





Durante séculos, pessoas que viajavam pelas estradas da Índia corriam um risco inimaginável. Os membros de uma seita cuja origem remontava ao século XIII espreitavam em todo canto. Observavam, planejavam emboscadas, capturaram suas vítimas, as levavam para um de seus esconderijos e as assassinaram. Matar era uma espécie de arte sagrada, a derradeira prova de devoção.
A sociedade cujos rituais eram mantidos em segredo congregava diferentes pessoas, de todas classes sociais, hindus e muçulmanos unidos sob a mesma crença fanática. Eles acreditavam ser filhos da Deusa Kali, a Mãe Negra do folclore Hindu.
Segundo a crença, Kali era responsável por enfrentar demônios devoradores de homens vindos do submundo. Quando ela cortou um desses demônios ao meio com sua espada, descobriu que cada gota de sangue que vertia se transformava em outro demônio. Face a horda diabólica, Kali criou dois guerreiros com seu suor e os incumbiu de ajudá-la em sua luta. Para não correr o risco de aumentar as fileiras diabólicas, ela deu a cada guerreiro uma tira de pano chamado "rumal" para estrangular os inimigos sem verter seu sangue. Depois de eliminar todos demônios, Kali instou os seus dois guerreiros e prosseguir em sua tarefa sagrada de geração em geração.
Os guerreiros deveriam espalhar a adoração de Kali entre aqueles que desejavam seguir seus passos. Eles fariam o trabalho da Deusa e seriam recompensados pois o roubo das vitimas era um de seus mandamentos.
[Como curiosidade, a palavra inglesa "thug" usada para designar bandidos ou rufiões deriva diretamente do termo Thuggee]
Na maior parte do tempo, os Thuggees viviam uma existência comum sem chamar a atenção. Eram artesãos, comerciantes, soldados... pessoas normais que compartilhavam a devoção cega à Kali em um dos remotos templos escondidos em florestas ou ruínas. Nestes centros de adoração se entregavam a rituais de sangue que misturavam danças, cantos e sacrifícios. Uma das regras impostas pela Deusa é que cada fiel tinha uma cota de assassinatos a ser atingida. Uma carnificina que se confundia com missão sagrada e precisava ser cumprida para não desagradar sua divindade.
Os Thuggees agiam longe de suas casas para evitar o reconhecimento e contavam com células organizadas de dez a cinquenta indivíduos. Sua tática preferida envolvia enganar suas vitimas, atraídas para algum lugar deserto mediante engodo. Os Thuggees se misturavam a caravanas de mercadores ou bandos de peregrinos aguardando surgir a oportunidade para cometer assassinato. Quando o momento chegava, os assassinos se aproximavam sorrateiramente, passavam os rumal pelo pescoço e apertavam, murmurando preces à Kali. Eles sentiam a vida se esvair do corpo de suas vítimas, um momento de profundo fervor religioso.
Antes de uma expedição, os Thuggees se reuniam num templo onde o Sacerdote sacrificava um carneiro diante de uma imagem de Kali manchada de sangue e coberta com flores. Aos pés da macabra efígie ficavam suas ferramentas sagradas: corda, faca e picareta. A faca e a picareta eram usadas para a mutilação ritual dos cadáveres. Presumia-se que a mutilação facial agradava à Deusa e dificultava a identificação das vítimas. As cordas eram usadas para capturar vítimas escolhidas que eram imobilizadas com laços sagrados que apenas os membros da ordem sabiam desatar.
Os prisioneiros, sempre em dupla, eram levados até um templo de Kali onde ficavam presos por dias, semanas ou mesmo meses. Assistiam aos rituais e aos poucos eram preparados para assumir, eles próprios um lugar na seita. Se um deles aceitasse se tornar um Thuggee era obrigado a matar o outro. Se ambos aceitassem, eles eram forçados a escolher entre eles, quem mataria e quem seria morto. Se não chegassem a uma conclusão, o Sacerdote escolhia o papel que cada um iria desempenhar. O sobrevivente fazia então uma promessa de servir Kali, bebendo o sangue da sua primeira vítima e arrancando o coração de seu peito. A promessa não podia ser desfeita, sob pena de sofrer a Ira da Deusa: amaldiçoado em vida e sofrendo na eternidade. Sua família seria perseguida e sua alma devorada até o fim dos tempos.
O novo membro da Irmandade jurava lealdade, doava parte de seus bens e ganhava um nome secreto pelo qual os irmãos o conheceriam. Dali em diante ele era um Thuggee e como tal estava obrigado a pagar o imposto de mortes e servir Kali em toda sua glória profana.
A Seita possuía um código de conduta único que limitava suas vitimas. Mulheres geralmente eram poupadas em deferência ao sexo de Kali, assim como homens santos, artesãos, músicos e poetas. Os leprosos e aleijados também estavam isentos, pois uma vítima devia ser pura. Não querendo arriscar represálias de seus governantes coloniais, os assassinos raramente molestavam europeus, mantendo seus ataques quase que exclusivamente contra a população local.
Em todo subcontinente indiano os Thuggees tinham fama por serem implacáveis e mortais. Viajantes temiam se afastar e evitavam o contato com estranhos, entretanto, qualquer pessoa podia ser secretamente parte da irmandade. Ao longo de séculos, os Thuggees colecionaram inúmeras vítimas fatais. Estima-se que mais de um milhão de pessoas tenham perecido nas mãos dos Thuggees antes que uma campanha contra eles tivesse início.
Em 1826 o Coronel britânico William Sleeman, Adminstrador Civil do distrito de Jubbulpore, na Índia Central deu início a supressão da seita. Os britânicos sabiam da existência de irmandades semelhantes, mas julgavam que suas ações eram isoladas, realizadas por bandos de ladrões que matavam simplesmente para roubar as vítimas. Quando Sleeman capturou três criminosos procurados e os interrogou, eles começaram a revelar os meandros de sua organização.
Os britânicos ficaram profundamente chocados quando tomaram ciência do tamanho da Seita e do âmbito de sua atuação. Os Thuggees devotos a Kali estavam em todas as maiores cidades da Índia. Informantes revelaram a localização de templos e o exército colonial foi mobilizado para fazer prisões e desbaratar as células. Grupos inteiros de Thuggees foram cercados e presos, mas muitos preferiam o suicídio antes de serem capturados. Na cidade de Saugor, mais de uma dúzia de Thuggees que haviam sido cercados em um templo se deixaram estrangular até a morte pelo seu sacerdote que em seguida consumiu uma dose de veneno. Ao entrar no templo os soldados encontraram todos mortos.
Os Thuggees começaram a lutar contra os britânicos: realizaram emboscadas, eliminavam alvos militares e tentaram criar um regime de medo na população. Também tentaram insuflar um levante urbano, obrigando pessoas a pegar em armas e desafiar a autoridade europeia.
Em Bengala, os Thuggees fizeram vítimas entre colonos e nativos que trabalhavam para eles. A resposta dos ingleses foi imediata com a destruição de vários templos e prisão de milhares de pessoas suspeitas de participar ou simpatizar com a Irmandade. Em Madras as prisões ficaram lotadas de suspeitos, em Calcutá, berço de uma das maiores células, houve massacres e enfrentamento. Um templo foi destruído por tiros de canhão, a estátua de Kali arrastada para fora e reduzida a pó por golpes de marreta.
No final, milhares de pessoas foram julgadas sem muitas sutilezas jurídicas, com a distribuição de punições rápidas e rigorosas. Dos 3689 Thuggees julgados até 1840, quase 500 foram executados na forca. O restante foi condenado a prisão perpétua, exceto os informantes que concordavam em apontar outros membros da Seita.
Uma prova de bravura para os membros era reconhecer suas ações e desafiar os ingleses admitindo serem parte da Seita. Durante os julgamentos, acusados admitiam alegremente a autoria da morte de centenas de pessoas. Em Bangalore, um guia de caravana de 45 anos, afirmou ter matado ao menos 250 pessoas desde sua iniciação aos quatorze anos. Dezenas de cemitérios clandestinos à beira de estradas foram descobertos.
Em 1848, após um breve período de tranquilidade, um novo surto de homicídios irrompeu nas principais cidades indianas. Os Thuggees organizaram um levante armado no qual executaram várias testemunhas e informantes que os haviam delatado. Os britânicos agiram rapidamente e capturaram mais 651 homens que receberam julgamento e condenação. As ações também destruíram templos que operavam clandestinamente e que foram incendiados até o chão.
O Culto de Kali foi oficialmente declarado ilegal e autoridades religiosas hindus, muçulmanas e sikhs concordaram em decretar que a adoração a esse aspecto da Deusa era uma atitude condenável. Com efeito a adoração de Kali foi drasticamente reduzida e o culto perdeu muitos dos seus seguidores.
O último assassino Thuggee conhecido foi enforcado em 1882.
Apesar da Seita não ter realizado mais nenhuma ação coordenada, circulavam boatos de que seus membros continuaram agindo no submundo até meados do século XX. Quadrilhas criminosas se faziam passar por Thuggees e cometiam assassinatos usando os métodos da Seita para causar choque e despertar o medo entre seus rivais. Durante a Luta pela Independência vários movimentos de libertação também usaram os métodos dos Thuggees como forma de intimidar seus opositores colaboracionistas.
Mesmo hoje em dia, o Culto da Deusa Kali mantém seu status como "bicho papão" na sociedade indiana, desafiando as crenças e usando as superstições a seu favor. Os Kapalikas, o último "revival" dos Thuggees nos dias modernos supostamente se infiltraram em grupos criminosos adotando métodos cruéis e impiedosos similares aos empregados pelos discípulos de Kali. Esses Kapalikas foram duramente reprimidos, mas há boatos que eles ainda atuam em áreas rurais da Índia onde o medo dos Thuggees ainda existe.

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Voltando ao tema Escoadouros do Mal, aqui está uma descrição de um dos maiores, mais conhecidos e estudados do mundo, que se localiza na gigantesca metrópole indiana de Calcutá.
Para quem estiver curioso, "Song of Kali" foi escrito na década de 1980 e ganhou vários prêmios internacionais de literatura. A premissa é relativamente simples envolvendo um casal ocidental que viaja para a Índia (mais especificamente Calcutá) planejando escrever uma reportagem sobre um famoso poeta indiano que teria morrido anos atrás. Curiosamente poemas assinados por ele e com o mesmo estilo continuam sendo escritos por um autor desconhecido. Ansiosos para saber se ele ainda está vivo (ou se alguém está se fazendo passar por ele) o casal se envolve numa investigação bizarra que os leva aos porões de Calcutá e expõe todo horror da metrópole indiana.
Eu achei bastante interessante pela proposta que remete ao Horror Cósmico em dados momentos, tratando a cidade e entidades ancestrais que habitam seu submundo como uma ameaça à sanidade e razão.
Mas enquanto esse projeto não sai, eis aqui o roteiro do Horror de Calcutá. Sugiro para os que não leram procurar o artigo sobre Escoadouros do Mal para saber o conceito desse fenômeno.
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A SOMBRA SOBRE CALCUTÁ
Antes disso, Calcutá já havia presenciado momentos dramáticos em sua história: guerra, doença, fome e morte. Os quatro cavaleiros do apocalipse galoparam pelas pradarias de Calcutá e pisotearam repetidamente o seu solo. No século XVI, a cidade enfrentou uma seca desoladora de três anos, no século seguinte um incêndio consumiu boa parte dos prédios. Epidemias de cólera, tifo e outros vetores também causaram enormes baixas. Mais recentemente a cidade foi invadida, bombardeada pelos japoneses na Segunda Guerra e sofreu com atos de terrorismo de milícias maoístas.
No período após a Independência, Calcutá tentou se tornar a Capital do estado independente de Bengala. O movimento nacionalista foi duramente reprimido pelo exército indiano que tomou a cidade em um novo banho de sangue. Nos anos 60 Calcutá se tornou centro de novas disputas entre hindus e muçulmanos que constituíam boa parte da população local. Em 1961, parte da população muçulmana responsável por uma fatia considerável da economia partiu para o norte fundando o Bangladesh. A pobreza se alastrou a partir de então com famílias inteiras perdendo seus empregos e sendo arremessadas para a extrema miséria. A Guerra Indo Paquistanesa terminou por piorar ainda mais a situação com uma explosão demográfica de refugiados. Calcutá depois disso se converteu num fervedouro humano onde as imagens de amontoamento, decrepitude, doença e morte, se tornaram habituais.
Mas quando exatamente o Escoadouro do Mal de Calcutá surgiu, e quando a cidade passou a ser chamada pelos seus próprios habitantes de "Cidade do Horror"? Não é fácil determinar o momento exato, mas Calcutá sempre foi acometida por fatores aviltantes que fazem dela um dos lugares mais perigosos e insalubres do mundo.
Para começar, Calcutá é um antro de injustiça e desigualdade. O regime de castas, que foi oficialmente abolido em 1950, na prática, segue em vigor, condenando uma parcela significativa da população a viver como cidadãos de terceira classe. São pessoas com direitos reduzidos, marginalizadas e excluídas do convívio social. Calcutá tem a maior população de Dalits ou "intocáveis" em toda Índia e a segregação é uma triste realidade para essas pessoas.
A pobreza extrema é outro elemento que chama a atenção em Calcutá. Se a Índia como um todo é uma nação de extremos, onde ricos são muito ricos, e pobres muito pobres, em Calcutá a desigualdade é ainda mais gritante. Em nenhum outro lugar do mundo a população de rua é tão numerosa. Verdadeiras legiões de mendigos se espalham pelos becos, ruínas abandonadas e ruas apinhadas da cidade. A situação é tão absurda que existe uma espécie de sindicato que congrega os mendigos e controla onde e em que horários cada um pode operar. É virtualmente impossível frequentar um lugar onde não haja pessoas pedindo esmola. As palavras "baba, baba!" são uma ladainha repetitiva que é ouvida em todo canto, junto com o tilintar de pratinhos com moedas. Os mendigos disputam espaço e muitos deles praticam automutilação para ganhar assim a simpatia das pessoas, o que dá ensejo a verdadeiras procissões de pessoas com feridas purulentas.
Estrangeiros são fortemente advertidos a JAMAIS abrir a carteira ou dar moedas para mendigos em Calcutá, do contrário podem ser cercados, derrubados e pisoteados por uma multidão de pedintes. A situação é tão caótica que em 1989 três turistas alemães morreram pisoteados por uma horda de mendigos que os cercavam. Tudo porque desobedeceram a regra de não dar dinheiro aos mendigos. Os guias de turismo tendem a recolher moedas que os estrangeiros queiram dar e estes as entregam sabendo como proceder. Em Calcutá caridade pode ser uma prática letal!
A cidade é dominada por imensas favelas que se esparramam pela paisagem a perder de vista. As habitações mais comuns são simples casebres de madeira e tijolo cru, com telhados de zinco, sem saneamento, sem água e sem energia elétrica. Cada casa é a habitação de uma família, geralmente numerosa. O esgoto sem tratamento corre à céu aberto lançado nas ruas tortuosas onde as crianças brincam. Ele escorre em línguas negras se misturando às fontes onde a água é recolhida em odres para consumo. Nessas mesmas fontes as pessoas se lavam, tomam banho e defecam sem cerimônia. Os rios também são o destino de cadáveres incinerados, deixando ossos espalhados pelo leito lodoso.
A ventilação é limitada e os odores de refugos são tão ofensivos que nada é capaz de disfarçar o cheiro de podridão, lixo e excremento. De fato, durante o inverno o aquecimento das casas é providenciado acendendo bolos de esterco animal que são colocados mesmo nas cozinhas e quartos. As refeições são preparadas em pequenos fogões à lenha sobre os quais panelas com óleo preto são aquecidas. Os indianos fazem uso extensivo de temperos, não apenas como uma opção culinária, mas para disfarçar o gosto azedo de alimentos passados quando não, podres.
A imundice nas ruas é chocante! Montanhas de lixo se acumulam em valas ou trincheiras escavadas onde os restos são lançados sem qualquer critério. Algumas dessas valas chegam a profundidades surpreendentes, como verdadeiros atoleiros. Cair em um deles é um perigo real e inúmeras crianças morrem todo o ano, afogadas em valas de lixo. Quando um buraco fica repleto, com sorte cobre-se com terra e é hora de escavar um novo. Mas em geral o lixo do dia a dia se acumula em montanhas deixadas ao lado das casas, atraindo insetos e animais. Moscas, baratas e mosquitos se multiplicam em enorme quantidade e cobrem tudo como um tapete ondulante. O mesmo lixo também atrai cães vadios, urubus, cabras e bodes em busca de restos.
A população de ratos é um problema flagrante em Calcutá. Os roedores são responsáveis pela proliferação de doenças, em especial a leptospirose. Os lixões de Calcutá são famosos pelas ratazanas que se criam em seu interior; algumas são tão grandes que podem ser confundidos com gatos ou mesmo cães. Diferente dos ratos tímidos que evitam o contato humano, esses roedores entram nas casas sem cerimônia: roubam comida, atacam animais domésticos e mordem com seus dentes afiados. De tempos em tempos, quando a população de ratos explode são organizados bandos de exterminadores para abater os animais com porretes. Mas em geral, as pessoas não se preocupam com ratos e os deixam em paz.
As vacas gozam de benefício já que a cultura hindu lhes concede status de animal sagrado. Elas tem liberdade para circular pela cidade e ir onde bem entender; cercear o direito de uma vaca transitar por um lixão pode atrair a ira dos nativos. Já houve casos de pessoas linchadas por simplesmente espantar uma vaca de seu quintal. Não é incomum ver um indiano observando uma vaca com interesse, esperando que ela urine para que assim possa correr e recolher o líquido em potes ou com as mãos em concha. O líquido dourado é despejado sobre a cabeça como uma espécie de benção, quando não é bebido quente como forma de purificação.
Em um ambiente tão imundo não é de se estranhar que as doenças fervilhem.
Cerca de 95% das casas em Calcutá não dispõem de água tratada e os micro-organismos dançam livremente na água turva que é consumida diariamente. Diarreia crônica é uma constante, assim como uma infinidade de doenças estomacais que moldam as barrigas de crianças, adultos e velhos em um formato arredondado. A falta de higiene é um retrato chocante na Índia, mas em Calcutá ela vai às alturas! A população não utiliza papel higiênico, não lava as mãos ou se banha, quando muito, o faz nos rios repletos de dejetos. O cheiro de suor e corpos mal lavados é pungente e ofensivo, por vezes disfarçado com colônias ou lavanda. Cabelos e barba são tratados com óleo de palmeira para eliminar piolhos e carrapatos, mas parasitas são algo normalmente tolerado. As roupas são lavadas, mas vigora entre a população mais pobre o costume milenar de lavar os trajes com urina para garantir o branqueamento o que confere um cheiro ocre aos tecidos.
Uma quantidade alarmante de doenças aflige a população residente de Calcutá. A OMS decretou apenas nos anos 70, seis alertas de risco epidêmico grave na cidade, depois disso, o órgão passou a não ser mais bem vindo pelo governo local. Doenças congênitas são um problema incrivelmente frequente entre a população. Crianças com deformidades e má formação são algo, até certo ponto, corriqueiro. Calcutá é o lugar no mundo onde ocorrem mais abortos naturais e nascimentos de bebês natimortos. A causa é a má formação dos fetos que não desenvolvem sistemas respiratórios completos e morrem poucas horas depois de nascer. As crianças que sobrevivem tem deformidades que as acompanham pelo resto da vida. É importante notar que a polimelia, condição na qual uma criança nasce com membros extras, é tratada como uma benção divina. Bebês com três, quatro ou mais pernas e braços são tratadas como uma espécie de avatar e seus pais recebem todo tipo de homenagem.
A Índia é conhecida como um dos últimos lugares do mundo onde a hanseníase, ou lepra ainda constitui um problema de saúde pública. A medicina moderna eliminou quase que inteiramente esse flagelo da humanidade na segunda metade do século XX com drogas eficazes quando a moléstia é detectada no início. Infelizmente, na Índia, a lepra ainda é uma triste realidade. Estima-se que em 1980, haviam cerca de 500 mil leprosos no país, sendo que a maioria deles estava justamente em Calcutá. Madre Teresa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz obteve reconhecimento por construir leprosários e se devotar a tratar os afligidos. Nos dias atuais a população de leprosos diminuiu, mas ainda assim, ela é surpreendentemente grande.
Calcutá contou com uma economia impulsionada pela produção de juta, um tecido rústico que é a matéria prima das roupas da maioria da população. Na década de 60, quando os comerciantes muçulmanos partiram, a cidade entrou em colapso financeiro e jamais se recuperou. As instalações elétricas até os anos 90 eram incapazes de garantir o abastecimento para indústrias pesadas se instalarem. A geração de energia era então garantida por carvão mineral que queimava dia e noite expelindo nuvens grossas de fumaça preta. As indústrias produziam um smog sufocante que se juntava às nuvens das monções, precipitando-se como uma chuva preta. As paredes, ruas e fachadas de prédios ficavam cobertas por uma fuligem semelhante a grafite, uma vez molhada ela escorria deixando manchas em todo canto.
A oferta de emprego não comporta o tamanho da população residente de Calcutá. A maioria dos habitantes sobrevive de atividade informal e pequenos comércios. Mesmo assim, a industrialização precária deu ensejo a uma classe operária enormemente explorada. Nos anos 1950-60, Calcutá foi o palco de greves e manifestações convocadas por movimentos socialistas. O governo local coibiu essas demonstrações com violência, mas o movimento ganhou ímpeto. Nos anos 80 Calcutá se tornou a primeira cidade indiana com governo comunista, mas o experimento resultou em ainda mais injustiça e pobreza com denúncias de corrupção flagrante.
O desenvolvimento da rede elétrica permitiu que Calcutá desenvolvesse indústrias em seus arredores, usando operários vindos dos subúrbios. As linhas férreas, uma herança deixada pelos britânicos, transportam diariamente milhões de pessoas em trens antigos e sempre lotados. As estradas são precárias, quase todas sem asfalto e com trânsito caótico. Dirigir em Calcutá é uma tarefa quase impossível dada a quantidade de veículos, motocicletas, bondes, carros de boi e transeuntes na pista. Estrangeiros são desencorajados de tentar tal coisa. Em 1997 uma família belga atropelou uma vaca com seu carro alugado e a população enfurecida quase os linchou. Ainda assim, os veículos circulam para todo canto levantando nuvens de poeira quando passam, cuspindo ainda mais fumaça no ar já pestilento.
Além de todos seus problemas estruturais, Calcutá enfrenta uma dificuldade crucial: a violência.
Embora os indicadores atuais sejam menos alarmantes, até os anos 2000, Calcutá era a capital do crime na Índia. O submundo da cidade era dominado por facções armadas que lutavam umas contra as outras pelo controle de distritos e regiões. A população mais pobre era a principal vítima desses criminosos que extorquiam dinheiro de comerciantes e cobravam proteção dos habitantes. Também controlavam a distribuição de mercadorias roubadas e promoviam roubos. Os Gungas, a principal facção criminosa operando na cidade era especialmente temida. Formada por cartéis criminosos de Bangladesh, os Gungas eram especialmente violentos em suas atividades e implacáveis em suas demonstrações de força. Assassinatos eram algo comum, com juízes e policiais sofrendo atentados em plena luz do dia.
Outras facções se ocupavam em movimentar o comércio de drogas, com hashish sendo vendido no submundo e dominando a primazia das atividades de tráfico. O ópio também desempenha um papel importante como comodity para os traficantes que enviam a sua produção através da fronteira e despacham o produto para a Europa.
A criminalidade parece ter sido sempre um problema em Calcutá. Os mandatários britânicos se preocupavam com a grande frequência de crimes ocorrendo em toda cidade, a chamavam de "Antro de Ladrões". No início do século XIX os europeus se depararam com algo que os deixou estarrecidos: os cultos que praticavam assassinatos ritualísticos. Chamados de Thugges, essa facção criminosa operava nas sombras matando e roubando em nome de sua divindade sagrada, Kali. Os Thugges tinham uma de suas mais importantes bases de operação em Calcutá, em templos secretos onde os ritos sangrentos eram conduzidos. Eles foram enfrentados com rigor e suas atividades acabaram sendo desbaratadas pelo exército colonial que realizou verdadeiros massacres para eliminar até o último cultista. Há boatos de que o Culto ancestral de Kali ressurge de tempos em tempos, revivendo suas práticas nefastas.
O último surgimento dos Thugges se deu nos anos 70, através dos Kapalikas, devotos que reascenderam a adoração fanática ao aspecto mais violento de Kali. Sacrifícios humanos eram realizados em altares cobertos de ossos, instalados em depósitos, ruínas e áreas isoladas. A estátua medonha de Kali, banhada em sangue, assistia as oferendas serem entregues em sua homenagem. Os Kapalikas que também operavam uma extensa rede de roubo, sequestro e contrabando acabaram sendo eliminados - ou assim se acredita.
Mas quando o assunto é violência em Calcutá, esta não se restringe às ações de criminosos comuns.
O problema é mais profundo do que se imagina e contamina todo tecido social. É irônico que uma sociedade que se orgulha de ter criado e promovido a cultura da "não violência" tenha dado ensejo a uma das cidades mais violentas do mundo. Calcutá é descrita como um antro de violência que extrapola todos os níveis do razoável. Discussões tendem a irromper pelos motivos mais variados, descambam para bate-boca, agressão e não raramente violência, por vezes com força letal. Os habitantes de Calcutá tem uma reputação, mesmo entre os demais indianos, de serem teimosos, cabeça quente e de não levar desaforo para casa. Um ditado popular afirma que "é mais fácil convencer um camelo a ser castrado do que um morador de Calcutá voltar atrás em alguma coisa".
Na época da grande dissidência Indo paquistanesa que acabou resultando na guerra de 1971, Calcutá foi varrida por uma onda de violência envolvendo muçulmanos e hindus. Opiniões fortes e debates acalorados se espalharam pela cidade e do dia para a noite vizinhos, amigos e até mesmo parentes se tornaram inimigos. Durante o auge dos tumultos que antecederam o conflito, muitas famílias de muçulmanos, que eram minoria, acabaram sendo atacadas, agredidas e tiveram suas casas incendiadas. Centenas (possivelmente milhares) de pessoas perderam suas vidas ao longo de uma semana de distúrbios.
Pela proximidade do cenário do conflito, boa parte das tropas indianas que lutaram na Guerra Indo Paquistanesa vieram de Calcutá. A guerra em si, durou apenas alguns meses e terminou com um armistício que nomeou a região da Kashemira neutra. Paquistaneses e Hindus nunca assinaram um acordo de paz e portanto, formalmente, continuam em uma espécie de Guerra Fria. Os ânimos seguem acirrados quando se trata da disputa entre os dois países, atualmente potências nucleares.
Estupros também são um grande problema na cidade, com uma média elevada de crimes de natureza sexual que coloca Calcutá como um dos lugar incrivelmente perigoso para mulheres. Uma modalidade aterrorizante desse tipo de crime envolve o rapto de mulheres por bandos de dez ou doze homens que se juntam exclusivamente com esse propósito. Na sociedade indiana, esse tipo de crime tende a ser abafado e raramente é levado à justiça. Os envolvidos acabam sem punição e a vítima, quando sobrevive, é responsabilizada pelo ocorrido. Em 2009, estupros sucessivos de mulheres, algumas com menos de 12 anos de idade, chocaram a Índia. Os criminosos se reuniam em um ônibus que vagava pelo centro de Calcutá em busca de vítimas. Entre os envolvidos estavam advogados, comerciantes, policiais e até um político local. Ao menos nessa ocasião os crimes não ficaram sem punição, mas esta é uma exceção.
Diante da alta criminalidade local, a polícia de Calcutá se mostra na maioria das vezes incapaz de lidar com os casos que se sucedem. A força policial é ineficaz e insuficiente para fazer frente a multitude de casos. As investigações muitas vezes não resultam em prisão e criminosos ficam impunes. Uma prova da violência desenfreada em Calcutá são os jornais locais que publicam diariamente duas ou três páginas com fotografias bizarramente gráficas de cadáveres não identificados encontrados pelas autoridades na Grande Calcutá. A esperança é que algum conhecido reconheça os cadáveres e venha reclamar os corpos no período de uma semana, do contrário estes são cremados como indigentes.
Não é preciso dizer que estrangeiros são fortemente desencorajados a andar sozinhos por Calcutá sem a companhia de guias. E mesmo assim, todos os anos grupos de turistas, acabam sendo vítimas de guias inescrupulosos que os conduzem a emboscadas. Em 2003 um grupo de turistas canadenses foi sequestrado, roubado e dois deles mortos por criminosos. Em 2014 boatos sobre grupos de criminosos sequestrando e extraindo órgãos de vítimas ganhou os jornais da Índia. O que à princípio parecia uma lenda urbana infundada acabou se provando verdade depois que membros da quadrilha foram capturados.
Diante de tudo isso, Calcutá ainda goza de uma relativa fama entre turistas e viajantes em busca de um destino exótico para suas férias. Ela atrai milhares de visitantes anualmente e os abraça como uma aranha em sua teia.
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Disclaimer: É claro, essa descrição extensiva e colorida de Calcutá e de seu dia a dia convoluto, visa criar um ambiente caótico que investe no choque cultural. Calcutá é sim considerado um lugar perigoso e insalubre, mas talvez essa descrição esteja num nível "over the top" que é adequado ao objetivo do blog e de um cenário se passando nesse ambiente.
Ainda assim, há de se imaginar porque a cidade tem entre seus próprios habitantes, o apelido de "Cidade do Terror". Contra certos fatos não há argumentos, Calcutá é sim atípica em seu caos social, tumulto e perigo, não há outro lugar como ela na Índia, talvez, no mundo.
Calcutá, vasta e perigosa, lugar de iniquidades e horrores sem fim. O que esperar ao adentrar seus portões e vasculhar suas entranhas? Nas palavras de Amir Chaudhuri, artista e morador da cidade: "Calcutá é como um trabalho de arte moderna que não faz sentido ou tem utilidade, mas que persiste existindo por alguma bizarra e esotérica razão estética".