
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
E ainda Mais Lugares Malditos e Malignos na Austrália - A Lenda da Piscina do Diabo e seu Fantasma Assassino

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Terrores Down Under - Três monstros do Folclore Australiano para Chamado de Cthulhu
A Austrália é conhecida pela sua fauna variada e completamente estranha em comparação ao restante do mundo. Mas o que dizer de seus mitos que permeiam um espaço entre mito e realidade. O folclore dos povos nativos, os aborígenes, possui uma rica tradição de animais mitológicos, seres inacreditáveis, monstros aterrorizantes e criaturas que parecem saídas dos pesadelos.
Aqui está um apanhado de algumas dessas criaturas.
MIMI
Segundo as tradições aborígenes, os Mimi são os habitantes originais do Nordeste da Austrália. No passado remoto eles se distribuíam pela região que atualmente compreende a província de Arnhem na parte setentrional da ilha. Em um primeiro momento, os Mimi viveram em harmonia com os primeiros humanos com quem tiveram contato, ensinando a eles suas táticas de caça e a cozinhar a carne de animais abatidos, em espacial cangurus para o consumo. Os Mimi também mostraram aos homens primevos como desenhar em pedras, deixando assim registros de sua passagem. Pinturas rupestres que muitas vezes são creditadas a humanos primitivos na verdade podem ter sido feitas por Mimi na pré-história. As artes mais antigas podem ter até 20 mil anos.
Em algum momento a relação entre homens e Mimi azedou e eles optaram por mergulhar em áreas cada vez mais selvagens e inacessíveis para os homens. A chegada dos colonos brancos fez com que os Mimi se tornassem ainda mais desconfiados da presença de invasores a quem passaram a considerar rivais. Atualmente, os Mimi não interagem com os seres humanos, preferindo se manter ocultos. Entretanto, quando seres humanos inadvertidamente invadem seus domínios eles podem se mostrar extremamente territoriais e reagir com violência.
As lendas mencionam que um Mimi ao ser descoberto pode oferecer algum tipo de acordo com os humanos. Tipicamente essa barganha envolve apresentar um veio de minério valioso, uma jazida de pedras preciosas ou uma fonte de água potável. Não raramente esses acordos acabam resultando em alguma tragédia ou evento imprevisível. Os aborígenes consideram que até mesmo falar com um Mimi pode atrai r uma tragédia e recomendam aos viajantes que ignorem as criaturas se as perceberem, e que façam de conta que não as viram.
A interação com um Mimi pode ser perigosa em mais de uma aspecto. Aqueles que se alimentam da comida preparada por um Mimi pode manifestar estranhos efeitos colaterais, experimentando visões bizarras e perturbadoras ou sofrendo de alucinações devastadoras. As fêmeas Mimi são conhecidas por atrair humanos do sexo masculino com a intenção de copular com eles. Fala-se de um canto hipnótico que induz o indivíduo a ver a fêmea Mimi como uma mulher desejável. Desse contato sexual pode nascer uma criança híbrida com características de ambas as raças que após o nascimento é deixada em algum lugar para ser achada por humanos. Se encontrada e criada, essas criança dificilmente se encaixa na sociedade humana e tende a ser consideradas "estranha". Elas estão fadadas a retornar para o lugar onde nasceram e ficar com suas mães ao chegar na idade adulta.
Outra característica dos Mimi é poder adentrar os sonhos das pessoas e manipular sua percepção. Os Mimi habitam os limites do Alcheringa, o Mundo dos Sonhos no folclore aborígene, podendo acessar a dimensão onírica facilmente. Uma pessoa acometida por sonhos e pesadelos induzidos pelos Mimi pode ter sua sanidade minada pelas revelações das criaturas. Quando escolhem um alvo, o Mimi o atormenta por semanas, noite após noite, enviando emanações psíquicas extremamente poderosas que podem conduzir à loucura. Uma das únicas maneiras de interromper esse contato é se afastar das criaturas o quanto antes. Os aborígenes possuem alguns rituais tribais que também podem ajudar a romper o vínculo estabelecido.
O território dos Mimi, geralmente localizado em desertos, é delimitado por estruturas rochosas recobertas por símbolos e desenhos coloridos. Mestres naturais da camuflagem, eles são capazes de se mesclar a pedras e vegetação ficando virtualmente invisíveis. Um Mimi pode se manter imóvel por dias se assim desejar. Eles não deixam rastros e não produzem sons, embora animais, especialmente cães possam detectar sua presença e reagir com grande apreensão, latindo e ganindo, quando um Mimi está próximo.
Os Mimi tem uma forma de punição terrível que é reservada àqueles humanos que especialmente os desagradaram. Eles podem atrair o indivíduo em questão para dentro de seu território - com promessas de riquezas ou então com visões oníricas. Uma vez capturada a pessoa é submetida a um terrível ritual no qual a pele de sua face é arrancada e devorada. O Mimi passa então a ter acesso a seus sonhos para sempre, à despeito de qualquer distância.
É provável que a origem destes seres seja extra ou interdimensional e que eles tenham dominado uma forma de entrar e sair de nossa realidade. Isso poderia explicar a maneira como eles são capazes de desaparecer no ar quando assim desejam.
Fisicamente estas estranhas criaturas surgem como seres humanoides com corpos longilíneos e membros extremamente compridos e magros. Seus corpos são incrivelmente delgados, com a pele morena parecendo grudar sobre os ossos salientes. As mãos são grandes e os dedos alongados terminando em garras duras e afiadas a ponto de arranhar pedra. O tórax é tão exíguo que parece ter a mesma largura dos membros. Eles não possuem pelos corporais, mas tem uma coroa de espinhos ósseos similares às cerdas do porco-espinho no topo do escalpo. A cabeça é alongada, como o crânio de um cavalo, com órbitas grandes em contraponto às fossas nasais, boca e ouvidos muito discretos. Seus dentes são diminutos e eles não são capazes de falar. Seus sentidos são um mistério completo, embora estes pareçam ser muito desenvolvidos.
Os Mimi não usam roupas mas ornamentam sua pele curtida com símbolos talhados pelas suas garras afiadas. Eles não são afeitos a criação de objetos, exceto uma uma espécie de lança cerimonial usada como bengala, apoio e para empalar seus inimigos. Essa lança de madeira, manuseada com extrema habilidade, segundo as lendas, causa morte imediata ao trespassar um alvo. Ninguém ferido por essa lança assassina sobrevive ao dano. Ferir um Mimi é tarefa muito difícil uma vez que eles parecem se desviar de qualquer ataque com uma velocidade sobrenatural. De fato, nem mesmo disparos de arma de fogo atingem a criatura, que se esquiva deles com notória agilidade como se visse a trajetória deles em câmera lenta.
Mimi, caçadores espirituais
FOR 7d6 x 5
CON 2d6 x 5
TAM (2d6 +12) x 5
DES 10d6 x 5
INT 4d6 x 5
POD (4d6 +6) x 5
Pontos de Vida (médio): 13
Bônus de Dano (médio): +2d6
Corpo Médio: 3
Pontos de Magia (médio): 20
Movimento: 12
Combate:
Luta (1 ataque por rodada); Lança 80% (40/16), 1d6 +DB
Lança Assassina: O alvo deve testar 5 x (total de dano produzido no ataque), se falhar no teste, o alvo morre.
Esquiva: 100%, sua habilidade é diminuída em 1% para cada ataque esquivado naquela rodada. A criatura pode se esquivar de balas, mas não de ataques de área, como aquele produzido por explosivos.
Habilidades: Furtividade 95%
Armadura: Nenhuma, mas ele pode sempre se esquivar dos ataques
Feitiços: Todo Mimi conhece ao menos 1d4 feitiços
Sanidade: 0/1d6 por ver um Mimi.
BUNYIP
Essas criaturas são enormes monstros dos limites da imaginação humana. Eles são abençoados com sinistros instintos assassinos e uma inteligência desconcertante que os transforma em assassinos perfeitos. Eles espreitam silenciosamente em regiões ermas do território, nos bilabongs lamacentos e nos plácidos terrenos lacustres. Podem viver sob as águas, já que não precisam subir à superfície para respirar. Dotados de astúcia e uma sabedoria perversa, eles aguardam que uma presa entre na água, para que possam capturá-la e afogá-la. Um Bunyip é um caçador nato e um carnívoro voraz. Seu território é evitado por animais que sentem a sua presença e o evitam à todo custo, por isso seu covil tende a ser isolado, silencioso e destituído de vida selvagem. Eles escavam esses redutos com túneis abaixo da água que lhes permite variar sua zona de caça e expandir sua área de ataque. Quando a caça se esgota, o Bunyip simplesmente procura outro canto.
Os aborígenes acreditam que os Bunyip são habitantes do Alcheringa (a Terra dos Sonhos) e que vieram para nossa realidade através de passagens dimensionais ou portais. Outra teoria é que os Bunyip teriam uma forma menos agressiva, mas que ao adentrar nossa realidade teriam adotado sua aparência ameaçadora como forma de sobrevivência. Da mesma maneira, essas criaturas seriam capazes de assumir a forma de outros animais e se disfarçar afim de viajar para outras regiões em busca de um novo esconderijo. Algumas tribos acreditam que Bunyips mais velhos são capazes de copiar até a aparência de seres humanos fazendo se passar por pessoas quando estão em transição de um lugar para o outro. A identidade de um Bunyip pode ser revelada por pequenos detalhes - como seis dedos, nadadeiras ocultas e pele escamosa. Eles são incapazes de falar, embora consigam entender os rudimentos da linguagem humana.
Não há muitas defesas contra o ataque de um Bunyip, eles são muito mais fortes do que um ser humano médio. Homens brancos que encontraram esse terror conseguiram sobreviver correndo sem olhar para trás ou sendo totalmente passíveis, contando com a sorte se a criatura não estiver faminta (o que é raro). Os aborígenes desenvolveram certos cantos e gestos que supostamente mantém a criatura distante, mas o conhecimento desses rituais praticamente se perderam quando as populações nativas foram eliminadas pelos colonos. Alguns feiticeiros no entanto mantém esse saber restrito e passado de geração em geração. Os Bunyip sabidamente não gostam de luz forte, sons estridentes e de magia e isso pode afastá-los, mas infelizmente eles são determinados e persistentes quando escolhem uma presa.
Um Bunyip tipicamente ataca para imobilizar, carregando a vítima para dentro da água onde a afoga. Os corpos são presos no leito lamacento sob troncos ou pedras que os impedem de voltar à superfície. Estese se tornam um estoque de carne para quando a caça se tornar mais escassa. Ao se defender, a criatura usa sua força descomunal para esmagar os oponentes ou as garras afiadas nas suas nadadeiras para rasgar. Ele também é capaz de morder, escancarando a bocarra para capturar e até engolir uma presa por inteiro. O couro do Bunyip é rígido e duro, podendo resistir a armas brancas e disparos de armas de fogo, exceto as de grosso calibre.
Fisicamente os Bunyip parecem a mistura profana de um crocodilo de água salgada e uma morsa ou foca de grande porte. Seus olhos são como carvão em brasa, emanando um brilho avermelhado mesmo sob a água. Seu corpo é recoberto por um couro escamoso com trechos de pelagem e até mesmo penas. Eles nadam impulsionados por enormes nadadeiras e conseguem andar em terra firme em suas patas traseiras deslizando no leito lamacento com grande rapidez. Quando se erguem nessas patas musculosas podem atingir até 3,6 metros de altura. Seu corpanzil é maciço, musculoso e poderoso. Se determinados a lutar, eles atacam lançando as nadadeiras de um lado para o outro aproveitando as terminações afiadas para produzir lacerações profundas. Se tiverem a chance de agarrar uma presa, eles o fazem, tencionando apertá-la em um abraço que pulveriza ossos. Um Bunyip é um inimigo perigoso, muitas vezes letal.
Uma das características mais conhecidas do Bunyip é seu longo e aterrorizante grito de caça. A criatura emite esse ruído trovejante que soa segundo as histórias como um urro de morte e terror capaz de gelar o sangue. Aqueles que ouvem esse som jamais o esquecem, embora não sejam capazes de descrever como ele soa. Caçadores veteranos, tanto tribais quanto brancos, já foram amedrontados de um território de caça por esses gritos furiosos e jamais retornaram. O pavor que ele provoca é tamanho que alguns que o escutam sequer são capazes de retornar a áreas selvagens. Outro efeito ligado a esse grito é uma espécie de confusão que domina a mente da pessoa exposta a ele. Uma pessoa pode esquecer totalmente ter encontrado o monstro, não saber onde o viu, onde esteve e o que realmente aconteceu. Essa capacidade sobrenatural seria uma das explicações para essas criaturas se manterem incógnitas e nunca serem vistas.
Bunyip, tenebroso monstro dos rios australianos
FOR (10d6 +10) x 5
CON (4d6 +12) x 5
TAM (10d6 +10) x 5
DES (3d6 +6) x 5
INT (2d6+12) x 5
POD 10d6 x 5
Pontos de Vida (médio): 35
Bônus de Dano (médio): +5d6
Corpo Médio: 6
Pontos de Magia (médio): 35
Movimento: 10/15 (nadando)
Combate:
Luta (2 ataque por rodada); Garras 65% (32/13), dano 1d10 +BD
Agarrar (manobra): Não causa dano direto, mas o Bunyip se bem sucedido agarra a vítima com suas nadadeiras. Nas rodadas subsequentes ele causa 5d6 pontos de dano enquanto mantiver a presa capturada em seu abraço. O alvo pode testar sua FOR ou DES oposta contra o Bunyip para escapar toda rodada.
Esquiva: 30%
Habilidades; Sentir a Presença de seres vivos 95%, Nadar silenciosamente 95%
Armadura: 10 pontos de couraça protetora e pelagem grossa, vulnerável a magia
Feitiços: Nenhum
Sanidade: 1/1d10 por ver um Bunyip. Ouvir o urro do Bunyip tem um custo de 1/1d3 pontos de sanidade
JANNOKS
Estas curiosas criaturas são parte do folclore e das lendas das tribos nas regiões meridional e centro ocidental da Austrália. Não são poucas as tradições que falam sobre essa elusiva raça alada que se esconde nas profundezas das florestas, selvas e pântanos. Jannoks preferem ter uma existência sossegada, mas quando invasores adentram seus territórios, eles tendem a reagir de forma violenta.
As histórias descrevem esses seres como pássaros com o corpo humanoide, que podem ser facilmente confundidos com homens. As costas dos Jannoks são cobertas com penas cinza azuladas brilhantes que também se espalham pelos seus braços emplumados. Suas pernas são robustas, cobertas de penugem, terminando em três dedos dotados de garras afiadas. Sua face medonha é a repulsiva combinação de um crânio humano com um bico de ave.
Até recentemente as histórias sobre os Jannoks eram restritas a algumas regiões adjacentes a reservas aborígenes. O respeitado explorador James McMilliam iniciou em 1919 um grande debate sobre a existência factual dessas criaturas. O aventureiro trouxe um relato sobre um suposto encontro com Jannoks ocorrido perto do Rio Ross no qual ele e sua expedição testemunharam a revoada de dezenas destas criaturas. A Sociedade Geográfica Britânica ofereceu uma recompensa a quem pudesse provar a existência destas criaturas. Expedições foram organizadas em busca de pistas que levassem a essa notável descoberta, infelizmente os Jannoks não foram avistados por nenhuma outra testemunha confiável.
Uma das razões para as criaturas não serem encontradas pode estar relacionada às lendas contadas pelos aborígenes há séculos. Os Jannoks quando não desejam ser encontrados podem se tornar invisíveis aos olhos humanos.
Outra característica interessante à respeito deles é que seu canto pode criar redemoinhos de vento (willy willies) com grande potência. Tais redemoinhos são muito comuns e podem se converter numa ameaça séria ao envolver uma pessoa, arremessar objetos ou acelerar partículas de poeira. Quando um redemoinho dessa natureza se forma os aborígenes afirmam que os Jannoks estão furiosos ou querem capturar uma presa.
Ainda segundo as lendas, Jannoks são carniceiros e gostam de atacar vítimas humanas solitárias, em especial crianças e mulheres. Estas, uma vez acometidas pelo impacto de um willy willie acabam perdendo os sentidos e sendo carregados para o alto de um rochedo ou árvore onde são mortos por golpes do bico afiado. Inteligentes e capazes de planejamento os Jannoks não são meros animais, demonstrando uma sagacidade notável para atingir seus intentos. Alguns se valem de arremessar pedras contra oponentes atingidos com notável precisão.
Habitando regiões isoladas, eles entraram em contato com ruínas erguidas em tempos imemoriais. A teoria de que os Jannok possam ter sido criados pelas Raça Ancestral ou pela Grande Raça de Yith encontra paralelo quando se percebe menções sobre eles nas ruínas dessas civilizações atávicas. É possível também que os Jannoks tenham alguma relação com outras criaturas que utilizam o vento a seu favor: os Pólipos Voadores. De fato, em seus redutos podem ser achados artefatos remetendo a tais entidades, alguns deles denotando um grau de veneração aos Pólipos.
Jannok, híbridos de pássaro-humano
FOR 3d6 x 5
CON 4d6 x 5
TAM 3d6 x 5
DES (3d6 +6) x 5
INT (2d6+6) x 5
POD 5d6 x 5
Pontos de Vida (médio): 12
Bônus de Dano (médio): 0
Corpo Médio: 0
Pontos de Magia (médio): 17
Movimento: 13
Combate:
Luta (1 ataque por rodada); 40% (20/8), dano 1d4 +BD
Esquiva: 60%
Invocas Willy Willies: O assovio prolongado e canto do Jannok pode invocar um redemoinho de vento. Quando no interior de um redemoinho eles se tornam virtualmente invisíveis, ainda que não intangíveis. Esses redemoinhos são considerados como possuidores de Destreza 125. Os Jannoks podem direcionar o Willy Willie na direção de um alvo causando um dano de 1d6 +1. O redemoinho pode se dispersar se for acertado por um ataque com uma arma apropriada - no caso alguma arma capaz de empalar. Armas de fogo não contam para esse fim e não produzem dano no redemoinho ou no Jannok em seu interior. O Willy Willie pode ser dispersado se receber ao menos 5 pontos de dano em um único ataque.
Armadura: 1 ponto de armadura por penas.
Feitiços: Cada Jannok conhece ao menos 1d4 feitiços
Sanidade: 1/1d6 por ver um jannok
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
Mais Lugares Malditos e Malignos na Austrália: O Rio de Sangue


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Lugares Malditos e Malignos na Austrália: A Montanha Negra



quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Filhos de Kali - O terrível Culto dos Thuggees na India
Durante séculos, pessoas que viajavam pelas estradas da Índia corriam um risco inimaginável. Os membros de uma seita cuja origem remontava ao século XIII espreitavam em todo canto. Observavam, planejavam emboscadas, capturaram suas vítimas, as levavam para um de seus esconderijos e as assassinaram. Matar era uma espécie de arte sagrada, a derradeira prova de devoção.
A sociedade cujos rituais eram mantidos em segredo congregava diferentes pessoas, de todas classes sociais, hindus e muçulmanos unidos sob a mesma crença fanática. Eles acreditavam ser filhos da Deusa Kali, a Mãe Negra do folclore Hindu.
Segundo a crença, Kali era responsável por enfrentar demônios devoradores de homens vindos do submundo. Quando ela cortou um desses demônios ao meio com sua espada, descobriu que cada gota de sangue que vertia se transformava em outro demônio. Face a horda diabólica, Kali criou dois guerreiros com seu suor e os incumbiu de ajudá-la em sua luta. Para não correr o risco de aumentar as fileiras diabólicas, ela deu a cada guerreiro uma tira de pano chamado "rumal" para estrangular os inimigos sem verter seu sangue. Depois de eliminar todos demônios, Kali instou os seus dois guerreiros e prosseguir em sua tarefa sagrada de geração em geração.
Os guerreiros deveriam espalhar a adoração de Kali entre aqueles que desejavam seguir seus passos. Eles fariam o trabalho da Deusa e seriam recompensados pois o roubo das vitimas era um de seus mandamentos.
[Como curiosidade, a palavra inglesa "thug" usada para designar bandidos ou rufiões deriva diretamente do termo Thuggee]
Na maior parte do tempo, os Thuggees viviam uma existência comum sem chamar a atenção. Eram artesãos, comerciantes, soldados... pessoas normais que compartilhavam a devoção cega à Kali em um dos remotos templos escondidos em florestas ou ruínas. Nestes centros de adoração se entregavam a rituais de sangue que misturavam danças, cantos e sacrifícios. Uma das regras impostas pela Deusa é que cada fiel tinha uma cota de assassinatos a ser atingida. Uma carnificina que se confundia com missão sagrada e precisava ser cumprida para não desagradar sua divindade.
Os Thuggees agiam longe de suas casas para evitar o reconhecimento e contavam com células organizadas de dez a cinquenta indivíduos. Sua tática preferida envolvia enganar suas vitimas, atraídas para algum lugar deserto mediante engodo. Os Thuggees se misturavam a caravanas de mercadores ou bandos de peregrinos aguardando surgir a oportunidade para cometer assassinato. Quando o momento chegava, os assassinos se aproximavam sorrateiramente, passavam os rumal pelo pescoço e apertavam, murmurando preces à Kali. Eles sentiam a vida se esvair do corpo de suas vítimas, um momento de profundo fervor religioso.
Antes de uma expedição, os Thuggees se reuniam num templo onde o Sacerdote sacrificava um carneiro diante de uma imagem de Kali manchada de sangue e coberta com flores. Aos pés da macabra efígie ficavam suas ferramentas sagradas: corda, faca e picareta. A faca e a picareta eram usadas para a mutilação ritual dos cadáveres. Presumia-se que a mutilação facial agradava à Deusa e dificultava a identificação das vítimas. As cordas eram usadas para capturar vítimas escolhidas que eram imobilizadas com laços sagrados que apenas os membros da ordem sabiam desatar.
Os prisioneiros, sempre em dupla, eram levados até um templo de Kali onde ficavam presos por dias, semanas ou mesmo meses. Assistiam aos rituais e aos poucos eram preparados para assumir, eles próprios um lugar na seita. Se um deles aceitasse se tornar um Thuggee era obrigado a matar o outro. Se ambos aceitassem, eles eram forçados a escolher entre eles, quem mataria e quem seria morto. Se não chegassem a uma conclusão, o Sacerdote escolhia o papel que cada um iria desempenhar. O sobrevivente fazia então uma promessa de servir Kali, bebendo o sangue da sua primeira vítima e arrancando o coração de seu peito. A promessa não podia ser desfeita, sob pena de sofrer a Ira da Deusa: amaldiçoado em vida e sofrendo na eternidade. Sua família seria perseguida e sua alma devorada até o fim dos tempos.
O novo membro da Irmandade jurava lealdade, doava parte de seus bens e ganhava um nome secreto pelo qual os irmãos o conheceriam. Dali em diante ele era um Thuggee e como tal estava obrigado a pagar o imposto de mortes e servir Kali em toda sua glória profana.
A Seita possuía um código de conduta único que limitava suas vitimas. Mulheres geralmente eram poupadas em deferência ao sexo de Kali, assim como homens santos, artesãos, músicos e poetas. Os leprosos e aleijados também estavam isentos, pois uma vítima devia ser pura. Não querendo arriscar represálias de seus governantes coloniais, os assassinos raramente molestavam europeus, mantendo seus ataques quase que exclusivamente contra a população local.
Em todo subcontinente indiano os Thuggees tinham fama por serem implacáveis e mortais. Viajantes temiam se afastar e evitavam o contato com estranhos, entretanto, qualquer pessoa podia ser secretamente parte da irmandade. Ao longo de séculos, os Thuggees colecionaram inúmeras vítimas fatais. Estima-se que mais de um milhão de pessoas tenham perecido nas mãos dos Thuggees antes que uma campanha contra eles tivesse início.
Em 1826 o Coronel britânico William Sleeman, Adminstrador Civil do distrito de Jubbulpore, na Índia Central deu início a supressão da seita. Os britânicos sabiam da existência de irmandades semelhantes, mas julgavam que suas ações eram isoladas, realizadas por bandos de ladrões que matavam simplesmente para roubar as vítimas. Quando Sleeman capturou três criminosos procurados e os interrogou, eles começaram a revelar os meandros de sua organização.
Os britânicos ficaram profundamente chocados quando tomaram ciência do tamanho da Seita e do âmbito de sua atuação. Os Thuggees devotos a Kali estavam em todas as maiores cidades da Índia. Informantes revelaram a localização de templos e o exército colonial foi mobilizado para fazer prisões e desbaratar as células. Grupos inteiros de Thuggees foram cercados e presos, mas muitos preferiam o suicídio antes de serem capturados. Na cidade de Saugor, mais de uma dúzia de Thuggees que haviam sido cercados em um templo se deixaram estrangular até a morte pelo seu sacerdote que em seguida consumiu uma dose de veneno. Ao entrar no templo os soldados encontraram todos mortos.
Os Thuggees começaram a lutar contra os britânicos: realizaram emboscadas, eliminavam alvos militares e tentaram criar um regime de medo na população. Também tentaram insuflar um levante urbano, obrigando pessoas a pegar em armas e desafiar a autoridade europeia.
Em Bengala, os Thuggees fizeram vítimas entre colonos e nativos que trabalhavam para eles. A resposta dos ingleses foi imediata com a destruição de vários templos e prisão de milhares de pessoas suspeitas de participar ou simpatizar com a Irmandade. Em Madras as prisões ficaram lotadas de suspeitos, em Calcutá, berço de uma das maiores células, houve massacres e enfrentamento. Um templo foi destruído por tiros de canhão, a estátua de Kali arrastada para fora e reduzida a pó por golpes de marreta.
No final, milhares de pessoas foram julgadas sem muitas sutilezas jurídicas, com a distribuição de punições rápidas e rigorosas. Dos 3689 Thuggees julgados até 1840, quase 500 foram executados na forca. O restante foi condenado a prisão perpétua, exceto os informantes que concordavam em apontar outros membros da Seita.
Uma prova de bravura para os membros era reconhecer suas ações e desafiar os ingleses admitindo serem parte da Seita. Durante os julgamentos, acusados admitiam alegremente a autoria da morte de centenas de pessoas. Em Bangalore, um guia de caravana de 45 anos, afirmou ter matado ao menos 250 pessoas desde sua iniciação aos quatorze anos. Dezenas de cemitérios clandestinos à beira de estradas foram descobertos.
Em 1848, após um breve período de tranquilidade, um novo surto de homicídios irrompeu nas principais cidades indianas. Os Thuggees organizaram um levante armado no qual executaram várias testemunhas e informantes que os haviam delatado. Os britânicos agiram rapidamente e capturaram mais 651 homens que receberam julgamento e condenação. As ações também destruíram templos que operavam clandestinamente e que foram incendiados até o chão.
O Culto de Kali foi oficialmente declarado ilegal e autoridades religiosas hindus, muçulmanas e sikhs concordaram em decretar que a adoração a esse aspecto da Deusa era uma atitude condenável. Com efeito a adoração de Kali foi drasticamente reduzida e o culto perdeu muitos dos seus seguidores.
O último assassino Thuggee conhecido foi enforcado em 1882.
Apesar da Seita não ter realizado mais nenhuma ação coordenada, circulavam boatos de que seus membros continuaram agindo no submundo até meados do século XX. Quadrilhas criminosas se faziam passar por Thuggees e cometiam assassinatos usando os métodos da Seita para causar choque e despertar o medo entre seus rivais. Durante a Luta pela Independência vários movimentos de libertação também usaram os métodos dos Thuggees como forma de intimidar seus opositores colaboracionistas.
Mesmo hoje em dia, o Culto da Deusa Kali mantém seu status como "bicho papão" na sociedade indiana, desafiando as crenças e usando as superstições a seu favor. Os Kapalikas, o último "revival" dos Thuggees nos dias modernos supostamente se infiltraram em grupos criminosos adotando métodos cruéis e impiedosos similares aos empregados pelos discípulos de Kali. Esses Kapalikas foram duramente reprimidos, mas há boatos que eles ainda atuam em áreas rurais da Índia onde o medo dos Thuggees ainda existe.























