinados a afastar o mal ou conceder algum tipo de benefício místico aos seus adoradores.


E finalmente permanece sem respostas o mais desconcertante de todos os mistérios sobre essa civilização. Para onde essas pessoas foram? Uma teoria é que eles encontraram um fim violento nas mãos da violenta Cultura Kurgan composta por guerreiros e saqueadores que varriam a região em busca de cidades que pudessem pilhar. Os Kurgan costumavam capturar escravos e os levavam para terras distantes onde eram negociados com outros povos.  

Outra ideia é que houve algum tipo de Idade das Trevas ou cataclismo natural, do qual o povo Cucuteni-Trypillian jamais consegui se recuperar. Os sobreviventes acabaram se espalhando e basicamente se dissolveram nas populações de outras áreas da Europa. Ainda outra teoria é que a cultura Cucuteni-Trypillian experimentou um impacto devastador em sua sociedade dependente da agricultura devido a profundas mudanças climáticas que estavam afetando a região na época. Nada disso, no entanto, explica as razões que os levaram a apagar seu modo de vida de maneira deliberada. Como afirmam arqueólogos, já é difícil compreender o passado de povos que desapareceram naturalmente, que dirá uma civilização que se empenhou em promover esse desaparecimento. 

Ninguém tem certeza do que aconteceu com eles, e tudo que restou foram ruínas sombrias e assentamentos misteriosamente incendiados. Provavelmente esse mistério continuará e o debate à respeito dessa civilização se manterá ainda por muito tempo. Ao menos até alguma pista crucial ser encontrada.

terça-feira, 1 de março de 2022

Segredos da Ucrânia - Animais Terríveis, Monstros e Mutantes Radioativos


Para muitos, a Ucrânia pode parecer apenas um belo e exótico país do Leste Europeu. Mas há muitos mais à respeito dessa antiga terra de tradições, segredos e mistérios. Muitos podem não saber detalhes sobre a cultura ou pessoas, além das notícias sobre seus vários conflitos internos e externos. Este país, há muito atormentado por turbulências e distúrbios políticos, é a maior nação em extensão territorial da Europa e possui uma longa história que remonta à primeira habitação humana em 32.000 aC. 

A Ucrânia também é notável por sua rica biodiversidade e características geológicas variadas, bem como por seus vastos recursos naturais, fonte de riqueza e cobiça há séculos. No entanto, ainda que seja um país em busca de abertura, independência e novos laços de amizade, a Ucrânia parece permanecer como um enigma para o mundo exterior, um lugar estranho que às vezes é quase impenetrável para estrangeiros. 

De fato, se olharmos cuidadosamente e mergulharmos além do véu de mistérios que envolve esta  terra, podemos descobrir que há algumas coisas sobre a Ucrânia que são ainda mais estranhas do que se poderia imaginar. De criaturas misteriosas a fenômenos históricos intrigantes, acobertamentos governamentais sinistros e chocantes conspirações, a Ucrânia tem o seu quinhão de estranheza. Agora, com as atenções do mundo voltadas para esse lugar por conta da grave crise internacional envolvendo a Rússia, resolvemos oportunamente investigar esses mistérios. Faremos uma viagem através desta terra intrigante para explorar alguns de seus aspectos mais desconcertantes.

Começamos por uma série de rumores estranhos envolvendo Bestas e Monstros Misteriosos que fazem parte do folclore e dos mitos locais que por vezes nublam a fronteira entre o real e o imaginário.

A Ucrânia possui sua própria coleção de criaturas estranhas que rondam seus recônditos selvagens. E não são poucas! O país é marcado por vastos territórios de vida selvagem, áreas apenas esparsamente ocupadas e com uma natureza desafiadora. Sujeita a frio extremo, as estepes ucranianas possuem muitas lendas.

Uma dessas criaturas é um bizarro monstro que há muito se diz habitar as profundezas do Lago Somin, perto da Vila de Lukiv, no oeste da Ucrânia, e que supostamente aterroriza os moradores há mais de um século. O monstro do Lago Somin é supostamente uma criatura de dimensões assustadoras, com  cerca de 9 metros de comprimento, tendo a cabeça semelhante a de uma serpente e um corpo rijo, protegido por placas, como um crocodilo. A fera, dizem as lendas locais, emite um brado furioso que pode ser ouvido reverberando na escuridão. Diz-se que a criatura fica à espreita dentro das muitas cavernas que pontuam o fundo do lago, aventurando-se na superfície quando faminta. Ela costuma atacar o que estiver ao seu alcance, incluindo animais domésticos, como cavalos, cabras e ovelhas. Ele também já atacou humanos, abalroando barcos de pesca e embarcações que cruzam o lago principalmente depois do crepúsculo.


Relatos sobre esse monstro misterioso podem ser rastreados até o início do século XX, quando nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial houve uma comunicação oficial emitida por um líder de aldeia para Varsóvia, alegando que os moradores se recusaram a pagar impostos de pesca devido ao medo de uma criatura espreitando no lago. Alegavam que o monstro espantava os peixes e tinha o hábito de saltar para a margem, perseguindo animais domésticos e seres humanos dos quais se alimentava vorazmente. O monstro teria matado vários animais e ao menos quatro pessoas que se aproximaram de sua área de caça. 

Os aldeões de Lukiv estavam tão aterrorizados com o lago e seu habitante sinistro que evitavam suas margens a todo custo, mesmo que a pesca fosse sua atividade principal. Intrigadas, as autoridades polonesas, que na época governavam a região, montaram uma expedição para se aventurar no lago e encontrar a suposta abominação. Exploraram o lago por dias, usando como isca carcaças de ovelha colocadas em pontos estratégicos. Espalharam ainda armadilhas e usaram explosivos para desentocar  a fera, mas ela não foi encontrada. No entanto, a expedição produziu estranhas pistas sobre a existência da criatura: rastros, restos de animais semidevorados por algum ser de grande porte e até um pedaço grande de pele escamosa, que supostamente pertencia a criatura, foram achados. 

Contudo, o início da Primeira Guerra Mundial fez com que a busca fosse cancelada, justamente quando havia a suspeito do grupo estar cada vez mais perto de achá-la.

Muitos anos depois, no auge da Segunda Guerra Mundial, histórias sobre uma fera gigantesca similar a um crocodilo espreitando o Lago Somin causaram grande comoção. Os camponeses afirmavam que o monstro teria sido incomodado pela movimentação de tropas pela área.  Outra expedição foi montada, dessa vez composta de militares alemães que ocupavam a Ucrânia. Eles vasculharam o lago e arrastaram correntes de ferro pelo fundo lodoso na esperança de atrair o monstro para a superfície. Não conseguiram encontrar vestígios da tal criatura, mas isso não impediu que os moradores continuassem falando do monstro que lá residia. As lendas e contos desse monstro ainda circulam até os dias atuais. O morador local de 84 anos, Ivan Kovalchuk, apresentou um relato sobre o monstro no qual conta: 

"O monstro existe, eu sei, pois o vi em 1971. Ele atacou e matou um amigo meu. Stepan Luchenko era um colega, nós trabalhávamos com adestração de cavalos e estávamos perto da margem do lago naquele dia. Fazíamos aquele trajeto levando cavalos para as fazendas e por vezes deixávamos os animais beber água no lago. Muitos alertavam para não fazer isso por causa do monstro, mas nós não demos atenção, parecia bobagem! Em certo momento, Stepan decidiu reunir os cavalos e percebeu que eles estavam nervosos, como se tivessem percebido algo errado. Ele entrou no lago e começou a puxar os animais que não se moviam. Foi então que uma criatura parecida com um crocodilo rompeu a superfície. Eu vi ele surgir e derrubar Stepan depois o arrastou para dentro da água. Um grupo de colhedores de cogumelos estava na outra margem e também viu aquela coisa. Eles gritaram alto para tentar afugentá-la, mas era tarde demais. O monstro devorou Stepan por inteiro. Eles foram comigo até a polícia e ajudaram a contar o que haviam visto."

Por muitos anos não se ouviu falar do monstro do Lago Somin, contudo a lenda ressurgiu em 1992 quando a criatura teria feito nova aparição conforme garantiram testemunhas. Mas seria a mesma criatura em todas ocasiões, o que evidenciaria uma longa existência ou outro monstros semelhantes existiriam nas profundezas do corpo de água? Segundo os rumores recorrentes, o Monstro é um ser único que costuma hibernar por longos períodos de tempo, despertando a cada 30 ou 35 anos mais ou menos, para vir a superfície, comer e aterrorizar as pessoas. 


Mas a Ucrânia também possui criaturas estranhas vagando por terra. Na remota região rural da Vila de Chemer, os moradores há muito descrevem uma criatura semelhante a um cão, de cor castanha pardacenta que se assemelha a um cruzamento entre um cachorro e uma raposa, com uma cauda longa, pescoço comprido, patas dianteiras mais curtas que as traseiras e presas proeminentes. Dizem que a misteriosa criatura saltita de forma semelhante a um canguru e vagueia pelo deserto alimentando-se de coelhos, cabras e também de animais domésticos. Estes parecem demonstrar uma aversão natural e profunda ao animal, uivando e ladrando quando ele está próximo. Relatos mais dramáticos afirmavam que o monstro tem características ainda mais estranhas e que não apenas mata suas vítimas, mas suga o sangue dos seus cadáveres deixando-os como cascas ressequidas.

As histórias sobre esse monstro sugador de sangue continuaram na área por anos e criaram um mito difícil de ser explicado. Mais ainda porque um animal estranho, cuja descrição é condizente foi abatido por caçadores nessa mesma região em 2007. Ele foi examinado por veterinários, que ficaram perplexos com sua aparência magra, sem pelos, que lembra vagamente raposa. O espécime foi supostamente enviado ao Museu Zoológico da Universidade Nacional de Zaporozhye, onde o diretor geral, Alexander Korotya, perplexo com a descoberta, declarou:

"Há traços em comum da criatura em questão com raposas, mas não consigo identificar que tipo de animal ele é. Por exemplo, seus dentes caninos eram semelhantes aos de uma raposa, mas menores em tamanho – como uma murta. No entanto, uma murta tem um tipo diferente de crânio que não condiz com esse animal. Há uma semelhança com a cabeça de uma lontra, mas as orelhas são muito grandes. Tem um nariz largo e um focinho alongado. Minha opinião é que provavelmente é um animal híbrido ou mutante."


A aparência indescritível que a carcaça do animal tinha para aqueles que procuram determinar suas origens se refletiu nas palavras de um veterinário local, Mikhail Ilchenko, chefe do serviço veterinário distrital em Mikhailovskoe, que disse sobre os restos:

"O animal não se parece com uma raposa ou um lobo, ou um guaxinim. Não pode nem ser uma murta. Eu nunca vi tal animal antes. Mas, a julgar pelas presas, posso dizer com certeza que é um predador."

As teorias sobre o animal misterioso variam de hipóteses mais plausíveis até algumas, francamente, bizarras. Para alguns, é tão somente uma raposa ou cachorro com um caso grave de sarna, condição da pele que faz com que o animal perca drasticamente parte do pelo ou até mesmo todo ele, alterando significativamente sua aparência. Outra teoria aponta para a criatura ser alguma forma de mutante que foi distorcido pela radiação do desastre de Chernobyl. Outras ideias mais marginais especulam que a criatura é um espécime fugitivo de algum laboratório secreto de armas biológicas do governo, um alienígena de algum tipo, ou mesmo um espécime do lendário Chupacabras, uma besta vampírica lendária que há muito tempo tem fascinado a criptozoologia

Como a carcaça parece não estar mais disponível para análise, tendo sido incinerada, provavelmente nunca saberemos ao certo o que era ou que relação tinha com outros relatos de criaturas canídeas avistadas na região.


A explicação de uma canídeo mutante se encaixa bem com a história recente da Ucrânia, pois foi aqui que ocorreu o pior desastre nuclear já registrado na história, em Ivankiv Raion, no norte de Kiev Oblast, na cidade de Pripyat , no que era na época era a União Soviética. Foi aqui que, em 26 de abril de 1986, ocorreu um catastrófico acidente na Usina Nuclear de Chernobyl, que ceifaria a vida de 31 pessoas, espalharia material radioativo por todo o oeste da URSS e Europa, causaria um fuga em massa da região imediata e afetaria cerca de 7 milhões de pessoas com problemas que até hoje repercutem na área.

Com toda a radiação disseminada na área imediata do desastre, talvez não seja de admirar que os contos de bestas mutantes tenham se tornado um elemento do folclore local desde então. Particularmente, os lagos e cursos d'água tornaram-se fontes de relatos envolvendo peixes mutantes anormalmente grandes que vagam pelas profundezas. O fenômeno mais famoso ocorreu quando Jeremy Wade, estrela do popular programa, Monstros dos Rios, viajou para lá afim de pescar uma dessas criaturas indescritíveis. Wade recebeu permissão especial para entrar na zona do desastre e se aventurou nos arredores de Chernobyl para tentar pegar um dos alegados bagres mutantes que rondam os canais de resfriamento do reator de Chernobyl. 

Ao longo do episódio, o equipamento de detecção de radiação que a equipe trouxe saiu dos gráficos várias vezes, avisando-os de níveis perigosos. Mas eles continuaram, pegando vários peixes que definitivamente não eram visivelmente deformados, embora estivessem saturados com radiação. A principal captura foi um peixe-gato que parecia normal em todos os aspectos, mas que provou ser na verdade um indivíduo atrofiado com apenas metade do tamanho que deveria ter em sua idade. Os testes mostraram que o peixe estava coalhado com material radioativo. Embora não fosse de forma alguma evidência da presença de peixes mutantes na área, a captura mostrou o quão ruim a radiação ainda se mantinha no fundo do canal.


Talvez ainda mais bizarro do que monstros do lago, cães mutantes ou peixes monstruosos seja uma série de boatos que vem circulando na Internet desde a década de 1990. A história começa com a descoberta de um homem não identificado morto em um grande condomínio de prédios. O homem teria sido encontrado esparramado no poço de um elevador. Um exame do cadáver atestou que haviam duas marcas de perfurações azuis amareladas em seu pescoço. Quando o cadáver foi trazido para ser examinado, o resultado foi que a morte ocorreu por choque causado pela perda massiva de sangue. O corpo estava praticamente exangue, mas nenhum resquício de manchas foi descoberto nas proximidades onde o corpo foi achado. Também não foram encontrados sinais de crime ou luta. A história surpreendeu os moradores locais, que começaram a falar de algum assassino misterioso à solta, um boato que as autoridades estavam ansiosas para negar. Os rumores mencionavam até um tipo de vampiro à solta. 

Estes boatos continuaram se espalhando e o pânico aumentou quando os moradores do bloco de apartamentos ouviram os gritos frenéticos de uma garota emanando do elevador. A polícia foi chamada imediatamente e as autoridades horrorizadas descobririam o cadáver da menina de 13 anos dentro de um elevador que estava preso entre o quarto e quinto andares. Mais uma vez, o corpo foi encontrado sem sangue e com marcas de perfurações, dessa vez no peito. Estranhamente, era o mesmo elevador em que a vítima anterior havia sido encontrada.

Esta segunda morte revigorou os rumores de um assassino vampírico, e os moradores em pânico evitaram usar o carro do elevador. Por sua vez, as autoridades supostamente tentaram minimizar o incidente, alegando que a menina havia morrido de overdose de heroína, apesar de nenhuma seringa ter sido encontrada e que os pais da vítima negassem veementemente que ela fosse usuária de drogas. Os moradores não estavam convencidos e insistiram que alguma coisa sobrenatural estava à solta.


A fim de tentar conter os rumores sinistros, reprimir a crescente agitação que os crimes estavam causando e deixar todos à vontade, um detetive e um sargento da polícia foram designados para passar vários dias subindo e descendo regularmente no elevador da cena do crime. Diz-se que em uma dessas patrulhas o elevador de repente parou entre o quinto e sexto andares e as luzes se apagaram, forçando os dois homens a usar suas lanternas. Até esse momento, os policiais não estavam particularmente alarmados, pensando que o elevador por ser muito velho havia enguiçado e que voltaria a funcionar em breve. Eles usaram seus rádios para informar aos colegas sobre a situação e esperaram pelo resgate.

Aparentemente, os dois homens ficaram alarmados quando ouviram um barulho estranho de clique acima deles e apontaram as lanternas para cima para vislumbrar que um quadrado escuro onde um painel do telhado havia se deslocado. Era dali que vinha o som estranho e, depois de um momento apontando suas lanternas para o buraco, eles supostamente notaram uma cabeça peluda do tamanho do punho de um homem olhando para eles. O sargento supostamente sacou sua arma, mas foi ordenado a não atirar ainda, pois a coisa parecia estar se encolhendo da luz.

Para testar essa teoria, o detetive supostamente desligou sua lanterna e o que quer que fosse se deslocou e moveu-se, revelando se tratar de uma enorme aranha com pernas de mais de um metro de comprimento. Isso supostamente deixou os homens alarmados. A criatura desceu para o elevador e atacou o sargento, mordendo-o várias vezes. O detetive descarregou sua arma e os tiros assustaram a criatura que escapou pelo teto. De acordo com a história, a equipe de emergência encontrou o sargento morto e uma enorme perna de aranha.


Posteriormente o prédio teria sido fechado e recebido uma equipe de contenção de crises que lacrou todo o bloco e evacuou os moradores às pressas. Não se sabe como a história termina, supostamente o grupo exterminou a criatura e outras semelhantes que usavam o porão como toca. Rumores atestam que o prédio ficou lacrado por uma semana, período em que os moradores só puderam retornar acompanhados para apanhar documentos e itens imprescindíveis. Todos teriam sido relocados para hotéis enquanto os trabalhos prosseguiam, quando voltaram, falaram de um cheiro forte de material químico, supostamente usado para exterminar os aracnídeos.  

Todo esse relato parece ser uma lenda urbana bizarra, e é difícil saber o quanto de verdade existe, se é que existe. De acordo com as histórias, todo o incidente foi acobertado pelas autoridades, mas alguns trechos da narrativa vazaram. A história foi publicada em jornais locais mencionando que o covil das aranhas, onde grandes ovos foram encontrados, teria sido destruído. A teoria quanto a origem desses aracnídeos gigantes derivava, é claro, do desastre da Usina Nuclear de Chernobyl. Verdade ou não, sabe-se que realmente um prédio teria sido alvo de uma evacuação na época, mas a versão oficial mencionava tão somente que obras emergenciais tiveram de ser realizadas o que justificou a remoção dos moradores. Ainda assim, as narrativas sobre aranhas gigantes continuam na região que ficou conhecida nacionalmente como "Império das Aranhas" (em alusão a um velho filme sobre aranhas gigantes).

Mas as estranhezas da Ucrânia não se limitam a animais e criaturas desconhecidas... há muito mais como veremos nos próximos artigos que exploram os segredos dessa terra curiosa. 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Unidos pela Carne - Gêmeos Siameses e suas incríveis histórias


Irmãos Gêmeos Siameses não são nem de longe tão raros quanto foram no passado.

Isso acontece por várias razões, a principal, é que anomalias de nascimento se manifestam em uma porcentagem da população, portanto havendo mais nascimentos é normal que haja mais casos verificados. Outra razão envolve os progressos dos procedimentos médicos que tornam muito mais provável a sobrevivência dos gêmeos siameses. Hoje os médicos são capazes de realizar a separação de gêmeos siameses em várias circunstâncias e mesmo quando não são capazes de fazê-lo, há meios de aliviar os efeitos da condição. Finalmente, há muito menos temor e desconfiança do que existia no passado. Séculos atrás, o nascimento de gêmeos unidos podia ser visto como uma maldição, uma tragédia ou um indício de forças demoníacas.

Na história existem narrativas vindas de várias partes do mundo a respeito de como era encarado o nascimento de gêmeos siameses. Na maioria das vezes, as crianças não sobreviviam a tentativas de separação ou acabavam sofrendo nas mão de pessoas supersticiosas.

 Contudo, haviam exceções dignas de nota.

Alguns gêmeos siameses sobreviveram à despeito do medo e das suspeitas, chegaram a idade adulta e tiveram vidas plenas e perfeitamente produtivas. É inegável, entretanto que gêmeos unidos sempre despertaram o interesse e muitas vezes foram tratados como atrações por um público ávido por novidades. Outro preconceito é que eles sempre foram explorados e tiveram vidas sofridas nas mãos de pessoas inescrupulosas, forçados a viver nos infames Shows de Estranhezas (Freak Shows). Muitos foram muito bem sucedidos e tiveram vidas confortáveis por se apresentarem em tais espetáculos itinerantes. 

Aqui estão algumas histórias notáveis de Gêmeos Siameses.

Os Irmãos de Bizâncio


No século X, por volta do ano 940, dois irmãos gêmeos unidos por uma camada de pele pelas costas sobreviveram à infância e chegaram à idade adulta. Segundo vários cronistas do período, eles eram nativos da região da Armênia ou Capadócia, mas ficaram conhecidos no coração do Império Romano Oriental.

Não há muitos documentos a respeito da existência de gêmeos unidos nesse período, o que torna os registros a respeito desse caso ainda mais significativos. Os próprios historiadores do período que comentam a respeito do caso dizem que os gêmeos chegaram a adolescência como por milagre já que a maioria desses nascimentos eram tratados como mau agouro e as crianças mortas pouco depois do nascimento. O cronista bizantino Leão Decano afirma que nos pequenos povoados e vilarejos, crianças nascidas sob o signo de deformidades dessa natureza eram misericordiosamente afogadas em bacias ou atiradas no rio para que se afogassem. Por vezes, os pais podiam até ser multados ou banidos por conta do nascimento de bebês com tais morbidades.

É provável que os pais tenham ocultado o nascimento dos gêmeos até que eles atingissem os três ou quatro anos de idade, quando estariam à salvo de serem executados. Os meninos em algum momento  teriam se tornado uma espécie de atração para curiosos que pagavam para vê-los no que poderia ser compreendido como um "Show de Esquisitice" do Mundo Antigo. Dessa forma, eles viajavam pelos confins do Império. Eventualmente ganharam fama o suficiente para viajar até a corte de Constantinopla durante o reinado de Romanus Lecapenus (919-944). 

Segundo outros historiadores do período eles se tornaram bastante conhecidos sendo admirados como uma curiosidade por todos que vinham vê-los. Isso os levou a serem convidados a visitar a corte e desfrutar de seu luxo e opulência por algum tempo. Em determinado momento, os rapazes, já adultos foram expulsos de Constantinopla, acusados de terem causado uma praga. Por pouco eles não foram linchados por uma turba furiosa que os via como os culpados pela doença que se espalhava pela cidade.

Anos depois, já no Reinado de Constantino VII, eles puderam retornar. Viveram então sob a proteção Imperial participando de eventos nos quais eram apresentados como uma curiosidade aos visitantes da corte. Pelas descrições, os irmãos eram física e mentalmente saudáveis e muito bem quistos por todos que os conheciam. Teriam chegado a casar e ter filhos, mas não há detalhes a respeito desse pormenor.

Ao que parece, um dos gêmeos acabou ficando doente e morreu, forçando os médicos a realizar a primeira tentativa de separação de gêmeos unidos de que se tem notícia. A cirurgia realizada por um dos médicos pessoais do Imperador infelizmente não teve sucesso e o gêmeo sobrevivente veio a falecer três dias depois.      

As Irmãs Hungaras


As irmãs gêmeas Helena e Judith nasceram no Reino da Hungria em meados de 1701, supostamente com três horas de diferença. Seja isso verdade ou mentira, a experiência supostamente foi tão terrível para a mãe que ela não sobreviveu. As meninas eram unidas pelo osso da pélvis o que fazia com que elas ficassem de costas uma para a outra. Segundo histórias da época, o filho da parteira que realizou o procedimento recebeu as crianças em uma trouxa e foi ordenado a lançá-las num lago. Quando ele estava prestes a fazê-lo, ouviu um choro e descobriu que as meninas estavam vivas. Não teve coragem de matá-las e retornou com elas para o vilarejo.

As meninas acabaram adotadas por uma companhia de artistas itinerantes que as colocou em sua rotina de espetáculos. Elas passaram a ser apresentadas como atração e viveram na estrada dos dois aos onze anos de idade, viajando pela Europa. Elas também receberam vários convites para serem examinadas por médicos e especialistas que se mostravam fascinados pela sua condição.

As meninas aprenderam vários idiomas e se tornaram excelentes cantoras.

Parte do espetáculo elaborado por elas envolvia colocar uma divisória no palco em que elas se apresentavam. Elas cantavam primeiro em separado e depois, com a remoção da divisória, em conjunto. Esse tipo de apresentação se tornou muito popular e as meninas ganharam enorme fama. As turnês as levaram a visitar diversas capitais da Europa recebendo grande reconhecimento e aplausos. Elas teriam até sido cortejadas por nobres e pessoas importantes atraídos pela sua beleza e talento.

Infelizmente, Judith a irmã que demorou mais tempo a nascer acabou sofrendo um derrame  e ficou parcialmente paralisada. Isso forçava Helen a carregá-la o que dificultava as apresentações e impunha enormes dificuldades.

Elas acabaram abandonando a vida no palco e escolheram morar em um convento onde tiveram uma existência tranquila até a morte prematura de Judith. A outra irmã morreu poucas horas depois. Elas tinham 24 anos de idade.  

As Irmãs Rouxinol


A vida de Millie e Christine McCoy é tão cheia de reviravoltas e elementos surreais que por muitas vezes parece obra da ficção. No entanto, historiadores garantem que a maioria das situações realmente ocorreram.

As meninas nasceram na Carolina do Norte em 1851, em uma família de escravos que pertencia a um fazendeiro chamado Jabez McKay. Ele vendeu as meninas e sua mãe a um comerciante quando elas tinham apenas oito meses de vida. A outra opção além de se desfazer delas era sacrificá-las, já que McKay ficou chocado com as gêmeas unidas por uma camada de pele nas costas. Pervis por sua vez as negociou com Joseph Pearson Smith um conhecido Empresário no ramo dos espetáculos itinerantes que administrava um conhecido "Show de Esquisitices". As duas ficavam em uma tenda e a entrada para dar uma espiada nelas custava 1 níquel.

Quando tinham apenas um ano, as crianças foram raptadas e desapareceram sem deixar vestígios. Por algum tempo, supôs-se que elas teriam sido assassinadas, mas surpreendentemente ressurgiram na Inglaterra como atração principal em outro show itinerante que viajava pela Inglaterra. 

Após passar alguns anos na estrada, elas conseguiram retornar para os Estados Unidos. A medida que cresciam, as meninas foram aprendendo a cantar e harmonizar suas vozes se tornando uma das principais atrações de um circo. Quando o dono deste morreu elas passaram a integrar um Show de Esquisitices com o nome artístico de "Billie, o Rouxinol de Duas Cabeças". Elas usavam um vestido largo para fingir que compartilhavam do mesmo corpo. No show não precisavam fazer nada a não ser ficar paradas em uma tenda para que os curiosos as vissem. Certo dia, as duas ficaram irritadas com aquilo e decidiram cantar, o que as transformou em um grande sucesso.

Com a abolição da escravatura, as irmãs escolheram deixar os espetáculos itinerantes, convertendo-se em uma das atrações principais em Casas de Espetáculo na cidade de Columbus. A dupla cantava e se apresentava para os frequentadores, tocando piano e dançando. Elas ganharam dinheiro suficiente para se estabelecer em uma fazenda e ter uma aposentadoria confortável. 

As duas viveram até os 61 anos de idade, morrendo de tuberculose por volta de 1912.       

Os Irmãos Sagrados de Monbali


Os irmãos gêmeos Noor e Noon Mareek nasceram em meados de 1889 no vilarejo de Monbali na India. Eles tinham uma condição extremamente rara na qual compartilhavam do mesmo torso em extremidades opostas do corpo.

Ao contrário do que acontece em muitos lugares do mundo, o nascimento de crianças unidas não é visto como uma maldição ou mau agouro, mas como uma benção dos Deuses. Na religião hindu, várias divindades são dotadas de múltiplos braços e pernas e a condição dos gêmeos os fazia parecer fisicamente com estas divindades. As crianças receberam milhares de visitantes que acreditavam que elas poderiam atender pedidos e fazer com que as preces chegassem ao plano espiritual.

A vida das crianças, no entanto, era extremamente complicada e os pais enfrentavam enormes dificuldades para cuidar das suas necessidades especiais. Elas acabaram sendo entregues para um Monastério que as criou até completarem os 13 anos, idade na qual escolheram se converter em monges. Quando desejavam sair do monastério em que viviam, Noor e Noon eram carregados em uma liteira e apresentados aos fieis como uma espécie de benção divina. 

Em uma peregrinação feita a uma cidade santa em 1911, os meninos atraíram uma multidão de fieis que os cercaram em busca de iluminação. Alguns acreditava que eles eram capazes de operar milagres e que o toque deles podia curar as mais variadas enfermidades do corpo e da alma. O resultado de sua aparição foi uma enorme confusão e um tumulto no qual centenas de pessoas foram pisoteadas, feridas e mortas. 

Após essa grande comoção, os dois decidiram se resguardar e levar vidas discretas atrás dos muros de seu monastério. Quando os irmãos morreram em 1920 seus corpos foram expostos em uma cerimônia religiosa que arregimentou uma multidão de quase 50 mil pessoas que desejavam chegar perto dos dois meninos tocados pelos deuses. Os corpos foram depositado em uma sepultura que até hoje é visitada por milhares de pessoas anualmente. 

Há uma crença de que casais que se conhecem perto dessa sepultura e que posteriormente tem filhos estão fadados a terem gêmeos. Muitos pais indianos expressam um desejo franco de que seus filhos venham ao mundo unidos ou com múltiplos membros.

Fulvio e Erico Goduño


Muito se fala a respeito da noção de gêmeo bom e gêmeo ruim. A ideia de que um gêmeo herdava o lado benigno e o outro o lado maligno do ser, era muito comum no passado. Mas o que fazer quando tal coisa ocorre em gêmeos unidos?

A história de Fulvio e Erico Goduño envolve esse conceito levado ao extremo.

Nascidos em Málaga na Espanha, em 1914, em uma família pobre, os gêmeos vieram ao mundo unidos pela pélvis através de uma camada de cartilagem. Era impossível separá-los sem colocar os irmãos em risco direto. Os pais biológicos não aceitaram as crianças e por isso as deram para a adoção. Eles tiveram a sorte de serem adotados por uma família rica que deu a eles estudo e educação esmerada. Contudo, havia algo errado com s gêmeos: enquanto Fulvio era tranquilo e amável, seu irmão Erico era agitado e dissimulado. Em geral, irmãos siameses possuem personalidades que se encaixam, como um mecanismo para funcionarem em conjunto dada a necessidade de interação. No caso dos gêmeos espanhóis as personalidades eram totalmente adversas e conflituosas.

Com o passar do tempo, as diferenças foram se acentuando. Fulvio era obediente, já Erico construía uma personalidade cada vez mais rebelde. Não se conformava da interdependência do irmão e tentava exercer sobre ele domínio, impondo sua vontade pela força. Fulvio começou a aparecer frequentemente com marcas roxas e machucados pelo corpo, produzidas por Erico em seus acessos de raiva. Quando o irmão não concordava com algo sua reação era furiosa. Os meninos chegaram a estudar um um colégio, mas foram afastados por conta de Erico que atacava as outras crianças e as aterrorizava.

Quando atingiram a idade adulta, Fulvio desejava se tornar engenheiro, já Erico não tinha perspectivas sérias e embora tivesse sido persuadido a seguir o irmão nos estudos se ressentia dele. Erico chegou a atacar uma empregada e tentou violentá-la, sendo impedido pelo irmão. O escândalo resultante se tornou um debate no qual a justiça tentava definir como processar um irmão sem punir o outro. 

Por fim, os irmãos acabaram concordando em se submeter a uma arriscada cirurgia de separação em 1936 por médicos franceses. Durante o procedimento Fulvio acabou não resistindo e morreu na mesa de cirurgia, seu irmão sobreviveu mas desenvolveu um problema na coluna e morreu 12 dias depois.

Os irmãos Goduño são o único exemplo conhecido de irmãos gêmeos siameses antagonistas.