quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Albert Fish - O Homem Cinzento (conclusão)


"Independentemente do termo que possa ser usado para definir as fronteiras médicas e legais da insanidade, o caso do Sr. Fishestá muito além dessa fronteira. "

Frederick Werthan -
Médico Psiquiatra 

ATENÇÃO: O texto à seguir contém descrições chocantes, portanto, recomenda-se discernimento.

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A confissão de Albert Fish seria ouvida por muitos policiais e psiquiatras ao longo das semanas seguintes. Muitos deles sairiam da sala, horrorizados pelas suas descrições vívidas e pelas reminiscências repletas de sadismo. Sabe-se que pelo menos um estenógrafo deixou o aposento para vomitar e que um policial agarrou o velho decidido a estrangulá-lo ali mesmo.


Fish por sua vez estava feliz em contar os detalhes mais mórbidos como se fossem façanhas invejáveis. Ele estava satisfeito por receber toda atenção de homens estudados e melhores que ele, pela primeira vez em sua desprezível existência.

Uma versão de sua confissão, devidamente editada, foi publicada nos jornais que alardeavam a prisão do "Vampiro do Brooklyn", também chamado de o "Monstro de Nova York". A população da cidade estava horrorizada que tal criatura pudesse realmente existir.

O longo depoimento prestado na Delegacia para embasbacados policiais era uma verdadeira odisseia de perversão e depravação. Tudo aquilo parecia inacreditável, até que detalhes começaram a ser corroborados mediante investigação. Tudo era ainda mais surpreendente considerando como Fish parecia um idoso decrépito e inofensivo. Ele era um velho encarquilhado de aparência frágil, com cerca de 60 quilos e apenas 1,50 m de altura. Nada nele depunha à respeito do caráter selvagem de seus crimes e os detetives se perguntavam se ele não seria simplesmente um louco querendo aparecer. Mas não... infelizmente, tudo o que o velho dizia podia ser provado e confirmado.
 
O detetive King foi o responsável pela confissão inicial. Fish disse-lhe que no verão de 1928 ele foi dominado pelo que chamou de uma insuportável "sede de sangue" - uma necessidade patológica de matar. Quando ele respondeu ao anúncio de emprego de Edward Budd, era o jovem, não sua irmã Gracie, que ele pretendia atrair até um local remoto para cortar seu pênis, deixando-o sangrar até a morte.

Logo depois de deixar a casa dos Budd pela primeira vez, Fish comprou as ferramentas de que precisaria para matar e mutilar os meninos: um cutelo, uma serra e uma faca de açougueiro. Ele embrulhou esses objetos em um pacote que deixou em uma banca de jornal antes de ir para a casa da família pela segunda e última vez. Quando Fish viu o jovem e robusto Edward, do tamanho de um homem adulto, e seu amigo Willie, ele se convenceu de correria risco em tentar dominar os dois ao mesmo tempo.

Foi só depois de ver Gracie que ele mudou de ideia e de planos. Era ela que ele queria matar desesperadamente agora. Conforme havia escrito na carta, ele sabia que precisava devorá-la, à qualquer custo.

Quando conseguiu convencer os pais da menina a deixá-la acompanhá-lo, ele saiu com a convicção de matá-la. Fish parou na banca de jornais para pegar seu pacote antes de pegar um trem que os levou até o Bronx e depois para o vilarejo de Worthington em Westchester. Para Grace, ele comprou uma passagem só de ida. O velho descreveu como Gracie ficou encantada com a viagem de quarenta minutos até o campo. Apenas duas vezes em sua vida ela estivera fora da cidade. Na estação de Worthington, Fish estava tão absorto em seu plano monstruoso que deixou o pacote de ferramentas no trem. Ironicamente, Gracie percebeu e o lembrou de trazer o pacote.

Eles caminharam por uma estrada remota até chegarem a um prédio abandonado de dois andares chamado Wisteria Cottage no meio de uma área bonita e arborizada. Enquanto Grace se divertia do lado de fora com as várias flores silvestres, Fish foi até o quarto do segundo andar, abriu seu pacote de ferramentas e tirou as roupas em preparação para o que viria à seguir.

Então ele chamou Gracie para subir.

Com as flores silvestres que ela juntou arrumadas em um buquê, Gracie entrou na casa e subiu para o quarto seguindo a voz do velho. Ao ver o homem nu, gritou pela mãe e tentou fugir. Mas Fish a agarrou pela garganta e a sufocou até a morte. Ele estava sexualmente excitado pelo ato de estrangulá-la, tanto que chegou a ejacular ao apertar seu pescoço.

Ele apoiou a cabeça dela em uma velha lata de tinta e a decapitou com o facão, lembrando de recolher a maior parte do sangue da lata. Depois, ele jogou o balde no quintal. Ele despiu a criança sem cabeça e a cortou em dois com a faca de açougueiro e o cutelo. As partes do corpo de sua escolha ele levou embrulhadas em jornal. O resto ele deixou lá para que voltasse dias depois, quando jogou tudo nos fundos e cobriu com pedras soltas e terra. Ele se desfez de suas ferramentas da mesma maneira. 

Após sua confissão, o detetive King fez uma pergunta final: "o que o levou a fazer essa coisa horrível?"

"Você sabe", respondeu Fish pensativo. "Eu nunca consegui explicar isso."

O capitão John Stein perguntou-lhe por que ele havia escrito a carta aos Budd e Fish respondeu que também não sabia por quê: "Eu tenho essa mania de escrever."

Naquele dia, a polícia foi ao Chalé Wisteria e recuperou os restos mortais de Gracie. Albert Fish estava por perto, completamente sem emoção ao testemunhar a cena.

Fish foi interrogado pelo promotor público assistente Francis Marro e quando ele perguntou a Fish por que havia assassinado Gracie, ele explicou que "uma espécie de sede de sangue o dominara. Depois ele disse ter sido tomado por grande tristeza. "Eu teria dado minha vida meia hora depois de fazer o que fiz, para devolvê-la à vida."

Marro perguntou se ele havia estuprado Gracie e Fish foi inflexível: "Isso nunca passou pela minha cabeça." Nada foi perguntado na ocasião sobre o alegado canibalismo mencionado na carta de Fish aos Budd. A polícia considerava aquilo muito insano para ser verdade. Ou, talvez, eles já estivessem pensando que incluir detalhes horríveis sobre o canibalismo reforçaria o inevitável caso de defesa por insanidade.

Naquela noite, a captura de Albert Fish vazou para os jornais e repórteres apareceram no apartamento dos Budd com a notícia. Pouco depois, o detetive King levou o Sr. Budd e seu filho Edward à delegacia para identificar Fish.

Edward fez mais do que identificar Fish. Ele se jogou sobre o velho. "Seu bastardo! Filho da puta sujo!" disse tentando socá-lo.

O Sr. Budd ficou surpreso com a falta de emoção de Fish. "Você não me conhece?" ele perguntou ao velho.

"Sim," Fish respondeu educadamente. "Você é o Sr. Budd."

"E você é o homem que veio à minha casa como hóspede e levou minha garotinha embora", disse ele em lágrimas.

Albert Fish, como era de se esperar, era bem conhecido pela polícia. Seu histórico remontava a 1903, quando foi preso por furto. Desde então, ele havia sido preso seis vezes por vários crimes menores, como o envio de cartas obscenas e pequenos furtos. Nada muito sério. Metade dessas prisões ocorreu na época do sequestro de Gracie. Todas as vezes, as acusações foram retiradas por ele ser velho e ninguém considerar correto mandá-lo para a prisão. Ele também havia estado em instituições mentais mais de uma vez.

Quando questionado sobre sua formação, Fish disse: "Nasci em 19 de maio de 1870, em Washington, DC. Meu pai era o capitão Randall Fish, maçom de 32º grau, e ele está enterrado no terreno da Grande Loja do cemitério do Congresso. Ele era um capitão de barco do Rio Potomac, indo de DC a Marshall Hall, Virgínia", contou sem esconder uma ponta de orgulho.

"Meu pai caiu morto em 15 de outubro de 1875, na velha estação da Pensilvânia, onde o presidente Garfield foi baleado, e fui colocado no Orfanato St. John em Washington. Fiquei lá até quase nove anos e foi aí que tudo começou a dar errado. Eu era açoitado sem misericórdia. Vi meninos fazendo muitas coisas que não deveriam ter feito. Cantei no coro de 1880 a 1884 - soprano, no St. John's. Vim para Nova York. Eu era um bom pintor de interiores.

"Eu comprei um apartamento e trouxe minha mãe de Washington. Nós morávamos na Rua 76 West com a 101 e foi lá que conheci minha esposa. Depois que nossos seis filhos nasceram, ela me deixou. Ela pegou todos os móveis e nem mesmo deixou um colchão para as crianças dormirem.

"Ainda estou preocupado com meus filhos", ele fungou. Os seis filhos tinham de 21 a 35 anos. "Eu achei que eles viriam visitar o velho pai na prisão, mas não vieram."

Albert Fish enfrentava acusações em Manhattan e no condado de Westchester. Este o indiciou por assassinato em primeiro grau, enquanto Manhattan preparava uma acusação de sequestro.

Enquanto isso, a polícia prosseguia investigando a vida do velho em busca de novas pistas. O motorista da linha de bonde do Brooklyn viu uma foto de Fish no jornal e se adiantou para identificá-lo como o velho nervoso que viu em 11 de fevereiro de 1927, que tentava acalmar um garotinho sentado com ele no bonde. Joseph Meehan, o motorista aposentado, observava os dois com atenção. O menino, que não tinha paletó nem casaco, chorava continuamente pela mãe e precisava ser arrastado pelo velho para dentro e para fora do carrinho. O velho disse que o menino era seu neto, Billy. O garotinho, no fim das contas, era Billy Gaffney que havia sido raptado pelo "Bicho Papão".

Quando confrontado com esse crime, Fish apenas acenou com a cabeça reconhecendo a culpa: "Sim, sim, o menininho", disse dando início a confissão sobre os atos indescritíveis que sujeitou o pequeno Billy Gaffney: "Eu o trouxe para os lixões da Riker Ave. Há uma casa que fica isolada, eu o levei lá, onde ninguém ouviria nada". 

Fish contou como despiu e amarrou as mãos e pés do menino, amordaçando-o com um pedaço de pano sujo que tirou do lixo. Então queimou suas roupas. Em seguida, voltou e pegou o bonde para 59 St. às 2 da manhã. e caminhou de lá até em casa. "estava pensando no que faria".

No dia seguinte, por volta das 14 horas, pegou suas ferramentas e foi até a casa determinado a dar cabo do menino. Uma de suas "ferramentas" era um velho cinto de couro curtido que ele transformou num chicote de nove pontas. Fish bateu no menino até ele perder os sentidos. Depois mutilou sua face com uma faca que levava consigo. Ele morreu depois de um tempo. Em meio ao frenesi, ele ainda mordeu e bebeu o sangue da criança.

"Então eu o cortei para aproveitar as partes mais macias e tenras", disse sem manifestar qualquer emoção. Quando ficou satisfeito com os pedaços que havia escolhido, jogou o restante em quatro sacos de cheios de pedra no rio Hudson. Fish contou que preparou as partes do corpo no fogão de sua casa, comendo por cinco dias um ensopado temperado com cebola, cenoura, nabo, aipo, sal e pimenta. "Estava delicioso", concluiu por fim.

Dias depois, um homem de Staten Island se apresentou para identificar Fish como o homem que tentou atrair sua filha de oito anos para a floresta não muito longe de onde Francis O'Donnell foi assassinado três dias depois, em 1924. A garota, no final da adolescência, o viu em sua cela e o reconheceu. 

Fish era o Homem Cinzento, assim descrito naquela época. O velho também foi relacionado a um assassinato em 1932 de uma garota de quinze anos chamada Mary O'Connor em Far Rockaway. O corpo mutilado da garota foi encontrado em uma floresta perto de uma casa que Fish estava pintando.

Com todas essas acusações em diferentes condados. Havia muito pouca chance de Albert Fish ser absolvido pelos crimes que cometeu. Sua única oportunidade de evitar a pena de morte era fazer com que os alienistas ou psiquiatras forenses o declarassem louco e portanto inimputável.

O Dr. Fredric Wertham em seu livro The Show of Violence descreve seu primeiro encontro com o maníaco Albert Fish em sua cela. Ele ficou chocado ao ver como Fish era "manso, gentil, benevolente e educado". "Se você quisesse alguém a quem confiar seus filhos, ele seria aquele que você escolheria."

A atitude de Fish em relação à sua situação era de total distanciamento. "Não tenho nenhum desejo particular de viver. Não tenho nenhum desejo particular de ser morto. É uma questão indiferente para mim. Não acho que esteja totalmente certo."

A psicose parecia ter se instalado no seio da família de Fish pelo que o Dr. Wertham pode averiguar: "Um tio paterno sofria de psicose religiosa e morreu confinado num hospital estadual. Um meio-irmão também morreu institucionalizado. Um irmão mais novo era débil e morreu de hidrocefalia. Sua mãe era considerada "muito esquisita" e dizia-se que ouvia e via coisas. Uma tia paterna era considerada "completamente louca". Um irmão sofria de alcoolismo crônico. Uma irmã tinha algum tipo de 'aflição mental.

Ele alegou que seu nome verdadeiro era Hamilton Fish, em homenagem a um parente distante que era secretário de Estado do presidente Grant. Cansado de ser provocado por esse nome, ele preferiu o nome de Albert e passou a usá-lo por conta própria. Quando tinha vinte e seis anos, ele se casou com uma jovem de dezenove e com ela teve seis filhos. Quando a criança mais nova tinha três anos, a mãe fugiu com outro homem, deixando Fish para criar os filhos. Posteriormente, ele "casou" três outras vezes, embora não fossem matrimônios legais, uma vez que ele nunca se divorciou da primeira esposa.

O Dr. Wertham considerou a perversidade sem paralelo de Fish única nos anais da literatura psiquiátrica e criminal. "O sadomasoquismo dirigido contra as crianças, principalmente os meninos, assumiu a frente de seu desenvolvimento sexualmente regressivo."

Fish disse-lhe: "Sempre tive o desejo de infligir dor aos outros e de que os outros me infligissem. Sempre gostei de tudo o que doía."

Wertham contou que "experiências sádicas de todos os tipos imagináveis ​​foram praticadas por ele, ativa e passivamente. Fish sentia um desejo crônico de causar e de sentir dor. Muitas das coisas medonhas que ele fez com suas vítimas, foram feitas com ele, com seu consentimento".

Fish confidenciou ao Dr. Wertham sua longa história como predador sexual de crianças, "pelo menos cem", disse ele ao contabilizar suas vítimas infantis. Fish as atraía com dinheiro ou doces. Ele geralmente escolhia crianças negras porque acreditava que a polícia não prestava muita atenção quando elas estavam feridas ou desaparecidas. Depois de atacar, ele evitava retornar ao local. Com isso, viveu em pelo menos 23 estados e em cada um matou pelo menos uma criança. Às vezes, ele perdia o emprego como pintor porque sua presença levantava suspeitava de que estava ligado a crianças desaparecidas. Ele era visto conversando com elas ou espiando de longe.

O maníaco tinha uma compulsão para escrever cartas obscenas e o fazia com frequência. De acordo com o Dr. Wertham, não eram as cartas obscenas típicas baseadas em fantasias e devaneios para fornecer uma emoção fugaz. Eram tentativas de descobrir pessoas com inclinações sadomasoquistas".

Inicialmente, o psiquiatra teve dúvidas sobre se Fish estava mentindo para ele, especialmente quando disse ao psiquiatra que havia enfiado agulhas em seu corpo durante anos na área entre o reto e no escroto: "No início, disse ele, só enfiara essas agulhas e as puxava de novo. Depois enfiara outras tão fundo que não conseguia tirá-las, e elas ficavam lá." O médico fez um raio-X e descobriu pelo menos 29 agulhas instaladas na região pélvica.

Por volta dos 55 anos, Fish começou a ter alucinações e delírios cada vez mais frequentes. "Ele teve visões de Cristo e começou a se envolver em especulações religiosas sobre como purificar os pecados. A maneira mais lógica, aos seus olhos, era através do sofrimento físico e autotortura. Ele misturava citações da Bíblia com trechos que afirmava terem sido reveladas a ele em visões. Teria dito: "Feliz aquele que pega os pequeninos e bate suas cabeças contra as pedras." Fish acreditava que Deus havia ordenado que ele castrasse meninos, coisa que havia feito várias vezes.

Wertham ficou surpreso quando Fish descreveu o horrível canibalismo do corpo de Billy Gaffney. "Seu estado de espírito enquanto descrevia essas coisas nos mínimos detalhes era uma mistura peculiar. Ele falava de maneira prática, como uma dona de casa descrevendo seus métodos favoritos de cozinhar. Mas às vezes sua voz e expressão facial indicava uma espécie de satisfação e emoção". 

Que Fish sofria de alguma psicose religiosa era indiscutível. Os filhos de Fish o viram "se ferindo com um remo cravejado de pregos até ficar coberto de sangue. Eles também o viram sozinho em uma colina com as mãos levantadas, gritando: "Eu sou o Cristo".

O Dr. Wertham, nomeado como alienista da defesa, acreditava que Fish era totalmente insano: "Eu caracterizei sua personalidade como introvertida e extremamente infantil. Descrevi sua constituição mental anormal e sua doença mental, que diagnostiquei como psicose paranoica. Fish sofria de delírios e particularmente estava tão confuso sobre as questões de punição, pecado, expiação, religião, tortura, autopunição, que não via a si mesmo como um pervertido. Ele achava realmente estar à serviço de um poder superior. 

Wertham acreditava que Fish teria matado pelo menos quinze crianças e mutilado cerca de cem outras. Dois outros alienistas testemunharam que Fish era clinicamente insano. No entanto, os quatro alienistas chamados pela promotoria eram de opinião contrária, diziam que Fish era são no momento dos crimes. Um desses alienistas da promotoria era o chefe do hospital psiquiátrico onde Fish fora destacado para observação alguns anos antes, onde havia sido considerado "inofensivo e são".

O julgamento de Albert Fish pelo assassinato premeditado de Gracie Budd começou na segunda-feira, 11 de março de 1935. A Defesa atacou a competência dos alienistas do Hospital Bellevue que observaram Fish em 1930 e o declararam são. Ele também planejou estabelecer que Fish estava sofrendo de "envenenamento de chumbo", uma demência sofrida por pintores de paredes que provoca alucinações.

A principal estratégia da Promotoria foi resumida no início do julgamento: "A prova, resumidamente, será que este réu é legalmente são e que ele conhece a diferença entre certo e errado e a natureza dos seus atos. Ele não é mentalmente defeituoso, possui uma memória maravilhosa para um homem de sua idade, tem orientação completa do que acontece a seu redor, Não possui deterioração mental de qualquer tipo. Ele é sexualmente anormal, conhecido clinicamente como um pervertido sexual e psicopata sexual. Seus atos são anormais, mas quando ele raptou e matou uma menininha, ele sabia que era errado fazer isso, e por isso, deve responder por seus atos . "

O advogado de defesa se concentrou na vida bizarra de Fish e na autoflagelação com remos e agulhas. Em seguida, ele mencionou a competência de Fish como pai e seu amor pelos filhos: "Apesar de todas essas tendências brutais, criminosas e perversas, há um outro lado desse réu. Ele foi um pai muito bom e nunca fez qualquer mal aos seus filhos. Ele encerrou seus comentários lembrando ao júri que cabia à promotoria provar que um homem que matava e comia crianças era são.

No terceiro dia do julgamento, apesar das extenuantes objeções do advogado de defesa, uma caixa com os restos mortais de Grace Budd foi trazida para o tribunal como prova, enquanto o detetive King recriava a partir da confissão de Fish como a garota foi morta. Então o Promotor enfiou a mão na caixa e estendeu o pequeno crânio da garota morta para o júri. Foi um momento absurdamente bizarro.
 
A Defesa colocou vários filhos de Fish no banco para testemunhar seu comportamento bizarro, mencionando a autoflagelação e suas ilusões religiosas. Eles também testemunharam que ele era um bom pai que sempre cuidou deles e nunca os maltratou fisicamente. Também foram lidas várias das cartas obscenas escritas pelo réu, o que fez algumas pessoas desmaiarem e o Juiz ordenar o esvaziamento do tribunal.

O julgamento durou dez dias, mas o júri levou menos de uma hora para chegar ao veredicto de culpado. Posteriormente alguns jurados disseram que Fish provavelmente era louco, mas que seus crimes eram tão medonhos que ele merecia morrer de qualquer maneira. 

O condenado não gostou do veredicto, mas não chegou a protestar formalmente e disse que não iria sequer recorrer da sentença que lhe foi atribuída. Aparentemente, a perspectiva de morrer na cadeira elétrica o atraía e fazia seus olhos faiscarem em antecipação. Ao fim do julgamento, ele se manifestou, agradecendo ao Juiz, Promotor e ao Júri por colocar um fim na sua existência lamentável. Ele afirmou que não queria mais viver e que morreria feliz se não causasse mais nenhum mal. 

Em 16 de janeiro de 1936, as luzes da Prisão de Sing-Sing oscilaram, quando uma descarga elétrica de 2 mil volts atravessou o cérebro de Albert Fish. Foi o fim de um dos mais perversos seres humanos de todos os tempos.

domingo, 24 de outubro de 2021

Albert Fish - O Homem Cinzento


Na crônica policial, certos casos desafiam nossa capacidade de correlacionar os responsaveis pelos crimes com o que categorizamos como humanos. Na falta de palavras para entender a conduta de algumas pessoas, convencionamos chamá-los de monstros.

Nos últimos tempos, chamar assassinos, maníacos e psicoticos de monstros se tornou lugar comum. Mas o que dizer quando de algum lugar escuro surge alguém como Albert Fish? Chamar esse assassino abominável somente de "monstro", parece insuficiente para descrever o que ele fez.

Fish talvez represente o que há de pior na humanidade em se tratando de maldade e crueldade. Sua existência foi marcada pela violência desmedida e tudo que ele tocou acabou de alguma forma maculado pela sua aura perversa. Mesmo hoje, com tudo que sabemos à respeito da psiquiatria e das ciências comportamentais, Fish ainda constitui um enigma - uma Esfinge cuja face hedionda é difícil encarar. Esse homem velho e de aparência frágil desponta como um dos seres humanos mais aterrorizantes de todos os tempos.

De muitas maneiras, escrever esse artigo foi complicado em face das descrições vividas e dos detalhes morbidos que envolvem seus atos. Cada um deles, repulsivo e chocante, além dos limites do razoável. Por esse motivo, recomenda-se discernimento ao ler o texto à seguir.

*     *     *

Edward Budd era um jovem de dezoito anos determinado a fazer algo por si mesmo e escapar da pobreza desesperadora em que vivia. Em 25 de maio de 1928, ele colocou um anúncio classificado na edição de domingo do New York World: "Jovem, 18, deseja posição para trabalhar. Edward Budd, 406 West 15th Street." Ele era um jovem robusto, ansioso por encontrar um serviço e contribuir para o bem-estar de sua família. Preso na cidade suja, fedorenta e lotada, vivendo num cortiço miserável com seu pai, mãe e quatro irmãos mais novos, ele ansiava por trabalhar no campo onde o ar fosse fresco e limpo.

Na segunda-feira seguinte, 28 de maio, a mãe de Edward, Delia, atendeu a porta e encontrou parado na entrada um homem idoso de olhar calmo. Ele se apresentou como Frank Howard, um fazendeiro de Farmingdale, Long Island, que queria entrevistar Edward sobre o emprego.

Delia disse a Beatrice, de cinco anos, para trazer o irmão que estava no apartamento de um amigo. O velho sorriu para ela e deu-lhe uma moeda de cinco centavos.

Enquanto esperavam por Edward, Delia teve a chance de ver melhor o velho. Ele tinha um rosto muito gentil, emoldurado por cabelos grisalhos e acentuado por um grande bigode grisalho caído. Ele explicou à Sra. Budd que havia ganhado a vida por décadas como decorador de interiores na cidade e depois se retirou para uma fazenda que comprou com suas economias. Ele teve seis filhos que criou sozinho desde que sua esposa os abandonou há mais de uma década. Com a ajuda de seus filhos, cinco peões e um cozinheiro sueco, ele transformou a fazenda em um negócio de sucesso, com várias centenas de galinhas e meia dúzia de vacas leiteiras. Agora, um de seus peões estava se mudando e ele precisava de alguém para substituí-lo. A história era perfeita!

Naquele momento, Edward entrou e conheceu o Sr. Howard, que comentou sobre o tamanho e a força do rapaz. Edward garantiu ao velho que trabalhava duro e poderia ser de grande ajuda. O Sr. Howard ofereceu-lhe quinze dólares por semana, que Edward aceitou com alegria. Howard até concordou em contratar Willie, o amigo mais próximo de Edward.

O Sr. Howard teve que sair para uma consulta, mas prometeu voltar no sábado para buscá-los. Os meninos estavam felizes e os Budds ainda mais com o surgimento do gentil cavalheiro que sinalizava com um trabalho honesto e rentável.

Sábado, 2 de junho, deveria ser o grande dia, mas o Sr. Howard não apareceu. Em vez disso, eles receberam uma nota escrita à mão dizendo que ele havia se atrasado e ligaria pela manhã para marcar uma nova visita.

Na manhã seguinte, por volta das onze, Frank Howard foi ao apartamento do Budd trazendo morangos e queijo fresco cremoso. "Esses produtos vêm direto da minha fazenda", explicou sorridente.

Delia convenceu o velho a ficar para o almoço. Pela primeira vez, Albert Budd, o pai, teve a oportunidade de conversar com o empregador de seu filho. Era o tipo de conversa que deixa um pai tranquilo e satisfeito. Ele era um sujeito educado, descrevendo com entusiasmo seus vinte acres de terras agrícolas, sua amigável equipe de lavradores e uma vida simples porém saudável no campo. Ele sabia que era uma grande oportunidade para o filho. Albert, foi carregador da Equitable Life Assurance Company e era um homem perpetuamente submisso. Sem dúvida, ele queria algo melhor para o filho mais velho. 

Assim que se sentaram para almoçar, a porta se abriu e uma adorável menina de dez anos apareceu. Gracie estava cantarolando uma música. Seus enormes olhos e cabelos castanhos escuros contrastavam com sua pele muito pálida e lábios rosados. Vindo direto da igreja, ela ainda usava suas roupas de domingo: vestido de confirmação de seda branca, meias de seda branca e colar de pérolas cremosas a faziam parecer mais velha do que seus 10 anos.

Frank Howard, como a maioria das pessoas que ficavam cara a cara com o radiante Gracie, não conseguia tirar os olhos da menina. "Vamos ver se você sabe fazer contas", disse ele enquanto lhe entregava um enorme maço de notas para contar. Os empobrecidos Budds ficaram pasmos com o dinheiro que o velho carregava consigo.

"Noventa e dois dólares e cinquenta centavos", Gracie disse a ele rapidamente.

"Que menina inteligente", disse o Sr. Howard, dando-lhe cinquenta centavos para comprar doces para ela e sua irmãzinha Beatrice.

Howard disse que voltaria mais tarde para pegar Edward e Willie, mas primeiro ele tinha que ir a uma festa de aniversário que sua irmã estava dando para um de seus filhos. Ele deu aos meninos dois dólares para irem ao cinema. Quando estava para sair, ele convidou Gracie para ir com ele à festa de aniversário de sua sobrinha. Ele iria cuidar bem dela e se certificar de que Gracie estaria em casa antes das nove horas daquela noite.

Delia perguntou onde a irmã do Sr. Howard morava e ele respondeu que ela morava em um prédio de apartamentos na Columbus com a 137th Street.

Delia não tinha certeza se deveria deixá-la ir, mas o marido a convenceu de que seria bom para Gracie. "Deixe a pobre criança ir. Ela não vê muitos bons momentos."

Então Delia ajudou Gracie a vestir um casaco e seu chapéu cinza com fitas. Ela seguiu Gracie e o Sr. Howard para fora e os observou desaparecer na rua.

Naquela noite, não houve notícias do Sr. Howard e nenhum sinal de Gracie. Uma terrível noite sem dormir, sem nenhuma mensagem de sua linda filha. Na manhã seguinte, o jovem Edward foi enviado à delegacia para relatar o desaparecimento de sua irmã.

A pior coisa que o tenente de polícia Samuel Dribben disse aos Budds foi que o endereço que "Frank Howard" lhes dera para o apartamento de sua irmã era fictício. O velho bondoso era uma fraude. Não havia nenhum Frank Howard, nenhuma fazenda em Farmingdale, Long Island. Nada disso era verdade.

A polícia iniciou as atividades normais de investigação. Eles checaram tudo que "Frank Howard" disse aos Budds. Eles também fizeram com que os Budds examinassem um álbum de fotos de criminosos e verificassem todos os molestadores de crianças, pacientes mentais, registrados. Não deu em nada: Nenhum vestígio de Gracie.

Em 7 de junho, a polícia de Nova York enviou mil panfletos às delegacias de todo o país com uma foto de Gracie e uma descrição do "Sr. Howard". Esta atividade, junto com toda a publicidade local, garantiu uma epidemia de avistamentos de Gracie e cartas excêntricas, cada uma das quais teve que ser investigada minuciosamente pelos mais de 20 detetives designados para o caso.

Havia algumas pistas sólidas. A polícia encontrou o escritório da Western Union em Manhattan de onde "Frank Howard" havia enviado sua mensagem aos Budds, além da mensagem original escrita à mão. Pela escrita e gramática, ficou claro que "Howard" teve alguma educação e refinamento. A polícia também localizou o carrinho de mão onde "Howard" comprou o queijo que deu aos Budds. Ambos os endereços ficavam no East Harlem, que então se tornou um ponto focal de intensa busca e investigação.

A polícia de Nova York estava familiarizada com sequestro de crianças. Na verdade, houve um caso estranhamente semelhante no ano anterior. Em 11 de fevereiro de 1927, Billy Gaffney, de quatro anos, brincava no corredor do lado de fora de seu apartamento com seu vizinho de três anos que também se chamava Billy. Um vizinho de 12 anos que estava cuidando de sua irmãzinha adormecida foi se juntar aos meninos, mas voltou para o apartamento rapidamente depois de ouvir sua irmã chorar.

Poucos minutos depois, o menino mais velho percebeu que os dois Billys tinham ido embora e contou ao pai de um deles. Depois de uma busca desesperada, o pai encontrou seu filho de três anos sozinho no último andar do prédio. Seu filho estava no telhado chorando.

"O bicho-papão levou Billy", dizia o menino insistentemente.

No dia seguinte, quando um pelotão de detetives veio investigar o desaparecimento do menino Gaffney, eles ignoraram a testemunha de três anos, que manteve sua explicação simples. A princípio, a polícia pensou que o menino tivesse entrado em alguns dos prédios da fábrica na vizinhança ou, pior, caído no canal Gowanus a alguns quarteirões de distância. As pessoas da comunidade organizaram uma busca e o canal foi dragado, mas não havia sinal do pequeno Billy.

Por fim, alguém ouviu a testemunha de três anos que lhes deu uma descrição do "bicho-papão". Ele era um velho esguio com cabelos e bigode grisalhos. A polícia não deu atenção à descrição e não a relacionou com um crime cometido por alguém chamado apenas de "Homem Cinzento" alguns anos antes.

Em julho de 1924, Francis McDonnell, de oito anos, brincava na varanda de sua casa na área pastoral de Charlton Woods em Staten Island. Sua mãe estava sentada perto, amamentando sua filha pequena, quando viu um homem idoso e esquelético de cabelos grisalhos e bigode no meio da rua. Ela olhou para o velho maltrapilho que constantemente fechava e abria os punhos e resmungava para si mesmo. O homem tirou o chapéu empoeirado para ela e desapareceu na rua.

No final da tarde, o velho foi visto novamente observando Francis e quatro outros meninos jogarem bola. O velho chamou Francis para falar com ele. Os outros meninos continuaram a jogar bola. Poucos minutos depois, o velho e Francis haviam desaparecido. Um vizinho notou um menino que parecia Francis caminhando naquela tarde em uma área arborizada com um vagabundo idoso de cabelos grisalhos atrás dele.

O desaparecimento de Francis não foi notado até que ele perdeu o jantar. Seu pai, um ex-policial, organizou uma busca. Eles encontraram o menino na floresta sob alguns galhos. Ele havia sido horrivelmente atacado. Suas roupas foram arrancadas de seu corpo e ele foi estrangulado com os próprios suspensórios. Francis havia levado uma surra tão violenta que a polícia duvidou que o "velho" vagabundo fosse tão idoso e frágil quanto descrito. A surra foi tão forte que talvez o velho vagabundo tivesse um cúmplice responsável por aquela atrocidade.

Em um curto período de tempo, especialistas em impressões digitais de Manhattan e fotógrafos da polícia foram incluídos no caso, bem como duzentos e cinquenta policiais à paisana. A enorme caça ao homem cinzento rendeu vários suspeitos promissores, exceto que nenhum deles se parecia com o velho vagabundo de bigode e cabelos grisalhos. Seu rosto ficou marcado para sempre na memória de Anna McDonnell: "Ele veio arrastando os pés pela rua, resmungando para si mesmo, fazendo movimentos estranhos com as mãos. Nunca vou esquecer essas mãos. Estremeci quando olhei para elas ... como abriam e fechavam, abriam e fechavam, abriam e fechavam. Eu o vi olhar para Francis e os outros. Vi seu cabelo grisalho e grisalho, seu bigode grisalho caído. Tudo nele parecia desbotado e grisalho."
Apesar dos esforços maciços da polícia e da comunidade, o "Homem Cinzento" havia desaparecido no ar.

Em novembro de 1934, o caso Budd ainda estava oficialmente aberto, embora ninguém esperasse que fosse resolvido ou que Gracie fosse encontrada. Apenas um detetive da polícia, um certo William F. King, continuava a investigar o caso com dedicação. Ele sentia que devia aquilo à pequena Gracie e aos seus pais que se ressentiam por terem sido ludibriados pelo velho. O policial foi entrevistado por um repórter e falou com sinceridade a respeito do caso que ganhou certa repercussão através de uma artigo.

Dez dias depois da publicação, Delia Budd, a mãe de Gracie, recebeu uma carta. Era estranho, pois ela não sabia ler e portanto raramente lhe enviavam algo escrito. Seu filho Edward leu a carta e imediatamente ficou pálido. Ele saiu correndo para chamar o detetive King que as circunstâncias haviam tornado amigo da família. 

A carta era singularmente macabra e seu conteúdo medonho reverberou pela mente do garoto. Quando King leu seu conteúdo, sentiu uma forte náusea. Diferente das cartas escritas por malucos de toda lavra, aquela continha elementos que pareciam reais e que fizeram o calejado detetive sentir o mundo inteiro rodando sob os seus pés. A letra também era bastante parecida com a do bilhete escrito por Frank Howard anos antes, o que o deixava ainda mais aterrorizado diante das implicações dela. Mas o pior é que o instinto do Detetive King dizia que aquela carta era real e não o produto de um degenerado.

A carta dizia o seguinte: 

"Minha cara Sra. Budd,

Em 1894, um amigo meu embarcou como ajudante de convés no Barco à Vapor Tacoma comandado pelo capitão John Davis. Eles navegaram de São Francisco para Hong Kong, China. Ao chegar lá, ele e dois outros desembarcaram e se embriagaram. Quando voltaram, o barco havia sumido.

Naquela época, havia fome na China. A carne de qualquer tipo custava de US $ 1 a 3 dólares o quilo. Tão grande era o sofrimento entre os mais pobres que crianças pequenas eram vendidas no mercado negro, a fim de alimentar os que morriam de fome. Nenhum menino ou menina com menos de 14 anos estava seguro na rua. Você poderia entrar em qualquer loja e pedir um bife, costeletas ou carne cozida e o comerciante lhe oferecia parte do corpo de um menino ou menina. Eles então cortavam exatamente o que se pedia para levar. Mas algumas pessoas não reclamavam. Veja bem, um menino ou menina jovens tem a parte mais tenra que se pode imaginar. E esta parece costela de vitela, sobretudo para quem está faminto.

John ficou lá por tanto tempo que adquiriu gosto pela carne humana. Em seu retorno a N.Y., ele roubou dois meninos, um de 7 e um de 11 anos. Levou-os para sua casa, despiu-os e amarrou-os em um armário que manteve trancado. Em seguida, queimou tudo o que estavam usando. Várias vezes, todos os dias e todas as noites, ele os espancava para tornar a carne mais macia.

Primeiro ele matou o menino de 11 anos, porque ele tinha o traseiro mais gordo e, claro, mais carne. Cada parte de seu corpo foi cozida e comida, exceto a cabeça - ossos e vísceras. Foi Assado no forno, cozido, assado, frito e transformado em guisado. O garotinho foi o próximo, seguiu o mesmo caminho. Naquela época, eu morava na 409 E 100 st. Próximo ao lado direito, éramos vizinhos. Ele me disse tantas vezes como a carne humana era boa que fiquei muito curioso e decidi prová-la.

No domingo, 3 de junho de 1928, visitei você e sua família na 406 W 15 St. Trouxe queijo e morangos como a senhora deve se recordar. Nós almoçamos. Gracie sentou no meu colo e me beijou na face. Decidi ali que iria devorá-la.

Com a pretensão de levá-la a uma festa, planejei raptá-la. Você disse que ela poderia ir comigo. Eu a levei para uma casa vazia em Westchester que eu já havia escolhido. Quando chegamos lá, disse a ela para ficar do lado de fora. Ela colheu flores silvestres. Subi as escadas e tirei todas as minhas roupas. Eu sabia que se não o fizesse iria me sujar com o sangue dela.

Quando tudo ficou pronto, fui até a janela e chamei a menina. Então me escondi em um armário até ela entrar no quarto. Quando ela me viu nu, começou a chorar e tentou descer correndo as escadas. Eu a agarrei e ela disse que contaria para sua mãe.

Primeiro eu a despi. Ela chutou, mordeu e arranhou. Eu decidi que era melhor sufocá-la até a morte. Depois a cortei em pequenos pedaços para que eu pudesse levar sua carne para minha casa onde a prepararia. Cozinhe e comi com grande satisfação. Quão doce e tenra era a menina depois de assada no forno. Levei 9 dias para comer seu corpo inteiro. Eu não fodi ela embora pudesse, se assim desejasse. Ela morreu virgem". Eu apenas queria que a senhora soubesse desses fatos para que não espere encontrar a menina. Ela se foi".

As pessoas estavam chocadas, ninguém queria realmente acreditar que a carta podia ser verdadeira. Deviam ser os delírios de algum maníaco pervertido e sádico. Mas, o detetive King percebeu que os detalhes de seu encontro com os Budds e Grace eram precisos. Além disso, tinha a caligrafia que era idêntica à carta que o sequestrador idoso escrevera para o mensageiro da Western Union seis anos antes.

O envelope tinha uma pista importante: um pequeno emblema hexagonal com as letras N.Y.P.C.B.A. que significava a Associação Benevolente de Motoristas Privados de Nova York. Com a colaboração do presidente da associação, foi realizada uma reunião de emergência dos associados. Nesse ínterim, a polícia verificou os formulários de filiação manuscritos em busca de uma caligrafia semelhante à de "Frank Howard". O Detetive King então pediu aos membros - todos os quais haviam passado no teste de caligrafia - que denunciassem qualquer pessoa que pudesse ter acesso ao papel timbrado da associação.

Um jovem zelador se adiantou, admitindo que havia pegado algumas folhas de papel e alguns envelopes. Ele havia deixado o papel de carta em sua antiga pensão na 200 East 52nd Street. A senhoria ficou chocada quando recebeu a descrição de "Frank Howard". Ele parecia o velho que morava ali há dois meses e que havia sucedido o zelador.

O velho havia deixado a sua pensão apenas alguns dias antes. O inquilino se chamava Albert H. Fish. A senhoria mencionou que Fish havia lhe dito para guardar uma carta que ele esperava receber de seu filho, que trabalhava para o Corpo de Conservação na Carolina do Norte. O filho mandava dinheiro para o velho pai regularmente. Fish, ela disse, era um senhor franzino, velho e de aparência adoentada que sempre foi gentil e simpático com ela.

Alguns dias mais tarde, o correio interceptou uma carta endereçada a Albert Fish. O detetive King pediu que a senhoria ficasse com a carta e que avisasse assim que Fish aparecesse para buscá-la como havia prometido que faria. Demorou alguns meses até ele aparecer na pensão. Mas em 13 de dezembro de 1934, a senhoria ligou para o detetive King. Albert Fish estava na pensão procurando sua carta e ela havia dito a ele para esperar pois não a encontrava. O detetive correu o mais rápido possível e quando chegou ao endereço encontrou o velho sentado, tomando uma xícara de chá. Ele se levantou e acenou com a cabeça quando King perguntou se o seu nome era Albert Fish.

Desconfiado de que algo estava errado, Fish enfiou a mão no bolso e tirou uma navalha. Enfurecido, King agarrou a mão do velho e torceu-a com força até ele se render. "Eu tenho você agora", disse triunfante dando a seguir ordem de prisão.

Hish se renderia imediatamente, seu corpo ficou fraco e flácido e ele não demonstrava mais força para reagir.

"Sim, sou eu. Você me pegou", disse em um sussurro quase inaudível.

Mas esse seria apenas o primeiro ato de um horror muito maior que viria à tona, à medida que aquele velho desprezível resolveu cooperar e relatar à polícia estarrecida sua carreira de homicídios de crianças.

Fim da parte 1

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Montes de Ossos - A descoberta de um cemitério perdido e suas lendas


"Nunca são apenas ossos... todos eles possuem uma história".

Em 2017, uma família de York resolveu fazer uma trilha por um terreno florestal nos arredores da cidade de Hull, no Norte da Inglaterra, onde estavam passando férias.

Pai, mãe e duas crianças de 8 e 10 anos decidiram cruzar um descampado que os levaria até um agradável parque do outro lado. Haviam árvores e arbustos naquela área, mas o terreno era bastante plano, o que lhes permitia correr e brincar, com o cachorro da família, um Setter, que os acompanhava. Em determinado momento, uma das crianças percebeu que o cão estava escavando uma área, e foram ver o que o animal havia encontrado. As crianças viram que ele trazia algo na boca, e como o animal queria brincar, começaram a atirar o objeto para que ele buscasse repetidas vezes. Só então o pai percebeu que aquilo que as crianças julgavam ser um pedaço de madeira, era na verdade um fêmur humano. Ele então foi até o lugar onde o cão havia desenterrado o osso e lá descobriu que havia outro, e outro e mais outro...

A Família correu imediatamente para a cidade para relatar às autoridades o que haviam descoberto temendo que pudesse ser a cena de um antigo crime. Descobriram que se tratava de uma longa vala com cerca de 200 metros de extensão, contendo milhares de ossadas ali depositadas sem cerimônia.

A descoberta resolveu uma longa discussão à respeito da localização para onde restos mortais haviam sido transferidos no final século XVIII. Os registros da comunidade citavam que tal coisa havia acontecido entre 1783 e 1785, para que o Cemitério da Santa Trindade fosse esvaziado e transferido para outro local já que originalmente ele ficava no centro da cidade. Os ossos começaram a ser trazidos em grande quantidade para três valas escavadas nos arredores, duas já eram conhecidas, mas a localização exata da terceira ainda era uma incógnita. 


A descoberta motivou um trabalho de escavação iniciado em 2019 que resultou na exumação de algo próximo de 10,000 esqueletos humanos. Durante o auge dessas escavações, coordenadas pela Universidade local e que duraram aproximadamente um ano, cerca de 300 esqueletos completos foram achados em uma única semana.

Os pesquisadores encontraram caixões em boas condições, repletos de uma panóplia de acessórios decorativos em prata e latão, além de túmulos de tijolos com designs variados que eles acreditam pertencer a pessoas de posses. Além disso, descobriram vários dispositivos chamados cofres-fortes que foram construídos a fim de impedir a ação de ladrões de sepulturas. Estes dispositivos geralmente consistiam de uma cinta de ferro simples colocada ao redor do caixão de madeira como uma proteção extra, mas haviam outros ainda mais elaborados. Alguns caixões eram depositados em uma espécie de gaiola de ferro batido, dentro do qual, o caixão era encaixado cuidadosamente para impedir todo e qualquer acesso ao seu conteúdo. 

No norte da Inglaterra, essas medidas preventivas eram bastante raras, mas existem registros históricos de que no século XV, Hull passou por uma epidemia de roubos de sepultura. Havia um terror entre as pessoas de que os restos mortais pudessem estar sendo subtraídos para a realização de malefícios e feitiçaria. A Necromancia, um dos ramos mais aterrorizantes da Magia Negra havia se tornado popular naquelas paragens, ou ao menos é o que atestam alguns documentos da comarca. "Feitiçaria era uma atividade perigosa e condenada pela rígida sociedade local, mas aparentemente as pessoas recorriam a bruxas para conseguir alguma vantagem ou benefício", disse Clive Rowland, um dos diretores dos trabalhos arqueológicos. "A Necromancia era usada principalmente para estabelecer contato com os mortos, mas partes de cadáveres - ossos, cabelos, dentes e unhas, podiam ser empregadas em rituais de maldição". Nada era mais degradante do que ser usado como ingrediente de magia negra, por isso a preocupação de preservar os entes queridos após suas mortes.


Além dessas curiosidades, o trabalho arqueológico obteve da vala comum alguns objetos como alfinetes de liga de cobre, botões de osso, joias, pentes de cabelo, moedas holandesas, uma concha, além de contas de vidro azul que foram associadas às colônias europeias e à África. Foram encontrados também numerosos pratos que podem ter um dia contido sal grosso para proteger o falecido e simbolizar a vida eterna. Sal também era espalhado ao redor da sepultura recém escavada para proteger o morto dos maus espíritos. 

Curiosamente o trecho da floresta onde a vala comum foi encontrada sempre foi considerado como dos mais assombrados. Há relatos a respeito de fantasmas e aparições supostamente avistadas naquela área desde o século XVIII. Vários habitantes locais testemunharam o surgimento de espectros, alguns destes extremamente hostis. Um em especial, apelidado Mildred Maggs, pertenceria a uma feiticeira que segundo as lendas locais cometeu ao menos quatro assassinatos recorrendo a venenos. Após ser capturada em meados de 1720, Maggs foi enforcada pelo condestável local. Seu fantasma, descrito como uma medonha aparição com o pescoço pendendo num ângulo bizarro, supostamente grita e até investe contra as pessoas à noite.

Agora que as escavações na vala foram concluídas, os especialistas começarão a estudar os esqueletos para descobrir mais informações sobre eles, como padrões de saúde e doenças. Eles já notaram alguns detalhes interessantes sobre a saúde geral desses indivíduos. Análises preliminares feitas ainda durante a fase dos trabalhos sugere uma alta prevalência de doenças que causam deficiências, como raquitismo e escorbuto, além de uma alta incidência de fraturas nasais em adultos, problemas dentais graves e presença de doenças como tuberculose e sífilis.


Os restos contam uma triste história à respeito de Hull, cidade que experimentou ao menos dois momentos dramáticos ligados a epidemias durante sua longa existência. No século XIV, a Peste Negra atingiu a cidade com força vitimando algo em torno de 40% da população residente. O cemitério da Sagrada Trindade recebeu a maioria desses corpos e de outros vilarejos próximos o que explica seu tamanho. Posteriormente nas primeiras décadas de 1700, uma segunda epidemia, dessa vez de Cólera, devastou a cidade e fez um número considerável de vítimas. Novamente Hull, uma das cidades mais importantes na construção naval no país, se reergueu, mas ela jamais voltou a ter a importância que havia adquirido anteriormente.

A remoção do cemitério histórico, que, acredita-se, hospedou um dia, algo em torno de 80 mil sepulturas foi um empreendimento ousado, mas necessário para que a cidade pudesse crescer. Por muito tempo, as dimensões da necrópole faziam com que Hull fosse chamada de Cidade dos Mortos, um apelido pouco agradável. Para melhorar a imagem da cidade, e impulsionar seu progresso, o Cemitério tinha que sair. Documentos atestam que o translado dos ossos escavados se deu com o uso de carroças que dia e noite transportavam o macabro material. Alguns desses ossos eram contemporâneos da fundação da cidade, quando Monges se estabeleceram às margens do Rio Hull no século XII e batizaram o lugar como Kingston-upon-Hull.

Após as analises e catalogação dos ossos, a cidade estuda criar um novo cemitério ou quem sabe transportar os ossos para um complexo subterrâneo desativado, onde seria criada uma grande cripta.

Seja como for, após tantos anos, estes ossos poderão finalmente descansar.

domingo, 17 de outubro de 2021

Fanatismo Mortal - O Culto suicida de Uganda


Cultos sempre foram algo estranho e assustador. Não a noção de crença, fé ou devoção, mas a forma como essas coisas são tratadas é que em algum ponto se desvirtuam e se torna algo perturbador. Não faltam exemplos de cultos estranhos e seitas bizarras. 

Em 17 de março de 2000, centenas de seguidores do Movimento para a Restauração dos Dez Mandamentos de Deus (MRTCG) morreram em Kanungu, Uganda. A Igreja onde essas pessoas estavam reunidas foi incendiada no que foi algumas vezes chamado de suicídio em massa e noutras homicídio, perpetrado pelos líderes do movimento. A tragédia e revelações macabras feitas após a tragédia transformaram esse incidente na maior tragédia dessa natureza no século XXI.

Mas como isso aconteceu? Quem eram essas pessoas e que Movimento era esse da qual faziam parte? E mais importante; como tal coisa pode ter acontecido em nossos tempos considerados racionais?

O MRTCG era um grupo cristão renegado pela Igreja Católica Romana que considerava suas ideias subversivas por incluir nos ritos consagrados costumes tribais que não eram aceitos. A seita foi estabelecida após um famoso surto de supostas aparições da Virgem Maria e Jesus em círculos católicos na África. Essas aparições tiveram início na cidade de Kibeho, Ruanda, entre os anos de 1981 a 1989. Na ocasião, sete "videntes" começaram a prestar testemunhos de revelações sobre o retorno de Jesus como preparativo para o Fim dos Tempos. 

Uma série de visões similares de Jesus e da Virgem Maria se multiplicaram então no sudoeste de Uganda criando enorme comoção no país. Em uma ocasião, pelo menos 200 pessoas disseram ter testemunhado o fenômeno nos céus. Uma jovem de origem ruandesa chamada Specioza Mukantabana, foi uma dessas testemunhas e com base nas suas revelações o movimento começou a se formar. Além de Specioza haviam outros videntes como Paul Kashaku e sua filha Credonia Mwerinde que afirmavam ouvir instruções divinas através de sonhos.


O trio afirmou ter recebido essas visões proféticas e uma multidão começou a se reunir para ouvir suas revelações. Padres locais e ao menos dois bispos reconheceram a autenticidade das visões e declararam que elas eram verdadeiras. Uma congregação foi estabelecida no ano seguinte e o grupo recém-formado tentou se fundir a outros grupos "aparicionistas". Por fim, doze Apóstolos (seis deles mulheres) foram nomeados, e após a morte de Kashaku em 1991, um ex-sacerdote católico o Reverendo Dominic Kataribaabo assumiu a liderança do Movimento.

Os Apóstolos previam o Retorno de Jesus e o início de uma guerra mundial que acabaria causando o inevitável Fim do Mundo. Apenas algumas poucas pessoas, em especial os membros da Seita seriam salvos dessa devastação e eles dariam início a reconstrução do que restou e a um mundo novo, moldado pelas suas crenças. As mensagens também abordavam temas típicos de Uganda na época, como o Flagelo da AIDS e a Corrupção Governamental.

Eventualmente, a aldeia de Kanungu foi renomeada Ishayuriro rya Maria (Local de Resgate da Virgem Maria), tornando-se o centro da Igreja depois de 1994. O grupo converteu um punhado de padres e freiras católicos que renegaram suas afiliação cristã e abraçaram de coração a nova seita após testemunharem milagres.

O MRTCG defendia um tipo de catolicismo extremamente conservador que se espelhava nas tradições do Velho Testamento. Alguns de seus líderes e membros foram eventualmente excomungados pelo Vaticano depois que estranhos vídeos das missas vazaram na internet. Os sinais de que a congregação havia enveredado por um caminho perigoso de fanatismo e extremismo eram inequívocos. A Seita reagiu rompendo com os Bispos católicos de Uganda, declarando sua independência. 

O grupo adotou seu nome legalmente em 1995, e filiais da Igreja começaram a aparecer em várias cidades do país. O governo expressou preocupação com as violações dos regulamentos de saúde pública, segurança e possíveis maus-tratos à crianças praticados nas igrejas, mas não houve nenhuma sanção. Para a maioria dos ugandenses, o Movimento e seus membros não eram nada mais do que pessoas excêntricas, mas inofensivas. A mensagem principal do grupo era que os Dez Mandamentos haviam sido distorcidos e precisavam ser restaurados em seu teor original. A terceira edição do manual religioso usado pela Seita, escrito por Kataribaabo, proclamava: "Nossa religião é um movimento que busca conscientizar as pessoas de que os Mandamentos de Deus foram abandonados e mostrar o que deve ser feito para sua observância.


A outra mensagem direta era de natureza apocalíptica, o que ficava claro na convocação expressa pelo Líder da Seita em um dos seus pronunciamentos em 1996:

"Todos vocês que vivem nesse Planeta, ouçam o que vou dizer: Quando o ano 2000 se completar, o ano que se seguirá não será o ano 2001. O ano que se seguirá será chamado de Ano Um e a geração que seguirá terá poucas ou muitas pessoas, dependendo de quem se arrepender à tempo. (…) O Senhor revelou que furacões de fogo cairão do céu e se espalharão sobre todos aqueles que não se arrependerem. A morte chegará a eles e apenas uns poucos, os ungidos e arrependidos, serão salvos".  

Os profetas do Culto previram o Fim do Mundo para 31 de dezembro de 1999, posteriormente revisando a data e alegando que este ocorreria em 17 de março de 2000. Na ocasião, a Virgem Maria apareceria e levaria os membros para o céu. O fracasso profético pode ter induzido vários membros a duvidar dos líderes e pedir a devolução de doações que haviam oferecido. Este desenvolvimento pode ter criado uma categoria de membros considerados como "traidores" no seio da Culto. 

À medida que o dia 17 de março ia se aproximando, os membros da Igreja pareciam cada vez mais agitados e ansiosos, já que aquela era a data profetizada. Na véspera vários membros do Culto foram vistos se despedindo de seus parentes, distribuindo seus bens ou chorando de forma inconsolável diante do que viria a acontecer. Um dos templos chegou a ser visitado pela polícia depois de denúncias de algazarra no meio da madrugada. 

Uma das Apóstolas visitou aldeias próximas anunciando a vinda da Virgem Maria e convidando todos a se refugiar na Igreja em Kanungu onde estariam protegidos da Tempestade de Fogo que desceria dos céus. Alguns aceitaram acompanha-la e foram até o templo ignorando o que aconteceria. Ao que tudo indica, alguns membros sabiam sobre o plano de suicídio, outros foram simplesmente informados sobre um evento sobrenatural iminente, mas não esperavam morrer. Na tragédia haviam três categorias de vítimas: aquelas que sabiam do suicídio; aqueles que esperavam ir para o céu, mas não sabiam como; e os "traidores" que duvidaram da Profecia. 

Não há como estabelecer uma cronologia exata dos fatos que levaram à tragédia naquele dia 17 de março, mas o que se supõe é que um grupo de aproximadamente 580 pessoas se reuniu na Igreja em Kanungu no final da tarde. Estas pessoas foram chamadas às pressas para o templo afim de ouvir a proclamação do Líder do Culto. As portas foram fechadas e trancadas para que o importante comunicado não fosse interrompido. Em algum momento, Kataribaabo e seus discípulos anunciaram que o mundo estaria chegando ao fim e que aquele era o momento tão aguardado, o da confirmação dos fiéis. É possível que alguns dos presentes, não tão certos do alegado "fim dos tempos", tenham pedido para ir embora ou ainda, que tenham levantado dúvidas sobre a Profecia. Prevendo que tal coisa poderia acontecer, os "traidores" foram eliminados com golpes de faca, machete e porrete.


Esses traidores, que totalizavam ao menos 40 indivíduos, foram literalmente massacrados pelos demais membros da Igreja. Dado o estado dos cadáveres encontrados posteriormente numa vala comum, é possível afirmar que eles tenham sido brutalmente agredidos pelos demais. Não é raro que a devoção de membros de um culto seja testada em momentos assim e que o líder tenha incentivado todos - mesmo as crianças presentes, a participar da punição. Após a chacina, os corpos foram embrulhados em lonas, arrastados para fora e atirados numa vala comum. Alguns moradores de Kanungu ouviram gritos e movimentos estranhos na parte de trás da Igreja, mas não estranharam nada.

Enquanto alguns se livravam dos traidores, o sangue deles era lavado do chão da igreja e os preparativos para o culto noturno eram agilizados. Eles tinham pouco tempo, já que acreditavam que o mundo terminaria precisamente meia noite. Testemunhas relataram que os gritos, cantos e gritaria generalizada no interior da Igreja (algo relativamente comum nos dias de culto) estavam muito mais altos naquela noite e muitos imaginaram o que poderia estar acontecendo. Contudo, ninguém quis se aproximar para saber do que se tratava.

Em algum momento da celebração, quando o relógio se aproximava das 23 horas, copos plásticos descartáveis contendo refrigerante misturado com veneno começaram a ser distribuídos aos presentes. Estes deveriam beber e depois deitar no chão da igreja esperando pelo chamado de Deus. Em teoria, aquela demonstração visava separar os últimos "traidores" dos "justos", pois os primeiros morreriam com o efeito do veneno, enquanto os demais apenas iriam dormir e despertar após o Fim do Mundo ter ocorrido. A autópsia dos cadáveres demonstrou que a maioria das pessoas na igreja consumiu o veneno e morreu poucos segundos depois. 

Não se sabe ao certo se os líderes haviam previsto esse desfecho ou se eles esperavam que alguns dos fiéis realmente sobrevivessem, de qualquer maneira, o reverendo Kataribaabo havia adquirido 50 litros de ácido sulfúrico. A substância foi usada para iniciar um incêndio na igreja que se espalhou rapidamente pela estrutura de madeira. Por volta de 12:30, ouviu-se uma grande explosão vindo do Templo e logo em seguida todo ele foi tomado pelas chamas. As autoridades foram chamadas imediatamente, mas quando chegaram o prédio já havia desabado transformando o interior num inferno flamejante.

Os 540 membros do culto que estavam na Igreja morreram no incêndio, inclusive o Líder e seus Apóstolos. Estes foram identificados entre os cadáveres calcinados, ainda que mais tarde o governo de Uganda tenha emitido um mandado de prisão para todos. Os registros dentários dos líderes não estavam disponíveis e foi impossível determinar se eles de fato morreram no incêndio (como suas famílias acreditam) ou escaparam com o dinheiro do movimento (como o governo de Uganda suspeitava). A ideia de que os líderes eram golpistas também foi a explicação preferida pela mídia. Posteriormente novas análises constataram que toda liderança do MRTCG pereceu na conflagração. 

Mas se isso não fosse o suficiente, o pior ainda estava por vir. 


Uma nação traumatizada que havia acabado de assistir uma tragédia teve de confrontar uma outra realidade ainda mais tenebrosa e maligna. A medida que as equipes de remoção retiravam cadáveres carbonizados dos destroços, outros corpos mais antigos começaram a ser encontrados. Seis cadáveres foram achados numa sala selada na igreja que não foi atingida pelo incêndio. A autópsia indicava que as pessoas haviam morrido há pelo menos um ano. Desconfiados de que algo sinistro estava acontecendo, as autoridades ugandenses começaram a fazer escavações no terreno da Igreja de Kanungu. Além das 40 pessoas que haviam sido assassinadas na noite em questão, valas clandestinas revelaram mais 18 corpos em diferentes estados de decomposição.

Chocada a população assistia as igrejas pertencentes ao Movimento serem revistadas. E de cada uma, surgiam informes de que cadáveres eram encontrados aos montes. No complexo de Buhunage foram achados 153 cadáveres, na fazenda pertencente ao líder do Culto Dominic Kataribaabo, que servia como local de encontro, mais 155 cadáveres foram desenterrados, além de 81 corpos na propriedade de um dos Apóstolos. Estes cadáveres pertenciam invariavelmente a ex-membros do Movimento que em algum momento haviam levantado questionamentos à respeito da filosofia, da doutrina ou dos rituais impostos pelo Culto. Eram, também pessoas que pediram a restituição de suas doações quando se desligaram da Igreja. Ao que tudo indica, os chefes do Movimento convidavam estas pessoas para uma reunião afim de acertar as contas e na ocasião os envenenavam ou drogavam. As vítimas haviam sido estranguladas enquanto agonizavam ou estavam inconscientes. Estes eram os membros "fracos", considerados como não totalmente preparados para demonstrar sua devoção ao Culto e que haviam sido considerados por eles como "traidores".

Ainda hoje, Uganda é o centro de centenas de movimentos religiosos, muitos deles apocalípticos e milenares. Isso não é surpreendente, já que Uganda experimentou um "apocalipse institucional" durante o regime sangrento de Idi Amin Dada e devido às atrocidades de uma Guerra Civil. Seguidores de movimentos apocalípticos em Uganda esperam que a Justiça chegue com o fim do mundo, não por meio da política. O país pobre e atrasado possui enormes problemas e enfrenta frequentes crises econômicas e sociais.

Após a tragédia de Kanungu, alguns governos africanos reagiram fortemente contra a presença de "cultos". O risco é que essa proibição se desenvolva numa caça às bruxas, levando as pessoas a assumir que os movimentos religiosos são todos violentos. Na África, como em outros lugares, as afirmações de que todos milenaristas e apocalípticos estão caminhando para o suicídio em massa são imprecisas. Ainda assim, as autoridades fazem bem em seguir certos indícios para evitar tragédias como a que se abateu sobre Uganda.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Suicídio em Massa - Os bizarros rituais secretos de uma estranha família


O texto a seguir contém elementos perturbadores que podem ser incômodos para algumas pessoas. Recomenda-se discrição ao ler.

Nos anais dos grandes crimes e mortes surpreendentes, alguns casos se destacam por serem especialmente estranhos, sinistros ou simplesmente bizarros além do comum. Esses incidentes em geral estão envoltos por circunstâncias inesperadas, pistas e evidências que não fazem sentido ou ainda elementos tão inesperados que deixam aqueles que tomam conhecimento dos fatos imaginando o que de fato aconteceu. Também passam a assombrar a existência daqueles incumbidos de investigar os acontecimentos e que buscam a verdade. 

Um caso particularmente bizarro que se encaixa na descrição acima ocorreu recentemente na India. Trata-se de um crime envolvendo morte em massa, repleto de detalhes macabros, rituais bizarros e pistas que não levam a lugar nenhum, a não ser presumir a existência de algum elemento sobrenatural. 

O caso envolve diretamente a família Chundawat, da cidade de Burani, India. A Família consistia da matriarca Narayan Devi, de 77 anos, seus filhos Bhavnesh Bhatia (50) e Lalit Bhatia (45), suas respectivas esposas Savita (48) e Tina (42), uma filha Pratibha (57) e cinco netos e netas, Priyanka (33), Neetu (25), Monu (23), e Dhruv e Shivam (15). Para todos os efeitos, os Chundawat eram uma família absolutamente normal de classe média. Eles residiam no bairro de Burari Sant Nagar, uma vizinhança tranquila e agradável de Burani e tiravam seu sustento de um negócio de móveis e uma pequena venda. Embora eles tivessem experimentado a perda recente do patriarca da Família Bhopal Singh, não havia nada indicando uma nuvem negra pairando sobre o clã.


Em primeiro de julho de 2018, o comércio que administravam, localizado no primeiro andar da grande casa que servia como lar para a família não abriu as suas portas no horário normal, o que era muito estranho. Por anos, o negócio funcionou como um relógio, abrindo e fechando no horário estipulado, contudo, naquele dia a loja permanecia com as portas fechadas, o interior escuro e nenhum ruído vindo do interior. Vizinhos que conheciam a família estranharam e começaram a se perguntar o que poderia ter acontecido. Por volta das 10 horas da manhã, um vizinho chamado Gurcharan Singh decidiu entrar na loja e ver o que estava acontecendo. Ele descobriria que de fato algo muito, muito errado havia acontecido.

Subindo até a casa, Singh encontrou uma cena simplesmente aterradora. Os corpos de 10 membros da família Chundawat estavam pendurados em um aposento, balançando sem vida em cordas presas ao pescoço. A boca e os olhos de cada um deles haviam sido vendadas. A polícia foi chamada imediatamente e com a chegada dela o local foi isolado para que se buscasse pistas do que parecia ser uma chacina sem precedentes em Burani. Mas a medida que os policiais analisavam a tétrica cena de crime, detalhes perturbadores vinham à tona. O detetive responsável pelo caso, Rajeev Tomar, relatou o seguinte sobre o que encontrou na Casa dos Horrores:

"Em minha carreira de mais de 17 anos na polícia eu já me deparei com coisas estranhas, mas nunca nada sequer parecido com aquela cena de crime. E eu espero jamais ver algo parecido. Era chocante! Quando entrei na casa, tive uma sensação sufocante e precisei sair de lá 15 segundos depois para evitar desmaiar. Após me controlar, consegui voltar gradualmente e examinar o aposento onde os corpos estavam. Eram muitos... pendendo do teto como galhos de uma mesma árvore. As mãos amarradas nas costas, olhos e bocas amordaçadas. Foi assustador, não apenas pelas circunstâncias, mas por algo mais... era como se a casa estivesse impregnada por algo desagradável e maligno". 

Um total de 11 cadáveres foram encontrados na casa, todos pertencentes a membros da Família Chundawat. Cada um deles havia sido enforcado, com uma corda resistente amarrada em uma trave de madeira no teto do aposento. Eles foram distribuídos em uma espécie de formação circular, sendo que o corpo da matriarca Narayan Devi foi achado em outro quarto, morta por estrangulamento manual, não enforcada como os demais. Em uma gaveta trancada a polícia encontrou oito telefones celulares pertencentes a membros da família. As baterias dos aparelhos foram removidas e a tela de cada um deles quebrada. Em outra gaveta encontraram bolsas, carteiras e bens pessoais, como alianças, relógios e jóias. Havia o equivalente a 230 dólares em moeda local.


As vendas e mordaças que cobriam respectivamente olhos e bocas foram improvisadas com tiras de uma mesma roupa de cama, como se concluiu posteriormente. Além disso, tiras de outro lençol foram usadas para atar as mãos das vítimas nas costas. Curiosamente chumaços de algodão foram inseridos no nariz e no ouvido de cada indivíduo. Não encontraram sinal de luta na casa e exceto pelo estrangulamento nenhum corpo apresentava sinal de violência. As autópsias mostraram que a causa de cada morte foi enforcamento por ligadura condizente com corda. Os peritos não encontraram ferimentos defensivos, nenhum traço de drogas ou veneno na corrente sanguínea. Tudo apontava para um elaborado e bem planejado suicídio coletivo. 

Haviam outras estranhas pistas, como banquinhos virados no aposento onde as pessoas morreram, sugerindo que eles teriam sido usados para auxiliar no suicídio. Mas ao mesmo tempo alguns elementos sugeriam discrepâncias da presunção original. Primeiro: quem teria vendado e amordaçado os membros da família e como teria conseguido fazer o mesmo depois para também cometer o suicídio? Além disso, três dos 10 corpos que pendiam no teto tinham o pé arrastando no chão, o que evidenciava que teriam caído de uma altura insuficiente para partir o pescoço e que teriam de receber ajuda para se enforcar, possivelmente com alguém forçando os corpos para baixo. Finalmente, quem teria matado a matriarca por estrangulamento manual?

Sem nenhum membro sobrevivente na família para contar a história, não haviam testemunhas para os eventos. De fato, apenas o cão da família havia sobrevivido. O animal foi amarrado no terraço e preservado dos acontecimentos dramáticos envolvendo seus donos. Os Chundawat não tinham empregados ou funcionários que vivessem na casa e nenhum amigo próximo os visitou na véspera do suicídio. 

O caso permanecia como um mistério insondável, e a medida que a polícia tentava compreender a cronologia dos eventos, novas pistas ainda mais enigmáticas foram surgindo. Entrevistas conduzidas com vizinhos apuraram que nos dias que antecederam a tragédia, um dos membros da família Lalit Bhatia vinha apresentando um comportamento atípico. Descrito como um sujeito jovial e animado, ele parecia inquieto e irritado. Uma testemunha disse ter visto Lalit andando pela vizinhança aos prantos na noite anterior à sua morte, mas ele não quis revelar o que o afligia. 


Outra pessoa afirmou ter encontrado o homem em um templo, dois dias antes de sua morte. Na ocasião, Lalit parecia transtornado e revelou que estava experimentado sonhos recorrentes em que falava com o falecido pai. Ele teria comentado que outros membros do clã também estavam tendo sonhos semelhantes. No fim, deu a entender que temia que o pai estivesse querendo assumir o controle de seu corpo. Tudo aquilo era muito estranho, e as autoridades começaram a presumir que aquela narrativa poderia de alguma maneira ter causado a tragédia. No quarto usado por Lalit e sua esposa, os detetives encontraram uma prateleira oculta onde estavam guardados 22 livros de notas e diários cujo conteúdo se mostrava ainda mais perturbador.

Os cadernos eram um apanhado de anotações desconexas de um período de 11 anos, feitos numa caligrafia reconhecida como pertencente a Lalit. Boa parte das informações eram mundanas, mas outras chamavam a atenção pelo caráter perturbador. Muitas das anotações eram uma espécie de desabafo a respeito de coisas que aconteciam dentro da família e que passavam desapercebidas para quem os conhecia. Os membros do clã pareciam cobrar uns dos outros uma espécie de conduta moral estrita. Tinham de se sujeitar a trabalhar e dormir nos horários definidos, só podiam comer e beber alguns alimentos, deviam restringir determinados assuntos, tinham de rezar e jejuar frequentemente... além disso, Lalit descrevia alguns estranhos rituais que envolviam flagelação e auto-punição pelas menores transgressões. Em determinado momento ele descreve que apenas pensar em alguma conduta era passível de punição. 

Aqueles que se desviavam desse severo código eram punidos pelos demais membros da família que se reuniam para essa atividade. Cada um era chamado para o centro de um círculo onde tinha de confessar suas falhas naquela semana. Cabia aos demais então estabelecer as punições que podiam ser meras advertências, até a realização de tarefas humilhantes ou então severos castigos físicos. Lalit descreve que um chicote curto de equitação, feito de couro, era usado para essas punições. Quando uma criança confessava ter sentido vontade de brincar fora do horário ou um adulto reconhecia sua fraqueza por doces, podia receber entre uma e vinte chibatadas. Lalit descreve vários desses acontecimentos, dando a entender que a família aceitava essas medidas como algo natural do dia a dia. 


O patriarca, segundo Lalit, era quem tinha a decisão final e quem levava às punições à cargo. Foi ele quem ordenou que a boca de sua nora fosse colada com fita, que um filho recebesse vinte chibatadas por ter tirado dinheiro do caixa da venda e que um adolescente recebesse uma queimadura com soda cáustica na mão após ter confessado se masturbar. Bhopal Chundawat controlava a família com mão de ferro e era respeitado na mesma medida que temido. Ele chegou a mandar que um filho batesse no rosto da mãe até arrancar dela sangue, apenas pela mulher ter assistido televisão demais.

As anotações relatavam um clima de constante medo e crescente paranoia. Os membros da célula familiar começaram a denunciar condutas erradas uns dos outros como forma de receber elogios. O próprio Lalit reconhece ter apontado sua filha depois dela ter falhado em uma tarefa doméstica. A menina recebeu cinco chibatadas e ele as refeições que a menina teria direito. 

Nas perturbadoras anotações, Lalit revela outro detalhe bizarro. Ele afirma que o pai havia invocado quatro espíritos guardiões para habitar a casa da família. Estes tinham a função de observar como testemunhas invisíveis tudo que acontecia na morada e relatar os acontecimentos para o patriarca, de modo que nada escaparia à sua atenção. Os espíritos se manifestavam para Bhopal e em raras ocasiões para outros membros do clã, sempre dispostos a revelar alguma falha cometida. Aqueles que eram flagrados podiam diminuir sua punição confessando previamente o que haviam feito de errado. Lalit envergonhado escrevia no diário que não apenas temia esses espíritos, como havia visto um deles, um homem de barba cerrada e olhar severo o observando certa vez... ele acabou confessando uma falha por temer que o espírito contasse ao seu pai o que ele havia feito.  

Bhopal também se referia frequentemente a algo chamado Mokha como uma forma de ameaçar a família e cobrar deles melhorias. O Mokha, cuja tradução mais próxima seria "dia da punição" é uma espécie de ritual religioso raramente empregado por monges, que visa trazer a purificação do corpo e do espírito. Através de sua realização, a pessoa comete um suicídio ritualístico no qual seus pecados e faltas são sublimados no momento da morte. Segundo as anotações de Lalit, Bhopal dizia que se a família se comportasse de modo inadequado, eventualmente a única solução seria invocar o Mokha.


Eventualmente, quando o patriarca morreu de causas naturais, a família se viu perdida, sem saber como deveria se comportar dali em diante. Coube à Matriarca assumir as rédeas da estranha unidade familiar e dar prosseguimento aos seus estranhos costumes. Uma das primeiras medidas de Narayan Devi foi encomendar um ritual de agradecimento da família para Bhopal Singh e por tudo que ele havia feito, já que os negócios prosperavam. O ritual chamado badh tapasya, também era, de acordo com Lalit, uma forma de liberar os espíritos que habitavam a casa. 

Tudo muito sinistro e perturbador, mas é claro, havia espaço para se tornar ainda pior...

Após o ritual, Narayan afirmou que os espíritos haviam sido liberados, mas que o fantasma de seu falecido marido passaria a ficar entre eles, sempre alerta para ver o que os membros da família estavam fazendo e como estavam agindo. A mulher revelou que o espírito de tempos em tempos iria possuir seu corpo, ou o corpo de seus filhos, para falar e agir através deles quando fosse de sua vontade. Na ocasião, segundo Lalit, a mãe falou com a voz de Bhopal, causando uma reação emocional nos demais membros da família. 

Um grupo de policiais se revezava na tarefa de ler os diários e descobrir o que vinha acontecendo. A medida que mergulhavam naquela narrativa truncada, alguns pediram afastamento da função tamanho o incômodo que sentiam ao ler a respeito daquilo. Um deles teria pedido até demissão.

A medida que se aproximavam do derradeiro caderno de notas, Lalit mencionava outro ritual chamado havan que deveria ser realizado para firmar um comprometimento entre os membros da família. O havan envolvia a queima de oferendas em um fogo sagrado. Um psicólogo incumbido de ler o material detectou que Lalit sofria de uma profunda instabilidade mental que parecia se agravar, tornando-se uma animosidade a medida que ele narrava os acontecimentos. Em mais de uma ocasião ele se perguntava se não havia passado do momento de tomar as rédeas da situação e colocar um fim naquela loucura. 


Uma anotação pertinente escrita por Lalit afirma que ele havia planejado eliminar a família inteira. Usando para isso o Mokha, no qual cada membro seria morto por enforcamento. Ele chegava a descrever como deveriam ser feitos os nós, como os corpos seriam pendurados e dispostos.

Então, isso significava que Lalit estava por trás das mortes? É difícil dizer já que ele também foi encontrado pendendo como os demais. Ele não parece ter agido diretamente para provocar as mortes, mas seu papel pode ter sido o de incentivar a realização do Mokha, convencendo os demais de sua necessidade. Um video de uma loja mostra o irmão e a cunhada de Lalit comprando cordas que seriam usadas para o enforcamento, bem como incenso e outros objetos que seriam usados no ritual de havan. Na véspera do suicídio, a família fez vários pedidos de entrega de comida e se reuniu para o que pode ser interpretado como uma última refeição.

Uma das anotações finais no diário sugere que Lalit teria convencido os outros membros da família a realizar o Mokha, permitindo que Bhopal falasse através dele. O patriarca teria dito que a única solução para libertar toda a família, seria através da morte.

"Todos terão de ser amarrados para evitar arrependimento. Mãos nas costas. Olhos e bocas tampadas para impedir que voltem atrás" escreveu ele. Mais adiante afirma que alguns acreditavam que o ritual não chegaria ao fim e que Bhopal apareceria para liberá-los no último instante, mas que para isso acontecer, eles deveriam levar até as últimas consequências sua intensão.   

Extensivas investigações e entrevistas com parentes distantes, amigos e vizinhos pintaram um curioso perfil psicológico da família Chundawat. Em momento algum as pessoas suspeitavam de seus alegados costumes, mesmo os mais próximos sequer desconfiavam do que acontecia entre eles. Muitas pessoas se mostraram espantadas com o conteúdo do diário de Lalit, a ponto de supor que aquilo tudo poderia ser uma farsa. Afirmavam que a Família tinha planos para eventos futuros o que claramente contradizia qualquer noção de suicídio planejado. Priyanka estava noiva e deveria se casar dali a quatro semanas, e a família estava planejando o evento em detalhes. Eles haviam pego um empréstimo bancário e contratado uma firma para fazer melhorias nas lojas. Tudo isso parecia um comportamento estranho para uma família que realizava rituais secretos e contemplava se matar.


Em face de tudo isso, muitas pessoas acreditavam que o ritual poderia ter sido usado para acobertar um plano de assassinato levado à cargo por Lalit. Os psicólogos contratados para analisar o caso sustentam que a família parecia compartilhar de alguma modalidade aguda de desordem psicótica. Se não todos, Lalit com certeza sofria de paranoia. No entanto outros afirmavam que a família nada tinha de estranha e que a ideia deles participarem de rituais era absurda. De fato, muitos dos ferimentos descritos por Lalit em seu diário, não foram achados nos cadáveres e marcas de antigos macucados deveriam ter sido deixadas pelas "punições" ao longo de anos. 

Muitos sustentam o ceticismo diante dos acontecimentos e insistem que o que transcorreu na casa teria sido um assassinato, tendo como arquiteto ninguém menos que o próprio Lalit. Afirmam ainda que os diários seriam anotações alucinantes e delírios de alguém perturbado que imaginava aquelas situações em face do seu estado mental. Levado às raias da loucura por uma realidade - presente apenas em sua mente fraturada, ele teria sido o responsável por aquele horror. E depois, o perpetuador simplesmente teria tirado sua própria vida.

Os testemunhos, a palavra de vizinhos, as filmagens e especialmente os macabros diários deixados por um dos membros da família apontam para um sinistro ritual de suicídio, mas quem pode saber ao certo o que aconteceu naquela fatídica noite?

O caso permanece aberto e ainda levanta acalorados debates na India. Para alguns, a família teria mergulhado em uma histeria fatal, para outros, um de seus membros seria o responsável pela tragédia e outros ainda, creem em explicações mais esotéricas para o incidente. Teriam essas pessoas sucumbido a uma loucura coletiva que daria vazão ao que foi escrito ao longo de 11 anos em diários? Ou estes não seriam nada além da narrativa demente de uma mente perturbada? Quem teria organizado o ritual? Quem teria estrangulado a matriarca? Quem teria forçado a morte dos que ficaram pendurados? Quem, quem, quem?

A verdade só poderia ser contada por aqueles que estiveram naquela morada, naquela noite macabra, mas estes não são mais capazes de falar. Seja lá o que tenha acontecido, talvez seja até melhor nunca sabermos...