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quarta-feira, 24 de julho de 2013

ENnie Awards 2013 - Os indicados para o prêmio de melhores RPG do ano


Semana passada saíram as indicações para o prêmio que é considerado o "Oscar do Mercado norte-americano de RPG".

Entre os indicados desse ano, alguns medalhões e algumas releituras de sistemas e ambientações já consagradas. E é claro, algumas boas surpresas.

Abaixo estão os indicados desse ano. Eu fiz alguns comentários a respeito daqueles que conheço ou já ouvi falar e citei os os meus favoritos.

A votação é aberta a qualquer um que quiser participar. Para isso, basta entrar na página oficial do ENnie Awards e escolher os seus prediletos dentro da lista.

Para nós brasileiros, a votação desse ano é especialmente interessante já que entre os indicados está nosso colega Pedro Ziviani, autor do Mythic Iceland, ambientação do sistema BRP editado pela Chaosium. Por sinal, gostaria de convidar os leitores a votar em nosso conterrâneo. E não apenas por questão de bairrismo, mas pelo fato de que o livro é de fato, muito bom.

Bem, sem mais delongas, aqui estão os candidatos de 2013:

Melhor aventura
Meu Voto: Caramba que difícil esse primeiro quesito! Esse com certeza foi um grande ano para escritores de cenários de aventura. Eu fiquei muito em dúvida. Zalozhniy Quartet da Pelgrane para a excelente Night's Black Agents foi muito elogiado em sua mistura de espionagem e sobrenatural. Dizem que todas as aventuras são bem acima da média! 

Enemy Within é considerado a maior campanha de Warhammer Fantasy até o momento, uma tremenda caixa que leva os personagens do início de carreira até alto nível. E quem conhece o padrão de qualidade da Fantasy Flight, o material é de primeira! 

Achtung! Cthulhu (saúde!) já teve uma resenha aqui no Blog e também foi bastante elogiada e quase levou o voto... mas, esse ano não tem para ninguém! The Last Sons, cenário para o faroeste macabro de Deadlands Reloaded vai para o trono. Grande cenário no estilo plot point de uma campanha usando personagens nativo-americanos. Cheio de idéias e inovações, muito bem escrito e detalhado.    

Melhor Acessório/Suporte de Jogo:
Meu Voto: Aqui fiquei entre três possíveis. O primeiro a trilha sonora para Ashen Stars que dizem ser muito bem feita, fugindo do comum que se espera em trilhas sonoras para jogos. Eu ouvi duas músicas e realmente elas dão o tom empolgante para uma campanha no melhor estilo space opera. Outra possibilidade seria o Screen de One Ring da Cubicle 7. Eu sou muito fã de Screens e esse em particular é de cair o queixo. O desenho e as tabelas são muito úteis, sem falar que os adendos são bem interessantes. Quase levou meu voto! 

Porém, eu vou ter que votar na Unspeakable Oath. Caras, para quem gosta de ambientações lovecraftianas, abram os olhos para essa publicação trimestral da Arc Dream. Ela é muito, muito, muito boa! Com artigos interessantes, resenhas, ideias para jogos e cenários completos.  

Melhor Arte de Capa:
Meu Voto: Aqui a questão é puramente de costo pessoal. Qual artista consegue chamar mais a sua atenção com uma capa que consegue traduzir o conteúdo do livro e o que está contido no texto. 

Mas se parece fácil no papel, na prática não é algo tão simples. 

Nessa categoria qualquer um dos candidatos pode vencer. 

Eu sou muito fã das capas feitas para Lamentations of the Flame Princess e gostei bastante dessa em especial. Não vai ser nenhuma surpresa se ela ganhar! A capa do Iron Kingdoms também é excelente, verdadeira obra de arte. Mas eu vou ficar com a do NPC Codex. Ela consegue invocar perfeitamente o conteúdo do livro. Ficou algo inspirador! 

Melhor Arte Interior
Meu Voto: Eu folheei o Night's Watch e ele é excelente! O Night's Black Agents também me chamou a atenção positivamente, assim como o livro de Forgotten Realms - como quase todos que a Wizards publica tem uma arte excelente. Mas aqui não tem pra ninguém! Shadows of Esteren é de longe o meu favorito, o livro é de chorar de tão bonito.


Melhor Blog
Meu Voto: Preferi não votar por não conhecer os candidatos.

Best Cartography
Meu Voto: O único que eu conheço é o "The Lands of Ice and Fire" que é realmente impressionante. Um amigo que nem joga RPG, mas que é super fã de Game of Thrones comprou e falou muito bem dessa caixa contendo uma coleção de mapas soltos que são quase um atlas. Olhem a foto abaixo e digam se não é algo muito bem feito. Acabei votando nele por conta do entusiasmo do colega, mas depois de ver essas fotos estou até cogitando comprá-lo.


Melhor livro eletrônico
Meu Voto: Apesar de ter adorado o "The Last Sons" para Deadlands Reloaded e ter votado nele para melhor aventura do ano, acabei votando nessa categoria em EPOCH, iniciais de "Experimental Paradign of Cinematic Horror" um RPG de Survival Horror que se propõe a simular os acontecimentos típicos em filmes B de terror, desde aqueles com monstros gosmentos, até criaturas gigantes ou assassinos em série. 

Eu gostei da proposta do EPOCH onde o destino dos personagens fica nas mãos dos jogadores todo o tempo e eles decidem qual será o destino de cada um baseado no que seria mais interessante para a estória. 

O fato de seu download custar apenas 4 dólares o torna ainda melhor.

Melhor "Jogo para a Família"

Meu Voto: Em um primeiro momento o voto quase foi para Doctor Who: Adventures of Time and Space, mas na última hora acabei optando por outro livro surpreendente.

Acreditem ou não, meu voto foi para o Mermaid Adventures, uma ambientação cuja proposta é apresentar o RPG para uma nova geração de jovens jogadores - no caso crianças entre 3 e 9 anos. 

É um livro despretensioso onde os jogadores assumem o role de heróis, princesas e bichinhos bem no estilo dos desenhos da Disney. A ideia é muito legal! Uma grande sacada para apresentar o RPG a crianças. Eu cheguei a pensar em comprar para minhas sobrinhas jogarem! 


Melhor Jogo Gratuito
Meu Voto: Esse também não votei. Não conheço esses jogos.

Melhor Produto Gratuito:
Meu Voto: Mais uma vez o voto vai para o EPOCH

Vale a pena baixar essa aventura introdutória, totalmente gratuita para conhecer qual é a do sistema e para conhecer uma aventura realmente malvada de terror.

Essa aventura não é original nem nada, pelo contrário, ela é o que se poderia chamar de  clássica, do tipo em que os elementos já foram vistos em vários filmes de terror. Gostei bastante da premissa e penso em mestrar um dia desses!

Aos fãs de horror de sobrevivência, eu recomendo muito conhecer esse sistema e procurar todas as aventuras de EPOCH. Elas são muito bem feitas, muito bem escritas e podem ser compradas à preço de banana. Isso quando não são gratuitas como essa daqui.

Best Game
Meu Voto: Desses eu conheci o Iron Kingdoms em sua nova encarnação, mas francamente não sei o quanto a ambientação mudou. Ouvi falar bem do Swordsmen and Sorcerers of Hyperborea, mas já temos várias ambientações de Sword and Sorcery, então não sei se ele apresenta alguma novidade que o torne diferente dos demais. Votei no final das contas em Night's Black Agents da Pelgrane Press. A mistura de espionagem, investigação secreta e vampirismo tinha tudo para dar errado, mas todos que leram esse livro elogiaram bastante. Está na minha lista faz tempo e venho acompanhando os comentários à respeito. Parece ser uma ótima pedida. Muita gente comenta que o sistema GUNSHOE ficou perfeito nessa ambientação. Eu confesso que estou muito curioso para ver as mudanças que esse livro sugere. 


Best Miniature
Meu Voto: Nessa categoria não votei.

Best Monster/Adversary
Meu Voto: O único que me interessou nessa lista foi o DC Adventures Heroes and Villains vol 2. Quem não gosta de conhecer as estatísticas de super-heróis e saber quais deles são mais poderosos quando colocados frente a frente? 

O primeiro volume já foi bem legal, com personagens mais conhecidos do universo DC, esse aqui trás alguns personagens mais obscuros, o que sempre é interessante para quem quer fugir do óbvio. Ele não muda a fórmula batida, mas sempre é ótimo de folhear.

Best Podcast
Meu Voto: Fiquei no vácuo aqui. 

Melhores Valores de Produção
Meu Voto: Nossa aqui a coisa esquentou. Estranhei a ausência da campanha de Warhammer Enemy Within, estranho não ter recebido pelo menos uma indicação. Mas vamos aos concorrentes mais fortes. Todo e qualquer produto da Cubicle 7 para a ambientação Doctor Who já começa com uma vantagem à frente das demais. A ambientação, o material e o acabamento dos livros são simplesmente incríveis. 

Seria necessário algo muito bom para passar a frente dele... e não é que apareceu um candidato à altura? Estou me referindo a Shadows of Esteren Book 1. Esse livro é o que há! Fazia tempo que não via um acabamento tão bonito e que me chamava tanto a atenção. Em se tratando de custo benefício, esse livro pode ser caro em relação aos demais, mas vale quanto pesa. 
Melhor produto relacionado a RPG
Meu Voto: Aqui eu confesso que fui bairrista à beça. Votei no "The Express Diaries" pela simples razão que ele é um resumo de uma das melhores e mais queridas campanhas de Call of Cthulhu lançadas até hoje: Horror on the Orient Express. Express narra aventura por aventura o que se passou em uma mesa de jogo, usando os personagens como os protagonistas de um romance se passando a bordo do mais luxuoso trem de passageiros do mundo. Adorei a ideia e espero que mais delas sejam lançadas.  


Melhores Regras
Meu Voto: Pensei no Dungeon World que dizem ser bem bacana, mas esse pareceu um pouco abaixo de outros dois. A briga de cachorro grande aqui é entre o Suvival Horror de EPOCH e o horror classudo misturando sangue e espionagem de Night's Black Agents. Esse categoria foi difícil... as regras do EPOCH são muito boas e inovadoras. As do Night's não são exatamente uma novidade, mas ouço tantos elogios sobre a maneira como essa ambientação utiliza o GUNSHOE que fiquei muito curioso para experimentar. E na dúvida entre inovação e um novo conceito de um sistema já conhecido em quem votar? Acabei optando pelo Nights Dark Agents, mas foi páreo a páreo até a linha de chegada.

Melhor Ambientação
Meu Voto: Eu conheci três dessas ambientações. Broken Rooms é muito interessante. A ideia é que existem realidades paralelas acessíveis através de portões e que entrar nesses planos pode ser muito perigoso. O livro é muito bem escrito e oferece infinitas opções para uma longa campanha. A outra opção foi Menzoberranzen, a clássica cidade dos Drows revisitada no universo da quarta edição de D&D. Eu não sou fã desse sistema de regras, mas Menzo sempre foi e sempre será lembrada como uma mega campanha no Underdark habitado pelos drows, os vilões que todos os fãs de D&D adoram odiar. Tão legal que valeu uma olhada. Mas o voto é claro, acabou indo para o Mythic Iceland do nosso colega Pedro Ziviani. O livro é extremamente bem escrito, os fãs da Era das Trevas e de Vikings irão encontrar uma inúmeros detalhes e curiosidades interessantes a respeito desse universo. Coisas que nunca apareceram em nenhum outro livro sobre o tema e que foram explorados com enorme competência.  

Melhor Software
Meu Voto: Voto mais do que consciente esse daqui!

Cthulhu Mythos Encyclopedia é extremamente útil e aproveitável por qualquer keeper, curioso ou entusiasta das estórias em que figuram as forças do Mythos de Cthulhu. Útil para Call of Cthulhu, Rastro, Shadows e qualquer ambientação com a participação das criaturas nefastas do círculo lovecraftiano. 

Essa versão eletrônica é ótima para consultas rápidas e vem atualizada com vários novos verbetes. O que já era bom, ficou ainda melhor!

Daniel Harms, o autor desta que é a terceira edição da Encyclopedia está de parabéns.

Melhor Suplemento:
Meu Voto: Na minha opinião um suplemento deve oferecer opções para o Livro Básico do distema ao qual ele está ligado. Deve fazer com que o jogo original ganhe mais detalhes e reviravoltas. Deve fornecer regras opcionais, aprofundando as opções do mestre e dos jogadores. É como um novo painel a ser apresentado. 

Dentre os suplementos candidatos, Menzoberranzen parecia uma boa pedida. Se a quarta edição não agradou a todos, esse livro pelo menos chama a atenção por trazer a tona uma das mais famosas ambientações de um mundo que por si só já é vasto: Forgotten Realms

Shadowrun 2050 e Nights Watch também parecem ser uma boa pedida e nem vou estranhar se algum desses dois acabar ganhando. Mas eu já disse como os suplementos para Doctor Who são demais? E esse mega suplemento, The Time Traveler's Companion acabou sendo o meu escolhido. A Cubicle 7 tem o mesmo cuidado em seus suplementos que dispensa aos seus Livros Básicos. Praticamente tudo o que eles lançam para Doctor Who tem o mesmo acabamento impecável da caixa básica. Se isso não demonstra que eles fazem ótimos produtos o que mais poderia? 

Melhor Website:
Meu Voto: Eu conheço dois dentre os candidatos: Gnome Stew e See Page XX. Os dois são muito bons, mas aquele que eu leio mais habitualmente é o Page XX dedicado aos jogos da Pelgrane. Sempre tem alguma coisa útil ali no meio, então... 

Melhor Texto:
Meu Voto: Páreo duro entre Doctor Who e Nights Black Agents. Em quem votar? O Night´s na minha opinião é um baita livro na opinião de todos que tiveram acesso a ele. Mas o Doctor Who foi escrito com a colaboração de alguns redatores do próprio seriado. Não dá para ser mais fiel do que isso! O negócio é tão bacana que serve como um almanaque para os fãs da série, mesmo os que não conhecem ou não se interessam pelo RPG. E isso, de um grupo de fãs que é quase tão fanático quanto os fãs de Star Wars ou Star Trek, não é pouca coisa. Qualquer um desses dois pode ganhar, mas como só se pode escolher um...   
Product of the Year
Meu Voto: E aqui estamos, na categoria final e mais importante. Essa é a categoria que define o melhor e mais importante lançamento do ano. E considerando tudo oq ue saiu, há muitos livros que poderiam estar no alto do pódio. 

Broken Rooms pode surpreender, embora não ache que o prêmio vai para uma editora pouco conhecida. 

Não acho tampouco que o prêmio vai acabar nas mãos da Wizards embora Menzoberranzen seja a melhor coisa que eles lançaram nos últimos anos. 

O EPOCH poderia ser uma boa opção, e por pouco não levou o meu voto. 

O Nights Black Agents e o Doctor Who: The Time Traveller's Companion estão entre os meus favoritos e ganharam meu voto em várias categorias. Não seria de estranhar se algum deles figurasse aqui como um reconhecimento definitivo. 

Mas não... quem vai para o trono na categoria principal do ENnies 2013 na minha modesta opinião não é outro senão o magnífico Shadows of Esteren Book 1. Esse livro poderia estar em um número maior de categorias, ao menos entre os candidatos de Best Writing poderia figurar. Misturando medievalismo com horror, a ambientação desponta como um herdeiro legítimo de Ravenloft, com o que havia de melhor naquela ambientação gótica. Como já devem ter notado eu adorei esse livro.

Bom, então é isso! Em breve saberemos quem são os vencedores.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

The Unspeakable Oath - Resenha do número #20 da revista


Por Clayton Mamedes

Para quem não sabe ainda, a revista The Unspeakable Oath é uma competente publicação dedicada exclusivamente aos jogos de RPG baseados nos contos de H.P. Lovecraft e a outros assuntos relacionados ao Mythos. Neste ressurgimento, a revista apresenta uma periodicidade quadrimestral; assim em Julho de 2011 foi publicado o exemplar de número 20. Depois de muito tempo, consegui ler e sintetizar o seu conteúdo para esta resenha. Antes tarde do que nunca...

Essa edição começa com uma bela ilustração de Todd Shearer, que já havia realizado um bom trabalho com a edição de re-estréia, a #18. Escolha de cores e nível de detalhes adequados para uma cena bem violenta.

Como de praxe, a primeira seção é o editorial, chamado de The Dread Page of Azathoth. Estas breves palavras estão se tornando a minha parte favorita da revista, sempre apresentando opiniões interessantes. Desta vez a discussão gira em torno do combate em aventuras de Call of Cthulhu. São realmente necessários? Quais vantagens posso tirar deles?

Adam Gauntlet é o responsável pelo primeiro Tale of Terror desta edição. Em uma página são descritas 3 maneiras distintas de utilizar uma lista de nomes de pessoas encontradas nas ruínas da sede de um culto derrotado. Coisa bem simples e de utilidade duvidosa.

The Eye of Light & Darkness concentra uma das poucas críticas que faço a TUO. Apesar do conteúdo desta seção ser interessante e útil (resenhas sobre jogos e outros relacionadas ao Mythos), eu não entendo a razão pela qual esta seção é dividida ao meio: algumas resenhas são apresentadas nas páginas 6 e 7, continuando somente na 57, sendo que até mesmo a conclusão dos parágrafos é fracionada. Apesar desta mancada, este volume trás algumas obras conhecidas do público brasileiro, como Cthulhu Invictus, Watchers in the Sky, The Curse of Yellow Sign: Act I, e uma análise de uma coletânea de DVD do Marble Hornets (O Slender Man ataca novamente!). Acho interessante ler análises sobre obras que você já conhece; muitas vezes são abordados temas diferentes. Outro ponto de vista sempre é bem-vindo.

Jeffrey Moeller assina o primeiro cenário deste volume, feito para CoC nos dias atuais. Nas próximas 11 páginas temos uma idéia original e bem trabalhada (não entrarei em detalhes para evitar spoilers), que provavelmente surpreenderá os jogadores. Contudo, também existe o risco do Keeper ser pego com as calças arriadas, já que a trama é complexa e precisa ser lida e relida para ser entendida plenamente.

Mysterious Manuscript de Dan Harms ocupa apenas 2 páginas, mas é um dos pontos altos desta edição de TUO. Neste breve artigo é contada uma trama sobre corpos de jovens mulheres que aparecem vitimadas por golpes de facas. O fato curioso é que em suas coxas esquerdas existem runas esculpidas na carne, com profunda habilidade. Tais caracteres apresentam um intricado código criptográfico – The Monongahela Carver Cipher. Bem original, horripilante e útil.

O Arcane Artifact é chamado de Eye of Daoloth, que precisa ser armazenado em condições refrigeradas para não libertar o Mal que está aprisionado em seu interior. Nada muito inspirador, porém curioso. Seria interessante ver como os jogadores lidariam com o artefato em uma situação que o sistema de refrigeração falhasse...

As próximas 18 páginas são preenchidas por um detalhado estudo sobre a seita dos assassinos, cobrindo as suas origens, ligações com o islamismo, fatos históricos relevantes e, obviamente, a sua relação com o Mythos. Este tratado feito por David Hardy e Scott Glancy (com pontos semelhantes à história dos Assamitas do World of Darkness) é extremamente útil para o Keeper, seja para um cenário historicamente fiel, fantasia medieval ou envolvendo o Mythos de uma forma mais Pulp. Sem sombra de dúvida, este é o texto medalha de ouro deste volume de TUO.

James Haughton assina o segundo cenário desta edição, chamado Let’s learn Aklo! Nesta rápida trama para Delta Green, os investigadores se envolvem com um caso de múltiplas mortes envolvendo o aprendizado de um novo idioma. Aqui, as referências a obra The Courtyard de Alan Moore (!!) são evidentes, estando a mesma relacionada na bibliografia do cenário. Um cenário competente, com uma boa dose de investigação e uma revelação final interessante.

O próximo Arcane Artifact é feito também para Delta Green, desta vez escrito por Bret Kramer. Trata-se de uma caixa e armazenamento com um braço esquerdo dentro. Porém, um braço que tem vida própria, como nos filmes mais trash que você pode imaginar. Nem preciso falar mais nada...

Fechando o volume, temos Scott Glancy trazendo Delta Green: Directives from a Cell. Neste ensaio, Scott escreve sobre uma constante crítica de muitos usuários de DG: a falta de material exclusivo no mercado. Como solução, o autor considera o uso de elementos de outros jogos, justificando que o RPG é uma arte colaborativa e em eterna expansão. Assim, o Keeper não precisa ficar restrito ao universo de Lovecraft para encontrar o antagonista para a sua próxima mesa de DG. Um texto que trás algumas boas idéias.

Enfim, costumo relacionar o sucesso de alguma publicação de RPG com a quantidade de idéias para cenários que a mesma fornece durante a leitura. Este sempre foi o ponto forte da TUO e, pelo jeito sempre será. Apesar de este edição ser a menos inspiradora até o momento (considerando o período pós-hiato), ela ainda apresenta material de altíssima qualidade, como a idéia do Carver Cipher e o estudo sobre os assassinos. Materiais estes que podem facilmente ser encaixados nas mais diversas mesas de jogo. Os materiais para Delta Green obviamente vieram para saciar um pouco a sede do publico que clama por este tipo de jogo. Uma pena que esta ambientação não é a minha favorita – fato este que ajudou a diminuir a minha avaliação sobre mais este volume de TUO. Mas afinal, não é uma falha dos editores; eles precisam ter jogo de cintura para mesclar material que interesse aos diversos públicos do Mythos. E este objetivo foi alcançado novamente.

The Unspeakable Oath 20

por Shane Ivey, John S. Tynes e outros
Arc Dream Publishing – 66 páginas, capa colorida, U$ 9,99

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Mão de Y'Golonac - A turbulenta estória de um artefato diabólico

Inspirado pelo artigo de Brian M. Sammons (publicado originalmente na revista The Unspeakable Oath 14-15 - pela Pagan Publishing)

No Universo do Mythos há uma triste verdade: Não existem tesouros ou recompensas materiais para os que empreendem buscas nesses tortuosos caminhos.

Os raros artefatos obtidos nestas jornadas e que tem ligação com entidades malignas, seus cultos apocalípticos ou passado profano, na maioria das vezes, são tão poderosos e perigosos que a mera proximidade deles condenaria o mais astuto dos investigadores à insanidade, morte e esquecimento. Mesmo assim, muitos tentam obter esses itens, acreditando serem capazes de controlar e se beneficiar com seus poderes.

Aqui está um enigmático Artefato Arcano, conhecido entre ocultistas e estudiosos do Mythos, que possui uma história igualmente rica em loucura e mistério.

Histórico

Quem esculpiu a estatueta conhecida como "A Mão de Y'Golonac", quando e com que propósito são perguntas que provavelmente jamais serão respondidas. Essas são questões que o tempo tratou de apagar sem deixar pistas. 

A primeira citação a existência desse artefato data do século XV, quando ela é mencionada em um documento escrito por um conselheiro da corte do Czar Ivan IV (conhecido como o Terrível) no ano de 1541. O documento, uma espécie de registro de tesouros pertencentes ao espólio de um nobre, se encontra no Museu do Krenlim, e diz:

"... dentre os tesouros encontra-se um artefato de pedra esculpida na forma da mão do obeso lorde da danação, cuja perversidade transborda e é capaz de preencher os homens que cedem aos seus caprichos".

Alguns pesquisadores acreditam, entretanto, que o artefato seja bem mais antigo. Fontes não confirmadas mencionam que ele já seria usado em cerimônias do infame "Culto das Mãos Famintas" que existiu na Pérsia até o século XI. Se este é o mesmo item, ninguém foi até o momento capaz de oferecer uma explicação sobre como ele teria chegado a Rússia Imperial. 

Sabe-se que posteriormente ele teria sido vendido e passando de mão em mão, transitou pela Europa Oriental, até ser transportado, possivelmente como contrabando para o Norte da Itália. A Mão teria sido comprada por um sacerdote, ludibriado a acreditar que se tratava de uma relíquia sagrada cristã. Incapaz de destruir o item, o sacerdote resolveu escondê-lo em um nicho secreto na sacristia da Catedral de Verona. Lá ele permaneceu por décadas, até ser reencontrado por outro vigário no início do século XVIII. Segundo boatos, esse vigário "manteve o artefato escondido em seu aposento privado fazendo uso de suas propriedades demoníacas". Sabe-se que em meados de 1710, um sacerdote de Verona chamado Ubertino Franco foi acusado de heresia, depravação e práticas demoníacas. O religioso foi excomungado e depois de ser considerado um demente perigoso, conduzido a um calabouço onde morreu anos mais tarde. 

Em 1780, a "Mão" ressurgiu na França. Ele era uma das principais atrações na infame Maison Noir (Casa Negra) um bordel que funcionava em Paris e atraia uma seleta clientela de nobres sibaritas e burgueses abastados. A Mão de Y'Golonac era mantida em um aposento especial chamado "Le Secret Boudouir" onde repousava em almofadas de cetim. Ela só podia ser contemplada por fregueses especiais que pagavam uma soma considerável para desfrutar dos prazeres oferecidos pela casa na distinta presença do item. Alguns acreditava que ele era capaz de realçar as sensações, causar alucinações e invocar uma aura de total perversidade.

Por ocasião da Revolução de 1789, a Maison Noir foi destruída e incendiada por uma turba furiosa que sabia ser aquele um lugar frequentado por cortesãos. A maior parte dos objetos de valor foram saqueados e é provável que o artefato tenha sido carregado em meio ao caos que se seguiu.

Depois disso, a "Mão" desapareceu por algum tempo. Ressurgindo no século XIX nas mãos de ocultistas conceituados que ainda tentavam compreender seus poderes e tirar proveito das suas faculdades. Dizem que o próprio Aleister Crowley teve a posse da mão por um curto tempo e conduziu experimentos com magia tântrica na sua presença. O ocultista inglês acreditava ser capaz de concentrar enorme energia mística usando a Mão como catalizador nos seus experimentos. Infelizmente (ou não!) Crowley não teve tempo de realizar todas as pesquisas que planejava, já que uma de suas inúmeras amantes teria em algum momento fugido da "Grande Besta" carregando consigo o tesouro místico.

Em 1960 a Mão reapareceu na coleção de objetos de arte pertencentes ao "papa" do LSD, o psicólogo americano Timothy Leary que defendia o uso da droga sintética para abrir a mente humana ao seu pleno potencial sensorial. Em 1967, a estatueta foi roubada por membros de uma Seita que profetizava o fim dos tempos nas mãos de deuses e entidades inumanas. A seita foi acusada posteriormente de envolvimento em assassinatos durante rituais conduzidos no deserto da Califórnia. Seus membros foram presos e alguns se encontram ainda cumprindo penas de prisão perpétua.

O paradeiro atual da "Mão de Y'Golonac" é desconhecido.

Aparência

A Mão de Y'golonac é construída a partir de um único pedaço de pedra cinza-esverdeada, cuja composição exata é desconhecida. Sabe-se que se trata de um tipo de rocha maciça: resistente, lisa e polida. Suave ao toque, muitos afirmam que ela é fria e mais leve do que se poderia supor à primeira vista.

A estatueta foi esculpida para parecer com o braço e mão de um homem adulto do cotovelo para baixo. Onde a articulação do cotovelo deveria estar, surge abruptamente a base da estatuetaA mão é inclinada para trás e os dedos afastados, com as pontas ligeiramente curvadas para dentro em forma de garra. É possível que o artista tenha construído a estatueta para servir como suporte de algum objeto não identificado que ficava posicionado na mão.

Há duas características distintivas que identificam a mão. Em primeiro lugar, há uma boca na palma aberta. Os lábios grossos retesados para trás revelando dentes perversamente afiados que aparecem mais com os de um predador selvagem do que com os de um homem.

A segunda característica está na base da estatueta. Trata-se de um retângulo feito do mesmo material com uma polegada de altura e 30 centímetros de comprimento. A porção esculpida parece "brotar" dessa base sólida e ao que tudo indica toda a estatueta deriva originalmente dessa única peça. Na base duas fileiras de estranhos símbolos gravados em toda superfície. Os glifos são pequenos e totalizam 35 caracteres que não se repetem em momento algum. Não se sabe o que eles representam ou mesmo o que significam, embora alguns criptógrafos tenham comentado que alguns símbolos são similares aos que se encontram no Manuscrito Voynich.

A Mão de Y'Golonac é uma peça que projeta uma constante aura de inquietação em todos que a vêem pela primeira vez. É impossível não sentir alguma reação na presença do objeto seja repulsa, fascinação, medo ou desconforto. Sensitivos acreditam que o objeto irradia algum tipo de energia mística capaz de ativar receptores sensoriais na mente humana e fazer com que o indivíduo exposto a ele possa ver além dos meros sentidos. A verdade é muito mais terrível...    

Poderes

A Mão é um artefato de poder considerável, criado por um Alto-Sacerdote do "Culto das Mãos Famintas" que existiu na Pérsia e que atualmente está extinto.

Seu poder principal é permitir o estabelecimento de um elo de comunicação com Y'Golonac, o Impuro. O Grande Antigo habita uma prisão inexpugnável atrás de um enorme muro de tijolos em algum recesso dimensional que priva seus sentidos e nubla sua capacidade de interagir com o nosso mundo. Normalmente é impossível para a entidade estabelecer contato com humanos, exceto quando ele consegue possuir um corpo com sua essência blasfema. Entretanto, um indivíduo exposto repetidas vezes ao artefato começa a desenvolver uma sensibilidade sobrenatural que o torna suscetível à receber projeções mentais vindas diretamente de Y'Golonac. 

Em um primeiro momento, essas emanações psíquicas aumentam as sensações do indivíduo ampliando seus sentidos e a intensidade de tudo que ele experimenta. Todos os prazeres são ampliados a um nível indescritível. Mas essa é a armadilha urdida por de Y'Golonac, criada para causar uma dependência da qual é impossível escapar. As projeções por enfim acabam pervertendo a mente do indivíduo, transformando-o gradualmente em um sátiro degenerado cujo comportamento lascivo se torna irrefreável. A medida que pensamentos cada vez mais pérfidos corrompem cada fibra de sua humanidade, o indivíduo perde totalmente o controle e deixa de ser uma pessoa para se tornar uma fera cheia de desejos e vontades. 

Quanto tempo o artefato demora para agir na mente de um indivíduo depende de quanta exposição a pessoa tem a ele e de sua própria fibra moral. Algumas pessoas, ao longo dos tempos voluntariamente se entregaram a corrupção procurando, na verdade ansiando, por essa "liberdade total".

mão também possui outro propósito, tão sinistro quanto o primeiro e descrito exclusivamente no tomo "Unausprachlichen Kulten". Diz-se que o detentor desse artefato pode, empregando o método adequado, conjurar uma terrível maldição sobre um inimigo de sua escolha. Este horrível ataque místico não pode ser detectado e afeta o alvo escolhido onde quer que ele esteja. 


Segundo o livro, para invocar esse efeito nefasto, o nome da vítima pretendida deve ser escrito com sangue em um papiro. O místico deve, em seguida, oferecer um sacrifício em nome de Y'Golonac. Esse sacrifício envolve a realização de um ato moralmente repugnante; algo que seja tão ofensivo que a mera menção causa profundo asco e consternação. A conotação dessa ato é deixada em aberto, mas por algum motivo, ele tende a ser, na maioria das vezes, de natureza sexual. 

Quando a ação é perpetrada, o autor deve carregar consigo algum pequeno item que representa o ato em si e envolvê-lo com o papiro preparado previamente. Este troféu é então depositado na mão de pedra de Y'Golonac, que se fecha em um punho caso o sacrifício seja aceitável. A estatueta arcana então desencadeia um poder terrível, enigmaticamente referido no tomo como "O Toque de Y'Golonac".

O infeliz cujo nome foi escrito começa a ter estranhos sonhos. Absurdos e enevoados num primeiro momento, os sonhos tornam-se cada vez mais claros até que começam a afetar sua vida. Alucinações insalubres e pensamentos depravados afetam o alvo noite e dia. Logo ele passa a ser acometido de um desejo incontrolável de cometer o mesmo ato praticado pelo místico que ativou a magia. Eventualmente, a força de vontade do indivíduo irá falhar diante do impulso implacável. Uma vez que o desejo é saciado, a mão se abre novamente. O item colocado em sua palma é consumido, e ela estará pronto para ser usado uma vez mais.

Na maioria das vezes, a vítima do uso repetido dessa maldição acaba por cometer suicídio para dar um fim ao seu sofrimento. Em outros casos, o detentor da mão pode parar o ataque ou ser impedido de continua-lo. De qualquer maneira, aqueles afetados pelo Toque de Y'Golonac acabam tendo a vida conspurcada para sempre, uma vez que pensamentos doentios e desejos obscenos, continuam a atormentá-lo para o resto de sua existência. 


TOQUE DE Y'GOLONAC

O feitiço requer que o realizador tenha em seu poder a Mão de Y'Golonac. Para executar a magia, o usuário deve cometer um ato doloroso e malévolo contra outra pessoa e obter um pequeno item relacionado ao evento, talvez um botão de camisa de uma vítima de assassinato, por exemplo. (o custo de Sanidade para a realização do ato é ajustado pelo Guardião.) O realizador escreve o nome do alvo com sangue em um pedaço de papiro que é enrolado no item que simboliza a oferenda. Os itens são depositados na palma da mão de Y'Golonac. O realizador gasta 10 Pontos de Magia, e perde 1D8 Pontos de Sanidade. 

O alvo da magia experimenta um período de sonhos estranhos e impulsos, culminando em uma compulsão poderosa para cometer o mesmo crime que o realizador perpetrou no momento que ativou a magia. O alvo só pode resistir a essa compulsão com um teste na Tabela de Resistência de POW vs POW contra o artefato.

A primeira vez que isso ocorre, o POW do artefato é 15; cada uso bem sucedido contra o mesmo alvo aumenta o POW da mão em um ponto, mas apenas contra o alvo. No momento do Teste de Resistência o alvo perde 1D6 Pontos de sanidade, além de um montante igual ao que o realizador tiver perdido na realização do ato vil escolhido. A vítima escolhida não precisa ser a mesma pessoa que sofreu o atentado da parte do realizador , mas é geralmente alguém do mesmo sexo, idade, raça e classe social. Se a vítima vence a disputa de POW, ele sofre os efeitos dos pesadelos, mas consegue suportar a compulsão.