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terça-feira, 25 de julho de 2023

Explodindo Cthulhu - O que aconteceria ao usar Armas Nucleares contra o Grande Antigo?


A pergunta é antiga e acompanha os fãs dos Mythos faz tempo:

"Se o Grande Cthulhu despertar de seu sono, nós podemos destruí-lo com uma bomba nuclear?"

A resposta mais frequente para essa pergunta tende a ser: "Não! Ele será destruído, mas logo em seguida seu corpo irá se refazer. E ele agora é radioativo"!

Parece uma brincadeira boba, um exercício de imaginação já que H.P. Lovecraft não chegou a contemplar o advento da Era Nuclear, tendo morrido em 1937, oito anos antes da explosão nuclear que colocou fim a Segunda Guerra Mundial. Num primeiro momento, parece aceitável que uma detonação nuclear poderia varrer qualquer coisa do mapa, mesmo uma "coisa" grande como Cthulhu. Mas será que ele seria mesmo destruído?

Em "O Chamado de Cthulhu", Lovecraft dotou sua entidade mais famosa, o Grande Cthulhu, com capacidades regenerativas que permitiam a ele reformar seu corpo gelatinoso mesmo depois de ser abalroado por um navio. Talvez Lovecraft não tenha tido tempo de pensar em algo mais potente que o impacto direto de um navio, mas parece claro interpretar o que ele quis dizer com isso. Mesmo que o Grande Cthulhu seja atingido por um impacto, trespassado e disperso em pedaços, ele não será destruído. Ele vai acabar se reformando por inteiro. 

Como vemos no trecho abaixo, do conto, é exatamente isso que acontece:

"Houve um estouro, como o de uma bexiga explodindo, uma nojeira lamacenta, como um peixe-lua aberto no meio, um fedor como o de mil covas abertas e um som que cronista algum se atreveria a colocar no papel. Por um instante o navio foi engolfado por uma nuvem verde, acre e ofuscante e então houve um peçonhento fervilhar à estibordo: onde - Deus do Céu! - a plasticidade esparramada da inominável cria dos céus estava se recombinando nebulosamente em sua odiosa forma original, enquanto o Alert se afastava mais a cada segundo, ganhando ímpeto de seu vapor". 


A natureza exata de Cthulhu e extensão de seus poderes é deixada propositalmente vaga e ambígua nas obras de Lovecraft. Parte do mistério vem da impossibilidade de saber o que são essas criaturas e quais os seus limites. A verdadeira natureza do universo é incompreensível e a existência humana é apenas uma pequena fração de algo muito maior e mais terrível que nós não somos capazes de compreender.

Por outro lado, estamos falando de uma "fucking" explosão nuclear e não do impacto de um barquinho. 

Para interpretar essa questão, temos de imaginar Cthulhu como uma entidade e não como uma forma de vida nativa da Terra sujeita às forças naturais. Uma bomba atômica é o auge de nossa capacidade de destruição: ao detonar a bomba, a reação em cadeia libera uma quantidade de energia tamanha que tudo atingido é consumido na conflagração. 

As imagens de lugares bombardeados atestam o poder de devastação desses artefatos - construções, prédios, pessoas... tudo é vaporizado pela imensa onda de choque, pelo calor acachapante e pela explosão em si. No marco zero, tudo é fulminado e não resta nada. Por outro lado, estamos nos referindo a tudo que é material e que existe em nossa realidade.

Considerando a natureza cósmica e o poder insondável de Cthulhu, é razoável supor que uma arma terrestre, mesmo que seja um artefato nuclear, encontraria dificuldade em destruí-lo. Cthulhu é descrito como um ser imortal, antigo e transcendental, que pode manipular a realidade e a mente das pessoas. Ele é formado por material alienígena que por definição foge do escopo da nossa natureza. 

Uma vez que não está atrelado a fundamentos naturais ele é capaz de perverter qualquer princípio da física que conhecemos. Não existe maneira de aplicar ciência pura sobre uma entidade ancestral nascida nos recessos profundos do cosmos. Uma bomba atômica pode não ser mais do que um estalinho para Cthulhu, ele poderia absorver a energia, poderia suportar a explosão ou mesmo se mostrar imune a toda conflagração resultante. No universo dos Mythos, as armas e tecnologias humanas muitas vezes são retratadas como insignificantes diante das forças cósmicas e entidades extraterrestres. Em vez de destruir Cthulhu, uma ação como essa poderia ter consequências terríveis para a humanidade.


Vou propor três diferentes desfechos para o mesmo cenário. 

Nele, o Grande Cthulhu desperta de seu sono em um dia quando as estrelas se alinham no firmamento. Uma onda de insanidade e desesperança varre o globo e as pessoas se preparam para o pior. Cthulhu e seus servos despertaram na Cidade de R'Lyeh. Os Abissais surgem nas regiões costeiras, avançando sobre praias e litorais, capturando e sequestrando pessoas inocentes, carregando-as para suas cidades submarinas. Acompanhado desses seres meio-homem, meio-peixe, estão horrores submarinos, como as Crias Estelares de Cthulhu, versões menores (mas ainda assim extremamente poderosas) do Grande Cthulhu. Esses seres caminham e voam pelo ar, alçando voo com suas asas de morcego, chegando a cidades e deixando um rastro de destruição por onde passam. Mas o pior mesmo é o Despertar do próprio Senhor de R'Lyeh que surge em toda sua glória aterrorizante no Pacífico Sul. Uma vez desperto Cthulhu começa a se deslocar para um centro populacional e ninguém sabe exatamente o que irá acontecer se ele chegar a uma cidade de grande porte.

É razoável supor que a humanidade vai tentar deter Cthullhu, o interceptando com armamento convencional. Nada se mostra efetivo. Cthulhu resiste a armas normais: rajadas de metralhadoras, foguetes, mísseis e tudo mais que é lançado contra ele. Em meio a loucura e caos, ordens expressas são enviadas para que o horror ancestral seja destruído com o que se tem no arsenal nuclear.

Ainda em nossa simulação, um submarino norte-americano Classe Ohio parte de uma base no sul do Pacífico para interceptar a trajetória do colosso. Uma plataforma submarina seria a melhor opção para o ataque já que pilotos de avião estariam sujeitos a insanidade causada por um avistamento direto da entidade, então quanto maior a distância melhor. 

Submarinos da classe Ohio transportam habitualmente mísseis carregados com ogivas nucleares (warheads) chamadas B-61. Trata-se de um dispositivo termonuclear - ou "Bomba de Hidrogênio". Esse tipo de artefato combina estágios de fissão e fusão nuclear. Quando ela é detonada, primeiro ocorre uma reação de fissão (quebra dos átomos), que libera grande quantidade de energia semelhante ao funcionamento da bomba de Hiroshima. Entretanto, as armas termonucleares, usam a energia liberada na fissão para comprimir um segundo estágio, que contém hidrogênio. Isso provoca a fusão nuclear, gerando uma explosão milhares de vezes mais potente. Uma B-61 é capaz de alcançar a potência de 340 kilotons, algo em torno de 22 vezes mais energia destrutiva que as bombas usadas na Segunda Guerra Mundial. 


A B-61 é um dispositivo "de gravidade", ou seja, ela deve ser liberada mais ou menos sobre o centro do alvo. Mas não requer o uso de bombardeiros: é bem compacta e pode ser facilmente transportada no interior de um míssil de cruzeiro Tomahawk. Essas bombas podem ter sua potência ajustada conforme a necessidade, mas vamos supor que os militares não estão brincando e que consideram a ameaça do Grande Cthulhu um nível de gravidade máximo, ou seja, vão com potência máxima.

Com a ordem recebida e confirmada, o submarino se prepara para o lançamento. Um míssil Tomahawk é carregado e a distância calibrada. Ele tem um alcance máximo de 2500 quilômetros, mas para garantir acertar em cheio, recomenda-se que ele não esteja a mais do que 1000 quilômetros de distância do alvo. Vamos considerar que o sistema de orientação do míssil irá levar a ogiva direto até o alvo com uma variação mínima.

O ataque é preciso! 

O míssil voa na direção do alvo e quando está a cerca de 1000 metros detona o primeiro estágio da explosão. Uma área de 6 quilômetros de diâmetro é devastada pela explosão direta, o que significa dizer que o que está ali dentro é atingido diretamente. Em seguida, o componente de hidrogênio entra em ação, ampliando a área de devastação para 25 quilômetros. Isso significa dizer que pessoas afastadas 25 Km do centro da explosão ainda podem sofrer queimaduras de terceiro grau. A temperatura no marco zero da explosão é de mais de 100 mil graus célsius. Um cogumelo nuclear de centenas de metros de altura se forma, uma visão aterrorizante que preenche o horizonte e dispersa íons de radiação.

Nesse momento, o que pode acontecer?

Vamos ver três possíveis resultados.

1) SUCESSO: CTHULHU É DESTRUÍDO 


No cenário mais favorável aos humanos, a explosão atinge o colosso submarino com toda potência.

A criatura é colhida em meio a uma conflagração de fogo, recebendo o impacto direto. Talvez ele conseguisse resistir a primeira explosão: a matéria constitutiva da entidade regenera assim que recebe o impacto direto. A carne esponjosa e alienígena de Cthulhu é causticada pela onda de calor, derrete, mas imediatamente começa a se reformar. 

Entretanto é a segunda reação em cadeia que realmente atinge o Deus Ancestral com toda força. A reação de fissão do Hidrogênio - impede que Cthulhu continue se regenerando. Mesmo a matéria alienígena de seu corpo acaba sendo consumida pelo poder nuclear. O mega-organismo tenta replicar as células em velocidade acelerada, mas mesmo Cthulhu tem limites e uma explosão nuclear de grande porte parece ser a fronteira que nem mesmo sua regeneração prodigiosa é capaz de superar.

A explosão de luz reduz Cthulhu a protoplasma, e este é vaporizado pelo calor insuportável do inferno atômico. O Senhor de R'Lyeh solta um urro, um brado que é engolido pelo trovão da explosão que reverbera pelo planeta, criando ondas de tsunami que se dispersam pelo Pacífico Sul. Há destruição e morte, o ecossistema é afetado com graves danos aos biomas marinhos. No entanto, o Grande Cthulhu desaparece, não resta sinal de sua existência profana. Estrelas mortais, tão temidas, brilham no firmamento, a configuração correta é atingida, mas a criatura não mais existe. 

Ao redor do mundo os Abissais retornam para suas cidadelas de coral nas profundezas, aterrorizados com a morte de seu Deus. Em tempo eles irão buscar consolo em Dagon e Hydra, agora os órfãos, herdeiros do legado de um Deus Morto. As Crias de Cthulhu e outros horrores silenciam seus ataques e também se dispersam para regiões insondáveis. Talvez um deles tente assumir o papel de seu senhor e mestre, se a ousadia de tal assertiva estiver ao seu vil alcance. 

Cthulhu, no entanto, não mais existe!

Seus cultos estão aniquilados e sem sonhos para nortear seu caminho, também é questão de tempo até eles desaparecerem por completo. Um mundo aliviado assiste ao horror de eras ser varrido por armas construídas pela engenhosidade e empresa humana. 

Nós resistimos e sobrevivemos a provação máxima. Mas até quando? Agora que o horror do Mythos se revelou, será que seremos capazes de suportar essa existência blasfema? Será que poderemos compreender nosso papel num universo incerto ou podemos nos regozijar ao saber que temos a nosso dispor poder suficiente para aniquilar um deus? 

O futuro dirá. 

2) CTHULHU É DESTRUÍDO, MAS DEIXA SUA MÀCULA


Quando a massiva explosão atinge Cthulhu, a entidade recebe o impacto nuclear frontalmente.

Suas imensas asas batem e ele tenta alçar voo para escapar, mas mesmo um colosso como ele fica pequeno diante da explosão resultante. Suas asas queimam e ele se precipita dos céus como um asteroide gigantesco. Cthulhu é colhido pelo inferno nuclear que o envolve com um halo luminoso que o faz derreter e então desaparecer por completo.

As equipes despachadas para observar o resultado da explosão fazem uma varredura da região, mas os aparelhos só conseguem detectar algum resultado cerca de 48 horas após a explosão. A esperança que eles tem é que a abominação tenha sido varrida do mapa.

O primeiro informe dos especialistas é conflituoso. De fato, uma gargalhada insana é tudo o que se ouve após um técnico fazer contato visual da área. A verdade surge depois de ser confirmada por teóricos do Mythos. Mesmo eles ainda tentam entender o que se passou.

O corpo de Cthulhu foi desfeito pela explosão nuclear, é bem verdade. Ele foi reduzido a protoplasma. Mas mesmo a fornalha nuclear não conseguiu vaporizar essa matéria incrivelmente resistente, capaz de suportar o rigor do éter espacial e o poder de estrelas desveladas. A forma horrenda de Cthulhu, a de um humanoide com cabeça de cefalópode e asas de morcego não mais existe. Talvez, com o tempo sua matéria constitutiva ainda seja capaz de reformar seu corpo original, contudo, Cthulhu foi despedaçado pela conflagração. Reduzido a uma massa protoplásmica de coloração verde doentia, ele se espalha por quilômetros do Pacífico Sul. 

Flutuando como um gigantesco iceberg de massa putrefata, semelhante a um shoggoth quilométrico, Cthulhu ainda persiste. Suas emanações psíquicas ainda se dispersam pelos quatro cantos do planeta, penetrando na mente de cada ser humano e enviando a eles visões prodigiosas de terror inenarrável. As estrelas estão certas e nada irá impedir o curso de destruição profetizado na aurora dos tempos. Seus devotados serviçais continuam sob seu comando e formam uma barreira para defender seu amo de quaisquer outras investidas. Mas está claro que estas seriam um exercício de futilidade - até poderiam agravar a situação.

Mas o pior é que a massa informe, verdadeira ilha de dejetos protoplásmicos que um dia foi Cthulhu irradia enorme quantidade de radiação. O sistema regenerativo da entidade absorve e duplica a radiação dispersa, aumentando potencialmente sua carga nociva. Cthulhu se torna um reator nuclear vivo, exposto às correntes marinhas e aos elementos, envenenando tudo que toca. Aos poucos sua matéria irá matar tudo à sua volta. Não demora para que os efeitos danosos sejam sentidos pelo ecossistema e à medida que as correntes carregam partículas dessa radiação, toda a vida dos mares começa a ser impactada. Dentro de algum tempo, eles não serão mais do que cemitérios ondulantes.

Em tempo Cthulhu continuará avançando para a costa, uma massa amorfa gigantesca tão mortal em solo quanto é nos mares. Ele irá engolir, onda após onda as cidades e consumir o que existir pela frente. Morte por envenenamento radioativo e toda sorte de doença, será dispersa por um planeta moribundo.

3) FRACASSO: CTHULHU RESISTE


A explosão nuclear atinge Cthulhu e ele desaparece diante do pilar causticante que se ergue na direção do firmamento.

A explosão faz com que até mesmo um Avatar da Devastação como o Grande Cthulhu se transforme em uma forma diminuta.

São necessárias ao menos 48 horas para que a área seja sondada em busca de informações do que se passou e se o monstro foi destruído. Contudo, o público é poupado de detalhes. Informações desmentidas entretanto dão conta de que ao menos mais três detonações de intensidade superior foram deflagradas em outras posições do Pacífico. A vastidão do arsenal nuclear entra em ação e um repertório ainda mais mortífero é empregado. Cogita-se recorrer aos artefatos banidos pelos tratados que consideraram tais armas por demais mortais. Os efeitos das explosões são sentidos em todo Hemisfério Sul - explosões no mar ocasionam enormes ondas que varrem os continentes e contabilizam incontáveis vítimas.

Dias depois, os resultados, ou melhor a ineficácia destes se torna evidente.

Multidões de Abissais brotam nas praias, do Chile ao Alasca, da Austrália à Vladivostock. Um verdadeiro exército de horrores submarinos avança sobre as costas acompanhados de shoggoths e outros horrores controlados por um misto de feitiçaria e alta tecnologia. As cidades litorâneas são evacuadas às pressas. Crias Estelares de Cthulhu voam pelos céus e despencam sobre as cidades, onde são combatidas bravamente. Logo fica claro que não há como deter esses horrores e eles empreendem uma devastação cada vez maior ao adentrar as grandes metrópoles. Incontáveis indivíduos, enlouquecidos pelos horrores testemunhados cometem suicídio, cedem a um estupor completo ou pior, aceitam o despertar de Cthulhu, renegando as crenças antigas em detrimento da nova e real força que surge diante de seus olhos escancarados.

Em um dia que será lembrado para todo sempre, as águas da Baia de San Francisco na costa da Califórnia se partem e das profundezas insondáveis surge em sua glória a forma horrenda do Deus das Profundezas. Cthulhu prevaleceu diante de todas as tentativas de detê-lo. Seu avanço é irrefreável! Mesmo diante de sucessivas detonações das armas mais potentes conhecidas pela humanidade, Ele conseguiu perdurar.

Será que a humanidade se tornou tão arrogante a ponto de acreditar que um Deus Primevo, que existia muito antes do advento do homem, poderia ser detido por um de seus brinquedos? Será que por um momento acreditamos ser capazes de alterar a vontade de uma Entidade? Cthulhu não se importa! Ele resistiu aos esforços dos pequenos seres que ocuparam Seu planeta por tanto tempo. Tempo demais! Eles tinham a ilusão de que haviam conquistado o status de senhores da criação ao dominar princípios básicos como o Átomo. Mas tais realizações não são nada para o Grande Cthulhu.

Com passos titânicos, o horror Ciclópico avança para terra firme, resoluto. Fosse ele algo menos alienígena alguém poderia detectar em seu ímpeto algum sinal de ansiedade. A miríade de tentáculos se agita quando ele toca o chão pela primeira vez. O Deus é recebido pelos primeiros convertidos de uma nova e fanática crença que florescerá nos dias vindouros - as Crianças de Cthulhu. Ansiosas para servi-lo elas se prostram diante dele, muitas sendo esmagadas por suas passadas.

Em seu trono, reclamado como Seu de Direito, o Grande Sacerdote de R'Lyeh proclama através de emanações telepáticas captadas por cada ser vivo e consciente que esse planeta agora Lhe pertence.   

Daqui em diante uma Nova Era começa... a Era de Cthulhu! 

Bem é isso.

Com ou sem armas nucleares o despertar de Cthulhu seria algo inesquecível. Na dúvida, esperamos que ele continue dormindo por muito, muito tempo...

domingo, 28 de novembro de 2021

Horrores Marinhos - O Culto das Profundezas devotado a Dagon e Hidra


É inegável que os mares oferecem infinitos enigmas, muitos deles, assustadores.

Além das ondas que arrebentam na praia e nos abismos insondáveis preenchidos por silêncio e escuridão, repousam coisas que a humanidade não está preparada para conhecer. A mera sugestão de sua existência seria suficiente para nos mover em um êxodo consciente para as regiões internas dos continentes, colocando uma distância considerável das costas recortadas e litorais orlados, onde estamos ao alcance dessas coisas.

Os oceanos possuem uma íntima relação com o Mythos de Cthulhu.

Nessa série de artigos, vamos investigar horrores submarinos de toda ordem e sua relação tempestuosa com o mundo da superfície. Hoje falamos do Culto das Profundezas Oceânicas devotado às divindades conhecidas como Dagon e Hidra

*     *    *

Os mares talvez tenham sido um dos primeiros obstáculos para os homens do passado. Quando os povos primitivos se deparavam com porções de água, ali estacavam, receosos em tentar atravessar. As águas traiçoeiras ofereciam perigos inenarráveis e propunham uma questão central à respeito do que haveria além da linha da superfície. O que haveria lá embaixo? Da mesma forma, quando se afastavam da costa, perguntavam-se, o que poderia existir além do horizonte? E que seres bizarros, limosos e escamosos podiam reclamar aqueles reinos aquosos como seus domínios?

Dentro da Mitologia Cthulhiana, os Abissais são uma raça de homens-peixe consideravelmente mais antiga que a humanidade. Eles já construíam magníficas cidades submersas de madrepérola e coral quando estávamos descendo das árvores em busca de cavernas para nos refugiar. Os Abissais são criaturas complexas e sofisticadas, perfeitamente adaptadas à vida nas profundezas. Embora possuam características anfíbias, é inegável que se sentem muito mais à vontade na água do que em terra. Eles edificaram uma sociedade inteira sob as ondas, e esta manifestou pouco interesse em alterar seus modos ao longo das eras, sobretudo pelo fato de serem virtualmente imortais.


A maioria dos povos antigos temiam os Abissais e os evitavam à todo custo, sobretudo por conta das suas incursões em terra. Havia enorme temor e este era perfeitamente justificado pois quando vinham, levavam consigo escravos e mulheres humanas com quem pudessem procriar. No entanto, algumas civilizações acabaram se aproximando dos Abissais e com eles firmaram um acordo. Em troca dos prisioneiros que tanto desejavam, os abissais instruiriam os humanos a respeito dos segredos dos oceanos. Ensinaram como pescar, como entender o curso das marés, como se guiar pelas estrelas e conhecer os animais que habitavam os mares. Também forneceram um vislumbre de terras distantes e mapas para chegar até elas em segurança. Num primeiro momento  estes homens construíram embarcações simples, mas com o tempo elas foram sendo aprimoradas, permitindo jornadas mais longas.

Os povos da ancestral Mu, da remota Lemúria e do lendário continente da Atlântida estabeleceram boas relações com os Abissais e através deles conseguiram empreender suas primeiras jornadas além-mar. Contudo, quando essas civilizações experimentaram sua decadência através de catástrofes naturais, os acordos que tinham com os abissais foram esquecidos. A maioria dos herdeiros dessas orgulhosas civilizações preservaram seu saber à respeito do mar e os compartilharam com os que os sucederam. Os gregos no período clássico, em especial os minoanos e cretenses, sabiam como construir embarcações que os levavam além de suas ilhas. Nestas explorações entraram em contato com outros povos e firmaram laços de comércio que definiram as relações no mundo antigo. Também é de se supor que estes tiveram contato com os Abissais, mas ao contrário de seus antepassados, os gregos ficaram chocados com a existência do povo das profundezas e os trataram como monstros e seus filhos híbridos, como abominações. 

Esse ponto de vista, entretanto, não foi partilhado por outras civilizações que se formaram na Idade Antiga do homem. Os habitantes da Terra de Canãa, que construíram a orgulhosa Civilização Fenícia, forjaram a primeira Talassocracia do mundo, uma sociedade inteira baseada na cultura e progresso comercial marítimo.

O Povo Fenício desde os seus primórdios teve uma relação amistosa com os Abissais que habitavam o Mar Mediterrâneo. É possível que os nobres da mais alta estipe que comandavam as Cidades Estado de Sídon, Tiro e Biblos, tivessem sangue Abissal correndo em suas veias. Essa característica não era vista como uma desvantagem, pelo contrário, o sangue abissal permitia a eles uma familiaridade com o mar. Isso talvez possa explicar porque a Civilização Fenícia se tornou em poucas décadas uma potência naval, dominando os mares e singrando de leste a oeste do Mediterrâneo por rotas até então ignoradas. Seus navegadores conheciam técnicas náuticas que permitiam impulsionar suas galés muito mais longe e em segurança, colocando-os em contato com povos distantes, com quem celebraram comércio.


Foi na antiga Fenícia que se formou o mais antigo Culto organizado, devotado ao Deus das Profundezas. A divindade central da sociedade abissal sempre foi o Grande Cthulhu, tido como o patrono alienígena de toda espécie, o Deus que os gerou nas profundezas. Num primeiro momento a Cidade-Estado de Tiro se converteu no reduto do Culto de Cthulhu, responsável por difundir os rituais blasfemos através dos portos, criando baluartes da seita nos portos de Luxor, Chipre, Atenas e Gadir.

Contudo, apesar da inquestionável importância de Cthulhu, haviam outros deuses que também eram venerados pelos Abissais e se mostravam bem mais acessíveis que o Sonhador de R'Lyeh. Desde o início dos tempos, os Abissais rendiam homenagem a dois dos seus, um macho e uma fêmea, alçados ao posto de Deidades e tratados com total reverência pelos títulos de Dagon e Hidra.

Dagon é o consorte de Hidra, a grande genitora, por isso, também eram chamados de Pai Dagon e Mãe Hidra, o que reforça o papel deles como Patriarca e Matriarca de todos Abissais. Os dois são venerados como representantes da espécie e invocados durante rituais importantes. Eles respondem prontamente quando surge a necessidade. Dagon geralmente é convocado para abençoar os guerreiros a caminho da guerra, para validar rituais de passagem ou aceitar sacrifícios na forma de alimento. Já Hidra tem papel sacramentando uniões, abençoando as fêmeas com fertilidade e recebendo sacrifícios humanos. Há rituais específicos em que ambos podem ser convocados, mas estes são consideravelmente mais raros. 

O Culto de Dagon e Hidra existe há milênios entre os Abissais, tendo surgido nas suas cidades submarinas. Ele foi introduzido de maneira organizada entre os homens primeiro entre os Fenícios. Os sacerdotes que lideravam o culto, à princípio, aceitavam apenas híbridos entre os devotos, contudo, a religião aos poucos foi encontrando espaço e se encaixando em outras camadas da sociedade. De fato, o Culto de Dagon (ou Dagan) se tornou muito difundido entre sumérios, acadianos, cananitas e filisteus que incorporaram elementos próprios aos rituais. Dagon passou a ser visto não apenas como uma divindade marinha, mas como Deus da fertilidade, abundância e do grão. Os sacerdotes vestiam uma indumentária própria com um manto simulando escamas e uma mitra que representava a cabeça de um peixe.


À certa altura, Dagon tornou-se a principal divindade do Panteão Semítico, sendo citado na Bíblia em pelo menos dois momentos cruciais: quando seu Templo é destruído pelo herói Sansão (Juízes 16:23) e quando a Arca da Aliança é removida de um dos seus templos e a estátua do Deus acaba sendo mutilada (1 Samuel 5:2). É provável que a essa altura, a religião já tivesse sofrido mudanças tão significativas que guardava pouca ou nenhuma conexão com os ritos originais. Esse desvirtuamento das cerimônias de Dagon marcou também o declínio da Civilização Fenícia que em meados de 540 a.C entrou em decadência. Quando Ciro, o Grande, Rei dos Persas conquistou a Fenícia, esta foi dividida em quatro reinos, o que pulverizou de uma vez por todas seu governo e decretou seu colapso.

Muitos fenícios em fuga se estabeleceram na Colônia de Cartago, no Norte da África onde o Culto de Dagon experimentou um renascimento por um curto período de tempo retomando suas doutrinas originais. Muitos híbridos humanos devolveram ao Culto o caráter marinho dos ritos, contudo, o Império Cartaginense acabou sendo devastado pelos romanos nas Guerras Púnicas.

O Culto de Dagon, no entanto, foi carregado pelos sobreviventes, estabelecendo pequenos templos em cidades portuárias no sul da Europa. Os principais centros de adoração a Dagon no continente incluíam Cádiz e Sevilha, na Espanha, Porto e Lisboa em Portugal, Marselha na França, Nápoles e Salerno, na Itália, além da Ilha de Sardenha. Nesses locais a seita se desenvolveu em segredo entre pescadores e marinheiros, sendo praticada em absoluto sigilo. Contudo, sendo um culto que praticava sacrifícios e prezava pelo segredo em seus rituais, era difícil não atrair a atenção. A ferrenha perseguição da Igreja Católica obrigou os cultistas a mergulhar ainda mais na clandestinidade. Muitos membros híbridos da seita foram perseguidos pela sua aparência hedionda, sendo aniquilados no correr da Idade Média. Os únicos centros de adoração que restaram foram aqueles estabelecidos em Marselha e na Sardenha. Não por acaso, eram portos de grande movimento comercial que favoreciam as atividades do culto. Marselha aliás se converteu num dos maiores centros de adoração de Dagon e Hidra com templos operando nos porões da lendária Casbah do Mediterrâneo.

A seita se beneficiou da Expansão Ultramarina e encontrou no Novo Mundo locais onde poderia se fixar sem chamar a atenção. Longe dos olhos vigilantes de instituições dedicadas a destruí-los, o culto firmou contato amistoso com abissais que viviam no vasto litoral das Américas. No Caribe, o Culto de Dagon prosperou nas Bahamas, Costa Rica e nas Bermudas. Já na América do Sul, ramificações da seita dominaram vilarejos pesqueiros no nordeste do Brasil, e também nas cidades portuárias do Rio de Janeiro e Santos. No outro lado do mundo, o Culto de Dagon estabeleceu bases em Madagascar, nas Filipinas, Singapura, em Ilhas da Polinésia e no sul do subcontinente indiano. As Ilhas Andaman sempre tiveram importância como centro de adoração.


Dentre os ramos mais bem organizadas da Seita, é preciso mencionar a lendária Ordem Esotérica de Dagon, estabelecida na cidade costeira de Innsmouth na Nova Inglaterra. A cidade hospedou por décadas um dos mais poderosos grupos de sectários dedicados ao Culto. De fato, a Ordem fundada em 1840 só foi desmantelada em 1927, após uma série de desaparecimentos que alertaram o Governo Federal das ações temerárias da Seita. Uma operação militar coordenada pela Marinha dos Estados Unidos colocou fim à ameaça. No processo de invasão e tomada de Innmouth, vários Abissais e híbridos foram mortos ou capturados pelo governo norte-americano.

A operação abriu os olhos do governo para a existência de grandes conspirações sobrenaturais ocorrendo sem que ninguém tivesse conhecimento de suas ações. Mais do que revelar tal coisa, o Incidente de Insmouth demonstrou como o Governo estava despreparado para lidar com tais ameaças. Após a operação julgou-se necessário criar um Departamento especializado, incumbido de localizar, avaliar e neutralizar tais ameaças em solo americano. Os membros da recém formada Divisão P (de Paranormal), interrogaram os prisioneiros de Innsmouth que revelaram a dimensão da conspiração.

Na década de 1930, uma segunda operação militar destruiu um foco de atividade de abissais e híbridos em Porto Rico. A operação foi um sucesso e serviu para provar que a Ordem de Dagon ainda estava ativa e constituía uma ameaça considerável. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Divisão P, renomeada com o nome código Delta Green atuou nos bastidores do conflito frustrando uma possível aliança entre os Nazistas, coordenada por membros da Thule Gesselshaft e Abissais. No período do pós-guerra, boatos à respeito de Cultos devotos de Deuses Marinhos abundam em várias regiões costeiras do mundo e é provável que estes continuem atuando secretamente.   

Os cultos de Dagon e Hidra possuem diferenças consideráveis no que diz respeito a doutrina, mas em essência são seitas que favorecem sacrifício e idolatria. Há muitos elementos cerimoniais tomados emprestados de crenças locais em um grosseiro sincretismo místico religioso. Uma seita pode recorrer a lendas nativas, costuradas com as Sagradas Escrituras e doutrinas chapinhadas de seitas da fertilidade do Oriente-Médio. O resultado é uma mistura de diferentes elementos pseudo teológicos um tanto incompreensivos.


Em comum, o fato de que praticamente todos cultos buscam primordialmente estabelecer a cooperação e interação entre híbridos e abissais. 

Um dos rituais consagrados, presente na maioria dos cultos prevê a conjunção carnal entre abissais machos e fêmeas humanas, tanto híbridas quanto humanas puras capturadas para esse fim. No passado, os Cultos mantinham relações estreitas com negociantes de escravos que lhes garantiam vítimas para abastecer esses rituais, mas recentemente, eles passaram a recorrer a sindicatos criminosos. O objetivo desses rituais era fecundar as fêmeas e garantir o surgimento de novos híbridos. Uma vez que a cerimônia constituía uma traumática violação física e emocional, em muitos casos as vítimas eram drogadas para não guardar memórias do incidente. Uma vez inseminadas, eram libertadas, ainda que permanecessem marcadas pelo Culto que acompanhava de perto o nascimento e criação das crianças.

As congregações geralmente buscam se estabelecer nos portos; em porões e docas subterrâneas, de preferência onde existem túneis inundados com conexão para o mar. Isso permite o acesso mais fácil de abissais ao local, sem chamar a atenção de curiosos. Estes ditos Templos possuem evidentes características religiosas, que incluem estatuas das deidades, sacrário para guardar regalias e um altar mor de onde o sacerdote conduz o serviço. Sendo um tabernáculo marinho, é indispensável haver uma ou mais piscinas com água salgada. As paredes desses templos são cobertas de inscrições nos Caracteres de R'Lyeh, a linguagem sagrada dos Abissais, usada em suas cerimônias. Outros ornamentos típicos incluem decoração com estrelas do mar, ouriços, coral, pérolas, cascos de tartaruga e restos de peixes pendurados nas paredes. O Chaat Aquadingen, é o tomo mais importante para o Culto, pois contém os ensinamentos e parábolas das profundezas. 

Os alto sacerdotes sempre são híbridos, geralmente em um estágio avançado de sua transformação que os torna mais abissais que humanos. Eles vestem uma indumentária característica, com um doumã vermelho e dourado, joias a lhes adornar os braços e um tipo de coroa de madrepérola na cabeça simbolizando seu status. Na cintura trazem um par de facas de aspecto grosseiro penduradas em cintos de couro: uma delas é recurva e afiada,  usada mormente nos sacrifícios, a outra é serrilhada para demais ritos. A autoridade do Sacerdote é completa e em seu Templo, sua palavra é final. Eles são geralmente assistidos por quatro a oito sacerdotes menores, responsáveis por tarefas ordinárias.


As piscinas são usadas nos ritos de sacrifício, no qual vítimas podem vir a ser afogadas, degoladas ou então torturadas lentamente pelos sacerdotes e seus assistentes. Para alguns cultos, o sangue tem um papel central nos sacrifícios, com os Abissais respondendo a invocação mediante o tributo pago dispersado na água. Outros respondem ao sacrifício quando a vítima é afogada. Geralmente os corpos são levados para as profundezas pelos abissais no final da cerimônia, desse modo os cultos descartam suas vítimas com facilidade.

Alguns rituais sagrados do Culto de Dagon e Hidra podem ocorrer ao ar livre, geralmente em praias isoladas sempre à noite, quando a maré está alta. Os lugares escolhidos são marcados com obeliscos de pedra negra ou esverdeada que reluzem na luz da lua. Essas cerimônias são menos frequentes e geralmente demandam a participação de vários abissais. Os sacrifícios são abundantes, havendo canto e danças frenéticas, culminando  num ritual orgiástico que visam a concepção de novos híbridos.

Os Cultos recebem como recompensa pela sua devoção pesca abundante, presentes das profundezas e a proteção dos abissais. Um dos objetivos das seitas é acompanhar e preparar o caminho para o tão aguardado despertar de Cthulhu. Durante o serviço religioso, o sacerdote relata a história de Cthulhu e cultiva nos membros da congregação um fanatismo duradouro. Os intérpretes da doutrina acreditam que quando as estrelas estiverem certas, o Grande Antigo deixará R'Lyeh para visitar a terra e declarar o início de seu domínio sobre o mundo. E quando tal coisa ocorrer, os membros do Culto estarão presentes para pavimentar seu caminho com sangue e fervor.

sábado, 30 de outubro de 2021

O Culto da Sabedoria Estrelada - Os Devotos do Caos Rastejante

 

Ao longo da história, muitas seitas se formaram chafurdando na adoração profana dos Mythos de Cthulhu (1). A maioria deles preferiam se manter incógnitos: escondidos e ignorados pelas pessoas à sua volta, em parte por desejar manter sigilo sobre seus assuntos, mas principalmente porque o caráter pernicioso de suas atividades poderia atrair a ira do restante da sociedade.

Talvez por isso o Culto da Sabedoria Estrelada seja tão diferente das outras seitas. Sua sede ficava numa das regiões mais visíveis da progressista cidade de Providence, no estado de Rhode Island. A Igreja de pedra escura, um enorme colosso gótico guarnecido de pátio, torre e campanário funcionava no topo de Federal Hill (2), à vista de todos. A igreja cresceu sem ser embargada, tomando conta da paisagem como um fungo odioso. O templo se identificava como uma congregação fechada, cujo dogma e filosofia pareceram aceitáveis aos olhos cosmopolitas do povo de Providence, ainda que corresse a década de 1840. As pessoas que frequentavam aquele tabernáculo à princípio não chamaram a atenção da vizinhança, de fato, o fluxo de imigrantes estrangeiros havia apresentado ao povo local uma miríade de crenças tão diversas que à primeira vista a Sabedoria Estrelada pareceu apenas mais uma seita inofensiva, não obstante, estranha.

A Igreja foi fundada pelo Professor Enoch Bowen (3), um emérito estudioso nascido e criado em Providence e educado na Universidade Brown. Ele lecionou história e filologia, integrando o corpo docente e obtendo grande reconhecimento de seus pares. Analisando as credenciais do Professor Bowen é realmente curioso considerar que ele poderia se tornar o fundador de um Culto. Mas foi justamente o que aconteceu. O ponto alto de sua carreira foi a escavação da Cripta do Faraó esquecido Nephrem-Ka (4) em 1843. Os trabalhos realizados no Vale de Saqqara (5) revelaram o lendário complexo subterrâneo conhecido como Labirinto de Kish (6). Apesar dos rumores a respeito de acidentes estranhos e uma suposta maldição, a expedição desvendou importantes artefatos históricos enterrados faziam milênios.

No ano seguinte, Bowen deveria ter renovado sua estadia no Egito e continuado as escavações, contudo, inexplicavelmente ele decidiu se retirar e retornar para Providence. Ao voltar para os Estados Unidos, Bowen também se desligou da Faculdade e começou a planejar as bases para a criação de um Culto místico-teológico que ele batizaria Sabedoria Estrelada. É interessante notar que até aquele momento, o professor jamais havia manifestado qualquer interesse em assuntos religiosos e ele próprio se definia como um ateu. A mudança de ponto de vista causou estranheza em seus amigos mais próximos e familiares.

Usando parte de sua fortuna pessoal, contraindo empréstimos e usando doações, Bowen conseguiu adquirir um terreno no alto de Federal Hill, uma região outrora nobre da cidade. As fundações da dilapidada Igreja do Livre-Arbítrio (Free-Will Church) (7) já existiam no topo do monte, mas o prédio havia sido parcialmente destruído em um incêndio em 1820. Com apoio de outros membros do Culto, as obras de restauração da igreja seguiram rapidamente e em meados de agosto de 1843 o Templo abriu suas portas para receber os fiéis. "Abrir as portas" no entanto, é apenas uma figura de linguagem: desde o início, os serviços foram conduzidos com as portas fechadas e cuidadosamente trancadas para que os rituais permanecessem do modo mais sigiloso possível .

O povo de Providence, em especial os moradores da região, uma mistura de imigrantes alemães, poloneses, espanhóis, irlandeses e principalmente italianos, desde o início repudiou o que acontecia na Igreja e não queria ter nada com ela. De fato, o desgosto da comunidade formada majoritariamente por estrangeiros para com a Sabedoria Estrelada, se tornou motivo de grande preocupação. A razão para isso é que circulavam rumores na vizinhança, rumores inflamatórios e supostamente exagerados concernentes ao teor das celebrações ali realizadas. A primeira queixa dizia respeito a presença de pessoas estranhas na sede do Culto, indivíduos mal vestidos que pareciam se esgueirar para o interior do templo. As missas, celebrações ou o que quer que acontecia lá dentro também era motivo de debate acalorado. Ouvia-se uma confusão de sons e cantos numa língua que ninguém era capaz de discernir. Os gritos ululantes e louvores ainda que abafados pelas portas e janelas lacradas se faziam ouvir pelo bairro. Para piorar, esses encontros sempre aconteciam à noite, e iam até altas horas da madrugada.

Apesar da desconfiança inicial, a Igreja continuou a prosperar, sobretudo depois que Bowen compareceu diante da Secretaria Municipal para defender o direito inalienável de liberdade de culto previsto pela Constituição. Em 1863, a Sabedoria Estrelada contava com cerca de 200 fiéis registrados e mais ou menos metade disso em simpatizantes. O culto chegou a abrir uma filial em Townshend, Vermont, enquanto uma missão foi estabelecida em Arkham. Mesmo depois da morte de Bowen em 1868, a Igreja continuou a funcionar sob a liderança de um Dr. Richard Flagg (8).

A natureza do culto era mantida em segredo, mas alguns boatos começaram a circular. De acordo com algumas fontes, os líderes da Sabedoria Estrelada tinham um um artefato sagrado conhecido como Trapezoedro Brilhante (9), que o Professor Bowen havia encontrado em sua escavação no Egito. Os rituais por sinal eram uma mistura de ocultismo clássico com rituais extraídos de um misticismo pseudo-egípcio, costurado com outras doutrinas herméticas. O templo era ornamentado com estranhas estátuas similares às enormes cabeças da Ilha de Páscoa e contava com símbolos pagãos. 

O Trapezoedro, mantido num local de destaque na nave principal, era o foco principal do culto e ao redor dele ocorriam a maior parte dos rituais. O mais importante deles envolvia algo chamado genericamente de "A Revelação". O princípio era incrivelmente simples, o postulante a receber a revelação simplesmente olhava para o objeto e se concentrava à esperava de visões que revelavam a existência de esferas superiores além da percepção mundana: mundos, dimensões e realidades se abriam diante de seus olhos. Com o tempo, essas revelações traziam conhecimento e pavimentavam o caminho para um poder além da imaginação. Ou ao menos era nisso que os cultistas acreditavam. Além disso, segundo alguns, o objeto também funcionava como um portão que trazia para a congregação uma entidade mística, o Assombro na Escuridão (10). Este era um tipo de Mensageiro dos Deuses que partilhava segredos sinistros com os fiéis. Para muitos, se tratava de um avatar de Nyarlathotep, o Caos Rastejante (11). O Assombro só podia ser invocado nas trevas e por isso todos rituais eram conduzidos num breu absoluto.

Os boatos continuavam se espalhando, mas ninguém tinha certeza do que acontecia na Igreja. Com o passar dos anos, o culto passou a ser visto como responsável por diversos desaparecimentos de jovens e crianças que teriam se tornado vítimas de sacrifícios de sangue. Em 1869 um grupo de pessoas invadiu a Igreja  quebrando janelas e destruindo mobília, aparentemente em retaliação ao sumiço de uma criança. Novamente nenhuma prova foi encontrada que ligasse a Seita a esses terríveis casos, contudo as autoridades da cidade decidiram agir. A prefeitura autuou a igreja por perturbação da ordem e ordenou que as portas da igreja fossem trancadas, impedindo os encontros da congregação na madrugada. Os frequentadores também passaram a ser detidos e revistados por policiais. Com as medidas cada vez mais agressivas, a congregação começou a se dispersar e muitos membros deixaram a cidade. Boa parte dos objetos pertencentes ao culto ficaram na Igreja. A biblioteca do culto contava com uma coleção de obras raras e extremamente valiosas que incluía cópias do Liber Ivonis, Cultes des Goules (12), Unausprechlichen Kulten, De Vermis Mysterris, o Livro de Dzyan (13), Pnakotic Manuscripts e a versão em latim do Necronomicon (14). Tudo deixado nas prateleiras carcomidas do escritório no segundo pavimento. A congregação também abandonou a misteriosa gema que chamavam Trapezoedro Brilhante. Qual motivo fez com que os fiéis deixassem para trás sua mais sagrada relíquia é uma incógnita. É possível, no entanto que isso tenha se devido a duas hipótese: que essa foi uma ordem do próprio Assombro na Escuridão ou que os cultistas tenham temido remover o artefato de seu lugar de descanso na Igreja sem atrair a ira da entidade.

Seja como for, o Trapezoedro ficou na Igreja por décadas, intocado até ser acidentalmente descoberto pelo autor Robert Blake (15), o que levou a  uma série de eventos cumulando com a bizarra morte deste e o desaparecimento do artefato nas águas da Baía de Narragasett.

Após deixar Providence, a maior parte do culto se espalhou, com a maioria deles seguindo para o oeste dos Estados Unidos. Acredita-se que o Dr. Flagg, entretanto, imigrou para a a Inglaterra. Uma seita chamada Sabedoria Estrelada surgiu em Yorkshire, por volta de 1880, liderada por uma figura que muitos acreditavam ser o Dr. Flagg usando uma nova identidade. Sem o Trapezoedro, a seita teve existência curta, encontrando oposição de outros grupos devotados a Nyarlathotep. A antiga Igreja Católica adotada pela congregação como sua sede foi abandonada em 1890. 

Membros do Culto possivelmente se estabeleceram em Chicago onde deram origem a uma dissidência da seita que adotou o nome Culto da Providência Celestial. Este foi destruído em 1871 por um incêndio. O mesmo Culto também tentou se fixar em Arkham com o nome de Capela da Contemplação (16), no início do século XX, mas este acabou se desintegrando após a morte de seu líder.

Conforme dito, alguns membros da Seita buscaram se estabelecer na Califórnia, se refugiando na área de Los Angeles que experimentou uma febre de movimentos e igrejas nos anos 1920 (17). Nas décadas seguintes, o culto floresceu, conduzindo rituais nas colinas a oeste da cidade, congregando um bom número de pessoas e até algumas celebridades de Hollywood. Um grupo derivado desse reemergiu no final do século XX na zona urbana de Los Angeles, liderada por um carismático líder - possivelmente de origem jamaicana - chamado Reverendo Nye (18). Ele afirmava ter em seu poder o Trapezoedro Brilhante, o que é pouco provável.

Mais recentemente, rumores se espalharam à respeito de uma nova Igreja da Sabedoria Estrelada no Canadá. Essa congregação, é muito discreta em suas atividades, e não é possível saber ao certo se ela compartilha da mesma afiliação e doutrina que a original. 

Observação: Há rumores ainda de que existem Igrejas reais da Sabedoria Estrelada sediadas na Florida e Califórnia. Mas o que elas professam fica aberto a interpretações. (19)  

Notas:

(1) O Mythos de Cthulhu é uma vasta coleção de conhecimento e saber profano, versando à respeito de antigos deuses e entidades cósmicas de enorme poder. O Grande Cthulhu é a figura central dessa mitologia particular que é encontrada em diversas culturas e épocas.

(2) Federal Hill de fato existe, é uma vizinhança que ocupa o centro da cidade de Providence, no estado de Rhode Island. A região foi originalmente ocupada por imigrantes, sobretudo italianos na virada do século. 

(3) Enoch Bowen é tratado como um conceituado arqueólogo e ocultista, nascido em Providence. Sua especialização era em filologia e ele lecionava na Universidade Brown.  Entre seus trabalhos mais conhecidos estão as publicações de Descrições de Escavações em Tell-Basta (1833), Cultos Sacrificiais do Egito Ptolomáico (1839) e Escavações no Egito pré-Dinástico (1842). Ele também publicou o manual oculto "O Caminho para a Escuridão" usando um pseudônimo. 

(4) Conhecido como "O Faraó Negro", Nephrem-Ká tem uma longa e sinistra ligação com os Mythos de Cthulhu. Para detalhes concernentes à respeito dessa figura, ler o artigo Dinastias do Horror - A Longa e Terrível História do Egito do Mythos (http://mundotentacular.blogspot.com/2020/04/dinastias-do-horror-longa-e-terrivel.html)

(5) Saqqara (em português Sacará) é um sítio arqueológico do Egito, que funcionou como necrópole da cidade de Mênfis, no passado dinástico uma das capitais da civilização. O nome Sacará, decorre de Sacáris, um Deus protetivo da região. Várias descobertas significativas foram feitas nos arredores de Saqqara que recebeu enorme interesse de expedições arqueológicas ao longo dos últimos séculos. para mais à respeito ver o link (https://pt.wikipedia.org/wiki/Sacar%C3%A1)

(6) É possível que o Labirinto de Kish, que é fictício, tenha sido inspirado pelo verdadeiro Labirinto Egípcio. Para mais informações à respeito, remeter para o artigo "O Lendário Labirinto Egípcio" (http://mundotentacular.blogspot.com/2020/04/lugares-estranhos-o-lendario-labirinto.html)

(7) O Culto conhecido como Igreja do Livre Arbítrio (Free-Will Church) de fato existe e é um ramo batista fundada em meados de 1600. Para mais informações à respeito, veja o link ( https://en.wikipedia.org/wiki/Free_Will_Baptist

(8) Não especificamente Richard Flagg, mas Randal Flagg é um nome comumente associado a Nyarlathotep, o infame Caos Rastejante. Leitores de Stephen King lembrarão que o personagem é um dos maiores vilões em seus romances aparecendo de forma central na trama de "Dança da Morte" (Dance of the Dead). Para mais detalhes à respeito de Randall Flagg, ver o link https://en.wikipedia.org/wiki/Randall_Flagg

(9) O Trapezohedro Brilhante é parte central no conto de H.P. Lovecraft "The Haunter in the Dark" e um dos mais poderosos artefatos do Mythos. Para uma descrição completa dele, remeter para o artigo Artefatos do Mythos - O Lendário Trapezoedro Brilhante (http://mundotentacular.blogspot.com/2021/09/artefatos-do-mythos-o-lendario.html) .

(10) A descrição do Assombro na Escuridão pode ser encontrada no artigo seminal ( http://mundotentacular.blogspot.com/2021/10/assombro-na-escuridao-entidade-de.html )

(11) A importância de Nyarlathotep para os Mythos de Cthulhu é marcante. O Deus Exterior é das entidades mais conhecidas e poderosas da mitologia. Detalhes à respeito dele podem ser encontrados no artigo "Nyarlathotep, o Caos Rastejante: Coração e Ama dos Deuses Exteriores"                           http://mundotentacular.blogspot.com/2020/04/nyarlathotep-o-caos-rastejante-alma-e.html

(12) O decrépito tomo de conhecimento ancestral intitulado "Cult des Goules" é apreciado no artigo a seguir http://mundotentacular.blogspot.com/2010/07/paginas-dos-malditos-folheando-o-cultes.html

(13) O Livro de Dzyan pode ser apreciado em mais detalhes aqui http://mundotentacular.blogspot.com/2011/09/o-livro-dzyan-o-mais-antigo-livro-da.html

(14) O Necronomicon é o mais poderoso e completo dos tratados místicos contendo conheciemnto do Mythos de Cthulhu. Para uma descrição completa do livro e seu conteúdo, remeter ao artigo http://mundotentacular.blogspot.com/2012/02/paginas-amaldicoadas-tumultuada.html

(15) Robert Blake é um personagem fictício do conto "The Haunter of the Dark" de Lovecraft. Ele foi um pintor e autor de contos de horror que viveu em Providence. Após um curto envolvimento numa investigação à cerca do Trapezoedro e da Seita da sabedoria estrelada, o corpo de Blake foi encontrado em seu estúdio, vítima de uma morte em circunstâncias peculiares. Opersonagem Blake foi inspirado pelo autor e amigo de Lovecraft, Robert Bloch. Para mais à respeito de Robert Bloch remeter ao artigo (O Prodígio da Weird Tales" ( http://mundotentacular.blogspot.com/2012/11/o-prodigio-da-weird-tales-robert-bloch.html )

(16) A Capela da Contemplação é um Culto Menor estabelecido na cidade de Arkham e que figura de forma proeminente no cenário do RPG Chamado de Cthulhu, "A Assombração" (The Haunting). A Associação é uma presunção do autor que parecia deliciosa demais para deixar passar.

(17) A bem documentada "febre dos Cultos" em Los Angeles foi um fenômeno que marcou a cidade na costa oeste. O fato é real e merece um artigo em breve no blog.

(18) Pouco se sabe à respeito do Reverendo Nye ou sua biografia. Alguns supõem que ele seria apenas um charlatão tentando se aproveitar da história da Sabedoria estrelada, enquanto alguns supõem que ele poderia ser um avatar humano de Nyarlathotep, ligado ao infame "Homem Negro". A verdade sobre essas alegações é incerta.

(19) Essa observação final é acurada. Existem supostos cultos conhecidos como Sabedoria Estrelada (Starry Wisdom) estabelecidos em Miami e na Califórnia. Para quem estiver curioso o bastante, é possível visitar a página  

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