quarta-feira, 22 de abril de 2026

Japão Sinistro - Três Objetos Macabros e Malditos da Terra do Sol Nascente


É inquestionável que o Japão é uma terra ancestral repleta de lendas e folclore. 

Mais do que isso, é um lugar permeado pelo sobrenatural com uma infinidade de lendas sobre fantasmas, espíritos, assombrações e vários tipos de demônios. Dentre todas essas histórias, encontramos muitos contos envolvendo objetos amaldiçoados, que abrigam poderes sombrios além da nossa compreensão. 

O Japão tem muitas lendas e aqui veremos alguns dos objetos mais estranhos da Terra do Sol Nascente. Veremos peças raras, objetos estranhos e coisas amaldiçoadas, assombradas ou ambos.

AS MALIGNAS CAIXAS KOTORIBAKO


Começamos com a sinistra lenda de um objeto amaldiçoado que à primeira vista parece ser algo básico e inofensivo. Mas nada pode estar mais longe da verdade. Estas simples caixas de madeira, supostamente foram imbuídas com magia negra do pior tipo. Chamadas de kotoribako esses objetos se apresentam como pequenas caixas de madeira, geralmente adornadas com entalhes, desenhos incrustados e símbolos arcanos em suas tampas. Elas medem algo entre 20 a 30 centímetros de comprimento e pesam algumas poucas gramas.

Como uma caixa pode ser tão perigosa é o que veremos a seguir...

Segundo a lenda, a caixa é difícil de abrir, tendo uma tranca complexa bastante intrincada. Como ocorre com essas caixas, obviamente há um truque que permite a ela abrir facilmente quando desvendado. Pode parecer algo mundano até aqui, mas, uma vez aberta, a caixa supostamente libera uma poderosa maldição sobre suas vítimas desavisadas. A kotoribako é geralmente criada para atingir um inimigo específico contra quem seu criador nutre rancor. Um símbolo representando a pessoa que se deseja atingir é colocado na tampa. A caixa é simplesmente deixada próxima do alvo para que ele a encontre e uma vez aberta, libera sua devastadora magia. 

Os efeitos da maldição da kotoribako se manifestam imediatamente, com a vítima experimentando um surto de tontura, náusea e desconforto. Esses sintomas progridem rapidamente e a vítima então passa a vomitar sangue e sentir seu corpo perder vitalidade a medida que órgãos internos se rompem ou até mesmo se liquefazem. Se a caixa permanecer nas proximidades do alvo, a pessoa morrerá de forma agonizante em até 24 horas após a exposição. 

Costuma-se dizer que as kotoribako têm um número determinado de cargas, ou seja, de vezes que podem ser usadas, e que a cada uso subsequente seus poderes diminuem até se tornar uma caixa de madeira inerte e comum, que geralmente é levada a um santuário para passar por um ritual de purificação, garantindo que esteja livre de toda sua energia negativa. 

Em algumas versões da história, a caixa mantém seus poderes sombrios e é passada de geração em geração, com a família ou santuário que a detém realizando rituais elaborados e seguindo protocolos de armazenamento para contê-la. Ou seja: ela jamais deixa de ser um perigo e seu mal, quando muito, pode ser atenuado.

As origens das caixas kotoribako remontam à era Meiji do Japão (um período compreendendo entre 1869 e 1912). Segundo a lenda elas surgiram depois que um grupo de dissidentes deixou a Província de Shimane para escapar da perseguição do governo. Conta-se que um dia um misterioso estranho chegou à vila em busca de abrigo, fugindo ele próprio de uma revolta nas ilhas Oki. O homem era um feiticeiro e desejava se vingar dos seus inimigos. Em troca de proteção, o feiticeiro ensinou aos moradores de um vilarejo como criar esse poderoso objeto amaldiçoado. Eles então começaram a confeccionar o que viriam a ser conhecidas como as primeiras caixas kotoribako.

A construção da caixa não é nada agradável e inclui rituais bizarros. 

Uma vez confeccionada de forma convencional com madeira nobre, a caixa é preenchida com o sangue coletado de uma jovem virgem. Ela é deixada em repouso por uma semana de preferência exposta à luz da Lua cheia. Depois disso, é necessário que sejam feitos sacrifícios humanos, geralmente de crianças recém-nascidas, sendo o número de sacrifícios dependente do alvo pretendido e da potência desejada. Segundo a tradição um kotoribako exige de um a oito sacrifícios humanos. A caixa recebe símbolos arcanos especiais e é submetida a diferentes rituais para completar o processo de criação. 

Segundo a lenda, os aldeões que receberam o segredo logo perceberam o quão perigosas essas caixas podiam ser e juraram não criar outras, mas isso aparentemente não impediu que algumas pessoas inescrupulosas repassassem secretamente os segredos para a criação do kotoribako, sempre zelosamente guardados.

Não há um consenso à respeito de quantas caixas kotoribako foram criadas ao longo dos anos, nem quantos ainda existem, mas há relatos de santuários e famílias que afirmam possuir algumas, às quais são mantidas em segredo e longe dos olhos do público.

O último registro histórico de uma kotoribako data de 1910, quando uma caixa foi oferecida a um chefe militar com o objetivo de matá-lo. Ele descobriu a natureza da caixa e não a abriu... posteriormente ela foi doada ao Museu Histórico e de Arte da cidade de Osaka. E não, ela jamais foi aberta. 

A PINTURA DE HIKARU SAN


Um tipo de objeto amaldiçoado paranormal são as pinturas assombradas que se espalharam ao redor do mundo e que encontraram seu caminho até o Japão. O país abriga ao menos uma dessas pinturas que é bastante conhecida e temida. Em 1970, essa tela foi pendurada na Universidade de Matsuyama, na província de Ehime

À primeira vista ela parece bastante normal, embora um pouco sinistra. Intitulada Shojo ou "Garota", ela também é conhecida como a "Pintura de Hikaru San", devido à assinatura de "Hikaru Sato" no verso. Trata-se de uma tela a óleo que retrata uma jovem de longos cabelos negros, vestindo uma blusa amarela, sentada em uma cadeira e olhando para um ponto ligeiramente à direita do observador. Não é uma pintura particularmente bem executada e de fato, parece bem convencional. No entanto, essa pintura tornou-se infame como uma das mais amaldiçoadas telas do mundo.

Segundo os rumores, assim que a pintura foi exposta se iniciaram os estranhos relatos sobre ela. Um dos primeiros rumores foi que os olhos da mulher retratada seguiam os observadores, ou que sua expressão facial e a postura mudava sutilmente. Parece algo inofensivo, mas não demorou muito para que surgissem rumores de que pessoas que examinavam a pintura com atenção, posteriormente relatavam incidentes inexplicáveis. Ela seria a causadora de muitos infortúnios: doenças, acidentes e até mesmo mortes. Diziam ainda que se alguém tocasse a pintura, perderia o membro. Histórias espetaculares contam que a garota na pintura às vezes saía da tela para andar por aí à noite, e persistia um conto de como alguns estudantes universitários assustados tentaram destruir a tela com fogo, apenas para encontrar a pintura milagrosamente restaurada no mesmo lugar na manhã seguinte. 

Mas o pior, sem dúvida, eram os acidentes horríveis e bizarros. Supostamente pessoas morreram atropeladas, afogadas, sufocadas, caíam de sacadas ou foram alvejadas em acidentes bizarros. Uma pessoa teria morrido ao ser sugada pela hélice de um barco, outra foi picada por abelhas até a morte e uma terceira sofreu um ferimento mortal decorrente de um disparo de arpão que estava sendo limpo. Os estranhos incidentes estavam relacionados a alguém ligado à pintura.  

A obra assustou as pessoas por quase uma década antes de ser removida e trancafiada em um depósito na universidade. Depois disso, a atividade paranormal alegadamente cessou.

Há muito debate sobre as origens da pintura e por que ela pode ser considerada amaldiçoada, assombrada ou ambas as coisas. Não se sabe se "Hikaru" é o nome da mulher retratada ou do pintor, já que esse nome pode ser usado tanto para homens quanto para mulheres no Japão. Aparentemente não há registros da universidade sobre como a obra foi adquirida ou quando. A história mais popular é que a jovem retratada era a parceira romântica do pintor e que ela morreu pouco depois de concluído o quadro. Nessa versão, seu espírito teria sido transferido para a pintura, onde continuaria a guardar rancor por ter sido aprisionada ali. Outra versão da história conta que a retratada foi acidentalmente presa no porão da universidade, onde morreu. Sua alma se transferiu para o retrato carregando uma maldição vingativa conhecida como ju-on no japão. 

De tempos em tempos vem a superfície histórias sobre esse quadro maldito e ele continua atraindo a atenção.

RIKKA CHAN e OUTRAS BONECAS DIABÓLICAS


Outro objeto amaldiçoado e aparentemente malévolo tem suas origens na década de 1960 e se apresenta na forma de um brinquedo infantil. Uma linha de brinquedos popular entre meninas no Japão, até os dias atuais, é a das bonecas "Rikka Chan". Basicamente, são bonecas de plástico que vêm com várias roupas e acessórios, e são mais ou menos uma versão japonesa das bonecas Barbie do Ocidente. A história conta que, em 1967, o fabricante das bonecas criou acidentalmente algumas bonecas com o defeito de terem três pernas em vez das duas padrão, e que essas bonecas Rikka Chan de três pernas foram, por algum motivo, amaldiçoadas.

Ao longo dos anos, surgiram muitas versões sobre o que poderia acontecer ao encontrar uma boneca Rikka Chan de três pernas. A boneca geralmente se comporta como a maioria das bonecas assombradas, mudando de posição, desaparecendo e reaparecendo em diferentes partes da casa ou andando pela casa à noite. De forma ainda mais sinistra, diz-se que as bonecas amaldiçoadas sussurram coisas assustadoras para seus donos, como "Eu sou Rikka Chan e sou amaldiçoada", além de causar pesadelos vívidos e horríveis. A verdadeira maldição se manifesta se alguém tentar jogar fora ou se desfazer da boneca maldita. Se ela for retirada da casa ou deixada em algum lugar, retornará, às vezes até telefonando para o dono para anunciar que está voltando, após o que apresentará um comportamento mais violento ou o dono se envolverá em um infeliz "acidente". 

Se alguém tentar destruir a boneca, isso eventualmente resulta numa morte horrível. Aparentemente, o único recurso é tentar conter a boneca maligna levando-a a um santuário para um ritual de purificação, mas dizem que nem sempre este funciona. Não se sabe quantas bonecas Rikka Chan de três pernas ainda existem por aí, ou mesmo se elas realmente existiram, mas tornou-se uma lenda urbana persistente no Japão.

Ainda falando de bonecas amaldiçoadas, temos o bizarro e enigmático ritual japonês chamado Ushi no Koku Mairi, que se traduz aproximadamente como "Uma visita ao santuário na hora da raposa", geralmente entre 1 e 3 da manhã, uma espécie de "hora das bruxas" no Japão. O ritual em si é aparentemente praticado desde tempos imemoriais e envolve o uso de um tipo de boneca amaldiçoada feita de palha trançada, chamada waraningyo, usada para atingir inimigos ou desafetos. Esta boneca representa a pessoa a quem se deseja causar infortúnio ou mesmo a morte. Ela deve ser feita pelas próprias mãos da pessoa que deseja causar o mal.

Semelhante a uma típica boneca vodu, a waraningyo leva em seu interior algum objeto pessoal da pessoa a ser amaldiçoada, como cabelo, pele, sangue ou lascas de unhas, embora uma fotografia também seja considerada eficaz. O criador da boneca deve então vestir um traje tradicional específico, composto por um quimono branco, um espelho no peito, um chapéu chato, três velas acesas nas pernas e um pente de madeira preso entre os dentes. A boneca é levada a uma das árvores encontradas em santuários xintoístas, chamadas shinboku, e pregada a ela com longas estacas de ferro conhecidas como gosunkugi. Algumas dessas árvores sagradas em santuários famosos são cobertas com inúmeras cicatrizes de séculos de pregos cravados nelas por aqueles que executavam a maldição.

Durante todo o processo, existem certas regras que precisam ser obedecidas. A mais importante é que ninguém deve ser visto ou ouvido realizando o ritual sombrio, pois diz-se que isso fará com que a maldição sinistra retorne diretamente para quem a lançou, a menos que a testemunha seja morta. Isso é tão essencial e sério que se diz que, antigamente, aqueles que realizavam o ritual costumavam carregar uma faca ou espada consigo com o propósito de matar qualquer um que porventura se deparasse com seu ato macabro. O ritual também só pode ser realizado na hora da raposa, e há uma ordem específica para martelar os pregos na boneca, com o prego na cabeça por último. Embora existam inúmeras variações do ritual, esses detalhes são, em sua maioria, consistentes.

O suposto procedimento também varia. Dependendo da tradição local, a maldição pode ser realizada de uma só vez ou deve ser feita ao longo de várias noites, e os efeitos podem variar muito. Algumas tradições afirmam que essa maldição fará com que a pessoa adoeça gradualmente e morra de alguma doença, que ela terá azar ou que simplesmente cairá morta quando o último prego for cravado na cabeça de sua efígie. Outros dizem que o alvo será assombrado por um espírito vingativo, um demônio ou até mesmo um deus, ou kami. O ritual Ushi no Koku Mairi é levado bastante a sério no Japão e, independentemente de funcionar de fato ou ser apenas uma lenda urbana, aparentemente ainda existem leis para punir e processar qualquer pessoa flagrada tentando realizá-lo.

É incrível como tradição e folclore se fundem para criar estranhos e incomuns costumes. Mas estes são apenas alguns do Japão Sinistro, na sequência deste artigo, veremos outros.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Caixa Preta do Planeta Terra - O Monolito do Fim da Humanidade


Não há dúvidas de que nossa civilização ocupa apenas uma fração insignificante do tempo geológico da Terra. Estamos aqui faz muito pouco tempo. De fato na contagem do tempo geológico de nosso planeta, é como se a humanidade tivesse acabado de surgir. Além de jovem, somos incrivelmente frágeis. Toda nossa existência se equilibra em bases instáveis, e muitos fatores podem decretar nossa extinção.

Assim como aconteceu com os dinossauros que um dia governaram o planeta, podemos ser vitimas do apocalíptico choque de um meteoro. Podemos ser varridos da face da existência por um vírus mortal, pela incidência de devastadores tremores sísmicos, massivas erupções vulcânicas ou ainda pelo início de uma nova Era do Gelo. A humanidade é uma forma de vida frágil e embora sejamos capazes de nos adaptar e triunfar ante as adversidades, há inúmeros fatores que poderiam decretar nosso inevitável fim. 

Para piorar, como espécie, provamos ser extremamente autodestrutivos: travamos guerras e causamos atrocidades, consumimos  nossos recursos de forma desenfreada e somos um fator relevante na deterioração do meio ambiente do planeta. Observando a situação atual e as incontáveis variáveis as quais estamos submetidos, não é difícil imaginar que nosso domínio sobre a Terra será transitório. Parece inevitável a chegada de um dia em que tudo irá desmoronar: cidades outrora grandiosas ficarão em ruínas ou submersas pelo mar, populações inteiras irão desaparecer e tudo o que restar serão apenas alguns focos isolados de humanidade, ou talvez, absolutamente ninguém, apenas uma vasta paisagem de ruínas reverberando com os ecos do passado. 

Chegará o dia em que tudo ao nosso redor terá desaparecido, sem que ninguém sobreviva para relatar o que aconteceu.


Pensando nisso, uma equipe de cientistas desenvolveu um plano para salvaguardar a trajetória da humanidade para a posteridade. Seu ambicioso projeto visa manter um registro para que, quem quer que nos encontre num futuro distante, possa saber quem fomos e o que aconteceu conosco. Com esse intuito uma equipe internacional projetou uma vasta estrutura de aço chamada "Caixa-Preta do Planeta Terra".

A Caixa-Preta é um projeto liderado pela agência de marketing Clemenger, em colaboração com a agência criativa The Glue Society e cientistas da Universidade da Tasmânia. Seu plano é construir um simulacro indestrutível que funcionará essencialmente como a caixa-preta de um avião e fornecerá, segundo eles, um "relato imparcial dos eventos que levaram à destruição do planeta" para qualquer um que ainda estiver vivo  u que chegue até aqui e queira saber quem veio antes. 

A equipe pretende documentar e registrar as inúmeras calamidades que enfrentamos, incluindo mudanças climáticas, extinção de espécies, poluição ambiental, guerras e outros eventos catastróficos, por meio da preservação de um registro meticuloso e constante atualização das informações. O projeto utilizará algoritmos projetados para vasculhar a internet em busca de tweets, posts, notícias e manchetes, publicações em redes sociais e todas as outras fontes de informação possíveis que possam registrar nossa jornada, do início até o amargo fim.


A estrutura em si será um monólito de aço de 9,75 metros de comprimento, aproximadamente do tamanho de um ônibus, revestido com aço temperado de 7,6 centímetros de espessura e equipado com painéis solares e baterias de reserva para alimentar o conjunto de discos rígidos em seu interior. Ela será resistente a explosões atômicas, abalos sísmicos, tsunamis e outros problemas.

Sua localização será em algum lugar em uma planície granítica geologicamente estável na costa oeste da Tasmânia, a cerca de 4 horas de Hobart, onde acredita-se que estará a salvo da maioria dos cataclismos e poderá permanecer relativamente intacta no fim dos tempos. Tudo isso visa fornecer informações cruciais e um registro de como a Terra chegou ao seu fim para qualquer pessoa que possa se deparar com ela em um futuro distante, bem como responsabilizar aqueles que causaram o desastre e dar pistas sobre como qualquer sociedade futura poderá evitar os erros do passado. O site Earth’s Black Box afirma sobre o ambicioso projeto:

"A menos que transformemos drasticamente nosso modo de vida, as mudanças climáticas e outros perigos causados ​​pelo homem levarão nossa civilização ao colapso. A Caixa Preta da Terra registrará cada passo que dermos rumo a essa catástrofe. Centenas de conjuntos de dados, medições e interações relacionados à saúde do nosso planeta serão coletados continuamente e armazenados com segurança para as gerações futuras, a fim de fornecer um relato imparcial dos eventos que levam à destruição do planeta, responsabilizar as gerações futuras e inspirar ações urgentes. O desfecho dessa história depende inteiramente de nós."


O projeto ainda está em fase de planejamento, mas a previsão é de que seja concluído até 2028 e já se encontra na fase beta de testes, com gravações ambientais em tempo real. Embora pareça um plano intrigante, a equipe por trás do projeto tem enfrentado alguns obstáculos. Por exemplo, os discos rígidos têm uma capacidade de armazenamento limitada, suficiente para apenas 30 a 50 anos de gravações contínuas antes de se esgotarem. Por isso, a equipe está buscando uma maneira de aumentar essa capacidade. Outro problema é a manutenção dos painéis solares e dos discos rígidos, especialmente se entrarmos numa era em que o fim da civilização tenha chegado e ninguém esteja por perto para fazer isso ou esteja ocupado demais tentando sobreviver num novo mundo extremo e inóspito. 

Outra questão fundamental é como fazer com que a pessoa que encontre a Caixa Preta tenha o conhecimento para acessar os dados armazenados nela. Como descendentes primitivos catapultados para uma nova pré-história poderiam acessar os terminais ou ainda, como exploradores das estrelas fariam para compreender as informações ali contidas? Um dos planos é ter os discos traduzidos em várias línguas e dialetos ou ainda, se valer de informações visuais ou auditivas que não necessitem do domínio de línguas.

É claro, o projeto foi criticado como nada além de uma jogada de marketing, mas seus criadores insistem em levar tudo muito a sério. Em um comunicado no lançamento do projeto eles defenderam que a "Caixa-Preta" pode ser o último legado da humanidade, capaz de sobreviver a todos nós. 

É assustador imaginar que um dia, num futuro distante, os últimos remanescentes da humanidade, ou mesmo alienígenas, cheguem a este mundo desolado e sem vida e, vasculhando a poeira e as ruínas do que um dia foi, descubram este monumento contando sobre nossa destruição. Quem quer que o encontrasse seria capaz de decifrar o que há dentro dele, ou nossos últimos dias e o fim de tudo o que conquistamos como espécie permaneceriam para sempre esquecidos pelo universo, relegados ao esquecimento como se nunca tivéssemos existido? 


Haveria alguém para encontrá-lo, daqui ou de algum outro lugar além do nosso mundo? Ou esta pequena rocha gira sozinha através de um universo absolutamente indiferente? Será que esse monólito negro ficará esquecido pela eternidade? Há uma triste certeza niilista... nosso mundo não é eterno, nosso sol é finito e a raça humana está fadada a sumir um dia, a não ser que consigamos nos espalhar pelo cosmos através das estrelas.   

Seja como for, se não conseguirmos essa façanha, ao menos teremos o consolo deste monumento para contar quem um dia fomos e o que fizemos. Para o bem ou para o mal... 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Explorando os Mythos mais obscuros - Iod, o Caçador Luminoso

Em um vasto universo de possibilidades, não é de se estranhar que alguns seres cósmicos sejam inteiramente alienígenas e fundamentalmente estranhos a nossa natureza particular. Entretanto, existem entidades cuja matéria que as constitui parece ser derivada de elementos naturais. Ainda que, de alguma forma, amalgamados num mesmo ser numa forma que a natureza não conseguiria combinar em nosso mundo. 

Tomemos por exemplo a entidade conhecida como Iod, que possui diferentes títulos, sendo reconhecido em sua galáxia como "A Fonte" pois acreditava-se ser ele a fonte da vida. Já nas remotas Atlântida Mu, ele era chamado de "o Perseguidor Dimensional" uma vez que atravessava planos e dimensões em busca de presas que pudesse arrastar para seu lugar de origem. 

A origem de Iod permanece desconhecida, imersa em contradições e suposições que não podem ser validadas. Nem teóricos conceituados como Ludvig Prinn que se referiu a ele em seu famoso tratado esotérico, o Vermiis Mysteriis, foi capaz de definir essa entidade. Em seu compêndio, o mago flamenco cita Iod pelo ameaçador epíteto de "O Caçador Luminoso" e vai além, destacando que "a alma humana, atrai esse Deus ancestral, pois é seu prazer monstruoso caçar as almas, como um cão perdigueiro persegue e devora um coelho assustado". É provável que a menção a "alma" seja uma corruptela e que Prinn esteja se referindo a "animus", a energia vital, que é uma fonte de sustento para essa entidade.

Seja como for, os povos gregos e etruscos tiveram contato com Iod e se referiam a ele como Trophonius e Vediovis, respectivamente, seus Deuses das Profundezas. Como tal, essas divindades extraíam grande satisfação ao consumir a essência da humanidade e deixar apenas uma casca vazia após drenar o "animus" de suas vítimas. Há rumores de que feiticeiros gregos conduziam rituais para invocar Trophonius e através de sacrifícios obter seu favor. Em contrapartida ele compartilhava com os mortais seu vasto conhecimento místico. Um culto devotado a Iod, tratado como Trophonius, surgiu em Creta no século terceiro antes de Cristo e permaneceu atuante por alguns séculos, tendo eventualmente desaparecido. 

Um obscuro tomo esotérico com o título Livro de Iod, foi escrito em uma mistura de grego e copta por esse grupo de devotos. A obra descreve as bases filosóficas do culto, bem como as peculiaridades de seu Deus. Uma versão apócrifa tratada como blasfema teria sido traduzida por um certo Johann Negus no século XVIII. Apesar de boatos nunca confirmados sobre um único exemplar existir no acervo da Biblioteca Huntington, na Califórnia, o Livro de Iod é considerado atualmente perdido, com muitos estudiosos postulando que ele jamais existiu. Contudo, um ou mais volumes dele ainda podem ser achados nas bibliotecas proibidas da Terra dos Sonhos.

O insipiente Culto devotado a Iod posteriormente se deslocou para as Terras do Nilo, ganhando adeptos no entorno da cidade de Memphis no século primeiro. É provável que seus seguidores o vissem como o Caçador Luminoso a quem Prinn se referiu da seguinte maneira: "Se um adepto tomasse as devidas precauções, conseguiria invocar Iod com relativa segurança, e o Deus atenderia seus anseios de maneira desejável". É possível que algumas interações descritas entre mortais e Djins (gênios) na Arábia tenham sido na verdade a negociação entre feiticeiros e Iod. 

Curiosamente, essa entidade deixou de receber a atenção da humanidade e ao que tudo indica não foi alvo de cultos ou das atenções de feiticeiros após a Idade Antiga. É possível, entretanto, que ele ainda se manifeste espontaneamente em nossa realidade atravessando os planos em condições específicas, sobretudo durante alinhamentos estelares propícios. Também existem conjecturas de que explosões nucleares possam causar fissuras no tecido dimensional através da qual Iod pode vir a se manifestar. 

A forma de Iod é motivo de muito debate, já que sua aparência beira o indescritível. Os rumores atestam que nem sempre ele apresenta a mesma forma, e que para um ser humano contemplar Iod em toda sua terrível completude, sem a devida proteção, significava morte certa.

Quando Iod se manifesta, ele surge nas palavras de Prinn como um "horror aviltante" descrito da seguinte maneira:

"Não se trata de uma entidade homogênea, seu espectro profano é uma mistura horrenda de elementos incongruentes. Estranhas formações minerais e cristalinas crescem como tumores em sua carne escamosa e nas estruturas vegetais semitransparentes, tudo banhado por uma luminosidade cadavérica que pulsa monstruosamente dele próprio".

O corpo de Iod parece ser a soma de diferentes elementos que fundem classificações dos reinos naturais em um mesmo ser. Desse modo temos características animais misturadas a organismos botânicos e até mesmo porções obviamente minerais inorgânicas em um mesmo ser vivo. 

Quando se manifesta Iod surge como uma massa de tamanho considerável, quatro ou cinco metros de altura e metade disso de comprimento, com um corpo cilíndrico cauliforme, semelhante a uma haste grossa que lhe dá sustentação. Na base truncosa há algo similar a raízes capilares que se agitam constantemente, onde brotam olhos e bocas rudimentares. O caule é coberto de veias pulsantes ou vinhas que escalam a estrutura que por sua vez se ramifica em formações longas que mais parecem tentáculos do que galhos. Estes se agitam constantemente agindo como apêndices cuja função inclui tato e manipulação. Os apêndices são adornados por estranhas formações semelhantes a cristais de rocha ou quartzo amarelo esverdeado, responsáveis por produzir a luminosidade fosforescente que banha toda criatura. A superfície exterior de Iod é translúcida e estruturas similares a órgãos podem ser vistas em seu interior boiando em uma substância cinza gelatinosa. A criatura é acompanhada de um odor pungente que parece ser resultado das secreções e seivas excretadas em profusão por orifícios em seu tronco. Esse cheiro marcante é frequentemente comparado ao de solo em decomposição e óleo mineral cru.  

A entidade necessita consumir energia de outros seres e o faz através das longas estruturas semelhantes a raízes em sua base. Algumas delas terminam em gavinhas com pontas ocas afiadas que se insinuam na direção da presa perfurando sua pele e injetando enzimas digestivas ácidas que causam a dissolução dos órgãos internos. A vítima morre imediatamente e em seguida o material resultante, um suco nutritivo, é sorvido através de um processo de sucção que extrai os alimentos necessários. Iod é capaz de drenar completamente um humano adulto em poucos segundos, deixando uma casca vazia que é descartada no fim do processo. A criatura necessita se alimentar frequentemente e sempre que era convocada por sua congregação esperava receber algo entre cinco e dez oferendas humanas para satisfazer sua fome.


Iod não é capaz de se comunicar verbalmente, embora emita ruídos provenientes do constante estalar das centenas de bocas localizadas na parte inferior de seu corpo. Supõe-se que ele use a modulação do brilho das estruturas cristalinas em padrões que sugerem algum tipo de comunicação, embora esta esteja além de nossa interpretação. Sabe-se que Iod é dotado de uma poderosa capacidade telepática e que é capaz de projetar seus pensamentos diretamente na mente de seus interlocutores. Essa tende a ser a sua forma de comunicação preferida ao lidar com humanos. As projeções mentais são transmitidas diretamente, manifestando suas necessidades e vontades com clareza contundente. 

Quando se sente benevolente ele oferece visões agradáveis que estimulam áreas de prazer no córtex humano no que é considerado uma espécie de comunhão íntima com seus sectários. Essa interação apesar de agradável pode causar uma horrível dependência e o desejo irresistível de repetir a experiência uma e outra vez. Da mesma forma, Iod pode fornecer conhecimento para seus cultistas, transferindo o saber do Mythos ou mesmo feitiços.

Os olhos de Iod não parecem ser muito desenvolvidos, sugerindo que essas estruturas perderam seu propósito. Contudo em algumas poucas representações ele é mostrado com um único e enorme olho azul pálido no topo, ainda que essas imagens sejam raras. Iod também não parece ter cavidades auditivas ou gustativas. Contudo seus sentidos são aprimorados pela notável percepção telepática. Esta é responsável por conferir a ele a faculdade de "sentir" o ambiente e detectar pequenas alterações, movimento e vibrações. Nada escapa a sua leitura e a atenção é total, com a percepção refinada de um predador.

Após se manifestar, a criatura permanece estática emitindo um brilho cegante. Ele parece ancorado na mesma posição, imóvel como uma grande árvore. Contudo Iod é capaz de flutuar no ar ou de se locomover usando suas raízes inferiores como dedos que lhe permitem andar. O brilho amarelo fosforescente de Iod pode ser modulado de acordo com a sua vontade. Ele pode brilhar intensamente dificultando a compreensão de sua forma real. 

As centenas de tentáculos em seu topo tem um alcance de até 10 metros e são ágeis suficiente para manipulação delicada. Eles também podem agarrar e puxar com a força de cabos de aço. Não é difícil para eles envolver algum objeto e exercer uma força de constrição tamanha que partiria todos os ossos de um ser humano. Os tentáculos tem uma rigidez fluida e uma consistência de borracha fria ao toque. A carne esponjosa de Iod é extremamente resistente e praticamente impenetrável por meios normais.

Há rumores sobre a existência de um Avatar de Iod com aparência humanoide que se manifestaria para presidir rituais específicos. Nessa forma Iod se assemelha a um homem de pele pálida (quase transparente), sem feições e com braços incrivelmente longos. A criatura teria sido identificada como um dos Demônios capturados e submetidos pelo lendário Rei Salomão. Outras fontes o identificam como um ilustre membro da Corte dos Efreeti. Esses boatos jamais foram confirmados, mas é provável que a interação com outra criatura tenha gerado as suspeitas de se tratar de Iod. 

Não existe qualquer indicação de que Iod possa ser parte de uma espécie ou raça, ao que tudo indica ele é da lavra dos Grandes Antigos, gerado no início dos tempos e que para todos os efeitos imortal. A interação humana com a entidade diminuiu progressivamente ao longo dos séculos e ele é obscuro mesmo quando considerado sob a ótica desses seres insondáveis.


TÍPICA MANIFESTAÇÃO DE IOD

FOR 375 CON 300 POD 100 TAM 500 DES 80

Pontos de Vida: 80
Bônus de Dano (DB): +10D6
Corpo: 11
Movimento: 20 voando, 10 arrastando

Combate
Ataques por rodada: 1 (golpe ou flash de luz)

Pode atacar com seus tentáculos, paralisando quem for atingido. Em seguida, Iod crava seus múltiplos membros na vítima e drena sua força vital.

Paralisia: ao ser atingido com sucesso por um de seus membros, o alvo fica imobilizado se falhar em um teste de POD Extremo (proteções mágicas, formas ou efeitos especiais podem reduzir a dificuldade deste teste). A vítima pode tentar este teste uma vez por rodada enquanto sobreviver ao encontro, embora recupere o movimento caso Iod parta antes de matá-la.

Drenagem de Força Vital: uma vez paralisada, a vítima pode ter sua força vital drenada, com Iod cravando seus membros no corpo da vítima e drenando POD a uma taxa de 20 pontos por rodada. Com POD zero, o cérebro da vítima permanece vivo dentro de um corpo morto e continua a viver para sempre preso em uma carcaça em decomposição (perdendo pelo menos 1 ponto de Sanidade por dia até ficar permanentemente insano). Tecnologia alienígena ou magia podem permitir que o cérebro seja removido e colocado em outro corpo hospedeiro, embora isso não implique riscos.

Flash: emite uma onda de luz branca ofuscante em um arco de 360 ​​graus, com todos dentro de 10 jardas/metros obrigados a tentar um teste combinado de CON e POD ou sofrer 1D4 de dano enquanto a luz rasga sua carne e causa queimaduras dolorosas.

Briga 80% (40/16), dano 3D6 + paralisia

Armadura:

Armadura extradimensional de 10 pontos.
Armas mundanas (incluindo balas) causam dano mínimo.
Se reduzido a zero pontos de vida, Iod explode em uma luz branca ofuscante e desaparece. Ele se reforma em 2D100 anos.

Feitiços: Todos os que o Guardião desejar
Custo de Sanidade: Como um flash de luz não há custo de sanidade, mas a aparência de Iod causa 1d3/1d20 se visto.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Novo suplemento para Call of Cthulhu - O Horror Cósmico em seu estado mais brutal

A Chaosium Inc, empresa que orgulhosamente publica o material de Call of Cthulhu há mais de 50 anos acaba de publicar o preview de seu próximo suplemento.

"LAWS, TAXES AND REGULATIONS" promete levar o terror cósmico, insanidade e uma luta desesperada contra o mal em seu estado mais puro a uma nova e eletrizante fronteira. 

"Trata-se de uma nova abordagem ao horror lovecraftiano", disse Mike Mason, autor e editor do novo lançamento. 

O livro, composto por 185 páginas coloridas, ilustrações e tabelas (muitas, muitas e muitas tabelas) lida com uma nova vertente do terror, ao abordar os meandros do mundo burocrático, das regulamentações e das normas. O livro, escrito com a ajuda de um corpo de 76 contadores e consultores legais tras ima série de novidades para o sistema BRP. 

"Para começar temos uma apreciação histórica da Legislação Financeira e Contábil dos EUA nos anos 1920 que serve como background para as aventuras. Em seguida o suplemento oferece varias ocupações para seu investigador e habilidades únicas que permitem aos seus personagens navegar pelos mares insondáveis e enlouquecedores da burocracia estatal"  conforme explica o autor nos Fóruns da Chaosium onde o produto foi apresentado.

O manual ainda conta com a análise das diferentes cortes de justica, as especificidades delas e demais procedimentos ordinários e ritos únicos. Tudo explicado em detalhes e curiosidades. 

O que seria de um jogo dessa natureza sem um extenso capítulo sobre o mais perigoso dos períodos, quando a insanidade atinge seu ápice na forma da temida "Época da Declaração". Através de exemplos de jogo, situações inesperadas e terrores de além da malha fina, os investigadores terão de enfrentar toda sorte de "Brechas de Evasão" e superar a aterrorizante "Reunião de Auditoria" que pode facilmente custar 1d100 pontos de SANidade.

O suplemento conta com uma centenas de formulários prontos que podem ser usados como Recursos para os Jogadores, inclusive os tenebrosos Formulários  Triplicata 12/C e a Tabela de Auditoria Randônia para lançar contra os investigadores diferentes modelos de auditores fiscais. 

O suplemento inclui também im cenário pronto chamado Formulário 27-B, uma terrível aventura na qual uma das mais terríveis formas de Nyarlathotep é apresentada, o Fiscal Rastejante. Conseguirão os heróis sobreviver a seu meticuloso exame probatório?

"Laws, Taxes and Regulations" deve chegar às lojas em breve, possivelmente até junho. Trata-se de um dos mais esperados lançamentos do ano, junto com "Ordem Secreta dos Observadores de Pássaros de Arkham" e "Segredos de Tijuana, México".

Nao sei quanto a voces, mas eu estou bastante ansioso para ter esse livro em mãos... assim que conseguir coloco no ar uma resenha.

A Chaosium publicou algumas imagens do material.

A New Order, que detém os direitos de publicação de Chamado de Cthulhu no Brasil anunciou que pretende publicar esse material ainda esse ano e que o Financiamento Coletivo terá início em breve. Vamos aguardar...







segunda-feira, 30 de março de 2026

Cara a cara com o Mal - Narrativas de encontros com o Demônio em pessoa


Em diversas religiões, filosofias e crenças ao redor do mundo, sempre existiu uma figura considerada a personificação absoluta do mal. Longe de estar restrita ao cristianismo, esse arquétipo das trevas e do mal está presente desde tempos imemoriais. Nos tempos modernos, ideias como a existência de um Diabo literal são tratadas como mero folclore e mitologia, uma metáfora para os males da humanidade, mas muitos o consideram uma força muito real e presente, além da nossa compreensão. A isso se somam vários relatos de encontros reais com algo que só pode ser descrito como o próprio Diabo encarnado. Aqui estão alguns relatos ao longo dos séculos de pessoas que se depararam com a manifestação física e o avatar do mal.

Alguns dos supostos encontros mais dramáticos e frequentes com o Diabo ao longo da história envolvem santos, que muitas vezes são descritos não apenas como tendo se deparado com o Senhor das Trevas, mas também como tendo lutado contra ele. Um dos relatos mais antigos é o de São Dunstan, um clérigo inglês do século X. Ele se tornou Arcebispo de Canterbury e era considerado por muitos um homem piedoso e respeitado na Igreja, além de músico, artista e habilidoso metalúrgico. Dizia-se também que ele teve vários encontros com o próprio Diabo.

Um dos primeiros encontros de São Dunstan com Satanás teria ocorrido enquanto ele vivia como eremita em Glastonbury. Certo dia, um misterioso estranho o abordou e pediu que usasse sua destreza na metalurgia para fazer um cálice para ele. Dunstan concordou e começou a trabalhar na peça solicitada, mas, passou a  desconfiar daquela figura enigmática. Certo dia, decidiu segui-lo e constatou que ele não apenas era capaz de mudar de forma, passando de homem para mulher e depois para criança, como se transformava em um enorme corvo de olhos vermelhos. Ficou claro que se tratava de um demônio, mas Dunstan fingiu que não sabia de nada. Ele prosseguiu em seu trabalho como se nada estivesse errado. Então quando estava com o cálice pronto, ele atraiu o demônio até sua oficina devidamente protegida com símbolos religiosos e sal grosso. O demônio percebeu tarde demais que havia caído numa armadilha. São Dunstan  armou-se com uma tenaz em brasa que usava em seu trabalho. Ele enfiou a ferramenta nas narinas do intruso, o que provocou gritos de dor e fez o diabo reverter a sua forma real e então fugir em desespero.

Mas o mesmo demônio retornaria em outra ocasião para um acerto de contas, desta vez enquanto São Dustan tocava harpa. O Diabo veio na forma de um vagabundo imundo e fedorento, mas Dunstan imediatamente percebeu quem era ele. Quando o estranho se aproximou, Dunstan teria o agarrado pela perna e começado a ferrá-lo como se fosse um cavalo, pregando uma ferradura em seu casco fendido. O Diabo teria gritado de agonia e concordado em ser libertado com a condição de nunca mais se aproximar de uma casa com uma ferradura pendurada na porta. Assim nasceu a lenda de que ferraduras dão sorte.

Uma iluminura medieval tratando da luta de St. Dustan

São Dunstan se tornou uma espécie de Santo padroeiro daqueles que enfrentam lutas e conflitos. Foi canonizado entre outras coisas por conseguir enfrentar demônios no mano a mano.

Outro santo que supostamente teve encontros assustadores com o Diabo foi o italiano São Pio de Pietrelcina (1887-1968), também conhecido simplesmente como Padre Pio, que era particularmente famoso por exibir estigmas persistentes durante a maior parte de sua vida. Padre Pio teve violentas batalhas com o Diabo e seres sobrenaturais. Em uma ocasião, Frei Alessio um assistente que auxiliava Padre Pio, o encontrou ensanguentado e machucado em seus aposentos, e quando questionado ele contou que havia sido atacado por um demônio na forma de bode preto, que lhe quebrou três costelas. Em 1906, certa noite, Padre Pio ouviu passos vindos do quarto ao lado, que ele supôs serem os de seu amigo Frei Anastasio. Ele foi até a janela e tentou chamá-lo para conversar, mas nenhum som saiu de sua boca. Foi então que ele notou um grande cão preto sentado ameaçadoramente no parapeito de uma janela próxima. Ele relatou o que aconteceu em seguida:

"Vi o cachorro grande entrar pela janela e saía fumaça da boca dele. Senti um forte cheiro de enxofre e ouvi uma voz dizendo: "É ele, é ele. Mate-o!". O  animal tentou me matar, mas eu o espantei clamando pela intercessão de Deus todo poderoso. A fera então saltou para o parapeito da janela, depois para o vazio e desapareceu numa nuvem preta". 

Alega-se que esse tipo de encontro teria ocorrido ao longo de toda vida de Padre Pio, com o Diabo e outros demônios frequentemente o atacando, arrastando-o da cama, golpeando-o ou jogando-o de um lado para o outro no quarto. Em outras ocasiões, ele era impedido de dormir por batidas nas paredes ou no chão, ou até mesmo por cusparadas de uma presença invisível. Esses ataques se intensificaram a ponto de se tornarem quase diários, e o Diabo vinha buscá-lo disfarçado de várias maneiras, aparentemente com o propósito de enganá-lo, tentá-lo ou seduzi-lo. Um padre, o famoso exorcista italiano Gabriele Amorth, diria sobre essas variadas formas:

"O demônio aparecia para ele como um gato preto, ou na forma de um animal verdadeiramente repugnante como um sapo com asas e olhos amarelos. A intenção óbvia era enchê-lo de terror. Outras vezes, os demônios vinham como jovens moças, nuas e provocantes, realizando danças obscenas, para testar sua castidade. O demônio era dissimulado e perverso! Fazia de tudo para enganá-lo".

Uma estatua comemora a vitória de Padre Pio sobre o Inimigo.

Supostamente, os demônios ficavam particularmente enfurecidos com o trabalho de Padre Pio como exorcista, já que ele alegadamente expulsou centenas de entidades diabólicas durante sua carreira. Um fato curioso é que as pessoas possuídas frequentemente reconheciam Padre Pio quando ele chegava e ficavam furiosas, insultando-o e amaldiçoando-o com palavrões e xingamentos. Era como se os demônios conhecessem bem o seu adversário e dirigissem contra ele sua fúria. Um dos colegas de Padre Pio, o Padre Tarcisio de Cervinara, diria sobre isso:

"Mais de uma vez, vi isso acontecer. Padre Pio era reconhecido pelo espírito possessor que o provocava e ameaçava. E antes de deixar o corpo possuído, os demônios gritavam: “Padre Pio, maldito seja, você e sua devoção”; e também: “Padre Pio, libere os corpos e almas e não o incomodaremos mais”.

A certa altura, Padre Pio cansou de "dar a outra face" e passou a confrontar o demônio com sua fé, sua devoção, e quando necessário com armas sagradas. Assim teria acontecido em uma ocasião em que o Padre usou um grande crucifixo para paralisar e enforcar um demônio que vinha lhe atormentando. A criatura foi capturada e sufocada até desaparecer em uma nuvem de enxofre. Em outra ocasião, um demônio formado por milhares de moscas foi esconjurado por ele graças a um aspersor com água benta. O Padre supostamente teria mandado fazer para ele uma lâmina de prata que ele levava no tubo oco de sua bengala. Essa arma branca tinha símbolos sagrados entalhados e era usada para esconjurar ou ferir os diabos em suas diversas formas.

Juntando-se às fileiras de santos que relataram encontros bastante dramáticos com o Diabo está Santa Gemma Galgani, do final do século XIX, que realmente acreditava que Satanás estava travando uma guerra pessoal contra ela. De acordo com a Vida de Santa Gemma Galgani, do Venerável Padre Germanus, e seus próprios diários, o Diabo era muito obcecado por ela e determinado a atacá-la. Uma das táticas favoritas do Diabo contra ela era, supostamente, atacá-la com terríveis dores de cabeça que a atormentavam a ponto de ela não conseguir se concentrar para rezar, mas ele não se furtava a atacá-la fisicamente. Em uma ocasião, o Diabo teria se aproximado dela enquanto ela escrevia sozinha e a arrastou da mesa pelos cabelos com "tanta violência que eles se soltaram em suas garras brutais". Ela escreveria sobre outros ataques assim:

"O demônio, na forma de um grande cão negro, pôs as patas sobre meus ombros, fazendo cada osso do meu corpo doer. Às vezes, eu acreditava que ele me mutilaria; então, certa vez, enquanto eu tomava água benta, ele torceu meu braço com tanta crueldade que caí no chão com muita dor. Depois de um tempo, lembrei-me de que tinha ao redor do pescoço a relíquia da Santa Cruz. Fazendo o Sinal da Cruz, fiquei calma e repetindo salmos o Demônio gritou e desapareceu".

A tentação e o sofrimento sempre foram associados a forças diabólicas.

Um encontro particularmente aterrador e violento com o Diabo foi relatado em seu diário da seguinte forma:

"O demônio se manifestou diante de mim como um cadáver de pele pálida e ameaçou: “Para ti não há mais esperança de salvação. Estás em minhas mãos!”. Respondi que Deus era misericordioso e, portanto, não temia nada. Ele ficou furioso, desferiu-me um forte golpe na cabeça e disse: “Maldita sejas!” e desapareceu. No dia seguinte ocorreu um segundo ataque, mas eu me preparei sabendo que ele retornaria. Mantive junto a mim uma pequena cruz de prata abençoada e a usei para afugentar o demônio que apareceu como uma nuvem de gafanhotos. Ao ver o brilho da cruz a forma se desfez e o demônio sumiu".  

Não são apenas os santos que supostamente se depararam com a sinistra face sombria do próprio Diabo; de fato, tais relatos podem ser encontrados ao longo da história. Em 1683, ocorreu um incidente peculiar no qual um visitante misterioso, vestido todo de preto e aparentemente com cascos fendidos no lugar dos pés, chegou à Pensão Tavistock Inn, em Poundsgate, Inglaterra, montado em um cavalo preto com fogo saindo pelas narinas. Ele pediu informações sobre como chegar a Widecombe-in-the-Moor, em Dartmoor pois tinha um encontro com bruxas naquele lugar. Os funcionários, assustados, indicaram um caminho errado e o sujeito partiu. Alguns dias depois, uma bola de fogo aparentemente atingiu a igreja de St. Pancras, nas proximidades, ricocheteando violentamente e supostamente matando algumas pessoas. Embora a tragédia tenha sido atribuída a um raio, muitos acreditam que foi obra do Diabo furioso com a informação errada que recebeu.

Outro relato do século XII, narra a história de um monge aprisionado, condenado a ser emparedado dentro do edifício, a menos que conseguisse concluir uma enorme obra religiosa em uma única noite. Naturalmente, a tarefa provou ser impossível, e o monge, exasperado, invocou o próprio Diabo para ajudá-lo. Convenientemente, o Diabo apareceu e ofereceu-se para terminar todo o texto dentro do prazo em troca da alma do monge e de uma ilustração de seu semblante sombrio em suas páginas. O monge aceitou e o texto foi concluído a tempo. Este tomo ficou conhecido como Codex Gigas, ou também como "A Bíblia do Diabo", um livro de proporções enormes com 92 cm de altura, 50 cm de largura, 22 cm de espessura e pesando 75 kg, o que o torna o maior manuscrito medieval conhecido.

O livro é feito com cerca de 160 peles de animais e contém 310 páginas conhecidas, incluindo textos da Vulgata, diversos textos médicos, uma espécie de enciclopédia, um calendário, feitiços e um texto sobre exorcismos, entre outros, escritos principalmente em latim, mas também com alfabetos hebraico, grego e eslavo. A ilustração do Diabo, notória, destaca-se, com várias páginas anteriores apresentando uma tonalidade enegrecida em forte contraste com as demais páginas do livro. Embora as lendas afirmem que foi escrito em uma única noite, análises mostram que, na verdade, teria levado cerca de 5 anos de escrita contínua para ser concluído, aumentando ainda mais o mistério. 

O misterioso Codex Gigas

O conteúdo do Codex Gigas guarda muitos enigmas. A caligrafia meticulosa que o compõe é surpreendentemente uniforme do começo ao fim, sugerindo que foi escrito por um único escriba. Esse detalhe torna-se ainda mais misterioso ao considerarmos que se especula que toda a gigantesca coleção de textos contida nas páginas do livro, incluindo as iluminuras e ilustrações, teria exigido de uma única pessoa cerca de 5 anos de escrita contínua e ininterrupta, dia e noite, para ser concluída, e que uma estimativa realista para a criação de toda a obra, incluindo as páginas e a capa em pele de animal, seria de cerca de 25 anos para um único indivíduo. Isso é particularmente impressionante, visto que a caligrafia não apresenta sinais de deterioração ou influência da idade, doença ou humor do escritor, mantendo-se sempre consistente ao longo do vasto tomo de textos. 

A natureza bizarra do manuscrito é ainda mais acentuada pelo fato de que cerca de 10 páginas estão faltando, aparentemente removidas intencionalmente ao longo dos séculos, embora o propósito seja desconhecido. Há teorias de que essas páginas faltantes poderiam conter informações consideradas perigosas demais para caírem nas mãos de meros mortais, que as páginas foram roubadas para algum propósito nefasto, ou que simplesmente foram consideradas ofensivas por algum antigo proprietário do livro. Diz-se que este texto misterioso é amaldiçoado e portador de infortúnio e morte, tendo ido parar misteriosamente na Biblioteca Nacional da Suécia, em Estocolmo. É uma história verdadeiramente bizarra. 

Mas existe outro texto que supostamente contém a caligrafia do próprio Diabo. Data de 1523 um manuscrito italiano que narra um encontro entre o Diabo e um certo Ludovico Spoletano, que supostamente o invocou para ajudá-lo a escrever uma série de respostas a perguntas que lhe haviam sido feitas. Embora o Diabo devesse usar Spoletano apenas como um receptáculo, ele teria ficado frustrado e tomado a pena para escrever tudo ele mesmo. O resultado é uma estranha mistura de caracteres e letras que não foram decifradas até os dias atuais, embora tenham sido encontrados indícios de que contenha amárico, um idioma falado em sua forma pura na província de Amhara, na Etiópia.

No século XVIII, viveu um certo Giuseppe Tartini, violinista, compositor barroco, filósofo, cientista e teórico musical, contemporâneo de grandes nomes da música como Vivaldi e Veracini, que compôs e apresentou mais de 200 concertos e sonatas para violino ao longo de sua vida. Em 1765, Tartini teve um sonho no qual afirmava ter encontrado o Diabo. Nesse sonho, o Diabo ofereceu-lhe a oportunidade de se tornar um músico renomado em troca de sua alma. Para provar sua legitimidade, o Diabo pegou um violino e começou a tocar uma melodia assombrosa com magnífico virtuosismo, sobre a qual Tartini descreveu o seguinte:

"Uma noite, sonhei que havia feito um pacto com o diabo pela minha alma. Tudo correu como eu desejava: meu novo servo antecipava todos os meus desejos." Tive a ideia de lhe dar meu violino para ver se ele tocaria algumas melodias bonitas para mim, mas imagine meu espanto quando ouvi uma sonata tão incomum e tão bela, executada com tamanha maestria e inteligência, num nível que eu jamais imaginara ser possível. Fiquei tão extasiado que prendi a respiração e acordei ofegante. Imediatamente, peguei meu violino, na esperança de me lembrar de algum fragmento do que acabara de ouvir; mas em vão. A peça que compus em seguida é, sem dúvida, a minha melhor, e ainda a chamo de "A Sonata do Diabo", mas fica tão aquém daquela que me impressionou no sonho que eu teria quebrado meu violino e desistido da música para sempre apenas para ouvi-la novamente."

Tartini ouve a Sonata do Diabo

Tartini ficaria obcecado com a música que ouvira o Diabo tocar em seu sonho e finalmente conseguira, ao menos, aproximar-se de alguma semelhança com ela no papel, embora sempre lamentasse o quão pálida ela era em comparação com o que ouvira o Diabo tocar. Ele criaria uma composição que se aproximasse dela. A Sonata do Diabo é conhecida, ainda hoje, como uma peça incrivelmente difícil de executar tecnicamente, a ponto de ter havido um rumor de que Tartini precisaria de seis dedos para tocá-la da maneira como o fez, e que quem a tocasse por completo teria a alma possuída pelo Diabo. Chegou-se a dizer, na época, que a canção havia sido banida do Reino dos Céus por ser contrária a Deus. A chamada "Sonata do Diabo" permanece envolta em mistério desde então.

Há também o estranho relato do evangelista itinerante inglês George Whitefield, que em 1740 se encontrava na Nova Inglaterra, na igreja de Ipswich, Massachusetts. Nessa ocasião, Whitefield teria proferido um sermão inflamado e fervoroso, atacando Satanás com tanta veemência que o Diabo teria enviado um demônio para matá-lo. Segundo os relatos, Whitefield enfrentou a entidade diabólica e os dois lutaram ali mesmo, à vista de todos. 

O Pastor Whitefield executou uma ordem poderosa para que seu inimigo fosse embora, após o que a besta supostamente caiu de um penhasco, aterrissando nas rochas lá embaixo. Mas esse não foi o fim da história: posteriormente a população de Ipswick descobriu estranhos rastros de cascos fendidos que saiam do penhasco e circulavam a cidade demonstrando que o demônio não havia morrido. E assim nasceu a lenda das “Pegadas do Diabo” de Ipswich.

Ao analisarmos tais relatos, voltamos à questão essencial: existe um Diabo, Satanás, ou como você quiser chamá-lo, de fato, fisicamente? Trata-se de uma entidade real que se infiltrou em nossas religiões e que se revela a nós de tempos em tempos? Ou tudo isso não passa de lenda, mito e conjectura? Para os verdadeiramente religiosos, provavelmente não há muita reflexão sobre essa questão, pois é um fato consumado. Mas e o restante das pessoas? O Diabo realmente existe ou é um personagem das lendas? 

Dizem que o maior truque realizado pelo diabo foi fazer com que as pessoas deixassem de acreditar em sua existência. Se assim for, você que diz não acreditar na existência Dele, pode estar sendo enganado.