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domingo, 29 de setembro de 2013

Morte, Necromancia e Ressurreição segundo Lovecraft


Embora morte possa resultar em uma série de ideias diferentes - todas elas funestas, preferi escrever não apenas a respeito desse tema, mas de dois elementos ligados a ela: Necromancia e Ressurreição. Como base para esse artigo, me inspirei em uma das melhores e mais conhecidas estórias escritas por H.P. Lovecraft que fala mais propriamente desses temas do que qualquer outro conto. Os leitores da obra do Cavalheiro de Providence devem saber que me refiro a "O Caso de Charles Dexter Ward".

Nesse fantástico conto, Lovecraft costura as noções de que as entidades cósmicas do Mythos, seres muito além da compreensão, vistos como deuses e entidades místicas, são capazes de conceder poderes transcendentais e magias inomináveis aos que buscam segui-los. Magias estas, capazes de afetar o próprio ciclo de vida e morte, comum a todos os seres vivos e dos quais, via de regra, não há escapatória. 

É nessa estória que somos apresentados a um dos maiores e mais desprezíveis vilões do universo do Mythos, o feiticeiro Joseph Curwen, que não via problemas ou implicações morais em desafiar as leis da natureza usando para isso pérfidos feitiços. 

Se você não leu "O Caso de Charles Dexter Ward" então pare aqui e não leia o restante desse texto, pois ele contém enormes SPOILERS que sem dúvida irão estragar a surpresa central do livro. Faça um favor a você mesmo, procure uma edição dessa fantástica estória macabra e leia, e só então retorne a esse texto.

Ainda conosco? Muito bem, você foi avisado.

No conto, Joseph Curwen é um senhor de terras que vive na Nova Inglaterra do século XVII, poucos anos depois da Caça às Bruxas de Salem. Ao contrário da maioria dos injustamente acusados e executados na forca, ele era de fato um poderoso bruxo com poderes aterradores e vasto conhecimento dos Mythos. Pode-se dizer que ele era um cultista de Yog-Sothoth, e usando rituais especiais, conseguiu obter mais e mais conhecimento arcano que lhes garantiram uma vida extremamente longa. A tática de Curwen era especialmente vil: ele utilizava um feitiço chamado "Ressurreição dos Sais Perfeitos" para trazer de volta à vida, indivíduos falecidos que em um passado ancestral haviam sido também grandes magos. Curwen se correspondia com uma misteriosa organização responsável por lhe fornecer a matéria prima para suas medonhas experiências de ressurreição. Os ossos de feiticeiros mortos há séculos eram escavados de decrépitos cemitérios da Europa e contrabandeados para a América em caixões de ferro. De posse desse material, Curwen decompunha os restos em uma poeira, os tais Sais Perfeitos, que eram então reconstituídos na forma do indivíduo morto através de um abominável ritual de magia. O resultado dessa necromancia era um renascimento dos mortos.

Entretanto, Curwen não se contentava simplesmente em trazer os mortos de volta à vida. Ele mantinha seus espécimes renascidos acorrentados no porão de sua fazenda, torturando-os cruelmente para que revelassem cada verdade blasfema do Mythos, cada detalhe indiscreto de sua sabedoria do ataúde. Mais tarde, ao longo da estória, o próprio Joseph Curwen, morto numa revolta de camponeses no início do século XVIII, é trazido de volta dos mortos em plano século XX pelo seu tataraneto que desconhecia a maldade do antepassado. Tomando o lugar do parente assassinado, Curwen tenta impetrar seu golpe de mestre, mas é descoberto e mandado de volta para o esquecimento por uma magia reversa do encantamento.

As Implicações da Ressurreição

O ritual de Ressurreição é um feitiço que perverte a própria natureza, permitindo resgatar do esquecimento a consciência de alguém morto - não importa como ou há quanto tempo - e reinseri-la uma vez em um corpo humano idêntico ao que ele tinha antes de morrer. De todas as magias no Grimório do Mythos, esta talvez seja uma das mais assustadoras por suas implicações morais. Antes de nos debruçar sobre a Necromancia, vou abrir apenas um parênteses para falar da morte segundo uma perspectiva lovecraftiana.

Muitos se perguntam como Lovecraft encarava o conceito de ressurreição mostrado nessa estória, e se estaria presente nesse contexto de "volta à vida", algum componente espiritual. Haveria uma "alma imortal" resgatada do além e trancafiada novamente no corpo renascido? Que lembranças essa alma carregaria de sua experiência de pós-morte quando fosse trazida de volta? E onde exatamente estaria essa alma? 

A visão puramente materialista e estritamente científica de Lovecraft, se mostra impiedosa nesse conto. Os mortos ressurrectos não sabem de nada a respeito da existência de um mundo além. Tudo leva a crer que o "fim da vida" não passa de um simples cessar das funções biológicas do ser... não há mundo além, não há inferno para atormentar aqueles que cometeram pecados ou paraíso onde os bons desfrutam as recompensas de uma vida virtuosa. Não há um limbo, uma jornada da alma ou um julgamento do espírito por conta de alguma entidade superior. A ausência de uma explicação, sugere que essas noções atreladas a filosofias religiosas não passam de um mero conto de fadas. Uma fábula infantil criada como justificativa ética e moral e nada mais.

 O vazio, as trevas, a poeira e o esquecimento... isso é tudo que nos aguarda após a morte.

A visão de Lovecraft é cruel, mas em perfeita sintonia com os demais aspectos pessimistas que permeiam sua obra. Sendo o homem, algo pequeno, cuja existência não representa ou acrescenta nada no grande esquema cósmico, é condizente que sua morte não tenha maiores repercussões. A morte é simplesmente o fim das funções biológicas: músculos que param de funcionar, sangue que para de ser bombeado e fluir pelos vasos, a interrupção de trocas gasosas e das funções celulares... e quando esta máquina deixa de funcionar, ela se apaga sem maiores consequências.

Assim sendo, quando a magia - uma força sobrenatural, apenas no sentido que ela é ciência incompreensível para a mente humana - se faz presente, e a vida volta a fluir, não há lembrança de nada especial que teria transcorrido nesse ínterim. Não há memória alguma de experiência transcendental, apenas um período entre o antes e o depois, ocupado por uma lacuna envolta em densa escuridão.

Na minha opinião essa é uma das noções mais assustadoras contidas na obra lovecraftiana e quando li "O Caso de Charles Dexter Ward" pela primeira vez, foi esse o trecho que mais me incomodou. A maneira propositalmente leviana como Lovecraft trata a questão espiritual e como ela tem pouca (ou nenhuma) importância no correr da trama. Mais do que as invocações malignas, que as experiências e o consórcio com os antigos, mais do que roubar o corpo de seu descendente e trazê-lo de volta a vida, é a noção de que Curwen retorna sem carregar uma bagagem negativa ou uma cicatriz punitiva por todo mau que causou, que me dá nos nervos. Trata-se de um verdadeiro soco no estômago de qualquer um que compartilhe a crença de que há uma razão maior para a existência humana e que o que fazemos nesse mundo repercute no próximo.

Ciente dessa verdade, não é por acaso que Joseph Curwen, o vilão da estória, ridiculariza as religiões e as crenças na vida após a morte. Não há segredos ou desafios após a morte, apenas o vazio. Morrer é ser arremessado nas trevas, ainda que não exista uma consciência para sofrer nessa condição, tudo o que há se apagou com o último suspiro.

Na estória, não fica claro como Curwen aprendeu os segredos mais profundos da Necromancia, mas parece óbvio que ele não se incomoda em colocá-la em ação para satisfazer seus intentos. O feiticeiro é movido pela sua ambição e pela sede de conhecimento, e assim, busca trazer de volta a mente de homens brilhantes capazes de compartilhar algo sobre o Mythos. 

Curiosamente Curwen emprega necromancia apenas para colecionar prisioneiros. Até sua morte, ele próprio não planeja ou sequer cogita ser trazido de volta por um descendente no futuro, tudo ocorre por acaso, quando Ward localiza seu diário e liga os pontos que lhe permitiriam realizar o intento. 

Talvez Curwen temesse os resultados de ser trazido de volta, por saber que o ritual demanda um certo grau de habilidade e intimidade com conceitos arcanos e alquimia. Ao longo do conto, ficamos sabendo que caso o ritual não seja realizado corretamente, o resultado, aquilo trazido de volta, não passa de algo que apenas se assemelha a um ser humano. A pessoa ressurrecta não é mais do que uma paródia macabra do que foi um dia. Um pesadelo de carne deformada. E mesmo um mago experiente como Curwen teve seu quinhão de fracassos, uma vez que nos porões de sua torre/ calabouço, habitava uma horda de ressurrectos física e mentalmente deformados.

A Ressurreição dos Sais Perfeitos
         

O ritual através do qual Charles Dexter Ward revive o, há muito falecido, Joseph Curwen parece ter pelo menos quatro grandes estágios principais. Sem estes elementos, o resultado da magia acarreta em terríveis falhas. São eles:

1 - Os Sais Essenciais - O ritual envolve presumivelmente o uso das cinzas do morto que se deseja trazer de volta, como sugerido pelo trecho em que Curwen alude a obra de Borellus mencionando a ressurreição de animais: 


"Os sais essenciais de animais devem assim ser preparados e preservados, de forma que um homem engenhoso possa ter toda uma Arca de Noé em seu estúdio, e recriar a forma de um animal das cinzas conforme sua vontade; e por conseguinte, usando o mesmo método, com os Sais essenciais de um humano, o filósofo (mago) pode, sem qualquer crime necromântico, invocar a forma de um ancestral morto da poeira que restou de seu corpo incinerado".

Se cinzas são necessárias, supõe-se que o cadáver deve passar por algum processo de incineração até que de sua carne e ossos restem apenas pó. Mas há outras interpretações. Lovecraft deixa claro que Curwen é um alquimista e que dominar o conhecimento de ingredientes e misturas é uma qualidade essencial para conduzir o ritual. Imagino que os Sais Perfeitos sejam resultado de algo mais do que a simples incineração de um cadáver, afinal, os sais são descritos como "uma fina poeira de cor azul telúrica".

É possível que os Sais sejam obtidos pela decomposição dos restos mortais, empregando para isso um pilão (instrumento de pulverização usado pelos alquimistas) e uma série de reagentes, compostos e outros ingredientes cuidadosamente balanceados, dos quais não seriam descartadas substâncias ácidas capazes de corroer os restos. Há de se recordar que Curwen menciona várias vezes a necessidade de que os compostos sejam equacionados para evitar resultados inesperados. Tudo isso sugere que conhecimento alquímico e intimidade com as reações químicas se faz imprescindível.

2 - A Invocação Per Adonai -  O segundo elemento citado é uma repetição, como um mantra, de uma invocação ao longo de pelo menos duas horas. Enquanto repete as palavras de poder, o realizador mistura os sais perfeitos e prepara a fórmula final. A litania menciona vários nomes presentes na tradição cabalística: 


"Per Adonai Eloim, Adonai Jehova,
Adonai Sabaoth, Metraton On Agla Mathon,
verbum pythonicum, mysterium salamandrae, 
conventus sylvorum, antra gnomorum, 
daemonia Coeli God, Almonsin, Gibor, Jehosua, 
Evam, Zariatnatmik, veni, veni, veni".


No conto, esse mantra parece servir para abrir os caminhos entre o nosso mundo e as entidades do Mythos que irão favorecer o ritual. Ao longo da invocação "per Adonai", Lovecraft escreve que todos os cães da vizinhança começaram a latir e uivar, e um "hediondo fedor" emerge da casa de Ward, local onde se dá o experimento. Além disso, tremendos flashes luminosos são vistos por testemunhas que assustadas fogem das proximidades da casa sem saber do que se trata. 

É de se supor que a invocação de alguma forma reaja com os sais perfeitos resultando no "odor" e nos "flashes de luz". Supostamente, a partir da invocação, os sais começam a se "transformar", emergindo deles algo remotamente humano que vai se moldando até adquirir a forma que está sendo trazida de volta à vida. Lovecraft alude a um odor particular que pode representar as conexões químicas do processo biológico se encadeando uma vez mais em uma reversão regressiva da morte em vida. A "luz" por sua vez pode representar a energia, o "animus" sendo direcionado para o molde construído com os sais perfeitos, um corpo vazio sendo preenchido. 

É possível, entretanto que tanto o "fedor hediondo" quanto as "luzes" sejam um efeito da chegada de Yog-Sothoth, a entidade convocada para possibilitar a ressurreição. Essa teoria é reforçada pela terceira parte do ritual.

3 - A Invocação "Dies Mies Jeschet" 

O texto alude a uma voz incorpórea e trovejante, diferindo enormemente da própria voz de Ward, que é ouvida entoando a seguinte frase:
DIES MIES JESCHET BOENE DOESEF DOUVEMA ENITEMAUS
Se essa voz poderosa e sepulcral não pertence a Ward, é de se supor que ela pertença a uma entidade que se apresenta como resultado da primeira invocação. Se esse for o caso, é uma das únicas cenas na obra de Lovecraft em que uma entidade de poder cósmico, "fala".

Presumivelmente, as palavras são proferidas por Yog-Sothoth cuja ajuda é necessária para completar o processo de ressurreição. Quando Curwen é trazido de volta das trevas, a voz é tão imponente que as pessoas na vizinhança se apavoram e não cogitam sequer se aproximar do lugar por temer a presença de algo não-natural nas cercanias. As palavras são tão poderosas que Curwen e Ward não se atrevem a dizê-las em voz alta, elas seriam portanto privilégio de uma entidade superior, quase que os blocos constitutivos da própria vida. 

Há a possibilidade de que a voz estranha ouvida fosse de Ward, temporariamente transformada pela emoção ou pelo medo, talvez até pela loucura. Mas essa teoria não se sustenta em vista de toda a carga sobrenatural que dela emana. Ward não era um praticante de magia, menos ainda um feiticeiro. Ele não teria capacidade de criar um efeito intimidador dessa magnitude.   

4 - A Invocação Yi-nash-Yog-Sothoth

O ritual entretanto ainda não está completo, pois a voz de Ward é ouvida novamente após a voz trovejante que então se cala. O celebrante entoa cuidadosamente um verso retirado de tomos ancestrais que são por si só, uma espécie de desafio à vida e as leis da natureza:

Yi-nash-Yog-Sothoth-he-lgeb-fi-throdog-Yah!

Segundo o conto, esse trecho é seguido de um "grito uivante que se espalha como uma alucinante explosão e gradualmente vai se transformando em uma gargalhada histérica". Esta cacofonia é supostamente a voz triunfante de Joseph Curwen, que está expressando seu demoníaco deleite por ter sido trazido de volta a vida e ao universo da matéria uma vez mais. 

Nós sabemos que essa voz não pertence a Ward e muito menos à entidade invocada, que nesse ponto parece ter retrocedido ao seu lugar de origem em algum lugar do tempo-espaço. A voz gutural e desconexa, continua sua cacofonia incoerente sempre pontuada por uma risada maníaca. Supõe-se que a experiência de transição para a vida é uma experiência visceral, mercurial, emotiva. A mente humana possivelmente fica em descompasso e apenas um indivíduo dotado de inquebrantável força de vontade é capaz de suportar a passagem e manter um resquício de estabilidade. É de se supor que a sanidade de Curwen mesmo antes de ser trazido de volta já estava reduzida, mas sua biografia evidencia que ele era um indivíduo de vontade de ferro. Mesmo ele se mostra perturbado pelo experimento, gargalhando como um louco, o que dizer de outra pessoa qualquer.   

A sugestão é que após esse quarto e último elemento, a vida retorna como se jamais tivesse cessado, com o indivíduo desmorto retornado como era no momento em que se deu a sua morte. 

Revertendo a Magia

É interessante notar que apesar de seu ceticismo quanto a tudo que era sobrenatural, Lovecraft reservou partes desse ritual extraídas de fontes tradicionais do ocultismo. Há trechos de cabala, nomes de anjos e divindades, entrecortados com palavras que pertencem a idiomas mortos e supostas línguas inumanas.

Mais interessante ainda, a magia de ressurreição possui um feitiço inverso descoberto na estória pelo Dr. Willett. Trata-se de um princípio alquímico medieval conhecido como Cabeça do Dragão e Cauda do Dragão que devolve os Sais Perfeitos, a sua condição original.

                                                 

                                                  Y'AI 'NG'NGAH, 

                                                  YOG-SOTHOTH

                                                     H'EE—L'GEB

                                                     F'AI THRODOG

                                                 UAAAH

         

         OGTHROD AI'F

         GEB'L—EE'H

         YOG-SOTHOTH

          'NGAH'NG AI'Y

          ZHRO

Como o sagaz Dr. Willett descobre, as magias de ressurreição e aquela que anula seus efeitos são quase idênticas exceto pelas linhas da segunda que são proferidas de trás para frente, e das palavras que são ditas na ordem inversa. O nome de Yog-Sothoth é a única exceção sendo esse o nome da divindade invocada para romper o benefício que ele anteriormente concedeu.


O símbolo zodiacal no alto de cada texto era usado em manuais de alquimia, ele remete justamente a natureza reversiva de um encantamento, concedendo a informação de que este poderia ser revertido por intermédio de um abascanto. É isso exatamente que acontece na narrativa de Charles Dexter Ward, pois Ward recita a primeira parte da magia de ressurreição trazendo Curwen de volta, enquanto Willett usa o abascanto para reverter Curwen novamente ao estado de pó.


Quando o abascanto é proferido, a vida abandona o corpo do indivíduo ressurrecto que começa  reverter a forma dos Sais Perfeitos em um acelerado processo de degradação. Não há como interromper esse processo. Estão presentes novamente os estranhos flashes de luz e o fedor abominável. A carne começa a apodrecer em ritmo acelerado, a pele se liquefazendo, fluidos escorrendo em profusão e órgãos arruinados entrando em um processo de necrose. Músculos se rasgam, tendões se esticam até arrebentar e ossos pulverizam como giz.

O ressurrecto é envolvido em uma dor extrema, indescritível e além de qualquer comparação. O processo dura não mais do que um minuto, mas como descrever a profunda agonia da própria existência sendo arrancada do corpo? Rompido o liame da vida, tudo o que resta ao fim do profundo tormento é uma fina camada de poeira no chão.

Não há consenso a respeito da viabilidade de um indivíduo ressurrecto e destruído pelo abascanto, ser uma vez mais trazido de volta pelo ritual necromântico. Em teoria, não haveria nenhum fator impeditivo, contanto que restasse material suficiente para produzir os Sais Perfeitos. 

A existência nesse caso, poderia ser transformada em uma eterna ciranda de morte e ressurreição...  


*     *     *

Eu sei que não é exatamente o mesmo conceito, mas talvez essa cena do filme Hellraiser - Renascido do Inferno (1986) sirva como referência de como se dá a magia "Ressurreição dos Sais Perfeitos". A grande diferença é que o indivíduo surgiria de um monte de pó e ao longo de várias invocações místicas.

Possivelmente seria um pouco menos gosmento do que isso, mas como se defendeu Clive Barker na época que o filme foi lançado, "death and birth is a always a messy" ("morte e nascimento é sempre uma lambança"). Lovecraft talvez torcesse o nariz e se sentisse nauseado por essa cena, mas sinceramente ele deveria culpar a si mesmo... com certeza essa cena, deve muito a ele e ao seu conto sobre vida, morte e ressurreição.


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Ciranda de Blogs: As duas faces de H.P. Lovecraft - O Autor Recluso e o Investigador do Mythos


Não sei ao certo se algum jogador de Call of Cthulhu ou de qualquer outra ambientação inspirada pela genial obra de H.P. Lovecraft cometeu a "heresia" de usar o sujeito como personagem.

Até onde sei, não existe nenhum suplemento ou livro que utilize o Sr. Lovecraft como NPC ou PC de algum cenário, ao menos não oficialmente. O que se supõe é que Lovecraft teria acesso a todo o conhecimento do Mythos de Cthulhu, o que faria dele um sujeito completamente insano e não o cara que ficou conhecido como o "gentleman de Providence".

Outra razão para não se usar Lovecraft em estórias é o fato dele ter sido o criador dos Mythos e sempre ter deixado claro que todos os elementos ligados a estranha mitologia de Cthulhu não passarem de ficção. Por mais que muitos quisessem considerar Lovecraft um ocultista de mão cheia que teria tido acesso a uma edição do críptico tomo chamado Necronomicom, o materialista Lovecraft sempre negou qualquer coisa nesse sentido. Ele nunca acreditou em nada a não ser ciência e racionalismo. Para ele, todo resto não passava de "mambo jambo", superstições e crendices.

Mas essa é a face real de Lovecraft... um cara normal que adorava escrever cartas e contos sobre criaturas bizarras e situações ainda mais esquisitas.

Mas que tal subverter as coisas e admitir por um instante que Lovecraft ocultou de todos a sua verdadeira vocação? Que tal admitir aquilo que ele sempre fez questão de desmistificar. Que tal transformar Lovecraft em um personagem badass de suas próprias estórias?

A CIRANDA DE BLOGS desse mês lançou o desafio de criar algo sobre H.P. Lovecraft. Oras... Lovecraft é o arroz com feijão do Mundo Tentacular, qualquer coisa que eu pudesse inventar sobre suas criações soaria como lugar comum...

Então que tal não focar nas criações de Lovecraft e sim no próprio criador? Voltar os holofotes para o sujeito e em meio a luz incidindo sobre sua forma, verificar com o que parece a sua sombra.

O Mundo Tentacular então comete o pecado de imaginar o criador do Cthulhu Mythos como um desbravador do ocultismo (aquilo que ele sempre deixou claro não ser!). Escolhi encarar Lovecraft como um escritor que em algum momento de sua existência cruzou com forças esmagadoras de inominável maldade e que para sobreviver a esse conhecimento apocalíptico adotou como válvula de escape apresentá-lo como ficção e torcer para que ninguém desconfiasse de sua realidade.

O Lovecraft real e uma interpretação de Lovecraft como personagem
Mas antes de falar desse Lovecraft fictício que tal verificar quem foi o verdadeiro Lovecraft?

Aqui está a biografia dele:

Background Real: Considerado um dos mestres do gênero horror fantástico e criador do horror cósmico, H.P. Lovecraft nasceu como Howard Phillips Lovecraft em 20 de agosto de 1890, em Providence, Rhode Island. Ele teve uma infância bastante peculiar marcada pela tragédia. Seu pai, um comerciante itinerante desenvolveu uma desordem mental causada por um quadro de sífilis quando Lovecraft tinha apenas três anos. Em 1893, seu pai tornou-se paciente no Sanatório Butler de Providence e lá ele permaneceu até morrer em 1898.

Uma criança frágil, Lovecraft passou boa parte de sua infância em casa. Ele se tornou um leitor ávido, devorando livros, obras clássicas, textos científicos e uma enorme variedade de textos. Lovecraft amava os trabalhos de Edgar Allan Poe e desenvolveu grande interesse em astronomia. Sua mãe também sofreu de um quadro agudo de depressão e terminou seus dias em uma casa de repouso. Na adolescência ele foi admitido na Hope High School, mas sofreu um colapso nervoso antes de conseguir obter seu diploma.

Lovecraft tornou-se uma figura reclusa por muitos anos, escolhendo ficar acordado até a madrugada estudando, lendo e escrevendo enquanto dormia a maior parte do dia. Nesse período, ele escreveu e conseguiu publicar alguns artigos sobre astronomia em jornais locais.

Ele deu início a sua carreira de escritor como um jornalista amador, juntando-se a United Amateur Press Association em 1914. No ano seguinte, se lançou como escritor na revista The Conservative na qual assinou vários ensaios. Apesar dele sempre ter escrito algumas estórias curtas de ficção, Lovecraft começou a escrever contos de forma mais séria por volta de 1917. A maior parte desses primeiros trabalhos foram influenciados por mestres do gênero como Lord Dunsany, Machen e Poe. demorou algum tempo até ele desenvolver um estilo próprio caracterizado pelas descrições minuciosas.

A revista de horror Weird Tales comprou a primeira estória de Lovecraft em 1923, dando a ele o primeiro gosto de sucesso. No ano seguinte, ele casou com Sonia Greene. O casal se mudou para a cidade de Nova York e viveu lá por ceca de dois anos antes de assinar o divórcio. Lovecraft detestava a cidade grande e desejava retomar a vida pacata da Nova Inglaterra. Após o casamento falho, Lovecraft retornou a Rhode Island onde deu início a uma sucessão de suas melhores estórias. "The Call of Cthulhu" foi publicado em 1928 pela Weird Tales, e talvez seja seu trabalho mais famoso. Várias outras se seguiram para diversas outras publicações da época.

Lovecraft introduziu seus leitores a um universo sobrenatural habitado por criaturas terríveis que num passado distante haviam andado livremente pelo planeta, mas que agora hibernavam. Tais seres estavam destinados a despertar num futuro próximo ("quando as estrelas estivessem certas") para espalhar o caos e a destruição na humanidade. Elementos ligados a essa noção apareceriam em vários de seus contos  — dando origem aos "Mythos de Cthulhu." Essas estórias refletiam em parte os conceitos filosóficos de Lovecraft e seu profundo senso de materialismo. De acordo com a revista American Heritage, Lovecraft certa vez escreveu, "todas as minhas estórias são baseadas na premissa fundamental de que as leis humanas e emoções não tem validade ou significado na vastidão do cosmos."

Em seus últimos anos, Lovecraft não era capaz de garantir seu próprio sustento. 

Ele começou a editar estórias alheias e trabalhar como ghostwriter para aumentar seus rendimentos. Lovecraft morreu de câncer em 15 de março de 1937, em Providence, Rhode Island. 

Ele deixou para trás mais de 60 estórias curtas, algumas novelas, incluindo "The Case of Charles Dexter Ward", "The Dream Quest of Unknown Kadath" e "Mountains of Madness". A morte de Lovecraft foi sentida por seus colegas escritores, alguns poucos amigos e por um pequeno mas fiel grupo de de fãs. Em vida ele se correspondeu com um grande número de escritores, colaborando com ideias e observações chegando a compartilhar algumas de suas criações o que manteve o Cthulhu Mythos ativo. Os amigos mais próximos formaram o Círculo Lovecraftiano que se inspirava em suas ideias para manter a mitologia criada por Lovecraft viva e em constante evolução. Dois destes amigos, August Derleth e Donald Wandrei, abriram uma editora chamada Arkham House que publicou e ajudou a salvar o legado de Lovecraft, apresentando seu trabalho e afastando-o da obscuridade.

Nas décadas seguintes à sua morte, a obra de Lovecraft foi redescoberta por uma nova geração disposta a se aprofundar em suas noções de um mundo perturbador. Aclamada e elogiada por críticos e leitores, algo que ele não obteve em vida, Lovecraft se tornou um autor conhecido mundialmente. Ele foi a inspiração para um grande número de escritores contemporâneos como Peter Straub, Stephen King e Neil Gaiman. Suas estórias também serviram como inspiração para vários filmes, video-games, jogos e romances e continuam entusiasmando e atraindo um número cada vez maior de seguidores.


O VERDADEIRO LOVECRAFT

FICHA DO INVESTIGADOR

Nome do Investigador: Howard Phillips (H.P) Lovecraft.
Ocupação: Autor e Escritor, criador do Weird Fiction
Formação/ Educação: Segundo grau, auto-didata
Idade: 38 (em meados de 1928)

ATRIBUTOS

STR 10         DEX 12          INT 18          IDEA 90%
CON 10        APP 09          POW 16        LUCK 80%
SIZ 12          SAN 60%       EDU 21         KNOW 99%

Damage Bônus: +0
Hit Points: 11

Habilidades: Antropologia 10%, Arqueologia 48%, Arte (Escrever) 88%, Arte (Poesia) 67%, Arte (Arquitetura Colonial) 35%, Astronomia 55%, Biologia 10%, Credito Social 20%, Embromar 25%, Geologia 15%, História 56%, Leis 10%, Usar Biblioteca 70%, Escutar 35%, História Natural 20%, Ocultismo 45%, ), Persuadir 30%, Psicologia 25%, Observação 51%, Amar Gatos 89%, Escrever cartas compulsivamente 85%, Anglofilia 60%, Antiquarismo 78%. Detestar frutos do mar 95%  

Idiomas: Inglês 99%, Alemão 10%, Francês 10%, Italiano 10%, Grego Clássico 21%, Latim 25%

Armas e Ataques: Nenhuma além do nível básico

Bem, este é o Lovecraft que realmente existiu. Brilhante dentro de seu campo de atuação, mas cheio de preconceitos e problemas não muito bem resolvidos.

O Lovecraft que eu concebi e que se ajusta no universo que ele mesmo concebeu é um bocado diferente. Trata-se de um explorador do oculto, um visionário com uma curiosidade monumental e uma sede de conhecimento sem limites, disposto a arriscar sua vida, sua sanidade e sua alma na busca por respostas. É claro, ele é muito mais um arquétipo de herói arcano com uma boa puxada para o lado pulp do que uma pessoa real. Sem falar que nessa concepção ele é quase imune à influência do Mythos.

Background Fictício: Nascido em Providence, Howard Phillips Lovecraft entrou em contato muito cedo com segredos indescritíveis e mistérios sombrios. Ainda criança, ele descobriu que seu pai havia se envolvido com criaturas dimensionais que exigiram um preço muito alto por conhecimento profano. O homem sobreviveu à experiência, mas com a mente para sempre fraturada por uma sabedoria ao mesmo tempo venenosa e mortal.

A mãe do jovem Howard sabia intuitivamente que seu filho estava fadado a seguir os passos do pai. Ele tinha o mesmo brilho nos olhos e a obstinação de querer compreender os segredos que não deveriam ser cobiçados por humanos. Ela tentou dissuadir o filho, mas ele era atraído para velhas bibliotecas e livros arcanos como uma mariposa é atraído pela luz de uma vela. Muito jovem para compreender (ou temer) seu legado, Lovecraft explorou a biblioteca secreta de seu avô Whipple Phillips travando o primeiro contato com tomos de conhecimento esotérico que desafiaram suas noções de real e imaginário.

Trancado em um mundo de sonhos e devaneios, ele explorou avidamente a legendária Terra dos Sonhos, viajando por lugares imaginários e se tornando um dos mais proeminentes viajantes desse reino onírico. Mas a medida que Lovecraft progredia e se tornava cada vez mais íntimo de certos segredos, mais sua proximidade desse universo caótico o levou para perto do perigo. Após explorações mal fadadas nas fronteiras da Terra dos Sonhos, nas quais ele buscou a solução para perguntas existenciais sobre o universo, Lovecraft se viu expulso do reino onírico e proibido de voltar.

Privado dessa senda, ele abandonou por algum tempo o ideal de desvendar os grandes mistérios e buscou uma carreira mais mundana. O terrível estado mental de sua mãe contribuiu decisivamente para acabar com sua busca por normalidade. Após confiar sua mãe a um asilo e descobrir que a deterioração mental dela fora causada pelas mesmas criaturas responsáveis por destruir a mente de seu pai, ele resolveu abraçar seu destino mergulhando de cabeça nesse mundo.

Ele iniciou seus estudos, viajando pela América criando um nome falso, identificando-se como o explorador Randolph Carter (mais tarde o protagonista de alguns de seus contos) em busca de antigas coleções e tomos guardados por cultos ancestrais. Estes permitiram que ele perscrutasse suas páginas amareladas em troca de informações. Ele as ofereceu a alguns sectos, de bom grado, conhecimento profano sem saber que estava barganhando com cultistas devotados a despertar os antigos. Ao saber que confabulava com a escória do submundo oculto, Lovecraft tentou se retratar e deixou de colaborar com essas pessoas ganhando inimigos e desafetos.

Sabendo que os segredos mais profundos estariam no velho mundo, nas antigas terras com vasta tradição mística encerradas a sete chaves, ele iniciou uma longa viagem. Sua primeira parada foi na Europa onde entrou em contato com ocultistas famosos que aceitaram lhe confidenciar seus segredos herméticos quando ele provou suas próprias habilidades. Ele se juntou a sociedades secretas que enfrentavam o Mythos e na companhia dessas irmandades enfrentou cultistas que planejavam o retorno dos antigos. Ele aprendeu nomes secretos, rituais ancestrais e magias proibidas para enfrentá-los. Ao deixar a Europa, perseguido por homens de manto portando adagas recurvas, Lovecraft embarcou na segunda parte de seu aprendizado.

Ele viajou para o extremo oriente de trem até onde foi possível ir, e quando os trilhos da civilização não existiam, cruzou estepes e planícies no lombo de camelos ou nas costas de elefantes. Sempre usando o nome de Randolph Carter, ele ganhou acesso às Torres do Silêncio do hindu-kush onde compreendeu segredos da morte e das encarnações, ele jejuou na companhia de faquires, esteve em Meca para vasculhar a biblioteca do Qadi em busca de edições completas do corão e tomou parte na iniciação dos últimos discípulos de tradições tão antigas que seus primeiros membros nem ao menos eram humanos. Varou noites a fio tentando compreender textos em línguas mortas e esquecidas, apreciou o nascer do sol e temeu a escuridão da noite, quando ghouls famintos farejavam à sua porta. Arrombou os portais de cidadelas sem nome em cujas fundações estavam escondidos artefatos de tempos idos.   

Enveredando por caminhos tortuosos ele se aventurou por regiões hostis e foi levado a presença de sábios com milhares de anos que habitavam os cumes inacessíveis da Ásia Central. Ele comungou das palavras de mestres que haviam feito votos de silêncio e ouviu estórias que lançaram sua mente em um turbilhão de caos e loucura, pois tais revelações não deveriam ser feitas a nenhum homem. Com a mente fragmentada, o legado dos Lovecraft parecia prestes a se concretizar, a loucura parecia ser sua recompensa final.

Encontrado por missionários ele foi levado para um manicômio em Goa. Lovecraft passou alguns anos contemplando o abismo até certa noite receber a visita de um homem negro que falou diretamente em sua mente sem precisar articular palavras. Ele sabia muito bem quem era aquele homem, pois em suas peregrinações ouvira falar dele como "aquele que viaja por todas as terras com muitos nomes e formas". Lovecraft imaginou que ele vinha para levá-lo embora, para puni-lo pelas suas ousadias e transgressões. Mas não...

Ele sentou ao seu lado e tocou seu ombro suavemente. Disse com uma voz calma que a humanidade precisava conhecer o que ele tinha vivido e compreender o que seus olhos haviam contemplado. Muito tempo atrás o homem negro havia feito a mesma proposta a um iêmene que entrara para a história com a alcunha de "árabe louco". Esse homem em seu tempo havia redigido um tratado de tamanha vilania que sua influência ecoava através das eras em diferentes nomes e idiomas amaldiçoando os homens que dele tentavam extrair conhecimento. 

Se Lovecraft aceitasse, tornar-se-ia o portador da palavra dos antigos, o mensageiro para a humanidade de um novo e devastador evangelho de pura revelação aniquiladora. Ele aceitou, mas sua aquiescência foi muito bem calculada. Imbuído com uma centelha de genialidade, ele retornou à sua amada Providence onde se debruçou noite após noite sobre a escrivaninha, dedos manchados de tinta, vertendo palavras para estórias medonhas onde o horror era apresentado de forma nua e crua. Mas ao contrário do que Al-Hazred representou em sua época, Lovecraft escolheu apresentar esse horror sob um verniz de ficção. Como resultado o horror venenoso, a loucura tóxica daquelas palavras agourentas chegaria aos seus leitores de forma diluída. As revelações devastadoras não foram assimiladas com o poder destruidor esperado e a humanidade não tomou conhecimento em momento algum que tudo o que ele escreveu era a mais pura verdade.

Anos depois, o homem negro lhe fez uma nova visita... 

Desejava cobrar explicações, mas mesmo ele, não pode se furtar a sorrir diante da solução engendrada pelo mortal. Mas mesmo o humor negro do misterioso visitante tinha limites, e ele de forma peremptória garantiu que as estórias escritas pelo explorador feito autor, estariam fadadas a um dia serem compreendidas como o que realmente são: a verdade que virá a destruir a sanidade da humanidade.

Mas esse não foi o fim da estória para Lovecraft pois havia muito ainda a explorar e a face do cosmos ainda precisava ser revelada.

E essa é a ficha do Lovecraft fictício.

LOVECRAFT DA FICÇÃO

FICHA DO INVESTIGADOR

Nome do Investigador: Howard Phillips (H.P) Lovecraft.
Ocupação: Autor e Escritor, criador do Weird Fiction, ocultista, explorador e aventureiro
Formação/ Educação: Segundo grau, auto-didata
Idade: 38 (em meados de 1928)

ATRIBUTOS

STR 12         DEX 16          INT 18          IDEA 90%
CON 15        APP 09          POW 22        LUCK 80%
SIZ 14          SAN 25%       EDU 21         KNOW 99%

Damage Bônus: +1d4
Hit Points: 15

Habilidades: Antropologia 10%, Arqueologia 69%, Arte (Escrever Contos) 89%, Arte (Poesia) 67%, Arte (Arquitetura Colonial) 35%, Astronomia 67%, Biologia 10%, Cavalgar (camelo) 75%, (elefante) 42%, Credito Social 20% (como Randolph Carter 80%), Cthulhu Mythos 24%, Embromar 75%, Geologia 15%, História 65%, Leis 10%, Usar Biblioteca 92%, Escutar 45%, História Natural 60%, Ocultismo 87%, Persuadir 80%, Psicologia 45%, Observação 59%, Amar Gatos 89%, Escrever cartas compulsivamente 85%, Anglofilia 60%, Antiquarismo 78%, Sonhar 87%, Modelar Sonhos 81%, Geografia do Mundo dos Sonhos 78%  

Idiomas: Inglês 99%, Árabe 38%, Alemão 15%, Francês 10%, Grego Clássico 51%, Latim 49%, Yithiano 21%, Língua dos Gatos 88% 

Armas e Ataques: Pistola Mauser 77%, Arma de Raios Yithiana 61%, Sword Cane 47%, Adaga Recurva 41% 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Ciranda de Blogs: Capra Nera - Sobre fungos malignos, experimentos bizarros e... queijo.

Puxa, esse foi difícil!

O CIRANDA DE BLOGS sugeriu como tema para o mês de Junho, QUEIJO.

Queijo e Mythos? Possível? Viável? Veremos...

O resultado depois de eu martelar um bocado foi esse: o tenebroso experimento dos Fungos de Yuggoth com o Formaggio Capra Nera e uma crise sem precedentes. 


Quando ele colocou o queijo na boca, o mundo pareceu parar de girar por um instante. Como se tempo, espaço e percepção tivessem se alterado por completo. Seus olhos se abriram pela primeira vez, ou assim pareceu. E tudo, virtualmente tudo, parecia possível ao alcance de suas ávidas mãos... 

Dois dias depois, ele retomou o controle de suas faculdades mentais. Estava em um quarto branco e vestia uma camisa de força. Os enfermeiros que tomavam conta da cela disseram que chamariam seu advogado para que ele pudesse explicar o que havia acontecido. E quando o sujeito chegou não conseguia esconder a expressão de condenação e a repulsa que sentia.

"O que aconteceu"?

E a medida que o defensor público relatou os fatos, tudo parecia tão incrivelmente surreal...

*   *   *

Os maquiavélicos Fungos de Yuggoth sempre possuíram uma pequena base de operações na Ilha mediterrânea da Sardenha na costa da Itália. O posto avançado, manteve-se esteve ativo, contando com o apoio de camponeses que veneravam Shub-Niggurath, entidade também cultuada pelos temíveis Mi-Go.

Uma das principais atividades da raça alienígena envolvia realizar experimentos biológicos com espécimes humanos. As questões centrais que eles esperavam responder com seus elaborados experimentos buscava determinar como humanos poderiam ser afetados pela exposição à elementos do Mythos.  

No início do século XXI, os Fungos deram início a um novo programa que buscava expor seres humanos a condições anormais mediante alimentos manipulados. Essa manipulação poderia auxiliar os Mi-Go em futuros planos de conquista.      

Sendo alienígenas, as criaturas fúngicas tencionavam compreender melhor a forma de vida aborígene dominante no planeta. Uma das questões que desafia a lógica dos Mi-Go, envolve a maneira como a grande maioria dos humanos era incapaz de racionalizar a existência do Mythos sem desenvolver um comportamento atípico. Em suma, os Fungo queriam saber porque humanos enlouqueciam ao serem confrontados com a verdade do Mythos.  

Para responder a pergunta, os Mi-Go começaram a montar um cenário no qual poderiam conduzir um amplo experimento com um número considerável de espécimes.

Há muito tempo, os cultistas que serviam aos Fungos de Yuggoth na Sardenha utilizavam o lendário Leite Negro de Shub-Niggurath em seus rituais sagrados. A bebida extraída do portentoso úbere da deusa negra proporcionava alucinações, sonhos premonitórios e visões aos cultistas que o consumiam. Para os fanáticos beber o leite era o equivalente a comungar com sua deusa. Muitos experimentavam uma espécie de arrebatamento místico. Os Mi-Go, é claro, conheciam as potentes propriedades dessa rara substância e estavam cientes dos efeitos que ele provocava em seres humanos. 

O plano dos Mi-Go era oferecer o Leite Negro de Shub-Niggurath para uma grande quantidade de humanos não-iniciados sem que eles soubessem o que estavam consumindo. Com isso, tencionavam provocar uma espécie de gestalt, fazendo com que as pessoas tivessem uma espécie de contato com a Mãe Negra.

Auxiliados por membros do culto de Shub-Niggurath, os Mi-Go deram início às suas sinistras maquinações. Em meados dos anos 1970, usando seus contatos, eles incentivaram a aquisição de várias empresas produtoras de alimentos na Sardenha, sobretudo de laticínios.


Inserindo no processo de produção doses do Leite de Shub-Niggurath alguns alimentos foram testados para determinar qual deles permitiria manter a substância ativa sem alterar as características do alimento. Os Mi-Go obtiveram seu melhor resultado, produzindo um tipo de queijo semi-artesanal semelhante ao pecorino sardo, com base no leite de cabra. O produto foi chamado "Formaggio di Capra Nera", embalado e distribuído para venda em toda Sicília, parte da Itália e algumas regiões do sul da França. 

Em Julho de 2013, ele começou a ser comercializado. O resultado foi além do que os Mi-Go esperavam. Uma avalanche de incidentes violentos começaram a ocorrer nos lugares onde o alimento foi consumido. 

Em Nápoles um chefe de família, sem qualquer histórico de violência, invadiu um sex-shop armado com uma faca e fez cinco vítimas. Na cidade de Bari, uma senhora idosa foi presa depois de matar doze de seus gatos, asfixiando, cortando e até assando outros no forno de casa. Um motorista de ônibus atropelou oito pessoas em uma estação em Termi e depois arremessou o veículo contra uma loja. Outros casos de violência também ocorreram causando um cenário de medo e instabilidade.  

Os casos mais graves obviamente ocorreram na Sardenha. Em uma escola pública na pequena cidade de Canale, a 25 quilômetros da capital Cagliari, um surto psicótico tomou de assalto 38 crianças e adolescentes. Totalmente fora de controle, elas mataram (e desmembraram) um professor, incendiaram parte da escola e causaram um tumulto. A polícia agiu com energia e uma tropa de choque teve de intervir para controlar a situação. No desenrolar do caos mais um policial foi morto e outros três gravemente feridos. Em outra pequena cidade, Belisi, na província de Oristano, um grupo de pessoas foi preso por exposição indecorosa e atentado grave ao pudor em uma piscina pública. Caso semelhante tendo ocorrido em Nuoro onde um grupo incontrolável de nudistas causou confusão em uma procissão religiosa em homenagem a padroeira local.

Crimes de natureza sexual; estupros, atentados graves ao pudor e indecência tiveram um aumento exponencial nas semanas seguintes.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) foi chamada para intervir. A suspeita principal era que a crise poderia ter sido deflagrada por uma variante do ácido lisérgico (LSD) disseminado no suprimento de água de algumas cidades. Os investigadores da OMS depois de conduzir pesquisas, fazer testes de sangue e realizar autópsias conseguiram determinar a origem comum da contaminação, provenientes da ingestão do formaggio di capra nera, produzido na Sardenha. O produto foi imediatamente recolhido pelas autoridades e a crise controlada cerca de seis dias depois de se iniciar. Os efeitos alucinógenos cessaram em todas as pessoas expostas ao produto, após um período entre 24 e 48 horas, embora alguns indivíduos precisem de auxílio psicológico de longo prazo. 


O queijo "formaggio di capra negra" foi imediatamente proibido de ser comercializado. O alimento entrou na lista de substâncias controladas internacionalmente. É claro, alguns lotes extraviados começaram a ser negociados criando um mercado negro de milhares de dólares.

Em agosto, o órgão de saúde fechou as indústrias de laticínio na Sardenha e interrompeu a produção.

No mês seguinte, a OMS sacrificou todas as cabras da ilha. Os produtos da Sardenha também foram colocados em quarentena preventiva, bem como os habitantes até final de outubro. A medida causou danos incalculáveis e gerou reflexos na economia do país. A União Européia elaborou um programa de ajuda e incentivos financeiros para a Itália.

Tentativas de analisar o princípio ativo da substância causadora da crise falharam uma vez que a mesma se deteriorou naturalmente sem deixar vestígios. A substância batizada de "Bactéria Cabra Negra" ainda intriga os pesquisadores. 

Rumores afirmam que a indústria de armas químicas/bacteriológicas conduz uma extensiva pesquisa tentando emular os efeitos da substância.

A causa da contaminação permanece desconhecida, mas as investigações prosseguem.

Enquanto isso, os Fungos de Yuggoth coletam dados. A experiência foi um sucesso.

*   *   *

PARA SUA MESA DE JOGO

Os efeitos e uso do Capra Nera são idênticos ao uso do Leite Negro de Shub-Niggurath. Em termos de jogo, o princípio ativo do queijo é potencializado e seus efeitos se iniciam cerca de 30-50 minutos após a ingestão. Uma pequena fatia, de 30 gramas é suficiente para iniciar os efeitos. Para Call of Cthulhu, o  personagem deve fazer um teste na Tabela de Resistência de sua Constituição (CON) contra POT 15. Em Rastro de Cthulhu, o personagem deve fazer um Teste de Vitalidade contra Dificuldade 5.

Uma vez que a substância age rapidamente no organismo, o indivíduo que deseja eliminar o alimento de seu corpo (através de vomitórios ou lavagem intestinal) deve fazê-lo antes que os efeitos comecem a se manifestar. Uma análise superficial não encontrará traços de manipulação no queijo, textura, aparência e sabor não são alterados. Um exame de análise laboratorial profundo é capaz de detectar a presença de uma substância incomum na composição, embora as conclusões sobre sua natureza não possam ser determinadas a não ser que o analista tenha tido experiência prévia com o Leite Negro.   

Os efeitos para os que falham no Teste são os seguintes:

Os primeiros sintomas são tontura, confusão mental, dificuldade de raciocínio e uma leve náusea. Os efeitos seguintes incluem vertigem, desmaio momentâneo, torpor, relaxamento muscular, seguidos de leves alucinações e uma progressiva euforia condizente com intoxicação alcoólica. 

A substância age sobre o sistema límbico, eliminando as restrições comportamentais do indivíduo, tornando-o suscetível a suas paixões e necessidades básicas. O indivíduo é acometido de uma urgência quase primal em satisfazer seus impulsos sejam eles de ordem social ou sexual. Se impedido ele pode reagir de maneira violenta, agredindo qualquer um que tente restringir suas ações. O indivíduo deixa de ter freios morais e éticos: se ele deseja alguma coisa ele pega, se ele sente desejo ele faz de tudo ao seu alcance para satisfazê-lo.

O efeito do queijo se mantém ativo por 72 - CON (em horas para Call of Cthulhu) ou 72 - Vitalidade x1.5 (em horas para Rastro de Cthulhu). Indivíduos sujeitos a essa condição não estão sujeitos a perda de sanidade uma vez que sua mente "apaga" suas ações durante esse período. Se de alguma maneira eles se tornarem cientes de suas ações, o Guardião deve decidir a perda de Sanidade/Estabilidade que julgar correta.

É possível que o princípio ativo do Leite Negro possa ser usado na produção de outros alimentos. Acredita-se que o povo Tcho-tcho que habita o Platô de Leng na Ásia Central conhece um processo similar para produção desse queijo.

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Para quem não conhece o Ciranda de Blogs do Pontos de Experiência, aqui está: