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quinta-feira, 19 de setembro de 2024

A Lança do Destino - O Artefato que tornava exércitos invencíveis

Dentre as Armas Christi, a Lança do Destino é sem dúvida o artefato mais conhecido e poderoso. Ela faz parte de várias histórias, apareceu em documentários, contos e narrativas, além de figurar, mais recentemente em filmes, séries de televisão e quadrinhos.

Segundo a lenda, a Lança teria sido usada pelo centurião romano Longinus para ferir Cristo durante a Crucificação. A ponta dela teria sido empregada para perfurar o flanco de Cristo fazendo seu sangue verter sobre o metal, incorporando nele propriedades místicas. O ato de Longinnus não ficou sem punição, sendo ele amaldiçoado pela eternidade a vagar pelo mundo sem descanso até o dia que purgasse seus pecados.

Segundo os rumores, a arma concederia ao seu portador o poder de governar o mundo. De fato, a lenda que cerca o artefato afirma: "quem detiver esta Lança Sagrada e entender os poderes que ela possui, segura em suas mãos o destino do mundo para o bem ou para o mal". Essa lenda talvez seja o motivo pelo qual uma longa lista de líderes, reis, imperadores e conquistadores ao longo da história registrada a procuraram e alegaram tê-la empunhada. A lista inclui nomes como Átila, o Huno, Herodes, o Grande, Constantino, Maurício, o Maniqueu, Alarico, Teodorico, Carlos Martel, Carlos Magno, o Grande, Frederico Barbarossa, Henrique I, Otão I, o Grande, e o Papa João XII, entre muitos outros, todos os quais relataram grandes sucessos com a lança.


A Lança do Destino seria a fonte de um poder místico que cerca seu detentor. Seus exércitos se tornam invencíveis, suas ordens são obedecidas a risca, suas tropas se mostram implacáveis lutando sem cansaço ou limitações físicas. Segundo outras fontes, a arma comandaria também o clima podendo conjurar tempestades, chuvas leves para saciar a sede e tempestades de areia. Ainda há relatos de que ela forneceria ao seu portador um carisma sobrenatural que o tornava irresistível aos seus comandados, tornando-o um líder nato.

Esses predicados de sucesso eram exatamente o que Adolf Hitler aspirava possuir. Conhecendo as lendas ao redor da Lança do Destino, a Hitler incumbiu a Ahnenerbe de encontrar sua localização e trazê-la para ele como um prêmio definitivo para consolidar sua liderança. Com a Lança do Destino, os nazistas seriam invencíveis.

O problema é que a lança havia se perdido na história e nem era certo se esses líderes já haviam segurado o artefato ou mesmo se ela realmente existiu ou não. De fato, há dezenas de contos conflitantes sobre o que aconteceu com a lança, para onde ela foi e até mesmo como ela era. Tudo se tornou ainda mais duvidoso pelo fato de que havia inúmeras falsificações e recriações que foram criadas ao longo dos séculos para enganar aqueles que a buscavam. Durante a suposta posse de Constantino, o Grande, com a relíquia, seu conselheiro espiritual, Eusébio de Cesareia, a descreveu assim:

"Era uma lança longa, revestida de ouro. No topo estava fixada uma coroa de ouro e pedras preciosas, e dentro dela o símbolo do nome do Salvador, duas letras indicando o nome de Cristo por meio de seus caracteres iniciais - aquelas letras que o imperador tinha o hábito de usar em seu capacete em um período posterior. Da lança também estava suspenso um pano, uma peça real, coberta com um bordado profuso das mais brilhantes pedras preciosas e que, sendo também ricamente entrelaçada com ouro, apresentava um grau indescritível de beleza ao observador. O imperador constantemente fazia uso deste sinal de salvação como uma salvaguarda contra todo poder adverso e hostil, e ordenou que fosse carregado à frente de todos os seus exércitos."

O fascínio de Hitler pela Lança do Destino começou muito antes de ele ser o notório líder nazista, quando ele era apenas um humilde estudante de arte. Enquanto visitava a Casa do Tesouro de Hofsburg em Viena em 1912, seus olhos caíram sobre uma das lanças que se dizia ser a verdadeira Lança do Destino, que havia sido guardada ali para proteção após uma longa história de troca de mãos e de ser perdida e encontrada inúmeras vezes. Não havia certeza alguma de que a lança dourada que estava em Viena, que era chamada de Lança Sagrada de Longinus, era a lendária Lança do Destino, e de fato haviam outras relíquias semelhantes ao redor do mundo que faziam a mesma afirmação na época. Contudo, o próprio Hitler parecia convencido de que aquele era o artefato real, dizendo sobre a primeira vez que a viu:

"Eu soube imediatamente que este era um momento importante na minha vida... Fiquei ali quieto olhando para ela por vários minutos, completamente alheio à cena ao meu redor. Parecia carregar algum significado interno oculto que me escapava, um significado que eu sentia que conhecia interiormente, mas não conseguia trazer à consciência... Eu senti como se eu mesmo a tivesse segurado em minhas mãos antes em algum século anterior da história - que eu mesmo a havia reivindicado como meu talismã de poder e segurado o destino do mundo em minhas mãos. Que tipo de loucura era essa que estava invadindo minha mente e criando tal turbulência em meu peito?"


Acreditando que este artefato fosse a verdadeira Lança do Destino, uma das primeiras coisas que o Fuhrer fez quando os nazistas tomaram Viena em 1938 foi roubá-la para si mesmo e enviá-la para Nuremberg. Houve até teorias de que a verdadeira razão de Hitler para começar a Segunda Guerra Mundial era se apossar dela. Pouco antes de dar início a Invasão da Polônia, Hitler teria tomado a Lança do Destino em suas mãos e a usado para tocar o ombro de seus Generais de Campo, afirmando que eles a partir de então seriam invencíveis.

Seja isso verdade ou não, Hitler conseguiu sua lança, embora ela não pareça ter lhe concedido grande poder quando ele mais precisava, e sua planejada invasão da Inglaterra falhou, seguida por sua devastadora derrota na Batalha da Normandia em 6 de junho de 1944. Depois disso, não está claro o que aconteceu com a suposta Lança do Destino de Hitler. Ela supostamente foi devolvida a Viena, mas há teorias de que esta era na verdade uma cópia e que a verdadeira foi reclamada por algum dos aliados vencedores. Ela ainda estaria por aí, trocando de mãos, passando de um comandante para outro.

Uma teoria é que a Lança do Destino estava escondida em um dos muitos bunkers subterrâneos, cavernas e catacumbas que os nazistas usavam para armazenar os inúmeros tesouros que saquearam de seus inimigos. Outra é que ela era mantida pelas forças aliadas, e que o famoso general George S. Patton ficou obcecado por ela, acreditando até mesmo ser uma reencarnação de alguém que a empunhara no passado. Ele fez grandes esforços para convencer os Estados Unidos a retê-la e devolver uma falsa à Áustria. Nesse cenário, a lança real ainda estaria em posse dos Estados Unidos, e seria essa a razão pela qual o país conseguiu permanecer como uma potência mundial por tanto tempo. Outra ideia era que o líder da SS Himmler a reclamou e que ela foi entregue nos dias finais da guerra aos cuidados de uma sociedade secreta que ele formou chamada "Os Cavaleiros da Lança Sagrada".


Uma teoria ainda mais selvagem foi apresentada nos livros de 1988-89 do Dr. Howard A. Buechner, Hitler's Ashes - Seeds Of A New Reich e Adolf Hitler and the Secrets of the Holy Lance, nos quais ele afirma que o líder nazista mandou a lança para uma base secreta na Antártida após a guerra, após a qual ela foi recuperada novamente em 1979 por uma expedição liderada por um indivíduo misterioso conhecido como Coronel Maximilian Hartmann, o que por sua vez levantou teorias da conspiração de que a verdadeira Lança do Destino está na posse desta cabala sombria empenhada em dominar o mundo. No final, embora saibamos que Hitler roubou esta lança, ninguém tem ideia se era a verdadeira Lança do Destino e, na verdade, não temos ideia alguma se ela já foi um objeto real ou se nao passava de uma cópia. 

A lendária Lança do Destino se tornou um ímã para várias teorias da conspiração, e as histórias insanas de envolvimento nazista se tornaram combustível para incontáveis rumores ao longo dos anos.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Relíquia Sagrada - Seria o Cálice de Nanteos o verdadeiro Santo Graal?


Talvez não haja busca maior de artefato na historia da humanidade do que a do Santo Graal. Ele é uma fonte de mistério bíblico, devoção transcendental e o exemplo máximo do desejo de possuir uma parte significativa da história. 

O Cálice Sagrado, esteve relacionado com Jesus Cristo em dois momentos de sua vida. O Graal seria o lendário copo no qual se acredita o Salvador teria bebido na Última Ceia com seus discípulos. Segundo a tradição, ele também teria sido usado por José de Arimateia  para coletar o sangue de Cristo enquanto ele padecia na crucificação. O Graal portanto estaria ligado a dois  momentos muito importantes da cristandade. Sua descoberta não apenas comprovaria a existência de Jesus, mas de dois momentos chave para todo devoto.

O Graal desapareceu na história e se tornou objeto mítico de busca, ambição, debate e pesquisa desde então. O Santo Graal é tão desejado e elusivo que o seu nome se converteu em sinônimo de descobertas inatingíveis ou impossíveis e, ao longo dos séculos, conseguiu confundir todos os que o procuraram. 

É claro que surgiram muitos cálices e taças que foram apresentados e reivindicados como sendo o verdadeiro Graal ao longo dos séculos. Há um boato de que mais de uma centena de supostos Cálices Sagrados foram encontrados e estes ainda adornam igrejas, museus e coleções privadas ao redor do mundo, cada qual com sua própria história e suposições por parte de quem os encontrou e de quem neles acredita.  


Contudo, talvez não haja nenhum candidato tão promissor ou tão misterioso a ser o verdadeiro Graal quanto um cálice de aparência humilde que foi trancado e mais de uma vez esquecido, apenas para ser achado novamente e se tornar alvo de acalorados debate sobre sua origem. 

O cálice em si é bastante simples e não chamou tanta atenção quando foi encontrado originalmente. Ele parece uma simples tigela rasa de madeira, sem alças, sem decorações, e desgastada, lascada e fortemente danificada por séculos de idade. Seu estilo e o modelo de confecção conferem com o que se esperaria de um cálice usado na Galileia do século primeiro. No entanto, esta pequena taça de madeira gerou sua quota de mistério e possui uma longa e conturbada história.

Tudo começa com a missão do Rei Henrique VIII, no século XVI, de separar a Inglaterra da Igreja Católica e destituir o Papa da sua autoridade absoluta em questões de fé em seus domínios. Com isso em mente Henrique fez com que todos os funcionários eclesiásticos renunciassem à autoridade do Papa em 1536. Mais que isso, para garantir seu desejo ele perseguiu todos aqueles que se negavam a reconhecer sua reforma e que continuavam a obedecer ao Vaticano. Uma das medidas da reforma foi combater os focos de resistência e confiscar artefatos que eram considerados valiosos para os católicos. Em determinado momento, os reformistas aliados do Rei bateram na porta da Abadia de Glastonbury, que não havia renunciado ao Papa.


De alguma forma, o Abade soube de antemão por intermédio de informantes que os homens do Rei estavam à caminho e começou a esconder o máximo que pôde de seus tesouros, incluindo um simples cálice de madeira que estava em poder da abadia. Alguns acreditavam que aquela peça, trazida da Terra Santa durante as Cruzadas era o verdadeiro Santo Graal. Ela havia sido doada por um cavaleiro cujo nome havia se perdido e era parte do relicário da Abadia há séculos. Não há muitos detalhes sobre a origem da peça, mas ela sem dúvida era tratada como uma relíquia legítima.

O Abade e seis monges selecionados por ele decidiram fugir para a Abadia de Strata Florida, em Cardiganshire, no País de Gales. O cálice e alguns outros tesouros foram escondidos sob tábuas do piso da capela-mor. No entanto, o esconderijo não iria durar muito, pois os homens do rei capturaram os clérigos e exigiram a entrega de todos os seus artefatos. Alguns religiosos, o Abade inclusive, foram submetido a torturas, mas não revelaram nada.

Eventualmente o único clérigo remanescente do grupo foi incumbido de recuperar o cálice de seu esconderijo e mantê-lo em segurança. Ele fugiu com os homens do Rei em seu encalço e acabou encontrando um refúgio seguro com a importante Família Powell, que residia numa mansão em Nanteos. Os Powell eram católicos devotos, algo muito perigoso na época, mas como gozavam de influência na corte, isso os manteve imunes contra as perseguições religiosas. 

O jovem clérigo decidiu transferir a posse da relíquia aos Powell quando contraiu uma doença repentina. Ele legou a eles, em seu leito de morte, o artefato, revelando que se tratava do verdadeiro Santo Graal tocado pelas mãos do Salvador. Os Powell aceitaram a incumbência de proteger a peça que foi guardada na mansão, passando-o de geração em geração por centenas de anos como um tesouro particular.


Foi durante esse período que surgiram os primeiros rumores de que o Cálice possuía miraculosas habilidades, sendo capazes de sanar ferimentos, anular venenos e curar doenças daqueles que bebiam dele. O cálice se tornou um bem precioso da família, sendo chamado de "A Taça de Cura Tregaron", e mais tarde "O Cálice de Cura Nanteos". Verdade ou mentira, é inegável que os membros da Família Powell sempre foram conhecidos por sua invejável saúde e pela notável longevidade. Na árvore genealógica da família, há numerosos membros que viveram além dos 100 anos, uma marca impressionante. 

Em 1878, um dos descendentes dos Powells originais e herdeiro da propriedade situada em Nanteos, George Ernest John Powell, aceitou colocar o Cálice em exposição e permitiu a análise de um membro da Sociedade Arqueológica Cumbriana que escreveu à respeito dela:
"Supõe-se que o cálice possuía poder de cura, que só poderia ser chamado de milagroso. Foi enviado para a casa de um doente, e algum objeto valioso foi deixado como penhor para garantir seu retorno seguro. O paciente bebeu vinho depositado em seu interior e apresentou uma impressionante cura, apesar de desenganado pelos médicos. A fonte de suas alegadas virtudes reside no fato dele supostamente ter sido usado pelo próprio Jesus Cristo. Acredito não haver dúvida de que grande parte de seu pedigree é verdadeiro, pois remonta à posse dos cistercienses em Strata Florida. É provável que tenha sido preservado como uma relíquia sacra à qual foram atribuídos poderes taumatúrgicos. A veneração que lhe é concedida na vizinhança e, ainda mais decididamente, o respeito da sua origem leva nobres e camponeses a acreditar ser ele genuíno. Os monges de Glastonbury e de Strata Florida tem grande crença na sua veracidade. Se os relatos são verdadeiros, a relíquia é extremamente interessante, como exemplo da sobrevivência da crença medieval e de valores cristãos".
Depois disso, o Cálice ganhou enorme reputação sendo mencionado por religiosos, estudiosos e pesquisadores do Graal. A Família Powell permitiu em certos momentos que peregrinos bebessem dele, registrando uma infinidade de efeitos milagrosos. Há alegações de que o artefato teria curado o câncer, a lepra, a cegueira e permitido que aleijados voltassem a andar. À medida que essas histórias sobre a taça surgiam, ela se tornou uma grande candidata ao título de verdadeiro Santo Graal. Legados oficiais da Igreja Católica chegaram a visitar Nanteos para analisar o artefato e se disseram certos de que se tratava de uma peça legítima.  


Nesse ínterim, o último descendente dos Powell faleceu em 1952 e a taça passou para as mãos da família Mirylees, que a levou para Herefordshire e a depositou em um cofre do Lloyd's Bank e se recusou a exibi-la ou mostrá-la novamente. Ao longo dos anos, a família Mirylees se mostrou extremamente reservada em relação à taça, protegendo-a zelosamente do mundo exterior e apenas concedendo breves entrevistas sobre ela. 

Ela foi colocada em exibição apenas uma vez em 1977 na Biblioteca Nacional do País de Gales, e novamente em 2001.

A família ocasionalmente emprestava o copo para aqueles que consideravam especialmente necessitados de seus poderes milagrosos, e foi em uma dessas ocasiões que o valioso artefato desapareceu em 2014. O Cálice havia sido emprestado a um idoso doente que residia em Weston-on-Penyard, no Condado de Herefordshire. Foi relatado que ladrões invadiram a casa e roubaram o cálice e cobraram um resgate de £20.000 por seu retorno seguro. 

A taça foi devolvida aos seus proprietários no ano seguinte, deixada em terreno neutro após uma reunião pré-agendada que garantiu que nenhuma prisão seria feita. Não houve pagamento de resgate até onde se sabe. Ela foi a partir de então colocada em exposição pública permanente e lá permanece desde então.

Nos últimos anos, tem-se falado muito sobre se o Cálice de Nanteos é real e se ele é realmente o Santo Graal das lendas. A historiadora galesa Juliet Woods ofereceu uma visão mais cética ao dizer que não há registro de tal cálice mencionado em quaisquer inventários ou registros da Abadia de Glastonbury e nem da família Powell até o século XVIII. Em algum momento, o Cálice simplesmente começa a ser mencionado, séculos depois dele supostamente ter sido legado aos Powell. 

Seria esta taça danificada e em desintegração o verdadeiro Santo Graal? Será que realmente abriga os poderes que lhe são atribuídos? É difícil dizer já que o Cálice de Nanteos encontra-se guardado e as respostas que procuramos continuam a ser evasivas.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Reescrevendo a História - Os misteriosos Manuscritos de Shapira


Sempre existiram manuscritos estranhos que surgem praticamente do nada para desafiar tudo aquilo que que pensamos saber. Ao longo da história, muitos textos, pergaminhos e manuscritos perdidos foram descobertos em lugares remotos do mundo, colidindo com nossas noções preconcebidas da história e abalando nossas certezas. Um destes documentos é um suposto texto bíblico antigo que teria sido descoberto em uma caverna. O achado causou enorme controvérsia e suas ondas seguem reverberando nos campos da arqueologia e dos estudos bíblicos causando um acalorado debate até os dias de hoje.

A história é curiosa e começa da seguinte maneira.

Em 1883, um negociante de antiguidades de Jerusalém chamado Moses Wilhelm Shapira veio à público alegando ter em sua posse algo que ele afirmava ser um pergaminho bíblico até então desconhecido. O manuscrito teria sido encontrado em uma caverna ao longo do rio Wadi Mujib. O riacho é citado por textos bíblicos e sua localização próxima do Mar Morto, onde hoje é a Jordânia, corresponde a muitas das histórias que ele relata. O tal manuscrito em si tinha a forma de quinze tiras de couro velhas e um tanto enegrecidas, sobre as quais foram inscritas caracteres paleo-hebraicos. Ele seria uma versão inicial do Livro de Deuteronômio

Segundo seu descobridor, a obra era possivelmente uma cópia que chegou a pertencer ao próprio Patriarca Moisés. O material era tão importante que chegava a trazer um décimo primeiro mandamento que dizia: "Você não deve odiar seu irmão em seu coração: pois Deus está nele, seu Deus.


Segundo Shapira, os pergaminhos pertenciam ao período do Primeiro Templo, anteriores, portanto, ao exílio babilônico, o que os tornaria por uma longa margem de tempo, o texto bíblico mais antigo jamais encontrado. Uma descoberta crucial para entender a história do Povo Prometido de Deus.

Exatamente como Moses Shapira tomou posse do que viria a ser chamado de Manuscritos de Shapira, também constituía um mistério. Ele próprio afirmava que um dia ouviu de um xeque beduíno que o misterioso manuscrito havia sido encontrado na parte mais profunda de uma caverna considerada sagrada. O item estaria dentro de um vaso de cerâmica, enterrado em um nicho e protegido por peles de carneiro. Ele contaria sobre como conseguiu o pergaminho em uma carta ao estudioso bíblico, Christian David Ginsburg:

"Em julho de 1878, o xeque Machmud Arakat, um conhecido chefe de guias de Jerusalém no Vale do Rio Jordão, me fez uma visita. Como o xeque tinha beduínos do Oriente em sua casa, ele os trouxe todos com ele. Ouvi no dia seguinte que alguns homens de sua confiança haviam se escondido numa caverna para escapar de inimigos que os perseguiam. Isso aconteceu na época em que a Dinastia dos Wali de Damasco lutava contra os árabes, travando uma guerra sangrenta. Eles sabiam que aquela caverna em particular era sagrada e que a entrada nela era proibida, mas temendo pelas suas vidas, os homens não viram outra opção. A caverna possuía várias câmaras que pareciam escavadas na própria rocha, perto do Modjib. Enquanto esperavam o perigo passar, vasculharam o interior usando tochas e encontraram alguns fardos de linho velho. Eles descobriram que o linho marcava o lugar em que algo havia sido enterrado. Escavaram cuidadosamente o nicho e descobriram o vaso contendo as tiras de couro com inscrições. À princípio, acharam que não era nada demais e já pensavam em abandonar o achado, mas um dos homens que conhecia algo de caracteres antigos achou que poderia ser algo importante. Ele salvou as tiras em seu alforje e as protegeu, trazendo até o xeque para que ele as avaliasse.

Quando o xeque me contou essa história, pedi que enviasse o homem e sua descoberta ara que eu conversasse com ele. Meu objetivo era examinar as peças e determinar sua idade e importância. Nos dias que se seguiram analisei febrilmente o conteúdo das tiras, maravilhado pelo significado daquilo tudo, não apenas como homem de fé, mas como historiador.

Enquanto ainda tinha as tiras em seu poder, Shapira recebeu a notícia de que seu amigo, o Xeque, havia ficado doente e que morrera. Mas não sem antes dar ordens expressas para que os artefatos fossem legados ao historiador que segundo ele "melhor do que qualquer outra pessoa poderia determinar sua serventia".


Shapira de posse do material passou alguns anos estudando-o antes de finalmente apresentar suas descobertas à comunidade histórica. Os manuscritos se tornaram uma sensação imediata, e sua descoberta foi publicada nos principais jornais da Europa. Ainda assim, embora o público tenha reagido com interesse pelo assunto, os especialistas mais respeitados se mostravam céticos sobre sua autenticidade. Shapira enviou cópias dos pergaminhos para vários estudiosos e especialistas alemães em um esforço para autenticar a descoberta, mas os pergaminhos foram quase unanimemente tratados como falsificações. Em particular, Shapira abordou o teólogo e orientalista alemão Hermann Leberecht Strack, que era a principal autoridade cristã na Alemanha em literatura talmúdica e rabínica, mas Strack descartou a obra como uma fraude grosseira. A Biblioteca Real de Berlim até se ofereceu para comprar os pergaminhos de Shapira, não porque eles pensassem que eram reais, mas para que os alunos pudessem estudar como a falsificação havia sido feita.

Era compreensível que os pergaminhos recebessem uma reação acadêmica tão negativa, pois Shapira já havia conquistado reputação de falsificador. Certa vez ele tentou vender um falso caixão que supostamente encerrava os ossos do herói bíblico Sansão. Ele também foi pego vendendo 1.700 estatuetas falsas para um museu de Berlim, o que justificava a desconfiança dos museólogos. Contudo, Shapira insistia que neste caso, tudo era autêntico e de máxima relevância histórica. Ele levou os pergaminhos até Londres e ofereceu o tesouro ao Museu Britânico por um milhão de libras. Dois dos  fragmentos foram postos em exposições, visitados e apreciados por multidões de pessoas, inclusive o primeiro-ministro inglês, William Gladstone. No entanto, mais uma vez, os estudiosos foram amplamente céticos sobre sua veracidade. Mesmo o estudioso da Bíblia, Christian David Ginsburg com que Shapira mantinha correspondência examinou os pergaminhos e os descartou como falsificações. 

Toda a experiência fez Shapira cair em desgraça diante dos especialistas. E ele escreveria a Ginsburg:

"Você me fez de tolo publicando e exibindo coisas que acredita serem falsas. Acho que não vou conseguir sobreviver a essa vergonha. Embora eu ainda esteja convencido de que o manuscrito é autêntico e algo incrivelmente precioso". 

Shapira deixou Londres e se refugiou em Amsterdã, e durante os anos restantes de sua vida afirmando que os pergaminhos eram reais, implorando a Edward Augustus Bond, principal bibliotecário do Museu Britânico, assim como Ginsburg, que reconsiderassem sua posição, mas eles mantiveram seus veredictos. Desonrado e muito envergonhado, tendo sua maior descoberta denunciada como fraude por quase todos estudiosos que a examinaram, Shapira cederia ao desespero. Ele cometeu suicídio em 1884. 


Depois disso, o Museu Britânico vendeu os fragmentos que ainda estavam em seu poder por uma ninharia e eles foram vistos pela última vez em 1889. Os demais pergaminhos que se encontravam em poder de Shapira antes de sua morte também desapareceram, supostamente foram parar nas mãos de negociantes e vendidos para colecionadores particulares. Seu paradeiro é desconhecido e possivelmente jamais irão ressurgir novamente. Sem o material original para ser estudado, o pergaminho de Shapira permanece como um mistério, com algum debate nos anos mais recentes que reacenderam a discussão sobre se o pergaminho era real ou não. Incrivelmente, hoje em dia, a resposta para a questão não é tão simples quanto se imagina. 

O respeitado especialista israelita-americano Idan Dershowitz, da Universidade de Potsdam publicou artigos em que afirma acreditar que o pergaminho de Shapira precisaria ser reavaliado. Ele crê não apenas que o pergaminho poderia ser real, mas que seriam os mais importantes artefatos bíblicos já descobertos. Dershowitz examinou evidências nos arquivos que sobreviveram. Ele comparou fontes linguísticas e literárias usando técnicas modernas de estudo bíblico e reconstruiu o texto das transcrições e desenhos originais para pintar uma imagem que ele afirma, indica que o pergaminho seria autêntico. 

Ele também teve acesso aos papéis de Shapira na Biblioteca Estadual de Berlim e afirma ter encontrado três folhas manuscritas que parecem mostrar que Shapira estava tentando traduzir o texto por conta própria, com muitas notas, cálculos e informações. Para Dershowitz, tudo o que ele encontrou aponta para que a descoberta poderia ser real. A maneira como eles foram inicialmente descartados como falsos é uma “tragédia tanto para Shapira quanto para toda a existência da disciplina de estudos bíblicos”. 

Sua opinião contundente atesta o seguinte:

"Os documentos são incríveis, pois abrem uma janela para a mente de Shapira. Se ele os forjou, ou fez parte de uma conspiração, não faria sentido que ele estivesse sentado tentando adivinhar qual é o texto e cometendo erros enquanto o fazia. É incompreensível que, durante quase toda a existência da disciplina de estudos bíblicos, esse texto que nos diz mais do que qualquer outro manuscrito descoberto antes ou depois, não tenha sido levado em consideração. Como alguém que passa o dia todo reconstruindo textos originais, muitas vezes sonhei em encontrar algo assim. Mas jamais imaginei que pudesse ser algo que se tornaria realidade."


Dershowitz, que escreveu um artigo sobre suas descobertas na revista Zeitschrift für die Wissenschaft, chamado "A Validação de Moses Shapira: Um Livro Proto-Biblico", também acredita que o pergaminho ainda existe em algum lugar e que, se encontrado, poderia responder às perguntas feitas por todos. 

Outros estudiosos continuam a sustentar que os Manuscritos não passam de uma farsa muito bem fabricada, seja pelo próprio Shapira ou como parte de alguma conspiração maior. Dois dos críticos mais ferinos ao manuscrito são os estudiosos bíblicos Ronald Hendel da Universidade da Califórnia, e Matthieu Richelle da Université Catholique de Louvain, na Bélgica. No final, sem os pergaminhos para serem estudados, sua veracidade permanece no reino da especulação. Os analistas são forçados a trabalhar apenas com fotografias do século XIX, gráficos de roteiro, notas e desenhos dos pergaminhos.

A história de Shapira parece levar a um redemoinho tentador de hipóteses. Se o seu descobridor fosse alguém com uma reputação menos duvidosa o que aconteceria? E se Shapira não tivesse cometido suicídio? E se os manuscritos não tivessem sido vendidos? Será que nesse caso os estudiosos veriam o caso de maneira diferente? 

Embora os pergaminhos de Shapira tenham sido amplamente esquecidos e considerados por muitos como meras falsificações, eles ainda persistem levantando discussão. Nunca foi realmente provado se eles são reais ou não, e eles continuam sendo uma estranha nota de rodapé para os estudos bíblicos e a arqueologia.

terça-feira, 21 de junho de 2022

Anomalias Históricas - Objetos que desafiam nossa compreensão


A história está repleta de todos os tipos de mistérios que continuam a nos deixar perplexos. Muitos deles permanecem até os tempos modernos nos intrigando e desafiando a fornecer uma explicação para sua mera existência. De muitas maneiras, por vezes, parece que há tanto que não sabemos quanto o que sabemos. 

Dentre as maiores estranhezas que surgem das profundezas da história encontram-se os "artefatos fora do tempo", itens que desafiam uma classificação razoável pois não se enquadram no período histórico em que foram criados. Esses objetos misteriosos podem simplesmente nos causar confusão, mas outros ameaçam mudar a história como a conhecemos. São anomalias indescritíveis que custamos a compreender o propósito, como foram feitos e por quem. 

Há artefatos surpreendentes que simplesmente não deveriam existir, mas que continuam a aparecer em escavações arqueológicas, em tumbas ancestrais ou nos restos de naufrágios. Aqui está uma seleção de estranhas Anomalias Históricas que foram encontradas ao longo dos anos.

Muitas dessas descobertas assumem a forma de artefatos achados em lugares onde não deveriam estar. Em 1933, uma escavação arqueológica liderada pelo arqueólogo José García Payón no Vale de Toluca, a apenas 70 quilômetros da Cidade do México, encontrou algo bastante estranho entre os muitos artefatos pré e pós-colombianos desenterrados no local. A área foi reconhecida como sendo um túmulo e, como tal, continha muitas oferendas deixadas por visitantes há muito esquecidos. Vários objetos eram feitos com metais e pedras preciosas; de ouro, cobre, turquesa, cristal de rocha, azeviche, osso, concha e cerâmica, todos datados de entre 1476 e 1510 dC. Entretanto, em meio a estes tesouros mais mundanos, foi encontrada uma pequena cabeça de terracota que não se encaixava em nenhuma das representações familiares a pessoas daquela região. 


Quando a cabeça foi examinada, ficou imediatamente claro que ela era muito mais antiga que os demais objetos e que tinha um estilo distinto. De fato, era muito semelhante aos artefatos encontrados na Roma antiga, o que não parecia fazer nenhum sentido, pois foi achada num Túmulo pré-colombiano em pleno México. A datação posterior realizada por carbono colocou as origens da peça em algum lugar entre os séculos IX e XI dC, tornando-a consideravelmente mais antiga do que o local em que foi encontrada e gerando teorias de que seria evidência de algum tipo de contato entre os antigos romanos e os mesoamericanos. 

De sua parte, o próprio Payón varreu a estranha descoberta para debaixo do tapete, não publicando nada sobre a descoberta até 1960. Em anos posteriores, o que veio a ser conhecido como a cabeça Tecaxic-Calixtlahuaca foi mais discutido e analisado. Em 2001, ela foi examinado pelo arqueólogo Romeo H. Hristov, da Universidade do Novo México. Hristov chegou à conclusão de que na verdade datava do século II dC, e que devido à sua idade e ao penteado e barba característicos da figura representada, ela deve ter sido um artefato romano que foi trazido para a região em tempos pré-colombianos , afirmação que seria compartilhada por Bernard Andreae, diretor emérito do Instituto de Arqueologia em Roma, que escreveria:

"[a cabeça] é, sem dúvida, romana, e a análise de laboratório confirmou que é bastante antiga. O exame estilístico diz-nos mais precisamente que se trata de uma obra romana de por volta do século II d.C., e o penteado e a forma da barba apresentam os traços típicos do período dos imperadores severianos [193-235 d.C.], exatamente à 'moda ' da época. Não haveria como tal objeto ter surgido em uma cultura distinta, pois até memso o estilo de sua confecção se iguala ao usado na Roma Antiga no referido período".


As origens da misteriosa cabeça e como ela teria aparecido no México continuaram a ser discutidas e debatidas, e muitas outras ideias surgiram sobre o assunto. Para alguns, se tratava simplesmente de um artefato trazido pelos primeiros exploradores europeus ou mesmo pelos vikings nos tempos pré-colombianos, embora não esteja claro como ela acabou indo parar naquele túmulo. Ela também poderia ter sido trazida em algum momento por comerciantes da Ásia, como China ou Índia, onde de alguma forma chegou até aquele local. Poderia até mesmo ter, de alguma forma, se deslocado para o México a partir de algum naufrágio romano distante ou ainda, poderia ser tão somente uma farsa completa que foi plantada no local como uma brincadeira. O mistério persiste, mas uma coisa é certa, não existe uma explicação sobre como uma antiga cabeça romana de terracota teria surgido na Cidade do México.

Quase tão estranha foi uma descoberta feita em 1954, quando um arqueólogo amador chamado Guy Mellgren tropeçou em algo decididamente estranho enquanto explorava no estado de Maine, nos Estados Unidos. Mellgren estava vasculhando o local do que foi um assentamento de nativos americanos em Naskeag Point, quando encontrou um depósito de antigos artefatos nativos. Enquanto vasculhava sua descoberta, encontrou o que parecia ser uma antiga moeda de prata, terrivelmente deslocada ali entre as relíquias nativas. Sem saber o que havia encontrado, Mellgren levou a moeda a especialistas e então, as coisas ficariam ainda mais estranhas.


Especialistas que examinaram o objeto altamente corroído, a princípio pensaram que se tratava de uma moeda britânica do século XII. Ela foi posteriormente arquivada com outras relíquias como uma mera curiosidade. Contudo, em 1978 a moeda foi reexaminada e descobriu-se que era de fato uma moeda muito mais antiga. Era uma moeda norueguesa, que remonta ao reinado de Olaf Kyrre, que foi rei da Noruega entre os anos de 1067 a 1093 dC. Esse dado foi confirmado por outros especialistas e não está realmente em disputa, mas o que é menos claro é como ela acabou indo parar em um assentamento nativo americano que data de algo em torno de 1240? 

Embora saibamos que os navegadores nórdicos montaram assentamentos na Groenlândia e que de lá se lançaram na direção da Terra Nova, muito antes de Colombo, chegar até o litoral do Maine seria uma façanha pouco provável. As teorias variam desde que os vikings viajaram para o sul, onde fizeram contato com os nativos da região, o que reescreveria a história como a conhecemos, ou que os nativos do norte trocaram a moeda com outras tribos, após o que, ela fez o seu caminho para o Maine. 

O que torna tudo ainda mais desconcertante é que entre os 30.000 artefatos encontrados no local, esta moeda é a única coisa de origem nórdica descoberta. Um contato entre dois povos não deveria ter gerado algo mais além de uma simples moeda? É claro que também existe a ideia de que a moeda não passaria de uma fraude, mas no final a "Goddard Coin", também chamada de "Maine Penny", continua sendo um curioso mistério não resolvido.


Mas nem todos artefatos que podem ser chamados de Anomalias Históricas são pequenos e conseguiriam ser transportados facilmente de um canto para o outro do mundo. Um bom exemplo desse tipo de descoberta impressionante é um gigantesco pedregulho de 80 toneladas encontrado em uma encosta da Hidden Mountain, no estado do Novo México no ano de 1933. Ele foi achado por Frank Hibben, um arqueólogo da Universidade do Novo México e desde então tem causado grande alvoroço. 

Um guia local, alegou que ela havia sido encontrada pela primeira vez na década de 1880, e foi este guia quem levou Hibben até a notável pedra monolítica. Sobre uma enorme laje de rocha sólida havia uma área achatada sobre a qual foi inscrita cuidadosamente uma passagem no que parecia ser hebraico antigo. Tudo isso era muito estranho, considerando que a data da inscrição foi estimada entre 500 a 2.000 anos. Isso a coloca bem fora do período de tempo para os antigos habitantes da região e para qualquer presença de hebreus na América do Norte.

Especialistas que examinaram o que veio a ser conhecido como a Pedra do Decálogo de Las Lunas, acreditam que ela pode ter sido usada como uma antiga mezuzá samaritana, que eram pedras colocadas em sinagogas e outros lugares importantes e gravadas com passagens do Decálogo. Objetos similares foram encontrados no Oriente Médio e algumas partes do Norte da África, contudo, isso não explica como essa foi parar no Novo México 2 mil anos atrás. 


Embora algumas pessoas considerem que a pedra possa ser evidência de visitação pré-colombiana por exploradores semitas, também há muitas críticas que atestam ser ela provavelmente uma farsa engendrada por colonos no século XIX ou talvez até mesmo realizado pelo próprio Hibben. O arqueólogo Kenneth Feder está entre os céticos e negou a autenticidade da pedra, dizendo:

"Não há antigos assentamentos hebreus pré-colombianos, nem sítios contendo os detritos cotidianos de uma comunidade de antigos hebreus, nada que mesmo um conhecimento superficial de como as formas de registro arqueológico exigiriam que existisse. Do ponto de vista arqueológico, isso é claramente impossível."

No entanto, a pedra ainda é amplamente discutida e debatida, e seu mistério está longe de ser resolvido. É difícil estudá-la, pois seu tamanho imenso a torna incapaz de ser movida para um museu. Vândalos destruíram parte das inscrições e nunca houve um consenso sobre de onde veio essa pedra misteriosa ou por que ela contém trechos em hebraico antigo. Essa pedra monstruosa com suas marcas enigmáticas é evidência da presença pré-colombiana de colonos de língua hebraica no Novo Mundo, ou é tudo falso? 


Algumas anomalias históricas, não estão necessariamente fora de lugar, mas ainda assim conseguem permanecer enigmáticas. Em 1929, o teólogo alemão Gustav Adolf Deissmann estava catalogando itens na vasta biblioteca do Palácio Topkapi, em Istambul, na Turquia, quando se deparou com um maço velho e empoeirado de pergaminho de pele de gazela aparentemente descartado. Teria parecido basicamente lixo na época, mas quando o pergaminho foi desenrolado, viu-se que continha dentro de si uma descoberta surpreendente.

Ali sobre o pergaminho havia parte de um mapa intrincado, diferente de tudo que Deissmann já tinha visto, e quando foi analisado por especialistas, descobriu-se que foi feito pelo almirante e cartógrafo otomano Piri Reis no ano de 1513 dC. Embora apenas um terço do mapa estivesse intacto, faltando o restante, descobriu-se que este não era apenas um mapa antigo comum, pois parecia ser parte de um planisfério real. A carta era ainda mais chocante por ser incrivelmente precisa para a época em que foi confeccionada. Aquele era um mapa que delineava corretamente terras tão distantes como Europa, África, ilhas do Caribe e até América do Sul, ilhas como Açores e Ilhas Canárias e Japão, bem como áreas até então desconhecidas, como Nova Escócia, a costa da Antártida e a Cordilheira dos Andes. Tudo isso em uma época em que muitos desses lugares ainda não haviam sido descobertos.

O mais intrigante é que todos esses lugares eram descritos com uma precisão impressionante, virtualmente impossível para a época. De fato, alguns especialistas chegaram a afirmar que o mapa simplesmente não poderia ter sido feito sem contar com imagens de satélite, pois os recortes da costa e litoral, eram incrivelmente apurados. E tudo isso num mapa elaborado em 1513!



Ninguém conseguia explicar como tais informações poderiam estar presentes naquela carta náutica. Como Piri Reis poderia ter obtido aquelas informações? No entanto, havia indícios de que o mapa listava outras fontes, incluindo vários outros mapas árabes e indianos, e até mesmo mencionando um mapa mítico supostamente compilado por Cristóvão Colombo antes dele empreender sua viagem. Acredita-se que este mapa perdido pudesse ter sido o primeiro mapa do mundo e especula-se que ele foi feito no século XII. Este mapa nunca foi encontrado, mas supõe-se que Piri Reis o viu e o usou junto com cerca de vinte outros mapas na criação de sua própria carta geográfica.

Até hoje, a impressionante precisão do Mapa de Piri Reis persiste como uma anomalia desconcertante que deixa os historiadores sem palavras. Como ele conseguiu essas informações? Como foi capaz de mapear lugares que sequer haviam sido descobertos na época? O que as porções perdidas revelariam?

Algumas anomalias históricas são ainda mais intrigantes, pois ninguém sabe ao certo o que são e qual o seu propósito. Ao longo de muitas partes do que já foi o Império Romano, foram encontrados centenas de pequenos objetos de bronze medindo de 2 a 5 polegadas de diâmetro e com uma forma única de 12 faces pentagonais planas com buracos e botões sobre eles. Embora muitos exemplos desses artefatos tenham sido encontrados, e eles tenham certamente origem romana, ninguém tem a menor ideia de para que eles foram usados. Não há registros escritos ou planos de design conhecidos para eles, e esses "dodecaedros" foram considerados como ferramentas de navegação, instrumentos do zodíaco, ferramentas de astronomia, instrumentos de tricô, calendários, castiçais ou até brinquedos infantis. 



Seu palpite é tão bom quanto o de qualquer um e, embora existam muitos desses objetos e eles pareçam bastante comuns, provavelmente os dodecaedros romanos permanecerão um mistério impenetrável.

Nem todos os objetos históricos enigmáticos são tão antigos, e também houve algumas dessas estranhezas em tempos mais recentes. Em 1968, um prédio em Chicago, nos Estados Unidos, estava sendo reformado quando um muro foi derrubado para revelar que lá se escondia uma motocicleta novinha em folha da Primeira Guerra Mundial. Seu design contudo era o que a tornava única, era tão distinto que ninguém jamais havia visto tal coisa. Ela tinha um design de motor único, desconhecido nas motocicletas da época, um sistema de freio inovador, peças feitas especialmente para esse modelo e detalhes jamais vistos em outras motocicletas da época. 

No geral, ela era muito mais avançada do que qualquer outra coisa criada em sua época. Além disso, o veículo ainda funcionava sem problemas e não parecia ter se desgastado após décadas escondido atrás de uma parede. O mais estranho de tudo, a motocicleta tinha uma única palavra escrita nela, "Traub" cujo significado é quase tão enigmático quanto quem e como ela foi construída.


Quando os primeiros proprietários do prédio foram localizados, eles conseguiram esclarecer um pouco do mistério, dizendo que seu filho havia roubado a motocicleta e a escondido atrás do muro antes de partir para lutar no exterior durante a Grande Guerra. Contudo, isso de pouco adiantou. para explicar de onde veio ou quem a construiu. A misteriosa moto desde então passou a fazer parte da coleção do Museu Wheels Through Time, e até hoje não foi encontrado nenhum outro exemplar desta moto com seu design moderno. Não surgiu também quaisquer outras peças para ela, modelo, planta ou equipamento. Ninguém sabe quem a fez, e continua sendo um artefato impossível.

Ainda mais recentemente, em 2014, foi feito um achado incomum por guardas florestais no Great Basin National Park, em Nevada. Enquanto patrulhavam uma área bastante remota do parque, eles encontraram uma árvore no meio do nada que tinha encostado nela um rifle de aparência muito antiga, apenas cuidadosamente apoiado e abandonado naquele ermo. Logo se descobriu que o rifle era um antigo rifle Winchester Modelo 1873 que havia sido fabricado entre os anos de 1873 e 1919, e que teria sido considerado uma valiosa herança. 

A arma também estava em muito boas condições, e mesmo agora ninguém consegue descobrir por que alguém simplesmente deixaria essa arma antiga simplesmente encostada na árvore. Ela foi deixado lá por algum pioneiro, garimpeiro ou caçador do século XIX? Foi abandonada por um colecionador de armas por razões que nunca saberemos? Ou ainda, foi deixado para trás por um viajante do tempo? Quem sabe? A arma está em um museu sem dono conhecido.


Neste artigo vimos apenas algumas amostras de Anomalias Históricas que conseguiram escapar da compreensão por estarem fora do lugar, vindo do nada ou que são simplesmente muito estranhas. É interessante imaginar que, por mais que pensemos que conhecemos a história, ainda sabemos muito pouco sobre nosso passado. 

Esses artefatos que surgem de tempos em tempos desafiam nossas percepções e constituem enigmas que talvez jamais venhamos a resolver. Certamente parece que a história ainda está longe de ser inteiramente decifrada, uma vez que, escondida nos cantos, ainda existem sombras difíceis de iluminar.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

A Rainha Vermelha - Uma Tumba Maia Oculta e sua misteriosa ocupante


O México é sem dúvida um dos lugares mais fascinantes do mundo para aqueles que tem interesse em ruínas antigas.

Entre as incontáveis ruínas deixadas pela misteriosa Civilização Maia, um local que realmente se destaca é a cidade de Palenque. Localizada no atualmente moderno estado mexicano de Chiapas, em meio à densa selva da bacia do rio Usumacinta, ela já foi chamada de Lakamha pelos maias. Seu nome significa "Água Grande" devido ao rio e às cachoeiras próximas, que criam uma visão majestosa.

Considerada uma das maiores Cidades Estado e uma das mais poderosas e ricas do México pré-colombiano, Lakamha era um lugar com praças espaçosas, templos e palácios opulentos, extensos edifícios administrativos e um total de três grandes pirâmides, a maior delas chamada de Pirâmide das Inscrições, construída para conter os restos mortais de K'inich Janaab 'Pakal, mais conhecido como Pakal, o Grande, que governou de 615 DC até 683 DC. Ele foi um Grande Rei, o Governante que sentou no trono na época do apogeu da cidade e que segundo alguns foi apontado diretamente pelos deuses do céu para governar. A mais conhecida imagem de Pakal até hoje fascina os curiosos, sobretudo por mostrar o Rei numa posição que sugere estar conduzindo um veículo aéreo. Muitos teóricos dos Deuses Astronautas consideram a imagem um indício de tecnologia desconhecida. 

Considerando o quão impressionante é todo o lugar, as ruínas de Palenque se tornaram um paraíso para arqueólogos, mas ela também contêm estranhos mistérios que ainda não compreendemos. Um destes é uma tumba perdida de uma enigmática figura da história maia conhecida apenas como "A Rainha Vermelha".


A tumba poderia ter continuado perdida para sempre se não fosse por um golpe de sorte. Sua descoberta casual foi realizada pela arqueóloga mexicana Fanny Lopez Jimenez. Em 1994, Jimenez estava em um templo chamado Templo XIII, bem ao lado da imponente Pirâmide das Inscrições, a fim de fazer um trabalho rotineiro de restauração nas escadas. De fato, era uma tarefa bastante comum, e Jimenez não esperava fazer nenhuma descoberta significativa, contudo seria exatamente isso o que aconteceria. Enquanto fazia seu trabalho, ela percebeu uma rachadura peculiar sob a escada de pedra que parecia ter sido em algum momento do passado coberta com alvenaria. Uma inspeção mais cuidadosa mostrou que a rachadura levava a uma passagem secreta que por sua vez conduzia para a escuridão e mais além, até uma porta lacrada. O templo havia sido explorado anteriormente, mas ninguém havia percebido aquele acesso. Ao perceber que estava diante de algo novo, Jimenez mal conseguia conter a própria excitação. Ela informou seu chefe, o eminente arqueólogo Arnoldo Gonzales Cruz, do Instituto Nacional de Antropologia e História do México que imediatamente foi averiguar a descoberta. 

Ali se iniciaria uma jornada através de um território inexplorado da História Maia.

Uma equipe foi formada e esta trabalhou meticulosamente para remover a alvenaria que estava bloqueando a descoberta. Algumas horas depois, o trabalho revelou a passagem secreta bloqueada há séculos. Haviam muitos destroços adiante, obstáculos que foram removidos cuidadosamente, cada um deles uma descoberta por si só.  

Mais adiante, havia escuridão e mistérios insondáveis. 


Avançando pela passagem secreta, o grupo se deparou com um corredor ladeado por blocos de calcário meticulosamente cortados e empilhados num trabalho de engenharia notável. Ao longo desse acesso estreito encontraram três câmaras, duas das quais estavam totalmente abertas e não continham nada além de sinais de que haviam sido usadas no passado. Rituais religiosos haviam acontecido ali, como evidenciavam os objetos achados e as inscrições nas paredes. No entanto, era a terceira câmara que lhes reservava a maior surpresa. Ela se encontrava perfeitamente lacrada e inteiramente preservada como estava originalmente, mais de mil anos atrás. A câmara encontrava-se totalmente oculta, como se alguém desejasse escondê-la pela eternidade. A equipe, a essa altura, não tinha certeza de como abrir essa passagem secreta. Simplesmente arrebentar a parede tinha o potencial de danificar quaisquer tesouros inestimáveis ​​que estivessem do outro lado. 

Foi finalmente decidido que fariam um pequeno buraco, grande o bastante para passar uma câmera na ponta de um fio e espiar o que havia lá dentro. Assim, quando ela foi atravessada, viram algo inesperado. Era uma tumba! Não apenas uma tumba antiga, mas um espaço totalmente intacto 
medindo cerca de 4,5 por 2,5 metros, sem adornos, mas contendo um enorme sarcófago de calcário ocupando a maior parte do aposento. 

A descoberta era incrível e eles precisavam ter acesso ao interior. Ao longo de dias, removeram cada bloco da parede e tiveram a visão horripilante de dois esqueletos esparramados no chão, o de um menino e outro de uma mulher adulta, ambos com sinais de ferimentos horríveis, consistentes com um assassinato sacrificial. Os crânios haviam sido arrebentados por um único golpe de uma clava cerimonial, quando eles estavam ajoelhados diante do sarcófago. Eles eram os servos escolhidos para continuar a servir seu mestre no outro mundo. A morte não lhes foi imposta, eles a aceitaram de bom grado, uma enorme honra conforme os costumes maias. Perto dos dois esqueletos foram encontrados ossos e dentes, alguns dos quais haviam sido incrustados com jade por razões desconhecidas.


Era bastante óbvio que quem estava no sarcófago tinha sido alguém importante em vida, então foi com muito cuidado que eles começaram o árduo processo de erguer a pesada tampa de calcário maciço. Quando esta foi finalmente removida, descobriu-se que o interior do sarcófago continha uma máscara funerária de jade incrustada de joias, emanando um brilho verde vivo. Haviam ainda vários fragmentos de objetos de madrepérola e jade, colares, anéis, braceletes, quatro lâminas de obsidiana e uma estatueta bastante detalhada. Eram artefatos que só poderiam ter pertencido a alguém de alta estirpe. 

Os objetos adornavam os restos de uma mulher, alguém de grande importância para merecer todos aqueles cuidados e honrarias. Outro detalhe realmente estranho é que todo o interior do sarcófago havia sido generosamente revestido com um pó vermelho brilhante e fino como grafite. Mais tarde, uma análise do material mostrou se tratar de sulfeto de mercúrio, uma substância também chamada de cinábrio, que era usada para pintar obras de arte. Não está claro por que uma quantidade tão generosa dessa substância foi espalhada sobre tudo, mas é provável que fosse uma demonstração de status e poder. O cinábrio era caro e uma quantidade como aquela constituía uma enorme extravagância. Mesmo os ossos estavam pintados de vermelho vivo. A mulher naquela tumba era alguém de reputação e embora sua real identidade continue sendo um mistério, ela recebeu dos arqueólogos o apelido de "A Rainha Vermelha".

A análise dos restos mortais da Rainha Vermelha revelou que ela media cerca de 1,52 m de altura, que na época de sua morte tinha entre 50 e 60 anos e que seus dentes eram muito bons, apresentando pouco desgaste, sugerindo seu status nobre. Não havia como determinar a causa da morte, mas nada apontava que esta fosse decorrente de violência. A análise de DNA realizada nos meses posteriores mostraria que ela tinha descendência maia e que não possuía nenhuma relação de sangue com o Rei Pakal, enterrado na enorme pirâmide adjacente, embora ela estivesse viva na época de seu governo. Considerando esses detalhes, e o fato de que ela ter sido enterrada ao lado da Pirâmide das Inscrições, especula-se que ela possa ter sido esposa de um Rei, possivelmente do próprio Pakal, o Grande.  

No entanto, a falta de marcações ou inscrições para identificá-la na própria tumba, constituía  um grande mistério. Os Maias faziam enorme esforço para identificar as pessoas que eram sepultadas, ainda mais em tumbas tão imponentes. De fato, identificar um morto era uma maneira de preservar sua memória e fazer com que ele se sentisse confortado no além. Segundo a tradição, cada vez que o nome do morto era mencionado, este se sentiria feliz. Não haver nenhum nome discernível na tumba faz com que os arqueólogos fiquem ainda mais curiosos quanto a origem da mulher na tumba.


Alguns acreditam que a ausência de uma identificação possa ser uma forma de punição imposta a ela. Talvez até uma maldição que a condenou a partir para o mundo dos mortos sem que a sua identidade seja reconhecida, uma enorme punição. Os especialistas se dividem quanto ao motivo para tal punição mas sugerem que na Civilização Maia, supostas feiticeiras eram punidas dessa maneira. Teria sido a misteriosa Rainha Vermelha uma feiticeira? Teria ela cometido crimes que lhe valeram essa punição?    

Infelizmente, o que se tem até o momento são meras especulações. A Arqueologia trabalha com indícios para restaurar a história, como um mosaico partido em milhares de cacos. Por vezes, no entanto, algumas peças se perdem para sempre. O tempo poderá dizer quem foi essa misteriosa mulher, mas por enquanto ela permanece um espectro sem nome de um passado distante. 

A punição se mantém, seja ela quem for.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Artefatos do Mythos: A lendária Chave de Prata


Num mundo um dia dominado pelos Antigos, não é de se estranhar que objetos tocados por eles guardem enorme poder. Perdidos nas cidadelas em escombros, nas ruínas engolidas por selvas e desertos ou no interior de templos submersos, repousam os derradeiros tesouros de nosso planeta. Foram estas as ferramentas manipuladas pelos Deuses em tempos idos, criadas com o seu consentimento, com propósito e razão que nos escapa à compreensão. São eles as peças centrais de um imenso quebra-cabeças que pode lançar uma luz sobre a natureza inescrutável desses seres, ou nos condenar de uma vez por todas ao horror de um saber profano.

Estes são os infames Artefatos do Mythos de Cthulhu e meramente tomar conhecimento de sua existência constitui um perigo inenarrável. Pois ponderem: O que pode ser mais perigoso para seres frágeis e de mente primitiva, como nós humanos, do que manusear objetos concebidos pelos Deuses?

Juntem-se a nós na apreciação dos mais inefáveis artefatos e engenhos urdidos por estes seres, e tema o dia em a existência de um deles vier à tona.

Hoje falaremos de um lendário item que integra diretamente a mitologia daquele que é considerado o "Um em Todos" o Deus Exterior (1) Yog-Sothoth (2) que representa o conceito cósmico de tempo e espaço. A conturbada história do artefato conhecido como a Chave de Prata atravessa um vácuo de eras, com sua posse mudando constantemente de dono. Mas seria correto afirmar que tal artefato realmente pertence a alguém? Ou seria faculdade dele escolher aquele que o detém?

A história se inicia na fabulosa Terra da Hiperbórea (3), uma das primeiras grandes civilizações humanas de que se tem notícia. Ocupando as terras setentrionais de nosso planeta, no distante Período Mioceno entre 19 e 25 milhões de anos atrás, a Hiperbórea era um Império orgulhoso de suas conquistas e realizações. Naqueles tempos imemoriais, a região era quente e fértil, coberto de densas selvas em que predadores selvagens disputavam espaço com os últimos sáurios. Seu povo pálido, alto e longilíneo detinha grande cultura e conhecimento nos campos da ciência e da magia. Commorium, sua augusta capital era uma maravilha para se vislumbrar com torres de vidro, esplanadas e palácios magníficos.


Os feiticeiros ocupavam sua própria casta superior na sociedade hiperbórea, com magos que dominavam as artes arcanas com determinação e autoridade. Eles desempenhavam inúmeras funções naquela época prodigiosa: eram conselheiros, videntes e intérpretes de sonhos, abençoados com o dom da visão e da predestinação. Os mais poderosos, que ocupavam o topo da pirâmide hermética, eram os Feiticeiros que conheciam os Segredos dos Antigos. Acredita-se que toda a fonte de magia da Hiperbórea provinha do Deus batráquio Tsathoggua (4) e que foi ele quem, através de agrados e sacrifícios, ensinou aos primeiros discípulos os mistérios da feitiçaria. Antes da inquisição do Deus Yhoundeh (5) declarar o Culto de Tsathoggua proscrito, os feiticeiros gozavam de enorme influência, entre os nobres da mais alta estirpe e os monarcas que ocupavam o trono de Commorium.

Não é de se estranhar portanto, que uma sociedade tão esotérica, cujos magos eram capazes de dobrar as próprias leis da natureza, tenha sido responsável por forjar artefatos de enorme poder. Os historiadores concordam que a Chave de Prata foi criada na Hiperbórea e que seu artesão só pode ter sido um feiticeiro com enorme domínio sobre as forças metafísicas. Apenas alguém com vasto conhecimento seria capaz de encerrar em algo tão pequeno e mundano, poderes tão espantosos.

Mas se o local é conhecido, o mesmo não ser pode dito à respeito da identidade do criador da Chave de Prata. Os pesquisadores se debruçam sobre essa questão desde que tomaram conhecimento da existência da Chave, questionando-se sobre quem a teria idealizado. Alguns apontam obviamente para o lendário Eibon (6), conhecido como o Insondável. O Mago de Milaab, era famoso pela sua erudição que lhe permitiu transcrever um dos mais importantes tomos sobre o Mythos e que não por acaso, carrega seu nome no título - o Livro de Eibon (7). 

Contudo, se Eibon é realmente o artífice da Chave de Prata, por que tal coisa não é citada em trecho algum em seu livro? É inegável que Eibon conhecia Yog-Sothoth e em mais de uma ocasião usou seus rituais para invocar o Deus Exterior que personifica o conceito cósmico de tempo-espaço. Mas isso não significa que o artefato tenha sido criado por ele. Não existe qualquer obra em que Eibon mencione a Chave, o que depõe contra sua autoria, ainda que muitos insistam que apenas ele seria capaz de tal façanha.


Mas se não foi Eibon, quem mais poderia ter criado a Chave de Prata? Alguns pesquisadores citam o Feiticeiro Zon Mezzamalech (8) que segundo as lendas vivia numa inexpugnável Torre de Cobre na península ao norte de Mhu Thulan. Os poucos registros existentes sobre ele atestam que o feiticeiro era capaz de milagres inacreditáveis e de prodígios inexplicáveis. Lendas atestam que ele podia reduzir montanhas a pó e partir mares com seus poderes. O fato dos feitos de Zon Mezzalamech serem tão impressionantes faz com que se imagine até que ponto eles não passam de exagero.

Seja como for, a Chave de Prata traz ao longo de sua superfície hieróglifos que pertencem a etnografia Hiperbórea e que só poderiam ter sido gravados por aquele povo. O objeto em questão é um pedaço de metal baço e desbotado medindo pouco mais de 20 centímetros de ponta a ponta. Sua forma se assemelha realmente a uma grande chave com um padrão artístico em arabesco de um lado e recortes chanfrados formando quatro dentes na extremidade oposta. O objeto é pesado e sólido. Os símbolos talhados com precisão notável jamais foram traduzidos adequadamente, mas acredita-se que se trata de um louvor a Yog-Sothoth, ou então, uma invocação do Senhor das Portas e Passagens.

No final do Mioceno, severas mudanças climáticas atingiram a Hiperbórea com neve e gelo. As cidades, estradas e monumentos foram gradualmente soterradas por nevascas que ocultaram as grandes realizações daquele povo. Embora inúmeros artefatos tenham desaparecido sob a neve alva que tomou tudo, a Chave de Prata não estava entre estes. Acredita-se que o artefato tenha sido levado pelos Hiperbóreos através de mares congelados para terras distantes onde os colonos decidiram fincar raízes. A diáspora dos Filhos da Hiperbórea pelo mundo é discutida por historiadores da Lemúria (9) e posteriormente pelos Gregos. 

A Chave percorreu um longo caminho até a região desértica que corresponde à Península Arábica, surgindo misteriosamente na Cidadela de Irem (10) (11). Também chamada Ubar e citada no Corão (12) como a "Cidade dos Mil Pilares", esse lugar possui uma longa e controversa história que inclui um sem número de maldições e calamidades. O livro sagrado diz que Irem foi destruída por conta dos pecados de seus habitantes, mas não se sabe que habitantes eram esses. Cultos devotados ao Grande Cthulhu afirmam que a cidade foi construída sobre ruínas ciclópicas por sua vez erigidas pelas Crias Estelares (13) quando o homem sequer existia. A destruição e consequente abandono da cidadela são um enigma até para sumidades como Al-Hazred e Prinn (14).


No alto do grande portão que dava acesso a Irem, havia uma mão de pedra esculpida em um bloco único de mármore rajado. Diz a lenda que essa mão, o Punho Cerrado dos Deuses, segurava a Chave de Prata e nenhum habitante da cidade ou visitante jamais ousou perturbá-la. Por séculos ela permaneceu lá, brilhando no sol causticante do Rub' Al-Khali (o Grande Vazio) (15), atraindo viajantes perdidos como um farol iluminando um mar revolto de dunas.

Então, em algum momento, muitos séculos depois de Irem se tornar uma cidade fantasma abandonada, a Chave de Prata desapareceu de seu lugar de descanso. Não se sabe quem foi o responsável por essa ousadia, mas o ladrão não devia pertencer às tribos nômades que vagam por esse fim de mundo. O temor dos nativos os impedia sequer de se aproximar das ruínas, que dirá retirar dela um artefato. Uma lenda afirma que se um dia a chave retornar a esse lugar, Irem será destruída pela fúria dos Deuses. Um mito similar está conectado à cidade de Alhambra (16), na Granada mourisca onde uma mão sobre o portão de entrada cita a mesma lenda. É provável que essa coincidência derive da lenda de Irem.

A Chave de Prata ficou desaparecida por séculos, os rumores davam conta de que ela amaldiçoaria qualquer um que a detivesse por mais de 1001 dias. Uma história menciona que o grande poeta e astrônomo persa Omar Khayyan (17) teria mantido a Chave consigo por algum tempo, e que próximo de completar o prazo estabelecido para a maldição se fazer sentir a lançou de uma duna esperando que o vento do deserto a cobrisse, rezando para que ela assim se perdesse para sempre. Outro rumor é que o Califa Haroun Al Raschid (18), governante de Bagdá enviou homens de sua confiança aos quatro cantos do mundo árabe para que encontrassem a Chave de Prata e a trouxessem até sua esplendorosa cidade. O Califa ansiava possuir os tesouros mais exóticos de sua época, e segundo as lendas chegou a ter num grande cofre um tapete voador, um cavalo coberto de ouro e uma orbe mágica.    

Não muito tempo depois, a Chave de Prata ressurgiu na posse de ninguém menos que Hassan Sabbah (19), o dai de uma seita islâmica nizarita ismaelita do século XI. Após muitas peregrinações, Sabbah fundou a infame Ordem Hashashim (20), que daria origem ao termo "assassino" até hoje usado para designar aqueles que matam. A Ordem dos Assassinos sob a liderança de Hassan Sabbah conquistou enorme fama não apenas entre os muçulmanos, mas também no norte da África, Mediterrâneo e na Terra Santa. Os membros da Ordem eram implacáveis e uma vez tomando para si uma missão, não desistiam até completar sua tarefa sem importar quem fosse o alvo.


A Ordem se estabeleceu na Província de Quzvin às margens do Mar Cáspio, na Pérsia em uma fortaleza no topo de um inexpugnável platô. Chamaram o lugar de Alamut (21), o Ninho da Águia. Em seu interior murado, a fortaleza possuía um jardim onde plantavam os venenos mais letais do mundo e uma biblioteca em que figuravam obras raras e esquecidas. Bem antes da Fortaleza ser destruída pelo comandante mongol Hulagu Khan (22) em 1256, a Chave de Prata já havia sumido novamente.

Ela ficou em poder de membros da Ordem dos Assassinos que a usaram inclusive em atentados. Em determinado momento a Ordem deveria eliminar um comandante militar curdo, mas o assassino enviado para o atentado mudou de ideia e ao invés de executar a missão se convenceu de que aquele homem precisava viver. Ele entregou a Chave de Prata nas mãos dele para que ele a usasse na defesa do Mundo Islâmico contra os Invasores Cristãos. Por anos Saladino Yussuf bin Ayyub (23), o Grande Comandante Muçulmano durante as Cruzadas debateu exaustivamente se deveria ou não usar o artefato. Por fim, ele decidiu que a Chave era perigosa demais e a enviou secretamente para Damasco, na Síria, para que ficasse em poder de homens da sua confiança.

Em 1218, a Chave de Prata encontrava-se na Prisão de Mezzeh (24) em Damasco, até que um prisioneiro, um cruzado chamado Geoffrey Carter, matou os guardas que a protegiam e escapou levando consigo o artefato. Não se sabe exatamente quanto tempo Geoffrey levou para retornar à sua terra natal, a Inglaterra, mas é provável que ele tenha feito um longo caminho parando em diferentes lugares para estudar o saber profano dos Mythos.

Depois desse evento, a Chave de Prata se manteve em poder da Família Carter, passando de geração em geração como uma herança de família. Muitos dos Carter ignoravam inteiramente sua natureza, poderes e o perigo que ela representava. A Chave era para a maioria um mero símbolo, um elo com um passado glorioso e heroico, embora alguns do clã soubessem bem do que ela era capaz e fizessem uso de suas faculdades. 

Levada para a Colônia de Massachusetts, ela passou pelas mãos de Edmund Carter que no final do século XV foi acusado de feitiçaria durante a Caça às Bruxas (25) na vila de Salem. Escapando da forca por um triz, Edmund se estabeleceu na região mais tolerante de Arkham no Vale do Rio Miskatonic. A Chave passou algum tempo esquecida até ser redescoberta pelo explorador, místico e aventureiro Randolph Carter (26). Acredita-se que ele tinha consigo a Chave de Prata quando desapareceu misteriosamente em 1928.


O paradeiro atual da Chave de Prata é desconhecido.

A verdadeira extensão dos poderes da Chave de Prata e o que ela é capaz de fazer é ignorado. A Chave no entanto, é obviamente um artefato ligado a Yog-Sothoth, e parece emular algumas de suas capacidades sobrenaturais no que tange aos elementos sobre o qual o Deus exerce influência. Portanto, Tempo e Espaço podem ser manipulados pelo detentor dela para que se dobrem diante de sua vontade. Quais as implicações disso deixam interessantes questões em aberto. Se o tempo pode ser conquistado com o uso da Chave, então o passado pode ser reescrito, bastando viajar no tempo e alterar acontecimentos como bem se entender. A Chave permitiria ainda deslocamento para qualquer local do futuro, garantindo uma transição imediata para onde e quando seu possuidor desejasse.

É claro, tal uso constitui um enorme risco e pode trazer sérias implicações a quem se propõe à fazê-lo. Além dos problemas inerentes à criação de lapsos temporais, acredita-se que o ser humano não está preparado para incidir em viagens temporais sem comprometer gravemente sua existência. A chave poderia mitigar esses efeitos, mas não anulá-los completamente. Além disso, há um segundo complicador que não pode ser tratado de forma leviana. Toda e qualquer forma de deslocamento físico através do tempo, acaba atraindo a atenção das ferozes bestas conhecidas como Mastins de Tindalos (27). Esses seres dimensionais habitam estruturas angulares do tempo e percebem toda e quanlquer perturbação produzida no tecido do tempo. Há poucas coisas no universo do Mythos mais temidas do que ser perseguido por um Mastim de Tindalos, algo capaz de aterrorizar os mais experientes feiticeiros.

Além disso, há relatos de que o artefato pode, e de fato, já foi utilizado com o intuito de abrir portões de forma similar ao próprio Yog-Sothoth. Para isso, a Chave de Prata deve ser erguida sobre a cabeça no por do sol e rotacionada nove vezes enquanto o nome do local que se deseja adentrar é proferido. Ao fim do último giro, a pessoa que segura a Chave é transportada para o local desejado, não importando a distância. A Chave continua em suas mãos e pode ser usada novamente para devolvê-lo ao local original. É possível que esse poder explique o sucesso da Ordem dos Assassinos em acessar lugares inexpugnáveis e se infiltrar nos esconderijos mais protegidos sem despertar a atenção. Também é possível que o cruzado Geoffrey Carter tenha usado os poderes de transporte da Chave para escapar da Prisão onde estava confinado.

Esse método de transporte também permite ao detentor da Chave de Prata viajar através de dimensões e realidades. O artefato possui uma ligação íntima com a Terra dos Sonhos (28) e parece ser atraído para levar seu dono até ela. Randolph Carter, um dos mais famosos exploradores da Dimensão Onírica usou a Chave de Prata, quando esta estava em seu poder para empreender longas jornadas que lhe garantiram enorme fama.


As lendas afirmam que o Artefato da Hiperbórea seria o único capaz de destrancar o Último Portão (também chamado de Portão Definitivo), uma passagem que daria acesso a uma realidade onde o tempo não existe e onde reside a compreensão total dos segredos mais bem guardados do Universo. Tal portal é protegido pela entidade Umr At-Tawil (29), o Prolongador da Vida que seria um avatar do próprio Yog-Sothoth. Supõe-se que o intrépido aventureiro Randolph Carter, após seu misterioso desaparecimento, teria realizado a perigosa façanha de atravessar o Portão e penetrar no que existe além dos seus umbrais. O que Carter encontrou lá dentro é sujeito a interpretações metafísicas muitas delas perturbadoras.      

Para além de todas as suas habilidades, é provável que a Chave de Prata possua inúmeras outras que são ignoradas. Com certeza ela pode ser utilizada ainda com o intuito de estabelecer contato com Yog-Sothoth e invocá-lo fisicamente, bastando para isso chamar seu nome após destrancar as fechaduras do tempo-espaço. A chegada daquele que é "uno com o todo" pode ser um evento de graves repercussões não apenas para quem tem tamanha ousadia, mas numa escala global. 

Talvez seja uma benção que a real extensão dos poderes da Chave de Prata permaneçam desconhecidas e que aqueles que a tiveram em seu poder a utilizaram até aqui com parcimônia. O que poderia acontecer se ela um dia viesse a cair em mãos erradas, é um tema digno de legítima preocupação.

Notas de Rodapé:

(1) Deuses Exteriores - esses colossos estão entre os seres mais poderosos, eles são mais do que entidades, são conceitos universais que definem princípios que estruturam o próprio Universo e permitem seu funcionamento. Para saber mais à respeito do conceito dos Deuses Exteriores, é interessante ler o artigo "Deuses Exteriores - Hierarquia do Mythos"

(2)  Yog-Sothoth é um dos mais poderoso Deuses Exteriores, Yog-Sothoth é a entidade que representa os conceitos do Tempo e Espaço. É dito que através dele todo o tempo flui, e todo o universo está contido. Em poder, Yog-Sothoth estaria abaixo apenas de Azathoth, mas ele é sem dúvida uma figura essencial no esquema cósmico. Sem ele, a realidade, os planos e dimensões desmoronariam por inteiro. Para mais detalhes concernentes a Yog-Sothoth, ler o artigo 

(3) Uma fabulosa civilização setentrional que teve seu ápice durante o Período Mioceno. O povo humanoide da Hiperborea, era explorador e aventureiro, tendo firmado colônias em várias terras distantes e influenciando o surgimento de outras civilizações séculos mais tarde. No mito grego, a Hiperbórea era a Terra mais ao Norte cujo povo vivia em um clima agradável e venerava Apolo, Deus do Sol e da música. A ocultista Madame Blavatsky situou a Hiperbórea  em uma era prévia da Terra, anterior a Atlântida e Lemúria, modelo que foi seguido por autores dedicados aos Mythos de Cthulhu. Dentro do Círculo Lovecraftiano, coube a Clark Ashton Smith o papel de definir o histórico e a cronologia da Hiperbórea usando-a como pano de fundo para vários de seus contos ambientados nela.

(4) Tsathoggua, o Deus Batráquio patrono dos Magos e Feiticeiros e um dia a entidade mais cultuada da Hiperbórea pode ser conhecido em detalhes nos dois artigos dedicados a ele:

(5) Yhoundeh é o Deus com Cabeça de Cervo que se tornou prevalecente na Civilização Hiperbórea em seus dias finais. Os clérigos dessa divindade ficaram famosos por caçar e exterminar todos aqueles que consideravam hereges aos seus olhos, em especial os seguidores de Tsathoggua. O Deus, identificado como uma entidade benigna, era considerado o senhor dos Campos, Florestas e Bosques.

(6) Eibon é considerado um dos mais poderosos Feiticeiros dentro dos Mythos de Cthulhu. Um sábio estudioso dos mistérios ocultos que depositou boa parte de seus conhecimentos esotéricos no célebre "Livro de Eibon". O personagem foi criado por Clark Ashton Smith e citado repetidas vezes em seus contos e por outros membros do Círculo Lovecraftiano como uma referência de respeito sobre conhecimento místico.

(7) Também chamado Liber Ivonis e Livre D'Ivon, o Livro de Eibon é um dos mais poderosos e completos tratados se debruçando sobre os mistérios arcanos do Mythos de Cthulhu. Ele foi escrito pelo próprio Eibon na forma de um diário de experimentos místicos quando ele era o Feiticeiro principal da lendária Hyperboria. Poucas cópias desse vasto tomo esotérico sobreviveram ao passar dos séculos, sendo que algumas cópias foram produzidas em Averoigne na Idade Média. Algumas poucas versões do livro, em francês supostamente ainda existem. O Livro foi criado por Clark Ashton Smith e figura em vários de seus contos, sendo citado em obras de outros membros do Círculo Lovecraftiano.

(8) Zon Mezzamalech é outro personagem criado por Clark Ashton Smith, cuja biografia, infelizmente não foi tão expandida quanto a de Eibon. Ele é citado no conto "Ubbo-Sathla" como um dos que falhou ao tentar reclamar os segredos preservados por essa entidade.

(9) Um interessante apanhado de informações à respeito da Lemúria, e, de fato, outras civilizações incorporadas ao Mythos, pode ser visto no artigo "Continentes Míticos" http://mundotentacular.blogspot.com/2014/08/continentes-miticos-mu-lemuria-e.html

(10) Detalhes à respeito da legendária Irem, a Cidade dos Pilares, inclusive as raízes das lendas sobre a sua existência além da ficção.  

(11) Mais detalhes à respeito da legendária Irem podem ser encontrados no artigo 'Ruínas do Medo" que menciona seus muitos mistérios e a ligação desse lugar mítico com a ficção.

(12) O Corão, ou ainda Alcorão, é o Livro Sagrado mais importante do Islã. Os muçulmanos acreditam que ele é a "palavra literal de Deus" (Alá), revelada ao Profeta Maomé (Muhammad) ao longo de 23 anos. A palavra árabe Alcorão, pode ser traduzida como "recitação". Ele é um dos livros mais lidos e citados no mundo atual.

(13) As Crias Estelares são as criaturas que acompanharam o Grande Cthulhu em sua migração da distante estrela de Xoth até a Terra e que podem ser compreendidos como "seu povo". Foram as Crias estelares que auxiliaram Cthulhu a erguer suas bases na Terra e empreender a guerra contra as Coisas Ancestrais e os Fungos de Yuggoth. Para conhecer detalhes adicionais sobre as Crias estelares, ver o artigo correspondente. 

(14) Respectivamente Abdul Al-Hazred e Ludwig Prinn, os autores do profano Al-Azif (que daria origem ao Neronomicon) e Vermis Mysteriis. Os dois tomos estão entre as mais contundentes obras sobre o Mythos de Cthulhu. 

(15) O Rub' al-Khālī; em português, "o Grande Vazio" ou ainda "a quarta parte vazia" é um dos maiores desertos do planeta e a maior área contínua de areia (erg) do mundo, ocupando a maior parte do terço sul da Península Arábica e abrangendo áreas da Arábia Saudita, de Omã, dos Emirados Árabes Unidos e do Iêmen. O deserto cobre cerca de 650.000 km². A região tem clima desértico, sendo classificada como de clima hiper-árido, com precipitações anuais médias inferiores a 30 mm. A temperatura máxima média é de 47°C, podendo chegar a 51°C.

(16) Alhambra ou, Alambra (A Vermelha) localiza-se na cidade e município de Granada, na província de mesmo nome, da Andaluzia, na Espanha, em posição dominante no alto duma elevação arborizada na parte sudeste da cidade. Trata-se de um rico complexo palaciano e fortaleza (alcazar) que alojava o monarca da dinastia nacérida e a corte do Reino de Granada. O seu verdadeiro atrativo, como outras obras muçulmanas da época, são os interiores, cuja decoração ocupa o ápice da arte islâmica. Esta importante atração turística exibe os mais famosos elementos da arquitetura islâmica no país, juntamente com estruturas cristãs do século XVI e intervenções posteriores em edifícios e jardins que marcam a sua imagem tal como pode ser vista na atualidade.

(17) Omar Khaiam foi um poeta, matemático e astrônomo nascido na Pérsia no século XI. Conhecido no ocidente como poeta e autor do Rubaiyat, (em português, “quadras" ou "quartetos”), que ficariam famosos a partir da tradução de Edward Fitzgerald, em 1839. Muitas coisas se contam sobre Omar Khaiam, porém de poucas podemos ter certeza uma vez que sua vida foi marcada por fatos lendários e possivelmente exagerados. Sabemos que nasceu em Nixapur, capital da província Persa, onde passou a maior parte de sua vida em meio a estudos, aventuras e explorações. Foi conselheiro na corte de Malik I e uma pessoa de grande importância no seu tempo. Ele faleceu em 1131 e seu túmulo está conservado até hoje.

(18) Haroun al-Rashid (conhecido como "Haroun, o Justo" ou "Haroun, o Bem-guiado"), foi o quinto califa abássida, reinando entre 786 e 809, numa época marcada pela prosperidade científica, cultural e religiosa no Islã. Ele foi o fundador da lendária biblioteca chamada de "Casa da Sabedoria" (Bay al-Hikma). Na ficção ele é citado no clássico livro "As Mil e uma Noites", que contém muitas histórias fantásticas sobre a corte de Haroun e sobre o próprio califa. A família dos barmecidas, que até então tinha tido um papel fundamental no estabelecimento do Califado Abássida entrou em declínio a partir do reinado de Harune Arraxide. Ele é citado na história "Ramadã", escrita por Neil Gaiman para seu personagem mais conhecido Sandman.

(19) Hassan Sabah, conhecido como "O Velho da Montanha" foi o líder e fundador de uma seita islâmica ascética - o ismaelismo. Após estudar teologia, em 1076, foi ao Califado Fatímida do Egito, para aperfeiçoamento religioso. Em seu retorno à Pérsia, viajou por várias regiões de modo a promover suas crenças. Com vários convertidos, capturou a fortaleza de Alamute onde se estabeleceu.

(20) A Ordem dos Assassinos (Hashashim) foi uma seita fundada no século XI com o objetivo de difundir a nova corrente do ismaelismo. A fama do grupo se alastrou pelo mundo cristão, que ficou surpreso com a devoção de seus membros que para eliminar um alvo, aceitavam se sacrificar. A Seita possuiu cerca de 60 mil seguidores, segundo se especula. O ismaelismo é considerado como uma das correntes em que se enquadram os xiitas.

(21) Alamute foi uma fortaleza situada na cordilheira Elbruz, ao sul do mar Cáspio no atual Irã. De acordo com Handalá Mustaufi a primeira fortaleza foi construída em 840, a uma altitude de 2.100 metros. A fortaleza foi construída de tal forma que só houvesse um meio artificial transitável para chegar a ela, que seria em torno do penhasco, o que dificultaria uma suposta invasão. Em 1090, a fortaleza foi conquistada pela Ordem dos Assassinos, uma poderosa seita fundamentalista islâmica.

(22) Hulagu Khan foi um poderoso Conquistador e Imperador mongol que conquistou uma vasta região do sudoeste asiático. Neto de Gengis Khan e irmão de Cublai, ele se tornou o primeiro Khan do Ilcanato (porção do Império que englobava a Persia).
 
(23) Saladino foi o chefe militar muçulmano que liderou a oposição islâmica aos cruzados europeus no Levante. No auge de seu poder, seu domínio se estendia pelo Egito, Palestina, Síria, Iraque, Iêmem e pelo Hejaz. Foi responsável por reconquistar Jerusalém das mãos do Reino de Jerusalém, após sua vitória na Batalha de Hatim e, como tal, tornou-se uma figura emblemática na cultura árabe em geral. Saladino, adepto do islamismo sunita, tornou-se célebre entre os cronistas cristãos da época por sua conduta cavalheiresca, especialmente nos relatos sobre o sítio de Queraque em Moabe, e apesar de ser a nêmesis dos cruzados, conquistou o respeito de muitos deles, incluindo Ricardo Coração de Leão. 

(24) Mezzeh é um distrito de Damasco, conhecido pela Prisão construída em 661 que serviu como masmorra para cruzados. As instalações foram usadas até recentemente como presídios de dissidentes políticos.

(25) A infame Caça às Bruxas no Vilarejo de Salem, na Nova Inglaterra foi um evento traumático na História Colonial norte-americana. Para saber detalhes à respeito desse acontecimento histórico:

(26) Randolph Carter é um personagem recorrente os contos de H.P. Lovecraft e considerado seu alter ego literário. Carter, é um autor e místico de uma família distinta da Nova Inglaterra com longa experiência investigando os Mythos de Cthulhu. Ele é o protagonista em "A Busca Onírica de Kadath", "A Chave de Prata", "Através dos Portais da Chave de Prata", "O Inominável" e "O Depoimento de Randolph Carter", fazendo uma aparição ainda em "Out of the Eons".

(27) Uma descrição completa a respeito dos Mastins de Tindalos, pode ser encontrada no artigo à seguir:   http://mundotentacular.blogspot.com/2017/06/bestas-de-dimensoes-distantes-anatomia.html

(28) A Terra dos Sonhos é uma dimensão alternativa acessível enquanto estamos dormindo. Os mortais são capazes de entrar na Terra dos Sonhos com mais facilidade na infância, mas quando chegam a idade adulta o portal se torna mais difícil de ser cruzado, exceto por "sonhadores experientes". O uso de meditação, magias, artefatos ou drogas pode facilitar o acesso de visitantes. O Mundo dos Sonhos é uma cópia alternativa do mundo real, com elementos surreais e oníricos. Ela é composta de uma colcha de retalhos de reinos exóticos onde se destacam cidades estado e por um vasto mundo subterrâneo. A Terra dos Sonhos foi criada por H.P. Lovecraft e serve de pano de fundo para muitas de suas histórias, em especial a série conhecida como Ciclo dos Sonhos.

(29) O Prolongador da Vida é uma entidade que protege os segredos ocultos além do Portal destrancado pela Chave de Prata. Ele é apresentada no conto 'Através das Portas da Chave de Prata" (1934). Ele será apreciado em um próximo artigo do blog.