domingo, 2 de agosto de 2026
Os Espectros da Velha Fortaleza - O lugar mais assombrado de Lima, Peru
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Cinema Tentacular: Backrooms - O Horror de um universo que não deveria existir
Poucos fenômenos do horror moderno nasceram de maneira tão característica da era digital quanto Backrooms. O conceito surgiu como uma imagem perturbadora compartilhada na internet: um espaço vazio composto por corredores amarelados, carpetes úmidos e iluminação fluorescente constante, um lugar que parecia familiar e, ao mesmo tempo, profundamente errado. A ideia de uma dimensão escondida atrás da realidade rapidamente ganhou força entre comunidades de terror online, tornando-se uma das creepypastas mais influentes dos últimos anos.
O responsável por transformar esse conceito em algo muito maior foi Kane Parsons, conhecido na internet como Kane Pixels. Ainda adolescente, Parsons criou uma série de vídeos em estilo found footage que imaginavam os Backrooms como uma dimensão desconhecida investigada por uma organização científica. A força desses vídeos estava menos em mostrar uma ameaça explícita e mais em criar uma sensação de desconforto: a impressão de que existia um lugar além das fronteiras normais da realidade. O sucesso da série chamou a atenção da indústria cinematográfica e acabou levando à produção do longa-metragem distribuído pela A24.
A chegada de Backrooms aos cinemas é, por si só, uma história curiosa. Kane Parsons assumiu a direção do longa, trabalhando a partir de um roteiro desenvolvido com Will Soodik. O elenco inclui nomes como Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell, enquanto a produção reúne nomes importantes da indústria, incluindo James Wan, Shawn Levy e equipes ligadas à A24 e à Chernin Entertainment.
O mais impressionante nesse processo é perceber que Parsons não abandonou a essência experimental que tornou os Backrooms famosos. Muitos conceitos nascidos na internet perdem sua força quando transformados em grandes produções, pois acabam recebendo uma estrutura tradicional demais. Backrooms, porém, preserva a principal característica de sua origem: o medo de estar diante de algo que não conseguimos compreender.
A premissa do filme parte de uma situação aparentemente simples: uma passagem estranha surge no porão de uma loja de móveis, revelando uma abertura para um espaço impossível. A partir desse ponto, a narrativa abandona gradualmente a lógica do mundo cotidiano e mergulha em uma realidade onde arquitetura, memória e percepção deixam de funcionar como deveriam.
Esse é justamente o aspecto que aproxima Backrooms do horror cósmico de H. P. Lovecraft. Apesar de muitas pessoas associarem Lovecraft apenas a criaturas gigantescas ou cultos secretos, o elemento central de sua obra sempre foi a descoberta de que o universo é muito maior e mais estranho do que a mente humana consegue compreender. O horror nasce quando a realidade deixa de ser confiável.
Nesse sentido, os Backrooms funcionam quase como uma localização dos Mythos de Cthulhu. Não são simplesmente um lugar perigoso, mas uma violação das regras fundamentais do universo. Corredores se prolongam além do possível, espaços parecem copiar ambientes conhecidos sem realmente compreendê-los e a própria ideia de distância perde significado. Para jogadores de Call of Cthulhu, é difícil não lembrar de histórias envolvendo dimensões alienígenas, realidades paralelas e locais onde as leis naturais funcionam de maneira completamente diferente.
Visualmente, essa é uma das maiores forças do filme. A direção de arte transforma espaços comuns — escritórios, depósitos, corredores comerciais e ambientes industriais — em algo alienígena. A escolha por ambientes iluminados, em vez da tradicional escuridão dos filmes de terror, é particularmente eficiente. O espectador consegue ver tudo, mas justamente por isso percebe que não há nada familiar naquele lugar.
A fotografia e o desenho de som desempenham papel fundamental nessa construção. O zumbido constante das lâmpadas fluorescentes, a repetição dos ambientes e a ausência de referências externas criam uma sensação de desorientação semelhante à que os personagens experimentam. É um horror baseado menos no choque e mais na permanência da inquietação.
A atuação também segue essa proposta mais contida. Chiwetel Ejiofor traz ao filme uma presença dramática forte, enquanto Renate Reinsve ajuda a equilibrar o aspecto emocional da narrativa. Em vez de personagens simplesmente fugindo de um monstro, eles representam pessoas tentando compreender uma situação que desafia qualquer explicação racional.
A escolha de Kane Parsons como diretor talvez seja o elemento mais curioso da produção. Sua trajetória representa uma mudança importante na maneira como novos cineastas podem surgir. Antes de dirigir um longa de uma grande distribuidora, Parsons construiu sua linguagem através de vídeos independentes publicados online. Essa experiência fica evidente na maneira como ele utiliza câmera, ritmo e atmosfera. Ele demonstra uma confiança incomum para um diretor estreante, especialmente na capacidade de sustentar tensão sem depender de recursos tradicionais do gênero.
A recepção crítica ao filme foi bastante positiva, principalmente em relação à direção, à atmosfera e ao design visual. Muitos críticos destacaram a habilidade de Parsons em transformar um conceito originado na internet em uma experiência cinematográfica própria. Também houve elogios à ambição do projeto e à maneira como o filme utiliza os Backrooms como uma metáfora para memória, isolamento e a fragilidade da percepção humana.
As principais críticas, porém, apontam uma questão recorrente: a força conceitual do filme às vezes supera o desenvolvimento emocional dos personagens. Alguns espectadores podem sentir que o mistério e a atmosfera recebem mais atenção do que os conflitos pessoais. Para quem procura um horror mais tradicional, com uma narrativa mais direta e respostas claras, Backrooms pode parecer deliberadamente distante.
Mas talvez essa seja justamente sua maior qualidade. O filme não está interessado em explicar completamente seu universo. Assim como os melhores trabalhos de horror cósmico, ele entende que algumas perguntas são mais assustadoras quando permanecem sem resposta. O desconhecido perde sua força quando é completamente revelado.
Para fãs de Call of Cthulhu, essa característica torna Backrooms especialmente interessante. O filme apresenta uma situação que poderia facilmente servir como inspiração para uma campanha: investigadores descobrindo uma falha na realidade, uma organização tentando estudar um fenômeno impossível e personagens lentamente percebendo que a humanidade não é a medida de todas as coisas.
No fim das contas, Backrooms é menos um filme sobre monstros e mais um filme sobre a descoberta de que existem lugares onde o universo simplesmente não funciona como deveria. Ele transforma um conceito nascido na cultura da internet em uma reflexão sobre espaço, memória e a fragilidade da percepção humana. Para quem aprecia horror cósmico, é uma obra que demonstra que os maiores pesadelos talvez não estejam escondidos nas sombras, mas em algum lugar logo atrás da realidade que acreditamos conhecer.
Trailer:
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Checklist: Suplementos de Chamado de Cthulhu - O Mythos em Outros Tempos e Lugares
PULP CTHULHU
(CTHULHU PULP Lançado pela New Order em 2023)
Se existe um suplemento capaz de mudar completamente o clima de uma campanha de Call of Cthulhu, esse livro é Pulp Cthulhu. Em vez de investigadores comuns enfrentando horrores além da compreensão humana, aqui os personagens se tornam verdadeiros heróis de ação, inspirados pelos romances e seriados pulp das décadas de 1930 e 1940. A investigação e o horror continuam presentes, mas dividem espaço com perseguições, combates espetaculares e aventuras em ritmo acelerado.
O livro apresenta uma série de regras opcionais que tornam os personagens mais resistentes e capazes, introduzindo Talentos Pulp, novas formas de utilizar Sorte, arquétipos, ciência fantástica, equipamentos exóticos e ajustes no combate. Um dos grandes méritos do suplemento é permitir diferentes níveis de "pulposidade", possibilitando que o Guardião escolha entre pequenas alterações nas regras ou uma experiência completamente voltada para a aventura cinematográfica.
Além das novas mecânicas, Pulp Cthulhu oferece uma excelente discussão sobre o gênero pulp e como adaptar esse estilo para o universo dos Mitos de Cthulhu. O livro também inclui quatro cenários prontos que servem tanto como introdução às novas regras quanto como ponto de partida para campanhas maiores, mostrando na prática como equilibrar ação, mistério e horror.
Para quem aprecia o horror investigativo clássico, este suplemento talvez represente uma mudança significativa de tom. Porém, para grupos que desejam aventuras inspiradas em Indiana Jones, A Múmia ou nas antigas revistas pulp, trata-se de uma das melhores expansões já publicadas para Call of Cthulhu. É um livro versátil, muito bem estruturado e capaz de renovar completamente a experiência de jogo sem abandonar a essência dos Mitos de Lovecraft.
Mais do que adaptar o cenário, o suplemento apresenta regras específicas para refletir a mentalidade da época. Novas ocupações, equipamentos, magia popular, combate montado e uma mecânica opcional de Sanidade ajudam a criar uma experiência distinta da encontrada no jogo básico, sem abandonar a essência de Call of Cthulhu. O resultado é um sistema familiar, mas perfeitamente ajustado ao contexto medieval.
Outro grande destaque é a riqueza do material de ambientação. O livro detalha a comunidade de Totburh, um assentamento anglo-saxão repleto de personagens, conflitos e ganchos para aventuras, além de apresentar um bestiário, um grimório e três cenários prontos que servem como excelente introdução ao período e às suas possibilidades narrativas.
Para Guardiões que desejam explorar um período pouco utilizado nos RPGs de horror, Cthulhu Dark Ages é um suplemento extremamente completo. Seu equilíbrio entre pesquisa histórica, novas regras e ferramentas para criação de campanhas faz dele uma das melhores ambientações alternativas já publicadas para Call of Cthulhu, oferecendo uma experiência única sem perder o clima de investigação e terror que caracteriza o jogo.
O suplemento adapta o sistema para o período com novas ocupações, perícias, equipamentos, armas e regras específicas para a vida na fronteira. Também há opções para integrar elementos de Pulp Cthulhu, permitindo campanhas mais cinematográficas para grupos que desejam enfatizar a ação sem abrir mão do horror cósmico. A adaptação é elegante e preserva a essência do jogo, ao mesmo tempo em que explora as particularidades do cenário.
Outro grande destaque é o material de ambientação. O livro apresenta um panorama histórico do Oeste americano, descreve personagens e figuras reais da época, além de detalhar duas localidades prontas para servir de base para campanhas. Para completar, traz dois cenários que exploram diferentes aspectos da vida na fronteira e demonstram como os Mitos de Cthulhu se encaixam naturalmente nesse período histórico.
Down Darker Trails é uma excelente opção para Guardiões que desejam fugir da tradicional Nova Inglaterra dos anos 1920 sem perder a identidade de Call of Cthulhu. A combinação entre pesquisa histórica, ferramentas para criação de campanhas e uma ambientação rica faz deste suplemento um dos cenários alternativos mais interessantes já publicados pela Chaosium, especialmente para quem aprecia histórias de faroeste com um toque de horror sobrenatural.
Harlem Unbound leva Call of Cthulhu para um dos momentos mais vibrantes da história de Nova York: o Renascimento do Harlem, durante a década de 1920. Em meio ao florescimento da cultura afro-americana, ao jazz, à Lei Seca e às tensões sociais da época, os horrores dos Mitos de Cthulhu encontram um cenário rico em histórias, conflitos e personagens memoráveis. Mais do que uma simples mudança de endereço, o livro oferece uma perspectiva única sobre o universo do jogo.
O grande destaque do suplemento é a qualidade de sua ambientação. Chris Spivey realiza um extenso trabalho de pesquisa histórica para apresentar o Harlem como um lugar vivo, detalhando seus bairros, estabelecimentos, personalidades e acontecimentos marcantes. O livro também aborda, de forma cuidadosa e madura, o impacto do racismo na época, oferecendo orientações para que esses temas sejam tratados com respeito e sensibilidade durante a campanha.
Além do cenário, Harlem Unbound traz novas ocupações, investigadores prontos para jogar, criaturas inéditas dos Mitos, geradores de aventuras e nada menos que sete cenários, capazes de sustentar uma longa campanha ou servir de inspiração para histórias independentes. O material é abundante e demonstra grande preocupação em fornecer ferramentas práticas para o Guardião levar a ambientação diretamente para a mesa.
Mais do que um suplemento de época, Harlem Unbound é uma das obras mais elogiadas já publicadas para Call of Cthulhu. Sua combinação de rigor histórico, excelente design e narrativas marcantes faz dele uma leitura recomendada mesmo para quem não pretende ambientar suas campanhas em Nova York. É um livro que amplia os horizontes do jogo e mostra como o horror lovecraftiano pode ser explorado sob novas perspectivas sem perder sua essência.
Terror Australis leva os horrores dos Mitos de Cthulhu para a Austrália das décadas de 1920 e 1930, explorando um cenário pouco utilizado nos RPGs de horror, mas repleto de potencial. Entre desertos implacáveis, cidades costeiras, florestas remotas e o vasto outback, os investigadores enfrentam não apenas criaturas além da compreensão humana, mas também o isolamento e as dificuldades impostas por um dos ambientes mais hostis do planeta.
O suplemento oferece uma rica descrição da Austrália da época, abordando sua geografia, história, cultura e cotidiano. O livro também apresenta novas ocupações, regras para sobrevivência em regiões inóspitas, informações sobre a fauna local e orientações para adaptar campanhas ao contexto australiano. Um dos aspectos mais interessantes é a maneira como integra elementos do folclore e das tradições dos povos aborígenes ao horror lovecraftiano, sempre incentivando uma abordagem respeitosa e bem fundamentada.
Além do excelente material de ambientação, Terror Australis inclui dois cenários completos que exploram diferentes regiões e aspectos do continente, demonstrando como os Mitos podem se manifestar muito além da tradicional Nova Inglaterra. As aventuras servem tanto como introdução ao cenário quanto como inspiração para campanhas próprias, aproveitando as características únicas da Austrália para criar uma atmosfera de mistério e isolamento.
Para Guardiões que procuram novas possibilidades de ambientação, Terror Australis é uma excelente escolha. Sua combinação de pesquisa histórica, riqueza cultural e ferramentas práticas faz deste suplemento muito mais do que um simples livro de cenário: é um convite para explorar uma faceta diferente do horror cósmico, em um lugar onde a vastidão da natureza torna os investigadores ainda menores diante dos terrores dos Mitos.
Berlin: The Wicked City transporta Call of Cthulhu para a capital alemã durante a República de Weimar, em uma cidade marcada por efervescência cultural, instabilidade política e profundas transformações sociais. Ambientado entre 1920 e 1930, o suplemento retrata uma Berlim vibrante e decadente ao mesmo tempo, onde artistas, cientistas, criminosos e extremistas convivem em um cenário perfeito para conspirações e horrores dos Mitos de Cthulhu.
O grande destaque do livro é sua ambientação cuidadosamente pesquisada. Em vez de apenas apresentar informações históricas, o suplemento mostra como era viver na cidade, explorando seus bairros, cafés, cabarés, universidades, organizações e os conflitos políticos que antecederam a ascensão do nazismo. O resultado é um cenário rico em possibilidades, no qual a tensão do mundo real se mistura de forma natural ao horror cósmico.
Além do extenso material de referência para o Guardião, Berlin: The Wicked City inclui três cenários completos que exploram diferentes aspectos da cidade e de seus habitantes. As aventuras combinam investigação, suspense e elementos sobrenaturais, aproveitando o clima de incerteza da época para criar histórias envolventes que podem ser jogadas de forma independente ou servir de base para campanhas maiores.
Mais do que um suplemento de cenário, Berlin: The Wicked City é uma verdadeira aula de como utilizar um contexto histórico para enriquecer o horror lovecraftiano. A qualidade da pesquisa, a excelente apresentação e o equilíbrio entre informações históricas e material pronto para jogo fazem deste um dos melhores livros de ambientação da Chaosium, recomendado tanto para fãs de história quanto para Guardiões em busca de uma alternativa à tradicional Nova Inglaterra dos anos 1920.
Em vez de concentrar sua atenção nas criaturas dos Mitos ou em grandes conspirações cósmicas, Cults of Cthulhu volta seu olhar para aqueles que mantêm viva a adoração ao Grande Sonhador. O suplemento explora em profundidade os cultos dedicados a Cthulhu, revelando sua história, crenças, estrutura e influência ao longo dos séculos. O resultado é um livro que amplia significativamente o papel dos antagonistas humanos em Call of Cthulhu.
O livro apresenta uma visão abrangente da evolução desses cultos, desde suas origens remotas até organizações modernas espalhadas pelo mundo. Além de discutir seus rituais, objetivos e formas de atuação, oferece ferramentas para que o Guardião crie suas próprias seitas ou adapte as existentes às necessidades de sua campanha. É um material que privilegia o desenvolvimento narrativo, enriquecendo investigações envolvendo fanáticos e sociedades secretas.
Outro ponto forte são os três cenários completos incluídos no volume, cada um ambientado em uma época diferente. Juntas, as aventuras formam uma campanha que acompanha a influência dos cultistas através das décadas, mostrando como suas ações e planos atravessam gerações. Essa estrutura oferece ao Guardião uma maneira interessante de explorar a persistência dos Mitos ao longo do tempo, criando conexões entre diferentes períodos históricos.
Cults of Cthulhu é um suplemento que se destaca pela profundidade de seu conteúdo e pela utilidade prática em mesa. Em vez de apenas apresentar novos monstros ou feitiços, o livro fornece ferramentas para construir adversários memoráveis, movidos por crenças e objetivos próprios. Para Guardiões que desejam campanhas com antagonistas mais complexos e recorrentes, trata-se de uma das expansões mais interessantes e versáteis já publicadas para Call of Cthulhu.
Regency Cthulhu transporta os horrores dos Mitos para a Inglaterra do início do século XIX, durante o elegante Período Regencial. Inspirado pela literatura de Jane Austen e pelos dramas sociais da época, o suplemento combina bailes, jantares, intrigas familiares e rígidas convenções sociais com o horror cósmico característico de Call of Cthulhu. O resultado é uma ambientação bastante original, onde reputação e etiqueta podem ser tão importantes quanto coragem e conhecimento oculto.
O livro adapta o sistema para refletir a sociedade inglesa da época, apresentando novas ocupações, regras voltadas à influência social, costumes, moda, etiqueta e relacionamentos. Em vez de depender apenas da investigação tradicional, os personagens precisam navegar pelas complexas relações da alta sociedade, descobrindo segredos escondidos sob uma aparência de refinamento e civilidade.
Além da rica ambientação histórica, Regency Cthulhu inclui dois cenários completos e diversas ferramentas para criar campanhas nesse período. O suplemento também oferece orientações para adaptar aventuras clássicas ao contexto regencial, demonstrando como os Mitos podem se manifestar em meio à aristocracia, aos salões de baile e às propriedades rurais da Inglaterra, sem perder o clima de mistério e horror.
Mais do que uma simples mudança de época, Regency Cthulhu propõe uma forma diferente de vivenciar Call of Cthulhu, privilegiando a interpretação, a diplomacia e as tensões sociais tanto quanto a investigação sobrenatural. É um suplemento elegante, muito bem pesquisado e ideal para grupos que desejam explorar uma faceta menos convencional do horror lovecraftiano, sem abrir mão da atmosfera inquietante que define o jogo.
Poucas cidades são tão importantes para o universo de H. P. Lovecraft quanto Arkham, e este suplemento faz jus à sua fama. Muito mais do que um simples guia de cenário, o livro transforma a fictícia cidade da Nova Inglaterra em um ambiente vivo, detalhando sua história, geografia, instituições, moradores e segredos. É uma obra indispensável para Guardiões que desejam ambientar campanhas duradouras no coração dos Mitos de Cthulhu.
O grande destaque do suplemento é a riqueza de detalhes. Ruas, bairros, comércios, hotéis, igrejas, jornais e, naturalmente, a célebre Universidade Miskatonic recebem descrições que tornam a cidade um verdadeiro personagem da campanha. O livro também apresenta dezenas de NPCs, organizações e locais de interesse, oferecendo uma base sólida para criar investigações que se desenvolvem de forma orgânica em meio ao cotidiano de Arkham.
Além da extensa ambientação, Arkham inclui cenários, ganchos de aventura e uma grande quantidade de informações que podem ser aproveitadas tanto em campanhas inéditas quanto na adaptação de aventuras clássicas. Em vez de focar apenas nos horrores sobrenaturais, o suplemento dedica espaço para mostrar como funciona a vida na cidade, permitindo que o contraste entre a normalidade e o horror seja ainda mais marcante quando os Mitos entram em cena.
Para muitos Guardiões, Arkham é um dos suplementos mais úteis já publicados para Call of Cthulhu. Sua combinação de pesquisa, organização e material pronto para uso faz dele uma referência para campanhas urbanas, oferecendo recursos suficientes para anos de jogo. Se a Universidade Miskatonic e as ruas de Arkham ocupam um lugar central em suas histórias, este é um livro praticamente indispensável.
Cthulhu by Gaslight: Investigators' Guide leva Call of Cthulhu para a Inglaterra vitoriana do final do século XIX, um período marcado por avanços científicos, rígidas convenções sociais e um fascínio crescente pelo ocultismo. Entre ruas envoltas pela neblina londrina, mansões aristocráticas e sociedades secretas, os investigadores enfrentam os horrores dos Mitos em uma ambientação que combina perfeitamente o terror gótico com o horror cósmico.
Diferentemente das edições anteriores de Gaslight, este volume é um livro completo e independente, trazendo todas as regras necessárias para jogar, sem exigir o Livro do Guardião da linha principal. Além da criação de personagens, o suplemento apresenta novas ocupações, equipamentos, informações sobre ciência de fronteira, práticas ocultistas e diversas adaptações que ajudam a capturar o espírito da Era Vitoriana.
O grande destaque, no entanto, é a qualidade da ambientação. O livro oferece um panorama detalhado da sociedade britânica da época, explorando as diferenças entre as classes sociais, o cotidiano londrino, os meios de transporte, a moda, os costumes e as oportunidades de aventura. Esse cuidado histórico cria uma base sólida para campanhas que podem ir muito além das tradicionais investigações em mansões assombradas e becos escuros.
Cthulhu by Gaslight: Investigators' Guide representa uma excelente reinvenção de um dos cenários mais clássicos de Call of Cthulhu. Com produção impecável, pesquisa histórica cuidadosa e um sistema totalmente integrado à ambientação, o livro é uma excelente porta de entrada para quem deseja explorar o horror lovecraftiano sob a luz vacilante dos lampiões da Era Vitoriana, sendo um dos lançamentos mais sólidos da Chaosium nos últimos anos.
Enquanto o Investigators' Guide estabelece o cenário e apresenta as regras para os jogadores, Cthulhu by Gaslight: Keepers' Guide é a verdadeira caixa de ferramentas do Guardião. O livro aprofunda a Inglaterra vitoriana como palco para campanhas de horror, reunindo informações sobre organizações secretas, sociedades ocultistas, criaturas dos Mitos e recursos para criar aventuras em uma era marcada pela ciência, pelo misticismo e pelas profundas desigualdades sociais.
Um dos grandes destaques do suplemento é o extenso material de apoio para construção de campanhas. O livro apresenta a Gazetteer of Fear, um guia com mais de uma centena de locais na Grã-Bretanha e em outras partes do mundo, além de detalhar organizações como a Hermetic Order of the Golden Dawn e outras sociedades que podem servir tanto como aliadas quanto como antagonistas. Também estão presentes novas criaturas, tomos, feitiços, habilidades ligadas ao ocultismo e regras para combate no plano astral, expandindo significativamente as possibilidades narrativas da ambientação.
O volume ainda inclui dois cenários completos, concebidos para introduzir grupos ao universo de Gaslight, além de diversos ganchos de aventura que facilitam a criação de campanhas próprias. Em vez de apenas fornecer estatísticas e monstros, o livro prioriza ferramentas para desenvolver histórias de longo prazo, explorando tanto o horror sobrenatural quanto os medos e tensões da sociedade vitoriana.
Cthulhu by Gaslight: Keepers' Guide complementa de forma exemplar o Investigators' Guide, formando um conjunto robusto para quem deseja explorar os Mitos de Cthulhu na Era Vitoriana. Com excelente organização, grande riqueza de conteúdo e foco em auxiliar o Guardião na criação de campanhas memoráveis, este é um dos suplementos mais completos e ambiciosos já publicados pela Chaosium para Call of Cthulhu.
Sentiu falta de algum suplemento? Calma... ainda tem mais material para ser resenhado em nosso Checklist, mas para não deixar a postagem gigantesca, vamos dividir em partes.
Fiquem conosco para a continuação...
terça-feira, 23 de junho de 2026
Checklist - Todo Material de Chamado de Cthulhu até o momento (PARTE 1)
Como o próprio título deixa claro, essa é uma postagem para que a gente possa conferir tudo o que foi publicado para Chamado de Cthulhu.
Aqui estão incluídos os livros oficiais, ou seja, os livros publicados pela editora Chaosium nos Estados Unidos.
Chamado de Cthulhu está em sua sétima edição e neste artigo vamos nos referir apenas ao material mais recente que foi lançado em 2014. O jogo chegou ao Brasil através da Editora New Order em 2017.
Para facilitar, separei os livros em quatro grupos que reúnem o Material Básico, Expansões, Livros com Cenários e Campanhas. Um quinto grupo de material adicional será incluído referindo-se a material extra que faz parte do selo.
Fiz alguns comentário à respeito das publicações, são comentários particulares com a minha opinião pessoal à respeito desses livros. Alguns deles possuem resenhas completas, muito mais longas e detalhadas que podem ser encontradas aqui no Blog. Convido todos a ler esse material se desejarem mais informações sobre estes livros em particular.
O Keeper Screen Pack é um complemento pensado para tornar a vida do Guardião mais prática durante as sessões de Call of Cthulhu. Embora seu principal componente seja um resistente escudo de quatro painéis com as tabelas mais utilizadas do sistema, o conjunto vai muito além de um simples acessório, reunindo material de apoio útil tanto para campanhas quanto para aventuras independentes.
Na face voltada ao Guardião, o escudo reúne as principais regras, tabelas de combate, dificuldades, efeitos de Sanidade e outras consultas frequentes, reduzindo a necessidade de interromper a partida para procurar informações no livro básico. Já a arte externa mantém a tradição da Chaosium, trazendo uma ilustração de grande impacto que contribui para a atmosfera de horror à mesa.
Além do escudo, o pacote inclui dois cenários completos, Blackwater Creek e Missed Dues, considerados por muitos jogadores entre as melhores aventuras curtas da sétima edição. Enquanto a primeira combina isolamento rural e horror crescente, a segunda mergulha os investigadores no submundo do crime organizado em Arkham. Juntas, elas demonstram a versatilidade de Call of Cthulhu e servem tanto para Guardiões iniciantes quanto para grupos experientes.
Mais do que um acessório, o Keeper Screen Pack é um excelente investimento para quem pretende mestrar Call of Cthulhu com frequência. A combinação entre um escudo funcional e duas aventuras de alta qualidade faz deste um dos suplementos de apoio mais úteis da linha, oferecendo praticidade durante o jogo e conteúdo suficiente para várias sessões memoráveis.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Peter Niers - O maior assassino em série da Idade Média
Existe alguma escala que define o que é o mal em seu estado mais terrível?
Talvez não, mas se uma pessoa pudesse ser usada como parâmetro do mais alto grau de maldade e perversidade, este alguém poderia ser o alemão Peter Niers.
Se sua própria confissão que antecedeu a sua brutal execução for verdadeira, esse obscuro cidadão que viveu na Alemanha do Século XVI assassinou nada menos do que 544 pessoas — 24 das quais mulheres grávidas que ele matou para obter seus fetos.
As histórias sobre Peter Niers podem ser menos conhecidas do que as de Vlad, o Empalador, Elizabeth Bathory, ou mesmo Jack, o Estripador mas não são menos horripilantes. Niers foi por muito tempo uma espécie de Bicho Papão na Europa Medieval e sua fama (ou melhor dizendo infâmia) atravessava fronteiras se espalhando por territórios, reinos e povos distantes. De certa maneira ele pode ter sido o primeiro exemplo de um fenômeno que muitos julgam recente, um sinal da decadência da nossa civilização moderna - o assassino alçado ao posto de celebridade.
No século XVI era possível viajar de Kievan Rus, nos limites da Rússia Europeia até Lisboa e escutar histórias sobre o assassino Peter Niers. Também era possível visitar os limites da Escandinávia até o Norte da África e ouvir relatos de pessoas que haviam ouvido falar através de conhecidos ou por intermédio de viajantes sobre os horríveis atos desse monstro. O caso de Niers foi discutido nos corredores da Universidade de Cambridge na Inglaterra, foi debatido em Salamanca na Espanha e chegou a ser tratado nas altas cortes de justiça de Veneza.
Dizia-se que Niers era um mestre da magia negra que podia se tornar invisível, assumir a forma de um gato, um cachorro ou uma cabra uma vez que dominava a arte da transformação. Ele ainda podia alterar sua aparência física, se fazer passar por um velho, por um noviço, por um nobre e por uma mocinha virginal para despistar seus perseguidores. Niers conseguia usar seu "olhar aterrorizante" para encantar pessoas: seus olhos transmitiam uma descarga de energia maligna que cegava, causava convulsões e podia matar em instantes. Seu sopro carregava um veneno similar ao do Basilisco. As pessoas que ele matava podiam ser transformadas em mortos vivos tamanho seu mal. A lista de poderes era enorme.
Um elemento recorrente indicava que a maioria de suas incríveis habilidades e poderes místicos decorriam do canibalismo, especialmente aquele que envolvia bebês humanos, uma fonte de energia que era frequentemente reabastecida pelo maníaco em suas orgias sanguinárias. Peter Niers supostamente guardava as mãos e os pés decepados de bebês em uma bolsa de couro o tempo todo. Mantinha-a perto de si pois dela extraía a energia que alimentava suas façanhas sobrenaturais. Se alguém tocasse essa bolsa feita de pele humana, uma maldição transformaria o pobre infeliz em um escravo do próprio feiticeiro.
Com todas essas lendas e mitos bizarros ao seu redor, não é de se admirar, que o assassino tenha se convertido num dos piores vilões da história. Mas o que é verdade e o que não passa de lenda quando se procura fatos à respeito de Peter Niers? Seria ele meramente a soma de incontáveis boatos infundados e de exageros? Ou haveria um fundo de verdade em tudo que se contava sobre ele? Seria o sujeito nada mais do que uma fraude de seu período histórico? Ou esse monstro com forma de homem realmente existiu?
Vamos examinar o que temos sobre esse terrível sujeito.
Peter Niers emergiu em meio a um período conturbado da Alemanha, na época uma colcha de retalhos de pequenos reinos e cidades estado não muito diferentes dos feudos que existiam no alto medievo. Ele nasceu em uma família camponesa nos arredores de Nuremberg em meados de 1540. Durante o auge da servidão, Niers testemunhou em primeira mão as lutas de classe. Sem dúvida, as condições de vida desumanas e o tratamento dispensado à classe camponesa foram um catalisador para sua posterior sociopatia. Os boatos apontam que ele já tinha a marca do assassino, uma ferida rosácea que lhe marcava a bochecha direita.
A onda de assassinatos de Niers começou quando ele e sua família se envolveu nas revoltas camponesas que tomaram conta do país após 1525. Também conhecida como Guerra dos Camponeses Alemães, essa revolta foi a maior da Europa até a Revolução Francesa. Os camponeses se organizavam em bandos que viajavam pelas estradas invadindo castelos, mosteiros e cidades. Eles odiavam os ricos Senhores de Terras e durante suas incursões os matavam sem a menor piedade.





































