quinta-feira, 22 de julho de 2021

Terror e Erebus - A Jornada de Horror da Expedição Franklin (parte 1)


"Não está aqui: o Norte branco tem os seus ossos;
E tua heroica alma de marinheiro, segue em viagem mais feliz
 agora em direção a nenhum Polo terrestre".

- Alfred, Lord Tennyson,
inscrição no memorial a Sir John Franklin 
na Abadia de Westminster
Nós humanos, como espécie, sempre tivemos um forte impulso que nos levou a explorar o mundo em que vivemos. Seja por terra, pelos mares ou mesmo no espaço, temos uma vocação natural que nos compele a conhecer à fundo nosso mundo e um desejo instintivo de tocar seus limites. É uma necessidade quase irresistível de saber o que além da próxima colina, em torno da próxima onda e, de fato, além do próximo planeta. É esse espírito empreendedor de exploração que vibra no coração de nossa civilização, um motor de iluminação que no passado impulsionou o avanço rumo aos recantos mais distantes e que resultou em realizações humanas impressionantes.
Nos anais das grandes explorações, existiram aqueles que tiveram sucesso em seus esforços para expandir nosso mundo. Que traçaram mais adiante as fronteiras mapas do que anteriormente conhecíamos e que preencheram os vazios nos mapas. Contudo, houve outros que, embora tivessem grandes aspirações, não conseguiram cumprir seus objetivos. Desapareceram nas selvas do mundo, sumiram nos mares distantes ou foram tragados da existência por forças além de sua capacidade. Estes nunca mais voltaram. 
Em muitos casos, essas expedições perdidas, marcadas pela tragédia e circunstâncias de sua condenação tornaram-se mistérios duradouros. Mistérios estes que perduram além daquilo que esperavam descobrir. Um dos casos mais emblemáticos entrou para a história como a Expedição Franklin, que em 1845 navegou da Inglaterra para o grande frio do norte, nas bordas de nosso mundo para nunca mais ser vista ou ouvida novamente.

A expedição foi lançada na primavera de 1845, com o objetivo de tentar encontrar a lendária Passagem do Noroeste. Já em 1845, havia uma grande preocupação em encontrar ao norte uma rota navegável alternativa que ligasse os oceanos Atlântico e Pacífico. O caminho, cuja existência era apenas presumido era chamada de Passagem Noroeste. Sua descoberta seria de extrema importância, ligando os mares e possibilitando viagens mais curtas até os ricos mercados orientais. Até então, a única maneira de chegar ao Pacífico vindo do Atlântico era uma longa e perigosa jornada ao redor do Cabo Horn, no extremo sul do Chile, na América do Sul, ou a igualmente traiçoeira passagem ao redor do Cabo da Boa Esperança na África. Se alguém pudesse encontrar outra maneira de cruzar do Atlântico para o Pacífico, poderia abrir uma rota comercial alternativa muito lucrativa para o Oriente e as ilhas das Especiarias, e isso valeria uma enorme fortuna. 
O esforço para sua descoberta capturou a imaginação dos exploradores do Ártico por séculos e alimentou muitas expedições para encontrá-la. Desde o século XV, antes mesmo da América ser descoberta, navegadores já conjecturavam a existência da passagem, mas a sua busca continuou por boa parte do século XIX. Os britânicos, em particular, estavam convencidos de que tal rota existia e, nos idos de 1890, estavam absolutamente obcecados em encontrá-la. Aquilo se tornou motivo de orgulho nacional.
A Expedição Franklin seria a mais ousada e planejada das expedições visando encontrar a Passagem Noroeste. Contaria com mapas desenhados por exploradores e intérpretes que conversaram com esquimós que viviam naquela região extrema. A Expedição seria chefiada por John Franklin, um marinheiro e explorador experiente que ingressou na Marinha Real aos 16 anos e lutou com distinção nas Guerras Napoleônicas. Franklin era tido como um dos melhores comandantes navais da Marinha Real Britânica, havia completado três viagens bem-sucedidas para mapear a costa norte do Canadá e o nordeste do Alasca. Tinha portanto vasta experiência em mares gélidos, onde abundavam os perigos manifestados por icebergs, tempestades e nevascas. Além disso, recebeu o título de cavaleiro por seu trabalho e serviu como vice-governador da Terra de Van Diemen (agora conhecida como Tasmânia, Austrália) antes de retornar à Inglaterra para explorar o Ártico. Franklin sempre foi obcecado pela ideia da Passagem Noroeste e queria encontrá-la de uma vez por todas; seria a conclusão de sua carreira com chave de ouro. 
Sir John Franklin
No centro da expedição estavam dois enormes navios, o Erebus e o Terror, embarcações que provaram sua coragem na exploração da Antártica e que desafiaram climas e temperaturas inclementes. Ambos foram originalmente naves de guerra, concebidas como navios de bombardeio, embarcações que carregavam morteiros e que precisavam ser naturalmente resistentes. Os dois transportariam um total de 24 oficiais e 110 marinheiros. O Erebus seria comandado por James Fitzjames e o Terror foi colocado sob o comando de Francis Crozier, enquanto toda a expedição estava sob a liderança experiente do próprio Comandante Franklin. Apesar de ter completado os 60 anos, idade considerada bastante avançada para esse tipo de aventura, não havia dúvidas de que ele era o homem para a missão.
Os preparativos para a expedição foram bem coordenados desde sua concepção. Tanto o Erebus, que tinha 19 anos de serviço, quanto o Terror, que acumulava 32 anos, eram navios antigos, mas que passaram por extensas reformas para transformá-los em naves mais resistentes e modernizadas. Eles receberam novos mastros reforçados, lemes retráteis e hélices de parafuso, uma inovação nos navios árticos. Instalaram ainda novos motores a vapor extremamente potentes, que eram tecnologicamente o que havia de mais avançado para a época. Os navios também foram equipados com recursos modernos: arcos reforçados com grossas vigas de ferro, a fim de torná-los capazes de suportar os rigores dos mares gelados e um dispositivo de aquecimento interno movido a vapor para manter a tripulação sempre aquecida. A expedição inteira também foi muito bem abastecida com alimentos conservados e enlatados que deveriam durar 3 anos, um estoque de lenha e carvão para queimar, água potável, barris com suco de limão, uma infinidade de cobertores e uma extensa biblioteca, bem como vários outros luxos.
Com todo equipamento de alta tecnologia em ordem, os navios de última geração estavam prontos para a ação. O Erebus e o Terror partiram rumo à glória, deixando o Porto de  Greenhithe, na manhã de 19 de Maio de 1845. A primeira parada foi na Escócia para receber mais uma carga de provisões antes de cruzarem o Atlântico, rumo aos mares frios do Ártico, águas traiçoeiras jamais mapeadas, em busca da descoberta que mudaria o mundo para sempre. 
Com preparativos e equipamentos tão impressionantes e sob a liderança de homens que eram versados ​​na exploração do Ártico, ninguém imaginava que algo pudesse dar errado. Enquanto uma multidão de pessoas se reunia nas docas para vê-los partir, certamente ninguém suspeitou que o Erebus e o Terror estavam destinados a se tornar um dos maiores mistérios da história.
Não demorou muito para que a Expedição de Franklin fosse rapidamente envolvida por um turbilhão de problemas e infortúnios que se iniciaram tão logo eles deixaram sua pátria natal. Os navios estavam lotados até o limite da capacidade com 65 tripulantes cada, resultando em condições de aperto que acarretavam numa tripulação irritada, propensa a discussões e brigas. A conduta desordenada prevalecia à bordo, o que Franklin, um capitão á moda antiga, não tolerava. O comandante era notoriamente rigoroso quanto a palavrões e embriaguez, e cinco tripulantes foram mandados para casa por beber e praguejar quando os navios pararam para comprar provisões na Escócia antes mesmo de cruzarem o Atlântico. Não era um bom sinal do que estava por vir. 

A viagem transcorreu com um moral surpreendentemente baixo desde o início. Alguns homens reclamavam do salário, que embora fosse superior ao soldo habitual, previa um tempo de serviço indeterminado, afinal, ninguém podia dizer quanto tempo demoraria a missão. Os supersticiosos se queixavam que deixar em branco o espaço onde constava data de retorno atraía má sorte. À despeito disso, Franklin zelava por manter a disciplina. Ele levou os navios através do Atlântico Norte até a baía de Disko, na costa oeste da Groenlândia. Lá embarcaram carne bovina fresca, frango defumado, linguiça e outros suprimentos. Também seria a última oportunidade para a tripulação escrever cartas endereçadas para casa.

A expedição seguiu a rota de Lancaster Sound, onde planejavam começar sua investida em território desconhecido. Eram águas misteriosas que eles estavam prestes a enfrentar. Até aquele ponto, várias expedições ao Ártico haviam gradualmente mapeado porções da região, mas restavam cerca de 181.300 km2 de território jamais navegado e nunca mapeados e era este vasto e desconhecido território que a Expedição estava adentrando. 

Em 26 de julho de 1845, o Capitão Dannert, mestre do baleeiro Príncipe de Gales, avistou os dois navios na Baía de Disko, esperando por condições mais claras para adentrar o estreito de Lancaster. Seria a última vez que alguém de sua terra natal os veria com vida. 


Dannert escreveu em seu diário:

"Cruzamos com o Erebus e Terror aportados e já carregados com as provisões. Os marinheiros vieram para o tombadilho nos saudar agitando lenços e pedaços de pano. Ficaram felizes com a presença de compatriotas, o que pareceu aliviar os ânimos à bordo daqueles enormes navios. Ainda assim, era a tripulação mais sisuda que já vi, homens tristonhos, como se estivessem incertos quanto à missão diante deles. E não é para menos! Não sabiam o que encontrariam mais adiante, a única certeza é que teriam gelo, ventos causticantes e um clima inclemente. Nenhum dos meus comandados os invejava e posso dizer que eu tampouco gostaria de trocar de lugar com qualquer um deles".

Ao deixar o porto, os navios sumiram da história e se tornaram parte das lendas. 

Quando nenhuma notícia foi ouvida sobre a expedição por mais de dois anos, seus patrocinadores na Inglaterra ficaram temerosos. Não havia uma data pré-estabelecida para o retorno, mas ninguém imaginava que eles ficariam tanto tempo sem notícias. Não seria a primeira vez que navios acabavam presos no gelo, incapacitados de retornar. A expedição tinha suprimentos para três anos não mais que isso, o que começou a causar preocupação em parentes e amigos.

A esposa do comandante, Lady Jane Franklin, ficou obcecada por encontrar seu marido, ou ao menos saber de seu paradeiro. Ela usou contatos políticos e pressionou o Almirantado para que tomasse uma atitude. Um grupo, o Conselho Ártico, foi formado para estudar a situação. Este organizou a primeira missão de resgate em 1848. O objetivo era determinar o que havia acontecido. A Marinha não poupou despesas nesse resgate, recrutando todos os navios disponíveis na caçada à Expedição de Franklin. Uma vultuosa recompensa no valor de 20 mil libras chegou a ser oferecida para quem encontrasse o grupo, outros 10 mil para quem trouxesse informações e mais 10 pela descoberta da Passagem Noroeste. Isso obviamente atraiu muitos interessados; apenas em 1850, uma dúzia de navios partiram para tentar encontrá-los. 


Impelidos pela curiosidade e promessa de recompensa, várias expedições seguiram rumo ao norte para encontrar qualquer evidência do que havia acontecido com eles. Algumas dessas expedições pioneiras revelaram algumas pistas.

Os primeiros vestígios de relíquias deixadas pela expedição, restos de um acampamento de inverno e túmulos de tripulantes foram encontrados na Ilha de Beechey. Os poucos resquícios de acampamento eram estranhos, sem os típicos círculos de pedra usados para acender fogueiras. Tudo parecia um tanto descuidado, o que era atípico para exploradores experientes. Tanto as buscas marítimas quanto as buscas terrestres foram realizadas à duras penas sob um clima hostil. Na tentativa de resgate muitos outros perderam suas vidas. Por fim, os americanos também se envolveram no esforço, já que o governo cedeu navios de guerra para a missão de resgate. 

Todos tinham uma teoria a respeito do que havia sucedido, o que Franklin teria feito e o que poderia ser feito para achá-los. Raposas árticas foram capturadas com mensagens presas ao redor do pescoço com detalhes da situação. As mensagens eram carregadas de desesperança e temor diante do pior. Medalhas e insígnias foram achadas com esquimós, supostamente dadas a eles por membros da expedição para que, se estes encontrassem um grupo de resgate. Apesar de todos os esforços, nenhuma pista definitiva lançou uma luz sobre o destino final dos 141 homens perdidos.  

Mas o que teria acontecido com a Expedição Franklin? Que fim tiveram os homens envolvidos em uma das mais ousadas incursões através da Fronteira Ártica? Teriam todos eles perecido diante das agruras do território selvagem? E se esse foi o caso, sob que circunstâncias? Será que teriam encontrado a tão almejada Passagem Noroeste e se visto incapazes de retornar com as informações? Os questionamentos eram muitos, bem como as opiniões que inflamavam a imaginação do público.  


Em 1854, o médico John Rae, à serviço da Hudson Bay Company, entrevistou nativos de uma tribo Inuit que contaram uma sinistra história. Segundo eles, cerca de três anos antes, um grupo de 30 ou 40 homens brancos foram vistos cruzando o deserto gelado. Arrastavam um barco sobre trenó onde carregavam seus suprimentos pela paisagem desolada. Eles contaram uma trágica história sobre como o navio que os trouxe havia ficado preso e terminou esmagado pela pressão do gelo. Os esquimós negociaram com eles um pouco de carne de foca, mas ficaram apreensivos com a maneira como os forasteiros se comportavam: Pareciam incomodados, irritadiços e propensos à violência. Decidiram não se aproximar mais deles temendo que estivessem doentes ou tomados por maus espíritos. Dias mais tarde, a tribo escutou gritos e o estampido de tiros cujo som se propagou pela planície. Encontraram algumas semanas depois alguns cadáveres, mas os outros haviam partido arrastando o barco, ainda mais para o interior.

Os esquimós disseram que os homens ficaram presos quando o inverno chegou. Foi um inverno especialmente severo e eles não tiveram nenhuma chance, acabaram morrendo de inanição. Em meio ao desespero, os inuit afirmaram que eles teriam enlouquecido e recorrido ao canibalismo antes de expirar. Para comprovar a história, mostraram alguns artefatos, incluindo colheres de prata e roupas posteriormente identificados como pertencentes a Expedição Franklin. Os objetos haviam sido barganhados com a tribo. 

Rae ficou chocado com a narrativa e pediu indicações aos esquimós para chegar até o lugar onde a tragédia teria ocorrido. Como era verão, o tempo ajudou e ele conseguiu localizar o acampamento final sem grandes dificuldades. Lá, uma visão descrita como apocalíptica, o aguardava.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Viagem aos Limites da Terra - Uma Expedição infernal em busca de uma Ilha Invisível


Nos arquivos da American Geographical Society em Milwaukee existe uma das maiores coleções de mapas e cartas geográficas do mundo. Muitas destas com séculos de idade correspondem aos primeiros registros conhecido de terras distantes, continentes e ilhas avistadas por navegadores e exploradores durante suas viagens. Nessa vasta coleção, existe um mapa com um segredo peculiar. Ao norte da Groenlândia, a carta  mostra a ponta de uma ilha em formato de gancho, identificada como "Terra de Crocker" (Crocker Land). Abaixo da marcação há a seguinte observação: "Visto por Peary no ano de 1906".

O Peary em questão é ninguém menos que Robert Peary, um dos mais famosos exploradores polares do final do século XIX e início do século XX, e o homem que afirmou ter sido o primeiro a colocar os seus pés no Pólo Norte. Mas o que torna este mapa notável é ele ter sido o primeiro aludindo à Terra de Crocker. Mas que lugaré esse? Qual a sua importância e significado? 

Por muitos anos a Terra de Crocker foi considerado um dos últimos grandes mistérios geográficos. Sua localização era motivo de acirrado debate e polêmica. Acreditava-se que esse lugar poderia ser uma ilha ou quem sabe até, um continente flutuando no mar gelado, pronto para ser descoberto e explorado. A grande controvérsia à respeito da Terra de Crocker era se Peary realmente havia avistado o lugar e se a Terra de Crocker de fato existia, ou se não passava simplesmente de uma invenção.

A história começa da seguinte maneira:

Em 1906, Robert Peary já era considerado um explorador veterano, endurecido por cinco longas e perigosas expedições ao Círculo Polar Ártico. Cada uma de suas incursões no território selvagem do Ártico foi por si só uma aventura. Nem todos os seus acompanhantes tiveram a mesma sorte que ele, muitos morreram de fome, doença ou diante do perigo oferecido por animais e o clima impiedosos.  

Robert Peary

Peary era um sobrevivente movido por uma grande ambição, ser o primeiro homem a chegar ao Pólo Norte. Atingir o "telhado do mundo" era uma verdadeira corrida, uma disputa pessoal entre vários exploradores, questão de orgulho patriótico já que todos queriam enterrar a bandeira de seu país nessa que era uma das últimas fronteiras do mundo. 

No verão de 1905, Peary deixou Nova York à bordo de um navio quebra-gelo de última geração, o Roosevelt - nomeado em homenagem a um dos principais patrocinadores da expedição, o então Presidente norte-americano Theodore Roosevelt. A missão de colocar os pés na parte mais setentrional do globo acabou em fracasso: Peary disse que chegou de trenó até aproximadamente 280 quilômetros do Pólo, mas teve de retroceder em vista de fortes tempestades e suprimentos cada vez menores. A distância pode parecer longa, mas em meio do deserto gelado e condições limítrofes enfrentadas, aquilo era simplesmente fantástico. Os membros do grupo avançado haviam se tornado os primeiros seres humanos a se aventurar tão ao norte do planeta. Uma pena que seus dados eram extremamente duvidosos e foram prontamente refutados.

Após retornar, Peary se sentiu diminuído pelos questionamentos. Isso o levou quase que imediatamente a planejar uma nova expedição que o levasse ao seu objetivo. Infelizmente ele se viu com os patrocinadores reduzidos. O questionamento a respeito da realização de sua façanha arranhou a reputação do explorador e fez com que alguns o vissem como desonesto. 

Peary tentou obter recursos com um de seus patrocinadores anteriores, o financista de San Francisco George Crocker - que havia doado US $ 50.000 para a missão 1905-1906. O nome de Crocker foi dado a uma massa de terra supostamente avistada por Peary. Em seu livro lançado em 1907, Peary afirmou que, durante a expedição, avistou "os cimos brancos e tênues" de uma terra anteriormente desconhecida, localizada a 130 milhas a noroeste do Cabo Thomas Hubbard, uma das regiões mais ao norte do Canadá. Sua esperança era conseguir outros US $ 50.000 com Crocker que ajudariam a custear uma futura expedição. Contudo, seus esforços foram em vão: o milionário prometeu ajudar a reconstruir São Francisco após o devastador terremoto de 1906. No fim das contas, sobrou muito pouco para a expedição ao Ártico. 

A equipe de Peary no Ártico

Mas Peary não se deu por vencido! Ele conseguiu obter o apoio da National Geographic Society para custear uma nova expedição que deveria levá-lo de uma vez por todas até o Pólo Norte. Em 6 de abril de 1909, ele atingiu o topo do planeta - ou pelo menos, segundo os seus cálculos, foi o que aconteceu. "Enfim o Pólo!!!! escreveu o explorador em seu diário. "O prêmio de 3 séculos, meu sonho e ambição de 23 anos. Finalmente ao meu alcance. "

Peary não iria comemorar sua conquista por muito tempo: quando voltou para casa, ele descobriu que Frederick Cook - que servira sob o seu próprio comando em uma expedição em 1891 ao norte da Groenlândia - afirmava ter chegado primeiro ao Pólo com cerca de um ano de vantagem. Por um tempo, um debate acirrado com reivindicações dos dois homens sacudiu a comunidade científica e acadêmica - e a Terra de Crocker tornou-se parte dessa disputa. Cook afirmou que em seu caminho para o Pólo Norte ele viajou até a área onde a ilha deveria estar, mas não viu nada lá. "A Terra de Crocker", disse ele, "simplesmente não existe". A lógica era a seguinte: se Peary havia inventado sua existência, como confiar que ele estivesse falando a verdade quanto a ter chegado ao Pólo Norte? 

Os apoiadores de Peary ficaram indignados. Um de seus assistentes, Donald MacMillan, anunciou que lideraria uma expedição para provar a existência da Terra de Crocker, justificando Peary e arruinando para sempre a reputação de Cook. 

Também haveria, é claro, a glória de ser o primeiro a pisar na ilha até então inexplorada e cuja localização permanecia em aberto. Com ambos os Pólos conquistados, Crocker Land tornou-se "o último grande lugar desconhecido no mundo". Seria uma conquista para a humanidade, além de escrever o nome de seu descobridor entre os grandes exploradores da era moderna. 

A disputa para saber quem era o conquistador do Pólo Norte

Após receber o apoio do Museu Americano de História Natural, da Universidade de Illinois e da Sociedade Geográfica Americana, a Expedição MacMillan partiu do Estaleiro da Marinha do Brooklyn em julho de 1913. MacMillan e sua equipe levaram suprimentos, cães, um cozinheiro, "uma máquina fotográfica portátil", e equipamento de rádio sem fio, com o grande plano de fazer uma transmissão ao vivo da Terra de Crocker para os Estados Unidos. Seria um grande acontecimento.

Mas quase imediatamente a expedição enfrentou infortúnios: o navio de MacMillan, o Diana, naufragou na costa da Groenlândia por seu capitão estar, segundo alguns, bêbado. A seguir MacMillan foi transferido para outro navio, o Erik, para prosseguir na jornada. No início de 1914, com os mares congelados, a expedição deu sequência à jornada viajando de trenó. O percurso era de nada menos que 1900 quilômetros  através da Groenlândia, uma das paisagens mais inóspitas e severas da Terra, tudo em busca da Ilha Fantasma de Peary.

Embora inicialmente inspirada pela importância da missão, a equipe de MacMillan começou a dar sinais de desapontamento à medida que nenhum sinal da Terra de Crocker surgia. Os nativos inuit afirmavam que o lugar procurado não existia e nenhum navegador que passou pelas águas gélidas do Mar do Ártico teve sequer um vislumbre dela. À medida que o grupo penetrava na vastidão gélida, e era saudado por um deserto branco, os homens se perguntavam se aquela busca realmente fazia sentido. 

"Você pode imaginar o quão cuidadosamente examinamos cada centímetro daquele horizonte - para chegar a uma única conclusão: não havia nada à vista", escreveu MacMillan em seu livro sobre a expedição.

Certo dia, durante a jornada por terra, um alferes de 25 anos chamado Fitzhugh Green, deu-lhes alguma esperança. Como MacMillan contou mais tarde, "Green saiu do iglu e voltou correndo, chamando pela porta:‘ Nós achamos! ’Seguindo Green, corremos para o topo do monte mais alto. Não poderia haver dúvida sobre isso. Céus! Que terra longa! Colinas, vales, picos cobertos de neve que se estendiam por pelo menos cento e vinte graus do horizonte."

Os perigos de cruzar o deserto gelado em um trenó

Mas as visões da mítica Terra de Crocker evaporaram rapidamente. "Recorri a Pee-a-wah-to", escreveu MacMillan sobre seu guia Inuit (também conhecido por alguns exploradores como Piugaattog). "Depois de examinar criticamente a suposta terra firme por alguns minutos, ele me surpreendeu ao responder que não se tratava de terra, mas uma 'poo-jok' (névoa)."

De fato, MacMillan registrou que "a paisagem mudou gradualmente sua aparência e variou em extensão com o movimento do Sol; finalmente, à noite, ele desapareceu por completo". Por mais cinco dias, os exploradores seguiram em frente, até que ficou claro que o que Green vira não passava de uma miragem, uma fata morgana polar. Batizada com o nome da feiticeira Morgana le Fay da lenda do Rei Arthur, essas poderosas ilusões são produzidas quando a luz se curva ao passar pelo ar gelado, criando imagens misteriosas que parecem montanhas, ilhas e às vezes até navios flutuantes. 

Mais de um explorador já se deixara levar por visões incríveis como aquela, quando na verdade o que estavam vendo era nada além de ilusão de ótica. Fata Morgana é uma ocorrência comum nas regiões polares, mas um explorador veterano como Robert Peary teria se deixado confundir por algo tão corriqueiro? 

"Enquanto bebíamos nosso chá quente e comíamos o alimento desidratado, pensamos muito", escreveu MacMillan. - "Será que Peary, com toda sua experiência, se enganou? Foi esta miragem que nos enganou oito anos antes? Se ele viu a Terra de Crocker, então deveria ter ido muito mais longe, pois até aquela altura, nada havíamos visto senão ilusões".
 
A missão de MacMillan foi obrigada a aceitar o impensável e retornar ao seu porto de partida. "Meus sonhos nos últimos quatro anos foram apenas sonhos; minhas esperanças terminaram em amarga decepção", escreveu MacMillan. Mas o desespero ao perceber que a Terra de Crocker não existia foi apenas o começo da provação.

MacMillan enviou Fitzhugh Green e o guia inuit Piugaattog para o oeste para explorar uma possível rota de volta ao acampamento base. Infelizmente, os dois ficaram presos no gelo e uma de suas equipes de cães morreu em um deslizamento. Tendo de se virar com os cães restantes, Green - com alarmante falta de remorso - explicou em seu diário o que aconteceu a seguir: "Eu suspeitei que o guia estivesse planejando fugir e me deixar sozinho com recursos reduzidos... resolvi dar um tiro para o ar, e quando ele se voltou atirei na sua direção... eu o matei [Piugaattog] com um disparo no ombro e outro na cabeça." Para piorar o crime, Green mutilou o cadáver e deu parte dele para os cães comerem, para conseguir poupar suprimentos.
MacMillian no gelo

Green relatou tudo isso a MacMillan, mas o líder da expedição preferiu esconder a verdade. Preferiu dizer aos demais inuites que Piugaattog havia perecido no deslizamento, pois temia que a verdade causasse uma revolta generalizada.

Os revezes continuariam a atormentar a expedição marcada por mais tragédias. Vários membros da missão acabaram ficando isolados por nevascas, presos em acampamentos improvisados no gelo. Alguns por mais de três anos, vítimas do clima ártico. As rotas ficaram bloqueadas por completo, cortando o caminho dos homens até o local em que os barcos haviam ancorado. Duas tentativas do Museu Americano de História Natural para resgatá-los fracassaram. Ninguém conseguia chegar até eles e para todos os efeitos, muitos consideravam que os homens estavam perdidos para sempre. Apenas em 1917 MacMillan e seu grupo foram finalmente resgatados pelo navio Neptune, capitaneado pelo experiente marinheiro do Ártico Robert Bartlett. 

Enquanto estavam presos no gelo, os homens fizeram bom uso de seu tempo; eles estudaram geleiras, astronomia, marés, a cultura Inuit e tudo o mais que atraiu sua curiosidade. Eles finalmente retornaram com mais de 5.000 fotografias, milhares de espécimes animais e algumas das primeiras filmagens do Ártico (muitos dos quais podem ser vistos hoje nos arquivos da American Geographical Society na University of Wisconsin).

Quanto à missão original: a descoberta da Terra de Crocker, nada foi encontrado.

Não está claro se MacMillan alguma vez confrontou Peary à respeito da Terra de Crocker e do que ele realmente viu em 1906. Quando a notícia do fracasso de MacMillan chegou aos Estados Unidos, Peary se defendeu numa coletiva de imprensa observando que poderia ser difícil localizar terras no Ártico: “Visto à distância ... um iceberg com terra e pedras pode ser ser tomado por uma rocha, um vale com paredes de penhasco cheio de neblina como um fiorde, e as densas nuvens baixas acima de um pedaço de mar aberto como terra." Ele sustentou, que "indicações físicas e teoria ainda apontavam para a existência de uma grande massa de terra em algum lugar naquela área. Mas que apenas o futuro provaria tal coisa


Robert Peary morreu em 1920 ainda defendendo a existência da Terra de Crocker.

Pesquisadores posteriores que tiveram acesso às anotações da Missão liderada por Peary em 1905-06 perceberam que ele não menciona o avistamento da Terra de Crocker. É no mínimo estranho que uma descoberta dessa magnitude, não tenha sido citada nos diários da expedição. Nenhum líder esconderia tal coisa. Da mesma forma, vários membros da expedição mantinham seus próprios diários e nenhum deles menciona o avistamento. 

Muitos acreditam que Peary simplesmente inventou a existência da Ilha, apenas para agradar seu principal patrocinador George Crocker. Mas se esse foi o caso, sua mentira permitiu que a expedição rumasse para um lugar absolutamente estéril e extremamente perigoso, sabendo que não havia nada a ser descoberto. Bons homens sofrearam e morreram por nada... 

Crocker por sua vez não chegou a viver, para testemunhar a controvérsia sobre a Ilha continental que levava seu nome. Ele morreu em dezembro de 1909, vítima de câncer no estômago, um ano depois de Peary ter partido no Roosevelt em busca do Pólo e alguns anos antes da fatídica Expedição MacMillan.

Quaisquer esperanças da descoberta da Terra de Crocker foram afundados de vez em 1938, quando Isaac Schlossbach realizou o primeiro voo de mapeamento aéreo sobre a região em que a ilha deveria estar. Ao olhar para baixo de sua cabine, ele não viu nada a não ser o gélido Mar Ártico certificando-se de uma das maiores mentiras da história da exploração.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Palacete Bolonha - A Casa construída pelo amor e dominada pelo Terror


A Lenda do Palacete Bolonha começa como muitos romances góticos da ficção: com uma História de Amor.

O engenheiro Francisco Bolonha, personagem principal dessa trama, havia se apaixonado perdidamente pela pianista Alice Tem-Brink que conhecera no Rio de Janeiro. Os dois começaram a namorar, mas como o engenheiro era natural de Belém do Pará a distância tornava extremamente complicado o relacionamento, quanto mais naqueles tempos. Alice alegava que não podia abandonar a família e que nada sabia a respeito do então Grão-Pará para desistir da vida na Capital e ir para aqueles recônditos. Francisco prometeu então que se ela aceitasse seu pedido de casamento, mandaria construir para os dois um palacete que não deixaria nada a desejar aos da Europa.

E foi isso que Bolonha fez.

Mandou erguer, no ano de 1905, uma das edificações mais importantes da arquitetura de Belém. O Palacete era um prédio em estilo art noveau, com características clássicas do apogeu do Ciclo da Borracha quando impulsionado pela riqueza dos seringais, o Pará, experimentou um enriquecimento rápido e uma modernização acelerada.

O Palacete foi construído com o que havia de mais moderno em termos tecnológicos e que o dinheiro podia pagar. O construtor uniu vários estilos arquitetônicos no edifício e realizou a morada mais suntuosa e luxuosa da cidade àquela época. O prédio contava com quatro pavimentos, térreo, salões, áreas sociais com direito a salão de baile, banheiros, pias de granito e torneiras douradas, além de vários quartos. A magnífica fachada com detalhes intrincados, sacadas, varandas e mansarda com torreão, media quase vinte metros de altura.


Por dentro, o palacete tinha uma distribuição particular, com enorme quantidade de estuques, dourados e azulejos decorativos no estilo art noveau, contava ainda com mosaicos que lembravam os de Pompéia, alto relevos com motivos greco-romanos e vários revestimentos em madeira de alto padrão. No térreo ficavam as acomodações dos criados e a área de serviços, no primeiro pavimento estava a área social para recepção de visitas. Através do pátio de entrada chegava-se ao vestíbulo, sala de música, salões de jantar e almoço. Uma escadaria de mármore levava para os aposentos particulares no segundo e terceiro pavimentos. A planta dava destaque para sacadas cobertas, roupeiros, sala de banho e mais varandas. Os quartos do casal ficavam no terceiro pavimento, que trazia ainda capela, escritório e biblioteca. Finalmente, o quarto e último pavimento, acessado por uma escadaria em caracol levava a um deslumbrante mirante do qual se via as redondezas.

A Mansão contava com instalação elétrica nos aposentos, encanamento de água quente e fria em todos os banheiros, rede integrada de gás e esgoto - um verdadeiro luxo para a época. A propriedade, conforme prometido era um palácio de sonhos de fadas. Mas a história que se seguiu era digna de pesadelos! 

Apesar da suntuosidade, o prédio sempre atraiu a atenção das pessoas por outras razões além de sua importância arquitetônica. Diz a sabedoria popular que riqueza nem sempre está associada à felicidade e que fortuna, muitas vezes não é sinônimo de alegria. No que diz respeito ao célebre Palácio Bolonha, não faltam lendas e histórias bizarras que parecem confirmar esses dizeres. Uma sucessão de fatos e incidentes macabros ocorreram na propriedade nos últimos cem anos e estes ajudaram a construir a fama do local como o endereço mais assombrado de Belém.

Primeiro a respeito do lugar escolhido para a construção. Nem sempre ali existiu uma avenida larga e requintada: antes, dizem, havia uma charneca pantanosa, com lagoas de água estagnada e profunda. Por ser um lugar de difícil acesso, habitat de grandes jacarés, convencionaram usá-lo como ponto de desova para os cadáveres de escravos a quem não se dava sequer um enterro digno. Uma vez por mês, uma carroça vinha dar naqueles alagadiços insalubres e descarregava sua macabra carga para regalo dos enormes répteis. Não por acaso esse horrível detalhe fez com que o pântano ganhasse fama de ser maldito, assombrado pelos espíritos dos infelizes ali abandonados. Quando o charco foi drenado para as obras de infraestrutura da cidade que crescia, vieram à tona as ossadas, mas ao invés de dar a elas descanso, uma parte simplesmente foi jogada de lado e outra coberta com aterro.

Se os restos humanos que ficaram no terreno carregavam ou não uma maldição é discutível, mas o mesmo não se pode dizer de outros aspetos que contribuíram para fomentar a lenda. Por muito tempo, correu o boato de que Bolonha desenvolveu um interesse perigoso pelo sobrenatural e que este sedimentou-se nas paredes de sua obra prima arquitetônica.


Francisco Bolonha nasceu em Belém do Pará no ano de 1870, oriundo de uma família tradicional da cidade que sempre teve muito dinheiro, mas que aumentou sua riqueza através da exploração da Borracha. Durante sua infância, a família se mudou para a Europa, para o tratamento da frágil saúde de sua mãe, Henriqueta Bolonha. Foram morar em Paris e aparentemente viveram uma existência tranquila na Cidade Luz. Na volta ao Brasil, após alguns anos, Francisco experimentou sua primeira grande tragédia, quando a mãe, acometida por forte depressão, se lançou ao mar na frente do menino, que a viu sumir nas águas do Oceano Atlântico.

A tragédia deixou sequelas no menino de 10 anos, que ficou mudo por quase um ano, atormentado por pesadelos e lembranças daquela noite. Preocupado com o filho, Manoel Bolonha recorreu à vários médicos conceituados e psiquiatras para romper o silêncio da criança. Quando estes falham, buscou padres, curandeiros, benzedeiras e até pajés que sugeriram os mais variados tratamentos. Curiosamente, o que acabou funcionando e devolvendo ao menino a alegria foi a companhia de um grande cão da raça Rotweiller. Em algumas semanas Bolonha voltou a falar e retomou o rumo de sua vida. Aos 16 anos ele foi para o Rio de Janeiro para estudar engenharia e depois de se formar, seguiu para exercer a profissão em Paris.

Na França, o rico herdeiro conviveu com a alta sociedade parisiense, conhecendo artistas, gente influente, e descobrindo também a famosa boêmia da capital. Sua vida era uma esbórnia regada a festas intermináveis, champanhe, drogas alucinógenas e as tão famosas prostitutas francesas de quem se torna assíduo cliente. Mas sua animada existência no auge da belle époque tem novo revés com a segunda tragédia em sua vida. Um amigo pessoal e colega, também arquiteto de renome, tem uma morte repentina bem diante de Bolonha. A tragédia reaviva seus antigos traumas e ele cai em depressão sentindo que não há sentido na vida.

Bolonha afunda na depressão e no vício, tendo a companhia de indivíduos ligados às alegadas Ciências Proibidas e ocultistas. Em dado momento, decide voltar ao Brasil e deixar para trás o ambiente insalubre no qual havia mergulhado. Dizem que seu plano era se lançar ao mar no mesmo ponto em que a mãe havia perecido, mas lhe falta coragem para dar cabo da própria existência.

Pouco depois de desembarcar no Rio de Janeiro, Francisco foi convidado para um recital onde conheceu a pianista Alice Tem-Brink por quem acaba se apaixonando. A paixão reaviva seu desejo de viver e é tão avassaladora que ele passa a cortejá-la insistentemente. À princípio a moça resiste aos seus galanteios, pois não pretendia se casar tão cedo e com um noivo de um lugar tão distante, mas aos poucos ela vai cedendo. Dessa corte acaba surgindo o plano de construir o Palacete em Belém, uma obra que representaria o amor entre os dois.


Após o casamento e lua de mel, o casal aparentemente feliz e otimista com o futuro se estabelece no recém inaugurado Palacete Bolonha. Os primeiros anos do casamento transcorreram em meio a riqueza, ostentação e prosperidade. Mas nem tudo ia bem nesse conto de fadas... Alice não conseguia engravidar, e a relação do casal começou a se desgastar, visto que um culpava o outro pela infertilidade. A tristeza descambou então para brigas sucessivas, por vezes, até agressões. 

Na casa, os empregados são os primeiros a perceber que algo mais estava errado. Eles mencionam sons estranhos na calada da noite: correntes sendo arrastadas, gritos de horror e lamentos. Certa noite, uma criada de confiança de Alice desmaia depois de ver três homens negros com os corpos retalhados, como se tivessem sido atacados por animais selvagens. Comenta-se que são os espíritos dos escravos lançados no antigo charco e despedaçados pelos jacarés famintos. As histórias se multiplicam entre a criadagem e é difícil controlar as fofocas.

Francisco insiste que tudo isso não passa de bobagem e superstição, mas Alice também é afetada pelos incidentes cada vez mais frequentes. Certa noite ela se depara com o fantasma de um escravo no salão de festas. Isso a abala profundamente e faz com que ela evite andar pela casa depois do anoitecer. A dona do palacete vive enclausurada em seu quarto e teme sair de lá. Passa os dias rezando e pedindo proteção, as noites em constante vigília. A personalidade de Bolonha se deteriora: ele volta a beber, usa drogas e leva mulheres para o Palacete. A sociedade local fica escandalizada pelos rumores de que Francisco mandou importar prostitutas da França. Dizem que se envolve novamente com o oculto, que havia deixado de lado desde seu retorno ao Brasil. Fascinado pelo tema, ele consulta livros de magia negra, realiza rituais e cerimônias no estúdio trancado para horror de todos. 

A cada dia que passa Bolonha se entrega mais e mais numa existência promiscua que arruína sua saúde e consome grande parte da sua fortuna. Em poucos anos  vivendo no limite, o engenheiro vira um trapo humano, doente com diabetes e sífilis, cai de cama. Ele é cuidado por sua fiel esposa, que se dedica ao marido até o dia em que Bolonha morre em decorrência da diabetes. Alice após esse episódio se vê livre, vende o Palacete e com o que resta da fortuna de Bolonha, parte para a Europa. Ela nunca mais volta ao Brasil.

Mas a história do Palacete Bolonha não para por ai, e fica ainda mais macabra. Depois da venda do imóvel e a morte do engenheiro, o local se torna por algum tempo a Sede da Prefeitura de Belém. Funcionários reclamam constantemente que o lugar tem uma "aura estranha" e enervante. Coisas parecem sumir, objetos mudam de lugar, portas e armários abrem sem que haja alguém por perto. Um segurança noturno pede as contas depois de se deparar com uma aparição macabra, um escravo com o braço dilacerado. 


No curso dos anos, diversas famílias tradicionais se revezam no local, mas nunca permanecem mais do que seis meses na propriedade. Ao sair, preferem manter sigilo sobre o motivo para deixar o edifício, talvez para não desvalorizar o valor de venda. Alguns afirmam que o fantasma de Francisco Bolonha, amargurado, emaciado e confuso, se uniu a hoste de espíritos inquietos de escravos aprisionados no Palacete.

A história vai se tornando cada vez mais infame com o passar dos anos: uma narrativa macabra alimentando a seguinte, criando uma longa tapeçaria de rumores que o povo de Belém segue compartilhando entre si. Aqueles que antes se deslumbravam com a magnífica casa, agora sentem pavor, e evitam olhar para a construção maldita. Muitos moradores do bairro de Nazaré contam que nas noites escuras, de madrugada, o enorme cão negro de Bolonha, pode ser ouvido latindo e uivando no topo da construção. O animal morto há muito, foi enterrado na frente do casarão com as palavras em latim "Caven Canen" (cuidado com o cão) no mosaico que cobre a sepultura. 

Um dos episódios mais macabros dessa história relata que em 1968, dois homens tentaram invadir a propriedade, motivados pelas histórias de que objetos valiosos continuavam lá dentro. Os dois supostamente foram mortos com brutalidade extrema. Um Jornal da época publicou a perturbadora história:

"Dois corpos foram encontrados estraçalhados no bairro da Campina, entre a Praça da República e Reduto. Os corpos, literalmente, haviam sido trucidados e partes deles foram achadas espalhadas em frente ao Palacete Bolonha, pendurados em fios da iluminação pública, em um raio de 300 metros; uma verdadeira visão dantesca do inferno em plena Belém!"

Depois desse acontecimento a casa ficou fechada durante 30 anos, sendo que coisas estranhas continuavam acontecendo como relatavam vizinhos e testemunhas. Mesmo desabitada, ainda se ouvia passos, lamentos e gritos vindos do interior. Em 1998 o palacete foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural, retornando sua posse à Prefeitura de Belém - a casa é restaurada e aberta para a visitação pública.


Mesmo que com menor intensidade, as atividades paranormais continuaram a acontecer no Palacete. Turistas relatam ver mulheres nas banheiras, vultos passando de uma sala para outra, escravos mutilados e os latidos de um cão de grande porte. Um relato especialmente bizarro cita os membros de um grupo teatral que foi contratado pela prefeitura para se apresentar no salão da casa. Uma das atrizes, ao usar o banheiro, tem uma visão aterradora de uma mulher cadavérica na banheira. A atriz passa mal, perde os sentidos, desmaia, bate a cabeça e sai de lá em uma ambulância.

Vários médiuns e sensitivos visitaram o palacete para sondar o ambiente sobrenatural. A maioria dos relatos citam que Francisco Bolonha não conseguiu se desligar da casa e que seu espirito, junto com o do cão, vagam pelo local. Conforme as lendas, há ainda os espíritos de mulheres lascivas, supostamente trazidas por Bolonha da Europa para serem suas amantes e de escravos cujos ossos continuam nas fundações da casa. Nas últimas décadas um rumor se torna recorrente entre aqueles que tentam traçar a origem do horror contido nesse endereço macabro. Afirmam que a tragédia da família decorre de uma maldição trazida por Manuel Bolonha, quando este tentava curar o filho traumatizado pela morte da mãe. Ele teria firmado um pacto com o demônio, recebendo o cão negro que ajudaria a romper o transe do menino. O animal, no entanto, seria responsável por perverter a natureza do jovem Francisco e torná-lo um homem escravo de seus vícios e caprichos.

Mas o que podemos tirar dessa história macabra? Seria ela verdadeira ou não passa de uma lenda coberta de exageros descabidos e rumores infundados? Vamos ao que se sabe a respeito dessa história sob um olhar mais cético.

O Palacete Bolonha, obviamente existe em Belém do Pará e foi construído pelo arquiteto Francisco Bolonha, profissional conceituado que realmente formou-se pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, esteve na França e casou com a pianista carioca Alice Tem-Brink. O palacete foi morada do casal, construído como presente de casamento pelo arquiteto à sua amada esposa. Os dois viveram na propriedade por décadas, e não chegaram a ter filhos uma vez que Francisco contraiu caxumba já adulto. As brigas e discussões do casal à cerca da incapacidade de ter filhos, são mera especulação. Mas embora detalhes da vida privada no palacete sejam fragmentados, não há como atestar os rumores sobre indiscrições e traições no local. Essa parte, parece também deveras exagerada, sobretudo o abuso de álcool, drogas e o desfile de amantes na propriedade.


A história corrobora que a localização no passado correspondia a um pântano e é razoável crer que haviam ali jacarés, mas se o local foi usado como cemitério de escravos, parece aberto a discussão. Não há nada que comprove esse detalhe, a não ser velhas histórias. Mesmo a parte a respeito de ossadas achadas após a drenagem não puderam ser comprovadas.

Já da morte de Henriqueta Bolonha, mãe de Francisco ao que consta, realmente ocorreu em alto mar, no retorno da família ao Brasil, contudo, não existe consenso se ela teria caído do navio ou saltado para seu destino. Fato é que o menino testemunhou o ocorrido e ficou profundamente traumatizado. Sabe-se que ele de fato não falou por algum tempo e que um grande cão Rottweiler presenteado ao menino foi essencial para sua recuperação depois que métodos tradicionais falharam. O cão aliás, foi de fato enterrado no pátio do Palacete com a famosa inscrição "Caven canem" em um mosaico.

Não existe registros de que Francisco tenha sido um assíduo frequentador de cabarés e da vida noturna de Paris. É de se supor que ele de fato tenha aproveitado dos prazeres da capital da França, mas não há qualquer menção à excessos ou de um amigo arquiteto que tenha morrido diante dele. Em algumas versões dessa história, esse tal amigo seria ninguém menos Auguste Eifell, o construtor da famosa torre que recebeu seu nome. Bolonha supostamente estudou com Eifell em sua estadia em Paris, mas é impossível que o amigo morto diante dele e o catalizador de uma nova tragédia pessoal fosse o famoso construtor francês. Este morreu em 1923, sem qualquer menção a uma testemunha brasileira. Tampouco o alardeado "interesse pelas Ciências Proibidas" de Francisco é mencionado em qualquer lugar antes da lenda. Tudo leva a crer que esse pormenor tenha sido incluído em algum momento da construção do mito.


Francisco Bolonha tinha uma saúde frágil em seus últimos anos e ele de fato faleceu em decorrência de complicações causadas pela diabetes. Um corte no pé gangrenou e o levou ao óbito. Não há, entretanto menção alguma a ele ter definhado e cedido por conta de um quadro agravado por doença venérea. Quando de sua morte, ocorrida em 1938, ele tinha a idade considerável de 68 anos e o cortejo fúnebre foi seguido por um grande número de populares, o que contraria muito a noção dele ser visto com reservas pela sociedade e população local. Não há registros do que aconteceu com Alice Tem-Brink, mas é razoável supor que após a viuvez, e sem filhos, ela tenha levado uma vida bem pouco chamativa até sua morte.

A grande questão nessa história diz respeito aos fantasmas e a natureza sobrenatural do Palacete, afinal, não faltam relatos sobre assombrações que infestam o lugar. Não é raro que prédios antigos e lugares históricos se tornem o ponto focal de lendas sobre fantasmas, e o Palacete Bolonha parece o típico lugar capaz de atrair tais histórias. Podemos dizer que o lugar sempre teve fama de assombrado e que essa fama apenas aumentou após a morte de seus donos e o progressivo abandono do prédio cuja fachada se deteriorou e concedeu a ele uma aparência de "castelo assombrado". Não faltam relatos de pessoas que alegam ter visto algum fantasma nos arredores do palacete e como geralmente acontece, essas histórias vão se acumulando até serem costuradas ao tecido das lendas urbanas das grandes cidades.

Hoje o Palacete continua lá, aberto à visitação e aos olhares de curiosos que passam pelos seus salões surpresos pela opulência decadente do passado. Tudo leva a crer que o Palacete continuará a atrair essas histórias, ainda mais agora que constitui uma das atrações principais da capital paraense. A história fictícia da Casa Bolonha, o Palácio construído pelo amor e dominado pelo Terror, exerce sobre nós, amantes de uma boa história assombrada, um enorme fascínio difícil de afastar.  

terça-feira, 13 de julho de 2021

Bem vindo ao PULP - Punhos cerrados e heróis contra o Mythos


PULP CTHULHU percorreu um longo caminho até chegar às ansiosas mãos de seus fãs e suas mesas de jogo.

O material originalmente foi anunciado pela primeira vez em 2012, através de um suplemento da sexta edição que deveria conter regras para adaptação no sistema D20. Não sei dizer por quais motivos, mas o livro foi cancelado no último momento. Ele amargou então um longo limbo que só foi se dissipar em 2017, com o anúncio de uma nova edição já adaptada para a sétima edição de Chamado de Cthulhu.

A espera foi longa, mas quando o livro enfim foi lançado, bastava folhear um pouco para ter certeza de que toda espera valeu a pena. Era possível ouvir o ronco de motores, o som de explosões e o rufar de tambores.

Agora, depois da sétima edição se consolidar como uma das melhores da história de Chamado de Cthulhu, e dela enfim desembarcar em terras brasileiras, chegou a vez de termos acesso a Cthulhu Pulp em português. O Financiamento Coletivo criado pela Editora New Order começou no dia 12 e vai estar no ar pelas próximas semanas oferecendo um dos melhores e mais divertidos livros da Chaosium nos últimos anos. Acreditem quando eu digo, é um material imperdível!

PULP CTHULHU promete levar a ação e empolgação a um outro patamar e cumpre, lançando bravos aventureiros, exploradores de terras distantes, endurecidos soldados da fortuna, caçadores veteranos e heróis de todo tipo, em histórias em que os Mythos ancestrais de Cthulhu são a principal ameaça.


Pense em heróis no estilo de Indiana Jones, o Sombra, Hellboy, Doc Savage, Tarzan, Flash Gordon e tantos outros, que vivem aventuras em lugares exóticos, exploram terras perigosas com terríveis monstros, feitiçaria e vilões. Agora acrescente a esse caldeirão borbulhante o horror, suspense e tensão das criaturas de H.P. Lovecraft e você tem ao seu dispor uma sensacional ambientação.

PULP CTHULHU permite criar campanhas memoráveis, inspiradas nas matinês de cinema com mistério e ação vertiginosa em que heróis cheios de adrenalina enfrentam todo tipo de ameaça. Seja em templos perdidos no coração de selvas inexpugnáveis, enfrentando armadilhas engenhosas deixadas por civilizações desconhecidas ou investigando sociedades secretas milenares, Pulp Cthulhu abre um leque quase infinito de possibilidades.

Uma das mais queridas ambientações de Chamado de Cthulhu, os anos 1930, são a época perfeita para estas aventuras. Por definição essa é a Era Pulp. Um tempo em que Zepelins cruzavam os céus e expedições adentravam desertos e selvas, em que vilões detestáveis tramavam conspirações em parceria com as entidades dos Mythos.

PULP CTHULHU possui um sabor diferente que acrescenta uma vertente aventuresca ao seu jogo clássico.

Nick Nacario, criador de jogos da Chaosium e co-autor de Pulp Cthulhu, fala aqui a respeito do livro e das principais diferenças e inovações contidas nele.


Como surgiu a ideia de trazer PULP CTHULHU de volta?

A concepção de Pulp Cthulhu foi levantada por Dustin Wright (funcionário de longa data da Chaosium e descrito por todos como "um cara muito legal") por volta de 1999. O filme "A Múmia" havia acabado de ser lançado nos cinemas e Dustin achou que seria legal poder interpretar personagens naquele tipo de história em Chamado de Cthulhu. Contudo, para isso, os personagens não poderiam ser os investigadores clássicos que estamos habituados. Para uma história em que a ação estivesse pulsando em alta rotação, os jogadores teriam de ser mais fortes, durões e capazes de lutar contra monstros e cultos dos Mitos de Cthulhu em pé de igualdade. 

Era necessário uma abordagem mais no espírito "Indiana Jones", cheia de ação e empolgação - a ideia é que personagens pulp poderiam sobreviver melhor aos perigos e armadilhas de campanhas clássicas como Máscaras de Nyarlathotep, que é famosa por matar os personagens dos jogadores sem dó nem piedade. Na vertente Pulp eles estariam lá, prontos para lutar e enfrentar o que der e vier! 

Mas foi um longo e difícil caminho até o livro ser lançado. Em mais de um momento, ele foi apanhado no inferno do desenvolvimento. Apenas quando a sétima Edição de Chamado de Cthulhu se tornou um sucesso em 2013, que Pulp Cthulhu foi resgatado. O apoio ao Financiamento foi enorme e com isso, tivemos sinal verde da editora para tirar o livro da prateleira em que acumulava poeira 

Eu assumi o projeto na qualidade de Desenvolvedor da Linha Chamado de Cthulhu e me tornei um dos envolvidos no lançamento do livro. Recebi permissão para usar parte do material que havia sido escrito anteriormente por luminares como James Lowder, Wolfgang Bauer e Jeff Tidball. Também trouxe alguns talentos para ajudar na criação de novos cenários - Matt Sanderson, Alan Bligh e Glyn White, bem como Paul Fricker uma autoridade insana em tudo que é Pulp. A contribuição desses grandes escritores me permitiu focar nas regras básicas do Pulp, na orientação do jogo, nos exemplos de vilões e no fluxo do livro. Estou muito satisfeito com o resultado e a reação dos jogadores tem sido extremamente positiva.

PULP CTHULHU parece ter uma ênfase drasticamente diferente de Chamado de Cthulhu, como isso funciona?

A principal diferença do Chamado de Cthulhu regular para Pulp Cthulhu é que este último é muito mais focado em histórias de ação e aventura. Ela é inspirada na era dourada das revistas pulp dos anos 1930. A ênfase está em personagens mais resistentes, que têm mais competência no jogo e algumas "vantagens" para ajudá-los a enfrentar as forças sombrias dos Mitos de Cthulhu - conhecidos como Talentos Pulp. Isso não significa que as histórias serão moleza - os heróis pulp ainda podem enlouquecer ao se deparar com situações e monstros estranhos e horríveis - afinal, não seria Chamado de Cthulhu se fosse de outra forma! Eles também não são indestrutíveis e quem pensar o contrário terá uma triste surpresa.

Quem conhece o jogo clássico perceberá que ainda é em essência o mesmo jogo, mas ao mesmo tempo notará uma maior ênfase em personagens estranhos, tramas sórdidas e grandes vilões, e é claro, os tentáculos assustadores e horríveis dos Mythos de Cthulhu estão em toda parte.


Mas como isso se manifesta nas regras?

As regras são basicamente as mesmas, mas com alguns detalhes que as tornam mais ágeis privilegiando a ação.

A mecânica do Pulp Cthulhu pode ser ajustada para diferentes Níveis de Pulp, dependendo do que o narrador deseja invocar para sua mesa. O Guardião pode optar por algo mais realista e discreto, em que balas são mortais e lutas tem um alto custo, mas pode escolher um grau no qual os heróis são capazes de enfrentar e despachar nazistas, dinossauros e monstros. Você pode essencialmente adaptar as regras pulp em qualquer cenário lançado de Chamado de Cthulhu - de investigação urbana clássica até expedições nos limites da civilização. Ele se adapta facilmente. As regras pulp funcionam em conjunto com as regras principais da 7ª edição, com os devidos ajustes.

Como os personagens dos jogadores são mais resistentes, os vilões também recebem alguns truques para guardar na manga. Cada personagem têm uma reserva de pontos de sorte que pode ser usada ​​para buscar resultados incríveis e alcançar façanhas notáveis. Um jogador habitual de Cthulhu irá perceber imediatamente a diferença. 

Incluímos no livro muito material para inspirar o Guardião, incluindo quatro cenários em que cada um enfoca em diferentes aspectos do gênero Pulp.

Os jogadores habituais de Chamado de cthulhu não vão estranhar essa mudança?

Sim e não. 

Talvez o pessoal das antigas perceba a diferença mais facilmente, pois já estão acostumados ao estilo mais realista de Chamado. Mas não vejo razão para "estranhar" a mecânica pulp. É um estilo diferente... extremamente divertido e com certeza os fãs de Cthulhu vão adorar vez ou outra poder enfrentar os monstros ao invés de simplesmente fugir deles. 

PULP CTHULHU é um jogo distinto de Chamado de Cthulhu clássico?

Não necessariamente, Pulp Cthulhu é um suplemento de Chamado de Cthulhu. Ele expande certas regras, introduz algumas novas e modifica certas mecânicas do jogo padrão. Por exemplo, os investigadores podem sofrer ferimentos graves em Chamado se receberem uma grande quantidade de danos, enquanto os heróis pulp não - eles podem ignorar os ferimentos mais facilmente. Claro, os heróis pulp ainda podem morrer, mas, mesmo assim, pode haver uma maneira de evitar a morte certa. De um modo geral, os personagens são mais capazes, mais fortes e mais competentes.


A mecânica do Pulp Cthulhu se encaixa perfeitamente com as regras padrão de Chamado, de modo que o Pulp pode ser usado ​​com todos os suplementos, cenários e campanhas lançados ao longo dos anos com apenas alguns ajustes para aumentar o nível de pulp. Tenho visto muitos grupos de jogos adotando as regras pulp em seus jogos, e alguns grupos alternando entre "Pulp" e "Chamado de" Cthulhu. Você não precisa basear seus jogos na década de 1930, pois as regras pulp podem ser usadas em qualquer cenário ou período histórico - da Idade das Trevas aos dias modernos. Em última análise, tudo se resume a como você gosta de seus jogos - a mecânica é muito mais um kit de ferramentas para os jogadores ajustarem e usarem para construir o estilo e o sabor dos jogos eles querem.

Isso é interessante, é possível adaptar as regras Pulp para Down Darker Trails (Western), Cthulhu Dark Ages (Medieval) e Cthulhu Invictus (Roma)?

Sim, nada impede o Guardião de fazer isso. As regras são perfeitamente adaptáveis para essas ambientações com as devidas alterações.

Se você quer um Western mais aventuresco, no qual os personagens parecem com os heróis do gênero, é fácil adaptar e ter histórias nesse estilo. O mesmo vale para Cthulhu Dark Ages e para Invictus, com os devidos ajustes, a mecânica pulp se encaixa perfeitamente neles.   

E se eu quiser usar Pulp em campanhas clássicas como Máscaras de Nyarlathotep?

Não há problema. Máscaras de Nyarlathotep é conhecido pela sua dificuldade e por eliminar personagens dos jogadores a cada cenário. Inserindo a mecânica PULP, os investigadores tem uma chance maior de completar os desafios e enfrentar os horrores que surgem no decorrer dessa campanha clássica.

De fato, em Máscaras há dicas de como adaptar a campanha e usar a temática pulp. Isso é proposital para quem quiser narrar a campanha numa pegada com mais ação possa fazê-lo.

Haverá expansões para Pulp Cthulhu? Campanhas, suplementos, etc...


Temos vários cenários e campanhas da Pulp Cthulhu em desenvolvimento e outros prontos. 

A primeira campanha foi lançada em 2018 e se chama "A Serpente de Duas Cabeças". É uma campanha épica de abrangência mundial com nove cenários ambientados na década de 1930 e envolve os heróis em uma trama aterrorizante onde as ações de dois cultos em guerra podem mergulhar o mundo na escuridão. Os heróis devem se aventurar em locais distantes como Bolívia, Islândia, Bornéu e além. É muito emocionante e os heróis enfrentam uma série de inimigos com os quais devem lidar para vencer o dia.

Também temos "Cold Fire Down Within", no qual um grupo tenta impedir uma Sociedade Secreta e seus planos macabros de conquista global. Eu realmente gosto muito dessa premissa, sem falar que a campanha envolve a mítica civilização de K'n-yan. Temos ainda o próprio Máscaras de Nyarlathotep e Children of Terror que embora tenham sido concebidos como o sistema básico, contém regras para adaptação no Pulp.

A grande beleza do material, porém, é que você pode usá-lo com livros já existentes. Jogar "Horror no Expresso do Oriente" com as regras pulp é certamente muito divertido e muito fácil de fazer.

*     *     *

Bom, o Financiamento Coletivo de PULP CTHULHU já está no ar.  Vale a pena dar uma olhada e conhecer a proposta desse fantástico projeto.

sábado, 10 de julho de 2021

A Cabeça Desaparecida - O Macabro crime da Mulher Decapitada


Em 1 de fevereiro de 1896 um jovem lavrador chamado Johnny Wilks estava fazendo suas tarefas na zona rural de Fort Thomas no estado de Kentucky quando tropeçou em algo aterrorizante. Ali diante dele, esparramado no chão estava o corpo de uma mulher morta e sem cabeça. Ela também aparentava estar grávida. O rapaz, embora chocado pela descoberta imediatamente correu para a cidade onde contatou a polícia que veio rapidamente verificar a mórbida cena do crime. O perito concluiu que a mulher que estava com pelo menos 5 meses de gravidez, apresentava ferimentos em suas mãos condizentes com cortes defensivos. Ela lutou desesperadamente contra seu assassino. O elemento mais macabro da cena, era obviamente a ausência da cabeça. Mais tarde, exames revelariam que ela ainda estava viva quando o membro começou a ser removido com o auxílio de uma serra.

Quem seria aquela mulher e quem teria cometido aquela atrocidade? E qual teria sido a motivação para um crime tão medonho? Estes foram apenas alguns dos muitos mistérios em um caso que se mostraria um dos assassinatos mais complexos de sua época, gerando rumores que tocavam o reino do Sobrenatural e do bizarro.

Como não havia cabeça, foi difícil para a polícia descobrir a identidade da mulher. Não havia qualquer identificação de sua pessoa e tudo aconteceu muito antes dos bancos de dados de impressão digital, o que só funcionaria se ela tivesse cometido um crime de qualquer maneira. Especulou-se que ela podia ser qualquer coisa, de uma mendiga a uma prostituta servindo os soldados na base próxima de Fort Thomas. Contudo, as suas roupas realmente não pareciam se encaixar em nenhuma dessas teorias, uma vez que ela vestia um traje de algodão xadrez comum. O mistério quanto à identidade da vítima foi finalmente resolvido quando o dono de uma loja de sapatos local comentou sobre como os pés da falecida eram pequenos e também observou que os sapatos pareciam ser feitos sob medida. Seguindo uma suspeita, ele verificou os sapatos e encontrou a marca de uma loja de calçados em Greencastle, Indiana, bem como o número do lote, e com a ajuda de detetives conseguiu descobrir que apenas um par daquele modelo e daquele tamanho, fora vendido naquela loja. O nome da pessoa que havia comprado era Pearl Bryan.

A bela srta. Pearl Bryan

Pearl era filha de 22 anos de um rico fazendeiro, criador de gado e empresário do setor de laticínios chamado Alexander Bryan, um membro proeminente e respeitado da comunidade. A própria Pearl era estudante de música na Universidade DePauw, considerada uma cidadã modelo, bastante querida e professora de escola dominical muito envolvida nas atividades da igreja e da comunidade. Esses antecedentes tornavam difícil para a polícia entender por que alguém iria querer matá-la, quanto mais de uma forma tão brutal. 

Outro mistério escandaloso dizia respeito à sua gravidez e a identidade do pai. No final do século XIX, a gravidez de uma moça de "boa família" era motivo para muita especulação e fofoca. As amigas mais próximas de Pearl alegavam que ela não tinha namorado fixo, mas logo foi averiguado que ela havia sido vista passando um bom tempo na companhia de um estudante de odontologia em Ohio chamado Scott Jackson. Com esta sendo uma das únicas pistas de qualquer tipo que os investigadores dispunham, eles abordaram Jackson para um interrogatório e a história ficaria ainda mais confusa. 

Jackson foi imediatamente considerado um entrevistado astuto e não muito confiável. A princípio, ele negou que conhecesse Pearl, antes de mudar sua versão para que a conhecia apenas de vista, e então finalmente admitiu que a conhecia e que inclusive a ajudara a organizar uma viagem a Cincinnati para realizar o aborto de um filho indesejado. O pai, segundo ele, era um sujeito chamado Will Wood. Curiosamente, quando Wood foi abordado para interrogatório, ele negou qualquer envolvimento com a falecida, alegando que era de fato Jackson quem era o pai, e que ele mesmo nunca havia tido um relacionamento sexual com a moça. No entanto, testemunhas contariam à polícia que Wood costumava se gabar de dormir com Pearl, o que contradizia sua história. 

A cena do crime segundo um jornal da época

Considerando todas essas informações e o fato de que havia evidências de que de fato Pearl havia dito à família que ela estava planejando fazer uma viagem para Cincinnati pouco antes de sua morte, a polícia prendeu Jackson e Wood sob suspeita de assassinato. Quando o julgamento veio, atraiu considerável notoriedade e cobertura da mídia. Afinal, esse era o crime mais horrível que a região já tinha visto, e todos os olhos estavam voltados para o desenrolar dele. À medida que vários testemunhos foram ouvidos, uma história bastante sombria e trágica veio à tona. 

Descobriu-se que, de fato, tanto Jackson quanto Wood tiveram encontros íntimos com Pearl e, quando ela engravidou, eles a ajudaram a tentar todo tipo de mistura destinadas a forçar o aborto, mas nenhuma delas funcionou. Na época, Pearl se convenceu de que o bebê era de Jackson e, portanto, não conseguindo o aborto induzido, ela o pediu em casamento, o que ele recusou. Em vez disso, ele supostamente sugeriu que ela fosse para Ohio, onde arranjaria um aborto ilegal. Pearl disse aos pais que faria uma viagem para encontrar um amigo em Indianápolis, mas, em vez disso, foi a Cincinnati para se encontrar com Jackson. Uma vez em Ohio, Jackson supostamente continuou tentando induzir quimicamente um aborto espontâneo e, quando isso não funcionou, ele recorreu a métodos mais diretos, decidindo que ela não poderia ter o bebê se estivesse morta.

De acordo com uma testemunha, na noite de 31 de janeiro de 1896, Jackson encontrou-se com Pearl e um amigo chamado Alonzo Walling em um saloon de Cincinnati. Mais cedo naquela noite, Jackson havia comprado uma quantidade considerável de cocaína usada para batizar a bebida da moça. Quando ela perdeu os sentidos, os dois providenciaram um coche para que ela fosse levada até um local remoto. Contrataram um condutor uniformizado chamado George Jackson para levá-los. George contou ter desconfiado do que estava acontecendo e que Scott apontou uma arma para ele e disse-lhe para continuar dirigindo e não se meter onde não era chamado. Eles seguiram até uma fazenda abandonada onde Jackson usou uma corda para enforcar Pearl. Em seguida, ele mandou que o colega achasse uma serra para que a cabeça fosse removida. Quando eles começaram a serrar o pescoço da pobre moça, ela ainda estava viva e reagiu. Eles a dominaram e terminaram a horrível tarefa para garantir que ninguém pudesse identificá-la. 

A macabra cena do crime com o corpo da mulher sem a cabeça (à direita)

A princípio, isso foi completamente negado por Jackson e Walling, e só foi descoberto por meio de depoimentos de testemunhas, e considerando que não havia nenhuma evidência real e sólida, era apenas uma teoria que parecia o mais provável. No entanto, Jackson e Walling finalmente confessariam o que realmente aconteceu e pintariam um quadro ligeiramente diferente da tragédia.

De acordo com eles, Walling colocou Pearl em contato com um abortista de Cincinnati chamado Dr. George Wagner. Pearl então supostamente foi para a casa de Wagner sozinha, e Jackson se juntou mais tarde e ela. Mas em algum ponto durante o procedimento houve complicações. Jackson tinha ido à drogaria para buscar um pouco de ergotina para aliviar a dor, mas o remédio não funcionou. Wagner então injetou nela algum tipo de líquido claro e, intencionalmente ou não, isso a matou. Segundo eles, foi Wagner quem mandou a carona até o local onde o corpo foi encontrado e que foi Wagner quem realizou a decapitação do corpo. Haviam algumas evidências corroborando essa versão dos eventos, já que o farmacêutico tinha uma receita do remédio buscado por Jackson na noite em questão. 

A essa altura, Wagner parecia ser uma testemunha chave no caso, mas ele não pôde oferecer depoimento porque estranhamente foi internado em um asilo de loucos por razões não relacionadas ao caso. Supostamente, o Dr. Wagner era uma pessoa complexa sob a qual pesavam acusações bizarras, entre as quais um interesse doentio pelo Ocultismo. Alguns o tinham como um sujeito deveras excêntrico, que afirmava aos amigos ter firmado um pacto com o demônio e que havia conquistado o segredo da imortalidade estudando velhos livros de magia negra.

Quem realmente matou Pearl Bryant e qual versão dos eventos é verdadeira? A verdade continua sendo um mistério que perdura até os dias de hoje. 


A questão do que havia acontecido com a cabeça de Pearl se transformou em outro mistério, já que ninguém conseguiu obter uma resposta direta de nenhum dos acusados. Eles alternadamente disseram às autoridades que a cabeça havia sido jogada no Rio Ohio, em um banco de areia em Dayton, Kentucky, ou atirada no reservatório de água de Covington ou ainda no Canal entre Miami e Erie. Todos esses lugares foram vasculhados mas em nenhum encontrou-se qualquer evidência da cabeça.

Várias testemunhas afirmariam ter visto Jackson carregando uma valise suspeita e que supostamente havia algo rolando dentro dela. A valise foi realmente localizada e descobriu-se que tinha marcas de sangue e cabelo, provando que ela havia segurado a cabeça de Pearl em um ponto, mas isso não oferecia solução para onde ela foi deixada. Uma ideia era que Jackson a havia levado para sua escola de odontologia e cremado num forno do porão ao qual ele tinha acesso. Outra teoria é que eles a haviam descartado em um poço ou no esgoto. A polícia procurou em todos os lugares, dragando o rio, o reservatório e o canal, verificando os esgotos, até mesmo o crematório da escola de odontologia, e fazendo uso extensivo de cães farejadores, mas embora alguns fragmentos de roupa ensanguentados tenham sido encontrados, a cabeça de Pearl nunca foi encontrada e permanece desaparecida.

Com cabeça ou sem cabeça, com confissão ou não, Jackson e Walling foram considerados culpados de assassinato e condenados à morte por enforcamento, levando o segredo para o túmulo com eles e proclamando sua inocência até a caminhada final ao patíbulo. De fato, a última frase registrada de Jackson foi "eu morro inocente, acusado de algo que jamais teria coragem de fazer"!

Nos anos que se seguiram ao caso, todos os tipos de rumores obscuros gravitariam em torno dele. Uma das hipóteses era que os dois homens seriam membros de um estranho culto de satanistas fundado em 1895 e que agia no submundo. Os dois teriam convencido Pearl a participar do seu cabal secreto e a teriam engravidado durante um ritual de adoração demoníaca. O grupo pretendia usar o bebê em um sacrifício tão logo o bebê nascesse, mas Pearl teria se arrependido e se negou a entregar seu bebê não nascido a esse horrível destino.

Os envolvidos no crime e a vítima

Pearl supostamente teria sido morta como punição por sua desistência no plano. Quando a cabeça da moça desapareceu sem deixar vestígio, alguns levantaram a hipótese de que ela poderia ter sido ofertada ao Demônio que a levou como um tributo para o Inferno. 

Para tornar a história ainda mais bizarra, havia rumores de que o Dr. Wagner, o médico acusado de participar do crime realmente fazia parte de uma sociedade secreta envolvida com feitiçaria e magia negra. Wagner teria introduzido Jackson e Wailling no Culto, batizando-os com nomes diabólicos e fazendo com que eles se tornassem Servos de Satã. Os dois teriam sido incumbidos de encontrar uma moça disposta a oferecer seu rebento às Trevas. Para corroborar ainda mais essa teoria, à primeira vista, absurda, alguns mencionam a vasta coleção de livros e artefatos de feitiçaria que teriam sido achados na biblioteca do Dr. Wagner. Também se comentou que o médico excêntrico possuía em sua casa uma estranha coleção de crânios humanos. A prisão dele em um manicômio também chamava a atenção, visto que testemunhas teriam dito que Wagner se gabava de ser um Discípulo do Demônio.

Wagner morreu em 1945, com quase 90 anos de idade. Ele jamais recebeu permissão de deixar o manicômio e até o fim de sua vida terrena se apresentava como um demonologista. No manicômio, os enfermeiros costumavam chamá-lo de "Old Wizard" (Velho Feiticeiro) Wagner.

Outro elemento estranho no caso é que Jackson e Walling supostamente teriam amaldiçoado a cidade e ameaçado voltar como fantasmas caso fossem executados na forca. Um guarda que participou da execução teria revelado essa história e contado ainda que três de seus colegas que agiram como verdugos sofreram mortes muito estranhas.


Finalmente, resta um detalhe adicional de gelar o sangue que dá mais um toque macabro a essa história. 

Em 1948 circulou o rumor que um crânio teria sido encontrado no fundo de um poço de água na fazenda onde supostamente teria ocorrido o crime. Muitos comentavam que o lugar era assombrado e que um fantasma pertencente a uma mulher sem cabeça era visto frequentemente perambulando pelos arredores. Ninguém sabe se a descoberta de fato ocorreu ou não, mas circularam rumores de que círculos dedicados ao ocultismo de Chicago teriam adquirido tanto o crânio de Pearl Bryan quanto a serra usada para separá-la de seu corpo. Os dois objetos segundo boatos estavam imbuídos de energia mística e poderiam ser usados em rituais já que eles haviam sido utilizados num ritual de magia negra.

Existem muitos rumores nessa estranha história de morte e crime, e é provável que jamais saibamos ao certo o que realmente aconteceu com Peal Bryan.