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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Peter Niers - O maior assassino em série da Idade Média


Uma pergunta filosófica sobre a maldade é se o Mal pode ser quantificado?

Existe alguma escala que define o que é o mal em seu estado mais terrível?

Talvez não, mas se uma pessoa pudesse ser usada como parâmetro do mais alto grau de maldade e perversidade, este alguém poderia ser o alemão Peter Niers.

Se sua própria confissão que antecedeu a sua brutal execução for verdadeira, esse obscuro cidadão que viveu na Alemanha do Século XVI assassinou nada menos do que 544 pessoas — 24 das quais mulheres grávidas que ele matou para obter seus fetos.

As histórias sobre Peter Niers podem ser menos conhecidas do que as de Vlad, o Empalador, Elizabeth Bathory, ou mesmo Jack, o Estripador mas não são menos horripilantes. Niers foi por muito tempo uma espécie de Bicho Papão na Europa Medieval e sua fama (ou melhor dizendo infâmia) atravessava fronteiras se espalhando por territórios, reinos e povos distantes. De certa maneira ele pode ter sido o primeiro exemplo de um fenômeno que muitos julgam recente, um sinal da decadência da nossa civilização moderna - o assassino alçado ao posto de celebridade.

No século XVI era possível viajar de Kievan Rus, nos limites da Rússia Europeia até Lisboa e escutar histórias sobre o assassino Peter Niers. Também era possível visitar os limites da Escandinávia até o Norte da África e ouvir relatos de pessoas que haviam ouvido falar através de conhecidos ou por intermédio de viajantes sobre os horríveis atos desse monstro. O caso de Niers foi discutido nos corredores da Universidade de Cambridge na Inglaterra, foi debatido em Salamanca na Espanha e chegou a ser tratado nas altas cortes de justiça de Veneza.

Dizia-se que Niers era um mestre da magia negra que podia se tornar invisível, assumir a forma de um gato, um cachorro ou uma cabra uma vez que dominava a arte da transformação. Ele ainda podia alterar sua aparência física, se fazer passar por um velho, por um noviço, por um nobre e por uma mocinha virginal para despistar seus perseguidores. Niers conseguia usar seu "olhar aterrorizante" para encantar pessoas: seus olhos transmitiam uma descarga de energia maligna que cegava, causava convulsões e podia matar em instantes. Seu sopro carregava um veneno similar ao do Basilisco. As pessoas que ele matava podiam ser transformadas em mortos vivos tamanho seu mal. A lista de poderes era enorme.

 
Não havia consenso, mas alguns estudiosos que se debruçaram sobre a lenda suspeitavam que a origem dos poderes profanos de Niers provinham de um pacto que ele firmara com o diabo em um cemitério na noite de Walpurgisnacht. Niers teria oferecido as almas e o sangue de sua esposa, de três filhos e da própria mãe em um ritual profano. Mais medonho ainda, sua esposa estaria grávida, e o Diabo sugeriu que ele seria ainda mais poderoso se arrancasse o filho não nascido do ventre da mulher e o devorasse. Há vertentes que afirmavam que ele seria um monge que descobriu um segredo do demônio em um pergaminho num monastério e que chantageou o próprio Diabo para que ele o tornasse seu comensal, com direito a toda sorte de poderes. Finalmente, alguns afirmavam que os poderes do maníaco eram de berço e que ele teria os descoberto ao longo dos anos, junto com o conhecimento de que ele próprio era descendente de sangue de Judas Iscariotes, do Imperador Nero ou ainda de Atila, o Huno.  

Um elemento recorrente indicava que a maioria de suas incríveis habilidades e poderes místicos decorriam do canibalismo, especialmente aquele que envolvia bebês humanos, uma fonte de energia que era frequentemente reabastecida pelo maníaco em suas orgias sanguinárias. Peter Niers supostamente guardava as mãos e os pés decepados de bebês em uma bolsa de couro o tempo todo. Mantinha-a perto de si pois dela extraía a energia que alimentava suas façanhas sobrenaturais. Se alguém tocasse essa bolsa feita de pele humana, uma maldição transformaria o pobre infeliz em um escravo do próprio feiticeiro.

Com todas essas lendas e mitos bizarros ao seu redor, não é de se admirar, que o assassino tenha se convertido num dos piores vilões da história. Mas o que é verdade e o que não passa de lenda quando se procura fatos à respeito de Peter Niers? Seria ele meramente a soma de incontáveis boatos infundados e de exageros? Ou haveria um fundo de verdade em tudo que se contava sobre ele? Seria o sujeito nada mais do que uma fraude de seu período histórico? Ou esse monstro com forma de homem realmente existiu?  

Vamos examinar o que temos sobre esse terrível sujeito.

Peter Niers emergiu em meio a um período conturbado da Alemanha, na época uma colcha de retalhos de pequenos reinos e cidades estado não muito diferentes dos feudos que existiam no alto medievo. Ele nasceu em uma família camponesa nos arredores de Nuremberg em meados de 1540. Durante o auge da servidão, Niers testemunhou em primeira mão as lutas de classe. Sem dúvida, as condições de vida desumanas e o tratamento dispensado à classe camponesa foram um catalisador para sua posterior sociopatia. Os boatos apontam que ele já tinha a marca do assassino, uma ferida rosácea que lhe marcava a bochecha direita.   

A onda de assassinatos de Niers começou quando ele e sua família se envolveu nas revoltas camponesas que tomaram conta do país após 1525. Também conhecida como Guerra dos Camponeses Alemães, essa revolta foi a maior da Europa até a Revolução Francesa. Os camponeses se organizavam em bandos que viajavam pelas estradas invadindo castelos, mosteiros e cidades. Eles odiavam os ricos Senhores de Terras e durante suas incursões os matavam sem a menor piedade. 


Essa revolta na Alemanha levou a um longo período de agitação e caos. 

Os grupos de camponeses miseráveis, transformados em salteadores itinerantes, se espalhavam pelas estradas e faziam vítimas em toda parte. As turbas podiam arregimentar algo entre 50 a até mil indivíduos. Eles matavam mercadores sufocando assim o comércio e foram responsáveis por uma crise de desabastecimento nas grandes cidades. Nenhum mercador queria correr o risco de percorrer o interior da Alemanha e como resultado havia fome e carestia. Os índices de criminalidade dispararam de tal forma que o país se tornou o mais perigoso de toda Europa. Registros da época revelam que os assassinatos representaram de 11% a 15% dos crimes na Alemanha entre as décadas de 1570 e 1590.

Foi nesse contexto de violência que Peter Niers surgiu depois de ser libertado das glebas por um bando de salteadores. Não demorou para ele próprio formar seu bando na Alsácia, Fronteira com a França, uma cidade situada no epicentro do conflito. Acredita-se que Niers tenha sido inspirado por Martin Stier, um pastor e assassino que organizou 500 pessoas em um temido bando de saqueadores. Stier e seus homens viajavam longe, chegando até a Holanda. Após 22 anos de crimes, Stier foi executado em 1572, mas não antes de orientar Niers e torná-lo um mito.

Niers liderava um grupo rotativo composto por algo entre 100 e 200 bandidos, um bando relativamente pequeno mas que aterrorizou o coração da Europa por anos, roubando e assassinando viajantes em estradas remotas. O grupo se dividia para realizar ataques menores e se reunia com comparsas ocasionais para ações maiores. Eles teriam invadido e ateado fogo em vilarejos num frenesi de violência poucas vezes visto. Os rufiões de Peter Niers, que vestiam trajes escarlates (para disfarçar o sangue) atacavam castelos deixando ruínas fumegantes após sua passagem. Nem mesmo monastérios eram poupados, especialmente ordens de freiras que eles adoravam violar. Eventualmente, o bando se tornou ousado o suficiente para atacar cidades grandes como Strasbourg e Landau afim de assassinar, estuprar e atacar cidadãos, roubando seus bens.

O bando de Niers percorreu centenas de quilômetros pelo sul da Alemanha, oeste da França, Renânia e Baviera. A extensa rede de crimes do bando espalhou as histórias de seus delitos por toda a Europa e provavelmente reforçou o folclore em torno de Peter Nier e seus crimes. As autoridades conheciam bem o nome de Niers como o chefe do bando, mas não havia uma descrição de sua aparência e de seu paradeiro. De fato, o bando era praticante nômade e não fazia planos para se estabelecer em lugar algum - tiravam tudo o que podiam de uma determinada província e quando esta começava a se exaurir, seguiam adiante. Além disso, ele contava com uma rede de informantes e olheiros que forneciam dicas sobre lugares vulneráveis onde a guarda era menos rígida. Tudo isso dificultava sua captura.


Nesse período há relatos sobre atrocidades cometidas por Peter Niers e seus homens. Crimes hediondos não eram algo raro no período, mas de alguma forma ele parecia se esmerar no terror o que conferiu aos Escarlates grande fama e uma aura de medo que os acompanhava. Niers teria liderado a destruição de um mosteiro franciscano, o assassinato de toda família de um Barão em Rheins e o incêndio de um celeiro com mulheres e crianças dentro, perto de Koblenz. 

Em 1577, Niers e membros de seu bando foram capturados após 11 anos de andanças e muito terror. Um dos cúmplices de Niers os denunciou e, consequentemente, ele foi torturado para confessar seus muitos crimes. Ele teria confessado 75 assassinatos, alguns dos quais explicavam diversos casos de mulheres desaparecidas na região. O assassino contou que em cada cidade que visitava matava uma mulher - de preferência uma jovem e virgem. 

Após passar cinco dias na masmorra local, Niers conseguiu escapar e evitar a inevitável execução. Dizem que o assistente do torturador achou que o prisioneiro estava morto e mandou seu corpo ser preparado para o esquartejamento, mas ele ainda estava forte o bastante para escapar. A fuga se tornou famosa incluindo relatos sobre o uso de magia negra e invisibilidade. Depois disso, as histórias sobre Peter Niers atingiram níveis folclóricos. Panfletos, livros e canções sobre ele circulavam pela Alemanha apresentando seus atos de canibalismo, os rituais de magia negra e suas habilidades sobrenaturais.

De acordo com uma coleção de panfletos redigidos por Johann Wick, possivelmente o primeiro repórter criminal da história, o assassino invocou o Diabo na floresta perto de Pflazburg, na França, e recorreu a esses poderes para cometer seus crimes. As histórias também afirmavam que, antes de sua execução, Stier treinou Niers na arte da magia negra. Wick, que acompanhou de perto os crimes publicou mais três panfletos sobre o criminoso entre 1577 e 1583 revelando a extensão da sua depravação. 

Historiadores relatam que praticantes de magia negra alemães dessa época acreditavam que velas feitas com pele e gordura de fetos conferiam invisibilidade e outros poderes sobrenaturais. A lenda também afirmava que o canibalismo poderia dar a alguém a capacidade de se transformar em árvore, pedra ou animal. Como necromante, acreditava-se que Niers havia adquirido um gosto por infanticídio.


Após a sua fuga, Niers supostamente mudou de aparência para evitar sua captura. Por algum tempo ele usou o disfarce de leproso e assim conseguiu chegar até a fronteira da França onde ficou escondido. Em seu mandado de prisão, emitido no ano de 1579, o criminoso era descrito como "grisalho, enrugado e com dentes podres", ele também tinha dedos tortos e uma cicatriz facial causada por um ferro em brasa empunhado pelo seu torturador. A Bolsa de Pele humana contendo pés e mãos de fetos também era citada, com a advertência expressa para que ninguém a tocasse.

Finalmente, em 1581, a carreira de Niers como assassino em série chegaria a um fim apropriadamente perturbador. A essa altura, ele já era bem conhecido em todo o país. Ele tentou se esconder em uma hospedaria em Neumarkt chamada "Os Sete Sinos". Ele pediu ao dono do estabelecimento que guardasse uma peculiar bolsa de couro para que pudesse visitar a casa de banhos local.

Enquanto Niers tomava banho, clientes da estalagem confrontaram o estalajadeiro para que ele abrisse a bolsa de couro. Dentro dela estavam corações e mãos ressecados de fetos. Percebendo que se tratava de pertences de um necromante, os moradores o denunciaram ao Condestável. Niers foi capturado na casa de banhos sem qualquer resistência.  Muitos acreditavam que ele foi preso com tanta facilidade porque havia sido separado de sua bolsa mágica. Ele se entregou mas tentou manter sua identidade em segredo.

Os eméritos juízes de Neumarkt não tinham ideia que estavam com o infame Peter Niels em suas mãos mas quando se deram conta se apressaram para realizar o julgamento. Eles queriam ser reconhecidos como os responsáveis pela captura do maior vilão da Alemanha. Durante o processo deram a ele uma amostra de seu próprio veneno, infligindo-lhe uma tortura particularmente violenta para que contasse tudo que havia feito em sua vil existência. Funcionou já que reconheceu a autoria de mais de 500 mortes.

Com a confissão decidiram que ele seria executado com um longo e elaborado processo dividido em três etapas. No primeiro dia, a pele de suas costas foi arrancada com pinças incandescentes e óleo quente foi derramado sobre as feridas. No segundo dia, seus pés foram untados com óleo e colocados sobre brasas até se incendiarem, numa tentativa de assá-lo vivo. No terceiro dia, um domingo, Niers foi amarrado à Roda do Despedaçamento. Este infame instrumento de tortura medieval era uma grande peça redonda de madeira projetada para quebrar ossos e esmagar a pessoa até a morte.


De alguma forma, talvez devido a um de seus supostos Pactos com o Diabo, Niers ainda não havia morrido após a roda esmagar boa parte de seu corpo. As pessoas que vieram de longe para assistir a execução ficaram chocadas com esse fato. O carrasco teve que decapitar Peter Niers para finalmente concluir a execução já que ele simplesmente não morria. Em uma versão da época, ele só realmente morreu quando sua bolsa foi incinerada em um forno.

A combinação do folclore popular contemporâneo com a passagem do tempo tornou os detalhes da vida e dos crimes de Niers um tanto quanto imprecisos. Seus crimes e o número de vítimas provavelmente foram exagerados. Separar fato de ficção é ainda mais complicado graças aos relatos de dois criminosos contemporâneos, os assassinos em série Christman Genipperteinga e Peter Stumpp. De uma forma bizarra, os crimes dos três assassinos parecem ter sido combinados em uma mesma pessoa - no caso a mais famosa: Peter Niers. Genipperteinga teria assassinado 964 pessoas e também foi executado na roda da morte enquanto Stumpp acreditava ser um lobisomem e teria devorado 14 crianças. Ele também era conhecido, assim como Niers, por ter feito um pacto com o Diabo.

Como não existem relatos que afirmem que Niers era uma farsa, os registros do seu interrogatório, obtidos sob tortura, são considerados peças legítimas do Processo Criminal. Nele estão reunidos vários nomes e descrições de pessoas que o assassino teria elencado e dos quais ainda se recordava. Com o número de suas vítimas na casa das centenas, esse bicho-papão medieval pode muito bem ser considerado um dos assassinos em série mais prolíficos de todos os tempos.

terça-feira, 17 de março de 2026

O Envenenador - Os crimes hediondos do Dr. Cream


Entre outubro de 1891 e abril de 1892, uma série de assassinatos assolou a Metrópole de Londres com um terror que lembrava o medo que cercou os assassinatos de Jack, o Estripador, ocorridos apenas três anos antes. Uma vez mais, as vítimas eram prostitutas, mas desta vez o método utilizado pelo assassino era o envenenamento. E apesar do que muitos podem imaginar, uma morte ocasionada por uma substância tóxica pode ser incrivelmente dolorosa, cruel e aterrorizante.

Diferente dos crimes do Maníaco de Whitechapel, as mortes perpetradas pelo infame Envenenador de Lambeth tiveram uma solução resultando em sua captura.

O assassino foi capturado e identificado como o Dr. Thomas Neill Cream, que já havia sido condenado por assassinato com estricnina nos Estados Unidos. De fato, se ele não tivesse sido libertado antecipadamente da prisão de Joliet, em Chicago, quatro jovens londrinas teriam sido poupadas de uma morte excruciante em suas mãos.

Thomas Neill Cream nasceu em Glasgow, Escócia, em 1850 e emigrou para o Canadá em 1854. A família tinha uma boa condição financeira e o pai, William Cream, tornou-se gerente de uma empresa madeireira e de construção naval em Quebec. O jovem Thomas era uma criança curiosa, ainda que solitária, sempre interessada em explorar o ambiente que o cercava. Não raramente ele vagava sozinho pelas florestas onde descobriu um tipo perturbador de passatempo que tratou de manter em segredo: torturar animais. Com apenas 9 anos o rapazinho atraía gatos, cães, pássaros e esquilos com alimento que levava consigo quando passeava pelas matas. Embora a mãe de Thomas pensasse que o menino tinha bom coração, ele costumava misturar veneno ao alimento que oferecia aos pobres animais. Ele adorava vê-los se contorcer, espumar e morrer. Aquilo dava ao menino um prazer secreto que ele jamais esqueceu.

O sucesso da família permitiu enviar o promissor Thomas para a Universidade McGill, em Montreal. Lá ele estudou medicina com ênfase em produtos farmacêuticos. Ele se formou em 1876 após concluir uma tese sobre os efeitos do clorofórmio no organismo humano. Por volta da mesma época, ele ficou noivo de Flora Eliza Brooks, cujo pai, Lyman Henry Brooks, era dono de um hotel nos arredores da cidade de Quebec. Em setembro daquele ano, Flora adoeceu e seu pai a levou a um médico, que lhe disse que Eliza havia feito um aborto recentemente. Enfurecido, Lyman Brooks obrigou Thomas a se casar com sua filha sob a mira de uma arma.

O casamento obviamente foi marcado por abuso e descaso. Eventualmente ele abandonou a esposa e se refugiou nas Ilhas Britânicas para concluir seus estudos. Em 1878, Thomas obteve uma licença em obstetrícia pelo Royal College of Physicians and Surgeons em Edimburgo. Enquanto estava fora, Flora contraiu bronquite e, em agosto de 1877, morreu de tuberculose. Sua morte seria posteriormente vista com suspeita, já que Cream havia prescrito medicamentos para ela antes de partir e a instruído a não deixar de tomar os remédios.


Tendo concluído seus estudos e encontrando-se livre e desimpedido Cream retornou ao Canadá onde havia crescido. Ele abriu um consultório particular nos arredores de Ontário onde se tornou um médico bastante respeitado pela comunidade local. De fato, Cream chegou a ganhar comendas e homenagens por oferecer auxílio a pessoas pobres que não teriam como pagar pelos seus serviços.

Mas em maio de 1879, Kate Gardener, uma das pacientes do Dr. Cream foi encontrada morta em um anexo atrás de seu consultório. Uma autópsia foi conduzida e o resultado foi estranho: overdose de clorofórmio. No inquérito, Sarah Long, uma colega de quarto testemunhou que Kate estava grávida e havia procurado o Dr. Cream para "corrigir a situação". Cream alegou que a estava tratando de "senescência" e que não lhe havia administrado nenhum medicamento abortivo. Ele concluiu que a morte foi decorrente de suicídio. Como não havia provas suficientes para indiciar Cream, ele acabou se livrando sem maiores questionamentos.

Contudo Sarah Long testemunhou que o Dr. Cream não apenas tratou sua colega como também sugeriu que ela poderia ganhar dinheiro acusando algum médico residente de tê-la engravidado. Sarah suspeitava que o próprio Dr, Cream poderia ser o pai da criança. Os rumores continuaram se espalhando e o escândalo prejudicou o jovem médico. Em meio a várias teorias, um médico experiente procurou a polícia alegando que seria virtualmente impossível uma pessoa ter uma overdose de clorofórmio sem ajuda externa. Um novo júri foi convocado para analisar as provas oferecidas, mas antes que ele pudesse expressar sua decisão o acusado desapareceu.

Ele se mudou para a cidade de Chicago onde abriu um consultório perto da notória zona de prostituição no West Side. Em 1880, o Dr. Cream já era conhecido pela polícia como abortista, às vezes auxiliado por uma parteira afro-americana chamada Hattie Mack. A reputação de Cream entre as mulheres da área era terrível. Algumas o acusavam de ter realizado abortos sem as mínimas condições para garantir a integridade das gestantes. Seu consultório não raramente era descrito como um "açougue" ou então "abatedouro". Rumores davam conta de que mais de uma mulher havia morrido em sua mesa de cirurgia e que ele costumava preservar os fetos abortados em potes de geleia. Ele tinha enorme prazer em mostrar sua "coleção" aos que visitavam seu consultório.

Pouco depois, outro boato tenebroso correu pela vizinhança afirmando que Cream oferecia uma espécie de poção abortiva para as mulheres e que a misteriosa fórmula havia sido a causadora de óbitos. Finalmente, circulava um persistente mexerico sobre ele aceitar favores sexuais como pagamento pelos seus serviços. Apesar de tudo, o Dr. Cream ainda conseguia equilibrar suas finanças atendendo em hospitais locais e oferecendo suas habilidades como obstetra.


Em agosto de 1881, Hattie Mack, a ajudante do Dr. Cream mudou-se às pressas da Rua Madison e passou a residir em um pequeno apartamento alugado pelo seu empregador. Algumas semanas mais tarde, vizinhos sentiram um cheiro ofensivo na casa que ela havia deixado vazia. A polícia encontrou um corpo em avançado estado de decomposição no porão. Ratos a haviam devorado parcialmente, mas ela foi identificada como Mary Ann Faulkner uma prostituta que trabalhava no West Side.

Hattie Mack foi presa e rapidamente se voltou contra Cream. Ela confirmou que ele era um abortista que havia realizado até quinze abortos em um único bordel. Ele lhe disse que havia realizado pelo menos 500 abortos em pouco mais de um ano. Mack alegou que Cream a havia forçado a acolher Faulkner enquanto ela se recuperava de um aborto com complicações. Cream rebateu dizendo que Mack o havia procurado em busca de ajuda depois dela ter tentado o procedimento em Faulkner. Cream foi julgado por assassinato, mas o júri não estava disposto a aceitar a palavra de uma mulher negra contra a de um jovem e belo médico. Cream foi absolvido.

Mais tarde naquele mesmo mês, outra paciente de Cream morreu após tomar um medicamento que ele havia prescrito. Ele tentou culpar e extorquir dinheiro do farmacêutico, Frank Pyatt, mas este foi à polícia denunciar a conduta do médico. A investigação não foi conclusiva. Algum tempo depois, Cream tentou chantagear um de seus pacientes que não havia pago a conta e quando esta se negou a pagar, ele alegadamente a estuprou e depois tentou esganá-la. Ele novamente se livrou da acusação recorrendo ao seu charme e simpatia.

Em fevereiro de 1882, a Sra. Julia Stott, de Belvidere, Illinois, foi ao consultório do Dr. Cream para obter comprimidos para seu marido, Daniel, depois de ver um anúncio sobre um remédio para a epilepsia. Daniel começou a apresentar sinais de melhora, e Julia retornou várias vezes para obter mais comprimidos. Em junho, Daniel morreu e a causa da morte foi determinada como convulsão epiléptica. Cream telegrafou ao legista dizendo que a verdadeira causa da morte foi um erro cometido pelo farmacêutico que dispensou a receita. Ele também ajudou Julia Stott a entrar com um processo contra o farmacêutico. O legista cético deu uma amostra da receita a um cachorro e quinze minutos depois, o animal estava morto. O corpo de Daniel Stott foi exumado e descobriu-se que seu estômago e intestinos continham estricnina suficiente para matá-lo três vezes.

Quando a polícia foi até a casa do Dr. Cream descobriu o lugar vazio. Avisado por um escrivão que trabalhava na delegacia, ele fugiu novamente retornando ao Canadá. Mas o médico foi preso em Ontário tentando vender alguns títulos falsificados. Ele foi escoltado de volta a Chicago para ser julgado.

Thomas Cream utilizou seus recursos restantes para contratar um dos melhores advogados de Chicago e se dedicou a transformar o caso em um acontecimento da mídia. Julia Stott tornou-se testemunha da acusação e contou ao tribunal que Cream a havia seduzido. Ele teria arquitetado o plano para envenenar seu marido e chantagear a empresa farmacêutica. Cream adulterou os comprimidos e, quando seu marido os tomou, morreu quase instantaneamente. Outra testemunha, Mary McClellan, testemunhou que ouviu Cream falando sobre o assassinato de Stott antes que o caso fosse divulgado. Não era de conhecimento público, mas Cream havia seduzido, abortado e abandonado a filha de Mary McClellan.


O médico argumentou que as acusações eram absurdas e partiam de pessoas que guardavam um rancor injustificado contra ele. Em suas palavras Julia Stott era uma mulher vingativa que havia feito ameaças contra seu marido e adulterado os comprimidos ela mesma. Os argumentos de Cream pareciam convincentes e ele os sublinhava com um charme inabalável. Mas desta vez, o júri não acreditou em suas desculpas e o considerou culpado de assassinato.

Thomas Neill Cream foi mandado para a Penitenciária Estadual de Illinois em Joliet onde deveria cumprir pena de prisão perpétua. Até onde se sabe, ele foi um prisioneiro modelo que auxiliava na enfermaria da prisão e que havia salvo ao menos dois colegas realizando neles procedimentos médicos emergenciais. O médico residente da prisão ficou tão impressionado com a façanha que chegou a escrever um artigo no qual louvava a habilidade do médico e seu zelo.

Após cumprir dez anos de sua pena, o Cream herdou US$ 16.000 como herança pela morte de seu pai. Logo em seguida, ele foi declarado “um sujeito apto e adequado para clemência executiva”. Sua pena foi reduzida para 17 anos e, com o bom comportamento, ele foi libertado no ano seguinte. Presume-se que o irmão de Cream tenha feito pagamentos a políticos influentes de Illinois para garantir sua libertação.

Algumas pessoas afirmam que o Dr. Cream tentou encontrar Julia Stott para se vingar, chegando a contratar a famosa Agência de Detetives Pinkerton para determinar seu paradeiro, mas ele acabou desistindo da busca. Aqueles que o conheceram mais intimamente afirmaram que o período na prisão havia tornado o médico um homem amargo e com um desequilíbrio flagrante, sobretudo quanto a mulheres que ele culpava pela sua derrocada.

Há boatos de que Cream teria exercido a medicina sem os documentos necessários em um quartinho alugado numa pensão sórdida de Chicago. Ele teria retomado sua prática como abortista, tendo conduzido dezenas de procedimentos. Um número chocante de suas clientes teriam morrido de hemorragia severa na mesa de cirurgia - o velho açougueiro estava de volta. A um amigo ele teria confidenciado certa vez: "Não importa quantas vadias vem até mim, sempre haverão outras. Eu faço um favor à sociedade deixando que elas e suas crias imundas simplesmente morram."

A polícia investigou a denúncia de um médico realizando abortos na região e temendo ser capturado novamente, Cream decidiu se mudar para a Inglaterra.


O médico se estabeleceu em Londres, atendendo no caótico East End da capital do Império, oferecendo "toda sorte de atendimento médico, tratamento e cirurgia especializada", ou ao menos era isso que dizia a tabuleta na entrada de seu consultório. O lugar, uma sala imunda sobre uma loja de artigos de couro, era a fachada perfeita para a especialidade do médico: abortos.

Aqueles que conheceram o Dr. Cream naquele período o descrevem como um sujeito estranho, irritadiço e com uma obsessão patológica contra mulheres. Um misógino contumaz, ele costumava fazer discursos quando embriagado de gim, nos pubs da região. Em várias ocasiões havia destilado seu ódio contra as mulheres em especial as que chamava de meretrizes. Certa vez jogou um copo e feriu o rosto de uma mulher que estava apenas passando quando ele falava. Cream também desenvolveu um grave vício em drogas que custaram a ele boa parte do controle necessário para realizar cirurgias. Apesar dos tremores ele continuava exercendo a medicina de forma errática, usualmente bêbado, frequentemente delirante.

O senhorio que alugava o espaço para seu consultório descreveu o comportamento de Cream da seguinte maneira:

"As mulheres eram sua obsessão, e suas conversas sobre elas eram tudo menos agradáveis. Ele carregava consigo fotografias pornográficas, que estava sempre disposto a exibir. Mostrava também livros médicos com desenhos chocantes de procedimentos cirúrgicos. Estes sempre mostravam mulheres abertas como peixes numa feira. Ele disse certa vez que comeu um feto que extraiu de uma cliente. Contou isso rindo até se urinar. Tinha o hábito de tomar comprimidos que, segundo ele, eram compostos de estricnina, morfina e cocaína, e cujo efeito, declarava, era afrodisíaco. Em suma, era um degenerado de hábitos e práticas imundas que eu me arrependo de ter conhecido".

Em 13 de outubro de 1891, Ellen Donworth, uma prostituta de 19 anos, foi morta com uma dose maciça de estricnina. Uma semana depois, Matilda Clover, outra prostituta de 27 anos, também morreu intoxicada. Seu corpo foi achado num beco atrás do consultório do médico. Na época nada ligava Cream a essas mortes, mas as duas eram clientes dele.

Em dezembro Cream fez uma estranha viagem de volta ao Canadá. Na ocasião ele comprou 500 comprimidos de estricnina de uma empresa farmacêutica em Saratoga, Nova York. Ele retornou a Londres com sua carga mortal e imediatamente os envenenamentos recomeçaram.


A primeira vítima foi Louise Harvey que recebeu dois comprimidos de estricnina e os tomou acreditando que eram pílulas para dor de cabeça. Alguns dias depois duas jovens prostitutas, Alice Marsh e Emma Shrivell, foram envenenadas depois de passarem uma noite na companhia de Cream. Ele lhes prescreveu comprimidos "para que pudessem dormir de forma mais tranquila". As duas morreram experimentando horríveis convulsões e crises de vômito crônico. Outras mulheres foram intoxicadas por doses de veneno colocadas em remédios comuns para dor de cabeça. O caso ganhou publicidade e o assassino misterioso passou a ser conhecido pela imprensa como o "Envenenador de Lambeth".

Os crimes denotavam os sintomas de um comportamento errático que beirava a insanidade. Posteriormente Thomas Cream teria dito que planejava envenenar todas as mulheres do East End e "causar o maior número possível de mortes entre as vadias". Mas seu plano acabou falhando quando a notícia sobre um criminoso utilizando Pílulas de Estricnina chegou até a empresa que vendeu o medicamento nos Estados Unidos. Desconfiados do sujeito que realizou uma enorme compra, eles entraram em contato com a Scotland Yard. A essa altura, a polícia já estava perto de capturar o criminoso após investigar cartas enviadas a alguns farmacêuticos que vinham sendo chantageados.

Em 21 de outubro de 1892, após uma breve investigação o médico recebeu ordem de prisão e se entregou com um sorriso cínico no rosto. O julgamento foi notavelmente rápido, dado seu histórico horripilante, hiper dimensionado pela imprensa da época. Não foi surpresa contudo que o júri o sentenciou à forca. Há conjecturas de que Cream sofria com os efeitos de um tumor cerebral e que isso pode ter ocasionado seu comportamento homicida, a suspeita, entretanto, nunca foi confirmada. Na época ele também foi apontado como um caso real do personagem fictício Dr. Jeckyl, que se transformava na sua contraparte criminosa o bestial Mr. Hyde. A imprensa do período comparou o infame médico a novela "O Médico e o Monstro" de Robert Louis Stevenson, popular na época.

O Dr. Thomas Neill Cream foi enforcado na prisão de Newgate em 15 de novembro de 1892. Segundo o carrasco, James Billington, as últimas palavras do médico, antes de ser interrompido pela corda que partiu seu pescoço teriam sido:

“Espere! Eu sou Jack, o est…”

A implicação era de que o Dr. Cream seria Jack, o Estripador, mas isso seria impossível, pois o médico ainda estava na prisão de Joliet em 1888, quando os assassinatos de Whitechapel ocorreram. Alguns acreditam nessa teoria, dizendo que Cream tinha um sósia que cumpriu o final de sua pena e que ele teria se refugiado em Londres justamente na época dos crimes algo bem pouco provável.

A vida, a carreira e a morte do Dr. Cream o colocaram no Hall dos assassinos mais infames da Era Vitoriana.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Filhos de Kali - O terrível Culto dos Thuggees na India

Durante séculos, pessoas que viajavam pelas estradas da Índia corriam um risco inimaginável. Os membros de uma seita cuja origem remontava ao século XIII espreitavam em todo canto. Observavam, planejavam emboscadas, capturaram suas vítimas, as levavam para um de seus esconderijos e as assassinaram. Matar era uma espécie de arte sagrada, a derradeira prova de devoção.

A sociedade cujos rituais eram mantidos em segredo congregava diferentes pessoas, de todas classes sociais, hindus e muçulmanos unidos sob a mesma crença fanática. Eles acreditavam ser filhos da Deusa Kali, a Mãe Negra do folclore Hindu

Segundo a crença, Kali era responsável por enfrentar demônios devoradores de homens vindos do submundo. Quando ela cortou um desses demônios ao meio com sua espada, descobriu que cada gota de sangue que vertia se transformava em outro demônio. Face a horda diabólica, Kali criou dois guerreiros com seu suor e os incumbiu de ajudá-la em sua luta. Para não correr o risco de aumentar as fileiras diabólicas, ela deu a cada guerreiro uma tira de pano chamado "rumal" para estrangular os inimigos sem verter seu sangue. Depois de eliminar todos demônios, Kali instou os seus dois guerreiros e prosseguir em sua tarefa sagrada de geração em geração.

Os guerreiros deveriam espalhar a adoração de Kali entre aqueles que desejavam seguir seus passos. Eles fariam o trabalho da Deusa e seriam recompensados pois o roubo das vitimas era um de seus mandamentos.


Os membros do Culto começaram a chamar uns aos outros de Thuggees, que em sânscrito significa "ocultos" ou "escondidos", pois eles agiam dessa maneira na sociedade, matando sem chamar demasiada atenção. Usando dissimulação e estratégia os Thuggees se espalharam pela Índia, formando grupos nas maiores cidades do subcontinente. Cada um deles obedecia a um Alto Sacerdote que por sua vez comandava um Templo onde os rituais ocorriam.

[Como curiosidade, a palavra inglesa "thug" usada para designar bandidos ou rufiões deriva diretamente do termo Thuggee]

Na maior parte do tempo, os Thuggees viviam uma existência comum sem chamar a atenção. Eram artesãos, comerciantes, soldados... pessoas normais que compartilhavam a devoção cega à Kali em um dos remotos templos escondidos em florestas ou ruínas. Nestes centros de adoração se entregavam a rituais de sangue que misturavam danças, cantos e sacrifícios. Uma das regras impostas pela Deusa é que cada fiel tinha uma cota de assassinatos a ser atingida. Uma carnificina que se confundia com missão sagrada e precisava ser cumprida para não desagradar sua divindade.

Os Thuggees agiam longe de suas casas para evitar o reconhecimento e contavam com células organizadas de dez a cinquenta indivíduos. Sua tática preferida envolvia enganar suas vitimas, atraídas para algum lugar deserto mediante engodo. Os Thuggees se misturavam a caravanas de mercadores ou bandos de peregrinos aguardando surgir a oportunidade para cometer assassinato. Quando o momento chegava, os assassinos se aproximavam sorrateiramente, passavam os rumal pelo pescoço e apertavam, murmurando preces à Kali. Eles sentiam a vida se esvair do corpo de suas vítimas, um momento de profundo fervor religioso. 

Antes de uma expedição, os Thuggees se reuniam num templo onde o Sacerdote sacrificava um carneiro diante de uma imagem de Kali manchada de sangue e coberta com flores. Aos pés da macabra efígie ficavam suas ferramentas sagradas: corda, faca e picareta. A faca e a picareta eram usadas para a mutilação ritual dos cadáveres. Presumia-se que a mutilação facial agradava à Deusa e dificultava a identificação das vítimas. As cordas eram usadas para capturar vítimas escolhidas que eram imobilizadas com laços sagrados que apenas os membros da ordem sabiam desatar.

Os prisioneiros, sempre em dupla, eram levados até um templo de Kali onde ficavam presos por dias, semanas ou mesmo meses. Assistiam aos rituais e aos poucos eram preparados para assumir, eles próprios um lugar na seita. Se um deles aceitasse se tornar um Thuggee era obrigado a matar o outro. Se ambos aceitassem, eles eram forçados a escolher entre eles, quem mataria e quem seria morto. Se não chegassem a uma conclusão, o Sacerdote escolhia o papel que cada um iria desempenhar. O sobrevivente fazia então uma promessa de servir Kali, bebendo o sangue da sua primeira vítima e arrancando o coração de seu peito. A promessa não podia ser desfeita, sob pena de sofrer a Ira da Deusa: amaldiçoado em vida e sofrendo na eternidade. Sua família seria perseguida e sua alma devorada até o fim dos tempos. 

O novo membro da Irmandade jurava lealdade, doava parte de seus bens e ganhava um nome secreto pelo qual os irmãos o conheceriam. Dali em diante ele era um Thuggee e como tal estava obrigado a pagar o imposto de mortes e servir Kali em toda sua glória profana.

A Seita possuía um código de conduta único que limitava suas vitimas. Mulheres geralmente eram poupadas em deferência ao sexo de Kali, assim como homens santos, artesãos, músicos e poetas. Os leprosos e aleijados também estavam isentos, pois uma vítima devia ser pura. Não querendo arriscar represálias de seus governantes coloniais, os assassinos raramente molestavam europeus, mantendo seus ataques quase que exclusivamente contra a população local. 

Em todo subcontinente indiano os Thuggees tinham fama por serem implacáveis e mortais. Viajantes temiam se afastar e evitavam o contato com estranhos, entretanto, qualquer pessoa podia ser secretamente parte da irmandade. Ao longo de séculos, os Thuggees colecionaram inúmeras vítimas fatais. Estima-se que mais de um milhão de pessoas tenham perecido nas mãos dos Thuggees antes que uma campanha contra eles tivesse início. 

Em 1826 o Coronel britânico William Sleeman, Adminstrador Civil do distrito de Jubbulpore, na Índia Central deu início a supressão da seita. Os britânicos sabiam da existência de irmandades semelhantes, mas julgavam que suas ações eram isoladas, realizadas por bandos de ladrões que matavam simplesmente para roubar as vítimas. Quando Sleeman capturou três criminosos procurados e os interrogou, eles começaram a revelar os meandros de sua organização.

Os britânicos ficaram profundamente chocados quando tomaram ciência do tamanho da Seita e do âmbito de sua atuação. Os Thuggees devotos a Kali estavam em todas as maiores cidades da Índia. Informantes revelaram a localização de templos e o exército colonial foi mobilizado para fazer prisões e desbaratar as células. Grupos inteiros de Thuggees foram cercados e presos, mas muitos preferiam o suicídio antes de serem capturados. Na cidade de Saugor, mais de uma dúzia de Thuggees que haviam sido cercados em um templo se deixaram estrangular até a morte pelo seu sacerdote que em seguida consumiu uma dose de veneno. Ao entrar no templo os soldados encontraram todos mortos. 

Os Thuggees começaram a lutar contra os britânicos: realizaram emboscadas, eliminavam alvos militares e tentaram criar um regime de medo na população. Também tentaram insuflar um levante urbano, obrigando pessoas a pegar em armas e desafiar a autoridade europeia.

Em Bengala, os Thuggees fizeram vítimas entre colonos e nativos que trabalhavam para eles. A resposta dos ingleses foi imediata com a destruição de vários templos e prisão de milhares de pessoas suspeitas de participar ou simpatizar com a Irmandade. Em Madras as prisões ficaram lotadas de suspeitos, em Calcutá, berço de uma das maiores células, houve massacres e enfrentamento. Um templo foi destruído por tiros de canhão, a estátua de Kali arrastada para fora e reduzida a pó por golpes de marreta.

No final, milhares de pessoas foram julgadas sem muitas sutilezas jurídicas, com a distribuição de punições rápidas e rigorosas. Dos 3689 Thuggees julgados até 1840, quase 500 foram executados na forca. O restante foi condenado a prisão perpétua, exceto os informantes que concordavam em apontar outros membros da Seita.

Uma prova de bravura para os membros era reconhecer suas ações e desafiar os ingleses admitindo serem parte da Seita. Durante os julgamentos, acusados admitiam alegremente a autoria da morte de centenas de pessoas. Em Bangalore, um guia de caravana de 45 anos, afirmou ter matado ao menos 250 pessoas desde sua iniciação aos quatorze anos. Dezenas de cemitérios clandestinos à beira de estradas foram descobertos.

Em 1848, após um breve período de tranquilidade, um novo surto de homicídios irrompeu nas principais cidades indianas. Os Thuggees organizaram um levante armado no qual executaram várias testemunhas e informantes que os haviam delatado. Os britânicos agiram rapidamente e capturaram mais 651 homens que receberam julgamento e condenação. As ações também destruíram templos que operavam clandestinamente e que foram incendiados até o chão.

O Culto de Kali foi oficialmente declarado ilegal e autoridades religiosas hindus, muçulmanas e sikhs concordaram em decretar que a adoração a esse aspecto da Deusa era uma atitude condenável. Com efeito a adoração de Kali foi drasticamente reduzida e o culto perdeu muitos dos seus seguidores.

O último assassino Thuggee conhecido foi enforcado em 1882.

Apesar da Seita não ter realizado mais nenhuma ação coordenada, circulavam boatos de que seus membros continuaram agindo no submundo até meados do século XX. Quadrilhas criminosas se faziam passar por Thuggees e cometiam assassinatos usando os métodos da Seita para causar choque e despertar o medo entre seus rivais. Durante a Luta pela Independência vários movimentos de libertação também usaram os métodos dos Thuggees como forma de intimidar seus opositores colaboracionistas.

Mesmo hoje em dia, o Culto da Deusa Kali mantém seu status como "bicho papão" na sociedade indiana, desafiando as crenças e usando as superstições a seu favor. Os Kapalikas, o último "revival" dos Thuggees nos dias modernos supostamente se infiltraram em grupos criminosos adotando métodos cruéis e impiedosos similares aos empregados pelos discípulos de Kali. Esses Kapalikas foram duramente reprimidos, mas há boatos que eles ainda atuam em áreas rurais da Índia onde o medo dos Thuggees ainda existe.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A Sombra sobre Calcutá - Conhecendo as entranhas da "Cidade do Horror"


Calcutá, Calcutá, obcecada pela noite, mergulhada em crueldade.
Tu jamais se recuperou de sua história sangrenta,
seu passado é negro e seu futuro incerto, viver em Calcutá é desespero.

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Voltando ao tema Escoadouros do Mal, aqui está uma descrição de um dos maiores, mais conhecidos e estudados do mundo, que se localiza na gigantesca metrópole indiana de Calcutá.

Eu escrevi esse texto depois de pesquisar sobre a (tumultuada) história da cidade e penso usar ele como base para um cenário ou mini-campanha de Delta Green que estou desenvolvendo baseado no livro "Song of Kali" do autor britânico Dan Simmons. Esse livro é impressionante, não apenas pela forma como é escrito, mas pelo ambiente sufocante que ele constrói ao redor de Calcutá. A cidade é tratada quase como uma entidade viva, pulsante e consciente, que faz de tudo para tornar a vida dos personagens principais um inferno.

Para quem estiver curioso, "Song of Kali" foi escrito na década de 1980 e ganhou vários prêmios internacionais de literatura. A premissa é relativamente simples envolvendo um casal ocidental que viaja para a Índia (mais especificamente Calcutá) planejando escrever uma reportagem sobre um famoso poeta indiano que teria morrido anos atrás. Curiosamente poemas assinados por ele e com o mesmo estilo continuam sendo escritos por um autor desconhecido. Ansiosos para saber se ele ainda está vivo (ou se alguém está se fazendo passar por ele) o casal se envolve numa investigação bizarra que os leva aos porões de Calcutá e expõe todo horror da metrópole indiana.

Eu achei bastante interessante pela proposta que remete ao Horror Cósmico em dados momentos, tratando a cidade e entidades ancestrais que habitam seu submundo como uma ameaça à sanidade e razão.

Mas enquanto esse projeto não sai, eis aqui o roteiro do Horror de Calcutá. Sugiro para os que não leram procurar o artigo sobre Escoadouros do Mal para saber o conceito desse fenômeno.

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A SOMBRA SOBRE CALCUTÁ 


Situada às margens do Rio Hugli, Kolkata como é chamada pelos locais, ocupa uma área no leste da Índia próxima da fronteira com o atual Bangladesh e o Paquistão. Ela tem aproximadamente 4,5 milhões de habitantes vivendo em seus limites municipais, o que a coloca como a quinta cidade mais populosa do país. Sua região metropolitana, por sua vez, se estende por 1 886 quilômetros quadrados, reunindo mais 14 milhões de habitantes, tornando-a uma das maiores aglomerações do mundo.

Definir Calcutá em termos populacionais não é fácil. São pessoas demais vivendo muito próximas umas das outras em uma área relativamente pequena. O resultado é uma proximidade na qual a expectativa de privacidade é quase impossível. Guerras e crises políticas atraíram refugiados através das fronteiras, inchando ainda mais os números e fazendo com que o caldo multiétnico que compõe o Caldeirão cultural que é Calcutá transbordasse. Hoje em dia não se sabe realmente qual a população da cidade ou sua composição.

A superpopulação é um das causas dos problemas de Calcutá, mas seu passado tumultuado parece ter criado as condições ideias para o surgimento do Escoadouro do Mal que paira sobre a metrópole.

Fundada em 1690 pela Companhia Inglesa das Índias Orientais, como um entreposto mercantil para comércio de produtos, sobretudo seda e chá, a cidade desempenhou papel marcante durante a colonização britânica. Ela foi a capital da colônia, o Raj Imperial, de 1833 a 1912, período em que experimentou um rápido crescimento econômico e social. Calcutá é uma área antiga em um país ancestral, com ocupação que perdura há mais de dois milênios. Ela é também um centro de peregrinação, uma cidade que assistiu o surgimento de centenas de crenças, cultos e religiões.

Sua história é conturbada, marcada por rebeliões, crises e massacres. Ao longo da ocupação britânica, Calcutá foi palco de vários movimentos que buscavam a liberdade dos britânicos e que foram duramente reprimidos. Marchas terminaram em violência, passeatas com milhares de pessoas foram coibidas e ao menos meia dúzia de manifestações resultaram em tumultos, ao menos uma com milhares de vítimas pisoteadas até a morte. Grandes reuniões convocadas por Mohandas Ghandi nas décadas de 1930 a 1950 ocorreram em Calcutá, mas muitas delas foram sufocadas pelas autoridades coloniais ou minadas pela ação de dissidentes que mais uma vez as conduziram a tragédias.

Antes disso, Calcutá já havia presenciado momentos dramáticos em sua história: guerra, doença, fome e morte. Os quatro cavaleiros do apocalipse galoparam pelas pradarias de Calcutá e pisotearam repetidamente o seu solo. No século XVI, a cidade enfrentou uma seca desoladora de três anos, no século seguinte um incêndio consumiu boa parte dos prédios. Epidemias de cólera, tifo e outros vetores também causaram enormes baixas. Mais recentemente a cidade foi invadida, bombardeada pelos japoneses na Segunda Guerra e sofreu com atos de terrorismo de milícias maoístas.

No período após a Independência, Calcutá tentou se tornar a Capital do estado independente de Bengala. O movimento nacionalista foi duramente reprimido pelo exército indiano que tomou a cidade em um novo banho de sangue. Nos anos 60 Calcutá se tornou centro de novas disputas entre hindus e muçulmanos que constituíam boa parte da população local. Em 1961, parte da população muçulmana responsável por uma fatia considerável da economia partiu para o norte fundando o Bangladesh. A pobreza se alastrou a partir de então com famílias inteiras perdendo seus empregos e sendo arremessadas para a extrema miséria. A Guerra Indo Paquistanesa terminou por piorar ainda mais a situação com uma explosão demográfica de refugiados. Calcutá depois disso se converteu num fervedouro humano onde as imagens de amontoamento, decrepitude, doença e morte, se tornaram habituais.

Mas quando exatamente o Escoadouro do Mal de Calcutá surgiu, e quando a cidade passou a ser chamada pelos seus próprios habitantes de "Cidade do Horror"? Não é fácil determinar o momento exato, mas Calcutá sempre foi acometida por fatores aviltantes que fazem dela um dos lugares mais perigosos e insalubres do mundo.

Para começar, Calcutá é um antro de injustiça e desigualdade. O regime de castas, que foi oficialmente abolido em 1950, na prática, segue em vigor, condenando uma parcela significativa da população a viver como cidadãos de terceira classe. São pessoas com direitos reduzidos, marginalizadas e excluídas do convívio social. Calcutá tem a maior população de Dalits ou "intocáveis" em toda Índia e a segregação é uma triste realidade para essas pessoas.

A pobreza extrema é outro elemento que chama a atenção em Calcutá. Se a Índia como um todo é uma nação de extremos, onde ricos são muito ricos, e pobres muito pobres, em Calcutá a desigualdade é ainda mais gritante. Em nenhum outro lugar do mundo a população de rua é tão numerosa. Verdadeiras legiões de mendigos se espalham pelos becos, ruínas abandonadas e ruas apinhadas da cidade. A situação é tão absurda que existe uma espécie de sindicato que congrega os mendigos e controla onde e em que horários cada um pode operar. É virtualmente impossível frequentar um lugar onde não haja pessoas pedindo esmola. As palavras "baba, baba!" são uma ladainha repetitiva que é ouvida em todo canto, junto com o tilintar de pratinhos com moedas. Os mendigos disputam espaço e muitos deles praticam automutilação para ganhar assim a simpatia das pessoas, o que dá ensejo a verdadeiras procissões de pessoas com feridas purulentas. 

Estrangeiros são fortemente advertidos a JAMAIS abrir a carteira ou dar moedas para mendigos em Calcutá, do contrário podem ser cercados, derrubados e pisoteados por uma multidão de pedintes. A situação é tão caótica que em 1989 três turistas alemães morreram pisoteados por uma horda de mendigos que os cercavam. Tudo porque desobedeceram a regra de não dar dinheiro aos mendigos. Os guias de turismo tendem a recolher moedas que os estrangeiros queiram dar e estes as entregam sabendo como proceder. Em Calcutá caridade pode ser uma prática letal!    

A cidade é dominada por imensas favelas que se esparramam pela paisagem a perder de vista. As habitações mais comuns são simples casebres de madeira e tijolo cru, com telhados de zinco, sem saneamento, sem água e sem energia elétrica. Cada casa é a habitação de uma família, geralmente numerosa. O esgoto sem tratamento corre à céu aberto lançado nas ruas tortuosas onde as crianças brincam. Ele escorre em línguas negras se misturando às fontes onde a água é recolhida em odres para consumo. Nessas mesmas fontes as pessoas se lavam, tomam banho e defecam sem cerimônia. Os rios também são o destino de cadáveres incinerados, deixando ossos espalhados pelo leito lodoso.

A ventilação é limitada e os odores de refugos são tão ofensivos que nada é capaz de disfarçar o cheiro de podridão, lixo e excremento. De fato, durante o inverno o aquecimento das casas é providenciado acendendo bolos de esterco animal que são colocados mesmo nas cozinhas e quartos. As refeições são preparadas em pequenos fogões à lenha sobre os quais panelas com óleo preto são aquecidas. Os indianos fazem uso extensivo de temperos, não apenas como uma opção culinária, mas para disfarçar o gosto azedo de alimentos passados quando não, podres.

A imundice nas ruas é chocante! Montanhas de lixo se acumulam em valas ou trincheiras escavadas onde os restos são lançados sem qualquer critério. Algumas dessas valas chegam a profundidades surpreendentes, como verdadeiros atoleiros. Cair em um deles é um perigo real e inúmeras crianças morrem todo o ano, afogadas em valas de lixo. Quando um buraco fica repleto, com sorte cobre-se com terra e é hora de escavar um novo. Mas em geral o lixo do dia a dia se acumula em montanhas deixadas ao lado das casas, atraindo insetos e animais. Moscas, baratas e mosquitos se multiplicam em enorme quantidade e cobrem tudo como um tapete ondulante. O mesmo lixo também atrai cães vadios, urubus, cabras e bodes em busca de restos. 

A população de ratos é um problema flagrante em Calcutá. Os roedores são responsáveis pela proliferação de doenças, em especial a leptospirose. Os lixões de Calcutá são famosos pelas ratazanas que se criam em seu interior; algumas são tão grandes que podem ser confundidos com gatos ou mesmo cães. Diferente dos ratos tímidos que evitam o contato humano, esses roedores entram nas casas sem cerimônia: roubam comida, atacam animais domésticos e mordem com seus dentes afiados. De tempos em tempos, quando a população de ratos explode são organizados bandos de exterminadores para abater os animais com porretes. Mas em geral, as pessoas não se preocupam com ratos e os deixam em paz.

As vacas gozam de benefício já que a cultura hindu lhes concede status de animal sagrado. Elas tem liberdade para circular pela cidade e ir onde bem entender; cercear o direito de uma vaca transitar por um lixão pode atrair a ira dos nativos. Já houve casos de pessoas linchadas por simplesmente espantar uma vaca de seu quintal. Não é incomum ver um indiano observando uma vaca com interesse, esperando que ela urine para que assim possa correr e recolher o líquido em potes ou com as mãos em concha. O líquido dourado é despejado sobre a cabeça como uma espécie de benção, quando não é bebido quente como forma de purificação.

Em um ambiente tão imundo não é de se estranhar que as doenças fervilhem. 

Cerca de 95% das casas em Calcutá não dispõem de água tratada e os micro-organismos dançam livremente na água turva que é consumida diariamente. Diarreia crônica é uma constante, assim como uma infinidade de doenças estomacais que moldam as barrigas de crianças, adultos e velhos em um formato arredondado. A falta de higiene é um retrato chocante na Índia, mas em Calcutá ela vai às alturas! A população não utiliza papel higiênico, não lava as mãos ou se banha, quando muito, o faz nos rios repletos de dejetos. O cheiro de suor e corpos mal lavados é pungente e ofensivo, por vezes disfarçado com colônias ou lavanda. Cabelos e barba são tratados com óleo de palmeira para eliminar piolhos e carrapatos, mas parasitas são algo normalmente tolerado. As roupas são lavadas, mas vigora entre a população mais pobre o costume milenar de lavar os trajes com urina para garantir o branqueamento o que confere um cheiro ocre aos tecidos. 

Uma quantidade alarmante de doenças aflige a população residente de Calcutá. A OMS decretou apenas nos anos 70, seis alertas de risco epidêmico grave na cidade, depois disso, o órgão passou a não ser mais bem vindo pelo governo local. Doenças congênitas são um problema incrivelmente frequente entre a população. Crianças com deformidades e má formação são algo, até certo ponto, corriqueiro. Calcutá é o lugar no mundo onde ocorrem mais abortos naturais e nascimentos de bebês natimortos. A causa é a má formação dos fetos que não desenvolvem sistemas respiratórios completos e morrem poucas horas depois de nascer. As crianças que sobrevivem tem deformidades que as acompanham pelo resto da vida. É importante notar que a polimelia, condição na qual uma criança nasce com membros extras, é tratada como uma benção divina. Bebês com três, quatro ou mais pernas e braços são tratadas como uma espécie de avatar e seus pais recebem todo tipo de homenagem.   

A Índia é conhecida como um dos últimos lugares do mundo onde a hanseníase, ou lepra ainda constitui um problema de saúde pública. A medicina moderna eliminou quase que inteiramente esse flagelo da humanidade na segunda metade do século XX com drogas eficazes quando a moléstia é detectada no início. Infelizmente, na Índia, a lepra ainda é uma triste realidade. Estima-se que em 1980, haviam cerca de 500 mil leprosos no país, sendo que a maioria deles estava justamente em Calcutá. Madre Teresa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz obteve reconhecimento por construir leprosários e se devotar a tratar os afligidos. Nos dias atuais a população de leprosos diminuiu, mas ainda assim, ela é surpreendentemente grande.

Calcutá contou com uma economia impulsionada pela produção de juta, um tecido rústico que é a matéria prima das roupas da maioria da população. Na década de 60, quando os comerciantes muçulmanos partiram, a cidade entrou em colapso financeiro e jamais se recuperou. As instalações elétricas até os anos 90 eram incapazes de garantir o abastecimento para indústrias pesadas se instalarem. A geração de energia era então garantida por carvão mineral que queimava dia e noite expelindo nuvens grossas de fumaça preta. As indústrias produziam um smog sufocante que se juntava às nuvens das monções, precipitando-se como uma chuva preta. As paredes, ruas e fachadas de prédios ficavam cobertas por uma fuligem semelhante a grafite, uma vez molhada ela escorria deixando manchas em todo canto.

A oferta de emprego não comporta o tamanho da população residente de Calcutá. A maioria dos habitantes sobrevive de atividade informal e pequenos comércios. Mesmo assim, a industrialização precária deu ensejo a uma classe operária enormemente explorada. Nos anos 1950-60, Calcutá foi o palco de greves e manifestações convocadas por movimentos socialistas. O governo local coibiu essas demonstrações com violência, mas o movimento ganhou ímpeto. Nos anos 80 Calcutá se tornou a primeira cidade indiana com governo comunista, mas o experimento resultou em ainda mais injustiça e pobreza com denúncias de corrupção flagrante.

O desenvolvimento da rede elétrica permitiu que Calcutá desenvolvesse indústrias em seus arredores, usando operários vindos dos subúrbios. As linhas férreas, uma herança deixada pelos britânicos, transportam diariamente milhões de pessoas em trens antigos e sempre lotados. As estradas são precárias, quase todas sem asfalto e com trânsito caótico. Dirigir em Calcutá é uma tarefa quase impossível dada a quantidade de veículos, motocicletas, bondes, carros de boi e transeuntes na pista. Estrangeiros são desencorajados de tentar tal coisa. Em 1997 uma família belga atropelou uma vaca com seu carro alugado e a população enfurecida quase os linchou. Ainda assim, os veículos circulam para todo canto levantando nuvens de poeira quando passam, cuspindo ainda mais fumaça no ar já pestilento.

Além de todos seus problemas estruturais, Calcutá enfrenta uma dificuldade crucial: a violência.

Embora os indicadores atuais sejam menos alarmantes, até os anos 2000, Calcutá era a capital do crime na Índia. O submundo da cidade era dominado por facções armadas que lutavam umas contra as outras pelo controle de distritos e regiões. A população mais pobre era a principal vítima desses criminosos que extorquiam dinheiro de comerciantes e cobravam proteção dos habitantes. Também controlavam a distribuição de mercadorias roubadas e promoviam roubos. Os Gungas, a principal facção criminosa operando na cidade era especialmente temida. Formada por cartéis criminosos de Bangladesh, os Gungas eram especialmente violentos em suas atividades e implacáveis em suas demonstrações de força. Assassinatos eram algo comum, com juízes e policiais sofrendo atentados em plena luz do dia.

Outras facções se ocupavam em movimentar o comércio de drogas, com hashish sendo vendido no submundo e dominando a primazia das atividades de tráfico. O ópio também desempenha um papel importante como comodity para os traficantes que enviam a sua produção através da fronteira e despacham o produto para a Europa.

A criminalidade parece ter sido sempre um problema em Calcutá. Os mandatários britânicos se preocupavam com a grande frequência de crimes ocorrendo em toda cidade, a chamavam de "Antro de Ladrões". No início do século XIX os europeus se depararam com algo que os deixou estarrecidos: os cultos que praticavam assassinatos ritualísticos. Chamados de Thugges, essa facção criminosa operava nas sombras matando e roubando em nome de sua divindade sagrada, Kali. Os Thugges tinham uma de suas mais importantes bases de operação em Calcutá, em templos secretos onde os ritos sangrentos eram conduzidos. Eles foram enfrentados com rigor e suas atividades acabaram sendo desbaratadas pelo exército colonial que realizou verdadeiros massacres para eliminar até o último cultista. Há boatos de que o Culto ancestral de Kali ressurge de tempos em tempos, revivendo suas práticas nefastas.

O último surgimento dos Thugges se deu nos anos 70, através dos Kapalikas, devotos que reascenderam a adoração fanática ao aspecto mais violento de Kali. Sacrifícios humanos eram realizados em altares cobertos de ossos, instalados em depósitos, ruínas e áreas isoladas. A estátua medonha de Kali, banhada em sangue, assistia as oferendas serem entregues em sua homenagem. Os Kapalikas que também operavam uma extensa rede de roubo, sequestro e contrabando acabaram sendo eliminados - ou assim se acredita.

Mas quando o assunto é violência em Calcutá, esta não se restringe às ações de criminosos comuns. 

O problema é mais profundo do que se imagina e contamina todo tecido social. É irônico que uma sociedade que se orgulha de ter criado e promovido a cultura da "não violência" tenha dado ensejo a uma das cidades mais violentas do mundo. Calcutá é descrita como um antro de violência que extrapola todos os níveis do razoável. Discussões tendem a irromper pelos motivos mais variados, descambam para bate-boca, agressão e não raramente violência, por vezes com força letal. Os habitantes de Calcutá tem uma reputação, mesmo entre os demais indianos, de serem teimosos, cabeça quente e de não levar desaforo para casa. Um ditado popular afirma que "é mais fácil convencer um camelo a ser castrado do que um morador de Calcutá voltar atrás em alguma coisa".

Na época da grande dissidência Indo paquistanesa que acabou resultando na guerra de 1971, Calcutá foi varrida por uma onda de violência envolvendo muçulmanos e hindus. Opiniões fortes e debates acalorados se espalharam pela cidade e do dia para a noite vizinhos, amigos e até mesmo parentes se tornaram inimigos. Durante o auge dos tumultos que antecederam o conflito, muitas famílias de muçulmanos, que eram minoria, acabaram sendo atacadas, agredidas e tiveram suas casas incendiadas. Centenas (possivelmente milhares) de pessoas perderam suas vidas ao longo de uma semana de distúrbios. 

Pela proximidade do cenário do conflito, boa parte das tropas indianas que lutaram na Guerra Indo Paquistanesa vieram de Calcutá. A guerra em si, durou apenas alguns meses e terminou com um armistício que nomeou a região da Kashemira neutra. Paquistaneses e Hindus nunca assinaram um acordo de paz e portanto, formalmente, continuam em uma espécie de Guerra Fria. Os ânimos seguem acirrados quando se trata da disputa entre os dois países, atualmente potências nucleares.

Estupros também são um grande problema na cidade, com uma média elevada de crimes de natureza sexual que coloca Calcutá como um dos lugar incrivelmente perigoso para mulheres. Uma modalidade aterrorizante desse tipo de crime envolve o rapto de mulheres por bandos de dez ou doze homens que se juntam exclusivamente com esse propósito. Na sociedade indiana, esse tipo de crime tende a ser abafado e raramente é levado à justiça. Os envolvidos acabam sem punição e a vítima, quando sobrevive, é responsabilizada pelo ocorrido. Em 2009, estupros sucessivos de mulheres, algumas com menos de 12 anos de idade, chocaram a Índia. Os criminosos se reuniam em um ônibus que vagava pelo centro de Calcutá em busca de vítimas. Entre os envolvidos estavam advogados, comerciantes, policiais e até um político local. Ao menos nessa ocasião os crimes não ficaram sem punição, mas esta é uma exceção.

Diante da alta criminalidade local, a polícia de Calcutá se mostra na maioria das vezes incapaz de lidar com os casos que se sucedem. A força policial é ineficaz e insuficiente para fazer frente a multitude de casos. As investigações muitas vezes não resultam em prisão e criminosos ficam impunes. Uma prova da violência desenfreada em Calcutá são os jornais locais que publicam diariamente duas ou três páginas com fotografias bizarramente gráficas de cadáveres não identificados encontrados pelas autoridades na Grande Calcutá. A esperança é que algum conhecido reconheça os cadáveres e venha reclamar os corpos no período de uma semana, do contrário estes são cremados como indigentes.

Não é preciso dizer que estrangeiros são fortemente desencorajados a andar sozinhos por Calcutá sem a companhia de guias. E mesmo assim, todos os anos grupos de turistas, acabam sendo vítimas de guias inescrupulosos que os conduzem a emboscadas. Em 2003 um grupo de turistas canadenses foi sequestrado, roubado e dois deles mortos por criminosos. Em 2014 boatos sobre grupos de criminosos sequestrando e extraindo órgãos de vítimas ganhou os jornais da Índia. O que à princípio parecia uma lenda urbana infundada acabou se provando verdade depois que membros da quadrilha foram capturados.

Diante de tudo isso, Calcutá ainda goza de uma relativa fama entre turistas e viajantes em busca de um destino exótico para suas férias. Ela atrai milhares de visitantes anualmente e os abraça como uma aranha em sua teia.

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Disclaimer: É claro, essa descrição extensiva e colorida de Calcutá e de seu dia a dia convoluto, visa criar um ambiente caótico que investe no choque cultural. Calcutá é sim considerado um lugar perigoso e insalubre, mas talvez essa descrição esteja num nível "over the top" que é adequado ao objetivo do blog e de um cenário se passando nesse ambiente. 

Ainda assim, há de se imaginar porque a cidade tem entre seus próprios habitantes, o apelido de "Cidade do Terror". Contra certos fatos não há argumentos, Calcutá é sim atípica em seu caos social, tumulto e perigo, não há outro lugar como ela na Índia, talvez, no mundo.

Calcutá, vasta e perigosa, lugar de iniquidades e horrores sem fim. O que esperar ao adentrar seus portões e vasculhar suas entranhas? Nas palavras de Amir Chaudhuri, artista e morador da cidade: "Calcutá é como um  trabalho de arte moderna que não faz sentido ou tem utilidade, mas que persiste existindo por alguma bizarra e esotérica razão estética".

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Assassino Revelado - A controvérsia sobre a identidade de Jack, o Estripador

Por mais de um século, o caso vive nas sombras da dúvida e da incerteza. Uma lenda envolta em névoas e medo. Um assassino sem face assombrando os becos escuros da Londres Vitoriana. Centenas de livros, milhares de teorias foram oferecidas, mas nenhuma prova contundente foi obtida.  

Mas após 137 anos, o mistério pode ter sido enfim solucionado. 

Em 2019, dois cientistas britânicos revelaram o que seria um dos maiores mistérios criminais da historia. Eles teriam obtido evidências científicas, mais especificamente DNA, que apontava a identidade de ninguém menos do que o lendário Jack, o Estripador.

Os defensores da notícia não se apoiam em um teoria e muito menos numa suspeita, mas em um resultado cientifico. O caso de Jack, o Estripador, dizem eles, foi oficialmente fechado.

Mas será possível acreditar no que estes cientistas afirmam? 

Se a ciência estiver certa, então Jack, o Estripador não era um fantasma. Ele não era um Príncipe degenerado, não era um cirurgião demoníaco e muito menos uma mente criminosa brilhante. Ele era um homem de quem a polícia já suspeitava. Um homem que as autoridades vigiaram e que foi seguido na época. Essa figura era um dos vários indivíduos anônimos que chamavam White Chapel de lar e que vagavam pelo East End sem chamar a atenção, pois era simplesmente um rosto qualquer. 

Mais interessante, a polícia teria suspeitado dele, mas preferiu manter tudo em segredo. Eles permitiram que o homem simplesmente desaparecesse após o último assassinato ao invés de prendê-lo. A questão não é apenas quem ele foi, mas por que a Scotland Yard deixou que ele ficasse sem ser conhecido?

Para entender como os cientistas chegaram a sua conclusão, é preciso apresentar um objeto macabro e explicar como essa simples peça de vestimenta pode ter se tornado o instrumento que revelou a identidade do mais notório assassino de todos os tempos.

Por décadas os crimes de Jack, o Estripador se tornaram uma historia assustadora, mais até do que um caso criminal concreto. O mistério ganhou contornos quase sobrenaturais, na mesma medida que o homem se tornou uma lenda. Era como se o assassino vagasse invisível pelas ruas, sem ser visto e sem despertar a atenção de ninguém. Como era possível ele matar e não ser visto em uma vizinhança densamente povoada?

Muitos acreditavam que ele deveria ser alguém poderoso e influente. Essa suposição deu origem a teorias que envolviam escândalos reais, médicos ilustres, sociedades secretas... o mito demandava um monstro à altura. Mas a pista que desafiou esse mito não veio de um palácio, de um velho diário ou de uma testemunha secreta. Veio de algo pequeno e ordinário, uma peça de roupa puída e esfarrapada: um velho cachecol de seda. 

De acordo com a historia, essa peça foi obtida ao lado do corpo mutilado de Katherine Eddowes, a quarta vitima canônica do Estripador, assassinada em Mitre Square em setembro de 1888. 

Um oficial que esteve presente na cena do crime o recolheu do chão. Ele estava enrolado ao lado de Eddowes a poucos centímetros de seu corpo. Na época, o cachecol não foi considerado como uma evidência válida pois se tratava de uma peça reconhecidamente pertencente à vítima. O oficial perguntou se poderia ficar com ela, como um tipo de souvenir macabro e recebeu autorização para isso. O cachecol ficou em sua família por gerações. Ele foi dobrado, colocado em uma caixa e mostrado a visitantes curiosos como uma herança mórbida. 

Por muito tempo, os especialistas o desconsideravam como um item menor no vasto mercado de relíquias relacionadas ao Estripador. Mas um homem resolveu investigar essa peça mais à fundo. Entra em cena o investigador forense e autor britânico, Russel Edwards que decidiu comprar o cachecol quando ele finalmente foi levado a leilão em 2017. 

Russel apostou seu dinheiro e reputação profissional em uma ideia. Se o cachecol tinha realmente vindo da cena de crime em Mitre Square, talvez ele ainda pudesse carregar alguma pista que os Vitorianos não conheciam à fundo: DNA.

A principio, o objetivo de Edwards era descobrir se o cachecol realmente pertenceu a uma vitima canônica de Jack, o Estripador. O item foi mandado para um laboratório moderno, onde duas manchas de sangue do século XIX foram submetidas a ciência moderna. Em um laboratório estéril da Universidade John Moores, referencia em testes genéticos na Inglaterra, o tecido passou por um cuidadoso exame. O geneticista forense, Jari Luhalenan foi incumbido de realizar as análises. Com mais de um século de idade, manipulado por incontáveis pessoas, exposto ao ar, poeira, calor e sujeito ao tempo, o desafio parecia enorme.

A equipe do Dr. Luhalenan se concentrou nas duas marcas marrom castanhas que se acreditava ser sangue. Mas também buscou qualquer outra marca residual deixada no tecido descolorido usando um espectrógrafo. A procura era por DNA mitocondrial, que poderia sobreviver mesmo depois de tanto tempo. Ao contrário do DNA convencional, o mitocondrial podia ser traçado até a linha materna de seu doador. Além disso, ele era mais durável e se uma quantidade decente fosse obtida, seria possível ligar a amostra a quem se supunha ser a fonte.

Foi assim que a equipe forense conseguiu responder a primeira pergunta: o sangue na peça pertenceu a Katherine Eddowes? O perfil genético foi comparado a de um descendente da linha materna, no caso a da irmã da vitima. O resultado foi positivo, o que confirmou que o cachecol realmente carregava o sangue de Eddowes e que estivera na cena do crime.

Por si só, essa confirmação já seria notável, mas uma revelação ainda mais surpreendente viria em seguida. 

A equipe forense decidiu esquadrinhar milímetro por milímetro do cachecol em busca de qualquer outro traço que pudesse fornecer pistas. Concentraram-se principalmente em uma mancha quase invisível na ponta do cachecol. Esta quando analisada cuidadosamente revelou ser um traço material consistente com sêmen que jamais havia sido analisado. O trabalho meticuloso dos geneticistas conseguiu isolar essa segunda amostra de DNA mitocondrial que se provou autêntica. 

O cachecol não apenas possuía uma amostra do sangue da vitima, mas possivelmente guardava um fragmento do assassino.

Mas mesmo que fosse uma amostra válida de sêmen, como seria possível relacionar essa pista com Jack? A vítima afinal era uma prostituta e portanto seria aceitável que sua roupa de alguma forma fosse contaminada com material genético de um cliente.

De fato, a amostra poderia apontar para a escuridão, ser um material que jamais viria a ser identificado, mas os geneticistas tinham um plano. Mesmo sem saber de quem era o sêmen misterioso, eles poderiam compará-lo com amostras de DNA dos descendentes de indivíduos relacionados entre os suspeitos de ser Jack, o Estripador. Esse método de análise forense é adotado quando há suspeitos de um crime. O material genético é comparado ao de suspeitos ou seus descendentes.

A equipe elencou descendentes da linhagem maternal de 12 dos principais suspeitos de serem o Estripador. Eles conseguiram o DNA de nove destes descendentes diretos que ofereceram de bom grado amostras de seu perfil genético para serem comparados a amostra colhida no cachecol. Parecia um tiro no escuro, mas qual não foi a surpresa quando um dos perfis genéticos bateu perfeitamente com o da mancha. 

E assim um nome ganhou notoriedade: Aaron Kosminsky

Por décadas o imigrante polonês Aaron Kosminsky foi considerado pelos historiadores e pesquisadores um suspeito válido. Seu nome aparecia em memorandos internos e em documentos redigidos por investigadores da Scotland Yard. Ele foi citado pelo Chefe de Polícia Melville McNagden como um dos três maiores suspeitos de ser o maníaco. Chamado de "mentalmente perturbado" e "sexualmente pervertido" por McNagden, Kosminsky era suspeito de outros crimes violentos praticados contra mulheres.

Outro investigador ligado à caçada do assassino de White Chappel, o Inspetor Chefe Donald Swanson deixou cadernos e anotações pessoais nas quais suspeitava que o assassino não era outro senão Aaron Kosminsky. Ele ia ainda mais longe afirmando que este havia sido vigiado, entrevistado e identificado positivamente por testemunhas que o colocavam na cena do crime.

A equipe levou em conta a suspeita histórica que pesava sobre Kosminsky. Eles conseguiram rastrear um descendente maternal de sua linhagem que ainda residia na Inglaterra. Quando o perfil genético bateu, eles testaram outros três descendentes e o resultado foi o mesmo: correspondência perfeita.

Os resultados foram publicados em 2021 no Journal of Forensics Sciences, mas imediatamente causou controvérsia. Os autores defendiam que a evidência genética era suficiente para identificar Kosminsky como a fonte da evidência genética (sêmen) presente no cachecol de Eddowes. Os opositores afirmavam que a identificação do material, em especial tão antigo não poderia ser tão precisa.   

Para Russel Edwards, contudo, a prova era suficientemente contundente. Jack, o Estripador agora tinha um nome e este era ninguém menos do que Aaron Kosminsky!

Mas quem foi esse obscuro sujeito?

Se você andasse pelas ruas escuras de White Chapel em meados de 1888, provavelmente não iria reparar em Aaron Kosminsky. Ele era apenas mais um dos milhares de judeus refugiados que deixaram a violência e pobreza do Leste Europeu para se fixar na Inglaterra da Revolução Industrial. Sua família se estabeleceu nos pérfidos arredores do East End, uma das regiões mais pobres de Londres. Ele tinha o ofício de barbeiro, serviço essencial na época, que envolvia não apenas o corte de cabelo e barba, mas também pequenas intervenções cirúrgicas ligadas a pele. Um barbeiro tratava de feridas, supurava furúnculos e cauterizava a pele com instrumentos próprios. Era portanto um homem familiarizado com lâminas e ferramentas de corte.

Mas Kosminsky não era um sujeito 'normal" no sentido racional da palavra. As pessoas que o conheciam sabiam que ele tinha um comportamento estranho, considerado degenerado, sobretudo quando se tratava de mulheres. Havia sido pego "se expondo" e realizando auto abuso (masturbação) em público. Ele dizia detestar as mulheres e guardava um profundo rancor do sexo feminino. Era suspeito de agressão e conhecido por ter um gênio ruim, que o levava a explosões de violência, embora jamais tenha sido preso ou processado formalmente. 

Além disso havia a suspeita de que ele sofria de algum tipo de perturbação mental. O fato dele alegar ouvir vozes e manifestar uma severa paranoia sugerem que ele fosse esquizofrênico. Kosminsky alegava que pessoas misteriosas tentavam envenenar sua comida e por isso se negava a comer qualquer coisa que não fosse cozida por ele mesmo. O sujeito também bebia de maneira compulsiva, consumindo quantidades de gin barato que sem dúvida o deixavam ainda mais propenso a violência.

Não é de se estranhar que o comportamento de Kosminsky chamasse a atenção e acabasse por colocá-lo entre os suspeitos de ser o maníaco de White Chapel. De fato, ele vivia nas proximidades de onde ocorreram os crimes e portanto conhecia a geografia caótica de becos e vielas conectando o distrito. Ele também era um cliente habitual das prostitutas do bairro a quem tratava com desprezo no dia a dia. Kosminsky não tinha álibis para pelo menos dois crimes. Sabemos disso pois ele teria sido entrevistado por policiais envolvidos no caso que seguiam pistas oferecidas por terceiros. É provável que um vizinho tivesse apontado Kosminsky como um possível candidato a ser o maníaco, dada sua misoginia. Ao ouvir falar de Jack, o Estripador ele sempre gargalhava e defendia efusivamente que o assassino estava fazendo um "bom trabalho" limpando as "putas de rua".

Kosminsky chegou a constar em memorandos, o que indica que ele teria sido seguido ou ao menos investigado diretamente. Mas como ele teria conseguido escapar da prisão, já que esta era uma espécie de questão de honra para a Scotland Yard capturar o criminoso. A explicação oferecida é mais ou menos conveniente.

Sabe-se que após o último crime canônico, o medonho massacre realizado contra Mary Jane Kelly, Jack desapareceu sem deixar sinal de seu paradeiro. Muito se especulou à respeito, alguns sugerindo que a polícia encobriu a divulgação de outros assassinatos como forma de controlar o pânico crescente. Outros acreditavam que o assassino teria deixado Londres ou mesmo que ele tivesse sido preso por outros crimes que o tiraram de circulação. É difícil traçar o paradeiro de Aaron Kosminsky após o derradeiro crime de Jack, o Estripador, mas sabe-se que sua condição mental teria deteriorado a tal ponto que a família o internou num Manicômio. Não se sabe exatamente quando se deu essa internação, mas o nome dele constava como paciente no Mile End, uma instituição de tratamento em 1891. Posteriormente ele foi encaminhado para o Asilo Leavesden em 1894, especializado na hospitalização de pacientes perigosos. Ele foi tratado como "possível homicida" e mantido longe de mulheres já que constituía uma ameaça a elas. Não há dados sobre a transferência de Kosminsky para Leavesden, mas uma vez que se trata de um Manicômio para criminosos condenados, é possível que ele tenha sido direcionado para a instituição pela autoridade policial.

Há suspeitas de que a Scotland Yard acreditava que se o nome de Kosminsky fosse divulgado como o maníaco o resultado poderia ser uma revolta generalizada contra a minoria da qual ele fazia parte. Em outras ocasiões judeus e imigrantes do leste europeu já haviam sido acusados e a desconfiança contra estes grupos crescia no East End. Esse temor pode ter justificado o encarceramento perpétuo de Kosminsky como suspeito de ser o assassino de White Chapel sem grande alarde. Segundo os cadernos de Investigadores do caso, após a prisão de Kosminsky os assassinatos cessaram levando a crer que ele realmente poderia ser o responsável.

Seja como for, Aaron Kosminsky viveu por quase duas décadas trancafiado em uma ala de segurança do Asilo Leavesden. Durante o período ele foi descrito como inofensivo, já que sua condição mental colapsou de tal forma que ele deixou de falar e precisava ser alimentado e limpo pelo staff. Ele morreu em 1919, vítima de anemia severa e de uma ferida na perna que evoluiu para gangrena. Ele tinha 53 anos de idade.

No fim das contas a divulgação da suposta identidade de Jack, o Estripador dividiu opiniões.

Para muitos as conclusões eram duvidosas, sobretudo quando se considera a idade do material genético periciado pela equipe. O item do qual ele foi obtido jamais foi reconhecido como uma evidência policial e por mais de um século ele foi manipulado e guardado sem o devido cuidado. Todo e qualquer contato poderia ser uma chance para apagar o DNA real e inserir um falso. Os críticos também contestam a escolha de DNA mitocondrial como uma prova incontestável, já que para eles o método oferece variáveis duvidosas. Finalmente, alguns colocam em dúvida a transparência, aludindo para o fato de que a equipe não aceitou compartilhar com outros laboratórios o material para realização de uma análise neutra.

Para os defensores há suficientes provas. O DNA e sangue compatíveis, o nome do suspeito, sua presença nos arquivos, o fato dos crimes terem cessado após a sua institucionalização... todas essas seriam peças a serem consideradas em um quebra-cabeças que foi sendo montado e que no final mostrava a face de Aaron Kosminsky.

Então, será que finalmente fomos capazes de desmascarar Jack, o Estripador? 

A resposta mais honesta é que talvez sim, fosse ele, mas também, talvez não... o cachecol pode ser genuíno, o DNA pode ser conclusivo, o risco de contaminação pode ser menor do que os críticos imaginam. Ou então os céticos podem ter razão e tudo não passar de uma bem arquitetada autopromoção e de resultados inconclusivos. O mais provável é que nunca venhamos a saber com absoluta certeza. Contudo, mesmo essa aura de incerteza já causa uma incômoda sensação, pois, se Aaron Kosminsky foi o maníaco, então o mito de um monstro assassino sobre-humano cai por terra. O que temos é um homem doente e ordinário de uma vizinhança brutal, alguém que fez coisas terríveis que reverberam mais de um século depois. E esta versão da história pode ser menos cinematográfica, mas por ser muito mais humana, é ainda mais assustadora.