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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Tecnologia nos anos 1920 - Mais alguns itens e equipamentos úteis


Olá investigadores,

Essa é a segunda parte de nossa série a respeito de itens e equipamentos disponíveis nos anos 1920 e que por vezes podem causar alguma dúvida. Convido os que não leram a primeira parte a fazê-lo para completar as informações. Aqui abordamos algumas invenções que já estavam disponíveis na Era Clássica de Chamado de Cthulhu e que podem ser úteis no decorrer de uma investigação.

Na dúvida, siga a máxima: "melhor ter e não precisar de um equipamento, do que precisar e não ter". Alguns deles podem ser bastante úteis, facilitar uma investigação ou até mesmo representar a sobrevivência dos investigadores nos momentos mais inusitados.

Vejamos o que temos nessa lista.

Alimentos Enlatados

Ano da Invenção: 1795
Quando se tornou popular: 1865 (produção em massa a partir de 1912)


A primeira iniciativa para a criação de comida enlatada pode ser traçada até as Guerras Napoleônicas, quando o francês Nicolas Appert desenvolveu um método de conservar alimentos por mais tempo de modo que os soldados pudessem levar para o campo de batalha seus suprimentos. O grande problema sempre foi eliminar os micro-organismos responsáveis pela deterioração dos alimentos. Appert desenvolveu um método que preservava o alimento, lacrando-o em um compartimento hermeticamente fechado que uma vez privado de oxigênio garantia uma validade prolongada.

Os britânicos refinaram o método de Appert e foram os pioneiros na criação de latas de metal para estocar alimentos. Com o processo devidamente aprimorado a produção se tornou mais eficiente e com menor custo. Alimentos enlatados passaram a ser usados pelas forças armadas e em viagens marítimas de longa duração. 

Apenas em 1880 surgiram os primeiros produtos fabricados e vendidos a civis. As sardinhas foram o primeiro alimento preservado dessa maneira em latas, mas logo uma vasta gama de outros produtos a seguiram, modificando a forma como as pessoas se alimentavam e estocavam alimentos. Na Grande Guerra, alimentos em lata foram usados por todas as forças envolvidas no Conflito e após seu final esse tipo de alimento ganhou enorme popularidade. 

As latas de metal conhecida como folha de flandres foram gradualmente substituídas a partir de 1930 por latas de alumínio, mais leves e que aceitavam modelos diferentes. Data de 1935 a primeira cerveja em lata conhecida, produzida em New Jersey.

Uso em aventuras - Em cenários de exploração que contemplam expedições a lugares isolados e perigosos, os alimentos enlatados são essenciais. Eles constituem a única forma de sustento em uma Expedição aos confins gelados da Antártida, por exemplo. São os alimentos enlatados que garantem a sobrevivência da tripulação em viagens marítimas aos confins do planeta ou aos limites da civilização onde nem sempre alimentos frescos poderão ser encontrados. 

Alimentos podem ser usados para atrair animais selvages ou criaturas capazes de detectar cheiros. Estas podem ser conduzidas para armadilhas preparadas pelos investigadores. É claro, exsite a possibilidade também de inserir substâncias tóxicas nocivas em alimentos e esperar que elas surtam algum efeito em criaturas cuja fisiologia alienígena pode se mostrar sensível.

Finalmente, ambientes maculados pela ação ou presença de criaturas dos Mythos tendem a exercer um efeito marcante em certos alimentos. Abrir latas e verificar se o conteúdo se deteriora mais rápido pode ser uma forma de determinar a presença de criaturas nos arredores.
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Extintor de Incêndio

Ano da Invenção: 1896
Quando se tornou popular: 1928


Lidar com o fogo e combater incêndios sempre foi uma preocupação das pessoas. Desde o início sempre se imaginou que a melhor maneira de combater um incêndio seria simplesmente lançar sobre ele uma quantidade suficiente de água capaz de apagar as chamas. Os primeiros aparatos que se propunham a extinguir o fogo utilizando substâncias químicas inibidoras surgiram no século XIX.

O primeiro extintor de incêndio tubular em formato cilíndrico, semelhante ao que temos hoje em dia, foi criado em 1896. Ele era preenchido com uma solução de potássio e ar comprimido. Diversas outras substâncias químicas foram testadas com o objetivo de combater as chamas sendo que em 1928, foi criado um extintor que utilizava um cartucho de dióxido de carbono (CO2) seco inserido em um cilindro de cobre. Para utilizar o extintor, o operador tinha de pressionar uma válvula no topo do cilindro que perfurava o tanque e liberava o material químico do interior através de uma mangueira direcionado ao fogo. Esse tipo de extintor de incêndio passou a ser largamente utilizado como medida preventiva e combativa de incêndios no período. Eles estavam disponíveis na maioria das instalações onde havia risco de incêndio e não demorou até que eles fossem disponibilizados para civis.

Em 1938, extintores químicos se tornaram obrigatórios em prédios com moradores como medida de segurança. Em 1952 extintores menores passaram a fazer parte do equipamento de segurança de automóveis. 

Uso em aventuras: Extintores podem ser obviamente muito úteis em situações envolvendo um incêndio. Contudo eles também podem ser usados para ferir inimigos cuja fisiologia alienígena seja sensível a determinados compostos químicos. Talvez um mi-go ou mesmo um Shoggoth possa se sentir incomodado por um jato direto de CO2. É importante lembrar que extintores podem ser preenchidos com diferentes substâncias, cada qual indicada para o combate de um tipo de fogo. Alguns destes componentes químicos podem afetar as criaturas, outros não, saber qual é qual seria essencial. 

Um extintor também pode ser útil para revelar a presença de inimigos invisíveis, cuja silhueta seria delineada numa nuvem dispersa de gás. Além disso, o conteúdo de um extintor pode ser usado para danificar alguma máquina ou componente elétrico sensível.

Finalmente, se tudo mais falhar, um extintor de incêndio, feito de metal se transforma em um porrete quase perfeito para derrubar oponentes numa briga mano a mano.   

Lanterna à Pilha

Ano da Invenção: 1896
Quando se tornou popular: 1908

A respeito de Lanternas manuais à pilha, eu indico ler o artigo aqui no Mundo Tentacular que se refere exclusivamente a elas. Nele vocês encontrarão informações a respeito desse equipamento e modelos à disposição no período. 

Lanternas Elétricas em 1920

Locação de Automóveis

Ano da Invenção: 1906
Quando se tornou popular: 1916


O mais antigo exemplo de serviço de locação de veículos data de 1906. Uma companhia alemã chamada Sixt oferecia automóveis para aluguel a interessados em ter um veículo por um dia, uma semana, um mês ou até um ano. O serviço permitia que pessoas que tivessem a necessidade de usar automóveis os alugassem pelo tempo necessário para uma determinada tarefa - transportar carga, pelo tempo de férias ou para viajar até um determinado local.

Em 1916, surgiu nos Estados Unidos um serviço semelhante em Nebraska que oferecia automóveis Ford Modelo T para quem quisesse alugar por um tempo limitado. O serviço cobrava 10 centavos por milha. A empresa, chamada Saunders Drive-It-Yourself se espalhou por 56 cidades dos Estados Unidos. Em 1923, ela foi comprada e expandido se tornando o que hoje conhecemos como AVIS. 

Empresas competidoras de aluguel surgiram quase simultâneamente. Em Chicago, John Hertz fundou a Hertz Rent-a-Car em 1926, oferecendo o modelo Ford T. A rede expandiu seus negócios rapidamente incluindo no serviço de locação veículos maiores com caminhonetas e motocicletas. Serviços similares apareceram ao redor do mundo com empresas especializadas em fornecer automóveis de todos os tipos e valores. O setor experimentou um rápido crescimento, aparecendo em praticamente todas as cidades grandes da América. Com a Grande Depressão ele iria deslanchar, já que nem todos tinham como comprar um carro em meio a recessão. 

Em geral, a burocracia para alugar um automóvel é pequena, com o interessado tendo de fornecer apenas alguns dados pessoais e sua licença de motorista. Automóveis alugados demandam uma caução e em geral possuem seguro contra dano, acidente e terceiros.

Uso em Aventuras: Investigadores muitas vezes precisam de automóveis para ir de um canto a outro em busca de pistas e indícios. Investigações podem levar o grupo a se aventurar em expedições motorizadas a lugares isolados e afastados, onde normalmente não se poderia chegar sem um carro.

Por vezes, os investigadores não querem arriscar seus veículos e preferem alugar um carro de terceiro que não levantará muitas suspeitas. Especialmente se a ação deles for clandestina ou perigosa. É claro, algumas vezes será preciso lidar com o seguro e explicar o que são as estranhas marcas de garras na lataria de um carro alugado.

Gasolina 

Ano da Invenção: 1891
Quando se tornou popular: 1923


O refinamento de petróleo utiliza um processo conhecido como aquecimento passo-a-passo, ou destilação fracionada, para ferver e separar os vários produtos combustíveis. Após a destilação, um típico barril de petróleo cru resultava em 25% de gasolina e 15% de querosene. Antes de 1900 essas proporções eram perfeitamente satisfatórias, uma vez que querosene possuía várias utilizações práticas no dia a dia. Naqueles dias, gasolina era um produto sem tanto uso e de pequeno valor de mercado. Ela era vendida como combustível para aquecedores, ou simplesmente descartada em rios como matéria inútil. Eventualmente leis proibiram esse descarte, não por uma questão ecológica, mas pelo risco de incêndios.

A criação dos automóveis não apenas criou um mercado para a gasolina, mas em 1915 quase levou a indústria do petróleo a uma crise. Nesse ano, a venda de gasolina ultrapassou a de querosene pela primeira vez e a demanda de gasolina se tornou muito grande já que havia cada vez mas automóveis nas ruas. Os produtores de petróleo temiam que a demanda aumentasse e não existisse combustível para manter os automóveis rodando. Em 1912, o químico W.M. Burton descobriu um método de fazer um barril de petróleo produzir 45% de gasolina e apenas 6% de querosene. Essa nova percentagem tranquilizou o mercado e permitiu que a demanda pelo combustível fosse suprida.

Nos primeiros motores automotivos, o vapor de gasolina nos cilindros era comprimido a um quarto de seu volume antes da ignição. Alta compressão dava mais força ao motor, mas um grau elevado não podia ser atingido sem o risco do vapor explodir. Em 1922 Thomas Miggely Jr descobriu que acrescentando tetraetil de chumbo na gasolina permitia aumentar a compressão sem risco o que resultaria em veículos com maior potência.

Tratada, a gasolina etílica chegou aos postos para venda em 1923. Em 1930 engenheiros adotaram o teste de octanagem para verificar a qualidade dos combustíveis. Quanto mais alto o índice de octanagem, maior a compressão do combustível e potência para o motor. Refinarias logo descobriram como aumentar a qualidade da octanagem da gasolina comum. Isso gerou diferentes tipos de combustível, cada qual indicado para diferentes veículos. Enquanto automóveis em 1920 usavam octanagem de 6/1, combustíveis de aviação tinham um grau de 100/1, enquanto carros de corrida atingiam 12/1.

Uso em aventuras: Combustível é necessário em praticamente todas aventuras em que investigadores tenham de se deslocar de um local para outro. Felizmente, com a modernização dos automóveis, postos de gasolina se multiplicaram na mesma proporção. De fato, em 1920 um dos negócios mais promissores na América era abrir um posto de abastecimento. Para lidar com a concorrência, alguns passaram a vender alimentos e oferecer serviços automotivos. Nasceram assim as primeiras lojas de conveniência.

Contudo, gasolina não é útil apenas para manter os motores em funcionamento, combustível pode ser usado para acabar com provas e destruir cenas inconvenientes, sobretudo onde tenha ocorrido um crime. Já perdi a conta de quantas vezes aventuras terminaram com os investigadores queimando um lugar de alto à baixo com gasolina.

É claro, gasolina também pode ser usada como uma arma eficaz contra criaturas dos Mythos, muitas das quais imunes a armas comuns, mas afetadas pelo poder purificador do fogo. Na dúvida, a expressão "jogue gasolina e deixe queimar" pode ser a solução para os problemas de investigadores às voltas com os horrores mais resistentes.

Contador Geiger

Ano da Invenção: 1908
Quando se tornou popular: 1920


O físico alemão Hans Geiger desenvolveu um equipamento capaz de registrar o grau de radiação presente num ambiente em 1908. O contador tinha a forma de um cilindro de metal cheio de gás e com um mostrador de vidro. Quando radiação ionizante atingia o gás, ele produzia uma corrente elétrica fraca. Essa corrente era então traduzida em ruídos que uma vez quantificados forneciam a medição. Geólogos e prospectores logo passaram a usar os aparelhos Geiger portáteis para encontrar depósitos radioativos naturais.

Contadores Geiger maiores são muito mais precisos e fornecem leituras mais confiáveis, entretanto eles são pesados e difíceis de serem levados para o campo. Por esse motivo, os contadores simples fornecem apenas uma leitura referencial. O Contador de Cintilação, aprimorado pelo próprio Geiger, também passou a ser usado. O modelo de Cintilação é capaz de detectar a radiação em substâncias medindo pequenos flashes de luz quando um item é bombardeado por partículas alfa dos materiais radioativos. Essa leitura é tida como mais confiável, embora os dois tipos de Contador Geiger tenham se mantido em operação até os dias atuais sem muitas variações.

Os aparelhos em 1920 se assemelham a pequenas caixas com correias para transporte, podendo pesar até 15 quilos. Um fio condutor ligado a um cilindro é apontado na direção do local de onde se deseja obter a medição. Uma agulha de medição no topo da maleta fornece as leituras a serem interpretadas.

Uso em Aventuras: Quem pode saber qual a composição de certas criaturas do Mythos? Cores do Espaço, Servos dos Deuses Exteriores ou mesmo os Byakhee podem emitir uma assinatura radioativa visto que eles vem do espaço. Com certeza Azathoth ou Yog-Sothoth também produzem algum tipo de assinatura energética que um técnico poderia captar com um Contador Geiger. Empregar um equipamento de medição Geiger pode ser a maneira mais confiável de seguir uma criatura ou de localizar seu covil.

Fonógrafo e Gramofone

Ano da Invenção: 1877
Quando se tornou popular: 1926


Em 1877, Thomas Edison desenvolveu o primeiro aparelho comercialmente prático para mecanicamente gravar e reproduzir o som. Sua invenção ganhou o nome de Fonógrafo. O mecanismo básico do fonógrafo era uma agulha presa a um diafragma que vibrava quando tocava as ondas de som. Para gravar o som, Edison fazia com que a agulha raspasse uma folha de papel-alumínio. O cilindro girava e fazia com que a agulha traçasse uma espiral. A medida que o cilindro girava, a agulha marcava o diafragma em diferentes profundidades correspondendo a diferentes sons. Infelizmente, o papel alumínio de Edison era bom para apenas alguns usos, depois do qual acabava se rasgando. Em 1885 o papel-alumínio foi substituído por um cilindro de cera que era consideravelmente mais durável. O cilindro gravava os sons com maior fidelidade, mas também funcionava para um determinado número de usos depois dos quais se tornava inútil.

Os cilindros de cera se tornaram muito populares, em especial para realizar gravações caseiras e transmitir informações de forma confiável.

Em 1887 um disco chato feito de laca foi introduzido no mercado. O mecanismo que permitia girar o disco era bem mais simples do que o cilindro de cera e mais barato de ser produzido. Essa versão do aparelho de Edison recebeu o nome de Gramofone e se tornou bastante popular. Para funcionar, era preciso rodar uma manivela que impulsionava o disco.

Os sistemas tinham vantagens e desvantagens. Os discos do Gramofone eram mais vulneráveis a arranhões, mas não precisavam ser substituídos depois de uma determinada quantidade de execuções. Discos também ocupavam menos espaço quando não estavam em uso. Por outro lado, o Fonógrafo podia fazer suas próprias gravações, algo que o Gramofone não permitia.


No final das contas, o gramofone se tornou mais popular graças a facilidade de produção dos discos. O custo para produzir um único cilindro de fonógrafo equivalia ao custo de 25 discos. Não é exagero dizer que os gramofones ajudaram a tornar a indústria da música possível. Com o tempo, a tecnologia dos discos melhorou e o vinil foi introduzido.

Em 1926 os Gramofones receberam melhorias com câmaras acústicas mais potentes e gabinetes que tornavam o som muito mais puro. Já em 1930, Gramofones eram um item popular que podia ser encontrado na maioria das casas de classe média.

Uso em Aventuras: O Fonógrafo pode ser de extrema utilidade para pesquisadores e acadêmicos. As anotações e informações podem ser armazenadas em som ao invés de cadernos e diários, facilitando bastante o trabalho. Dada a popularização desses itens, o Guardião pode considerar desenvolver uma pista na forma de uma gravação ao invés de um item físico.

Algumas criaturas podem ser afetadas ou incomodadas pelo som. Podem ainda ser atraídas para armadilhas por ondas acústicas ou músicas específicas.

O uso mais inteligente de gramofone que vi em uma aventura, foi o grupo sugerir gravar em um disco palavras mágicas que poderiam afetar um feiticeiro trazido de volta dos mortos. Uma vez executado em uma altura considerável, o bruxo teria de ouvir. Grande ideia!

*     *     *  

Na próxima parte dessa série, a última, teremos mais alguns itens interessantes para o período dos Loucos anos 1920.

Fiquem conosco...

terça-feira, 21 de abril de 2015

Tecnologia do Impossível - A ciência e o misticismo de ferramentas dos Sham

Os fantásticos aparelhos empregados pelos Insetos de Shaggai provém de uma perfeita integração de tecnologia e magia. Muitas dessas ferramentas são alimentadas, e de certa forma, funcionam através de Azathoth. Os estranhos aparelhos carecem de energia mística para serem ativados, energia essa que é canalizada por intermédio de rituais ou de cânticos em idiomas antigos. 

Para evitar a monumental aparição de Azathoth, os Sham costumam invocar um aspecto menos agressivo do deus, o avatar conhecido como Xada-Hygla. O avatar fornece a energia necessária para carregar todos os aparelhos dos Sham e se beneficia com a oferenda de sacrifícios e louvores. Ao contrário de Azathoth, a energia nuclear gerada pela aparição do avatar é menos nociva e pode ser captada pelas baterias desses dispositivos.

Para ativar a maioria dos seus equipamentos, os Sham precisam utilizar uma fração de sua energia psíquica para remover travas de segurança, do contrário os dispositivos simplesmente não funcionam. Essa é uma espécie de medida de segurança utilizada pelos paranoicos Sham para que seus aparelhos não caiam em mãos erradas e não possam ser utilizados contra eles. Existe a possibilidade de que muitos objetos ancestrais, considerados como tecnologia dos antigos, sejam na verdade ferramentas dos Sham encontradas por humanos que não são capazes de fazê-los funcionar ou mesmo de compreender sua natureza.

Quando um dispositivo com tecnologia está exaurido de energia, ele simplesmente deixa de funcionar. O Sham pode alimentar as baterias místicas através de sacrifícios, coletando energia por aparelhos portáteis. Os Sham não se importam de sacrificar a energia vital de seus escravos e de outras criaturas conforme a sua necessidade. De fato, a obscura raça dos Xiclotl por muito tempo foi usada como fonte de energia para alimentar as máquinas instaladas em Shaggai. A escassez de escravos Xiclotl, fez com que os Sham deixassem de usar seus escravos dessa maneira, os substituindo por humanos, que constituem um rebanho mais numeroso em seu planeta natal.

A forma e o material dos aparelhos criados pelos Sham pode variar enormemente. Em geral, os dispositivos são compactos, visto que precisam ser manipulados pelos pequenos membros dos Insetos, seres originalmente de tamanho diminuto. Eles podem ter vários aspectos, mas os Sham preferem formas geométricas que combinam com seus gostos estéticos. Metal é comumente a matéria prima desses itens, contudo eles também se valem de plástico moldado e de um material sintético derivado da borracha. Os Sham não são afeitos a biotecnologia, como ocorre com os Seres Ancestrais e os Mi-Go.

Chicote Nevrálgico



O notório Chicote Nevrálgico é a arma mais conhecida dos Insetos de Shaggai, usado extensivamente como ferramenta de autodefesa, para disciplinar seus escravos ou simplesmente para infligir dor e sofrimento nas suas vítimas. É muito raro encontrar um Sham sem um desses dispositivos pendendo entre seus tentáculos. 

O dispositivo parece um pequeno bastão de borracha com uma ponteira cônica de metal avermelhado, ele não possui botões ou componentes visíveis capazes de indicar qual a sua função. O objeto é leve pesando 350 gramas e claramente não foi projetado ara a anatomia humana.

Quando acionado psiquicamente, uma concentração de energia se forma na extremidade do bastão. Essa energia pode ser percebida como um reluzir crepitante, semelhante a distorção do calor, quando apontada em uma direção, a energia é projetada violentamente como um chicote a uma distância de até 10 metros. Um alvo atingido sente uma dor intensa e nada pode fazer além de se contorcer no chão até que a arma seja desligada. O feixe energético parece atuar diretamente sobre o sistema nervoso da vítima, estimulando seus centros nevrálgicos. O uso prolongado do Chicote pode levar a vítima a desmaiar ou sofrer um ataque cardíaco.

Peças dessa tecnologia foram encontradas no Vale de Severn, na Inglaterra. As peças foram estudadas e desmontadas, mas até onde se sabe sua função jamais foi descoberta, menos ainda duplicada. Nas mãos de um ser humano, o dispositivo não tem qualquer função prática, contudo se uma pessoa estiver sendo controlada por um inseto, este é capaz de ativar o dispositivo psiquicamente.    

Pirâmide de Transporte Individual



O ápice da tecnologia dos Insetos de Shaggai, sem dúvida, são as suas notáveis Pirâmides Espaciais. Esses colossais dispositivos de transporte, permitem que os Sham se teleportem a distâncias inimagináveis, utilizando para isso a energia gerada por Reatores Nucleares, alimentados por Xada-Hygla. Foi através do uso dessas máquinas que os Insetos se lançaram no espaço e conseguiram chegar a outras esferas planetárias.

Após ficarem presos na Terra, os Insetos não foram capazes de construir novas pirâmides de teleporte. Supostamente elementos presentes na nossa atmosfera previnem qualquer tentativa de utilizar essas formidáveis máquinas para viagens espaciais.

Por muito tempo os Sham tentaram resolver o problema técnico de suas pirâmides, mas sem obter sucesso. O mais próximo que eles conseguiram chegar, permitiu o desenvolvimento de protótipos menores capazes de realizar o transporte de um indivíduo por vez.

Esse dispositivo se assemelha a uma pirâmide com estrutura de metal, vidro e borracha, recoberta de glifos e símbolos em suas arestas. A pirâmide mede cerca de um metro e meio de altura e brilha com uma luminosidade tênue quando no escuro. Um de seus lados se abre como uma porta quando um inseto emite uma ordem psíquica, permitindo que ele suba à bordo.

Uma vez acionando os comandos, o que requer alguns momentos de cálculo, o inseto é capaz de realizar o teleporte. A máquina então desaparece em meio a uma sequência de raios e estouros luminosos, aparecendo em outras coordenadas predeterminadas. O deslocamento é instantâneo e consome inteiramente as reservas de energia da máquina. 

O conceito de distância não parece ser um problema para a pirâmide que é capaz de levar seu passageiro para onde bem ele entender, respeitando apenas os limites planetários. As pirâmides são teleportadores individuais não podendo carregar mais de um passageiro. Testes nesse sentido resultaram numa fusão dos passageiros a nível molecular. Humanos não podem viajar dessa maneira, nem mesmo quando habitados por Insetos. A máquina possui uma configuração particular a fisiologia dos Sham e não pode ser usada por outras formas de vida, uma tentativa resultaria em uma falha crítica, na destruição da máquina e do que quer que estivesse em seu interior.

Dois desses aparelhos foram recolhidos em 1979, em um prédio abandonado em Wisconsin. Eles foram adquiridos por uma indústria de alta tecnologia e foram desmontados por pesquisadores e cientistas que tentaram compreender seu funcionamento.

Há boatos que um cientista norte-americano conseguiu duplicar os princípios da pirâmide de teleporte em meados da década de 1980. O resultado foram cabines de dispersão capazes de efetuar o teleporte a uma distância limitada. O projeto foi suspenso após um infeliz incidente envolvendo a combinação e rearranjo da matriz genética do cientista e de uma forma de vida que inadvertidamente invadiu a cabine. 

Em 1992, o projeto batizado Brundle-Fly foi encampado pelo governo americano. Testes foram realizados, mas até o momento os protótipos não conseguiram sucesso no teleporte. Contudo, experiências no campo da fusão molecular tem se mostrado plenamente satisfatórios.    

Torturador Remoto



A devoção que os Insetos de Shaggai reservam a prática da tortura é lendária. Essas criaturas desenvolveram métodos de infligir sofrimento físico e emocional, elevando a simples tortura a um patamar quase artístico. A maior contribuição de sua tecnologia voltada para a dor é o Torturador Remoto, um dispositivo absolutamente abominável.

O Torturador Remoto se assemelha a um bloco de metal polido de coloração azulada. Ele é leve, pesando apenas meio quilo e não demora a ser instalado. Não há botões ou componentes aparentes, mas quando o Sham o aciona com um comando psíquico o objeto passa a emanar uma leve vibração e emitir um brilho azulado.

O Torturador é colocado sob a cabeça da vítima, que é acomodada em uma maca ou cama onde seus movimentos devem ser restringidos por cordas ou correntes. Uma vez ligado o aparelho começa a emitir um pulso de energia semelhante ao do Chicote Nevrálgico, mas potencializado pelos componentes específicos do dispositivo. Essa energia age diretamente sobre as terminações nervosas do corpo estimulando os centros de dor, potencializando-os até seus limites. Os insetos parecem sentir um prazer inenarrável assistindo sessões de tortura desse tipo. 

A agonia imposta pelo Torturador é tão intensa que poucos minutos na máquina podem destruir a mente da vítima permanentemente. Os insetos tendem a modular a frequência do dispositivo para fazer as sessões se prolongarem indefinidamente. Sob a supervisão de um inseto habilidoso, a máquina pode funcionar por dias à fio. A despeito de ser uma máquina aterrorizante, os Sham não a utilizam como uma ferramenta de coerção, e sim como um dispositivo de satisfação pessoal. Em Shaggai é possível que cada comunidade tivesse um desses aparelhos utilizados como método recreativo. Alguns poucos modelos dessa máquina bizarra sobreviveram à queda dos insetos na Terra e estes são guardados como valiosas relíquias que remetem ao tempo em que os insetos dominavam seu planeta natal.

Em termos de jogo, cada hora na máquina em modulação baixa ocasiona a perda de 1 ponto de sanidade (sem rolamento). A modulação mais severa ocasiona 3 pontos de sanidade por hora de exposição. A máquina não causa dano físico real, o sofrimento é motivado por descargas psíquicas diretamente na mente. 

Uma única dessas máquinas foi encontrada em São Petersburgo em 1912. O aparelho foi desmontado e analisado por técnicos que tentaram compreender seu funcionamento sem grandes resultados. A máquina foi redescoberta em 1939 por cientistas soviéticos que levaram quase duas décadas para ativar seus efeitos (para isso empregaram candidatos dotados de capacidades psíquicas). A máquina, levada para Moscou foi apelidada de "Mecanismo da Dor" e usada como tratamento para remover a dor e criar uma nova geração de super-soldados imunes ao sofrimento físico. O projeto foi descontinuado em 1991, em face dos resultados pobres, mas rumores dão conta de que ele ainda não foi inteiramente encerrado.

O uso frequente desse equipamento pode causar uma pane nos neurotransmissores, gerando melancolia, depressão, apatia e deslocamento emocional. Também há casos de indivíduos desenvolvendo psicopatia e comportamento limítrofe. Os resultados em cobaias se mostraram até o momento insatisfatórios e a maioria dos espécimes expostos ao tratamento não sobreviveu.

Embaralhador Psíquico



O Embaralhador Psíquico é uma arma secundária utilizada pelos Sham para proteção pessoal ou para afetar inimigos. O objeto se assemelha a um bastão de borracha de coloração castanha, leve e compacto, pesando apenas 300 gramas. A haste do aparelho possui curiosos símbolos triangulares e um disco de metal numa das extremidades.

A arma é ativada por um comando mental e imediatamente libera um pulso de energia psíquica em uma esfera de 10 metros. Após sua ativação, o Embaralhador não pode ser usado novamente até ser recarregado. O pulso é invisível, ainda que ele possa ser percebido como uma leve distorção no ar. Criaturas conscientes na área do pulso são afetadas de imediato. A onda psíquica atua sobre o sistema nervoso humano e pode causar severo dano mental. Vítimas do pulso são arrebatadas e levadas a inconsciência, sendo que algumas sofrem uma incontrolável crise epilética antes do desmaio. Efeitos de longo prazo (em 40% dos casos) e permanentes (15% das vítimas) podem incluir déficit neuro-cognitivo, ilusões, dificuldade de comunicação, paralisia nos membros e incapacidade mental. Alterações comportamentais e de personalidade também são um efeito possível. A exposição repetida a esse pulso pode resultar em coma e estado vegetativo.

[Em termos de jogo, as pessoas na área do pulso devem fazer um teste na Tabela de Resistência, onde o Pulso (tratado como força ativa) tem fator 15. O atributo passivo é a INTeligência dos indivíduos afetados. Aqueles que falham no teste caem inconscientes por 1d6+6 horas, podendo sofrer dos efeitos prolongados ou permanentes. Aqueles bem sucedidos no teste, resistem ao ataque, mas são atordoadas por uma rodada, tendo suas habilidades divididas].   

Os Insetos de Shaggai desenvolveram esse equipamento para lidar com os Habitantes de L'Gyryx, uma raça de seres metálicos conscientes que no passado foram escravizados. Posteriormente ele foi adaptado para ser usado contra outras raças com que os insetos tinham interação. Os Sham que aterrissaram na Terra trouxeram alguns desses aparelhos, mas eles são mais raros do que o Chicote Nevrálgico. O embaralhador psíquico não afeta os Insetos de Shaggai, contudo, se um humano dominado por uma dessas criaturas for colhido pelo pulso, o parasita será violentamente expelido. Acredita-se que Matthew Hopkins, o renomado Caçador de Bruxas  utilizou um desses aparelhos para erradicar Insetos instalados na mente de habitantes do Vale de Severn. Não se sabe como ele teria conseguido ativar o Embaralhador Psíquico.

Um desses perigosos aparelhos foi encontrado na África do Sul em 1964 e analisado pelo governo que tentou duplicar seus efeitos. Em 1972, um protótipo teria sido utilizado contra uma multidão de manifestantes negros na cidade de Pretória. O pulso gerado teria causado mais de uma centena de mortes e deixado inúmeros feridos. O projeto teria sido encerrado no final da década de 1970, mas há suspeita de que ele tenha sido partilhado com outras nações.

Sifonador de Energia Vital




O Sifonador de Energia Vital é uma ferramenta essencial para os Insetos de Shaggai. Ele permite que energia vital (pontos de magia) sejam drenados por um aparato que mescla tecnologia e magia.

Fisicamente, o Sifonador se assemelha a uma haste de metal com uma espécie de aparato arredondado numa das extremidades. Para funcionar, ele deve ser instalado no chão, com a haste enterrada no solo. Uma vez ativado por um comando psíquico, o sifonador começa a drenar energia de seres conscientes em um raio de 500 metros. O acionamento dele pode ser percebido através de uma leve vibração e de um persistente ruído de estática.

As pessoas afetadas são lentamente drenadas de sua energia mística, sobretudo se elas estiverem dormindo, circunstância em que o Sifonador encontra suas condição ideal. A curta exposição aos efeitos do Sifonador não são particularmente danosas, mas uma exposição mais prolongada pode ocasionar vertigem, náusea, hemorragia nasal e nos ouvidos e desmaios. O aparelho pode funcionar por um período de ininterrupto de 8 horas, captando energia psíquica em seu bojo. Essa energia pode ser então utilizada para suprir outros dispositivos e itens de tecnologia desenvolvidos pelos Insetos de Shaggai.

[Em termos de jogo, o Sifonador drena 1 ponto de magia por hora, se a vítima estiver dormindo ele drena 2 pontos no mesmo período. Uma pessoa que perde metade de seus pontos de magia dessa forma tem a sensação de que algo estranho está acontecendo e se sente incomodada, irritadiça e mentalmente esgotada. Personagens drenados de todos os seus pontos desmaiam e só se recuperam depois de restaurar metade de seus pontos (que retornam na margem de 1 por hora). Um Sifonador pode estocar até 100 pontos de magia].

Este dispositivo parece ter sido criado pelos Insetos de Shaggai que ficaram presos na Terra. Provavelmente a escassez de outras formas de energia obrigou os Insetos a desenvolver esse método de canalizar energia para seus aparelhos usando os seres humanos como baterias vivas. Esses aparelhos podem ser encontrados em templos e redutos utilizados pelos Insetos.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Máximo Poder de Fogo - E o diabo criou a Gatling Gun


Era um conceito simples. Concentrar um incrível poder de fogo em um único mecanismo, capaz de disparar continuamente, daria uma enorme vantagem em uma guerra.

Antes da diabólica Gatling Gun fazer sua estréia nos campos de batalha durante a Guerra Civil americana, vários outros inventores tentaram criar uma arma capaz de efetuar disparos consecutivos. Da Vinci foi um dos precursores, é claro; James Puckle, Billinghurst, e Ezra Ripley, também tentaram. Este último chegou a conceber o conceito de um grande tambor de revólver montado, mas não teve sucesso. Cada um deles tentou, mas os planos esbarravam em defeitos mecânicos causados pelas limitações técnicas e munição pouco adequada para esse tipo de armamento. Um dos principais problemas é que as armas travavam, engasgavam ou simplesmente negavam fogo quando se tentava fazer com que elas disparassem continuamente. Alguns protótipos até explodiram durante os testes!

A solução para o problema coube a um dentista americano chamado Richard J. Gatling que nas horas vagas gostava de inventar aparelhos mecânicos. É curioso, mas Gatling defendeu até o final de sua vida que sua arma tinha motivações pacifistas e até humanitárias. A sua esperança era que uma arma tão poderosa e com um poder destrutivo tão absurdo acabaria com as guerras tornando um suicídio insistir nelas. Na verdade, Gatling ficou tão rico após ter patenteado sua invenção e fechado contratos com as forças armadas de vários países que ele podia se dar ao luxo de dizer o que bem quisesse. Ele chegou a receber uma comenda pela sua invenção após a Guerra Civil, ocasião em que teria dito que "sua arma tornava possível um único homem cumprir seu dever, ao invés de centenas".    

Gatling posa ao lado de uma de suas armas em 1893.
Antes da Gatling Gun surgir, armas de repetição já existiam, contudo o atirador tinha de realizar a manobra para ejetar a munição usada e engatilhar uma nova. A agilidade do atirador e a prática se tornavam requisitos essenciais para a operação. Gatling resolveu o problema adicionando um tambor giratório no corpo da arma, como se ela fosse um grande revólver. Ele substituiu também a munição embalada em papel por cartuchos de pólvora distribuídos em um carregador vertical que ficava no topo da arma, diminuindo assim o risco dela engasgar.

As primeiras Gatlings tinham quatro tambores giratórios, as seguintes possuíam seis. A arma era operada com uma manivela que girava o tambor e fazia com que o cartucho fosse disparado. A cada movimento da manivela uma bala era disparada e outra entrava na câmara, permitindo que ela atirasse continuamente. Os primeiros modelos eram capazes de executar até 200 disparos por minuto, algo impensável para qualquer atirador.

Dizem que quando a arma de Gatling foi apresentada aos comandantes da União, eles ficaram sem palavras. Durante sua demonstração, a arma disparou uma rajada contínua de 150 balas contra dezenas de manequins e derrubou praticamente todos em menos de um minuto. Um dos oficiais presentes teria dito as proféticas palavras: "Só o diabo poderia ter permitido a criação de uma arma tão destrutiva".

Levada ao campo de batalha da Guerra Civil pela primeira vez em 1865, a Gatling Gun causou sensação na primeira vez que foi empregada em combate. Felizmente, ela não chegou a ser utilizada em muitas ocasiões uma vez que as tropas confederadas se renderam poucos meses depois dela começar a ser distribuída para os quartéis.

O modelo Bulldog com tripé
Mas em pelo menos uma oportunidade a Gatling Gun deixou a sua marca. Benjamin Butler foi General da União, opositor declarado de Lincoln e de muitos outros oficiais de carreira que consideravam seus métodos brutais. Butler obteve notoriedade na ocupação da Louisiana, recebendo o apelido de "A Beasta de New Orleans". Ele teria comprado doze armas Gatling pagando do próprio bolso a quantia de US$1,000.00 para equipar sua tropa o mais rápido possível. Há boatos que ele próprio fazia questão de testar as Gatlings de preferência contra alvos vivos. Dizem que Butler chegou a ordenar que rajadas fossem direcionadas contra a população civil e que prisioneiros fossem fuzilados com essas armas. O episódio causou um mal estar tão grande dentro dos Estados Unidos, que os políticos chegaram a considerar a possibilidade de proibir o uso do armamento e romper os contratos já estabelecidos. 

Mas já era tarde demais, a essa altura a arma de Gatling já estava ganhando o mundo. 

Ela foi vendida para exércitos de outros países. Ela foi empregada em 1879 pelo exército peruano que enfrentava inimigos chilenos. A célebre Batalha de Tacna (1880) foi vencida, nas palavras de oficiais peruanos, graças ao uso da arma dos gringos. Máquinas idênticas foram enviadas para o Exército Real do Canadá que as utilizou na revolta de Saskatchewan em 1885 em que os revoltosos Metis foram massacrados.  Mais de 2000 foram compradas pelas Forças Federais do México e chegaram a ser usadas na Guerra Civil. Na Rússia czarista nada menos do que quatrocentas Gatling Guns foram usadas para conter o avanço da até então invencível cavalaria turca. Ela esteve presente na Guerra dos Boxers (1904), na China, quando produziu inúmeras mortes, bem como no Egito e na Guerra de Unificação do Japão (quando ela foi utilizada contra os últimos samurais!).  


A Gatling, no entanto, ganhou fama como uma das mais eficazes ferramentas de Colonialismo no final do século XIX. Utilizada pelos britânicos nos levantes dos beduínos (na península arábica), contra as forças do Mahdi (no Sudão) e as tribos Zulu (na África Oriental), essas armas ganharam fama por abafar revoltas populares massacrando as forças opositoras com uma chuvas de projéteis mortais. O Coronel Percy Carnahan, um conhecido oficial britânico teria dito: "Deem-me 1000 dessas armas e eu prometo tomar de volta o Sudão e acabar com os homens do Mahdi de uma vez por todas".

A Gatling foi usada pelos britânicos contra os Zulus.
Mas apesar de sua inquestionável capacidade, a Gatling Gun não era perfeita. Um de seus grandes problemas era o super-aquecimento. Se o operador, chamado também de artilheiro, rodasse a manivela muito rápido ela podia aquecer de tal forma que o cano sofria uma deformação que impedia a passagem dos disparos. No pior dos casos a arma podia explodir. Para resolver o problema, muitas vezes o artilheiro contava com a ajuda de um indivíduo responsável por refrigerar a arma. O "sistema de refrigeração" (se é que pode-se chamar de tal coisa) era arcaico e consistia em molhar com uma concha de água a parte externa do barril. Posteriormente um fluido foi desenvolvido para prevenir o aquecimento, embora nem sempre ele funcionasse.

Outra complicação era o carregador de munição. Se as balas não fossem acondicionadas corretamente elas podiam ficar presas. Nesse caso a arma engasgava, e podia até estourar. Para sanar o problema, um terceiro indivíduo, chamado de municiador, ficava responsável por trocar os carregadores, recarregar a arma e manter a câmara limpa.

Portanto, para garantir uma utilização satisfatória, a Gatling carecia de uma equipe de três homens minimamente treinados em sua operação.

Outra questão incômoda era o deslocamento. Os primeiros modelos pesavam até 80 libras, aproximadamente 40 quilos e era difícil mover a arma de um ponto a outro para fazer mira. Modelos especiais foram adaptados sobre rodas e armações de cachões possibilitando puxá-los com carroças. Algumas Gatling, como o popular modelo Bulldog começaram a ser montadas sobre tripés móveis que permitia ao artilheiro girar a arma e atingir alvos em um ângulo muito mais amplo.

Apesar dos contratempos, a Gatling continuou em operação. 

O modelo usado na Guerra Hispano-Americana
Três delas foram utilizadas pelo exército norte-americano na Batalha de San Juan Hill, durante a Guerra Hispano-Americana em 1898. As três armas mantiveram as tropas espanholas acuadas disparando uma barragem de mais de 18.000 tiros em pouco menos de oito minutos, permitindo o avanço da tropa e a conquista da colina. Quando os soldados chegaram a posição ocupada pelos inimigos encontraram uma verdadeira carnificina com cadáveres retalhados e uns poucos homens horrivelmente feridos.

Mas no fim das contas, o reinado da Gatling Gun, considerada em um momento como a arma definitiva foi curto, durando apenas 45 anos. Em 1911, os modelos ainda em uso foram declarados obsoletos pelo exército americano e pararam de ser produzidos. Na Inglaterra e na Alemanha, armas mais leves, baratas e eficientes estavam sendo produzidas em massa, uma nova geração de armas automáticas chamadas de metralhadoras (machine guns). Equipadas com sistema de resfriamento à gás e funcionando com um gatilho mais estável, elas eram capazes de despejar até 1.000 balas por minuto. Na Grande Guerra de 1914-1918, metralhadoras inglesas Vickers e alemãs Maxim se tornariam as armas mais mortais no campo de batalha.

Curiosamente, o sistema da Gatling considerado antiquado ressurgiu muitos anos mais tarde, em meados de 1950 para equipar aviões. Transformados em verdadeiros canhões, uma nova geração de armamento inspirado pela tecnologia desenvolvida por Gatling, tornou-se top de linha para as forças aéreas mundiais e encontram-se em uso até hoje

As Gatling Guns também foram a base para duas das mais mortais armas da atualidade, usadas como artilharia de apoio de tropas, montadas em veículos leves, helicópteros ou carregadas por tropas especiais. A primeira é o canhão automático M-61 Vulcan (capaz de disparar até 6600 projéteis por minuto, quem assistiu ao primeiro filme da série Matrix pode levantar a mão) e a M-134 Mini-Gun (capaz de lançar 6000 balas por minuto, e vista no filme Predador).

Algumas imagens de Gatling Gun em ação:

Esta é uma Bulldog 1876:


Uma daquelas feiras de armas nos EUA onde todo mundo atira (inclusive a criançada):


E nessa aqui em mais ou menos 1:20 podemos ver o poder de fogo das Gatling demolindo um carro:

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Lâminas de Pulso - Armas de Assassinos no mundo real



Uma Lâmina de Pulso é basicamente uma faca escondida na manga, liberada por acionamento mecânico que faz o gume afiado literalmente aparecer do nada, deixando-a pronta para o ataque. Tais armas foram popularizadas nos último anos nos games da série Assassin Creed. Elas são a arma preferida dos assassinos do jogo e o protagionista utiliza um par delas para eliminar seus alvos de forma rápida, discreta e letal.

A pergunta aqui é a seguinte: "Essas armas existiram em algum momento da história?"

E se sim, quem as fabricou ou usou?

Como acontece na maioria dos casos, a ficção está fortemente amparada pela realidade. Lâminas de Pulso (Wrist Blades ou Sleeve Knives) realmente existiram, chegaram a ser produzidas, embora jamais tenham sido um artigo comum.

Uma típica lâmina de pulso é acomodada em um aparato de couro, fixado no pulso, geralmente por uma correia e fivela, que esconde todo mecanismo. A lâmina retrátil fica guardada em uma bainha, o que evita acidentes e ajuda a disfarçar a sua presença. O mecanismo ejetor funciona com uma simples mola e é acionado por uma corda que desliza para fora da manga e fica presa em um anel, ao alcance do dedo mínimo. O movimento do dedo puxando a corda, libera a trava e a mola automaticamente ejeta a lâmina para fora da manga. Embora seja bastante engenhoso, o princípio é simples. A arma, contudo, demanda prática e treinamento para ser usada corretamente. Um erro de execução pode terminar na melhor das hipóteses com a lâmina presa na manga e na pior com um corte feio.

Outros mecanismos ejetores também podiam ser usados com o mesmo efeito. Um simples mecanismo extensor de deslizamento, idêntico ao que se usa atualmente nas gavetas de escrivaninha de computador, também pode ser empregado. Nesse caso, a bainha precisava ser aberta previamente para permitir a liberação da lâmina. A lâmina podia ser acionada por um movimento descendente do pulso. O mecanismo deslizava até um determinado ponto travando para que a faca pudesse ser usada.

Tudo indica que as Lâminas de Pulso tenham surgido na China.

No Museu de Gugong, existe um documento do século VI que menciona uma reunião realizada entre duas famílias que estavam em guerra. Para colocar um fim às hostilidades os chefes de cada família aceitaram negociar em território neutro com a condição de que ninguém levasse armas a reunião. Os líderes de cada família sentaram ao redor de uma mesa e iniciaram o debate. Quando as discussões de paz chegaram a um inevitável impasse e acusações começaram a ser trocadas, um dos grupos demonstrou sua astúcia traiçoeira revelando ter trazido para a reunião lâminas de pulso convenientemente ocultadas em suas mangas. Pegos de surpresa, seus inimigos não puderam fazer nada e foram massacrados.

Os chineses sempre foram conhecidos pela engenhosidade em conceber armas que providenciassem vantagens estratégicas. Lâminas de Pulso ficavam escondidas até o momento de serem usadas, o que garantia o elemento surpresa.

Na India existem gravuras de armas semelhantes ao katara - facas de soco em forma de H, tradicionalmente fixadas no pulso e usadas para golpear. Diferentemente dos katara (ou katar), estas armas ficavam ocultas na manga e eram acionadas por um mecanismo metálico que se dobrava sobre o antebraço. Com um movimento específico a trava era liberada e a lâmina se estendia, ficando na posição ideal para atacar. Mecanismos semelhantes surgiram séculos mais tarde ejetando pequenas armas de fogo na mão do utilizador providenciando assim um saque rápido em caso de necessidade. Que viu o filme Maverick (Maverick, 1994) deve lembrar que o vilão usa uma dessas na cena da mesa final de pôquer.

As lâminas de pulso foram apresentadas ao ocidente provavelmente por mercadores por volta do século XIV. Sua construção demandava um armeiro especialmente engenhoso e é claro, muito dinheiro, visto que o trabalho era artesanal. Ironicamente, quando as técnicas de metalurgia avançaram o suficiente para permitir a produção, as lâminas já haviam perdido espaço significativo para as armas de fogo, mais fáceis de usar e ainda mais letais. Portanto, poucas foram encontradas, sobrevivendo em coleções particulares na Inglaterra, França e Itália.

Haviam outras limitações práticas para as Lâminas de Pulso. A natureza dissimulada da arma fazia com que elas fossem vistas com enorme reprovação. Na maioria das nações européias usar armas ocultas no vestuário ou no próprio corpo era prática proibida - as espadas de monge (lâminas ocultas em um cajado de andarilho), por exemplo, foram banidas em toda Europa. Um cavaleiro honrado jamais empregaria uma arma oculta para vencer seu adversário.

Além disso, aprender a usar corretamente uma faca de pulso podia requerer horas e horas de treinamento. Um erro de execução no momento de usar a arma podia ser fatal, deixando o assassino ferido, justamente no momento de realizar seu ataque.  

Uma lâmina de pulso, obviamente não é a ferramenta ideal em termos de técnica de combate. Seu alcance é pequeno, ideal para ser usada em um oponente bem próximo. Trata-se de uma arma que prima pelo elemento surpresa, concebida para uma única e mortal investida quando o alvo é pego desprevinido sem chances de defesa. Um esbarrão ou um ataque pelas costas é o ideal. Conduzindo o gume perfurante, visando a garganta ou um ponto entre as costelas, o ferimento poderia facilmente ser letal. Há boatos que Roman Malinovsky temido agente da Ohkrana,  a polícia secreta do Czar Nicolau II da Rússia usava uma Lâmina de Pulso. Foi a Lâmina dele aliás que inspirou a versão usada pelo criminoso nazista, interpretado por Laurence Olivier no filme Maratona da Morte (Marathon Man, 1976).

Como não poderia deixar de ser a popularidade do game Assassin Creed fez com que várias pessoas (com tempo livre de sobra e, verdade seja dita, certo grau de habilidade) construíssem  suas próprias versões de Lâminas de Pulso inspiradas no jogo.

A título de curiosidade aqui estão dois vídeos em que os orgulhosos criadores desses protótipos demonstram o resultado de seu trabalho. Lâminas de Pulso que realmente funcionam.

O primeiro com um mecanismo de trava de mola:


      
E aqui outra versão construída com mecanismo estentor:



Antes que alguém tenha idéias a respeito, vale a pena lembrar que esse tipo de objeto é considerado como uma arma, sendo portanto proibido portar ou usar por aí.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Lady Derringer - A melhor e mais mortal amiga das mulheres

Ann percebeu que olhos a seguiam pelo salão.

Apesar da música alta e da massa de pessoas dançando loucamente ao som da banda de Jazz, ela sabia que estava sendo vigiada. Ao sair pela porta dos fundos, sentiu o ar fresco da noite a envolver. Encostou-se casualmente em uma pilha de engradados e acendeu um cigarro. Tragou longamente enquanto aguardava.

Não demorou muito: BAM! A porta dos fundos se abriu e um sujeito corpulento surgiu apressado, olhando ao redor. Ao vê-la ali parada, sorriu confiante.

"Ora, ora o que temos aqui?" disse o fascínora com uma voz desagradável. Ann o reconheceu de imediato, um dos capangas do chefão Bonatto, responsável por inundar Arkham com bebida ilegal da pior qualidade. Ela o conhecia de reputação, um matador nato.

"Você vem comigo doçura. Pode gritar se quiser, eu adoro ouvir os gritos de uma belezinha como você!" disse se aproximando ameaçadoramente.

Ann foi mais rápida, enfiou a mão na bolsa e tirou dali algo pequeno e brilhante. O sorriso do bandido desapareceu quando ele viu o cano de uma pistola apontada a poucos centímetros de seu nariz.

"Se der mais um passo, a última coisa que você vai ouvir é o som da minha Derringer".

* * *

Os anos 20 foram uma época perigosa para as mulheres.

A liberdade que haviam acabado de conquistar vinha acompanhada de uma série de riscos. Nem todas as mulheres estavam dispostas a sair acompanhadas e andar sozinhas pelas ruas das grandes cidades podia ser muito perigoso. Muitos rufiões viam em mulheres desacompanhadas um alvo perfeito para suas investidas.

Elas precisavam se defender em caso de necessidade.

Sabendo disso, a companhia de armas Derringer (famosa pelas suas pistolas compactas) lançou no mercado aquela que viria a ser a primeira arma de fogo voltada para o público feminino. A pistola single-shot, imediatamente ficou conhecida como Lady Derringer.

A Lady Derringer era pequena o bastante para ser colocada na bolsa de qualquer mulher, em seu bolso do vestido, no chapéu, escondida na cinta da meia calça ou até mesmo na fenda do seu decote. A arma com cano de aço inoxidável media apenas 13 centímetros e pesava meras 420 gramas. O primeiro modelo colocado no mercado comportava uma única bala especial calibre 25, o suficiente para espantar ou eliminar um agressor.

Os armeiros da Derringer pensaram nos mínimos detalhes. A empunhadura era menor e mais confortável para uma mão pequena e delicada. O tambor de carregamento era aberto deslizando o cano como se fosse um batom. O gatilho era mais sensível e continha uma trava de segurança que podia ser movida rapidamente em caso de necessidade. O modelo original não era muito potente, fazendo dela uma arma perfeita para o disparo à queima roupa ou curta distância -- no máximo 1 metro.

O estampido era propositalmente mais alto, o som do disparo de uma Lady Derringer era oco e metálico e servia como alerta. A arma produzia também um forte cheiro de pólvora e deixava resíduo nas mãos do atirador.

Logo que foi lançada a Lady Derringer era considerada "a companhia perfeita para ser empunhada por qualquer mulher disposta a defender sua honra", ou ao menos era isso que dizia a propaganda da época. Ela custava 12 dólares, um valor alto para uma arma compacta.



"Suas pernas, nuas sem uma Derringer" -- uma ousada propaganda de 1924

Para agradar ao público feminino, a Derringer pensou em outros detalhes. A arma tinha acabamento de madrepérola ou marfim na coronha e detalhes entalhados com arabescos ao longo do cano. O formato da empunhadura podia ser ajustado sob medida e o desenho na coronha era pintado com esmalte. A Lady Derringer era uma pequena e mortal jóia.

Em 1925, uma dessas armas foi usada pela herdeira Eliza Hallbroke que em uma visita a Atlantic City a usou contra um ladrão. "Atirei quando ele chegou perto o bastante para eu sentir seu bafo de bebida" teria dito a moça logo depois do ocorrido. O fato é que esse incidente garantiu uma enorme propaganda para a Lady Derringer.

Várias outras companhias de armas, farejando o lucro, começaram a desenvolver seus próprios modelos de pistolas para senhoras. Eram as chamadas Deringer, com um único "r". Foi nessa época que surgiram os modelos que permitiam miniciá-la com cartuchos calibre 32, 38 e até mesmo a letal 45.

Os "modelos genéricos" embora fossem bem mais em conta, por vezes resultavam em defeitos e problemas. Na melhor das hipóteses uma dessas armas podia simplesmente travar e negar fogo, no pior dos casos ela podia estourar na mão da atiradora provocando sérios danos.

As Deringer passaram a ser associadas a armas perigosas que representavam um grave risco para as próprias mulheres. Em 1928, o assassinato de um congressista de Chicago por uma prostituta chinesa armada com uma Derringer causou comoção e fez com que a arma fosse proibida em vários estados da união.

A popularização das armas de fogo logo levou as mulheres a experimentar outros modelos além da Lady Derringer, e esse foi o fim das armas especiais para mulheres. Logo elas descobriram que não era necessário ter uma arma especial para elas, uma bala, podia matar à despeito do sexo de quem a empunhava.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Queimando tudo! - Regras para utilizar lança-chamas em Call of Cthulhu

Com tudo isso que se falou na postagem anterior, é claro, que todo jogador empreendedor de Call of Cthulhu vai querer colocar as suas mãos em um lança-chamas. Eu posso imaginar poucas armas mais eficientes para serem usadas contra as criaturas do Mythos.

Além de ser um treco destruidor, um lança-chamas é o cúmulo do estilo na arte de despachar aberrações. Difícil vai ser convencer seu mestre habitual a permitir que o seu personagem tenha acesso a um deles.

Mas não custa sonhar. E sempre existem aquelas aventuras se passando na Grande Guerra ou em algum momento conturbado da história em que colocar as mãos num lança-chamas não é totalmente inviável. Pessoalmente, eu permiti que o grupo tivesse lança-chamas em duas oportunidades. Em No Man´s Land, um cenário que se passa nas trincheiras da França durante a Grande Guerra e na mega-uber campanha Beyond the Mountains of Madness, onde a equipe contava com um lança-chamas em seu equipamento.

Lamentavelmente posso dizer que o lança-chamas não foi lá muito útil em nenhuma das ocasiões, mas sem dúvida ele deixou algum jogador com um baita sorriso de satisfação.

O fato é que lança-chamas são pouco detalhados nos livros básicos, por isso seguem algumas regras e estatísticas para Guardiões que pretendem inserir uma dessas armas em sua aventura.

1) Obtendo um Lança Chamas

Antes de tudo falemos sobre a possibilidade de um personagem adquirir um lança-chamas.

É claro, a traquitana é uma arma de uso exclusivo militar e portanto é algo controlado e restrito para civis. Não se espera que alguém venda um lança-chamas na lojinha da esquina ou no armarinho de aviamentos.

Um lança-chamas representa um perigo substancial não importa a época em que se passa sua aventura e como tal tem a sua produção, obtenção e venda controladas. Como então um personagem conseguiria acesso a uma dessas armas? Excetuando as aventuras que se passam durante guerras ou levantes, como por exemplo a Grande Guerra, é difícil haver um lança-chamas dando sopa por aí.

É provável que quartéis tenham lança-chamas em seu arsenal, mas via de regra esses lugares são vigiados e protegidos por soldados armados com ordens para atirar em qualquer um que tente ganhar acesso a essas armas. Conseguir um lança-chamas através de contatos nas forças armadas parece pouco promissor. Nem preciso mencionar que instituições policiais em momento algum da história e em lugar nenhum do mundo contaram com lança-chamas.

Mas nem tudo está perdido.

Acredite ou não, lança-chamas foram vendidos em alguns lugares do mundo para servir como ferramenta agrícola. Nos Estados Unidos após a Grande Guerra, alguns lança-chamas que sequer foram usados no conflito acabaram sendo adquiridos por fazendeiros que os usavam para realizar queimadas controladas. No sul dos EUA plantadores de cana-de-açúcar tinham permissão do governo federal para utilizar lança-chamas na agricultura.

Durante os anos 30, no estado de Illinois, também nos EUA, era possível adquirir um lança-chamas legalmente, desde que fosse usado exclusivamente na remoção de neve e gelo no inverno. O cartaz ao lado mostra um anúncio do exército pedindo que lança-chamas sejam deixados aos cuidados d equem sabe oprá-los, no caso o exército.

Na Europa na década de 20-30 seria muito difícil um civil obter um lança-chamas, mas no resto do mundo não é totalmente inviável. Com o fim da Grande Guerra uma quantidade enorme de armas - nem todas em boas condições - foram encaixotadas e enviadas para outras nações para serem vendidas à preço de banana. Não é totalmente impossível que fazendeiros ou colecionadores de armas tenham adquirido algum lança-chamas.

Apreensão, multa ou prisão esperam por alguém que é flagrado com um lança-chamas. Obviamente, a utilização dessas armas para alguma atividade suspeita (inclusive churrasco de polvo) agravaria e muito a situação do indivíduo.

2) Usando o Lança-Chamas

O funcionamento de um lança-chamas é surpreendentemente simples. Basicamente ele envolve manipular uma válvula de pressão que possibilita a saída de gás/combustível e o acionamento de um gatilho que inflama a mistura.

Qualquer pessoa com o mínimo de discernimento consegue fazer o aparelho funcionar por isso a porcentagem básica para sua utilização é 35%.

O grande porém do lança-chamas é que ele em geral precisa ser montado e carregado para o uso. Montar um lança-chamas exige um rolamento de Mechanical Repair para juntar as peças de forma correta, a não ser que o guardião conclua que o personagem teve treinamento militar a respeito o que supre a necessidade do rolamento. Eu consideraria que uma falha nesse rolamento aumentaria as chances de acidente durante a operação (ver o tópico "ooops!").

Carregar o lança-chamas já é mais complicado. O gás pressurizado no cilindro do lança-chamas é calibrado por uma máquina, na ausência deste, os lança chamas podem ser carregados apenas com combustível líquido (o que acontece na sua aplicação civil). O combustível empregado é um óleo derivado do petróleo, mas outros combustíveis podem ser usados inclusive gasolina e diesel. Rolamento de Luck pode ser pedido pelo guardião especialmente sacana que gosta de deixar seus jogadores suando frio. Eu sinceramente apenas iria presumir um acidente mediante alguma colossal estupidez dos jogadores (como por exemplo, fumar enquanto prepara a a arma).

3) Tudo pronto... lá vai fogo!

O lança-chamas dispara algo chamado "língua de fogo". Trata-se de um jato flamejante vermelho vivo que visualmente parece líquido.

Um lança-chamas típico totalmente carregado é capaz de disparar 10-12 vezes até se descarregar. As armas usadas na Grande Guerra tinham um alcance máximo de 16 metros e atiravam 1 vez por rodada.

O dano de uma rajada de lança-chamas é 2d6. Uma vítima atingida deve fazer um rolamento de Luck/2 para evitar que seu corpo e roupas peguem fogo. Nesse caso, o personagem recebe 1d6 pontos por rodada e testa Luck/2 até que o fogo se apague ou o sujeito morra.

Vítimas de um lança-chamas devem fazer um teste de Sanidade no momento em que são atingidos com o custo de 0/1d3. Personagens que pegam fogo, perdem automaticamente os pontos de sanidade a cada rodada até que as chamas se apaguem. Um personagem em chamas não é capaz de agir, para todos os efeitos ele apenas se debate tentando apagar as chamas que consomem seu corpo. Alterantivamente, o guardião pode pedir rolamentos de sanidade (0/1d2) para quem assiste a cena. Um guardião especialmente sádicopode instituir que a perda de 9 pontos de sanidade resulta em alguma insanidade como pirophobia.

Lança-chamas deixam ferimentos realmente horríveis e traumáticos. Para cada 4 pontos de dano sofridos por um ataque dessa natureza (a chance de pegar fogo inclusive) reduza em 1 ponto o atributo APP do personagem.

4) Oooops!

O grande problema do lança-chamas é que saber mexer nele não significa estar livre de acidentes, e acredite, a última coisa que você vai querer é sofrer um acidente enquanto manipula um lança-chamas.

Um lança-chamas tem um índice de mal funcionamento fixado em 93%. Isso significa que se o jogador ao operar o lança-chamas tirar qualquer coisa entre 93-100 o equipamento se comporta de forma inesperada. Se o equipamento tiver sido montado de forma errada, a chance de mal funcionamento sobe para 85%.

Nesse caso, role o d10 na tabela abaixo:

1-5 - Nada acontece, o lança-chamas simplesmente não dispara nessa rodada.

6-7 - O lança-chamas engasga e será necessário desmontar e montar novamente o aparelho através de um rolamento de Mechanical Repair.

8-9 - O lança-chamas não dispara e precisa ser desmontado e montado novamente. Role a Luck do personagem, em caso de falha a arma é danificada e o personagem recebe um ferimento de 1d3 pontos de dano por fogo ou calor.

10 - O supremo "ooops". O personagem cometeu algum erro crasso durante a operação, o que pode envolver ter super-aquecido a arma ou queimado a mangueira que alimenta o lança-chamas com gás. O personagem recebe 1d6 pontos de dano e testa Luck para evitar uma explosão e 2d6 pontos de dano (e mais a chance de pegar fogo).

Mais perigoso ainda é se o equipamento sofrer algum dano.

O lança-chamas suporta 6 HP de dano. Um personagem que recebe dano potente o bastante para perfurar o metal (um tiro p. ex) deve fazer um teste de Luck sempre que recebe dano dessa natureza. Em caso de falha o disparo danifica o cilindro e provoca nele metade do dano. Se os HP do cilindro chegarem a 0, ele explode. O indivíduo carregando o lança-chamas recebe 2d6 pontos de dano (e tem chance de pegar fogo).