segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O Cavalheiro de Providence - Resenha de "A Vida de H.P. Lovecraft" de S.T. Joshi



Por Clayton Mamedes

Nunca fui muito fã de biografias. Simplesmente pelo fato de este tipo de leitura passar a impressão de você estar lendo algo já conhecido, sem surpresas. Para a minha sorte, dei chances para duas delas. A primeira foi uma biografia especial de Houdini (The Secret Life of Harry Houdini: The Making of America's First Superhero, Atria Books) e a Vida de H.P. Lovecraft, trazida ao Brasil pela Editora Hedra. Após a leitura de ambas as obras, conclui que eu estava extremamente equivocado.

Como explicitado no título, este artigo se concentrará na biografia sobre o Cavaleiro de Providence. Em um futuro próximo, retornarei com as minhas considerações sobre o livro da Atria Books sobre o Houdini, pois o mesmo também é uma obra surpreendente.

A Vida de H.P. Lovecraft (cujo título original é A Dreamer and a Visionary: H.P. Lovecraft in his Time) foi publicado pela Hedra em nosso país em 2014, sendo esta mais uma obra do já conhecido e renomado autor de livros sobre HPL, o indiano residente nos EUA, S.T. Joshi. Já se você não o conhece, recomendo pesquisar sobre ele.

A edição brasileira é simples e honesta, possuindo 445 páginas sem ilustrações ou figuras, com o texto espalhado em 20 capítulos, sem extras ou longos prefácios. Apenas capa cartonada, com abas. Destaque para a bela arte de capa, com uma montagem sugestiva de uma famosa foto de Lovecraft. Qualidade boa de papel, sem erros evidentes.

Sobre o texto em si, comentarei sobre 5 pontos que considero cruciais para a vida de HPL, ou sobre os quais eu nutria certa curiosidade, porém sem entrar em detalhes (spoiler free). Através de muita pesquisa e dados oriundos de fontes sempre citadas no texto, Joshi consegue jogar um feixe de luz sobre tais obscuridades:

1.       A doença de Winfield Scott Lovecraft: o pai de Howard fora hospitalizado de 1893 até a sua morte em 1898, e muito se ventila sobre qual moléstia causara o seu falecimento. Já li sobre episódios de insanidade, depressão e similares. Qual o impacto deste acontecimento na mente do jovem HPL, já que ele tinha apenas 2 anos de idade quando o seu pai foi internado, e 7 anos em sua morte;

2.       O enxoval feminino do jovem Lovecraft: vários comentários ditam sobre o fato de Susie, a mãe de Howard, o vestir como uma menina em seus primeiros anos de vida. Tal fato já fora explorado na HQ chamada Lovecraft, publicada pela Devir em terras brasileiras em 2006;

3.       Preconceito e racismo: outra polêmica muito abordada, contudo é no mínimo curioso ler em reproduções de suas cartas, as opiniões de HPL sobre os imigrantes, homossexuais e a própria mudança da sociedade americana em sua época, dado o conservadorismo feroz presente em sua família e arredores. Uma discussão fundamentada sobre este assunto daria uma dissertação de mestrado;

4.       Casamento: não é de se espantar com o interesse de seus fãs em torno do casamento de Howard. Um homem com personalidade forte, inteligente, conservador e taxado como antissocial acaba se casando com uma mulher com estilo de vida moderno para a época. O que teria os aproximado?

5.       Morte: os anos finais do Cavaleiro de Providence são geralmente negligenciados, existindo até mesmo certa dúvida sobre qual doença o teria afligido.


Obviamente, o texto não apenas fornece respostas para as situações acima descritas, mas também presenteia o leitor com páginas e mais páginas de casos curiosos, engraçados e tristes, amplamente suportados por extensa pesquisa bibliográfica e fontes dos mais diversos tipos. Várias presunções do autor são reforçadas com trechos imensos retirados das correspondências de HPL, assim como entrevistas, livros, documentários e ensaios. É muito divertido acompanhar o desenvolvimento de uma criança extremamente prematura, como o jovem Howard teve os seus primeiros contatos com a arte e ciências em geral, a publicação de seus diversos periódicos, a formação de clubes de literatura, a descrição vívida de suas viagens, os poucos amigos e a paixão pela erudição. Contudo, também é triste ler sobre os anos mais difíceis de sua vida, a solidão, os problemas financeiros, os colapsos nervosos e seu falecimento.

Ao final do dia, S.T. Joshi nos presenteia com uma belíssima obra, fruto de incansável pesquisa e paixão que, apesar de retratar a vida de uma personalidade a qual já julgamos conhecer bastante, reserva gratas surpresas, detalhes e situações que nem o mais ávido fã poderia imaginar que teriam acontecido na vida de HPL.

A decisão sobre a escolha para a publicação desse volume no Brasil possui um detalhe curioso, já que existe outra biografia de Howard, publicada pelo mesmo autor em 2013 (I Am Providence: The Life and Times of H. P. Lovecraft). Trata-se de uma obra revisada e expandida, dividida em 2 volumes com mais de 1.100 páginas ao total. Sem dúvida é um trabalho definitivo, mas que foi preterido por uma versão anterior e menor. Será que o valor final ficaria proibitivo?

Outra observação negativa deste volume é a total ausência de imagens, assim como na versão original em inglês. Em diversos momentos eu me flagrei ansioso por ver uma foto que, sem dúvida, ajudaria a imortalizar o momento descrito no texto.

Já como ponto positivo, destaco a profusão de referências presentes como nota de rodapé no livro. Se o leitor se interessar e quiser se aprofundar, pode buscar por mais detalhes ou as obras originais. Um belo atrativo em se tratando de material biográfrico.

Faça como eu e deixe se surpreender com esse texto, o qual consegue ser revelador para quem já conhece alguns aspectos da vida de HPL e, ao mesmo tempo, convidativo para o leitor mais recente de sua obra e legado. Caia de cabeça na vida tortuosa da mente criativa que, mesmo que somente após a sua morte, influenciou todo o futuro do horror.

Links dos livros citados na resenha:

A Vida de H.P. Lovecraft (Kindle):

I Am Providence: The Life and Times of H. P. Lovecraft, Volume Unico (Kindle)

I Am Providence: The Life and Times of H. P. Lovecraft, Volume 1

I Am Providence: The Life and Times of H. P. Lovecraft, Volume 2

The Secret Life of Houdini: The Making of America's First Superhero
Secret Life of Houdini




sexta-feira, 21 de setembro de 2018

DIVERSÃO OFF-LINE RIO 2018 - O Evento já está aí!


A edição carioca do DIVERSÃO OFF-LINE 2018 chega com tudo, pra sacudir o Centro de Convenções Sulamérica mais uma vez. 

Dias 22 e 23 de Setembro o Rio de Janeiro se torna a Capital do RPG e Boardgames no Brasil.

E desta vez, o evento acontece num espaço único e plano, te dando uma visão privilegiado do evento inteirinho, logo na entrada!

Essa é a terceira edição do Mega Encontro de RPG que já se consolidou como um dos mais importantes do Calendário de Eventos de RPG e Jogos de Tabuleiro do Rio de Janeiro. Para ver o que rolou ano passado, dêem uma olhada no link para ler o resumo de com foi em 2017: 




Contando com várias atrações, o Diversão desembarca esse ano em dois dias de muita diversão no coração da cidade, em um excelente espaço que proporciona conforto e tranquilidade para o público.

Confira aqui algumas das atrações:

O Evento conta com o apoio e presença das principais editoras e lojas geek, com direito a super-promoções e preços mais camaradas. Vale a pena barganhar, conversar e trocar ideias com o pessoal em cada stand, saber das novidades e sair com alguns novos tesouros.



Um espaço de palestras para debates, painéis e troca de ideia com alguns dos principais nomes do RPG e Gameboards. No link abaixo você encontra a programação do evento e quem vai estar lá para falar.

O sucesso da Área de Protótipos onde desenvolvedores de jogos tem a chance de apresentar seu trabalho em primeira mão para o público.




O Espaço Free-Play com mesas de demonstração para RPG e Boardgames onde é só chegar, sentar e jogar.




FREEPLAY

Vai rolar também Torneios Oficiais de Cardgames 



Quer garantir o seu ingresso? Então corre no link abaixo: 


O passaporte especial tem um preço super camarada para quem quiser aproveitar os dois dias. Dêem uma olhada!

RESUMINDO:



Pessoal, esse é "o Grande Evento" do ano para todos que curtem o universo fascinante dos jogos de mesa, seja tabuleiro ou de interpretação.

Vale muito a pena para quem quer conhecer outros jogadores, trocar ideias, rever amigos e colegas, saber das últimas novidades e entre uma coisa e outra, rolar uns dados na companhia de gente super legal e amigável.

Venha então para o Diversão Off-Line Rio 2018.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A Família de Lobisomens - A Dinastia partida dos Gandillon


Um lobisomem já é difícil de acreditar, mas o que dizer de uma família inteira de lobisomens? 

Tal história aconteceu na região de Jura no oeste da França em 1598. No verão dquele ano, um garoto chamado Benoit Bidel e sua irmã estavam colhendo morangos próximo da vila de St. Claude. Enquanto o menino estava escalando uma árvore, um lobo com mãos humanas surgiu do meio da floresta e agarrou sua irmãzinha. Benoit pulou da árvore e tentou esfaquear o lobo, mas o monstro arrancou a arma de sua mão e desferiu uma mordida em seu pescoço antes de correr para o interior da floresta.

Alguns camponeses que estavam passando ouviram os sons de gritos e correram para ver o que era. Eles encontraram Benoit sangrando em profusão, sua irmã estava caída ao lado em choque. Antes de morrer pelo ferimento, Benoit fez uma descrição da criatura que o atacou. Os camponeses furiosos com oq ue havia acontecido entraram na floresta para procurar a besta responsável pela tragédia. Ao invés disso descobriram uma menina chamada Pernette Gandillon vagando sem rumo por uma trilha. Os aldeões perceberam que o vestido de Pernette estava coberto de sangue, então concluíramq ue ela deveria estar ligada ao ataque. Quando se aproximaram, ela rosnou com um animal selvagem e atacou o bando. Eles reagiram e em maioria a mataram.


A despeito de Pernette ter confessado ou não que era um lobisomem, ainda que algumas testemunhas tivessem certeza disso, havia uma razão a mais para toda aquela violência contra uma moça de pouco mais de 17 anos. A família dela, os Gandillon eram bastante impopulares. Pernette e os demais membros da família viviam na floresta, em uma cabana isolada do restante de St. Clause. 

Havia muitos rumores a respeito do estranho clã. As más línguas sugeriam que eles guardavam algum segredo terrível e que por essa razão preferiam se manter afastados para que ninguém descobrisse. Outros afirmavam categoricamente que o patriarca mantinha relações pouco naturais com as filhas e que pelo pecado cometido, as meninas haviam desenvolvido estranhas características: seis dedos em cada mão, orelhas pontudas e rabos de lobo. Outros diziam que todos os Gandillon eram satanistas que veneravam Lúcifer e sacrificavam crianças na floresta. Havia ainda a suspeita de que eles seriam lobisomens e que como tal matavam quando tomados pela licantropia.

O corpo de Pernette foi arrastado até St. Claude e colocado na frente da prefeitura com umaplaca onde se lia "Filha de Lobisomens" em volta do pescoço. Após esse assassinato, seus irmãos Pierre e Antoinette foram também acusados de serem lobisomens. Uma família de vizinhos dos Gandillon relataram uma história medonha de que os irmãos haviam sido vistos participando de uma missa negra e de uma orgia. Em uma das versões, Antoinette que tinha apenas 13 anos teria sido visto fazendo sexo com um bode preto, um dos mais conhecidos disfarces do demônio. 

A loucura se apossou do povo de St. Claude e uma turba seguiu para a casa dos Gandillon exigindo que os irmãos se entregassem. Quando se negaram, simplesmente entraram na casa e os levaram amarrados para a praça da cidade. Após serem torturados, Pierre acabou confessando que as acusações eram verdadeiras. 

 Ele admitiu que o Demônio havia oferecido à família peles de lobos que tinham o poder de transformar os Gandillon em lobisomens. Jogando as peles sobre a cabeça, os Gandillon eram capazes de se transformar em lobos e correr pelos campos com as quatro patas, devorando animais e humanos. O Patriarca da Família, Georges e sua esposa também foram acusados de participar das barganhas demoníacas, ainda que a confissão de Pierre eximisse seu pai e mãe de qualquer envolvimento. As coisas não pararam por aí, primos próximos e distantes, dois tios e mais um avô que vivia no vilarejo vizinho também foram acusados. Segundo rumores, até mesmo uma família de uma aldeia longe de St. Claude, que tinham por sobrenome Gaudilion acabaram arrastados para a teia de acusações e boatos. Por pouco não acabaram sofrendo represálias.

Para azar dos Gandillons, o infame Juiz Henri Boguet, um homem severo e temido foi colocado à frente dos trabalhos legais. Embora muitas pessoas acreditassem em lobisomens, a maioria se mostrava cética que tal coisa poderia existir. Existia a crença de que o demônio podia corromper as pessoas e fazer com que elas acreditassem que haviam se transformado em lobos.

Boguet, levava muito à sério as histórias sobre lobisomens. Ele era autor de "Examen de Sorcieres" (Exame das Feiticeiras), um livro popular, publicado em 1590 que detalhava as confissões de mais de 40 bruxas versando a respeito de adoração, missas negras, conjunção carnal com demônios e claro, licantropia. De fato, um dos capítulos, era justamente a respeito de homens que se transformavam em lobos e como tal coisa se espalhava pela França como uma epidemia profana. O Juiz afirmava que em sua carreira havia sentenciado mais de 600 lobisomens e que seu trabalho era essencial para manter a paz.

Enquanto visitava os Gandillon na cadeia, o Juiz percebeu que Georges, Antoinette e Pierre manifestavam claros indícios de terem licantropia. Por exemplo, quando Bouguet espetou Pierre com um alfinete de prata ele imediatamente gritou e se atirou no chão como se estivesse sofrendo convulsões. Além disso, a face e as mãos da família apresentavam o que o Juiz chamava de sinais inequívocos da Licantropia, na forma de arranhões, unhas em determinado formato e o sinal de um sexto dedo amputado. A respeito de Pierre, que estava muito ferido pela tortura sofrida, o Juiz disse: "Esse monstro sequer parece com um ser humano e não há como olhar para seu semblante bestial sem sentir horror".

O juiz afirmou que a família deveria ser mantida presa na masmorra até que se transformassem em lobisomens provando assim que as acusações eram verdadeiras. É claro, os Gandillon jamais se transformaram em lobos e isso começou a chamar a atenção da população que passou a levantar dúvidas sobre as histórias cada vez mais exageradas. Para muitos, o Juiz estava meramente se promovendo às custas da desgraça alheia ou sendo um completo idiota. Percebendo que as coisas poderiam virar contra ele, o Juiz atribuiu a falta de transformação a falta das capas encantadas e de unguentos sabidamente usados pelos licantropos para iniciar a transformação.


Os irmãos Gandillon foram sentenciados a morrer na fogueira, mas no último momento a pena de Antoinette foi comutada para que ela pudesse viver em um convento até o fim de seus dias. Pierre foi executado, seguido de seu pai e de dois tios. 

Após os trabalhos, Henry Boguet conquistou enorme fama em toda França sendo conhecido como um dos mais importantes Demonologistas e Caçadores de Bruxas de sua época. Em 1602 ele publicou Discours exécrable des Sorciers (Discursos Execráveis sobre a Feitiçaria) um Manual que tratava de bruxaria que teve doze reedições em doze anos. O Magistrado teria morrido na pobreza extrema e louco em 1619, ele acreditava ter sido vítima dos malefícios de bruxas que o amaldiçoaram.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Besta de Gevaudan - A França aterrorizada por uma fera sanguinária


Entre os anos de 1764 e 1767 os habitantes da pequena província francesa de Gevaudan - atualmente parte de Lozere, próximo das Montanhas Margueride, foram aterrorizados por uma horrível criatura lupina que passou a  ser conhecida como La Bête du Gevaudan ou "A Besta de Gevaudan".

A criatura foi descrita como um monstro semelhante a um lobo, mas muito maior dos que qualquer lobo que já havia vagado pela região, sendo quase do tamanho de uma vaca ou de um burro. Suas patas eram dotadas de garras afiadas, a pelagem era escura como a noite, a cabeça maciça semelhante a um mastim com orelhas pequenas e retas, além de uma boca excepcionalmente grande, repleta de enormes presas. Mais do que uma aparência medonha, a criatura parecia dotada de uma maldade inerente que a impelia a matar pelo simples prazer de fazê-lo, não apenas para se alimentar ou defender.

Acredita-se que até seu reinado de terror se encerrar, a Besta de Gevaudan tenha matado algo entre 60 e 100 homens, mulheres e crianças, deixando ainda um saldo de mais de trinta feridos. Atestar a veracidade desses números, é claro, constitui uma tarefa impossível, mas ao certo se sabe que o caso realmente aconteceu e que o número de vítimas foi elevado uma vez que causou comoção em todo país, vindo a ser conhecido em outras partes da Europa.

O primeiro encontro relatado com a fera aconteceu em maio de 1764 na floresta de Mercoire próximo de Langogne na porção oriental de Gevaudan. Uma jovem que cuidava de seu rebanho de gado percebeu uma forma escura espreitando em meio aos arbustos. Ela contou que a fera saltou da mata investindo contra os animais, mas os touros conseguiram mantê-lo à distância com seus chifres. A criatura atacou por uma segunda vez lutando contra os touros, um comportamento incomum para um lobo, mas foi repelida novamente. Os animais conseguiram ganhar tempo suficiente para a mulher apavorada escapar e chegar até seu vilarejo, onde ela contou o que havia acontecido. Os homens da vila se armaram e foram até o local, encontrando alguns animais feridos, mas nenhum sinal do lobo.

Apenas um mês depois, o lobo apareceu novamente. Dessa vez o ataque terminou em tragédia, com a morte de uma menina que não conseguiu escapar da fera. O corpo da criança foi encontrado próximo a um córrego onde ela havia ido encher um cântaro de água. Ela havia sido horrivelmente mutilada e seu coração, segundo as estórias, fora devorado pela fera.  


Nos meses que se seguiram a região mergulhou em um clima de apreensão à medida que o enorme lobo negro prosseguia em sua matança, parecendo ter desenvolvido um gosto especial por mulheres, crianças e homens solitários que se embrenhavam na floresta para cuidar de seus animais pastoris. A forma como a fera atacava também era incomum para um predador, pois ele visava a cabeça se suas vítimas, ignorando os braços e pernas, áreas em que lobos tendem a se concentrar. As vítimas que não eram inteiramente devoradas ou desapareciam sem deixar vestígios, eram encontradas com suas cabeças despedaçadas ou completamente removidas de seus corpos, algo que nunca se tinha ouvido falar até então.

Em virtude do grande número de ataques e vítimas fatais, alguns começaram a suspeitar que haveria mais de uma fera, um par ou quem sabe até uma alcateia dos temíveis animais. De fato, algumas testemunhas relatavam ter avistado a fera no momentos em que ela era vista em outro lugar. Alguns também diziam ter visto o enorme lobo andando com outros animais menores que ele parecia liderar. Os relatos se multiplicavam e um estranho boato começou a se espalhar: o de que a fera seguia as ordens de um homem misterioso todo vestido de couro preto que apontava as pessoas que a fera deveria matar. Para alguns era um nobre decadente que tornava o assassinato seu esporte, para outros era o próprio diabo. 

A medida que a Besta de Gevaudan continuava a matar sistematicamente, as pessoas começaram a acreditar que por trás das suas ações havia algum componente sobrenatural. Caçadores perdiam o rastro da fera no meio da floresta, armadilhas eram ignoradas, armas pareciam negar fogo e os mateiros não entendiam como um lobo tão grande era capaz de se esquivar de todas as buscas. A habilidade da criatura em sobreviver a todas as tentativas de eliminá-la e o fato dela preferir matar mulheres parecia algo claramente sobrenatural. Os camponeses passaram a acreditar que não estavam enfrentando um simples lobo, mas um loup-garou, um lobisomenApesar de todas as providencias para aumentar a segurança erguendo cercas e acendendo tochas durante a noite, não havia sinal da fera diminuir a sua sede de sangue. 


Em outubro de 1764 dois caçadores encontraram a besta na floresta e atiraram contra ela a uma distância de apenas dez passos. Eles atingiram a criatura quase à queima roupa e conseguiram derrubá-la, mas antes que eles pudessem recarregar os mosquetes para uma segunda salva, ele se ergueu e correu para o bosque. Os caçadores juraram ter acertado a fera, mas contaram que as balas não foram capazes de matar a besta imbuída de uma resistência, obviamente diabólica. Uma vez tendo contado o que havia acontecido, organizou-se um grupo de caça que encontrou facilmente os rastros de sangue adentrando o bosque, exatamente no local em que os homens haviam alvejado a criatura. Diante da quantidade de rastros, todos acharam que seria questão de tempo até encontrarem a carcaça da fera em algum ponto da floresta. Os homens entraram na parte mais profunda da mata, onde descobriram vários corpos de vítimas até então desaparecidas, mas nenhum sinal da fera responsável por aquele massacre. Quando se preparavam para retornar, o lobo surgiu sorrateiramente, investindo contra os homens e fazendo mais quatro vítimas fatais. Os sobreviventes contaram que dispararam inúmeras vezes, acertando o alvo, mas cada vez que a besta era baleada, se levantava para atacar novamente. Aterrorizados, os homens fugiram sem olhar para traz.         

Depois disso, o pânico se instalou de vez na região. As estórias sobre as façanhas da fera se espalharam, carregadas por caçadores, mercadores e viajantes. Logo não havia um caçador na França que não tivesse ouvido falar da maligna Besta de Gevaudan. Várias beats se formaram, grupos de caçadores compostos de vários homens, a pé ou montados, armados com mosquetes potentes, longas lanças de caça e mastins farejadores. 

O chefe da milícia local, o Capitão Duhamel foi incumbido pelo próprio Rei Luis XV de encontrar e eliminar a ameaça responsável por deixar os camponeses em um estado de terror tamanho, que colocava em risco as colheitas. Duhamel organizou uma enorme grupo de voluntários formado por dezessete caçadores experientes montados à cavalo, um estoque de mais de 40 mosquetes previamente carregados e uma parelha de mais de trinta cães de caça. O grupo chacinou todos lobos que viviam na região. Segundo contas, mais de 200 animais foram mortos, mas nenhum deles se parecia com a elusiva Besta de Gevaudan.

Os caçadores espalharam armadilhas pela floresta, deixaram ovelhas em lugares acessíveis vigiados noite e dia, aguardaram e chegaram até a vestir alguns com roupas de mulher para tentar atrair a fera. Mas nenhuma dessas estratégias logrou êxito. 

Finalmente em novembro, o grupo de Duhamel avistou a  fera e a perseguiu pela floresta, mas a perdeu em uma área onde os cavalos não conseguiram adentrar. Seguindo à pé, os implacáveis caçadores não se renderam e depois de encontrar com o enorme lobo em uma clareira dispararam contra ele supostamente o alvejando repetidas vezes. Ainda assim, a fera conseguiu escapar para dentro do bosque. O grupo acreditando que o animal não poderia sobreviver a todos os ferimentos infligidos retornou a Gevaudan onde foram recebidos como heróis.    

Dias se passaram sem nenhuma notícia da fera, até que no final de dezembro, perto do Natal, mais uma mulher desapareceu. O grupo de busca localizou os seus restos terrivelmente mutilados em uma ravina: o pesadelo continuaria. A credibilidade do Capitão Duhamel caiu por terra e ele foi destituído depois que um dos seus homens de confiança quase foi linchado por uma multidão furiosa. 


Em Paris, as notícias foram recebidas com reprovação. Críticos da monarquia diziam que a fera estava fazendo o Rei de tolo e que o monarca não era capaz de cuidar da segurança de seus súditos e se livrar de um simples animal selvagem. Insuflando os rumores, alguns afirmavam que um nobre renegado estava por detrás das mortes, controlando um lobo selvagem. Para outros, o tal nobre seria o próprio lobo demoníaco, no qual se transformava nas noites de lua cheia.

Uma recompensa foi prometida para quem matasse a fera e apresentasse o seu corpo. Um emissário real viajou até a região de Gevaudan levando a notícia de que o caçador que eliminasse a fera receberia uma verdadeira fortuna. O Rei ordenou que a Fera de Gevaudan fosse morta e seus restos expostos em Paris como forma de acalmar a população.

O montante oferecido atraiu não apenas caçadores da França, como homens de todas as partes da Europa que convergiram para Gevaudan ávidos pela glória e pela riqueza. A caçada durou meses, e mais de cem lobos foram abatidos, mas nenhum deles foi reconhecido como sendo a fera responsável por aquela situação. Os habitantes locais estavam cansados da presença de tantos estrangeiros comendo a sua comida, remexendo os campos e invadindo suas propriedades. Alguns caçadores agiam de má fé tentando ludibriar as autoridades reais. Um homem chegou a apresentar a carcaça de um animal estranho e incomum, alegando que havia abatido a criatura após uma épica caçada. O mestre de caça, reconheceu os restos pelo que eles de fato eram, uma hiena, que aparentemente havia sido trazida do norte da África.     

Após a morte de duas crianças em tenra idade, o Rei comovido pela situação, contatou um normando chamado Denneval, que fora Guarda Caça de um marquês e que tinha a reputação de ser o maior caçador da França. O monarca depositou no sujeito suas últimas esperanças e prometeu a ele um título de nobreza caso fosse bem sucedido na perigosa empreitada.

Em fevereiro de 1765. Denneval chegou a região de Gevaudan acompanhado de cinco ajudantes de sua inteira confiança, sendo um deles um nativo americano que ele havia encontrado em uma expedição a colônia de Manitoba e que era famoso pelas suas qualidades como rastreador. A entourage contava ainda com um verdadeiro arsenal de 50 mosquetes militares pesados, lanças com mais de dois metros de comprimento, bestas que disparavam setas de ferro, bombas explosivas de pólvora negra, armadilhas e correntes para capturar ursos e outros equipamentos modernos. Os homens do Guarda Caça, usavam armaduras negras de couro batido e eram uma visão aterrorizante, em especial o selvagem do Novo Mundo com o cabelo moicano e pintura de guerra. Denneval vestia uma armadura de couro e metal cheia de espinhos e dizem havia matado uma loba no cio e espalhado seu sangue em todo traje. O fedor que exalava era nauseante, mas ele estava confiante de que isso atrairia a presa.

O grupo de Denneval logo ganhou a companhia do jovem Jacques Denis, um rapaz de dezesseis anos que conhecia como ninguém a floresta e que provou não estar intimidado pela tarefa e nem pela aparência do bando. Jacques explicou que desejava se vingar da fera uma vez que ela havia matado sua irmã mais velha meses antes. O rapaz havia testemunhado o horrível ataque e visto o corpo sem vida da irmã ser arrastado como um boneco para a floresta de onde jamais foi recuperado. O rapaz foi aceito na companhia dos caçadores que vasculharam cada canto da floresta. O plano de Denneval era forçar a fera para cada vez mais perto de Gevaudan a fim de fazer o abate.

Em meados de maio, o plano do Guarda Caças teve êxito, mas não da maneira que ele esperava. A fera foi atraída para a cidade, durante as comemorações da Feira da Primavera. Durante seu ousado ataque, a besta matou várias pessoas incluindo uma jovem de nome Marguerite, que estava enamorada de Jacques Denis. Furiosos, aldeões se armaram com ferramentas, paus, pedras e qualquer coisa que pudessem usar como arma para matar o monstro. Jacques e um grupo penetrou na floresta seguindo o rastro do lobo, mas acabou caindo em uma armadilha. Os homens acabaram morrendo e se não fosse a chegada providencial de Denneval e seus homens, Jacques também teria sido morto pela fera. Apesar de sobreviver, diz a lenda que os cabelos do rapaz ficaram totalmente rancos e que ele pareceu envelhecer décadas com a experiência. Pouco depois desse ataque, que teria deixado mais de doze mortos, Denneval desistiu da perseguição.

"Não há o que fazer" teria escrito ao Rei se desculpando. Ele continuou: "A fera nos iludiu a entrar na floresta a fim de atacar impunemente o vilarejo. Claramente estamos diante de algo que desafia a razão e que age impelida pelo desejo de matar. Temo que nossa presença aqui apenas a torna mais selvagem e vingativa".


Perturbados pela desistência do Guarda Caça, a maioria dos caçadores também partiram. Livre para agir impunemente, a fera prosseguiu impiedosa. Ele matou um rapaz de quatorze anos e uma mulher que carregava um recém nascido. Furioso com a carta do Guarda Caça, o Rei ordenou que Denneval fosse trazido à sua presença, mas ele escapou para outro país desaparecendo da história. Um dos conselheiros de Luis XV indicou um homem para assumir o lugar do Guarda Caça, seu nome era Antoine de Beauterne, um renomado taxidermista parisiense que havia caçado todo tipo de presa na Europa e na África.

Beauterne chegou sem estardalhaço e fez aparentemente pouco no início. Explorou a floresta, desenhou mapas e assinalou neles onde a besta havia sido vista. Em uma de suas expedições encontrou com o nativo de Manitoba que ficou para traz após a desistência de Denneval. O homem, que passou a ser chamado de Mani, ofereceu suas habilidades como rastreador.

Em 21 de setembro, Beauterne organizou um grupo de caça formado por quarenta caçadores locais especialmente escolhidos para a tarefa, e uma dúzia dos melhores cães farejadores. Unindo o seu conhecimento do terreno aos valiosos conselhos de Mani, os homens se concentraram em uma área rochosa isolada, repleta de ravinas próxima ao vilarejo de Pommier. Parecia lógico para o taxidermista que o lobo usasse esse lugar, cheio de cavernas como covil por ele proporcionar um bom esconderijo e dispor de água potável. O plano era levar a caçada até um lugar em que a fera se sentisse segura, e onde ela não esperava ser confrontada.

Logo que chegaram ao local os cães captaram um cheiro e começaram a latir como loucos. Não demorou para a besta emergir de uma caverna para investigar. Um dos homens deu alerta e Beauterne disparou seu mosquete acertando em cheio o dorso da fera. Ela ainda saltou derrubando um dos homens, mas imediatamente os outros abriram fogo crivando o lobo com tiros certeiros. Um deles teria arrancado seu olho esquerdo e se alojado no crânio. A criatura ganiu e caiu morta, mas enquanto os homens comemoravam, ela de repente se ergueu e investiu novamente com uma ferocidade sobrenatural. Uma segunda saraivada de balas foi disparada e finalmente a fera acabou tomando. O golpe final foi desferido por Mani. Armado com uma afiada machadinha o nativo saltou sobre a fera, sua arma descreveu um giro no ar e caiu pesadamente despedaçando o crânio da besta. Aproximando-se cautelosamente os homens se colocaram a golpear a carcaça com baionetas e lanças compridas até reduzi-lo a uma coisa grotesca e sanguinolenta.

Os caçadores amarraram o que havia restado da fera em um estrado e o arrastaram até Pommier. Beauterne examinou cuidadosamente os restos da fera e concluiu que se tratava de um magnífico lobo medindo um pouco mais do que 1,80 m e pesando algo em torno de 90 quilos, com uma boca cheia de presas com mais de uma polegada de comprimento. Beauterne tentou preservar a criatura a fim de levá-la até o Rei, mas apesar de seus esforços, a carcaça havia recebido muitos danos durante a caçada. Tudo o que ele conseguiu salvar foram as orelhas, os dentes e o rabo, todo o resto foi queimado e enterrado nos arredores do vilarejo.


Por mais de um ano, as coisas ficaram tranquilas em Gevaudan e a vida foi voltando ao normal. Então, na primavera de 1767 as mortes reiniciaram. Duas crianças haviam desaparecido e o corpo de uma mulher sem a cabeça foi achado em um descampado. Beauterne foi chamado para retornar a Gevaudan, mas ele afirmou que aquelas mortes não eram o trabalho de um lobo, e sim de um maníaco.

Em 19 de junho do mesmo ano, um nobre local, o Marques d'Apcher organizou a maior beate já vista para encontrar o rastro do animal. Mais de trezentos homens a pé e montados vasculharam cada centímetro do bosque. Nada foi encontrado.
   
Na época, um homem misterioso chamado Jean Chastel passava pela região. Ele era um conhecido de Jacques Denis e se ofereceu para exterminar a fera. Ao contrário dos outros ele não era um caçador experiente, mas um especialista em folclore e superstições. Chastel afirmava que o responsável pela nova onda de mortes não era um simples lobo, mas uma besta sanguinária aprisionada no corpo de um homem. A luz fazia com que a fera no interior do culpado viesse à tona com um incontrolável desejo de matar. O espírito do lobo de Gevaudan havia contaminado esse homem o transformando em um assassino. Ele era um loup-garou.

O especialista conseguiu convencer as pessoas de Gevaudan a doar objetos de prata e quando tinha o suficiente mandou derreter tudo a fim de produzir projéteis que foram abençoadas pelo pároco local. O plano de Chastel era atrair o lobisomen para os limites do bosque. Ele preparou o lugar cuidadosamente e acompanhado de Denis recitou uma série de orações. Na alta madrugada, os dois perceberam movimento na mata e ficaram alerta. De repente uma besta em forma de lobo irrompeu da floresta e avançou na direção dos dois. Chastel disparou com suas pistolas e os projéteis de prata pura vararam o corpo da besta que caiu fulminada.

Assim como a fera morta por Antoine de Beauterne essa criatura era um enorme lobo, consideravelmente maior do que os outros que habitavam a floresta. O monstro foi estripado e dentro dele encontrou-se os restos de uma criança que havia desaparecido na véspera. A besta foi embalsamada e levada de cidade em cidade para que as pessoas pudessem vê-la, em troca de uma pequena contribuição, é claro. Infelizmente para a ciência moderna, os métodos de preservação da época não eram bons o bastante e o que restou da fera acabou chegando até Paris em um estado deplorável. O fedor incomodou o Rei de tal forma que ele ordenou que os restos fossem levados de sua presença imediatamente. Há informações contraditórias a respeito do que aconteceu com a Besta então. Para alguns ela foi queimada e suas cinzas espalhadas ao vento, apesar dos protestos de Chastel. Outros dizem que a carcaça chegou a ser levada até o genial taxidermista Beauterne que restaurou a fera e a vendeu para um nobre colecionador.

Seja como for, os restos da lendária Besta de Gevaudan jamais foram recuperados, causando mais de dois séculos de controvérsia a respeito de sua real identidade. Em 1960, após estudar a transcrição de Antoine de Beauterne a respeito do processo de dissecção da fera por ele abatida, uma comissão de zoólogos concluiu que o animal descrito era realmente um lobo. Franz Jullien, taxidermista do Museu Nacional de História Natural de Paris, encontrou amostras dos dentes da Besta de Gevaudan guardadas no arquivo do Museu e as submeteu a testes, concluindo que se tratavam realmente de presas de um lobo de grande porte. Em 1979, restos de um animal empalhado foram encontrados guardados no depósito do museu em uma caixa. Segundo boatos, seriam os restos do espécime que Jean Chastel abateu com suas balas de prata. O animal foi aparentemente identificado como uma hiena nativa do Norte da África, Oriente Médio, Paquistão e Oeste da India.  

Seria a Besta de Gevaudan uma enorme hiena e não um lobo? A ideia foi contemplada entre outros pelo novelista Henri Pourrat e pelo naturalista Gerard Menatorv que propuseram a hipótese de uma hiena ter sido trazida por negociantes de naimais e uma vez recusada em um zoológico, libertada na floresta. Há ainda outra hipótese que coloca em xeque a credibilidade de Jean Chastel. Segundo rumores, o pai de Chastel possuía uma hiena em sua menageria (um termo do século XVII usadopara coleções de animais mantidos em cativeiro). Alguns pesquisadores acreditam na possibiliadde de Jean Chastel ter inventado a estória a respeito do loup-garou e usado a hiena que pertencia a menagerie de seu pai para se auto-promover.

Isso levanta a questão a respeito de quem seria então o responsável pelas mortes após Beauterne ter eliminado o grande lobo. Para alguns, Chastel ou alguém muito próximo a ele teria deliberadamente assassinato inocentes para criar a impressão de que a Besta ainda vagava por Gevaudan fazendo vítimas. Para muitos, o misterioso Chastel era um homem de moral dúbia, ganancioso e ávido por riquezas. Uma das razões pelas quais o Rei Luis XV se negou a recebê-lo foi justamente por ele ter tentado vender ao monarca, por um preço exorbitante, os restos da fera abatida. Chastel morreu em relativa obscuridade, mas não é totalmente surpreendente que alguns afirmem que ele teria se tornado um algoz da nobreza e que desempenhou o papel de perseguir nobres após a Revolução.

É claro, tudo isso é mera especulação uma vez que não há como determinar historicamente se houve mais de uma Besta de Gevaudan. O que se sabe é que o sentimento de terror que tomou conta da região entre 1764 e 1767 foi muito bem documentado na época. A população de lobos também foi drasticamente reduzida chegando praticamente a extinção por conta das caçadas empreendidas naqueles três anos.

O que levou um lobo a emergir das floresta para matar indiscriminadamente os habitantes de uma pequena província na França continua sendo um mistério. Mas um marco de pedra foi construído no local, lembrando a todos daqueles dias de medo.

  

sábado, 15 de setembro de 2018

Cinema Tentacular: A Freira - "Deus termina aqui"


Eu estudei em colégio de freiras minha infância e adolescência inteiras.

Na época em que eu estava no colégio, freiras já eram bem diferentes da ideia que boa parte das pessoas tem delas. Elas não eram amargas, ressentidas, fanáticas religiosas vestidas de pinguim e armadas com poderosas e devastadoras réguas usadas para disciplinar as crianças. Elas jogavam vôlei e dirigiam, sem falar que a maioria delas eram bem simpáticas e nem usavam hábito. É provável que a visão que muitas pessoas tem das freiras, seja uma visão um tanto estereotipada, posteriormente suavizada por simpáticas Noviças Rebeldes e/ou voadoras.

Minha mãe que também estudou em colégio de freiras sempre contou como elas eram severas, enérgicas e muitas vezes apavorantes. Talvez para a minha mãe, o filme "A Freira" (The Nun) surtisse mais efeito do que em mim. Talvez para ela fosse mais fácil associar a Freira Monstruosa do filme com as religiosas que mandavam no colégio que ela estudou.

Sem dúvida o filme "A Freira" aposta em uma imagem de Severidade e Isolamento para contar sua história de Horror. E cria um personagem bem macabro, como é possível atestar no trailer e nas fotos emoldurando essa resenha.


Mas falemos do filme em si, "A Freira" (The Nun/2018) é a quinta produção da franquia iniciada por Conjuração do Mal, que introduziu o casal de Investigadores e Demonologistas Ed e Lorraine Warren. Desde o primeiro filme, os dois se meteram com fantasmas, bonecas malditas, demônios e tiveram um entrevero com a própria freira que é a personagem central nesse capítulo. Sabendo que os Warren do mundo real estiveram na ativa e nas manchetes de tabloides por boa parte dos anos 70 a 90, é provável que ainda tenhamos mais filmes envolvendo o universo do casal. Enquanto estes estiverem rendendo uma boa bilheteria é razoável assumir que veremos outros casos paranormais seguindo o mesmo esquema.

"A Freira" é uma espécie de prequel na qual a história do macabro demônio chamado Valek é aprofundada. Ficamos sabendo mais alguns detalhes a respeito dessa criatura maligna, seus objetivos, de onde ele veio e como ele foi contido.

A história se passa no ano de 1952, no interior da Romênia, uma nação que sofreu profundamente com a Segunda Guerra e que ainda se reconstruía. Como um dos personagens comenta, viajar pelo interior do país é como retornar a Era Medieval, uma verdadeira colcha de retalhos de tradições, folclore e superstições.


Os primeiros dez minutos criam a atmosfera que vai acompanhar o espectador durante todo o filme. Não vou estragar as surpresas contando do que trata, mas a abertura é excelente, de fato, uma das melhores coisas do filme. Nela conhecemos a sinistra Abadia de St. Carta, a morada de uma rígida ordem de freiras que se dedicam a rezar e meditar sem qualquer contato com o mundo exterior. Mesmo as entregas de suprimentos para a abadia são feitas através de uma porta giratória para que ninguém entre e, mais importante, nenhuma das freiras saia. Quando o encarregado de levar os tais suprimentos chega a abadia e se depara com uma cena medonha do que parece ter sido um suicídio, ele corre para avisar.

Ciente do ocorrido, o Vaticano despacha para a região um religioso badass, Padre Burke (Demian Beshir) uma espécie de investigador sobrenatural com experiências desagradáveis durante a guerra. A missão do Padre é avaliar o que motivou o suicídio e se o local ainda pode ser considerado "sagrado". Para auxiliá-lo nessa importante tarefa, decidem enviar para acompanhá-lo uma noviça de mente aberta e atitude progressista, Irmã Irene (Tessa Farmiga). As razões para ordenar que uma jovem noviça tome parte em algo tão incomum permanecem à princípio desconhecidas, até mesmo mesmo para a própria mocinha. Depois de encontrar o sujeito que descobriu o corpo, um franco-canadense apelidado de Frenchie (Jonas Bloquet), os três acabam seguindo para a Abadia a fim de dar início a investigação e desvendar seus muitos segredos.

Um dos méritos do filme é que ele não perde tempo... assim que o grupo chega a abadia coisas bizarras começam a acontecer quase que de imediato. Uma sombria Madre Superiora os convida para passar a noite no alojamento do convento e explorar os arredores de maneira mais completa. De vultos macabros a ruídos inexplicáveis, passando por presenças invisíveis e espectros furiosos, o filme ao longo de 96 minutos de duração oferece toda sorte de manifestações sobrenaturais com o objetivo de pegar o público de surpresa e assustá-lo.


Aí está um dos problemas: ao recorrer repetidas vezes ao expediente do jump scare, o filme quase derrapa, tornando-se repetitivo. Quem realmente gosta de filmes de horror sabe que nada, nem mesmo a cena mais bem elaborada ou efeito especial mais mirabolante, consegue superar uma boa dose de horror psicológico. A Freira em alguns momentos repete a fórmula de tentar surpreender o público custe o que custar, mas não chega a realmente assustar. Por sinal, se essa for uma condição essencial para que você assista esse filme, então é possível que saia do cinema desapontado. Com todos seus jogos de câmera, sombras furtivas, gritos estridentes, o filme não chega a causar qualquer sensação de medo ou desconforto.

O que parece é que o roteiro joga para a torcida. Em um filme mais profundo e denso algumas cenas talvez conseguissem incomodar, mas o diretor parece tentar agradar a todos: aos que vieram assistir um filme de horror tradicional e aqueles que não tem muita certeza se deveriam estar na platéia. Para estes, o roteiro quebra o clima de horror inserindo aqui e ali algumas pontas de humor e piadinhas que atenuam a atmosfera de medo. Para os fãs mais hardcore isso pode ser um pecado mortal, mas a suavização deve agradar ao pessoal menos afeito ao gênero.

Visualmente "A Freira" é impecável! O filme possui uma fotografia escura, com sombras que parecem adquirir vida própria dependendo do ângulo em que elas são enquadradas. A equipe de direção de arte se esmerou em criar os ambientes soturnos da abadia nos mínimos detalhes: cada aposento, cada estátua, cada espelho e detalhe de afresco ajudam a passar uma ideia de isolamento e confinamento. Mesmo do lado de fora, o cemitério, com as suas lápides e cruzes de todos os tamanhos e formas, criam a ilusão de ser impossível escapar. Para quem aprecia os antigos clássicos da Hammer/Amicus, é possível perceber que o visual rende uma homenagem a esses velhos filmes góticos com seus castelos medievais e mansões assombradas, aqui transformados em um convento maldito. Os efeitos visuais e especiais são sólidos, mas não chegam a encher os olhos.


O elenco consegue estabelecer uma boa química: a dupla de protagonistas religiosos (padre e noviça) são suficientemente confiáveis e entregam aquilo que se espera. Tanto Beshir quanto Farmiga são bons atores e estão à vontade em seus papeis - por sinal Tessia Farmiga é irmã mais nova de Vera Farmiga que vive Lorraine Warren. O terceiro protagonista, Jonas Bloquet, serve como um alívio cômico um tantinho exagerado, mas que felizmente não chega a comprometer.

Talvez a maior decepção infelizmente seja justo o "monstro" do filme, que não rende o esperado. Embora seja um spinoff centrado em Valek, o roteiro é bastante econômico a respeito das motivações do Demônio. No fim, ele é mal, porque trata-se de um demônio, e espera-se que um demônio seja malvado. Quando ele aparece na tela existe a expectativa de que a cena vai ser assustadora, mas fica apenas nisso: Expectativa. Nenhuma das aparições chega a ser tensa ou particularmente memorável. Uma pena, pois a aparência cadavérica da Freira Demoníaca tinha tudo para causar apreensão e alçá-la a um lugar de honra na galeria de monstros memoráveis.


"A Freira" é um filme que consegue entreter, mas está longe de ser uma montanha russa de emoções e surpresas. Está mais para um passeio indolor num trem fantasma, daquele que quando termina você diz "foi isso"? Sem dúvida, aqueles que conseguirem manter as expectativas baixas vão aproveitar muito mais e sair com uma sensação de ter assistido uma matinê. Quem for esperando algo mais profundo, provavelmente vai reclamar e querer seu dinheiro de volta.

De uma forma ou de outra, a Freira está longe de ser "O capítulo mais assustador de Invocação do Mal" como promete o cartaz. Ele é divertido, mas perfeitamente esquecível.

Trailer: