domingo, 15 de maio de 2022

Criança das Estrelas - A controversa teoria do misterioso crânio de um ser alienígena


O Crânio da "Criança das Estrelas", um crânio real, encontrado na década de 30, é tratado por muitos teóricos dos extraterrestres como evidência física de que alienígenas ou seus híbridos estiveram na Terra. Infelizmente muitos desses objetos são tratados como propriedade privada e o acesso a eles para realização de testes que poderiam provar suas afirmações é rigidamente controlado, quando não totalmente proibido. Nenhum relatório científico independente foi publicado sobre esse crânio e há suspeitas de que os dados que demonstram ser ele humano, tenham sido suprimidos. No entanto, há uma comunidade muito ativa de pesquisadores que divulgam sua existência e o tratam como prova incontestável de contato extraterrestre. O problema com o reconhecimento do crânio vai muito além da simples coleta, análise e interpretação de dados: há questões éticas importantes sobre a maneira como os restos mortais são tratados.

Mas de onde veio? O que representa? Onde se encontra? E mais importante, qual é o possível significado desse curioso artefato para todos nós?

O crânio teria sido descoberto por uma garota americana de El Paso em 1932. Ela estava visitando uma mina abandonada perto de Copper Canyon, no México, à cerca de 160 km a sudoeste da cidade de Chihuahua. A história mais difundida afirma que a garota encontrou o crânio atrás da parede de uma câmara profunda. Ele estava caído ao lado do esqueleto de um adulto esparramado no chão da mina, como se a pessoa estivesse carregando o crânio. Embora a garota tenha tentado recuperar o esqueleto inteiro, uma inundação relâmpago levou a maioria dos restos mortais e tudo o que ela conseguiu salvar foi o crânio incomum. Ela o levou para casa, limpou e mostrou para um professor que se interessou pela descoberta e pediu para mostrá-la a um especialista em anatomia. Supõe-se que posteriormente o crânio tenha sido comprado por um médico e que tenha trocado de mãos ao longo das décadas, sendo adquirido por interessados em itens incomuns. 

O Crânio teria pertencido a pelo menos quatro pessoas diferentes até 1998, quando foi adquirido pelos atuais proprietários. Isso significa que as informações sobre sua descoberta são truncadas, na melhor das hipóteses. 


O crânio encontra-se atualmente na posse de Ray e Melanie Young; Melanie era uma enfermeira que ficou convencida de que a forma bizarra do crânio não poderia ser resultado de deformidades humanas comuns. Para tentar descobrir mais sobre sua origem, o casal procurou o autor Lloyd Pye que havia publicado controversos trabalhos sobre a origem da raça humana e do suposto envolvimento de alienígenas em nossa criação. 

Pye ficou muito impressionado com o achado e se converteu numa espécie de "guardião" do misterioso crânio. Desde então, todo o acesso a ele tem sido controlado. Em 2010, Pye contratou seu próprio geneticista para realizar análises de DNA na peça. Ele tem promovido o crânio, principalmente para grupos de estudiosos de OVNIs e Nova Era como prova da existência de extraterrestres entre nós. Pye também foi o responsável por criar o nome "Criança das Estrelas" (Starchild) usado para se referir não apenas ao crânio, mas a supostos híbridos humanos/alienígenas que figuram em suas teorias.

O crânio em questão é grande, com uma capacidade de 1.600 cm3, cerca de 200 cm3 maior do que um crânio adulto humano médio. Embora tenham sido feitas alegações de que ele é composto de um material que se assemelha ao esmalte do dente, sua formação principal é hidroxiapatita de cálcio, material padrão nos ossos de mamíferos. Ele contém os ossos usuais presentes num crânio humano, no entanto, apresenta deformidades óbvias ​​em praticamente todos eles. Por exemplo, as órbitas são incomumente rasas e o canal para o nervo óptico está mais próximo da base da órbita, sugerindo uma deformidade rotacional. Além disso, o osso occipital na parte de trás do crânio foi severamente achatado. Também não há seios frontais, condição que afeta cerca de dez por cento da população mundial. A análise de uma porção descolada da maxila direita mostrou dentição permanente não irrompida e uma idade estimada em torno de cinco a seis anos no momento da morte.


O primeiro teste de DNA realizado no crânio foi conduzido pelo laboratório Bureau of Legal Dentistry da Universidade de British Columbia no Canadá em 1999. A análise foi realizada a partir de uma pequena quantidade de material que demonstrou se tratar de uma criança do sexo masculino. Esse resultado foi contestado por Pye, que afirmava ter havido contaminação do material e que a conclusão havia sido errônea. 

Um segundo teste foi realizado em 2003 pela Trace Genetics de Davis, Califórnia, uma empresa privada que realiza testes de DNA. De acordo com o relatório do exame, a amostra demonstrou presença de material genético consistente com o haplogrupo C, típico de nativos americanos, conforme revelado por meio de duas extrações independentes realizadas em fragmentos do osso parietal. A segunda conclusão é que o perfil genético possuía uma sequência diversa desconhecida, que não podia ser determinada. 

Em 2010, novas análises de DNA foram realizadas pelo programa National Institutes of Health, que comparou sequências de proteínas com bancos de dados e calculou a significância estatística das correspondências. O objetivo era determinar relações funcionais e identificar o perfil dos genes. O procedimento descobriu 265 pares combinados, demonstrando “que ao menos uma parte do DNA era de um ser humano, mas o restante, permanecia indeterminado".

Segundo Lloyd Pye, isso constitui uma prova cabal de que o Crânio embora possuísse genes humanos, tinha também uma porção de DNA desconhecido, na opinião dele, de origem extraterrestre. Pye sugeria que a "Criança das Estrelas" seria um tipo de híbrido humano/alienígena. 


A datação por rádio carbono foi realizada em 2004 pela Beta Analytic de Miami, que forneceu uma idade aproximada do crânio entre 900 e 1100 anos. Isso coloca o crânio como contemporâneo da Cultura Mogollon que floresceu no norte do México e no sudoeste dos EUA no início do segundo milênio. A prática da deformação craniana era amplamente praticada por esse povo, ainda que nada semelhante tenha sido encontrado em escavações de antigos cemitérios deles. 

Crânios deformados eram um fenômeno comum no continente americano antigo. O crânio de recém-nascidos consiste em ossos que ainda não estão fundidos (a fontanela no topo da cabeça é onde os ossos frontal e parietal eventualmente se encontrarão) e podem ser moldados em formas artificiais por meio de tábuas pressionadas contra a cabeça do bebê. Essa variedade de deformações pode ter sido praticada no crânio da "criança das estrelas". No entanto, outros aspectos do crânio parecem distintamente patológicos: a falta de seios frontais, a capacidade craniana excessivamente grande e as formas das órbitas são indícios de graves doenças congênitas.

Os testes de DNA realizados mostraram que a criança pertencia ao haplogrupo C, equivalente a nativos americanos, sugerindo que o pai ou mãe da criança eram sem dúvida humanos nativos americanos. É no entanto impossível inferir a origem do outro genitor, mas o fato dos resultados serem inconclusivos não significa necessariamente que este seria alienígena. 


Mas se ele não é "alienígena", por que o crânio parece tão incomum? 

É possível que essas deformidades profundas possam ter sido resultado de hidrocefalia congênita, uma condição na qual o crânio se enche de líquido cefalorraquidiano. Outra condição que pode produzir deformidades semelhantes é a progeria, na qual sintomas semelhantes ao envelhecimento prematuro são causados ​​por uma mutação genética. Acrescente a isso a deformação deliberada do crânio que provavelmente começou imediatamente após o nascimento e teremos um crânio de formato incomum. A conclusão científica mais provável mostra que o crânio da "criança das estrelas" pertenceu a um menino humano muito doente, que provavelmente morreu em face das alterações realizadas em seu crânio e da presença de várias doenças. 

É claro, à primeira vista, o crânio da "Criança das Estrelas" se assemelha muito ao dos alienígenas conhecidos como "Greys", com seu rosto amendoado, grandes olhos e boca pequena, que muitos apontam como a aparência mais provável dos extraterrestres. Uma reconstrução da aparência da "Criança das Estrelas" na época de sua morte, nos dá uma imagem impressionante que muitos ufólogos podem considerar conclusiva, mas mesmo essa semelhança não é o bastante para atestar a origem extraterrestre da criança.


De fato, há bem pouco no crânio desta criança que indique que ela seja outra coisa além de um indivíduo muito doente e muito humano, cuja cultura dos pais os incentivou a achatar a parte de trás de sua cabeça. Essa amarração na cabeça pode muito bem ter contribuído para sua morte precoce, mas, qualquer que seja a natureza precisa de sua condição patológica, o menino claramente não estava destinado a chegar à idade adulta. Apesar dos defensores do híbrido alienígena afirmarem que a criança estava em perfeita saúde no momento de sua morte, uma simples análise dos restos mostraria que esse não era o caso: as condições de saúde dele não deveriam ser de modo algum normais, não com tantas deformidades cranianas.

A despeito das explicações de médicos anatomistas, patologistas e especialistas em varias áreas, o crânio da Criança das Estrelas continua sendo apresentado como uma "prova inequívoca" de que não estamos sós no universo e que extraterrestres estiveram entre nós. A controvérsia apenas cresce ao longo dos anos.

Abaixo podemos ver uma simulação da aparência geral mais provável da "criança das estrelas" quando esta ainda vivia, por volta do ano 1000 dC.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Triskaidekophobia - A Fobia do número 13 e seus significados ocultos


Para celebrar a data...

Desconfiança e medo sempre cercaram o número 13. O “azarado” número 13 ainda é temido nos dias atuais e a profundidade da fobia ultrapassa e muito a mera superstição. Existe até um nome clínico, ela é chamada de Triskaidekaphobia, o medo patológico do número 13 e de tudo o que ele representa.

Parece bobagem? Mas não é.

A fobia do número 13 é estudada pela psiquiatria moderna e mereceu reconhecimento em publicações importantes como a Revista de Psiquiatria Americana.

Uma pessoa que demonstra problemas com o número 13, em geral é apenas supersticiosa. No entanto, verdadeiras fobias se desenvolvem como resultado de fortes superstições ou crenças enraizadas no subconsciente coletivo, dentre elas o do número 13, frequentemente associado a azar.

Temer ou ter receio do número 13 não chega a ser algo fora do comum para a maioria das pessoas. Muitos tendem a achar perfeitamente normal desconfiar das implicações do número 13, por mais ilógico que seja temer um simples número. Na sociedade, evidência da fobia que cerca o número 13 está em todo lugar. Pode ser chocante contemplar o quanto um simples número é evitado mesmo na sociedade moderna.

O Número 13 raramente aparece em prédios marcando aquele que seria o Décimo-Terceiro Andar. Nos Estados Unidos 87% dos prédios que tem mais de 13 andares, pulam do andar 12 direto para o 14. Da mesma forma alguns restaurantes possuem como regra não aceitar mesas com 13 indivíduos. Na contingência de uma reserva dessa natureza, o restaurante aceita receber um décimo quarto cliente gratuitamente. Para alguns esse costume remete a Última Ceia, quando 12 apóstolos sentaram a mesa na companhia de Cristo (ou seja 13 indivíduos). O resultado todos nós sabemos!

O número 13 é comumente evitado como data para cirurgias e intervenções médicas. Segundo uma pesquisa nos dias 13 de cada mês o índice de internações diminui em 60%, sendo que em sexta feira 13, ele sofre uma redução vertiginosa, caindo em 80%. E isso não afeta apenas aos pacientes; cerca de 50% dos médicos relatou que evitam realizar cirurgias nessa data. Algo semelhante acontece em viagens. O dia 13 é no calendário um dos dias com menos pessoas viajando. As companhias aéreas registram uma sensível mudança nas reservas de passageiros nessas datas.

Da mesma maneira, assentos marcados com o número 13 são preteridos. Em vôos a poltrona 13 muitas vezes fica vazia e comumente os agentes de viagem deixam ela por último, designando passageiros para elas somente em caso de lotação. Mesmo em cinemas ou teatros, os assentos com número 13 ficam vazios.

Botes salva vidas, prefixos de voo e veículos de socorro também muitas vezes não possuem o número 13 que é convenientemente ignorado.

As raízes do significado do número 13 podem ser traçadas até as religiões pagãs da Europa. O número 13, segundo algumas tradições, possuía uma conotação mística e auspiciosa. Um número de sorte para muitos povos da antiguidade eles estava associado a transformações, mudanças drásticas e alterações profundas. Alguns povos, como os celtas viam o 13 como um número mágico.

Quando o cristianismo se tornou dominante na Europa, o número 13 passou a ser associado a datas de infortúnio como uma espécie de propaganda negativa que visava nublar o significado original do número. O 13 também passou a representar o número cabalístico das feiticeiras, que se associavam em grupos de 12 membros, sendo o décimo-terceiro seu patrono: o Diabo.

O medo do número 13, no entanto, se torna ainda mais forte quando agregado a uma data em especial, a sexta-feira.

A sexta feira para os cristãos sempre foi uma data de azar, supostamente parte da mesma propaganda negativa contra as religiões pagãs, que festejavam esse dia. Jesus expirou na cruz em uma sexta feira, esse portanto não deveria ser um dia de festejos ou de sorte. Além disso, segundo a tradição judaica, incorporada ao cristianismo, foi em uma sexta feira que o Dilúvio contemplado na Bíblia teve início. Chuvas que não pararam por 40 dias e 40 noites e que cobriram o mundo com água trazendo destruição sem precedente. Ainda segunda a Bíblia, teria sido em uma sexta feira que Eva ofereceu a Adão a infame maçã que decretou sua expulsão do Paraíso.

O folclore e as tradições orais se espalharam pelo mundo e a origem do temor da sexta-feira 13, hoje constitui um mistério perdido no tempo. 

Há, no entanto, teorias:

Segundo o Mito Nórdico, Frigga, a deusa devotada ao amor e fertilidade era reverenciada pelos povos nórdicos e germânicos. Quando eles se converteram ao cristianismo, Frigga teria se exilado em desgosto nas montanhas e passou a ser vista como uma Bruxa. Segundo o mito, toda a sexta-feira ela se reunia com 12 outras feiticeiras para operar malefícios. Na Escandinávia a sexta feira é considerada dia de bruxas, um dia para tomar cuidado com o que acontece e postegar decisões importantes.

Os Nórdicos por sinal, possuíam outra história a respeito da simbologia do 13. Segundo eles em uma importante ceia, haviam 12 guerreiros sentados à mesa. Com a chegada de Loki, eles se tornaram 13, e justamente o décimo terceiro teria causado uma discussão que terminou com a morte de Balder, um dos presentes. Daí decorria a crendice de que 13 pessoas à mesa é um convite ao infortúnio.

Outra teoria famosa se refere a lendária queda dos Cavaleiros Templários, cuja ordem foi proscrita pelo Rei Felipe de França em 13 de Outubro de 1307, uma sexta feira 13. Para recordar essa data, os Templários sobreviventes teriam consagrado o costume de reconhecê-la como uma data de profundo azar.

Uma teoria difundida na Inglaterra, dá conta de que a sexta feira 13 se tornou uma data de profecia ligada a má sorte quando o Rei Harold II decidiu liderar seu exército na Batalha de Hastings no ano de 1066. Na ocasião o monarca não ouviu seus conselheiros que lhe advertiram para descansar com a tropa após uma árdua jornada antes de empreender o ataque. O Rei sem se importar com o conselho ordenou o avanço das tropas e como resultado sofreu uma amarga derrota. Harold acabou morto, seu exército desmantelado e os sobreviventes acabaram amaldiçoando a data.

Seja qual for a origem, a Sexta Feira 13 sempre será lembrada como a data do azar e do mau agouro. Portanto não faz mal evitar hoje os gatos pretos, passar por baixo de escadas e não mexer em espelhos.

Se eu tivesse de apostar em uma data para o retorno dos Antigos, provavelmente essa data seria uma Sexta Feira 13.

Como curiosidade, eis aqui a Triskaidekophobia - Uma fobia para Chamado e Rastro de Cthulhu.

Um personagem sofrendo dessa fobia pode tê-la desenvolvido a partir de uma forte superstição. É possível que o número remeta a um acontecimento traumático ou a uma data que causou o choque original.

O personagem vítima de Triskaidekophobia teme o número e tudo o que ele representa. Ele não sai de casa nos dias 13 de cada mês e sente-se apavorado nos dias que antecipam essa data. Ele teme falar a respeito e se comporta demonstrando ansiedade e certo grau de paranóia.

O indivíduo não aceita se hospedar em quartos de hotéis com esse número, não apanha taxis com a placa terminando em 13, não apanha trens que saem da estação às 13 horas, não visita amigos ou faz compras em casas de número 13. Ele jamais sentará em uma mesa com treze indivíduos.

Em casos graves, o indivíduo se torna compelido a fazer contas e negar tudo aquilo cujo resultado remete ao número 13.

Se forçado a fazer qualquer uma dessas coisas o indivíduo reage como se estivesse diante de um objeto de temor, em certos casos ele pode reagir violentamente, ter uma crise nervosa ou até ficar catatônico.

Eu vi apenas uma vez um personagem ser acometido dessa fobia. O personagem havia desenvolvido um medo patológico de que o relógio desse 13 badaladas, o que acabaria por condená-lo a ficar para sempre na terra dos Sonhos. Foi bem divertido (sobretudo porque não era com meu personagem!).

terça-feira, 10 de maio de 2022

Doença do Riso - A Misteriosa Epidemia do Riso de Tanganica


Todo mundo adora rir. Quem não ama uma boa gargalhada? São coisas que trazem alegria, nos curam e nos unem como nada mais. O mundo realmente precisa de mais riso, e dizem que o riso é o remédio da alma. 

Mas eis aqui uma questão: E se a doença em si for o riso? E se você começasse a rir um dia e não conseguisse parar até ficar incapacitado? Dizem que o riso é contagioso e, de fato, Charles Dickens disse certa vez: "Não há nada no mundo tão irresistivelmente contagioso quanto o riso", mas e se tudo isso fosse literal e pudesse ser um tipo de doença? E se essa doença se espalhasse, contagiando todos à sua volta? Por bizarro que possa parecer (e de fato é), foi exatamente isso que aconteceu em uma remota aldeia africana no ano de 1962, quando as pessoas começaram a cair em uma risada contagiante que se tornava incontrolável a ponto de ser perigosa. 

Tudo começou em 31 de janeiro de 1962, em um internato para meninas em Kashasa, na costa oeste do Lago Vitória, em Tanganika, Tanzânia, na África. Começou de forma discreta e inocente, uma aluna começou a rir repentinamente, depois outra, mais uma e então a coisa foi se tornando estranha, beirando o bizarro. As gargalhadas incontroláveis, sem motivo aparente se multiplicavam nos momentos mais inapropriados e inoportunos. 

No início era apenas uma curiosidade, mas depois começou a se espalhar, com mais e mais alunas demonstrando acessos incontroláveis de riso irrestrito. Algumas, por traz das risadas beirando a histeria demonstravam uma preocupação com o que pudesse estar acontecendo consigo mesmas, a medida que a reação emocional não cessava. De uma sala de aula, a estranha condição se espalhou para toda a escola, para a perplexidade de pais e professores que permaneciam imunes aos efeitos. Tudo aquilo era tão estranho que a escola se viu forçada a fechar as portas até que a situação se resolvesse. 

Mas isso foi apenas o começo!


Os misteriosos acessos de riso se espalhariam da escola para o resto da vila e arredores, até afetar mais de mil pessoas segundo estimativas e registros da época. Os sintomas da condição inexplicável incluíam ataques recorrentes de riso e, inversamente períodos de choro ou gritos, dor geral no corpo, fadiga física-mental, desmaios, problemas respiratórios, erupções cutâneas, que duravam de algumas horas até 16 dias e tinham efeitos colaterais, incluindo inquietação, energia nervosa excessiva e explosões de violência ocasional. Em alguns casos, as crianças submetidas à condição riam até perder a consciência, ficavam sem ar, desmaiavam e precisavam de socorro. Sofriam ainda de violentos espasmos e em casos esparsos convulsões. Riam com tanta força que sentiam náuseas e por vezes vomitavam. Outras eram incapazes de ingerir alimentos e água, tamanha a intensidade de suas gargalhadas. Era algo totalmente inexplicável e que permanece como um mistério difícil de se contextualizar.

Risadas são geralmente algo bom, mas daquela maneira excessiva, poderia vir a ser perigoso. Parecia não haver fim para a curiosa epidemia que seguia se espalhando para outras aldeias, chegando até a invadir a nação vizinha de Uganda. Os jornais estampavam manchetes sobre a "Epidemia de Risada" e demonstrava uma séria preocupação com o que poderia acontecer. A essa altura, algumas vítimas já haviam sido internadas em hospitais locais. Um dos temores era que a condição fosse apenas a primeira fase de uma doença ainda mais séria e desconhecida que poderia trazer virtualmente qualquer efeito danoso e inesperado. 

Os tanzanianos chamavam aquela estranha doença de "Omuneepo", que pode ser traduzido como "a doença da gargalhada". Os médicos e cientistas chamados às pressas para investigar a causa não conseguiram encontrar nenhuma razão física para as explosões, mesmo quando elas ficaram tão severas que algumas crianças tiveram de receber tranquilizantes. 


A epidemia misteriosa continuaria por aproximadamente 18 meses, período em que os sintomas desapareciam e ressurgiam nas vítimas, sem que nenhum padrão pudesse ser compreendido. A curiosa doença do riso, tão misteriosamente quanto se iniciou, começou a desaparecer abruptamente, deixando médicos e cientistas perplexos. 

O que teria acontecido na Tanzânia durante aquele estranho período? O que teria causado essa doença, até onde se sabe, única nos anais da medicina contemporânea?

Uma das teorias é que foi algum tipo de doença psicogênica ou sociogênica em massa, criada por meio de estresse crônico e transmitida psicologicamente, uma espécie de histeria em massa. Nesta teoria, tudo era psicossomático, causado pelo fator de dispersão. Literalmente: uma pessoa ria incontrolavelmente, outra acompanhava e logo, todos estavam rindo, sem entender ou saber porque. O estudo dessa epidemia fez com que a comunidade médica e psiquiátrica nomeasse essa condição de Doença Psicogênica de Massa (MPI). Ela é psicogênica, o que significa que está tudo na mente das pessoas que apresentaram os sintomas manifestados. Ela não seria causada por um elemento no ambiente, como intoxicação alimentar ou uma toxina dispersa no ar. O fator central seria o estresse compartilhado pela população. É um tipo de histeria, associado mais frequentemente a mulheres, mas que pode atingir qualquer grupo de indivíduos vivendo em sociedade. 

Outra ideia é que a epidemia foi causada por algum tipo de vírus que atingia certas áreas do cérebro. Silvia Cardoso, bióloga comportamental da Universidade Estadual de Campinas, no Brasil, acredita que a epidemia do riso foi causada por um vírus semelhante à encefalite que danificou estruturas na parte basal do cérebro causando crises de riso. Ela defende que é pouco provável que uma reação de massa puramente psicológica durasse tanto tempo e fosse tão difundida. No entanto, nenhum sinal de vírus ou qualquer tipo de toxina foi encontrado nas vítimas.


Finalmente, na ausência de uma explicação científica para a Epidemia, muitos recorreram ao mundo paranormal. Dizia-se que a epidemia era causada por espíritos que estavam insatisfeitos com a forma como a sociedade tanzaniana se afastava de suas antigas tradições, adotando os costumes do ocidente. Para curar a condição, alguns médicos naturais e feiticeiros tribais recorriam a velhas receitas com exorcismo, danças e aplicação de remédios naturais. Por se tratar, em teoria, de uma doença de fundo emocional, por vezes isso trazia efeitos benéficos e fazia cessar os sintomas. Na superstição local, isso significava que o espírito havia sido afastado. 

Até hoje a misteriosa Epidemia do Riso de Tanzânia jamais foi explicada, e continua sendo um incidente isolado e inexplicável, sobretudo por ter se espalhado por tantas pessoas e por tanto tempo. Não se sabe se tal coisa foi um fenômeno isolado ou se poderá vir a se manifestar uma vez mais. 

domingo, 8 de maio de 2022

Culto da Morte - A horrível tragédia de "Jamestown"

Continuando a postagem sobre Jonestown.

Os membros do Templo do Povo haviam sido treinados por muitos anos para se prepararem para o suicídio em massa que finalmente ocorreu em novembro de 1978. Jim Jones, seu carismático líder, havia compartilhado com seus seguidores a crença paranoica de que o governo americano estava planejando destruir seu Movimento revolucionário. 

Ao longo dos anos, Jones apresentou muitas "ameaças externas" à segurança de seus seguidores, mas afirmava ter sempre removido o perigo para eles. Uma e outra vez ele os havia resgatado, eles aprenderam a confiar nesse homem conhecido por eles como o "Pai".

Jones e seus seguidores se mudaram para o vilarejo de "Jonestown" com o objetivo de criar uma comunidade completamente autossuficiente baseada nos ideais do comunalismo. Cada pessoa trabalharia para o bem comum, produzindo comida, abrigo, roupas, cuidados de saúde e educação para si e para os demais. Nesta comunidade todos seriam iguais e poderiam viver em paz. Era um ideal nobre, pelo qual valia a pena morrer, dizia o Reverendo em seus sermões inflamados.
 
Em novembro de 1978, o povo de Jonestown demonstrou que realmente estava pronto para morrer. Mas como eles chegaram a isso? O que motivou quase mil pessoas a cometer suicídio em nome de suas crenças? Matar suas crianças e depois beber veneno. Como costuma acontecer com seitas apocalípticas, tudo isso foi um processo, longo e desgastante que moldou a mente dessas pessoas nesse sentido.

Visão aérea de Jonestown na época da tragédia 

Tudo era uma questão de compromisso e dedicação. Quanto mais a pessoa se dedicava, mais ela era admirada pelos demais membros da Igreja. O nível mais alto de compromisso só podia ser atingido quando um indivíduo ou sua família passava a viver nas instalações do Templo do Povo, entregando todos os bens pessoais, economias e cheques da previdência social para o Templo. O ideal de vida em comunidade era um grande aspecto do ensino de Jones, visto como o único ideal verdadeiramente espiritual. O mundo exterior do capitalismo e do individualismo era maligno e destrutivo. As forças desse sistema veriam os ideais e realizações do Templo do Povo como uma ameaça à sua própria estabilidade e, assim iriam desejar sua destruição. Com isso, Jones foi capaz de criar a ilusão de que o único lugar de segurança e conforto para as pessoas era o Templo do Povo. Do lado de fora, reinava um mundo de dor e perigo.

Nos vinte anos anteriores aos trágicos eventos em Jonestown, o número de seguidores do reverendo Jim Jones havia crescido, à medida que ele atraiu os marginalizados da sociedade, juntamente com aqueles que desejavam ajudar os oprimidos e servir os necessitados. Jones pregou a necessidade de fraternidade e integração racial, de igualdade e doação. Ele fundou o Templo do Povo no ano de 1963 e lá negros e brancos participavam do culto lado a lado. Os pobres e os desajustados da sociedade foram recebidos de braços abertos. A congregação de Jones trabalhou para alimentar os miseráveis, encontrar emprego, ajudar ex-criminosos e viciados em drogas a recompor suas vidas.

À medida que a congregação de Jones crescia, também cresciam as exigências que ele fazia ao seu rebanho. Maiores sacrifícios e dedicação eram exigidos dos membros do Templo do Povo. Jones se mudou para o norte da Califórnia em 1965, junto com 100 de seus seguidores mais fiéis. Uma vez na Califórnia, o Templo do Povo cresceu até haver várias congregações, com sede em São Francisco. Para atrair os membros, Jones prometia curas milagrosas onde os cânceres seriam extirpados e os cegos voltariam a enxergar. Aos recém chegados, o ideal transmitido parecia verdadeiro e nobre. 

Para convencer ainda mais seu público, Jones oferecia previsões de eventos que ainda aconteceriam como se fosse um profeta iluminado por visões. Os membros do templo aceitavam que, de fato, ele era um indivíduo superior e ninguém tinha dúvida de seus dons. Ouvir os seus conselhos, compreender sua mensagem e fazer o que ele mandava eram as etapas para doutrinar os membros e torná-los totalmente dependentes de seu líder. 

Jim Jones durante uma de suas pregações na Califórnia

De sua parte, Jones também começou a agir de modo cada vez mais truculento, impondo punições para os que falhavam ou que não admitiam sua fraqueza. Isolamento, humilhação, fome e tortura psicológica eram ferramentas usadas diariamente. Cada aspecto da vida do seu rebanho era controlado até que a vontade própria desaparecesse de uma vez por todos. 
 
Em Jonestown esse método de controle atingiu seu extremo. A comunidade estava situada no meio de uma densa selva, com guardas armados ao longo das poucas estradas que levavam à civilização e todos vigiavam uns aos outros. Mesmo que alguém conseguisse sair do complexo, ele não tinha passaporte, documentos ou dinheiro que permitisse escapar. O lugar apesar de não ter muros, era uma prisão da qual ninguém escapava.
 
E quanto a Jim Jones em pessoa? Quem era o homem que construiu esse controle e como ele conseguiu ter êxito nos seus intentos?

Jim Jones nasceu em Indiana, em 1931, durante a Grande Depressão. Enquanto seus pais lutavam para sobreviver, Jones estava livre para explorar o mundo ao seu redor. Em tenra idade, ele encontrou uma congregação pentecostal conhecida como Tabernáculo do Evangelho, composta principalmente de pessoas sem dinheiro que se mudaram para o campo. A igreja e seus membros moravam à margem da comunidade e eram conhecidos como "fanáticos desesperados".

O carismático Reverendo Jim Jones com sua indumentária tradicional

No início da adolescência, Jones não queria mais saber das atividades normais dos outros meninos. Ele estava muito mais interessado no fervor emocional e religioso que encontrou no Tabernáculo do Evangelho. Lá aprendeu sobre cura espiritual e logo estava recebendo elogios por seus discursos. Em 1947, aos dezesseis anos, Jones pregava nas esquinas compartilhando a sabedoria e o conhecimento que acreditava possuir. Ele defendia a irmandade do homem, independentemente da posição social ou raça. Suas simpatias estavam com os pobres e oprimidos.
 
Durante seus anos de ensino médio, o jovem Jim Jones se interessou pela vida de homens poderosos e influentes, tendo um interesse especial em Adolf Hitler e Joseph Stalin. Quando conheceu sua futura esposa, Marceline, no final da adolescência, ele já havia desenvolvido um profundo conhecimento sobre questões sociais e eventos mundiais. Marceline era uma estudante de enfermagem no hospital onde Jones trabalhava meio período. Eles se casaram, mas os primeiros anos de seu casamento foram tempestuosos. Jones era inseguro e dominador ameaçando se matar várias vezes. As constantes explosões emocionais foram extremamente difíceis para Marceline, mas sua crença de que o casamento era um compromisso para toda a vida a fez resistir.
 
Ao longo desse período, Jones começou a questionar sua fé por conta de todo sofrimento que presenciava no mundo e que ele não era capaz de diminuir. Sua visão apenas se suavizou quando ele se juntou a uma Congregação Metodista que defendia o direito das minorias e trabalhava para acabar com a pobreza. Jim Jones era um dos mais dedicados à essa causa atraindo multidões que vinham de longe para ouvir suas palavras reconfortantes. Quando ele ganhou fama e seguidores suficientes, decidiu criar sua própria Igreja que chamou de "Templo do Povo". O estilo emocional de pregação e a mensagem de igualdade conquistaram muitos seguidores e a congregação cresceu.
 
Com a Guerra Fria no auge, Jones passou a acreditar que o comunismo poderia ser combatido com o comunalismo, uma doutrina de que as pessoas deveriam compartilhar o que tinham para gerar uma sociedade igualitária. Coincidentemente, foi nessa época que Jones teve a "visão" de um ataque nuclear que acabaria destruindo a civilização. Acreditando que os Estados Unidos estavam fadados a serem devastados, Jones começou a procurar um lugar "mais seguro" para sua congregação. Ele viajou para o Havaí e depois para o Brasil, onde ficou por dois anos, ensinando inglês para se sustentar em São Paulo. Foi durante sua viagem de volta do Brasil que ele visitou a Guiana pela primeira vez.

Propaganda do Templo do Povo 

O reverendo ainda retornou para a Califórnia onde ministrou por algum tempo, mas seus planos envolviam levar o Templo do Povo para a América do Sul. Em 1974 ele obteve permissão do governo da Guiana para construir a nova sede do Templo em um lote de 300 acres, a 200 quilômetros da Capital, Georgetown. O arrendamento foi batizado "Jonestown" e deveria ser o primeiro em uma série de cidades que receberiam milhares de pessoas. Jones fez propaganda de si mesmo como um tipo de Messias com poderes de cura em todo país, acreditando que isso iria atrair ainda mais pessoas, contudo, Jamestown tinha uma estrutura precária e quem se mudava para lá experimentava enormes dificuldades.  
 
Frustrado ele retornou aos EUA para angariar fundos que permitissem concretizar seu sonho de construir uma utopia no meio da selva. Grupos de pensadores engajados, políticos liberais e progressistas ofereceram a ele suporte, mas os recursos vieram realmente quando o Templo passou a absorver os bens de seus seguidores. Estes eram incentivados a transferir todos os seus bens para o nome de Jones. As doações permitiram que o Templo obtivesse empréstimos com bancos para melhorar a infraestrutura de Jonestown.

Aos poucos, a idílica cidade da selva, o paraíso terreno do comunalismo, saiu dos planos e surgiu no meio do nada. O terreno escolhido era isolado, ermo e perigoso: Coberto de uma densa vegetação, com charcos e pântanos infestados de mosquitos e serpentes. Apesar das dificuldades no início, o lugar começou a crescer com a construção de alojamentos, cozinhas comunais e depósitos. Jones contratou agricultores experientes que limparam o solo e deram início a um promissor projeto de agricultura que os tornaria autossuficientes. No projeto, Jonestown também receberia um hospital de referência e uma usina para gerar a própria luz.

Os pioneiros que se mudaram para Jonestown trabalhavam exaustivamente. Muitos deles não tinham experiência com a vida no campo e não estavam adaptados àquela nova realidade. Foi esse o momento que Jones escolheu para aterrorizar seus seguidores. Com uma campanha cada vez mais agressiva de convencimento, ele afirmava que deixar o povoado era dar as costas para o único lugar seguro do mundo. Lá fora ninguém estava seguro da guerra iminente que varreria a humanidade da face da terra, levando o mundo à beira da perdição. Apenas os que viviam em Jonestown conseguiriam sobreviver e eles seriam os primeiros a formar o novo "Povo Escolhido por Deus".

O Pastor gostava de ser fotografado com crianças de todas as raças

A mensagem de Jones, martelada constantemente nos seus sermões diários, afirmava que a vida na Guiana poderia ser dura, mas ela era a única opção para quem quisesse alcançar a salvação. Os que ainda duvidavam de seu discurso eram procurados por outros membros do Templo, por vezes ameaçados, ou até mesmo isolados em celas para que pudessem "refletir". Finalmente os que estavam convictos e queriam partir, o faziam de mãos vazias, por vezes, penavam para retornar aos seus países de origem, desistiam e retornavam. 

Contudo, alguns "dissidentes" retornaram para suas casas e reencontraram seus parentes, relatando a eles os horrores que testemunharam em Jonestown. Havia narrativas sobre humilhação, castigos físicos e prisões arbitrárias no lugar. Algumas pessoas eram submetidas a períodos de privações de sono ou de alimentos, recebendo ainda drogas psicotrópicas para alterar sua vontade e sofriam até tortura. Disseram ainda que havia homens armados que serviam ao Reverendo patrulhando os limites do povoado, com ordens para atirar em qualquer um que tentasse escapar. O boato de que os limites haviam recebido minas terrestres também se popularizou, bem como os rumores de que pessoas que tentaram escapar acabaram sendo mortas e enterradas nos charcos ao redor de Jonestown. Para um lugar divino, o povoado mais parecia o Inferno na Terra.

Os primeiros testemunhos sobre o que acontecia na Guiana foram vistos com grande ceticismo pela maioria. Não havia provas de quaisquer atividades criminosas até então ligadas ao Reverendo Jim Jones, e, de fato, ele era tido como um religioso preocupado com o próximo. Chamá-lo de assassino e genocida parecia um grande equívoco, um verdadeiro absurdo. Além disso, Jones contava com o apoio de políticos e pensadores dispostos a dar a ele o benefício da dúvida.

As coisas começaram a ficar ainda mais estranhas quando algumas pessoas que voltaram da Guiana afirmavam estar sendo perseguidas e atormentadas por membros do Templo do Povo. Muitos diziam estar sendo coagidos a manter o silêncio sobre o que acontecia em Jonestown. O caso mais grave envolveu o misterioso assassinato de um casal de dissidentes, encontrados mortos na garagem de sua casa poucos dias depois de participarem de um programa de rádio no qual relataram os excessos cometidos por Jones e seus seguidores. O caso chamou a atenção do público e alguns jornalistas procuraram dissidentes e ouviram seu lado da história. 

O Reverendo recebe a comissão que veio visitá-lo na Guiana

Além disso, pais, parentes e amigos de indivíduos que largaram tudo e se mudaram para a Guiana estavam preocupados com a segurança de seus entes queridos. A maioria deles havia simplesmente sumido depois de aderir à Igreja e não havia nenhuma notícia de seu paradeiro. Uma comissão de "Parentes Preocupados" se formou para pedir providências ao Governo americano. Foi assim que o Congressista Leo Ryan entrou na história, fazendo com que ele se tornasse um defensor dos direitos dos dissidentes e dos parentes apreensivos com a situação. 

Enquanto isso, em Jonestown as coisas estavam prestes a piorar. Os contatos de Jones nos EUA contavam a ele por rádio que o Templo do Povo estava sendo vítima de uma campanha difamatória que visava acabar com ele. A paranoia tomou conta do Pastor e ele passou a ameaçar todo aquele que cogitava deixar o povoado e retornar à civilização. Jonestown se converteu em uma prisão fortificada e mais guardas armados foram contratados para vigiar o campo. Segundo testemunhas ao menos uma dúzia de pessoas teriam sido mortas em tentativas de fuga e outras tantas feridas. Os sermões de Jones também se tornaram cada vez mais agressivos com a data para o fim da humanidade sendo mencionada com mais frequência.

O Reverendo Jones dizia que era questão de tempo para o Fim dos Dias. Foi nessa época que ele começou a ensaiar a derradeira medida para salvar seu povo: o Suicídio Coletivo! Em pelo menos três ocasiões, os membros do Culto simularam como seria realizado o procedimento caso eles se vissem ameaçados pelos seus "inimigos". O plano era se matar e assim convencer o mundo inteiro de sua pureza e da injustiça sofrida. Isso daria ensejo a uma Revolução transformadora, que Jones defendia, poderia mudar o planeta.

Quando Leo Ryan entrou em contato com membros do Templo do Povo em San Francisco pedindo por um encontro com Jim Jones, a notícia caiu como uma bomba na congregação. O "Inimigo" estava à caminho e eles talvez tivessem de levar à cabo a sua solução revolucionária. Jones tentou acalmar as pessoas, dizendo que ele tentaria convencer os forasteiros de suas boas intenções e que talvez tudo acabasse bem, contudo, ele deu ordens para que os seus seguranças estivessem preparados para qualquer ação necessária.

O Reverendo e sua "Obra"

A comissão liderada por Leo Ryan foi recebida amistosamente na Guiana, apesar de algumas providências que visavam ludibriá-lo. Algumas pessoas insatisfeitas foram removidas da vista, assim como uma limpeza foi realizada nas instalações que não estavam em bom funcionamento. Jones detestava a ideia de receber jornalistas, mas acabou aceitando a presença de repórteres americanos e de representantes das famílias preocupadas. A visita terminou com o pedido de várias pessoas interessadas em deixar Jonestown. As testemunhas estavam apavoradas e muitas delas queriam deixar a Guiana e voltar para casa. Ryan garantiu a eles o direito de partir e Jones concordou.

Jamais se soube ao certo se a ordem de eliminar o Congressista e sua comitiva partiu de Jim Jones ou se foi algo que os membros da congregação decidiram por conta própria. O fato é que o plano original envolvia matar a todos e simular um acidente aéreo. O plano obviamente falhou e embora muitos tenham sido feridos mortalmente (inclusive o Congressista Ryan), outros sobreviver ao atentado.

Com o círculo se fechando, Jones deu a tão temida ordem que ecoou no sistema de rádio para que todos pudessem ouvir. A população de "Jonestown" era conclamada a morrer em nome de seu ideal torto de revolução. Quando a notícia do atentado contra a comitiva chegasse aos EUA, o "inimigo" viria com armas trazendo morte e destruição. A única resposta era morrer em nome do ideal defendido por todos.

É claro, no momento final houve discussão e um acalorado debate. A morte voluntária jamais é algo fácil ou simples, mesmo entre fanáticos. No fim, a vontade da maioria e imposta pelo reverendo Jim Jones prevaleceu. Os que se pronunciaram contra, foram forçados a morrer, senão pelo veneno, pela ação de homens armados. O exame pericial definiu ainda que muitas vítimas haviam recebido picadas de agulha nas costas ou nos ombros, evidenciando que receberam o veneno contra sua vontade. O próprio Reverendo Jim Jones foi encontrado sentado numa cadeira de praia. Morreu baleado, mas não se conseguiu determinar se a morte foi causada pelas suas próprias mãos ou por um segurança fiel. 

Soldados americanos preparam o resgate dos corpos de Jonestown

No fim, o povoado foi ficando cada vez mais silencioso, à medida que aqueles que tomaram cianeto, se esparramavam no chão do refeitório e alojamentos, vítimas de convulsões incontroláveis. Quando chegaram no dia seguinte ao local da tragédia, as autoridades da Guiana ficaram sem palavras diante do massacre encontrado. 918 pessoas morreram neste que se tornou o maior suicídio em massa da história moderna. 

As vítimas se deixaram levar por um furor messiânico em uma demonstração clara dos perigos que representam os cultos apocalípticos.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Morte em Jonestown - O Horror do Templo do Povo de Jim Jones


Os primeiros relatos vindos da Guiana em 18 de novembro de 1978 davam conta de que o congressista Leo J. Ryan e quatro outros membros de seu grupo haviam sido baleados e mortos quando tentavam embarcar em um avião na pista de pouso de Port Kaituma. Em poucas horas, veio a confirmação chocante de que 408 cidadãos americanos cometeram suicídio em uma vila comunal que eles construíram no noroeste da Guiana. A comunidade que passou a ser conhecida como "Jonestown" era o centro de um Culto estabelecido em plena selva. Os mortos, todos membros desse culto conhecido como "Templo do Povo", tinham como líder o reverendo Jim Jones. Logo se saberia que 913 das 1.100 pessoas que se acreditava estarem em "Jonestown" na época morreram em um suicídio em massa.

A Tragédia de Jonestown entrou para a história como um dos piores casos de suicídio em massa motivado por fanatismo de todos os tempos. 

De acordo com o relatório oficial apresentado à Câmara dos Representantes dos EUA em 15 de maio de 1979, a cadeia de eventos que levou à morte de Leo Ryan na Guiana começou um ano antes, depois que ele leu um artigo no San Francisco Examiner em 13 de novembro de 1977. O artigo intitulado "Aterrorizado por Tempo Demais" relatava a morte do filho de Sam Houston, Bob, em outubro de 1976. Houston decidiu falar sobre a morte de seu filho porque acreditava que a razão dele ter morrido, sob as rodas de um trem, era porque ele havia decidido deixar o Templo do Povo no dia anterior. Houston também estava preocupado que suas duas netas, enviadas a Nova York para passar férias, tivessem sido enviadas para Jonestown, Guiana, e que de lá nunca mais retornariam. Houston deixava clara sua desconfiança quanto ao Culto religioso que seu filho passou a fazer parte, mas acima de tudo, havia medo em suas palavras. Medo de que o Culto havia causado, se não direta, indiretamente, a morte de Robert e que ainda pudesse trazer mais tragédia à sua família. 
 
Impressionado pelo relato, o Congressista Ryan, nos seis a oito meses seguintes, investigou mais sobre o Templo do Povo. Ele pesquisou artigos de jornal e ouviu apelos diretos de assistência feitos pelas famílias preocupadas cujos parentes haviam desaparecido na selva da Guiana para se juntar à comunidade Jonestown. Houve denúncias de irregularidades na previdência social, violações de direitos humanos e de pessoas sendo detidas contra sua vontade no complexo construído pelo culto. Em junho de 1978, Ryan leu trechos da declaração juramentada de Debbie Blakey, uma desertora de Jonestown, que incluía acusações de que a comunidade havia, em várias ocasiões, ensaiado realizar um suicídio em massa. 


Depois de se encontrar com vários parentes preocupados, o interesse de Ryan no Templo do Povo tornou-se ainda maior. Os relatórios colhidos sobre o grupo, favoráveis ​​e desfavoráveis, se transformaram em um dossiê completo sobre suas atividades. Ele contratou um advogado para entrevistar ex-membros do Templo do Povo e os parentes dos membros ainda ativos para determinar se estavam ocorrendo violações das leis federais e estaduais da Califórnia.
 
Em setembro de 1978, Ryan se encontrou com Viron P. Vaky e outros funcionários do Departamento de Estado para discutir a possibilidade de fazer uma viagem até a Guiana. Este pedido foi oficializado em 4 de outubro. A permissão foi concedida e a viagem planejada para a semana de 12 a 18 de novembro. A intenção de Ryan em visitar Jonestown logo ganhou ampla divulgação e o número de pessoas que desejavam acompanhá-lo cresceu substancialmente. No momento de sua partida, havia nove pessoas extras, sobretudo jornalistas e outros 18 membros de uma delegação que incluía parentes de pessoas que viviam no lugar. Estes iriam acompanhá-los às suas próprias custas. A equipe do Congressista contava com seu assessor James Schollaert e Jackie Speier, sua assistente pessoal.
 
Nos dias que antecederam a viagem a Jonestown, Ryan contatou Jim Jones por telégrafo para informá-lo de sua intenção de visitar o assentamento. Por meio da Embaixada dos EUA na Guiana, ele soube que o acordo para a visita seria condicional. Ryan teria que garantir que a visita não seria tendenciosa, não haveria cobertura da mídia e Mark Lane, o consultor jurídico do Templo do Povo, teria que acompanhá-los. Em 6 de novembro, Lane escreveu para Ryan informando que ele não poderia comparecer no horário que eles queriam, e acusou a comissão de praticar o que ele chamou de perseguição contra o Templo do Povo. Ryan respondeu com uma declaração de suas intenções de visitar o assentamento de qualquer maneira e que partiria em 14 de novembro.


Os problemas começaram assim que o grupo chegou à Guiana por volta de meia-noite. Um repórter foi detido durante a noite no aeroporto, por não ter visto de entrada. O comitê de Parentes Preocupados, apesar de ter reservas confirmadas no hotel, teve que passar a noite no saguão, pois não haviam quartos disponíveis para eles. Nos dois dias seguintes, Ryan se encontrou com o pessoal da Embaixada e organizou uma reunião com o Embaixador Burke e os Parentes Preocupados. Ele e os membros das famílias tentaram falar com um representante do Templo do Povo em sua sede em Georgetown, mas não foram recebidos. Além disso, Ryan não conseguiu negociar com sucesso as condições para visitar Jonestown. Tudo isso resultou em novos adiamentos. Parecia claro que o Templo tentava atrapalhar de todas as maneiras possíveis a visita e ganhar tempo.
 
As negociações ainda não haviam avançado na manhã de sexta-feira, então Ryan informou a Lane que ele e seu grupo partiriam para Jonestown às 14h30 com ou sem permissão. Era necessário viajar por algumas horas de avião até chegar a Port Kaituna onde ficava o assentamento do Culto. O avião decolou como programado às 14h30 daquele dia. A bordo estavam o Congressista Ryan, sua assistente Speier, vice-líder da missão, todos os nove representantes da mídia, quatro representantes do grupo de Parentes Preocupados e um membro do governo da Guiana.
 
Na pista de pouso de Port Kaituma, o cabo Rudder, oficial regional da Guiana do distrito Noroeste, recebeu a comitiva e comunicou que apenas alguns poderiam descer do avião. Negociações sobre quem teria permissão para entrar em Jonestown seguiram entre Ryan e representantes que estavam no aeroporto. Eventualmente, foi acordado que todos, exceto um representante da mídia, poderiam ir. Gordon Lindsay, consultor da Rede NBC, teve sua entrada negada por causa de um artigo que havia escrito anteriormente criticando o Templo do Povo.


Após sua chegada à Jonestown, foi servido um jantar à delegação que recebeu entretenimento na forma de uma apresentação musical feita por membros do Templo do Povo. À medida que a noite avançava, os repórteres entrevistaram Jim Jones que os recebera cheia de sorrisos e amabilidades. Jones permitiu que eles andassem pelo assentamento, conhecessem o projeto de agricultura e plantação, os dormitórios, hospital e demais instalações. Ryan e Speier conversavam com membros do culto cujos nomes haviam sido dados pelas famílias. Ouviram de alguns deles em particular que desejavam partir e que havia algo sinistro acontecendo no assentamento. Outro membro passou uma mensagem em segredo na qual dizia que queria fugir, mas que estava com muito medo. Todos os pedidos foram relatados a Ryan que disse ter autoridade para levar aqueles que desejavam deixar o campo em segurança.

Às 23h, os representantes da mídia e da família foram devolvidos a Port Kaituma, pois Jim Jones se recusou a permitir que eles passassem a noite no complexo. Um pequeno grupo que incluía Leo Ryan, e Speier, no entanto, receberam autorização para passar a noite de sexta-feira, 17 de novembro, em Jonestown em acomodações especialmente preparadas para eles.

O restante da comitiva não foi liberada para voltar a Jamestown até as 11h do dia seguinte. Enquanto isso, Ryan continuou entrevistando os membros, período em que mais pessoas falaram sobre seu desejo de deixar o acampamento. Às 15h, havia um total de 15 membros do Templo do Povo pedindo para acompanhar a delegação até o aeroporto de Port Kaituma e desertar. 

A princípio, Ryan pretendia ficar em Jonestown, mas ele mudou de ideia depois de ser ameaçado por um membro do Templo do Povo chamado Don Sly, que o acusava de tentar acabar com o Culto. Sly, chegou a ameaçar o congressista com uma faca. Ryan não se machucou no incidente, mas Speir insistiu que ele deixasse o lugar pois temia um novo atentado. O plano era retornar a Jonestown no dia seguinte para continuar as entrevistas e pedir a Jim Jones que se pronunciasse, dizendo que quaisquer pessoas que desejassem partir, poderiam fazê-lo sem constrangimentos.


De volta a Georgetown, os guianenses locais, contaram histórias de supostos espancamentos ocorridos em Jonestown. Falavam ainda que as pessoas passavam fome, eram ameaçadas e passavam por constrangimento psicológico. Um policial contou que as autoridades locais eram impedidas de entrar no complexo e que chegaram a ser ameaçadas por seguranças armados que trabalhavam para o Templo do Povo. Eles também descreveram um lugar onde membros insatisfeitos eram colocados em celas semelhantes a solitárias. Nesse lugar as vítimas eram submetidas a privação de sono, fome e até mesmo, tortura física.

A essa altura, Ryan já tinha informações suficientes para montar um caso contra o Templo do Povo e seu líder, Jim Jones. Ele tinha certeza de que pessoas estavam sendo mantidas prisioneiras, impedidas de ir embora, que sofriam coação e que alguns até podiam estar sendo torturados. Ele comunicou que pretendia retornar aos Estados Unidos, mas que antes faria uma última visita à Jonestown para falar com o Reverendo e pedir que ele liberasse outros membros que desejassem partir com eles. 

Ryan foi recebido em Jonestown e participou de uma reunião que contou com a presença de outros chefes da seita. Tudo transcorreu de forma muito cordial e não parecia haver motivo para temor já que Jones garantiu pessoalmente a segurança de todos. A comitiva se despediu do Reverendo e seguiu para o aeroporto de Port Kaituma por volta das 16h30, onde aguardou os preparativos de dois aviões que só chegaram por volta das 17h10. O atraso foi causado pelo pedido inesperado à Embaixada dos Estados Unidos de um segundo avião para transportar quinze passageiros extras que os acompanhariam. 


Quando todos embarcaram e um dos aviões começou a taxiar, um dos desertores à bordo, Larry Layton, sacou uma arma e abriu fogo contra os demais passageiros. Ao mesmo tempo, quando o grupo de Ryan estava embarcando no outro avião, membros do Templo do Povo, que os haviam acompanhado até a pista do aeroporto, abriram fogo. Os tiros atravessaram a fuselagem do avião ferindo seus ocupantes.  Ryan, três membros da mídia e um dos desertores foram mortos na hora. Speier e outros cinco ficaram gravemente feridos. O tiroteio durou entre 4 e 5 minutos e mais de uma centena de disparos foram realizados deixando o avião muito danificado e impedido de decolar em segurança. 

No outro avião, o atirador foi detido pelos passageiros e o piloto conseguiu fugir apesar da confusão à bordo. Ele relatou a notícia do ataque pelo rádio aos controladores na torre de Georgetown que por sua vez, notificaram as autoridades policiais. Os agressores deixaram o aeroporto logo depois, enquanto os sobreviventes do ataque, alguns seriamente feridos, buscavam se esconder.
 
Enquanto isso, em Jonestown a situação não era muito melhor. 

De acordo com o relatório oficial, o suicídio em massa começou por volta das 17h, quando o tiroteio estava acontecendo no aeroporto. Por volta das 18h, o embaixador Burke já havia sido informado do tiroteio e pediu providências imediatas. Um contingente de forças de resgate do Exército da Guiana chegou a Port Kaituma no começo da madrugada e prestou apoio às vítimas baleadas pelo atentado na pista de decolagem. Os feridos e a maioria dos sobreviventes foram transportados de avião de Port Kaituma para Georgetown onde foram transferidos para aeronaves de evacuação médica da Força Aérea dos EUA.


As primeiras notícia sobre algo sinistro acontecendo em Jonestown só foram trazidas pela manhã, através de dois membros da seita, Stanley Clayton e Odell Rhodes que conseguiram fugir do assentamento e cruzar a selva até o aeroporto. Eles contaram que a situação havia saído do controle e que algumas pessoas cogitavam se suicidar. Mais soldados chegaram no começo da manhã e com um efetivo fortemente armado, eles seguiram para Jonestown preparados para realizar prisões e deter o Reverendo. Ao chegarem ao acampamento do Templo do Povo, tudo estava horrivelmente quieto. Ao descer dos veículos, se depararam com um cenário muito pior do que poderiam imaginar. Havia ocorrido um suicídio em massa e a maioria dos membros da congregação estavam mortos. 
 
A cronologia exata do que havia acontecido só foi confirmado posteriormente na investigação conduzida pela polícia local e através do testemunho de alguns sobreviventes. 

Pouco depois da delegação de Ryan deixar Jonestown, Jim Jones reuniu a comunidade para fazer um pronunciamento. Usando microfone, diante da congregação, ele explicou, como se fosse uma premonição e não uma presciência, que alguém no avião iria matar o Congressista Ryan. O avião seria derrubado e todos morreriam. Segundo Jones, as consequências desta ação fariam com que forças políticas que há anos tentavam destruir o Templo do Povo atacassem as pessoas em Jonestown. O "inimigo" desceria sobre eles e os mataria sem piedade. 

Esta não era exatamente uma novidade para os habitantes de Jonestown que viviam com medo de um inimigo sem nome por muitos anos. Os sermões de Jones frequentemente incluíam esse inimigo tão temido e sua ação temerária. Era questão de tempo até o Apocalipse recair sobre Jonestown e sua gente. Questão de tempo até homens, mulheres e crianças serem massacradas com requintes de crueldade. 


Jones já os havia preparado para esse cenário. O Reverendo havia planejado uma medida drástica que os pouparia de todo o sofrimento nas mãos de seus algozes. Seria uma demonstração de superioridade e comprometimento, algo que ele chamava de "atitude revolucionária" mencionado em outras ocasiões. A "atitude" em questão era um suicídio coletivo a ser cometido por todos. A congregação chegara a fazer uma série de treinos preparatórios para um evento como esse.

Uma gravação em áudio revela que houve pouca discordância sobre a decisão de morrer daquela maneira. Uma ou duas mulheres que achavam que as crianças deveriam ser poupadas protestaram, mas logo foram convencidas de que a morte indigna nas mãos do inimigo viria para todos, inclusive os pequeninos que não seriam poupados. 

Veneno foi misturado a suco e bandejas com copos descartáveis levados ao salão comunal, colocados sobre a mesa de jantar para que todos tivessem acesso. "É melhor morrer agora em paz do que viver sem mim", disse Jones no discurso final. Os bebês e crianças pequenas, mais de duzentas delas, foram as primeiros a receber a mistura letal. Esta foi derramada em suas bocas com seringas administradas pelas mãos de suas próprias mães. Enquanto os pais observavam seus filhos gritarem e sofreram convulsões, eles também engoliam a poção fatal. Alguns choravam, outros discursavam e tentavam consolar os demais dizendo que aquilo era necessário. Os momentos que antecederam a decisão final de morrer trouxeram alguma resistência e discussão acalorada. Guardas armados que cercavam a sala então entraram em ação e atiraram em vários indivíduos dissidentes. Depois os guardas beberam o suco ou dispararam contra as próprias cabeças em um festival bizarro de morte.

Das cerca de 1.100 pessoas que se acredita estavam presentes em Jonestown naquele dia, 913 morreram, incluindo Jim Jones. Não é certo se Jones atirou em si mesmo ou foi baleado por uma pessoa desconhecida, o fato é que seu corpo foi recuperado entre os cadáveres espalhados pelo local. O líder da utópica cidade de Jonestown, o homem santo que deveria mostrar ao restante do mundo que era possível viver em paz e fraternidade, estava morto da mesma maneira que os membros de sua Seita. 


A polícia começou a fazer a remoção dos corpos e nos dias seguintes vários aviões decolaram lotados, carregando os cadáveres para a Georgetown. Não havia médicos suficientes para realizar as autópsias ou instalações adequadas para preservar os corpos que se amontoavam. Foi decidido que a maioria deles seriam enterrados lá mesmo ao invés de serem transportados de volta para seus países de origem. O mundo chocado assistia as imagens feitas pelos militares guianenses do horror deflagrado pelo Culto de Morte. 

A questão mais intrigante, que surgiu após a tragédia em "Jonestown", é como um homem poderia alcançar tanto controle sobre um grupo de pessoas a ponto de convencê-las a morrer voluntariamente sob seu comando. Seria fácil supor que o incidente fosse uma situação única que só havia ocorrido por conta da personalidade dinâmica e carismática de Jim Jones, combinada com a fraqueza e vulnerabilidade de suas vítimas. Tal análise pode trazer alguma paz de espírito e a sensação de que tal coisa nunca viria a acontecer novamente, mas isso está longe de ser verdade. Ou mesmo de fornecer uma verdadeira compreensão do que aconteceu.  

Para entender "Jonestown" adequadamente, é necessário explorar o que levou a essa tragédia e compreender os fatores psicológicos que permitiram esse horror. Foram processos comuns a todos os grupos sociais, que deram ensejo à tragédia, mas em circunstâncias extremas, com resultados igualmente extremos.

Para quem quiser ter uma noção do que é verdadeiro Horror Fanático, essa é a transcrição (em inglês) da fita que registrou o discurso de Jim Jones e a conversa que ele teve com sua congregação tentando convencê-los a se matar. Há trechos aterrorizantes e muito pesados nessa gravação, onde os gritos de pessoas sofrendo com o veneno, podem ser ouvidos no fundo, portanto aconselha-se critério ao escutar esse áudio perturbador.