sábado, 25 de fevereiro de 2023

Inferno na Terra - A Ilha dos Canibais na União Soviética


A história como conhecemos está repleta de incidentes horríveis e perturbadores. Momentos em que a humanidade perdeu a sua civilidade e enveredou através do perigoso caminho da barbárie. O relato à seguir demonstra que confrontado por certas condições, tudo que o homem precisa é um empurrão para cair de vez na escuridão de nossas almas.

Nossa pequena história de Horror começa no início do século XX, na Ilha de Nazino (também chamada de Ilha de Nazinsky), na antiga União Soviética.

O plano era transformar Nazino, uma pequena ilha fluvial em uma comunidade próspera em conformidade com o novo plano de Stalin para a União Soviética. O lugar deveria ser exemplo de conquistas e realizações, mas desde o inicio, tudo saiu errado e no fim, o legado de Nazino foi simplesmente horrível demais para encarar de frente. 

Por décadas a história foi negada, censurada e tratada como um boato mentiroso. O governo soviético chegou a impor penas de reclusão para qualquer pessoa que falasse sobre o que aconteceu naquele lugar infeliz e com seus habitantes. Contudo, certas coisas são difíceis de esconder e mais complicado ainda, é varrer certos fatos para baixo do tapete. A história foi contada e recontada, hoje sabe-se que ela é verdadeira.

Corria o verão de 1933 e a Revolução dos Sovietes, já consolidada, seguia à pleno vapor com as mudanças implementadas na sociedade. Desde o início de 1930, as autoridades haviam intensificado um programa para identificar, processar e afastar inimigos da Revolução. Milhares de cidadãos de Moscou haviam sido presos pela polícia e enviados para prisões temporárias para averiguação, interrogatório e em alguns casos, cumprimento de pena. Em geral, esses indivíduos não eram exatamente inimigos do estado, menos ainda criminosos, contudo eram tidos como indesejados. Boa parte deles caiam numa das seguintes categorias: descontente, inconformados e críticos do regime, tambem havia judeus, ciganos e degenerados (como eram chamados os homosexuais). A maioria não havia tentado nada de concreto para ameaçar o governo, mas eles eram tidos como um risco, caso um dia se organizassem. Numa época marcada pela paranoia, essa era uma ameaça que o governo não estava disposto a correr.

O problema é que a cada expurgo as prisões temporárias ficavam mais cheias e a burocracia estatal arrastava os milhares de inquéritos por meses à fio. A lotação no sistema prisional era tamanha que uma ordem veio do topo da hierarquia exigindo que alguma coisa fosse feita imediatamente. 


Na mesma época havia uma outra grande preocupação. Ela dizia respeito a manutenção de imensas áreas selvagens na Sibéria. A região isolada havia sido quase abandonada após a revolução e as fazendas que existiam lá eram tratadas como uma possível fonte de recursos valiosos em tempos de escassez. O problema é que mesmo oferecendo vantagens e benefícios o governo não havia conseguido atrair voluntários para trabalhar nessa região considerada inóspita demais.   

No fim das contas, alguém teve a "brilhante" ideia de resolver os dois problemas de uma vez só. Os prisioneiros que lotavam os presídios transitórios seriam usados como colonos na Sibéria. No papel parecia uma boa solução, contudo ela esbarrava em inúmeros problemas de execução. Para começar, aquelas pessoas, em sua grande maioria, haviam nascido e crescido na cidade grande, não sabiam nada sobre a vida no campo - desconheciam inteiramente as noções mais elementares de plantio. Tampouco haviam trabalhado pesado ou tinham familiaridade com a rotina rural. O envio compulsório era no entender da maioria uma punição injusta, quase um exílio numa das regiões mais remotas do país.

Mas os Comissários não estavam interessados na opinião desses "colonos relutantes". Eles deveriam desempenhar seu papel no novo plano de engenharia social apresentado por Stalin. A relocação de indesejáveis para territórios vazios na Sibéria e no Cazaquistão, onde a terra precisava ser cultivada e onde surgiriam comunidades autossuficientes. Mesmo o mais positivo analista duvidava que o plano teria sucesso e acreditava-se que as perdas humanas seriam consideráveis. Contudo, esperava-se que os colonos conseguissem ao menos deixar as fazendas prontas para novos grupos que seriam alocados posteriormente. Os expurgos, afinal de contas, continuariam por anos.

Foi ordenada a criação de oito comunidades rurais na região, cada qual responsável por construir, manter e preparar o solo para o plantio de trigo. Nem é preciso dizer que as comunidades falharam terrivelmente, não apenas pela inépcia dos colonos que jamais haviam pego em uma enxada, mas principalmente pelo descaso que eles enfrentaram do primeiro dia até o último. Milhares morreram de fome, por exposição ao inverno severo, por maus tratos ou tentando fugir. É difícil medir o tamanho da tragédia humana: os números variam, mas acredita-se que dos 120 mil prisioneiros transferidos para a Sibéria quase 2/3 jamais retornaram. Não por acaso, o termo "Mandado para a Sibéria" se tornou uma forma de identificar aqueles que seriam enviados para um lugar longe e selvagem.

Uma das comunidades autônomas, a mais isolada, ficava na pequena e pantanosa Ilha de Nazino no meio do Rio Ob. Foi lá que ocorreram os fatos mais chocantes que estabeleceram um novo patamar de horror e drama, difíceis de superar, exceto em tempos de guerra.


Os primeiros colonos chegaram de barca na Ilha Nazino em fevereiro e foram desembarcados numa praia lamacenta onde não havia nada e nem ninguém esperando por eles. Os administradores esperavam receber implementos para construir a fazenda, mas ao invés disso tinham à sua disposição apenas parte do material prometido. De fato, os recursos eram tão parcos que não havia madeira para construir abrigos para todos. Desse modo as pessoas tiveram de se contentar com barracas, tendas improvisadas com lona ou o que mais conseguissem usar para se proteger. A falta de alojamento se mostrava um problema grave, mas não o único.

Logo ficou claro que a fazenda era um gulag disfarçado e que a sobrevivência seria uma luta travada diariamente. Guardas armados faziam as patrulhas do perímetro enquanto uma grossa cerca de arame farpado delimitava até onde os colonos podiam ir sem receber uma advertência seguida de tiros. As ordens para os guardas eram simples: alvejar qualquer um que se aproximasse da cerca. Mesmo os soldados viviam em condições espartanas e por fim acabavam desviando os recursos que chegavam para sua própria sobrevivência. 

Além da falta de material para erguer as instalações, não haviam ferramentas, cobertores, roupas e remédios em quantidade suficiente. Em algum momento verificou-se que os administradores de Nazino não receberam os suprimentos destinados a eles e que o material provavelmente fora desviado para outra fazenda. Ninguém comunicou essa situação e mesmo que o tivessem feito, provavelmente pouco teria mudado. 

Apesar da situação geral, o maior problema na Ilha de Nazino era a falta crônica de comida.

No início havia um pequeno estoque de alimento, mas na falta de um local para acondicioná-lo, as provisões se deterioraram rapidamente com a neve, geada, chuva e vento. Os administradores destinaram os suprimentos restantes aos guardas e para eles mesmos, os colonos ficariam com o pouco que restasse. Desse modo a cada quatro ou cinco dias, era distribuída uma porção de farinha de centeio para comerem – cerca de 300 gramas por pessoa. Os colonos levavam essa farinha até o rio, misturavam-na com água e a bebiam. Alguns apenas comiam o pó como estava, por vezes inalando-o acidentalmente e sufocando.


Diante da fome, as pessoas apelavam para qualquer coisa. Comiam pássaros, raposas e pequenos animais que conseguissem apanhar em armadilhas improvisadas. Estes logo foram dizimados, restando então os besouros que viviam na lama do rio, mas mesmo eles foram extintos. Apelavam para raízes, plantas, folhas e o que mais pudessem achar. Havia uma regra severa para qualquer um que comesse as sementes destinadas para o plantio do campo, mas muitos não queriam saber, comiam qualquer coisa para se livrar da fome. Os campos, por sinal, davam mostras claras de que não vingariam e o plantio parecia ser um exercício de futilidade. As pessoas cavavam a roça e buscavam as sementes no chão e as levavam direto à boca.

A situação em Nazino era mantida em sigilo e ninguém parecia se importar com o que acontecia lá. Ainda assim, uma média de 400 pessoas chegavam por mês. Em meados de julho, um instrutor comunista chamado Vasily Velichko, ouviu alguns boatos sobre a situação na Ilha de Nazino e decidiu por conta própria verificar se aquilo era verdade. Ele escreveu uma série de relatórios que posteriormente receberam um carimbo de "ultrasecreto" e foram arquivados. Esses relatórios constituem um dos únicos documentos oficiais que comprovam os rumores sobre o que acontecia em Nazino.

"As pessoas estão morrendo", escreveu Velichko logo na abertura do relatório. “Eles morrem queimados vivos enquanto dormem perto das fogueiras. Morrem de exaustão expostos ao vento cortante, pois não há proteção. Morrem de frio, porque dormem ao relento. E morrem de Fome, pois não há comida para todos"

Velichko descreveu uma série de incidentes pavorosos em seu relatório. Todas as observações foram feitas usando um binóculo para espiar o que se passava atrás da cerca de arame farpado que havia sido guarnecida por mais duas faixas depois de uma tentativa frustrada de fuga em massa em maio.

O instrutor relatou uma cena medonha, digna de pesadelos na qual um dos cães de guarda havia sido capturado e despedaçado pelos colonos para em seguida ser devorado cru aos bocados. A cena o encheu de horror e asco.

Mas aquilo não seria o pior ato que ele testemunharia em suas observações do campo de Nazino.


Em uma situação tão exasperante de privação alimentar, não é de se surpreender que em dado momento mesmo os tabus mais profundos acabem caindo por terra. E foi exatamente isso que aconteceu segundo Velichko.

Ele já havia ouvido rumores sobre canibalismo, mas não havia confirmado as histórias contadas pelos guardas que evitavam se aproximar da cerca.

Um rapaz desapareceu e sua família em desespero implorou para que os guardas fizessem alguma coisa. A contra gosto decidiram ajudar. Descobriram os restos do rapaz na manhã seguinte, em um trecho afastado da mata. Suas panturrilhas e nadegas haviam sido cortadas e porções inteiras foram removidas. 

"Perguntei o que havia acontecido e um dos colonos disse apenas que na noite anterior eles tiveram alguma coisa para comer."

Segundo o instrutor, casos de canibalismo costumavam acontecer em Nazino vitimando jovens, mulheres e crianças. A carne era preparada em ensopados ou consumida assada em fornos. As vítimas na maioria das vezes sumiam, os corpos sendo enterrados no bosque.

Nem todas as vítimas morriam, algumas ainda sobreviviam a esse horror. "Encontramos uma mulher que estava ferida e ela relatou que um grupo a cercou e cortou suas panturrilhas para extrair a carne", escreveu Velichko.

"Eles fizeram isso comigo meses atrás - cortaram e cozinharam minha carne", toda a carne foi cortada. Suas pernas estavam congelando por causa disso e ela as embrulhou com trapos”.

A terrivel situacao parecia ser mais corriqueira do que se poderia imaginar. Sobretudo com a aproximação do inverno e de mais privações. Quando perguntado se comia carne humana, um prisioneiro disse aos interrogadores: "Isso não é verdade. Comi apenas fígados, rins e corações."

Ele contou como alguns faziam  espetos usando galhos de salgueiro, deslizando pedaços de órgãos humanos através deles para assá-los na fogueira.

"Escolhemos aqueles que ainda estão vivos, mas que logo estariam mortos", acrescentou. "Era óbvio que eles estavam prestes a morrer – que em um dia ou dois, eles desistiriam. Então era melhor para todos assim. Mais rapidamente. Sem sofrer por mais dois ou três dias. Que diferenca faria?"


Velichko escreveu seu relatorio sobre a dramatica situacao da Colonia de Nazino e tratou de enviar copias para quatro Comissários pedindo providências imediatas. No entanto, ele foi ignorado pela maioria das autoridades que consideraram seu relato exagerado e fantasioso.

O instrutor recebeu ordens de cumprir outras tarefas e foi afastado da região, remanejado para a fronteira ao sul. Ele só retornou à Ilha Nazino em meados de outubro e encontrou as instalações abandonadas. 

A colonia foi evacuada sete semanas após os relatórios terem sido enviados. Aparentemente alguém decidiu levar a sério os documentos e ordenou que as instalações fossem fechadas. Boatos davam conta de uma revolta, mas essa jamais foi confirmada. Nem todos os prisioneiros foram remanejados: os rumores afirmavam que quase metade das pessoas, em especial os doentes ou muito debilitados foram simplesmente fuzilados, bem como alguns que claramente haviam se envolvido em canibalismo.

“A grama da ilha estava alta”, escreveu Velichko. “Mas uma breve busca revelou que haviam muitos ossos e cadáveres ocultos. Ao menos o lugar havia sido esvaziado e não seria mais utilizado nos programas sociais".

Dos 9.700 prisioneiros trazidos para a Colonia na Ilha de Nazino, cerca de 6.000 estavam desaparecidos ou mortos no momento de seu fechamento. 

O experimento deu terrivelmente errado, e os eventos na Ilha Canibal foram convenientemente encobertos pelo governo de Moscou. Os sobreviventes não poderiam jamais revelar os acontecimentos sinistros ocorridos naquele lugar. Mesmo o instrutor Vasily Velichko recebeu ordens de queimar todos os seus registros e fotos. Ele nunca deveria mencionar o que havia testemunhado na ilha. Velichko recebeu uma promoção e foi enviado para o Oeste onde cumpriu suas novas funções burocráticas. Ele morreu em 1980.

Foi somente em 1988, quando o governo soviético começou a adotar uma nova política de abertura e transparência, que a tragédia da Colonia Nazino finalmente veio à tona.

Registros e arquivos até então sigilosos enfim foram divulgados, inclusive aqueles redigidos por Velichko. Livres para falar a respeito de Nazino, alguns poucos sobreviventes e seus descendentes forneceram testemunho sobre o Horror ocorrido mais de cinco décadas antes. 

As histórias foram reunidas e se tornaram um registro vívido dos fatos. Anualmente familias de pessoas que estiveram na ilha se reunem nm memorial que homenageia os que perderam suas vidas em Nazino. Ele foi erguido no exato local onde ficava a colonia fracassada. Dela não restou praticamente nada, a não ser lembranças amargas e tristeza.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Nas Profundezas da terra - A Bizarra descoberta no Labirinto Malicioso


Ocupando uma área remota do norte da Itália encontramos uma formação rochosa, repleta de ravinas e despenhadeiros naturais que formam uma série de cavernas. Esse lugar há séculos desafia a imaginação das pessoas, afastando os supersticiosos com lendas e mitos aterrorizantes.

Não é por acaso que ela recebeu um nome igualmente macabro: Dolina dell’Inferno, ou Escoadouro do Inferno. O nome é mais do que merecido, uma vez que o terreno inteiro é pontilhado por grutas escuras, grotas que nunca foram iluminadas e cavernas que se estendem pelo interior da terra. A pedra porosa e escura forma estruturas estranhas que se assemelham a algo incomodamente orgânico, como se tivesse sido gerado em outro planeta. Esses túneis escuros vão serpenteando rocha adentro levando a câmaras e grutas que ate hoje não foram inteiramente exploradas. Há túneis estreitos que mal permitem a passagem de um adulto rastejando, áreas dominadas por cristais de rocha afiados como navalha e câmaras que tendem a se inundar pela ação de lençóis freáticos.

A exploração desse complexo é extremamente difícil e não foram poucos os que se perderam e jamais conseguiram encontrar o caminho de volta para a superfície. Mesmo exploradores experientes como o famoso espeleologista francês Marcel Loubens acabou vencido pelas cavernas no final do se ulo XIX e perdeu sua vida naquele interior insalubre. 

O corpo se Loubens, que pretendia mapear o interior da caverna nunca foi recuperado. Em sua homenagem, uma área central do complexo subterraneo recebeu seu nome. Localizado a 85 pés abaixo do nível do mar, a câmara é de difícil acesso mesmo para exploradores calejados. Loubens esteve nessas passagens pois foi ali que uma mochila pertencente a ele foi achada durante as buscas. 


Uma das razões pelas quais essa área em especial é tão perigosa tem relação direta com o nome pelo qual ela é conhecida. Os antigos a chamavam de Meandro della cattiveria, ou, o Labirinto Malicioso. O nome pouco convidativo decorre do fato da geografia interna nos túneis e passagens se alterar de tempos em tempos, decorrente de deslizamentos e tremores de terra que ao mesmo tempo em que abrem passagens, fecham outras. Um explorador, mesmo que tenha um mapa, poderá se perder nesse labirinto e não encontrar a saída por conta de um deslizamento repentino. Quanto mais fundo se avança, mais o panorama parece diferente: a configuração do labirinto pode ser alterada fazendo com que seja extremamente difícil se guiar através desse subterrâneo. Para piorar, o tipo de rocha porosa tende a se desintegrar, lançando no ar partículas de uma poeira muito fina que uma vez aspirada dificilmente deixa o pulmão. Essa poeira é tão fina quanto talco e pode causar problemas respiratórios crônicos se aspirada em grande quantidade. Quando ocorre um deslizamento essa poeira domina as câmaras reduzindo a visibilidade e tornando muito difícil se guiar através delas.

Apesar das autoridades no norte da Itália desaconselharem a descida às cavernas Dolina dell’Inferno, ela ainda é um local popular para aventureiros interessados em desafiar seus perigos. E os perigos se multiplicam no interior insalubre do Labirinto Malicioso. 

Em 1998, um grupo composto de quatro exploradores italianos se perdeu no interior da caverna e passou 7 dias desaparecido. Os homens, todos com experiência em cavernas, simplesmente não conseguiam encontrar a rota que os levaria de volta à superfície. Um tremor de terra fez com que uma passagem que seria usada por eles se fechasse o que os obrigou a buscar outra saída. Em meio a poeira, sua situação foi desesperadora, mas grupos de resgate conseguiram retirá-los. Em 2007 outro grupo, dessa vez de croatas, se perdeu na caverna e um deles sofreu um grave acidente no qual quebrou a perna. A operação para retirar o ferido da caverna foi realmente complexa.  

Mais recentemente, em 2015, um grupo de exploradores da Universidade de Milão, usando aparelhos modernos de GPS e mapeamento digital atingiram um novo recorde de descida nas cavernas avançando por túneis até uma profundidade de 350 metros. Mapearam passagens até então desconhecidas e fizeram uma descoberta sinistra na escuridão absoluta. 

O grupo de exploradores estava avançando lentamente por um poço vertical que mal permitia a passagem de uma pessoa, quando atingiram uma saliência natural na qual uma visão macabra os esperava. Sobre essa pequena plataforma rochosa, no meio deste remoto sistema de cavernas estava um crânio humano olhando para eles através de suas órbitas vazias. O crânio estava virado para cima e sem o maxilar, mas fora isso parecia estar notavelmente bem preservado. O fato de ter sido encontrado naquela saliência, em um local que não poderia ser alcançado sem equipamento de escalada especializado era bastante estranho, mas o que tornava ainda mais bizarro era que não havia outros restos humanos por perto, nenhum vestígio de quem poderia ter colocado a caveira ali. Para todos os efeitos havia apenas aquela caveira solitária deixada por alguém no escuro. 


As perguntas do grupo eram muitas: De onde veio esse crânio misterioso? Como tinha chegado àquela saliência quase inacessível? Por que estava lá e há quanto tempo? Onde estava o restante dos ossos? Ninguém sabia!

Os exploradores o deixaram onde estava e começaram a contatar especialistas para informá-los sobre sua descoberta. Em 2017, uma expedição de arqueólogos foi enviada para recuperar o crânio e, após uma jornada angustiante por passagens estreitas claustrofóbicas serpenteando pelas entranhas da terra, eles conseguiram escalar o poço e coletar o crânio misterioso. Mas ao invés de respostas, eles esbarraram em ainda mais perguntas. 

O crânio foi enviado à Universidade de Bolonha para análise e descobriu-se que era de uma mulher de 20 ou 30 anos e que tinha cerca de 5.300 anos de idade. Outros detalhes também foram obtidos do crânio, como o fato de que a mulher sofria de anemia crônica, estresse metabólico e também parecia ter um distúrbio endócrino. Além de tudo isso, o crânio parecia ter recebido uma aplicação de tintura ocre, algo feito com intuito de preservação em ritos funerários primitivos. Os médicos forenses também determinaram a existência de alguns arranhões e marcas de corte que são consistentes com a remoção da carne, sugerindo que a pele macia da pessoa, os tecidos, foram removidos com uma ferramenta afiada. Considerando que não havia sinal de cicatrização, foi determinado que isso foi feito após a morte, possivelmente como algum tipo de ritual. 

Descarnar cadáveres era uma prática pré-histórica relativamente comum que remonta aos neandertais. O objetivo era preservar uma parte do corpo, em geral uma prática reservada para pessoas importantes para o restante do clã. Acreditava-se que a cabeça podia ser removida do corpo ritualisticamente. A antropóloga Alessia Zielo, da Universidade de Pádua, explicou:

"Nas culturas primitivas, a cabeça era considerada a sede da alma, que continha a força vital e que possuía qualidades extraordinárias. Era também o símbolo profundo de um poder intimamente ligado aos conceitos de vida, morte e fertilidade. Além disso, após a morte, a manipulação dos crânios demostra que os restos mortais do falecido continuavam a desempenhar um papel importante na vida da comunidade a que pertenciam."


Os estudiosos sabiam a quem pertencia o crânio e que provavelmente havia sido removido e a carne retirada como parte de algum tipo de ritual de morte, mas a pergunta que pairava sobre a cabeça de todos era como ele havia chegado aquele local na caverna. Por um tempo, isso intrigou os cientistas. Devido à sua idade, seria impossível que o crânio pudesse ter ido parar onde foi encontrado no fundo daquele sistema traiçoeiro de cavernas levado por alguém. Os povos antigos não teriam o equipamento necessário para acessar aquele local. Simplesmente não havia contexto arqueológico para ele estar ali, e era como se tivesse acabado de se materializar do nada. 

Claro, deveria haver uma explicação científica para explicar como ele havia chegado ali. Depois de muitos estudos e discussão, uma equipe liderada pela arqueóloga Maria Giovanna Belcastro, conseguiu montar um cenário provável para o que poderia ter acontecido.

De acordo com a equipe de Belcastro, a mulher provavelmente viveu na área, era alguém importante, uma mística, uma parteira ou uma matriarca respeitada pelo seu clã. Após sua morte, seu corpo foi preparado em um ritual que envolvia a remoção da carne, decapitação e provavelmente o desmembramento. Depois disso, especula-se que a cabeça desencarnada foi levada para o sistema de cavernas. As cavernas deveriam constituir um grande mistério para os povos primitivos, um lugar de grande superstição e onde as cerimônias mais sagradas eram conduzidas pois ali acreditavam que os deuses ou espíritos residiam. 

Então o crânio pode ter caído em uma fissura surgida após um terremoto ou por um deslizamento de terra, ou quem sabe ainda, uma torrente de água que o carregou. Considerando que os túneis e passagens foram de fato formados pela erosão natural, e estão sujeitos a frequentes movimentos causados por cursos de água, acredita-se que ao longo dos milênios o crânio foi caindo ao longo dos túneis e passagens conduzidos por cursos de água e outros processos geológicos ativos. Após o que, veio a descansar naquela saliência para ser encontrado 5.300 anos mais tarde. Mesmo os pesquisadores não têm certeza se essa é realmente a explicação correta, mas parece ser o cenário mais plausível até agora. 

O que aconteceu com essa mulher antiga e sem nome e como sua cabeça acabou empoleirada em uma saliência esquecida em algum labirinto subterrâneo de cavernas? Foi realmente obra da água e dos processos geológicos ou foi outra coisa? Ninguém pode dizer que outras surpresas o Labirinto Malicioso guarda em suas profundezas insondáveis.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Anatomia da Corrupção - Os estágios da Decomposição Humana


É algo comum em quase todo cenário de RPG, em especial de Horror. Em determinado momento, o grupo de investigadores irá encontrar um cadáver e terá que buscar pistas nele para auxiliar na resolução de um mistério.

Esses tempos narrei uma aventura com a premissa de ser uma investigação sobre uma série de assassinatos e percebi o quão pouco eu sabia à respeito dos pormenores que norteiam a descoberta de um cadáver e como descrever suas condições. Como ele é categorizado? Como identificar quando a pessoa morreu? Sob quais circunstâncias? Existem vários elementos e fatores que envolvem a sinistra descoberta de um cadáver.

Pensando nisso, fiz uma breve consulta em páginas que se dedicam justamente a esse tema e encontrei farto material. A ideia, obviamente não é apresentar o assunto de forma completa e minuciosa, mas sim, esclarecer alguns pontos que ajudem a tornar mais realista emular isso em uma mesa de jogo. Dessa forma, me desculpo de antemão por possíveis incorreções e dados falhos que possam estar presentes aqui. Também cabe fazer um alerta quanto ao conteúdo gráfico de imagens e fotos desse artigo. Pessoas sensíveis podem se sentir incomodadas e se esse for o caso, recomendo que não sigam adiante na leitura.

O Básico:
     
Vamos começar com o conceito mais simples de todos entender o que é exatamente a Decomposição?

Em biologia, decomposição, mineralização e em alguns casos, apodrecimento, é o processo de transformação da matéria orgânica em minerais, que podem ser assimilados pelas plantas para a produção de matéria viva, fechando assim os ciclos biogeoquímicos.

E em seguida o que entendemos por Putrefação?

A Putrefação é um dos estágios da decomposição do corpo de um animal morto. À temperatura ambiente ela se inicia geralmente de 12 a 24 horas após a morte. É causado principalmente devido às atividades das bactérias do intestino que digerem as proteínas e excretam gases (como metano, cadaverina e putrescina) gerando um forte odor desagradável. Os gases se acumulam na cavidade abdominal produzindo um aspecto esverdeado e inchaço do corpo em decomposição em seus primeiros estágios. O forte odor atrai moscas que depositam seus ovos e aceleram o processo, sendo os insetos o fator catalizador direto.


A análise direta do cadáver pode revelar uma série de informações vitais para determinar não apenas quando ocorreu o óbito, mas em que condições, de que maneira, quais agentes envolvidos e outras informações essenciais.

Sempre que Peritos Forenses encontram um corpo, seja em caso de homicídio, acidente ou suicídio, é importante que o tempo de decomposição seja avaliado. Com isso é possível fazer a estimativa do intervalo de morte, ou seja, a quanto tempo se passou entre a morte do indivíduo até o corpo ser descoberto. A ciência que estuda e descreve os processos envolvidos na decomposição de cadáveres é chamada de Tafonomia, originada do grego taphos (enterro ou sepultura) e nomos (leis), traduzindo literalmente pode ser interpretado como as "Leis do Enterro". Os maiores especialistas em tafonomia, geralmente não são os peritos forenses, mas sim arqueólogos, paleontólogos e antropólogos que estudam detalhadamente os fatores ligados a decomposição.

Quando se investiga um corpo, as mais diversas “evidências físicas” precisam ser categorizadas em três intervalos: Antemortem, Perimortem e Postmortem.

Antemortem – refere-se ao intervalo de fatos que aconteceram antes da morte da vítima, muitas vezes não sendo relacionada com o caso, pois pode se tratar de experiências de vida. São característicos pela cicatrização da pele ou dos ossos, pois tiveram tempo de se regenerar.

Perimortem – refere-se a ao intervalo e a fatos que aconteceram durante a morte ou próxima a ela. Diferente das injurias antemortem, aqui não existiu um tempo de cicatrização.

Postmortem – Não existe uma barreira exata que determinar quando terminar o intervalo perimortem e quando começa o postmortem, sendo um desafio muito grande para os especialistas. Mas os processos de decomposição podem indicar as transições.

É preciso ter em mente que estes períodos são artificiais e utilizados por convenção para categorizar evidências e injurias. A Tafonomia prioriza estudar e descrever os processos que ocorrem no intervalo postmortem, sendo os do perimortem estudados por patologistas forenses.

A decomposição do corpo possui diversas variáveis, sendo as principais a temperatura e o acesso de insetos ao cadáver. Por isso, os resultados podem variar conforme a localidade, principalmente quando se trata de regiões temperadas e polares, onde as taxas de decomposição variam. Via de regra, cada perito conhece os dados sobre a região em que atua e pode confrontar as informações obtidas.

Os estágios da decomposição

O Método Payne (definido em 1965 e ainda usado) dividiu em seis etapas o processo de Decomposição animal que pode ser utilizado para cadáveres humanos. Os referenciais levam em consideração uma temperatura média de 26◦C do solo e um ambiente ao ar livre, com presença de insetos decompositores atraídos para a cena.

1) Fresco (dia 0) 


No estágio inicial, basicamente nenhuma característica forte da decomposição é visível. 

Aqui é exatamente onde se encontra maior dificuldade em dividir o intervalo perimortem do postmortem. O cheiro ainda é o que estava presente no animal (ou pessoa) quando vivo e a variação é pouco pronunciada ou inexistente. Depois de um tempo (minutos ou horas, variando de acordo com a localidade), as primeiras moscas da família Calliphoridae começam a ser atraídas.

Nesse primeiro estágio há quatro passos distintos no processo de decomposição que podem ser observados: 

- Pallor Mortis é o primeiro estado e pode ser percebido por uma súbita palidez na pele, causada pela falta de circulação capilar. Ele se instala entre 15 e 25 minutos após o óbito.

- Algor Mortis é o esfriamento do cadáver e a redução de sua temperatura que obedece a uma escala linear. O corpo esfria em média entre 1 e 1,5 graus centígrados por hora após a morte. Considerando que a temperatura normal de uma pessoa varia entre 36,5 e 37, é razoável assumir que o cadáver atinge a temperatura do ambiente em no máximo 24 horas. Através da Equação de Glaister é possível determinar quando o cadáver veio à óbito simplesmente medindo sua temperatura nesse estágio. O algor mortis tem importante papel na resolução de crimes, já que dependendo da temperatura do cadáver é possível estimar a hora da morte.

- Rigor Mortis é a rigidez cadavérica causada pela mudança bioquímica nos músculos que ocasiona um enrijecimento nos restos. O cadáver assume uma postura rígida, como um manequim. Esse processo se inicia entre 4 e 8 horas após o óbito e perdura por um espaço de tempo entre 24-36 horas quando o relaxamento retorna.  É nesse estágio que geralmente os cadáveres são movidos por uma questão de facilidade, mas eles são deixados de lado até que a rigidez termine naturalmente. 

- Livor Mortis diz respeito ao surgimento de manchas na pele dos cadáveres decorrente dos depósitos de sangue estagnado nas partes mais baixas do corpo. Essas manchas podem ser usadas como indicativo da posição original em que o cadáver foi deixado. Com base na análise dessa etapa, é possível determinar se um cadáver foi movido, tocado, transportado ou incomodado pela ação de terceiros após o óbito. 

Em termos de jogo: Um personagem com perícia médica é capaz de identificar cada um desses estágios. É perfeitamente possível também determinar a hora aproximada da morte recorrendo a um termômetro simples inserido na cavidade retal. Um médico também conseguiria determinar, através de um teste da habilidade Medicina, se o local onde o cadáver foi encontrado é o local exato do óbito, se ele foi movido ou transportado.

Esse é o estágio mais propício para a coleta de pistas e indícios num cadáver. O corpo Fresco retém sinais que podem ser interpretados até mesmo numa análise superficial e qualquer pessoa com treinamento mínimo pode obter algumas informações relevantes.

Custo de Sanidade: A perda de sanidade por encontrar um cadáver a essa altura do processo de decomposição é consideravelmente menor uma vez que o corpo ainda retém as características que possuía em vida. O Custo de Sanidade  pode variar entre 0/1d3. Manipular um cadáver para indivíduos não habituados a tal coisa pode ter um custo adicional de 0/1d4.

2) Inchado (dia 1) 


O nome é dado pela principal característica do estágio, o inchaço do corpo devido a concentração de gases liberados pela ação de bactérias no estômago. Há uma evidente descoloração na pele na região do abdômen e um pronunciado inchaço. Os membros também podem apresentar esse súbito inchaço deixando-os informes e com uma textura incomum. A pele em determinados casos pode se rasgar liberando no ambiente os gases internos que atraem insetos, sobretudo moscas.

Esse é um momento essencial para a decomposição e dele irá decorrer todo o processo posterior. Em temperaturas mais baixas a liberação dos gases pode ser impedida enquanto em temperaturas mais elevadas ela é mais acelerada. O cheiro forte de putrefação é um indicador claro de que o processo já se iniciou e que o cadáver progrediu para essa segunda etapa.

Em termos de Jogo: Um cadáver nesse estágio dificilmente passa desapercebido por um grupo de busca ou resgate. O cheiro é bastante forte e pode ser sentido a até 150 metros dependendo da situação. Animais de busca, como cães de resgate podem farejar um cadáver nessas condições a mais de dois quilômetros de distância. Mover um corpo nessas condições é especialmente problemático pois a integridade começa a se perder e ele pode rebentar.  

Um personagem pode reconhecer facilmente através de um teste de "Medicina" o estágio em que se encontra o cadáver. Uma vez que o corpo já se encontra na temperatura ambiente, não há mais como precisar a quanto tempo ele veio à óbito. A presença de moscas no entanto pode fornecer alguma informação para peritos criminais que conheçam a região. 

Custo de Sanidade: A descoberta de um corpo inchado pode ser uma visão chocante, sobretudo quando acompanhada do cheiro e da presença de insetos. O Custo de Sanidade pode variar entre 1/1d4, com agravantes se o cadáver estiver especialmente deteriorado chegando a 1/1d6.

3) Decomposição ativa (dia 2-4) 


Nesse estágio, talvez um dos mais dramáticos da putrefação, o corpo começa a sofrer um processo cada vez mais acelerado de decomposição. Este pode ser ainda mais acelerado por fatores exteriores. O calor é um fator relevante pois os aspectos bioquímicos nos músculos cedem em temperaturas elevadas. A pele também começa a se rasgar expondo a musculatura e o contorno dos ossos. A gordura presente tende a se liquefazer em uma substância amarela macilenta que pode se tornar fosforecente. Os gases e fluidos corpóreos são liberados em grande quantidade no ambiente, fazendo com que o inchaço da etapa anterior diminua.

É nesse estágio que larvas de insetos começam a penetrar os orifícios, pele e tecidos em busca de depósitos de gás ainda presentes no corpo. Esse processo força os insetos a ir cada vez mais fundo no corpo, acelerando o processo de decomposição. A liberação desses depósitos também pode atrair animais maiores que se alimentam de restos, como aves carniceiras, raposas e cães selvagens.

Durante a Putrefação Ativa os tecidos assumem uma textura gosmenta, pegajosa e informe. Veias descoloridas aparecem sob a pele. Órgãos se desmancham e a aparência é de total ruína.

O transporte do cadáver a essa altura é difícil já que os músculos perdem sua capacidade de coesão e porções inteiras podem se soltar, desprender ou transbordar. O cheiro ainda é pronunciado, mas começa a diminuir gradualmente.

Em termos de Jogo: A deterioração nesse estágio já se encontra pronunciada. Ainda é possível fazer um reconhecimento visual que pode revelar a identidade do indivíduo, mas essa pode ser prejudicada pelo estado geral dos restos. Da mesma forma as digitais podem ser parcialmente perdidas. Não é possível aferir detalhes sobre tempo transcorrido do óbito ou se houve alteração do local onde ocorreu o mesmo. Da mesma maneira, alguns exames periciais que dependem da análise de tecidos podem ser comprometidos pela deterioração dos restos. A putrefação nesse estágio pode ser adiada pela ação de substâncias venenosas se estas foram as causadoras da morte. Antimônio, arsênio, ácido carbólico e cloreto de zinco são conhecidos por inibir a decomposição uma vez que repelem insetos.

Custo de Sanidade: Ninguém quer encontrar um cadáver,  especialmente nesse estágio! Isso é fato. Os sinais de corrupção são evidentes e podem causar um grande choque quando descobertos por alguém que não está habituado a tal coisa. A perda de sanidade por encontrar um cadáver em tais condições é entre 1/1d8, podendo chegar a 2/1d8+1 em certos casos.

4) Decomposição avançada (dia 5-10) 


Nessa fase, boa parte das vísceras já foram devoradas pelos insetos e outros organismos presentes no ambiente, o que reduz consideravelmente os odores causados pelos gases internos. O ambiente (pedras, grama ou solo) no entanto pode absorver parte desse mau cheiro e mantê-lo ativo por algum tempo. Os tecidos moles, em especial a pele, começam a se liquefazer por total e o reconhecimento visual do indivíduo através da aparência se torna mais difícil, sendo virtualmente impossível depois de 15 dias. As cartilagens e tecidos mais robustos, no entanto, ainda podem se manter por algumas semanas ou mesmo meses dependendo dos fatores externos. 

Os ossos ainda não estão expostos, mas os contornos dos mesmos podem ser vistos com facilidade despontando no que restou da pele. O corpo pouco a pouco perde volume e vai diminuindo, assim como a diversidade de insetos presentes na área.

Em termos de Jogo: O estado de Decomposição Avançada deixa bem menos para ser analisado pelos especialistas em Medicina. De modo geral, apenas os médicos legistas são capazes de obter informações pela análise destes restos tão deteriorados (exceto se elas forem bastante óbvias). Um corpo nesse estágio ainda é difícil de ser movido ou transportado, podendo se desfazer. Uma vez que o cheiro é menos flagrante, a localização dele pode ser também dificultada, ainda que cães treinados possam encontrar o rastro. 

Custo de Sanidade: Horrível como pode parecer, a descoberta de um cadáver nesse estágio pode não ser tão traumática quanto no estágio de degradação que o precede. Ainda assim, a perda de sanidade estará na casa de 1/1d6.

5) Seco (dia 11 a 20) 


Nesse estágio preparatório para a esqueletização somente tecidos mais densos, cartilagem e ossos estarão presentes e poderão ser encontrados. A matéria mais macia e mole, já terá se liquefeito e a maior parte do corpo terá se desmanchado, sendo absorvido pelo solo. Os músculos se expostos a condições atípicas poderão se manter íntegros, mas a essa altura, eles já estão ressecados. O termo "seco" é bastante correto para tratar das condições do corpo a essa altura já que ele se assemelha a um saco ressecado. 

Os insetos decompositores a já abandonaram o cadáver e outros artrópodes aproveitam a diminuição da competição para obter recursos. Centopeias, caracóis, milipedes, entre outros podem ser encontrados. O mau cheiro se dissipou por completo e não há mais depósitos de gases. 

Em termos de Jogo - Nessa altura há pouco que possa ser feito para identificar o cadáver ou obter pistas sobre causas ou tempo do óbito. Os restos são pouco mais que um arremedo de pedaços que se soltam com enorme facilidade se transportados, tanto que eles são recolhidos em bandejas e não mais, macas ou sacos plásticos de transporte.

Custo de Sanidade - A essa altura, o cadáver pode até passar desapercebido, a não ser que os ossos estejam discerníveis. Os restos parecem ocupar uma área incomodamente pequena para um cadáver humano, o que faz com que as pessoas não os reconheçam como os restos de um indivíduo. Ainda assim a descoberta de um cadáver nessas condições pode ocasionar a perda de 0/1d3 pontos de sanidade.

6) Restos mortais (21 dias em diante)


É difícil determinar quando inicia a fase final, porém é bem provável que dentro de quatro semanas, a carcaça já esteja nessa categoria. O cheiro é bem fraco, porém ainda impregnado no solo, sobretudo na vegetação que absorveu os restos liquefeitos. Toda a carne e pele já não se encontram presentes, somente os tecidos musculares mais densos, fibras, cabelo e ossos que começam a se destacar.

O termo "resto mortal" realmente é bastante adequado para descrever esse estágio, visto que o que sobra são realmente os restos mais resistentes e que irão se deteriorar até restar apenas o esqueleto. 

Em Termos de Jogo - Um legista ou um antropólogo forense são os profissionais mais adequados para examinar os restos humanos. Nessa etapa de deterioração, o exame consiste em montar um quebra-cabeças de peças soltas que podem fornecer algum indício do que levou à morte e em quais circunstâncias. Um médico pode auxiliar nesse exame, mas apenas aqueles especializados em tal procedimento podem testar sua habilidade "medicina".

Custo de Sanidade - É claro que ninguém está isento do choque de descobrir restos humanos. Apenas algumas pessoas endurecidas estão imunes a encarar a condição humana e dar de ombros. Ossos e alguns poucos restos, contudo, são bem menos chocantes do que um monte de carne putrefata. O Custo de sanidade por descobrir restos humanos é de 0/1d2. 

Notas:

Um desafio para os médicos forenses é que a taxa de decomposição pode ocorrer de forma não-homogênea em cada cadáver, sendo importante avaliar com cuidado e utilizar diferentes técnicas para diminuir a imprecisão da estimativa. Cada característica nos diferentes estágios é fundamental para o conhecimento detalhado do processo de decomposição, entendendo como é o funcionamento e por consequência oferecendo diversas informações sobre a morte do indivíduo. Qualquer variação pequena, pode alterar este processo químico. Roupas, ambiente, mudança de local do corpo, biodiversidade local e principalmente o acesso aos insetos concedem fatores aleatórios. 

Por exemplo, quando insetos não conseguem acessar um corpo, pode ocorrer um processo de mumificação natural no qual a pele se torna seca e rígida. 

Os porcos são utilizados para estudos de deterioração, devido a semelhança de seus tecidos com os humanos. Alguns artigos demonstram que em certos aspectos ovelhas são mais semelhantes Porcos contudo, ainda são mais usados para esses estudos.

Corpos humanos doados para fins de estudo científico são utilizados por Institutos Médicos Legais para análise e formação de novos profissionais. Algumas universidades possuem áreas externas para realização do estudo da decomposição em indivíduos. São as chamadas "Fazendas de Corpos" (do inglês “body farm”) que oferecem a oportunidade de estudar os efeitos in loco. Esses institutos obtém os espécimes através da doação de corpos de indivíduos que preenchem um formulário quando vivas ou com a doação da família após o falecimento do parente, contribuindo assim com o estudo forense.

Embora o estudo forense focado na decomposição humana não seja um campo exatamente novo, ele sempre foi tratado como tabu. Apenas no século XIX ele passou a ser matéria examinada mais à fundo e os profissionais dedicados a ele foram menos discriminados. A primeira "Fazenda de corpos" no entanto, surgiria apenas nos anos 1970 no campus da Universidade de Tennenssee e se tornaria referência mundial no tema.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Imagens na parede da Caverna - Ideias para incorporar inscrições ancestrais ao seu cenário de Cthulhu


Com base no artigo anterior aqui vão algumas ideias para incorporar inscrições pré-históricas como as encontradas nas parede da caverna no Tanzânia, ao universo do Cthulhu Mythos.

- Faça com que as inscrições sejam um aviso ou mensagem de uma civilização antiga que adorava os Grandes Antigos, as divindades monstruosas do Cthulhu Mythos. A civilização pode ter desaparecido devido à sua própria arrogância ou como resultado de se intrometer no conhecimento proibido. As inscrições e imagens seriam um aviso do que acontece quando as pessoas se envolvem com esses seres de poder colossal.

- Use as inscrições como um mapa ou guia para um templo ou cidade abandonada onde os Grandes Antigos eram adorados. O templo ou cidade pode ser guardado por criaturas do Mythos ou por cultistas que ainda adoram as antigas divindades. Lá também pode haver tesouros ocultos, conhecimento esquecido ou coisas que a humanidade não está preparada para conhecer. Também pode ser uma fonte de maldições, doença e morte.

- Faça das inscrições uma fonte de poder ou conhecimento que os personagens possam usar para lutar contra as criaturas ou cultistas que encontrarem. No entanto, usar esse poder ou conhecimento pode ter um custo, como loucura ou corrupção.

- Use as inscrições como uma forma de introduzir o conceito de horror cósmico em sua história. Os personagens podem começar pensando que estão lidando com uma história de terror mais tradicional, mas conforme descobrem a verdadeira natureza das inscrições e dos seres aos quais se referem, podem perceber que sua própria existência é insignificante no grande esquema das coisas.



O que as Imagens realmente mostram?

As imagens nas paredes da caverna podem representar muitas coisas diferentes, dependendo do tema e do tom da sua história. Aqui estão algumas ideias:

- As imagens podem ser representações dos Grandes Antigos ou outras criaturas do Mythos, vistas através dos olhos da antiga civilização que os adorava. Essas representações podem ser distorcidas ou estilizadas de forma a refletir a cultura e as crenças da civilização.

- As imagens podem ser um registro de um evento catastrófico que se abateu sobre a antiga civilização, como um desastre natural, invasão por outra tribo ou o despertar de um Grande Antigo. As imagens podem mostrar cenas de destruição, morte e caos.

- As imagens podem fazer parte de uma narrativa ou mito maior que a civilização antiga usou para explicar o mundo ao seu redor. A narrativa pode incluir a criação do mundo, as origens dos Grandes Antigos ou o destino da própria civilização. As imagens podem retratar momentos-chave ou personagens da narrativa.

- As imagens podem ser abstratas ou simbólicas, representando ideias ou conceitos importantes para a civilização antiga. Por exemplo, eles podem representar os ciclos da natureza, a relação entre os humanos e o divino ou a luta entre a ordem e o caos.

Qualquer que seja a direção escolhida, as imagens devem ser evocativas e misteriosas, convidando os personagens e os jogadores a investigar e descobrir seus segredos.


Quais os Deuses, Entidades ou Criaturas que poderiam ser mais adequadas para esse cenário?

Existem muitos deuses, entidades e criaturas do Cthulhu Mythos que poderiam ser adequados para um cenário envolvendo inscrições pré-históricas encontradas em uma parede de caverna na África. Aqui estão algumas ideias:

- Cthulhu: As inscrições podem ser um aviso de que Cthulhu está prestes a despertar ou um chamado para despertá-lo para algum propósito desconhecido. Um louvor misterioso ou um ritual secreto estariam detalhados na parede no criptico idioma Aklo.

- Nyarlathotep: Conhecido como o Caos Rastejante, Nyarlathotep é uma entidade que muda de forma e gosta de manipular e enganar os mortais. As inscrições podem ser uma armadilha armada por Nyarlathotep para prender os personagens ou uma mensagem de Nyarlathotep encorajando os personagens a fazerem algo que acabará por causar sua queda. O Caos pode estar disfarçado sob qualquer aspecto, desde uma forma benigna até a de "seres que vieram das estrelas".

- Yog-Sothoth: Yog-Sothoth é uma entidade que existe fora do tempo e do espaço e diz-se que detém os segredos do universo. As inscrições podem ser um mapa ou guia para um portal ou passagem que leva ao domínio de Yog-Sothoth, ou podem ser um aviso de que se intrometer no poder de Yog-Sothoth terá consequências terríveis. Talvez esse povo ancestral ainda viva em uma dobra do espaço-tempo e possa ser encontrado por intermédio de um ritual oculto na inscrição 

- Coisas Ancestrais: Diz-se que esses seres antigos gerados por estrelas criaram a vida na Terra bilhões de anos atrás. As inscrições podem ser um registro do contato com essas Coisas na Terra ou uma mensagem das próprias Coisas alertando os personagens de algum perigo iminente escondido nas profundezas da caverna.

- Tsathoggua: Os personagens podem descobrir que Tsathoggua é responsável por um desastre natural ou ocorrências estranhas na área circundante. A descoberta do mural pode dar início a uma série de estranhas eventos e acontecimentos dramáticos ligados a alguma profecia ancestral. Além disso, a antiga civilização pode ter irritado Tsathoggua de alguma forma, fazendo com que o Deus punisse a eles e aos seus descendentes.

- Povo da Serpente: Os personagens podem descobrir um culto ou indivíduos que servem ao ancestral Povo Serpente que adora Yig e busca trazê-lo de volta ao mundo. O culto pode ser formado por humanos, não-humanos ou uma mistura de ambos e pode ser uma fonte de perigo ou tentação para os personagens. Talvez eles estejam em busca dessas inscrições há séculos, talvez agora que elas tenham sido encontradas, tenha chegado o momento de colocar seus planos em ação.


Estas são apenas algumas possibilidades. Um tema como esse pode ser suficientemente amplo para justificar o início de uma campanha, mas também cabe em uma one-shot.

O Guardião também deve se sentir livre para criar seus próprios seres ou criaturas com base nos temas e cenários de sua história. Apenas lembre-se de permanecer fiel aos temas centrais e à atmosfera do Cthulhu Mythos: horror cósmico, loucura e a insignificância da humanidade diante de um universo vasto e malévolo.

Aí, está... agora basta colocar em prática.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Mistério da Caverna - Estranhas criaturas retratadas nas paredes de uma gruta ancestral


Em 2018, uma equipe de arqueólogos fez uma descoberta inesperada na Reserva Florestal de Swaga Swaga no centro da República africana de Tanzânia.

Seguindo rumores coletados junto a tribos de nativos, o grupo descobriu 52 abrigos de pedra contendo pinturas rupestres. Este tipo de arte primitiva, era usado por homens das cavernas milhares de anos atrás, representando uma das primeiras, senão a primeira, forma de expressão artística do ser humano.

Essas pinturas são tão antigas que remontam ao período em que o homem ainda não havia criado aldeias, recorria a um estilo de vida estritamente nômade e utilizava algumas poucas ferramentas primitivas.

O tempo implacável destruiu boa parte das pinturas, mas algumas sobreviveram e preservaram um enigma difícil de ser compreendido. 

O sítio arqueológico, chamado Amak'hee, é uma rede de cavernas rochosas que foram usadas como esconderijo e abrigo por homens primevos. As paredes foram pintadas com tintura extraída de frutas e apresentam elaborados painéis com desenhos figurativos. Além dos animais característicos da selva, encontrados há milhares de anos, as representações mostram algo bem mais estranho. Em meio a girafas, antílope e felinos, encontram-se três misteriosas figuras antropomórficas com corpo frágil e enormes cabeças.


Estas podem ser, de acordo com o arqueólogo chefe da expedição,  Maciej Grzelczyk da Universidade da Polônia, uma pista notável sobre a ocupação humana na região. 

O painel de Amak'hee é dificil de datar, mas em 2021 Grzelczyk foi capaz de determinar que ele teria no mínimo oito mil anos de idade. Ele foi pintado com um pigmento vermelho, exceto por cinco figuras em branco, que parecem ter sido desenhados com um tipo de giz.

Uma vez que o desenho não mostra animais domesticados, isso sugere que ele é especialmente antigo, datando de uma época em que a atividade é principal dessa sociedade se concentrava em caçar e coletar alimento que garantissem a sobrevivência.

Antropólogos já determinaram que o homem primitivo desenhava aquilo que via em suas jornadas pelo mundo inóspito à sua volta. Desde o início, o ser humano sentia a necessidade de registrar em imagens tudo aquilo que encontrava e o deixava de alguma forma impressionado.

Neste painel é possível ver bestas selvagens como búfalos, antílopes, elefantes e até mesmo uma girafa. São animais que caçadores e coletores da tribo encontrariam em suas andanças em busca de alimento. Mas o que seriam as misteriosas figuras humanoides com grandes cabeças.


"Particularmente digna de nota nas pinturas rupestres de Amak'hee são as que mostram três imagens no centro do painel" escreveu o arqueólogo em seu relatório. "Não há uma correlação direta entre essas três figuras e qualquer animal de que se tenha conhecimento da região no tempo em que elas foram elaboradas. Constituem portanto um mistério", continua ele.

A cultura do povo Sandawe que descende diretamente dos que habitam a região milhares de anos atrás, oferece um curioso precedente. Segundo as lendas nativas, há muitos e muitos séculos, um povo diferente dos homens veio de uma terra distante trazendo presentes para os chefes tribais e oferecendo a eles conhecimento e sabedoria. Foram saudados como deuses ou emissários destes, indivíduos que ofereceram amizade e grandes benefícios.

Grzelczyk explica que muitas das lendas dos Sandawe reputam a estes emissários de terras distantes a base para a criação de sua sociedade. As primeiras aldeias só foram construídas por indicação desses seres que ensinaram tudo aquilo que seria necessário para a sobrevivência. Eles também teriam sido responsáveis por ensinar o uso de ferramentas, como domesticar animais e fazer plantações. De uma forma bastante ampla, teriam sido eles os responsáveis pelo surgimento das primeiras aldeias.


Essas estranhas figuras também podem ser vistas em outro painel no Tanzânia. Na região de Kondoa, no centro do país foram encontrados em 1978 abrigos de pedra que serviram como habitação para homens primitivos. Nas paredes deste também podem ser vistas as estranhas figuras humanoides onde se destacam as dimensões da cabeça.

No sítio arqueológico de Kolo, três figuras aparecem de pé. Eretas e altivas em um local de grande destaque no painel. Essa parte do painel era destinada aos elementos mais importantes vistos pelo artista. Geralmente encontram-se ali representados animais totêmicos ou seres tidos como mágicos.

As pinturas nos diferentes sítios são similares, embora as imagens de Kono sugiram que as figuras usam um tipo de ornamento na cabeça que poderia ser removido. Em todas as representações, as figuras possuem uma espécie de linha que as conecta na altura do tórax. As três também possuem um posicionamento em comum de suas mãos e braços.

"As figuras em Amak'hee são também maiores do que as de Kolo, como se fossem gigantes. Assim como as outras, elas ocupam uma posição central no painel de grande destaque e reservada para o tema mais importante retratado. Em contraste, as imagens de Kolo são isoladas da narrativa contada no painel, sem qualquer conexão com o restante dos desenhos", escreveu Grzelczyk em seu relatório sobre as descobertas.

Em Kondo, o local foi usado extensivamente ao longo de milhares de anos para atividades ritualísticas. Os sítios encontrados mais recentemente ficaram fechados e supostamente perdidos por séculos, sua descoberta é extremamente significativa para a arqueologia pré-histórica.


Os especialistas seguem documentando as imagens nessas parede em busca de compreensão à respeito dos estranhos seres ali retratados.

"O fato é que os habitantes desses abrigos viram algo que julgaram interessante ser registrado com destaque e desejaram que essa experiência fosse preservada. Nós ainda não somos capazes de discernir do que se trata, mas é inegável ser algo de suma importância", concluiu o arqueólogo responsável pelo sítio.

Talvez os homens primitivos de Kolo tenham realmente encontrado algo que não conseguiam compreender e deram destaque a isso em seu painel. Talvez esse tenha sido um primeiro contato que mudou a existência deles para sempre. Nós realmente não podemos saber ao certo, mas a mera possibilidade de ver tal coisa documentada é o bastante para criar uma grande expectativa sobre o passado mais distante da humanidade.   

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Policiais Ocultistas - Investigadores devotados a combater crimes ocultos

 

Ainda sobre detetives de polícia dedicados a investigar e coibir crimes envolvendo o ocultismo temos Sandi Gallant. Ela teve uma iniciação sombria no ramo quando trabalhou no caso do assassinato em massa/suicídio ocorrido no Templo do Povo na Guiana em 1978. Na ocasião, mais de 900 pessoas morreram à mando de seu líder, Jim Jones. A experiência a deixou determinada a estudar cultos, o mecanismo de lavagem cerebral e sistemas de crenças alternativos, como bruxaria, santeria e satanismo.

Sandi sempre teve interesse no assunto. Ela se formou em História Antiga e estudou padrões comportamentais para compreender melhor as motivações por trás das pessoas que se envolvem com o oculto em busca de algum benefício pessoal. Ela definiu que a maioria das pessoas costuma ser atraída para esse tipo de atividade através de um líder carismático que se apresenta, à princípio como alguém capaz de aliviar os problemas e oferecer conforto para uma existência atribulada. Aos poucos, as pessoas começam a sofrer um tipo de lavagem cerebral, acreditando na santidade desse líder e em sua infalibilidade. Finalmente, no estágio final, a pessoa está tão condicionada que o o fator pessoal desaparece e ela se torna totalmente devotada ao culto, sem questionar nenhum dos seus dogmas.  

Gallant estudou vários cultos e chegou a se infiltrar em pelo menos três seitas verdadeiras para compreender melhor como ela funcionava e qual a estrutura utilizada pelos seus líderes. Em um desses casos ela chegou a viver por seis meses em meio a um culto apocalíptico que esperava o retorno do Messias e que flertava com noções de suicídio.

Ao longo do caminho ela se tornou conhecida como uma especialista no campo entre seus pares e foi frequentemente chamada para investigar crimes bizarros envolvendo rituais e o oculto.

Um dos casos mais horríveis envolvia um homem que foi encontrado assassinado em 1981 no Golden Gate Park de São Francisco. A cabeça do homem havia sido removida e estava ausente da cena do crime. Próximo do cadáver havia uma galinha também sem cabeça. Gallant sugeriu que aquele era um ritual envolvendo magia negra de Palo Mayombe, mas naquela época tais explicações ainda não eram amplamente aceitas. Ela contou à respeito:

"Os outros investigadores de homicídios designados riam dessas noções, chamavam tudo de mumbo-jumbo e descartavam qualquer ideia nesse sentido. Eles sugeriam que crimes de natureza oculta não aconteciam realmente, ou que eram um estereótipo. Isso só começou a mudar com o tempo, sobretudo porque esse tipo de crime se tornou cada vez mais frequente após os anos 1970".


Ainda sobre esse caso, usando seu conhecimento do ocultismo e de rituais, Sandi previu que a cabeça do homem morto seria devolvida perto do local onde o corpo foi encontrado 42 dias depois. Nos primeiros 21 dias os praticantes da religião usariam a cabeça colocada em um vaso de água, eles consumiriam o cérebro, o ouvido e olhos, fazendo com isso uma bebida ritual que seria compartilhada pelos membros da seita. Depois, quando a cabeça estivesse quase descarnada, o feiticeiro voltaria para devolve-la perto de onde estava o corpo. Apesar dessa dica potencialmente promissora, ninguém acreditou em Sandi. Quando as coisas aconteceram exatamente como ela havia dito, os policiais que cuidavam do caso ficaram impressionados. Ela explicou aos colegas:

"Ao final de 21 dias, se o sacerdote de Palo Mayombe julgar conveniente, ele passa mais 21 dias com a cabeça. Então, segundo as crenças, no 42º dia, a cabeça precisa ser descartada nas proximidades de onde ela foi obtida. Essa era uma forma correta de agir, conforme a crença. Se eles tivessem acreditado na projeção, o assassino teria sido preso em flagrante."

O caso bizarro nunca foi resolvido, mas com base em sua análise correta da cena, Gallant ganhou credibilidade para auxiliar em tais crimes e foi levada muito mais a sério depois disso. Desde então, ela foi chamada para todos os tipos de casos considerados bizarros para os investigadores tradicionais.

Outro caso macabro investigado por Sandi ocorreu em 1988, no Baldwin Park, nos limites de Los Angeles. Um rapaz de 18 anos, Mario de la Puente, foi encontrado morto em seu automóvel aparentemente após ter cometido suicídio com uma espingarda 22. No aparelho de som do carro havia uma fita do músico Ozzy Osbourne tocando sem parar. Ainda dentro do veículo foram achadas velas, símbolos desenhados com sangue e a cabeça de um bode. Apesar da cena do crime indicar suicídio, o corpo de de la Puente sofreu mutilações pós-mortem que deixaram os detetives presentes chocados. Os olhos, nariz, lábios e orelhas do rapaz haviam sido arrancados e levados da cena, o mesmo havia acontecido com alguns dentes, unhas e tufos de cabelo.


Ao ser chamada para examinar a cena, Sandi imediatamente reconheceu elementos ritualísticos embora concordasse que havia sido suicídio. Ela sugeriu que de la Puente havia aceitado morrer pelas suas próprias mãos e que partes de seu corpo haviam sido arrancadas e levadas por colegas que pretendiam usá-las em um ritual. 

A polícia acabou prendendo os outros envolvidos poucos dias depois, eles estavam de posse dos restos que haviam sido fervidos em uma chaleira e estavam sendo consumidos como uma bebida medicinal. De la Puente e seus colegas acreditavam que a ingestão de tal mistura poderia render a eles uma vida longa e saudável, mas para isso, um deles teria de se sacrificar para benefício dos demais. De la Puente foi o escolhido e aceitou seu destino, morrendo pelas próprias mãos. Após a morte, três de seus amigos, com idades entre 14 e 17 anos realizaram as mutilações usando facas de cozinha.

Sandi, que hoje tem 75 anos, ainda costuma ser chamada para auxiliar detetives e oferecer seu ponto de vista quando casos relacionados com o oculto surgem. Ela é uma espécie de consultora da polícia da Califórnia, condecorada pela sua ajuda em mais de uma dezena de casos. Ela também compartilhou seu conhecimento para o FBI, em especial a turmas do Departamento de Psicologia Comportamental

"Algumas semanas atrás recebi uma ligação da Costa Leste. O detetive está investigando o caso de uma cabeça humana que foi deixada debaixo da cama de uma um casal. A cabeça havia sido desenterrada de um cemitério e funcionava como um tipo de aviso macabro. Casos como esse são extremos, mas já tive vários em que pessoas se envolveram em atividades realmente bizarras, como mutilar animais e cadáveres obedecendo a algum ritual. Também já tive casos horríveis envolvendo sacrifícios. É um mundo muito sombrio esse".


Embora a maioria dos investigadores se dedique a analisar racionalmente as pistas ocultas como como símbolos, animais e parafernália, há casos em que eles precisam dedicar sua atenção a padrões de ferimento, mutilação excessiva, trauma incomum, evidências simbólicas como estilo de corte, marcação, consumo de sangue ou carne, mutilação corporal entre outros fatores, Sandi é uma especialista nesses procedimentos. Ela se orgulha de ter descoberto a identidade de um assassino verificando o padrão de corte realizado na garganta de uma vítima, demonstrando sem sombra de dúvida a responsabilidade do acusado.

Nos últimos anos Sandi Gallanti tem se dedicado a lidar com outra faceta medonha dos crimes ocultos, os abusos sexuais. Ela chama a atenção para a grande quantidade de crimes sexuais ocorridos em decorrência de rituais executados em templos e locais de adoração religiosa. Segundo uma estimativa desde 1995, mais de 100 mil casos dessa natureza podem ter ocorrido nos EUA, um número elevado ainda mais se consideramos que boa parte deles simplesmente são tratados como abuso simples.

"O abuso de mulheres e crianças, por seitas é algo surpreendente. Isso faz parte da mentalidade de certas crenças, sobretudo aqueles que creem em rituais nos quais espíritos ou entidades assumem simbolicamente o corpo dos sacerdotes. Não é raro que isso aconteça, sobretudo em seitas fechadas de caráter messiânico. Líderes religiosos por vezes comandam seus seguidores a obedecer, afirmando que essa é uma vontade divina e que não pode ser negada. O mais terrível é que se trata de um crime continuado, um abuso que por vezes ocorre ao longo de anos."

Os esforços de Sandi conseguiram revelar cultos onde abusos eram realizados habitualmente, e mais de duas dúzias de indivíduos envolvidos em tais atividades foram presos. Contudo ainda é pouco, considerando que nos EUA há milhares de cultos, todos apoiados pelo direito constitucional que garante liberdade religiosa.   

"Trata-se de uma luta inglória, às vezes. Você se sente frustrada em não poder fazer muito, já que as pessoas não tem forças para romper esse círculo vicioso de abuso e exploração no qual estão inseridas. Mas quando conseguimos provar o que está acontecendo e tirar de circulação um desses alegados religiosos é uma vitória". 


Para a maioria de nós, e posso me incluir, a tendência é desacreditar essas histórias como algo fantasioso e absurdo. Afinal, não vivemos em uma era racional? Contudo, não é essa era moderna e esclarecida que gerou casos chocantes envolvendo cultos e crenças homicidas? Não foi em nossa era de progresso que Charles Manson, Jim Jones e tantos outros surgiram? Cultos homicidas infelizmente são uma realidade e pessoas desesperadas estão dispostas a viver e morrer em nome deles.

A necessidade de conhecer esse tipo de crime e criminoso obriga a lei a adotar novos métodos para investigar os chamados crimes ocultos. Compreender e penetrar nesse submundo de magia, onde demônios e mistérios são reais, se faz necessário. O que esses investigadores encontrarão nas sombras, só eles saberão ao certo.