quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

True Detective episódio 4 - O Pior Natal de todos os tempos


Como se a escuridão interminável no Círculo Polar Ártico não fosse suficientemente deprimente, experimente passar o Natal sozinho no Alasca. O Episódio 4 de True Detective: Terra Noturna mostra praticamente todos os habitantes de Ennis passando o feriado do dia 24 e 25 de Dezembro solitariamente enfrentando alguma forma de turbulência pessoal - bem, não seria True Detective sem trauma psicológico e pavor existencial, não é? 

Ao final desse episódio, a impressão geral é que as coisas estão se tornando cada vez mais intrincadas nos casos de assassinato, tanto em TSALAL quanto de Annie Kowtok. Embora True Detective: Terra Noturna esteja se desenvolvendo de maneira muito interessante e consiga manter o interesse, o único receio é que fiquem pontas soltas sem amarrar no último episódio. A série terá seis episódios, dois a menos do que as demais temporadas, então não há mais muito tempo à perder. 

O quarto episódio se dedicou a aprofundar os dramas pessoais dos personagens e conceder camadas adicionais a eles. Foi um episódio muito mais centrado no s personagens do que na investigação e nos procedimentos. Isso não é ruim, mas em um cronograma tão enxuto, faz com que a gente levante uma sobrancelha. 

Apesar disso, não dá para dizer que não tenham havido progressos na trama, preservando o padrão de suspense que a série estabelecer. Em seguida, vamos analisar alguns dos acontecimentos principais do quarto episódio, lembrando a todos que teremos SPOILERS em enorme quantidade daqui em diante.

1 - Pistas no Vídeo de Annie K


O episódio três terminou com a descoberta de um vídeo no celular de Annie K mostrando seus últimos momentos de vida naquilo que parece ser uma caverna de gelo.

Danvers assiste a cena dezenas de vezes, mas como esperado, as imagens não revelam a identidade do assassino da ativista. Seus gritos são o único registro do terrível destino. Contudo, Danvers consegue perceber dois elementos interessantes no pequeno trecho.

Embora não haja nenhuma informação clara sobre onde fica esse local, a detetive percebe a existência de um fóssil na parede congelada da caverna. Tudo sugere que se trata da vértebra de uma baleia pré-histórica, presa no gelo há milhares de anos. Levando essa informação ao Professor Bryce, um geólogo que comenta a existência de cavernas desse tipo nos arredores de Ennis. Estas, no entanto, foram pouco exploradas já que é um enorme risco se meter no interior delas por conta de desabamentos. Tudo indica que foi em uma dessas avernas que Anne foi assassinada, mas que seu cadáver foi carregado posteriormente para o local onde foi descoberto. Eu ainda tenho minhas dúvidas sobre quem fez isso, pode ter sido o próprio assassino com o intuito de intimidar qualquer outro ativista protestando contra a Mina Silver Sky ou pode ter sido alguém que não queria simplesmente abandonar o corpo da mulher naquele lugar remoto.

Seja como for, Liz e Navarro devem buscar o local nos próximos episódios e a cena do crime deve revelar mais detalhes sobre o que aconteceu seis anos atrás.  

O outro detalhe que Danvers percebe é que o interior da Caverna de Gelo parecia ser iluminado por lâmpadas ligadas a um gerador. Ela percebe que essa iluminação é interrompida repentinamente de uma maneira muito similar ao que foi registrado no derradeiro vídeo do TSALAL. De fato, é uma cena muito semelhante, na qual a instalação elétrica apaga por inteiro após faíscas. 

Danvers relaciona esse detalhe ao Engenheiro de Manutenção Oliver Tagaq, que sem dúvida teria acesso a esse equipamento e saberia como cortar a energia e provocar o blackout. Essa informação é interessante pois leva a teoria de que o assassino de Anne pode ser o mesmo que atacou a Base Científica, utilizando o mesmo modus operandi: causar escuridão e gerar confusão. A Chefe Danvers decide enviar Navarro e Pete Prior para entrevistar Tagaq à respeito, o que os leva até a Cabana de Caça uma vez mais.

2 - O Capitão Connely aparece novamente


O superior direto da Chefe Danvers na APF, Capitão Ted Connely, retorna a Ennis com o objetivo de assumir a investigação e enviar as provas para Anchorage. Em teoria, o procedimento de Connely é correto já que uma cidade maior possui instalações e equipamento mais adequado para processar as pistas. O infame "picolé de cadáveres" já derreteu o suficiente para seguir viagem até os legistas mais gabaritados para a autópsia. O que eles vão descobrir pode ou não corroborar as impressões iniciais do veterinário que analisou os corpos à pedido de Pete.

Embora Connely inicialmente garanta a Danvers que não está lá para tirar o caso dela, sua chegada à cidade sinaliza com problemas para os investigadores locais. Nos episódios anteriores ficou claro que agentes da lei como Hank Prior tentaram enterrar evidências em torno do assassinato de Annie supostamente para proteger os interesses dos proprietários da Silver Sky Mine.

Como os assassinatos de TSALAL estão diretamente ligados à morte de Annie, é provável alguém interromper a investigação novamente antes que Danvers e Navarro cheguem ao fundo do mistério. Connely até o momento não agiu diretamente contra a investigação, aparentemente porque acredita que é questão de tempo até o caso deixar a jurisdição de Ennis e seguir para outros detetives. Estariam estes já comprometidos em enterrar a investigação? Nesse caso, a tão aguardada autópsia pode acabar trazendo menos revelações do que o esperado.

Em certa altura, Danvers pergunta ao Capitão Connely sobre o vídeo de Annie K, e ele pede que tudo seja mantido em sigilo. Isso já deixa uma insinuação de que a coisa pode ser abafada. Se os poderosos que controlam Ennis começarem a pressioná-lo, é bem capaz ele amarrar de vez as mãos de Danvers e Navarro as impedindo de seguir adiante coma investigação. 

Não é a primeira vez que vemos corrupção e jogos de poder serem um obstáculo para que a verdade venha à tona, resta saber como elas irão contornar essas barreiras. Em Ennis, um lugar pequeno, onde tudo fica longe e exige deslocamento por estradas mal iluminadas, fica ainda mais difícil manter o controle sobre diligências, entrevistas e coleta de provas extraoficialmente.

3 - Peter encontra outro homem com ferimentos semelhantes ao dos cientistas


Peter Prior realmente está despontando como um ótimo detetive nesse caso. O novato da chefatura de Polícia em Ennis teve mais uma boa ideia no quarto episódio, buscar por outras vítimas que tenham sofrido ferimentos similares aos cientistas de TSALAL.

De um ponto de vista procedimental, essa abordagem é perfeita. Ele está seguindo à risca a cartilha da criminologia que indica analisar as vítimas em busca de pontos comuns. Essa ciência é conhecida como VITIMOLOGIA e constitui uma parte central em qualquer inquérito.

Como diria, a Chefe Danvers, é preciso fazer as perguntar corretas para chegar ao fundo do mistério. A pergunta levantada por Peter é: "Já houve pessoas com ferimentos semelhantes aos dos cientistas"?

E a resposta é um surpreendente sim!

Nesse momento ficamos sabendo da existência de uma peça chave que pode auxiliar na elucidação do caso, um certo Otis Heiss. Um cidadão alemão, Heiss foi encontrado em abril de 1998 com ruptura nos tímpanos, córneas queimadas e marcas de mordidas auto infligidas nas mãos. A mesma lista de estranhos ferimentos dos cientistas do TSALAL. Entender como isso aconteceu com Heiss quase três décadas atrás pode lançar uma luz sobre como a mesma coisa aconteceu com os pesquisadores a algumas semanas.

Infelizmente, as coisas não são tão fáceis. Parece tarefa quase impossível localizar Otis Heiss já que ele não possui registros oficiais do governo, parentes próximos ou mesmo um endereço fixo. Após sofrer seus graves ferimentos, tratados como fruto de acidente na neve, o sujeito se tornou um andarilho e um viciado sem paradeiro conhecido. Ele é um vagabundo em uma região imensa que pode estar praticamente em qualquer canto.

Tenho a suspeita de que esse sujeito vai ser extremamente importante para explicar os assassinatos. Outra suspeita é que ele possa finalmente ser o indivíduo que vai jogar uma luz sobre o envolvimento do Rei Amarelo na trama. Não é totalmente estranho que pessoas desesperadas e que perderam tudo acabem desenvolvendo uma relação direta com o misticismo... no caso desse sujeito, me parece razoável teorizar que ele será a ponte de ligação das detetives com o mundo sobrenatural. Não tenho bases para provar isso ainda, mas me parece uma aposta válida.  

4 - A noiva de Hank não aparece


Desde o primeiro episódio, Hank está falando à respeito de sua noiva russa que virá de Vladivostok.

O sujeito está ansioso aguardando por ela, mas tudo indica que Irina não passa de um golpe promovido por um catfish para tirar dinheiro do detetive. Por um momento até é possível sentir pena de Hank Prior... por um momento.

Chega a ser patético ver como ele arrumou a casa para aguardar sua noiva, pintando a sala, redecorando e cobrindo a cama com pétalas de rosas (imagina quanto custaram essas rosas no Alasca!!!). Quando os passageiros do voo que deveria trazer Irina terminam de desembarcar a expressão desconsolada dele é de enorme tristeza.

"Você não chegou a enviar dinheiro para ela", pergunta mais tarde o filho, já imaginando o que teria acontecido. Nós sabemos que Hank mandou dinheiro para cobrir "despesas médicas" da mãe de sua futura esposa. Pobre diabo, nem a conheceu ainda e já está sendo engabelado.

Contudo a vulnerabilidade de Hank pode acabar beneficiando a investigação

Em última análise, isso pode ajudar na investigação, visto que Hank ocultou intencionalmente algumas informações sobre o caso de Annie K. Ele parece estranhamente "legal" com Peter depois do ocorrido, um misto de vergonha e "coração partido" poderiam regenerar ainda que parcialmente o sujeito? Talvez ele possa revelar quem eram os interessados em acobertar o assassinato e fazer seu trabalho nem que seja apenas para variar um pouco. 

5 - A Irmã de Navarro vai para a Neve


Num dos momentos mais profundos desse quarto episódio, a irmã de Navarro, Julia acaba desistindo de vez e se entrega ao desespero.

Confirmamos nossas suspeitas de que Julia sofria de esquizofrenia, doença que foi herdada de sua mãe que também padecia dessa condição mental. Após uma série de crises agudas, Julia acaba concordando em se internar num sanatório, receber ajuda e remédios para combater o quadro cada vez mais grave de alucinações. Talvez ela até tivesse a intensão de fazer isso, mas a visão de sua falecida mãe de baixo da cama acaba sendo pesada demais para ela suportar.

Aproveitando que a instituição onde ela está tem internação voluntária, ela acaba escapando sem que ninguém perceba. Ela acaba indo para seu esconderijo e de lá decide caminhar para o esquecimento sem roupa no meio do frio extremo. Curiosamente, é exatamente o que Navarro havia confidenciado a Danvers no episódio passado, seu desejo de simplesmente deixar tudo de lado e abraçar o esquecimento de uma vez por todas. 

Navarro fala à respeito de se sentir amaldiçoada depois que fica sabendo da morte da irmã. Ela com certeza teme que a doença que vitimou sua mãe - e agora a irmã possa estar nela também. Sabemos que esquizofrenia pode ser hereditária e o fato de Navarro estar experimentando várias alucinações e visões desde o início do caso, pode levá-la a suspeitar de que estes são apenas os primeiros indícios do que está por vir. Navarro ouviu vozes alertando de que alguém havia despertado, viu um urso polar (que pode ser uma alucinação), teve uma visão do filho de Danvers e mais recentemente recebeu um aviso de Anders Lund. Ela tem todos os motivos do mundo para achar que está perdendo a razão e cedendo espaço para a doença.

Sobre a morte de Julia, há alguns detalhes que chamam a atenção.

Primeiro, não há razões para suspeitar que ela sabia como os cientistas do TSALAL morreram, contudo assim como eles, ela também dobra cuidadosamente as roupas e calçados antes de remover e ir para a neve. É estranho! Uma pessoa prestes a cometer suicídio deixar as roupas cuidadosamente dobradas não faz muito sentido.

Outro detalhe curioso é que ela vê a mesma laranja que Navarro atirou longe e que retornou aos seus pés episódio passado. A laranja que rola de baixo da cama, supostamente empurrada pelo fantasma da mãe fazia parte da alucinação de Navarro. Não há porque acreditar que a patrulheira teria confidenciado isso para a irmã, então é no mínimo esquisito que ela também tenha tido essa experiência.

Finalmente temos a maneira como Julia morreu. Navarro fica sabendo que Julia andou até a costa e caiu no mar, seu corpo foi recolhido pela polícia. Por alguma razão isso me remete diretamente a Sedna, a Deusa Inuit que não apenas rege as vinganças e retribuição, mas também tem no Mar a sua província de poder. Poderia o suicídio de Julia ter elementos de uma espécie de auto sacrifício? Ela teria desistido por não era capaz de suportar as visões que recebia e que não conseguia interpretar?

Rose disse anteriormente que não se deveria confundir doença mental com o sobrenatural. Talvez Julia não fosse capaz de entender onde começava uma coisa e terminava a outra. Talvez as visões fossem avisos e presságios que ela não tinha estrutura para suportar. Ela enxergava esse assédio do sobrenatural, tentando mostrar algo, como um reflexo de uma doença.

Notem que Navarro logo em seguida começa a ter visões semelhantes às de Julia. Talvez, de agora em diante seja Evangeline quem passará a sofrer com esse assédio. Os mortos parecem querer contar algo aos vivos desesperadamente, mas os canais não estão dispostos a ouvir.      

6 - Onde está Oliver Tagaq? 


Mesmo que Oliver Tagaq não tenha sido visto neste episódio, ele ainda é fundamental em uma cena importante. 

Danvers envia Navarro e Pete de volta à casa onde Tagaq está vivendo para investigar o que ele teria a dizer sobre a súbita falta de luz na TSALAL e no vídeo gravado por Annie K. Ele é ao meu ver um dos principais suspeitos no caso de Annie e se eu tivesse que apontar alguém que tem culpa no cartório, esse alguém é esse sujeito.

Mas é claro, quando a dupla chega a cabana, Tagaq obviamente já desapareceu. Segundo os outros inuit no acampamento de caça, o suspeito deixou o local logo depois de ser interrogado por Danvers e Navarro. Embora o comportamento arredio de Tagaq possa ser decorrente de seu receio quanto autoridades, eu ainda acho que ele está envolvido nos crimes até o pescoço. 

Além disso, há uma pista a ser encontrada na cabana, uma que coloca Tagaq no rol dos suspeitos com ainda mais força. Navarro e Pete encontram o infame símbolo em espiral desenhado com carvão na tampa de uma caixa de papelão e esculpido em uma pedra. Ora, parece claro que o engenheiro conhece o símbolo e sabe qual o seu significado. 

A essa altura, Navarro já deveria ter questionado Rose à respeito da origem do símbolo já que ela claramente parecia saber sobre ele (como ficou subentendido no episódio 2). Rose disse que se trata de "algo antigo", "mais antigo que Ennis" e "tão antigo quanto a neve". Nesse episódio ficamos sabendo que Rose é uma ex-professora que em algum momento se sentiu compelida a deixar tudo para traz e se mudar para o Alasca em busca de paz. Há livros e mais livros na casa de Rose e ela parece ser alguém que estudou e que tem um conhecimento abrangente do mundo. Não descarto que ela possa ser uma antropóloga e como tal, possa ter estudado o símbolo do Rei Amarelo. Seria ótimo ver alguns dos mistérios do Símbolo serem esclarecidos de uma vez por todas, quem sabe no próximo episódio.

Mas voltemos a Tagaq. 

A pedra com o símbolo gravado me parece ser algum tipo de amuleto ou pendente, algo que um "devoto" usaria em volta do pescoço. Talvez tenhamos as indicações de que Oliver Tagaq é um cultista dessa manifestação sobrenatural, que eu imagino, talvez nem venha a ser chamado de Rei Amarelo. Possivelmente os povos nativos o conhecerão por outro nome, quem sabe Sedna.

Na saída da cabana abandonada, Navarro pergunta aos ex-vizinhos de Oliver se eles sabem o que significa o símbolo, eles não respondem - seus cachorros começam a latir e eles meio que apenas... olham ameaçadoramente. Ou seria com receio (ou ainda) medo?

7 - Mais sobre a Caverna de Gelo


Danvers e Navarro decidem visitar o Professor de Geologia da escola local para descobrir mais pistas sobre a caverna e os fósseis vistos no vídeo. É incrível como os informantes da dupla de Detetives são pessoas comuns, mas que se provam úteis no decorrer da investigação (que o diga o Veterinário que deu alguns insights muito úteis episódio passado).

O Professor Bryce revela que o fóssil parece ser de uma baleia pré-histórica conforme vimos anteriormente. Quando Navarro e Danvers perguntam sobre a localização da caverna onde a gravação foi feita, ele faz uma breve pesquisa online e descobre que ela fica próxima. E mais, um homem chamado Otis Heiss foi o responsável pelo mapeamento dessa mesma caverna. 

Apenas recordando, Otis é o sujeito que sofreu ferimentos similares aos Cientistas mortos do Tsalal. Parece ser muita coincidência...

Me pergunto se o acidente que Heiss sofreu em abril de 1998 teria acontecido nessa mesma Caverna de Gelo. Se os ferimentos que ele carregava teriam sido deixados por uma experiência nessa caverna, algo que deixou cicatrizes tanto físicas quanto mentais, e porque não dizer, espirituais. Me parece que esse "acidente" foi o que mudou o sujeito para sempre, transformou um cartógrafo em um andarilho drogado. Não deve ter sido pouca coisa.

Fica a questão: Otis teria sido um voluntário nessa experiência que mudou sua vida ou uma vítima de circunstâncias? Ele queria ver algo, queria experimentar algum grau de transcendência ou simplesmente foi colhido por um acidente que gravou o impacto de uma revelação em sua psique?

Eu acredito que Otis teve algum tipo de revelação. Ele experimentou algo que embora tenha lhe deixado cego e quase morto, serviu para "abrir a sua mente" para uma realidade da qual ele não conseguiu escapar. Algo que o condenou a uma vida errante.

8 - Navarro e Danvers visitam as Dragas 


Um pescador local viu um homem com a descrição próxima a Raymond Clark vagando pela neve próximo às dragas nos arredores de Ennis. A testemunha também envia uma foto na qual a figura de um homem veste a jaqueta cor de rosa de Raymond Clark (que antes pertencia a Annie). 

Apesar de estar angustiada com a notícia da morte de sua irmã, Navarro acompanha Danvers até as dragas para tentar encontrar Clark. Mas nem tudo é o que parece ser.

As dragas parecem ser grandes máquinas usadas para dragar o leito de rios e lagos congelados. Navarro comenta que são máquinas enormes, mas que foram simplesmente deixadas para enferrujar naquele lugar. Ao entrar no lugar, o complexo parece uma casa mal assombrada: escura, sinistra, silenciosa.

E como uma boa casa assombrada, o local tem as suas peculiaridades esquisitas.

Primeiro Navarro e Danvers acabam sendo separadas no momento que a primeira tem uma visão da própria irmã morta sendo arrastada pela água. Uma vez separadas, as duas detetives acabam pegando caminhos diferentes.

Danvers revista o local em busca de Clark. Encontra o que parece ser um esconderijo onde há drogas, cobertores e comida. Num canto escuro, Liz acaba achando um sujeito vestindo o casaco rosa com capuz e ordena que ele se renda. Mas então ela descobre que não se trata de Clark, mas de Otis Heiss.

As perguntas dela sobre o paradeiro de Clark são respondidas de forma enigmática. 

O cego se contorce e diz que Clark está escondido na Terra Noturna, o que me remeteu imediatamente a primeira temporada, quando Errol Childress (o assassino da Louisiana) dizia a Rusty Cohle no derradeiro episódio que eles não estavam mais no mundo real, e sim em Carcosa. Seria a "Terra Noturna" o equivalente a Carcosa? Uma espécie de realidade alterada regida por forças cósmicas, incompreensíveis e onde os limites entre os mundos se desfazem?  

Não foi isso que Rose disse sobre Ennis no segundo episódio? Que a "cidade no fim do mundo" está na fronteira entre o físico e o espiritual, onde os limites se perdem. Eu imagino se a Terra Noturna não seria a caverna de gelo, local de revelações e de incidentes inexplicáveis capazes de mudar a vida das pessoas para sempre. Onde Annie K encontrou seu destino, onde Heiss enlouqueceu de vez e onde Clark foi buscar respostas após a tragédia do TSALAL.

Danvers acaba prendendo Heiss e o imobilizando para levar até o que vai ser um interessante interrogatório no próximo episódio, mas e quanto a Evangeline?  
 
9 - Navarro tem outra Experiência Sobrenatural


Enquanto Danvers captura Otis Heiss, Navarro está experimentando sua própria fatia de terror.

Depois de chegar às dragas, Navarro tem a visão de uma mulher morta flutuando no canal de água abaixo deles. Navarro desce as escadas para investigar o que viu e parece encontrar o fantasma de sua irmã morta, reconhecível por seu cabelo azul e pela tatuagem sob a clavícula. 

Depois de capturar o homem cego, Danvers sai em busca de Navarro e a encontra sentada no chão em estado de choque. A visão da irmã a deixou catatônica e seus ouvidos estão sangrando.

Ao redor do mundo, para muitas culturas primitivas, ouvidos sangrando são o símbolo de uma verdade ou de uma revelação sobrenatural transmitida. As pessoas que não estão preparadas para receber essa revelação sentem fisicamente toda carga desta e manifestam ferimentos. Seria isso que aconteceu a Evangeline? Teria recebido uma revelação que não estava pronta para entender que a deixou em choque?

Rose disse anteriormente que os mortos procuram os vivos para compartilhar algum segredo. Me parece que foi o que aconteceu aqui, Julia transmitiu a irmã alguma informação que só ela (agora morta) é capaz de passar adiante. Se Evangeline vai ser capaz de entender ou não o que ela disse, isso veremos no próximo episódio.

 *     *     *

Embora nenhuma dessas “pistas” recém-descobertas faça muito sentido, o final do quarto capítulo de True Detective: Terra Noturna torna evidente a guinada para o sobrenatural em toda série. A Terra Noturna pode ser um mundo que está além da fronteira que separa os humanos dos mortos e estes desejam serem ouvidos. É algo puramente metafísico que vai muito, muito além do drama criminal procedimental que estamos acostumados.

Faltam apenas dois episódios para saber como isso vai terminar.

Fiquem conosco, detetives...

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Falecimento de Brian Lumley - Autor do Mythos e criador de Horrores Modernos


Essa semana soubemos da triste notícia do falecimento de Brian Lumley (1937–2024). 

Brian era um dos mais aclamados escritores fantásticos de sua geração. Ele recebeu o prêmio World Fantasy pelo conjunto de sua obra e o prêmio pelo conjunto de sua obra da Horror Writers Association. Prêmios de grande prestígio concedidos aos mais destacados autores do gênero Fantasia Fantástica.

No início de sua carreira, Brian se dedicou aos Mythos de Cthulhu

Em 1971 ele escreveu "The Caller of the Black", publicado pela Arkham House de August Derleth. A partir dali, passou a escrever peças importantes que ajudaram a expandir a mitologia criada por H.P. Lovecraft, contribuindo para aumentar o repertório de horrores indizíveis. A visão única e inspiradora de Brian a respeito de entidades do Mythos como Azathoth e Nyarlathotep foi desafiadora, inventiva e inspiradora. O ciclo de romances sobre a Terra dos Sonhos (Dreamlands), começando com Hero of Dreams (1986), construiu e expandiu as histórias fundamentais de Lovecraft com entusiasmo adicional e uma pitada de fanfarronice.


As criações de Brian foram rapidamente incorporadas ao RPG Chamado de Cthulhu, notadamente os monstruosos Chthonians, os Grandes Antigos Shudde M'ell e Yibb-Tstll, bem como alguns tomos de conhecimento profano favoritos dos fãs, como Cthaat Aquadingen, G'harne Fragments e Unter Zee Kulten

O conto de Brian, “The Running Man”, também apareceu nas páginas do agora esgotado Green and Pleasant Land, um suplemento britânico de Chamado de Cthulhu produzido sob licença pela Games Workshop em 1987. “The Mirror of Nitocris” de Brian também pode ser encontrado nas páginas da edição 13 da revista Imagine - onde muito conteúdo foi dedicado ao RPG. A base dessa história foi usada em um capítulo da megacampanha Máscaras de Nyarlathotep.

Eventualmente Brian se afastou dos mitos de Lovecraft e criou seus próprios mitos, dedicando-se a um tema que sempre o fascinou: vampirismo. Iniciando com a série Necroscope (1986), ele construiu uma visão única ao tema de mortos-vivos que por sua vez inspirou a criação de um RPG de mesa Necroscope em 1995. As criações de Brian foram fundamentais não apenas em um, mas em dois famosos jogos de RPG.


Além de seus romances, os variados e perspicazes contos e novelas de Brian apareceram em dezenas de antologias e coleções. Um tanto na linha dos heróis de Robert E. Howard, os personagens de Brian tendiam a ser capazes e fortes, e mais propensos a rir diante do perigo em vez de desmaiar ao ver os monstros de Cthulhu.

Infelizmente, Brian Lumley é mais um dos grandes escritores do Fantástico pouco conhecido no Brasil. Quase nada de sua vasta obra chegou a ser publicada por estas bandas e seu nome é quase desconhecido, mesmo entre os fãs do gênero. Para ler as histórias de Lumley é preciso recorrer a livros importados com seu nome ou ter a sorte de encontrar um dos seus contos em alguma antologia. Foi assim que consegui ter meu primeiro contato com esse Mestre do Terror. 

Eu indico "The Burrowers Beneath" romance sobre terríveis monstros subterrâneos como uma de suas obras mais atraentes, mas toda série dedicada ao seu principal herói, Titus Crow, é de primeira grandeza. Burrowers apresenta Titus Crow, Henri de Marginy, a raça Chthoniana, a Fundação Wilmarth e moderniza as criações de H.P. Lovecraft, funcionando para que os recém-chegados entendam todas as referências feitas. É um romance caótico, mas no bom sentido, que trata de grandes questões, conspirações e horrores primordiais. Francamente, poucos autores conseguiram fazer a transição dos conceitos originais de Lovecraft para os dias atuais com a genialidade de Lumley.

Fica a dica para as editoras nacionais que buscam trazer histórias de qualidade e autores consagrados ainda inéditos. Brian Lumley é um mestre inquestionável que vale a pena conhecer.


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

True Detective: Terra Noturna episodio 3 - Segredos e Mentiras no Alasca


O episódio 3 de True Detective: Terra Noturna começa e termina com gritos de uma mulher, ecoando do passado de Ennis ao presente. Os gritos do início acompanham o início da vida. Quando Evangeline Navarro, durante um flashback de antes do caso Annie Kowtok, é enviada para prender Annie por vandalizar a mina Silver Sky. Ela encontra a mulher procurada em um centro de parto não oficial, onde Annie está ajudando uma mãe angustiada em seu parto. Após retirar o recém nascido, Annie bombeia ar para os pulmões do bebê silencioso, trazendo-o à vida após momentos angustiantes. A criança saúda o mundo com seus próprios gritos de boas-vindas.

Os gritos no final do episódio acompanham o encerramento da vida. No presente de Ennis, Annie já está morta há seis anos e a cidade está pior sem ela. Um crime hediondo envolvendo os cientistas da estação científica de TSALAL pode ter ligação com sua morte, mas ainda é cedo para dizer de que maneira. Um telefone pertencente a Anne e encontrado durante a investigação mostra os últimos e brutais instantes de vida da parteira. Seus gritos ressoam do além-túmulo.

A terceira parte de Night Country, que cobre o quinto e o sexto dias de escuridão no Alasca, não contribui muito para avançar na investigação das mortes dos cientistas de Tsalal: nossos detetives não chegam nem perto de rastrear o principal suspeito, Raymond Clark, e muito menos de fechar o caso. Mas o episódio não está isento de grandes revelações. Esta semana, resolvemos alguns mistérios sobre nossos espinhosos protagonistas, enquanto Terra Noturna lança uma luz sobre a Família de Navarro e o incidente que resultou em sua desavença com Danvers.

Vamos investigar alguns pontos do episódio em busca d epistas e indícios no caso.

1 - Hank reteve informações vitais sobre o Caso Anne K


Confirmando nossa suspeita, Hank Prior, o Delegado da Polícia de Ennis está mais sujo que pau de galinheiro. Ele parece ter manipulado informações e ignorado pistas na investigação da morte de Annie K.

Há algo de muito suspeito em suas ações desde o início da investigação. Hank estava com os arquivos e relatórios do caso em sua casa e não parecia muito interessado em devolvê-lo. De fato, se não fosse seu filho, Pete ter recuperado os documentos é possível que eles sequer fossem encontrados. Agora surgiram indícios de que ele tentava sabotar as investigações retendo informações importantes. 

No início do episódio 3, Hank contrata civis para garantir que Raymond Clark seja capturado e até sugere que o matem, se necessário. Mais tarde no episódio, Navarro e Danvers visitam uma cabeleireira, Suzan, que costumava sair com Annie e Raymond. Quando Navarro pergunta por que ela não contou que sabia do relacionamento, ela revela que telefonou para a delegacia e conversou com Hank. Mas a pista JAMAIS foi investigada!

Ou seja, o Delegado sabia do caso de Annie com o cientista da TSALAL, mas preferiu ignorar a informação, alegando que a mulher tinha uma vida pessoal promíscua. É claro, isso não convence ninguém!

Navarro suspeita que Hank pode estar envolvido com as pessoas poderosas que administram a Mina Silver Sky e que desejavam silenciar a ativista. Ela acredita que o delegado pode estar encobrindo rastros deliberadamente com o objetivo de fazer com que o caso jamais seja solucionado. Parece uma suspeita razoável dados os acontecimentos até aqui. 

Há outro detalhe curioso envolvendo o delegado Prior. Embora ainda não tenha sido revelado muito sobre a noiva russa de Hank, algo parece estranho nisso. Será que ele está sendo chantageado por alguém capaz de impedir a vinda dela? Ou haveria algo mais acontecendo?  

Suspeito que essa personagem terá um papel importante a desempenhar no grande esquema, mas ainda é cedo para dizer qual. 

Independentemente do que esteja acontecendo, tudo indica que Hank acabará enfrentando problemas (ou até sendo eliminado como queima de arquivo) se continuar obstruindo a investigação.

2 - Segredos e Mentiras no Caso Wheeler


Quando Peter pergunta a Danvers o que aconteceu entre ela e Navarro, ela hesitantemente conta sua versão da história. Enquanto narra a história de seu desentendimento, nós assistimos um flashback dos eventos que mostram detalhes propositalmente conflitantes.

Na versão de Danvers um homem chamado William Wheeler costumava abusar frequentemente de uma mulher  a submetendo a violentas surras. Por medo, ela não o denunciava. Enfim, um dia a coisa acaba indo longe demais e ele termina por matá-la. A Chefe de Polícia conta que quando ela e Navarro chegaram ao local do crime, Wheeler e a mulher já estavam mortos. Ele teria cometido suicidio. No entanto, o flashback revela que o assassino estava vivo quando Navarro e Danvers apareceram em sua casa.

Essa discrepância na versão da história de Danvers sugere que ela está mentindo sobre os acontecimentos. Fica claro que Wheeler é um crápula sem um pingo de remorso por ter matado a mulher e que isso deve ter feito o sangue das detetives ferver. Embora o que realmente aconteceu permaneça um mistério, é provável que uma delas tenha matado Wheeler no calor do momento. Considerando que logo em seguida a dupla teve sua briga e Navarro terminou sendo  transferida para a Patrulha, é provável que ela tenha executado o canalha à sangue frio.

Não é a primeira vez em True Detective que os policiais matam um suspeito e tentam criar uma situação para acobertar os atos praticados. Na primeira temporada, Martin Hart atira na cabeça de Reggie Ledoux depois de descobrir as crianças que ele vinha abusando no esconderijo no pântano. Aqui parece que temos uma repetição disso, com a diferença de que Danvers, diferente de Cohle, não está disposta a aceitar de bom grado a coisa. Embora tenha acobertado a execução, isso causou um atrito entre as duas policiais.









3 -  Visões no Gelo


Desde o início dessa temporada, True Detective: Terra Noturna tem sido marcado por estranhas visões e premonições de seus protagonistas.

Dessa vez foi o falecido filho de Danvers, Holden (o dono do ursinho polar de um olho), que surge para Navarro e entrega uma mensagem que parece endereçada à sua mãe. Tudo indica que o mundo espiritual está tentando alertar as detetives à respeito de elementos ocultos no caso que elas estão investigando.

Horas antes de ver uma figura correndo no gelo e bater a cabeça ao tentar alcançá-la, Navarro já tinha experimentado um incidente peculiar. Ao atirar uma laranja no meio da neve, a fruta simplesmente reaparece rolando na sua direção indo parar aos seus pés. Há algo estranho em Ennis e os fantasmas parecem desempenhar um papel importante nessa temporada - quase tão grande quanto desempenhavam em Twin Peaks onde auxiliavam diretamente a investigação.

Primeiro foi Travis Cohle mostrando o local onde estavam os cientistas mortos e agora o pequeno Holden. O que os fantasmas precisam tanto dizer? O que eles querem com os vivos? No segundo episódio Rose mencionou que os mortos procuram os vivos por três razões: para compartilhar segredos, para resolver algo que deixaram em aberto ou para buscá-los. Qual seria a motivação deles nos acontecimentos em Ennis?

Outra questão importante: seriam realmente fantasmas, ou eles não passam de alucinações?

Eu continuo cético de que True Detective deu uma guinada tão forte na direção do sobrenatural com a presença de fantasmas em cada episódio. Ainda tenho uma forte suspeita de que algo em Ennis está causando alucinações e desencadeando visões que alguns personagens acreditam ser autênticas experiências sobrenaturais. Imagino que a verdade virá à tona em algum momento, mas até aqui, mesmo as visões mais reais podem ser falsas, criadas pela mente de quem está imaginando o acontecimento. 

4 - Pistas sobre o romance entre Annie K e Clark


A cabeleireira Susan sabia do romance secreto entre Raymond e Annie. Ela fornece algumas pistas valiosas para compreender a dinâmica do casal.

Para começar, Susan deixa claro que Raymond Clark admirava Annie e que jamais foi violento com ela. Ela lembra que os dois se conheceram depois que Annie a acompanhou ao centro de pesquisa TSALAL onde ela ia para cortar o cabelo dos cientistas. Eles se deram bem desde o começo e logo a química evoluiu para um romance. 

Surpreendentemente, Susan acrescenta que foi ideia de Annie manter o relacionamento em segredo, sugerindo que Annie pode ter tido segundas intenções quando começou a namorar Raymond. Tudo indica que ela pretendia descobrir alguma informação sigilosa ou aprender algo sobre os segredos da TSALAL através do cientista.

Existe a possibilidade de Annie ter convencido Clark a revelar algum detalhe escuso, ou relacionar as pesquisas da estação com as atividades da mina que está envenenando o meio-ambiente nos arredores de Ennis e causando graves problemas para a população local. A ativista pode ter encontrado as provas que procurava e que eventualmente levaram à sua morte no que parece ser uma caverna de gelo (mais sobre isso adiante).

Talvez a razão para Clark manter segredo sobre seu caso com Annie, após a morte da ativista, envolva ele ter ficado magoado por ter sido usado. Se Annie estava espionando o TSALAL através de Clark, o que ela descobriu parece ser algo muito grave. Isso pode ter obrigado Clark a ficar de bico fechado, temendo também ser vítima do mesmo assassino. Imaginando que a pesquisa da estação é financiada pela Família Tuttle, podemos imaginar do que eles são capazes. 

Talvez isso explique porque o celular de Annie estava no trailer de Clark onde ocorriam seus encontros românticos. Clark pode ter descoberto o cadáver de Annie na caverna de gelo, onde recuperou o aparelho que registrou a morte da namorada. Também pode ter sido ele quem moveu o corpo para outro local, garantindo que ela fosse encontrada.

Eu francamente penso que Clark é inocente na morte de Annie. Ele não foi o responsável mas pode saber de algum detalhe crucial, inclusive quem a matou e sob que circunstâncias. Me parece que Clark manteve essas informações até recentemente, quando a culpa por não ter ido à público o levou a uma crise. Nessa hipótese Clark poderia ser o responsável pelas mortes no TSALAL, fazendo com que os membros do time terminassem no gelo enquanto ele sumiu. Essa é uma conjectura, mas pode se provar correta.

Um detalhe adicional antes que eu esqueça e que quase passou desapercebido. Susan menciona a tatuagem como símbolo do Rei Amarelo nas costas de Annie K. Ela afirma que Annie sonhou com aquele símbolo por algum tempo e que esses sonhos só terminaram depois que ela mandou fazer a tatuagem. Susan não sabe o que significa o símbolo, mas ela diz que Clark ficou fascinado por ele.

O que podemos tirar disso? Annie foi visitada pelo Rei Amarelo em seus sonhos? Ele exigiu que ela deixasse na própria pele o sinal como forma de permitir a ela ter alguma paz? Sabemos que o símbolo era tatuado em pessoas que se tornavam vítimas do culto na Louisiana. teria sido isso que aconteceu com Annie em última análise? Ela marcou a si mesma como vítima em potencial? 

5 - O Elemento desconhecido 


Talvez a pista mais importante desse terceiro episódio seja a existência de um membro até então desconhecido da equipe TSALAL.

As detetives tomam conhecimento a respeito da existência do Engenheiro de Manutenção Oliver Tagaq graças a Susan que saiu com o sujeito por um tempo. Descobrem ainda que ele deixou o trabalho pouco depois da morte de Annie K, seis anos atrás. Suspeito? Muito, sobretudo porque segundo Susan, Tagaq quis se perder no gelo.

Outro detalhe prá lá de curioso, não há qualquer menção à respeito de Tagaq nos arquivos e nos registros da TSALAL. Nada! É com se o sujeito simplesmente não tivesse feito parte da equipe e não existisse.

Não é fácil achar o engenheiro, mas eventualmente, graças à ajuda de Eddie Qavvik, Navarro descobre seu paradeiro atual. Tagaq vive e trabalha como caçador num lugar isolado e recebe as detetives com uma espingarda no colo deixando claro que ou é um sujeito muito paranoico ou alguém que tem culpa no cartório. Por que esse sujeito está tão preocupado a ponto de se armar para esperar a visita de policiais? O que ele sabe? E o que está ocultando?

Oliver parece sincero em sua surpresa quando Navarro revela que os membros do TSALAL (seus antigos companheiros) morreram em um estranho incidente na neve. Mas é realmente curioso que a primeira coisa que Tagaq pergunta é: "Anvers está morto"?


Ele não pergunta à respeito dos demais, apenas se o líder da expedição ainda está vivo e quando fica sabendo que está hospitalizado e em péssimo estado, se apressa em expulsar as detetives recorrendo a espingarda para isso. 

Por que Oliver Tagaq deixou a TSALAL? Por que ele estava tão preocupado com Anvers Lund? E qual poderia ser o seu envolvimento na morte de Annie K?

Por um lado Tagaq se apresenta como um sujeito preocupado com as tradições inuit, chegando a provocar Navarro questionando sobre seu "nome verdadeiro" e depois a provocando, insinuando que ela própria não sabe, como se a sua descendência fosse algo secundário. Entretanto, isso pode ser uma cortina de fumaça... Tagaq pode ser fiel aos seus empregadores e ter se afastado do TSALAL para não comprometer a estação (e seus patrocinadores, a Família Tuttle) após a morte de Annie K. Vai por mim, aí tem!

Essa aliás é minha teoria favorita no momento: o envolvimento direto de Oliver Tagaq na morte de Annie K.

Mas há algo mais! Uma pista vital parece ter sido sugerida claramente na cena em que Danvers e Navarro discutem sobre entrar na casa onde Tagaq está escondido. Em primeiro plano é possível ver um par de sapatos de neve com pregos pendurado do lado de fora. Esse tipo de equipamento é fixado sobre as botas e usado para facilitar o deslocamento sobre neve fofa evitando que a pessoa afunde. 


No primeiro episódio ficamos sabendo que Annie K morreu em virtude de 32 perfurações em seu corpo deixadas por um objeto desconhecido. Os ferimentos tinham a forma de estrela, ou seja uma perfuração profunda irradiando ferimentos semelhantes a rasgos na pele. Seria de se supor que um legista identificasse ferimentos dessa natureza como provocados por uma faca. Mas o relatório atesta que a arma é desconhecida. Por isso eu digo: foi um sapato de pregos!

Se isso for verdade, a arma do crime estava bem diante do nariz das detetives, pendurada na entrada da cabana de Oliver Tagaq.

6 - A Mãe de Navarro foi assassinada


A história de vida de Navarro revela porque ela deseja tão obstinadamente descobrir o responsável pela morte de Annie K. Não se trata apenas de dever profissional ou admiração pela ativista, há um motivo mais profundo.

À pedido de Navarro,  Eddie Qavvik se dispõe a procurar por Tagaq desde que a policial revele detalhes sobre seu passado. Embora Navarro à princípio se mostre defensiva, ela acaba aceitando trocar informações em um quid pro quo. Ela conta que seu pai costumava abusar fisicamente da esposa, o que a levou a fugir com as duas filhas para o Alasca. Entretanto a saúde mental da mãe começou a declinar cada vez mais rápido e um dia, ela terminou indo embora. Pouco tempo depois, ela apareceu morta, vítima de um assassino que jamais foi capturado.

Sabemos através de flashbacks que a mãe de Navarro sofria de uma doença mental, supostamente esquizofrenia, já que ela mencionava ouvir vozes. Parece haver um componente religioso que ela evitou mencionar no quid pro quo, já que Navarro parece estar em conflito com suas crenças religiosas como vimos anteriormente (quando ela é questionada sobre acreditar em Deus e quando encontra um crucifixo no carro patrulha, o que resulta em dois flashbacks traumáticos.

Tudo indica que a doença mental de Jules, a irmã de Navarro, foi passada de mãe para filha, o que é razoável de se assumir, visto que esquizofrenia pode ser hereditária.

7 - O povo de Ennis está protestando contra a Mina


Continuamos tendo insights à respeito de algo muito grave acontecendo em Ennis.

No terceiro episódio, a crise ambiental ganha contornos bem claros quando vemos uma reunião de cidadãos preocupados de Ennis, majoritariamente formada por nativos, que estão protestando contra as atividades da Mina Silver Sky. Anteriormente ficamos sabendo de pessoas que morreram de câncer causado pelas condições nocivas do trabalho na mina. Também já havíamos ouvido falar da cor da água que saía escura das torneiras nas casas na vizinhança conhecida como "As Aldeias".

Nesse episódio vemos Danvers constatando que os rumores são verdadeiros. A água no banheiro de uma casa sai escura e com um cheiro desagradável. Também é possível ver no background da reunião de protesto fotografias de animais cegos, magros ou doentes, teoricamente sofrendo efeitos causados pela mesma água contaminada. Finalmente, ficamos sabendo de um bebê recém nascido que não resistiu e acabou expiando em face de doenças congênitas.

Está claro que a questão ambiental é central nesse caso! 

Não apenas a ativista Annie K estava em busca de respostas, mas estava disposta a ir ate as últimas consequências para encontrar os culpados e expor os responsáveis. Imagino que possa haver uma ligação direta entre os donos da Mina Silver Sky e a TSALAL. Talvez, o conglomerado Tuttle National seja o real proprietário de tudo e os estudos da estação sejam voltados para outras atividades além das divulgadas.

Talvez TSALAL esteja lá para fazer algum tipo de estudo secreto. Algo que Annie K acabou descobrindo graças ao seu relacionamento com Raymond Clark. Isso aliás parece bastante razoável de ser assumido como uma das causas da morte da ativista e da loucura que parece ter consumido o cientista.

Apenas mais um adendo interessante nessa cena da reunião de protesto.


Na porta do galpão usado para hospedar a reunião vemos o desenho de uma mulher azul com longos cabelos parecendo tentáculos. Eu tenho quase certeza de que o desenho é de Sedna, a Deusa Inuit tratada como uma divindade que rege os mares, mas que também é uma força de retribuição e vingança. Eu continuo apostando as minhas fichas que Sedna é a representação do que as pessoas chamam de "Ela" e que mencionam ter despertado.

Não acho que Sedna irá "aparecer" fisicamente no episódio, mas acredito que as mortes causadas em TSALAL possam ser atribuídas a ela já que todas as vítimas eram forasteiros, possivelmente envolvidos na morte de uma jovem nativa. Para mais sobre Sedna, leiam o artigo sobre o primeiro episódio de True Detective: Terra Noturna.     

8 - Exame de Veterinário


Os fatos sobre a morte dos cientistas só poderão ser obtidos depois que o gelo em que eles estão envolvidos derreter por completo. O legista encarregado da autópsia está sendo aguardado, mas até lá, existem apenas suposições sobre o que matou esses infelizes.

Contudo, algumas destas são bastante interessantes, ainda que venham de um exame superficial feito por Vince, primo de Pete que é veterinário (!!!). Ao menos o sujeito costuma trabalhar com animais de grande porte, o que pode ajudar.

Após analisar os corpos, Vince lança suspeitas de que os cientistas não morreram de hipotermia como todos imaginavam até então; eles parecem ter sucumbido ao medo. Terror extremo pode causar alterações graves e até provocar a morte de uma pessoa através de um ataque cardíaco fulminante. Em geral, condições cardíacas pré-existentes precisam estar presentes, mas isso não é uma regra. O stress cardíaco ocasionado por repetidos choques pode resultar num ataque maciço.   

No primeiro episódio, vimos uma manada inteira de caribous aterrorizada correndo para a própria morte em um desfiladeiro. Poderia essa ser uma metáfora do que ocorreu com os cientistas? Eles foram expostos a algo tão aterrorizante que provocou a morte de todos eles? Teriam sofrido com um surto coletivo, como os animais que acabaram por se suicidar?

Poderia Clark sozinho ter feito algo tão assustador que provocou a morte simultânea de vários homens por ataque cardíaco? Ou será que os cientistas foram afetados por alguma substância ou microorganismo antigo que eles desenterraram do gelo?

Com os indícios que temos, é justo dizer que os cientistas sofreram de uma psicose coletiva que os fez ir para campo aberto, se despir e congelar. O veterinário, no entanto deduz que os pesquisadores, com exceção de Lund, estavam mortos antes de atingir o ponto de congelamento. Ele explica que os animais que morrem de hipotermia geralmente parecem sucumbir em paz, apenas dormem, mas que os cadáveres parecem ter experimentado algum tipo de choque. Basta ver a expressão de terror nos corpos para perceber que eles morreram em meio de um completo desespero.

Embora Vince não seja capaz de explicar exatamente o que causou as mortes, ele suspeita que uma autópsia vai revelar uma série de ataques cardíacos. Muito curioso, sobretudo quando ligamos essa pista às palavras de Anders Lund que diz...


9 - "Ela está lá fora"


Perto do fim do episódio 3, Navarro e Danvers são chamadas para ir às pressas ate o hospital onde Anders Lund está sendo mantido em tratamento intensivo. A condição dele esta piorando e a gangrena se espalhou rapidamente, "não é uma visão bonita" alerta a médica antes de levá-las até o quarto onde o sujeito padece.

Anders esta em condições lastimáveis, teve duas pernas e um braço amputados. Seus gritos de dor ecoam pelos corredores e a enfermeira insiste que ele precisa ser sedadoNo entanto, Danvers tenta fazê-lo falar perguntando quem os atacou e o que aconteceu na fatídica noite na estação. 

Anders não revela nenhum nome, mas diz as palavras "ela está lá fora", o que lembra o "ela está acordada" de Raymond Clark no primeiro episódio. Ele também diz que "ela veio nos buscar no escuro", aparentemente implicando que a tal entidade desconhecida "Ela" de alguma forma despertou em busca de vingança. Tudo sugere que os cientistas foram assustados por essa "entidade" e que ela os fez correr em desespero para fora da estação onde eles encontraram seu fim.

Eu continuo apostando em uma alucinação que causou o surto psicótico, embora não tenha informações suficientes ainda para apontar se isso foi causado propositalmente ou e foi efeito de um acidente.

Mas as surpresas dessa entrevista não param por aí...

10 - "Olá, Evangeline"


Anders Lund é responsável por um dos momentos mais macabros da série até o momento, um que coloca True Detective: Terra Noturna direto no caminho do sobrenatural.

Enquanto Danvers se vê forçada a deixar o quarto para apartar uma briga entre os caçadores que estão em busca de Clark, Navarro acaba ficando sozinha com Lund. Contudo, logo descobrimos que os dois não estão exatamente sozinhos, já que uma presença misteriosa se manifesta possuindo o corpo do ex-Chefe da TSALAL.

O pesquisador de repente senta na cama e assume uma postura ereta dizendo que a mãe de Navarro está esperando por ela. A mensagem é dúbia e a identidade da entidade que tomou o corpo de Lund permanece um mistério. Contudo, lembrando que Navarro teve uma conversa estranha com Danvers na qual dizia que às vezes desejava simplesmente "sumir" e "desaparecer para sempre", a impressão geral é um tanto pessimista.

Estariam os fantasmas dizendo para Navarro que ela em breve irá se juntar a eles? Que ela será bem vinda entre eles? Ou seria algo mais terrível: Um aviso de que ela terá o mesmo fim de sua mãe, uma morte violenta nas mãos de um assassino?

Seja lá qual for a resposta, a cena é carregada de um sentimento de angústia niilistas digna da primeira temporada e dos monólogos iluminados de Rusty Cohle. Uma vez transmitida a mensagem, o corpo de Lund parece não suportar a experiência e ele acaba morrendo.


11 - Os Momento Finais de Anne K


Mas isso não é tudo...

Antes do episódio terminar temos uma última e bombástica informação que nos deixa com a proverbial pulga atrás da orelha. E esta pista vem do telefone celular que pertencia a Annie K, encontrado no trailer de Clark. O aparelho uma vez desbloqueado revela um vídeo gravado pela própria Annie daqueles que podem ter sido os seus últimos instantes de vida.

No vídeo, Annie parece estar andando no interior do que parece ser uma caverna de gelo e afirma ter encontrado algo. Ela não explica do que se trata, mas a voz excitada sugere se tratar de uma coisa muito importante, possivelmente a prova do envolvimento da mina Silver Sky em alguma atividade criminosa. Porém, antes que possa revelar o que encontrou, ela é atacada por alguém. Embora o episódio de True Detective: Night Country termine sem revelar onde Annie estava, o que estava procurando e quem a matou, é possível que alguém reconheça que lugar é aquele - e os investigadores cheguem ao local onde Annie K foi morta.

Na cena final que antecede os créditos, Navarro e Danvers ouvem gritos de gelar o sangue e se perguntam quem pode ser o responsável por esse crime brutal.

*    *    *

Bem Detetives, é isso.

O episódio foi excelente, mas ao mesmo tempo que ele forneceu muitos indícios e pistas criou a sensação de que só estamos começando a arranhar a superfície do mistério. Há muito a ser descoberto e muitas peças que ainda não se encaixaram. Eu apenas espero que todas elas possam ser encaixadas e que a conclusão forneça um fechamento adequado.

Confesso que meu maior temor para essa série é que ela termine com uma solução simples para algo que parece incrivelmente complexo. A terceira temporada, que vinha bem ao longo dos primeiros sete episódios termina de uma maneira pouco satisfatória e frustrante. Espero que aqui seja diferente.

estamos na metade do caminho, fiquem conosco...  


 




terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Lugares Estranhos - Belchite, a Cidade Fantasma devastada na Guerra Civil espanhola

A seguir temos um dos sítios mais sinistros da Espanha, um lugar assustador cuja história chocante remonta ao conflito que dividiu o país na década de 1930. 

A localidade assombrada chamada Belchite, se localiza na região de Zaragoza em uma área isolada do país. Ela é bastante conhecida por sua história de violência e brutalidade, tendo sido palco de uma das mais sangrentas batalhas travadas durante a Guerra Civil espanhola. 

Tudo começou em 1937, quando o Exército Nacionalista, que controlava a cidade foi vítima de uma implacável ofensiva por parte dos Republicanos. Em maior número e mais bem equipados, estes marchavam para Zaragoza e a cidade de Belchite se tornou um dos últimos focos de resistência em seu avanço. Quando chegaram aos muros da cidade o comandante exigiu sua rendição imediata. Uma guarnição que controlava a cidade se negou a depor armas e se entrincheirou. A resistência foi brava, mas na mesma proporção que os defensores demonstraram grande coragem, também exigiram que a população ficasse ao lado deles. Nenhum civil tinha permissão de entrar ou sair, nem mesmo mulheres e crianças. 

Logo a situação ficou insustentável!

Com a chegada de artilharia pesada e aviões a coisa piorou drasticamente. Projéteis eram disparados dia e noite para dentro de Belchite demolindo casas e fazendo muitas vítimas civis. Aviões faziam mergulhos rasantes sobre a cidade e despejavam uma chuva de bombas incendiárias. O bombardeio maciço durou nada menos do que 14 dias, deixando um saldo de 5 mil mortos, sendo que destes pelo menos 4 mil eram não combatentes. Um levante popular que tencionava se render foi duramente repelido e muitas pessoas foram executadas por pelotões de fuzilamento.

No fim, as defesas acabaram sendo rompidas e os atacantes entraram na cidade matando indiscriminadamente quem achavam pela frente, acreditando que a população era favorável aos Nacionalistas.

A cidade de Belchite foi reduzida a ruínas fumegantes com cadáveres insepultos em todo canto, um inferno devastado por artilharia pesada. Não é de se surpreender que ele tenha sido abandonado pelos sobreviventes que vivenciaram esse terror. De fato, o lugar foi evacuado e não foi permitido que as pessoas levassem nada, nem que enterrassem seus entes queridos ou carregassem os feridos. Muitos destes foram simplesmente fuzilados, os corpos atirados em fogueiras ou jogados em covas rasas. O massacre de Belchite se tornou um dos capítulos mais medonhos da Guerra Civil Espanhola, um conflito marcado por atrocidades chocantes praticadas por ambos os lados.

Posteriormente, alguns sobreviventes ou parentes receberam permissão de retornar às ruínas de Belchite para procurar os restos de algum ente querido, mas a tarefa foi no mínimo complicada. O governo decidiu simplesmente reunir todos os ossos espalhados pelo terreno, cavar uma vala e sepultar as ossadas juntas.


É surpreendente, mas ainda hoje, os prédios danificados pela guerra continuam de pé no mesmo local. A cidade é uma lembrança triste de um período em que a Espanha se viu dividida ideologicamente. Algumas edificações resistiram, pois foram erguidas com pedras e material resistente, mas não restava muito além de paredes arruinadas, pilhas de pedras, chaminés e tijolos desconjuntados. Ainda assim, é possível discernir os contornos da velha igreja, da praça e da prefeitura, além de muitas casas detonadas pelos projéteis.

A essa altura, você deve estar se perguntando porque esse lugar não foi simplesmente demolido e transformado em algo menos horrível. A resposta é simples: História. Belchite é um dos últimos marcos do período e embora muitos espanhóis queiram esquecer dessa guerra fratricida, existe o comprometimento com a história. Colocar abaixo Belchite seria acabar com uma lembrança que embora amarga era necessária para reconstruir o país.

Muito bem, a explicação é convincente, mas não causa nenhuma surpresa informar que a cidade é considerada incrivelmente assombrada. Todas as coisas horríveis que aconteceram aqui deixaram uma mácula no solo, no ar e nas ruínas como um todo, uma mácula que muitos afirmam se manifestar constantemente.

Um fenômeno comum relatado por visitantes diz respeito aos sons fantasmagóricos de batalha que continuam ecoando quase um século depois de silenciados. São ruídos de bombas, tiros, explosões abafadas e até de aviões. Também há o som de canções, gritos e gemidos de pessoas que teriam morrido no sítio. Esses sons são tão claros que as pessoas que os ouviram afirmam ser algo surreal, que causa arrepios e deixa uma sensação desconcertante.


Também são frequentemente avistados soldados espectrais em uniformes da década de 1930, bem como vários civis e figuras sombrias menos definidas. Há personagens conhecidos, como um soldado com uniforme rasgado e coberto de sangue que corre gritando "vamonos hombres!" para aliados invisíveis. Também há uma mulher espectral carregando uma criança em seus braços e pedindo socorro a todos que encontra, sem se dar conta de quem são seus interlocutores. Finalmente, existe um fantasma recorrentemente visto nos escombros que xinga, amaldiçoa e até investe contra as pessoas. Este é chamado "el Capitan", porque em teoria veste um uniforme de oficial e tem em suas mãos uma pistola Mauser. O capitan chegou a ser reconhecido como Esteban Aristo, um dos defensores da cidade que conduziu a defesa e que supostamente continua a fazê-lo pela eternidade apesar de estar morto.

Ocasionalmente são relatados fenômenos ainda mais sinistros no interior das ruínas. Muitas pessoas mencionam serem empurradas, esbofeteadas ou golpeadas por mãos invisíveis. Este contato espectral é geralmente descrito como algo desagradável e frio. Há aqueles que mencionam um fedor de carne queimada, de fumaça e de pólvora que pode ser sentido sempre que o vento sopra pelas ruas desertas.

Não são poucos os relatos de pessoas afirmando terem sido tomadas por um pavor incontrolável forte o bastante para fazer os visitantes fugirem aos gritos. Algumas pessoas contaram sentir como se seus corpos estivessem sendo puxados ou empurrados, ou ainda perdendo o controle de seus membros por algum tempo. Os fantasmas também tendem a falar através de pessoas sensitivas, que gritam, choram e se desesperam. Há casos de pessoas que embora desconhecessem o idioma local, misteriosamente gritavam em espanhol ou em dialetos que jamais haviam ouvido.


Um incidente como este foi relatado pelo jornalista e pesquisador Carlos Bogdanich, que visitou Belchite em 1986 junto com uma equipe de filmagem do programa de televisão Cuarta Dimensión. Ele afirmou que enquanto estavam lá, uma força desconhecida o dominou e falou através dele pedindo socorro e implorando para que membros de "sua família" fossem encontrados.
 
Ele diria sobre isso:

"Eu nunca pensei que algo assim pudesse acontecer. Foi algo inesperado! Eu perdi a consciência e não me recordava de nada, mas quando vi a filmagem na qual eu falava com uma voz que não era minha, fiquei muito assustado. Esse lugar causa uma sensação inenarrável de perda e assombro. Você sente o peso da tragédia e não tem como evitar a sensação esmagadora e deprimente que reina aqui. Belchite é um dos lugares mais tristes que eu já visitei... suponho que ninguém é capaz de ficar insensível a sua aura".

Várias equipes de televisão visitaram Belchite ao longo dos anos. 

Uma destas obteve várias leituras de EVP (Electronic Voice Phenomena), que foram apresentados ao vivo em um programa de televisão. Os sons eram muito claros e perfeitamente compreensíveis, incluindo gritos, tiros e explosões. A Plaza de la Cruz, a vala comum que serviu para sepultar os ossos e as duas igrejas da cidade são consideradas particularmente assombradas, com a atividade mais intensa relatada a partir desses pontos. 


Esses elementos fantasmagóricos tornaram Belchite um destino popular para pesquisadores paranormais e parapsicólogos do mundo inteiro. Ele era tão famoso por seus fantasmas quanto por seu cenário pitoresco e sua história sombria. Em 1998, a Secretaria de Resgate Histórico da Espanha passou a negar visitas ao local, alegando que visitantes estavam causando danos ao local. Também foi dito que algumas pessoas estavam se aproveitando da história local para obter lucro e fama. Hoje as ruínas são protegidas e a permissão para visitá-las passa por uma análise criteriosa.

O ambiente misterioso de Belchite atraiu o cineasta mexicano Guillermo del Toro que conseguiu autorização do governo espanhol para filmar algumas cenas de seu filme "O Labirinto do Fauno" (Pan´s Labyrinth) nas ruínas da cidade. Del Toro descreveu a experiência como assustadora e contou em entrevista que, embora não tenha visto ou ouvido nada sobrenatural, sentiu uma forte presença no ar - como se algo estivesse ali com a equipe de filmagem.

Com uma história dessas, difícil não sentir tal coisa...