"Se você tem em suas mãos um objeto pesado, afiado ou pontudo que pode ser usado para machucar, então você está armado"
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
No sufoco - Armas Improvisadas em Chamado de Cthulhu
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Lizzie Borden: o machado, duas mortes e um mistério sem solução
Na manhã de 4 de agosto de 1892, a casa da família Borden, em Fall River, Massachusetts, tornou-se cenário de um dos crimes mais célebres da história americana. Andrew Jackson Borden, um próspero homem de negócios de 70 anos, estava sentado no sofá da sala quando foi atacado. Seu rosto havia sido violentamente golpeado repetidas vezes, deixando-o irreconhecível. Pouco depois, no andar superior, sua esposa Abby Borden foi encontrada morta no quarto de hóspedes. Ela havia sofrido uma sequência ainda mais brutal de golpes na cabeça e no rosto. O que inicialmente parecia ser um duplo homicídio cometido por um intruso logo se transformaria em um dos grandes mistérios criminais do século XIX.
A pessoa que daria ao caso seu nome e sua fama era Lizzie Andrew Borden, filha mais nova de Andrew e enteada de Abby. Nascida em 1860, Lizzie vivia na casa com o pai, a madrasta e a irmã Emma. A família, entretanto, estava longe de ser completamente harmoniosa. Existiam ressentimentos relacionados ao patrimônio e à administração da fortuna de Andrew, e Lizzie mantinha uma relação particularmente difícil com Abby. Emma, a irmã mais velha, estava fora da cidade no dia dos assassinatos. Naquela manhã, Lizzie e a empregada Bridget Sullivan estavam na residência, enquanto Andrew havia saído para tratar de seus negócios.
Andrew foi o primeiro a morrer. Por volta das 11 horas da manhã, seu corpo foi encontrado no sofá da sala, coberto por sangue. Os ferimentos indicavam que o ataque havia sido extremamente violento: seu rosto e cabeça tinham sido golpeados repetidamente por um instrumento semelhante a um machado ou machadinha. O detalhe mais perturbador era que o assassino aparentemente não precisara lutar com a vítima durante muito tempo. Andrew estava descansando quando foi surpreendido e golpeado. A posição do corpo e a quantidade de sangue espalhada pela sala transformaram imediatamente a residência em uma cena de crime particularmente chocante para os padrões da época.
O corpo de Abby seria descoberto pouco depois, e sua morte parecia ainda mais horrível. Ela estava no quarto de hóspedes, deitada de bruços, e havia sido atacada repetidamente na cabeça. A violência era tamanha que os ferimentos apresentavam características que tornavam evidente que o assassino não havia parado após o primeiro golpe. Posteriormente, os exames médicos seriam utilizados para determinar a extensão das agressões. Abby recebera cerca de dezenove golpes, enquanto Andrew apresentava aproximadamente dez ou onze ferimentos. A brutalidade dos assassinatos seria um dos elementos que mais impressionariam o público durante o julgamento.
A pergunta que imediatamente dominou Fall River era simples: quem poderia ter feito aquilo? A princípio, um criminoso desconhecido parecia a explicação mais provável. A casa não apresentava uma resposta óbvia e a polícia começou a procurar um intruso. Mas a investigação rapidamente voltou-se para dentro da própria residência. Lizzie apresentou versões sobre seus movimentos naquela manhã que seriam examinadas cuidadosamente pelos investigadores. Havia também uma questão que se tornaria central para a acusação: como alguém poderia ter cometido dois assassinatos tão violentos dentro da casa sem que os demais moradores percebessem? A atenção da polícia começou gradualmente a concentrar-se sobre a filha de Andrew.
A investigação criminal de 1892, naturalmente, não dispunha das ferramentas que hoje consideramos indispensáveis. Não havia DNA, bancos de dados modernos, câmeras de segurança ou métodos sofisticados de reconstrução de cenas de crime. A polícia dependia de depoimentos, objetos encontrados na residência, exames médicos e contradições nos relatos dos envolvidos. Uma machadinha encontrada no porão acabou entrando na investigação como possível arma do crime, embora não fosse possível estabelecer de maneira definitiva que aquele instrumento tivesse sido usado para matar Andrew e Abby. A ausência de uma prova física conclusiva seria um dos maiores problemas da acusação.
As suspeitas sobre Lizzie, contudo, foram crescendo. Um dos episódios mais comentados ocorreu quando veio à tona que ela teria tentado adquirir ácido prússico, uma substância extremamente venenosa, pouco antes dos assassinatos. A acusação considerou o episódio potencialmente significativo, embora a evidência relacionada a essa tentativa não pudesse ser apresentada da maneira desejada durante o julgamento. Outro acontecimento seria ainda mais explorado pela imprensa: poucos dias depois dos crimes, Lizzie foi vista queimando um vestido. Para a acusação, poderia tratar-se da destruição das roupas que ela teria usado durante os assassinatos; para a defesa, era simplesmente uma peça velha que precisava ser descartada.
Em 11 de agosto de 1892, apenas uma semana depois dos assassinatos, Lizzie Borden foi presa e formalmente acusada da morte de seu pai e de sua madrasta. O caso rapidamente ultrapassou as fronteiras de Fall River. Os jornais americanos acompanharam cada etapa da investigação, publicando relatos sobre as testemunhas, os objetos encontrados e as suspeitas contra a jovem. Quando o processo avançou para o grande júri e posteriormente para o julgamento, a imprensa já havia transformado Lizzie em uma das mulheres mais famosas — e controversas — dos Estados Unidos. A própria documentação preservada pela Library of Congress mostra como o caso recebeu uma cobertura extraordinária nos jornais da época.
O julgamento começou em 5 de junho de 1893, em New Bedford. A acusação precisava convencer os jurados de que Lizzie havia matado primeiro Abby e depois Andrew, apesar da ausência de uma arma inequivocamente vinculada aos crimes e de nenhuma testemunha que tivesse presenciado os assassinatos. O processo adquiriu contornos quase teatrais. Um dos episódios mais macabros ocorreu quando a violência dos ferimentos foi apresentada ao júri através das evidências médicas. A cobertura contemporânea registra que a própria Lizzie passou mal quando a acusação apresentou uma machadinha e discutiu os ferimentos provocados nos mortos.
A defesa explorou precisamente as fragilidades da investigação. As versões de Lizzie sobre seus movimentos foram discutidas minuciosamente, assim como os depoimentos de empregados, vizinhos e policiais. A acusação tentava construir uma sequência lógica baseada em circunstâncias: o conflito familiar, as relações difíceis com Abby, as declarações consideradas suspeitas, o possível descarte do vestido e outros episódios. Mas circunstância não era o mesmo que prova. O júri precisava concluir que Lizzie havia cometido os assassinatos além de uma dúvida razoável, e a defesa conseguiu transformar as lacunas da investigação em uma barreira difícil de superar.
Em 20 de junho de 1893, depois de pouco mais de uma hora de deliberação, o júri retornou com seu veredicto: Lizzie Borden era inocente. A absolvição provocou enorme repercussão. O público que acompanhara durante meses os detalhes macabros do caso agora precisava aceitar que, juridicamente, a mulher que havia sido colocada no centro da investigação não era culpada pelos assassinatos. A Library of Congress registra a data como o encerramento formal do processo. Há inclusive ilustrações contemporâneas preservadas em seus arquivos mostrando Lizzie no tribunal ao lado de seus advogados, evidência do enorme interesse público que o julgamento despertou.
Lizzie passou o restante da vida sob a sombra daqueles crimes. Embora tenha sido absolvida, a opinião pública jamais chegou a uma conclusão tão definitiva quanto o júri. Ela morreu em 1927, e os assassinatos de Andrew e Abby Borden continuam oficialmente sem uma solução judicial. Nenhuma outra pessoa foi condenada pelos homicídios.
Com o passar das décadas, o caso deixou de ser apenas uma investigação criminal do século XIX e tornou-se uma espécie de lenda americana, cercada por livros, filmes, teorias e inúmeras tentativas de reconstruir o que realmente aconteceu naquela casa de Fall River. E talvez seja justamente essa ausência de uma resposta definitiva que mantenha a história viva: duas pessoas morreram de maneira brutal dentro de uma casa aparentemente segura, uma mulher foi acusada, julgada e absolvida — e, mais de um século depois, ainda não sabemos quem empunhou o machado.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Mesa Tentacular: Pedaços e Restos - Narrei "Bits and Pieces" no Evento Lendas da Taverna
Dentre os três cenários contidos na antologia No Time to Scream, Bits & Pieces talvez seja aquele que mais descaradamente abraça o horror pulp. Escrito por C. L. Werner, com contribuições de Mike Mason e James Coquillat, o cenário abandona por um momento o horror cósmico mais tradicional de Call of Cthulhu para mergulhar em uma história de cadáveres, experimentos médicos e horror corporal de fazer inveja para o antigo programa Cine Trash. A proposta original é simples e direta: os investigadores são chamados para ajudar um médico em uma situação desesperadora e, quando chegam ao local, descobrem que algo saiu terrivelmente errado. A partir daí, o cenário transforma uma situação aparentemente convencional em uma noite de puro caos.
A estrutura foi pensada para funcionar em pouco tempo, seguindo a filosofia de No Time to Scream: uma história compacta, com poucos personagens, uma situação imediatamente compreensível e uma ameaça que não permite aos investigadores perderem tempo. A aventura se passa em Arkham e concentra boa parte de sua ação em um necrotério, criando um espaço perfeito para o tipo de horror que pretende apresentar. Não há uma grande conspiração para desvendar ou uma investigação que se estenda por semanas. O objetivo é colocar os personagens diante de uma situação absurda e perigosa e observar como eles conseguem sobreviver a ela antes que seja tarde demais.
Muita loucura! Muito sangue! Muitas mortes!
Mas o grande diferencial está justamente na natureza da ameaça. Bits & Pieces é uma aventura de terror físico, um Body Horror total! É uma pequena homenagem às produções de terror grotesco que fizeram sucesso no cinema. Há sangue, cadáveres, mutilações e uma boa dose de humor negro, mas principalmente uma ideia que pode ser resumida em uma pergunta bastante simples: o que acontece quando um cadáver deixa de se comportar como um cadáver? A partir dessa premissa, o cenário cria uma espécie de jogo de gato e rato, no qual os investigadores precisam lidar com algo que está se movimentando onde definitivamente não deveria haver movimento algum.
Isso também faz com que Bits & Pieces seja diferente de muitas aventuras de Call of Cthulhu. Aqui, não há necessariamente a intenção de construir uma sensação permanente de impotência diante do Mythos. O cenário é mais rápido, físico e propositalmente exagerado. Eu tinha uma ideia de que essa aventura funcionaria bem numa convenção, mas não fazia ideia do quanto! Ela é divertida e curta o bastante para isso. A proposta é coerente dentro do próprio No Time to Scream, cuja estrutura foi desenvolvida para aventuras de aproximadamente duas horas e com uma pressão constante sobre os investigadores.
Há, porém, uma consequência interessante dessa abordagem: dependendo da condução do Guardião, o cenário pode facilmente escorregar do horror para o non sense. Há um componente quase cartunesco que remete a meu ver a filmes como Evil Dead, Zumbilândia e é claro, Re-animator. Ela pode ser grotesca, bizarra, mas também, muito engraçada. Essa característica, longe de ser um problema, faz de Bits & Pieces um clássico instantâneo.
A MINHA INTERPRETAÇÃO
Mas embora a história seja boa do jeito que está, eu queria ir mais longe na homenagem a Re-Animator e por isso dediquei um tempo para tornar a história um pastiche do filme que tanto amo. Eu queria dar justamente essa chancela na história e adaptá-la da melhor maneira possível para que: 1) ela conservasse a pegada original e 2) Tivesse as digitais pegajosas de Re-animator em todo canto.
Precisei fazer algumas alterações, mas o DNA de Re-Animator a meu ver está ali. A combinação de medicina, cientistas malucos, cadáveres, experimentos de reanimação e horror corporal remete imediatamente ao filme de Stuart Gordon de 1985, inspirado por sua vez na obra de H. P. Lovecraft. A própria premissa da aventura parece brincar com esse imaginário, ainda que Bits & Pieces não dependa do conhecimento prévio do filme para funcionar. É justamente essa conexão que torna a aventura particularmente interessante como ponto de partida para uma adaptação.
Foi a partir dessa ideia que elaborei a coisa toda. Em vez de simplesmente apresentar os acontecimentos no necrotério, a aventura começou com o envolvimento dos investigadores com o médico respeitado que se vê envolvido em uma situação que rapidamente escapa de seu controle. A descoberta de um antigo diário associado a Herbert West fornece uma ligação direta com a tradição lovecraftiana da reanimação e permite transformar aquilo que poderia ser apenas uma sequência de acontecimentos grotescos em uma história sobre experimentação, ambição científica e as consequências de tentar ultrapassar os limites da morte.
A minha versão deu mais peso ao que existe por trás dos acontecimentos. Criei uma longa cena num laboratório clandestino onde pistas sobre os experimentos, espécimes e evidências deixadas para trás pudessem ser encontradas. Estes ajudaram a construir a sensação de que os investigadores embarcavam em uma história que começou antes mesmo deles chegarem. O trabalho de West - o infame Soro verde fosforescente, a fórmula Re-animator, se tornou parte central da minha história e o catalizador de tudo que viria em seguida.
Também modifiquei um bocado a forma do horror corporal contido na aventura original. Em vez de tratar as partes do cadáver que precisam ser encontradas e destruídas, transformei cada pedaço em um organismo único tentando sobreviver. E aqui roubei a ideia de outro dos meus filmes favoritos The Thing. O horror deixa de ser apenas encontrar partes mortas que voltaram à vida, passa a ser descobrir que esses fragmentos estão se transformando, regenerando e desenvolvendo novas formas de existir. É uma pequena mudança de perspectiva, mas que aproxima a aventura do espírito de Re-Animator.
No fim, Bits & Pieces funcionou do jeito que eu queria. Narrei a história no evento Lendas da Taverna, uma chance de apresentar Cthulhu a novos jogadores e de encarnar o bom e velho Dr. West. Como resultado, a aventura ficou curta, grotesca e deliberadamente exagerada, construída para colocar os investigadores diante de uma situação que exige respostas rápidas e que lança contra eles obstáculos letais.
Horror aos pedaços, diversão por inteiro!
Abaixo algumas fotos do evento Lendas da Taverna em Porto Alegre onde narrei a aventura e do material que fiz para o cenário:
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
RPG do mês: Heart: The City Beneath - Caos e Exploração como nunca visto antes numa Masmorra
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Navegadores dos Mares Etéreos - Anatomia das cruéis Bestas Lunares
Alguns afirmam que chegaram àquele lugar vindas de outro mundo; por intermédio de meios desconhecidos que lhes garantiram esse tipo de peregrinação astral. Outros sustentam que as Bestas Lunares são tão antigas quanto a própria Lua e que, quando os primeiros homens aprenderam a olhar para o céu, elas já observavam de volta com curiosidade para o planeta ao redor do qual seu satélite girava.
Sua origem permanece motivo de disputas entre os poucos estudiosos que ousaram investigar o assunto. Há quem sustente que as Bestar Lunares são uma raça degenerada de seres lunares aborígenes que, em eras esquecidas, abandonaram uma forma superior e assumiram corpos adequados à existência subterrânea. Outros defendem que foram criadas deliberadamente por Nyarlathotep, como servas destinadas a dominar os caminhos do Sonhar. Esta última hipótese é particularmente repugnante, mas não inteiramente desprovida de evidências. Certos manuscritos mencionam que as Bestas prestam homenagem ao Caos Rastejante, oferecendo-lhe sonhos, escravos e lembranças roubadas. Outras fontes, entretanto, afirmam que sua verdadeira devoção pertence a uma entidade lunar chamada simplesmente de Senhor da Lua, cuja natureza é tão obscura que talvez seja apenas outro nome pelo qual atende o Caos Rastejante.
A descrição de seu aspecto físico, felizmente, é mais consistente. As Bestas Lunares possuem corpos grandes e disformes, vagamente semelhantes aos de sapos ou lesmas gigantes, sustentados por membros inferiores curtos porém musculosos. Sua carne é úmida, pálida ou de coloração cinzenta e pustulenta. Sua anatomia inteira parece ter sido concebida para inspirar repulsa antes mesmo que qualquer comportamento hostil seja observado. Não possuem rosto no sentido que os homens atribuem à palavra, pois lhes faltam feições. Onde deveria existir a face, encontra-se uma massa informe da qual emergem longas proboscídeas ou trombas carnosas cor de rosa, utilizada para alimentação, respiração e percepção. Este apêndice multifuncional costuma ser percebido tateando tal qual uma serpente utiliza sua língua para sondar o ambiente. A boca num esgar horizontal existe abaixo dos apêndices e é como a de um batráquio, escondida entre dobras de lábios. O interior dela contém dentes pequenos e arredondados brotando nas gengivas gotejantes. Alguns relatos mencionam olhos ocultos nos vincos rugosos; outros afirmam que tais criaturas não possuem olhos e percebem o mundo através de vibrações, odores e sonhos. Indubitavelmente elas são atentas aos seus arredores e com um grau de alerta que lhes permite detectar outras pessoas antes delas serem detectadas.
Como disposto, as Bestas Lunares possuem pernas fortes que são usadas para se movimentar com um manquitolar característico. Os pés são longos com dedos compridos terminando em polegares arredondados que lhes garante equilíbrio ainda que andem arrastando os pés. Os braços são longos e esquálidos, com mãos dotadas de três ou quatro dedos terminando em ventosas. Raramente vestem roupas, mas quando o fazem, preferem tecidos tingidos e lenços coloridos, ou então argolas e brincos unidas por correntes de metal que pendem livremente e que servem de adornos tilintantes.
É possível que as Bestas Lunares tenham se adaptado a gravidade rarefeita de seu mundo e que elas se movam de forma atípica por conta disso. Há razões para acreditar que a espécie seja capaz de alterar sua anatomia conforme o ambiente em que se encontra, garantindo assim uma notável adaptabilidade a variações de gravidade.
As Bestas se comunicam por intermédio de pequenas flautas de metal que são levadas ao canto da boca e sopradas em tons que denotam uma linguagem. Há relatos de que algumas destas criaturas são capazes de produzir ruídos semelhantes a palavras que soam de forma gutural e que podem ser compreendidas como uma tentativa de emular idiomas com quem tiveram contato. Elas se valem desse método de comunicação poucas vezes, considerando-o bárbaro.
Seu comportamento revela uma inteligência que não deve ser confundida com sabedoria. São seres sociais, capazes de se organizar em comunidades, construir embarcações e utilizar ferramentas de maneira consideravelmente sofisticada. No Sonhar, em especial no lado escuro da Lua, erguem cidades de calcário poroso e madeira apodrecida, onde vivem em bandos numerosos sob a autoridade dos indivíduos mais antigos. Estes agem como déspotas impondo sua vontade, muitas vezes pela força e pela violência. Quando um destes começa a envelhecer e demonstra fraqueza, uma Besta Lunar mais jovem e decidida acaba contestando a autoridade e eliminando o mais velho afim de tomar seu lugar. Essa mudança de poder tende a ser algo um evento rápido e sanguinolento.
A Sociedade destas criaturas gravita em torno do comércio, atividade muito valorizada embora o conceito mercantil entre elas seja bastante diferente daquele praticado pelos homens. As bestas negociam carne, especiarias, escravos e itens exóticos, além, é claro, segredos. Eles consideram perfeitamente legítimo entregar um prisioneiro em troca de informações sobre uma passagem entre mundos. As Bestas sabem que muitas raças, em especial humanos se mostram apreensivos diante delas. Para garantir o comércio elas tendem a contratar agentes que barganham suas mercadorias em Celephais, Leng e outros portos espalhados pela Terra dos Sonhos. Os Homens de Leng tendem a ser seus associados mais frequentes, já que falam vários idiomas e podem transitar pelos portos humanos sem chamar atenção - desde que escondam suas características mais perturbadoras. Já os nefários Gatos de Saturno, outra raça alienígena nativa da Terra dos Sonhos tendem a ser companheiros de viagem das Bestas Lunares e seus aliados usuais. As Bestas Lunares não são consideradas confiáveis e os mercadores da Terra dos Sonhos tendem a tratar qualquer negociação com elas com muito cuidado. Mesmo relações amistosas estabelecidas podem ser rompidas de modo repentino caso ele percebam alguma vantagem ao fazê-lo. Sua moralidade, ou melhor imoralidade, não é cruel; sendo simplesmente incompatível com a nossa.
A escravidão parece constituir parte essencial de sua sociedade. Humanos capturados durante incursões pelo Sonhar podem ser empregados como trabalhadores, carregadores, remadores ou então alimento. Não existe crueldade especial nisso aos olhos das Bestas; para elas, aparentemente, o homem possui o mesmo valor que um animal doméstico possui para nós. Ao abordar uma embarcação humana, as Bestas determinam imediatamente qual a função que cada prisioneiro recolhido terá e esta tende a ser uma decisão inapelável.
Seus navios merecem uma menção especial. Diz-se que as Bestas Lunares navegam os mares negros de éter de sua Lua em embarcações semelhantes a grandes galeras ou naus, capazes de singrar tanto pela água quanto pelos mares oleosos que não possuem equivalente no mundo desperto. Algumas embarcações são conduzidas por escravos humanos, enquanto outras parecem mover-se por meios que nenhum marinheiro conseguiu compreender. Não se deve cometer o erro de imaginar que tais navios pertencem exclusivamente à Lua. Há registros de viajantes que afirmam ter encontrado Bestas em portos do Sonhar, onde comercializam mercadorias provenientes de regiões que não aparecem em qualquer mapa. Talvez certas embarcações sejam capazes de atravessar a própria fronteira entre o sonho e a realidade. Se isso for verdadeiro, não seria prudente considerar essa raça como confinada ao seu domínio selenita.
Quanto aos tomos que registram sua existência, três fontes são frequentemente mencionadas. A primeira é o Livro dos Sonhos, atribuído a sacerdotes cujo nome se perdeu e que descreve os caminhos entre a vigília e as regiões profundas do Sonhar. A segunda é o Necronomicon, embora apenas algumas traduções contenham referências suficientemente claras para que se possa identificá-las. Há ainda menções dispersas no Unaussprechlichen Kulten, de von Junzt, onde se afirma que certas raças lunares mantêm relações com povos terrestres desde antes da existência das primeiras cidades humanas. É difícil determinar quais dessas passagens são autênticas. Alguns exemplares consultados pelo autor apresentavam páginas inteiras dedicadas a criaturas que simplesmente não existiam em outras versões. Isso pode ser atribuído a erros de tradução. Ou talvez os livros existam apenas no Sonhar.
É curioso observar que as Bestas não parecem possuir uma religião comparável à dos homens. Não constroem templos para suplicar proteção nem realizam sacrifícios por esperança de uma existência futura. Sua devoção parece assumir uma forma mais prática e terrível: veneram aquilo que lhes concede acesso aos caminhos do Sonhar e às criaturas que podem ser exploradas nesses caminhos. Nyarlathotep aparece repetidamente nesses relatos, mas talvez seja um erro dos autores humanos atribuir a ele toda manifestação sobrenatural que não compreendem. Existe ainda uma tradição segundo a qual as Bestas veneram uma divindade cujo rosto jamais pode ser contemplado e cuja voz é ouvida somente durante os eclipses.
Há, entretanto, uma característica que merece especial atenção: as Bestas parecem possuir uma relação particularmente íntima com o medo humano. Não são predadores irracionais. Observam, aprendem e aguardam. Um homem encontrado sozinho no Sonhar pode ser capturado sem que seus perseguidores demonstrem qualquer pressa; eles simplesmente o seguem durante horas ou dias, aprendendo seus hábitos, seus sonhos e seus caminhos preferidos. Há testemunhos de pessoas que acordaram repetidamente de pesadelos nos quais uma enorme criatura semelhante a um sapo as observava de longe. Algumas descobriram, ao despertar, marcas úmidas no chão de seus quartos. Outras desapareceram. É provável que a maior parte desses relatos seja superstição. Naturalmente, aqueles que desapareceram não puderam esclarecer a questão.
Outra característica peculiar e especialmente desagradável diz respeito ao gosto que essas criaturas tem pelo sofrimento, em especial pelas formas mais variadas de tortura. Sabe-se de casos de Bestas Lunares realizando torturas extremamente cruéis e dolorosas em prisioneiros humanos que caem em suas garras. Essas torturas não parecem atender a nenhuma outra razão além da torpe satisfação desses seres degenerados. Alguns teóricos supõem que os Selenitas extraem do sofrimento alheio algum tipo de complemento emocional ou que o fazem com o intuito de instar o medo de uma maneira mais direta. Não se sabe ao certo qual o significado disso, mas é perfeitamente possível que estes seres sejam tão somente perversos e que a agonia de outras criaturas os agrade. Não é raro encontrar na residência ou mesmo nas embarcações das Bestas Lunares compartimentos de tortura com estranhos aparelhos e ferramentas infernais. De fato, uma das atividades prediletas destes seres em sociedade é comparecer a grandes arenas em que espetáculos de tortura são realizados.
Para os investigadores que se deparam com tais criaturas, convém recordar que uma Besta Lunar não deve ser confundida com um simples monstro. Sua força física é considerável, mas sua verdadeira vantagem está na inteligência, no conhecimento do Sonhar e na capacidade de utilizar outras criaturas como instrumentos para atingir seus objetivos. Um encontro isolado pode ser perigoso; uma comunidade inteira pode constituir uma ameaça muito maior. Elas não precisam necessariamente matar. Podem capturá-los, torturá-los, interrogá-los, negociar com eles ou utilizá-los como moeda de troca. A possibilidade mais aterradora é aquela em que uma Besta percebe que seus prisioneiros possuem conhecimentos úteis. Nesse caso, mantê-los vivos pode ser muito mais vantajoso do que destruí-los.
Dizem alguns que as Bestas Lunares não podem abandonar o Sonhar. Trata-se de uma afirmação reconfortante e provavelmente errônea. Outros sustentam que elas podem atravessar para o mundo desperto somente quando são convidadas, seja através de um sonho, de um ritual ou da abertura de determinada passagem. Também há aqueles que afirmam que cada lua cheia aproxima seus domínios do nosso e que, em determinadas noites, uma criatura pode atravessar sem auxílio.
Por fim, deve-se registrar a mais perigosa das possibilidades. Talvez as Bestas Lunares não sejam simplesmente criaturas que habitam um mundo onírico e ocasionalmente capturam sonhadores humanos. Talvez estejam observando nossa espécie há muito mais tempo do que imaginamos. Talvez os sonhos sejam, para elas, equivalentes às pegadas deixadas por animais durante uma caçada. Cada pesadelo, cada visão recorrente, cada criança que descreve uma criatura que jamais poderia ter visto pode ser apenas mais uma oportunidade para que elas estudem nosso mundo. Se assim for, a pergunta não deveria ser "Como encontrar as Bestas Lunares?", mas sim "Como saber se elas já nos encontraram?"








































