segunda-feira, 11 de maio de 2026

RPG do Mês: Vaesen Mythic Carpathia - Os Segredos da Transilvânia


Quando uma série de televisão faz sucesso, logo aparecem ideias para expandir a proposta através da introdução de um novo ambiente, novos personagens e pequenas mudanças na estrutura. O nome disso é Spin Off, às vezes dá certo, às vezes não...

Com Vaesen aconteceu uma coisa bastante parecida.

A proposta original de Vaesen - RPG de Horror Nórdico, era abordar as tradições e mitos da Escandinávia, introduzindo o conceito da Visão, um misto de maldição e benção que permite enxergar o mundo invisível e a Sociedade, um grupo de indivíduos com a Visão que se juntam no século XIX para investigar, entender, combater e eliminar ameaças sobrenaturais. E tais ameaças tomam a forma de criaturas normalmente invisíveis cuja interação com os humanos, muitas vezes, tende a ser problemática.

Eu já fiz uma resenha completa de Vaesen na qual falei sobre o jogo e não poupei elogios a ele. De fato, em pouco tempo, essa ambientação se tornou um dos meus RPG favoritos, não apenas pelo estilo do jogo e proposta inovadora, mas pelo sistema simples e extremamente elegante da Free League.

Isso nos leva aos Spin Off de Vaesen.   

Vaesen: Mythic Carphatia (algo como Vaesen: Cárpatos Míticos) é o segundo manual a expandir o cenário original, transferindo a ação da gélida Península Escandinávia para uma parte do Leste Europeu correspondente aos Cárpatos, a região aludida no título. Os Cárpatos são uma região extremamente interessante e rica em folclore. Para muitos o nome pode não fazer sentido, mas quando nos referimos  a esse território ressaltando que ele inclui a Transilvânia, aí a coisa muda de figura. Pois bem, essa expansão se concentra justo na região famosa por abrigar os mitos sobre o mais famoso vampiro de todos os tempos - Drácula, e muitas outras lendas bastante conhecidas.


Em Mythic Carpathia também existe uma Organização Secreta nos moldes da Sociedade, aqui, no entanto, seu nome é Pravda (Verdade). Sediada na cosmopolita cidade de Praga, a capital da Boêmia o Pravda foi criada para confrontar os Vaesen locais, suas artimanhas e planos.  

Assim como na expansão Vaesen: Mythic Britain and Ireland, que trata do Mundo Invisível nas Ilhas britânicas e Irlanda, a Free League Publishing recorreu a autores locais para detalhar a história e o contexto cultural de cada expansão. Em Mythic Carpathia a obra foi concebida por uma equipe de escritores ucranianos e poloneses que desenvolveram a história da ambientação e as três aventuras inclusas no suplemento.

Esta é uma decisão sábia que vale a pena, afinal, quem sabe melhor sobre o Folclore e Mitos de um determinado país do que os nativos dele. Com sorte são pessoas que cresceram com essas histórias, as ouviram quando eram crianças e mantém assim viva as tradições de sua terra natal. Através das informações contidas no livro podemos mergulhar na atmosfera sufocante desse cenário percorrendo a complexa história e conhecendo todos detalhes necessários. Ao contrário dos demais suplementos, o pano de fundo dos Cárpatos é escuro e soturno. Uma região imersa em profunda superstição, medos enraizados no dia a dia e em comparação às demais ambientações consideravelmente mais perigosa e selvagem. 

Além disso, há um caldeirão borbulhante de agitação política, com sucessivos governos e grupos de poder agindo sobre a sociedade, diferentes grupos étnicos e religiosos que compõem essa região conturbada. Tudo isso é tratado com cuidado, sem nunca as informações se tornarem cansativas ou redundantes.

Em cerca de vinte páginas, o suplemento não só explora a história da Boêmia e suas tradições, como também mergulha no cotidiano de seus habitantes. O trabalho foi muito bem feito, dá para sentir que os autores fizeram a pesquisa e se aprofundaram nas nuances desse lugar tão particular. A cidade de Praga recebe ampla cobertura, incluindo sua história e seu papel central na ambientação. Ela é a sede da Sociedade Cárpata: Pravda.


Há muito tempo, essa Organização se dedica à busca e, quando necessário, à expulsão dos Vaesen. Ela desempenha um papel fundamental num território vasto que se estende dos Montes Urais ao Vale do Oder, da Estônia Ocidental ao sul dos Bálcãs. Disputada por três grandes impérios (Russo, Germânico e Austríaco) a região é imensa, pontilhadas por pequenos povoados isolados, o lugar ideal para florescer superstições e medos. E para os Vaesen dominarem. A missão dos personagens é restaurar a Pravda ao seu verdadeiro propósito em sua nova sede localizada numa mansão em Prašná Brána (Portão da Pólvora). 

O foco principal da organização é o estudo da história e cultura locais. Ela também se dedica à integração com a comunidade de língua alemã. A Sede do Pravda ocupa o andar térreo do prédio, já os aposentos superiores são destinados a alojamento, escritórios e arquivos de documentos. Na prática, porém, apenas os membros da sociedade têm acesso a eles e os utilizam como sua base operacional.

O capítulo dedicado a Pravda fornece informações históricas detalhadas e extremamente úteis para ambientar aventuras nesta região da Europa. O manual também lista os recursos disponíveis e os contatos com instituições locais. Destas, a Sociedade de Aviação é particularmente notável, pois permite o uso de balões de ar quente para alcançar lugares distantes. Há também uma lista dos livros raros na biblioteca secreta da Ordem.

O terceiro capítulo é inteiramente dedicado aos Vaesen nativos da região. São nada menos do que 36 criaturas, monstros e inimigos. A lista é excelente incluindo entidades famosas como a terrível bruxa eslava Baba Yaga, os poderosos autômatos Golem, os perigosos Homúnculos e é claro, os lendários Vampiros. Cada criatura é acompanhada por belas imagens e estatísticas, além de exemplos ​​para construir histórias envolvendo estas criaturas.


Dentre os monstros menos conhecidos, o que mais me atraiu foi o Khocca-Yarokha, um pequeno Vaesen com corpo semelhante ao de um lagarto coberto de escamas, características de roedor e pequenas asas. Essa criatura bizarra coleciona dentes de crianças. Quando uma criança perde um dente, deve deixá-lo no chão: a criatura o pegará e deixará uma moeda em seu lugar. Mas diferente de uma fada do dente, esse monstrinho é capaz de coisas muito perversas se os dentes lhe forem negados. Outro Vaesen que despertou minha imaginação foi o Vykhrovyk. Esse espírito nasce de crianças amaldiçoadas ou rejeitadas pelos pais e vivem de coletar a alma de criminosos.

Nenhum manual de Vaesen estaria completo sem um novo arquétipo de criação de personagem, e aqui temos um especialmente interessante: o Caçador de Vampiros que, conforme esperado, é um especialista em mortos-vivos, cuja existência é dedicada a rastrear, perseguir e exterminar esses monstros sanguinários. 

Mythic Carpathia oferece três aventuras prontas cada uma delas perfeita para mergulhar no cenário misterioso e sombrio. O primeiro "Um Tratado de Sangue" permite que os personagens investiguem os mistérios que rondam um vilarejo localizado em um vale isolado da Transilvânia, no coração das Montanhas Cárpatas. O rigoroso inverno força os personagens a permanecer no local, justamente quando um conflito irrompe entre um vampiro e sua filha rebelde. Eles terão de entender o que está acontecendo e enfrentar essas ameaças e um horror oculto que deseja se aproveitar da situação. 

A história seguinte "A Tempestade que se Aproxima" se passa na antiga prisão de Lemberg em Brygidki. Outrora um mosteiro, a construção agora abriga criminosos condenados. No entanto, quando uma epidemia de varicela irrompe e alguns detentos são encontrados assassinados, o diretor da prisão, contata o Pravda para descobrir se há algo sobrenatural atuando.


Por fim, "O Segredo do Maharal" envolve os personagens em uma investigação na cidade de Praga, a capital da Boêmia. Várias pessoas são assassinadas, vítimas de uma força implacável e descomunal... qual seria a relação entre as vítimas e qual a motivação desse assassino misterioso? 

Cada mistério em Mythic Carpathia segue a estrutura já consagrada dos outros suplementos de Vaesen. A apresentação da trama, do conflito central, o envolvimento de ​NPCs, as pistas e locais a serem visitados são descritos em detalhes dando aos jogadores muitas oportunidades de explorar o cenário e os temas propostos. Por último, mas não menos importante, estão as pistas e recursos de apoio, um material imprescindível que torna cada mistério ainda mais vívido.

Falar da qualidade dos Livros da Free League é chover no molhado...

A arte das criaturas são obra do consagrado Johan Egerkrans, um artista sublime que se tornou parceiro indispensável para todo material de Vaesen. Seu traço estilizado já se tornou uma espécie de marca registrada de Vaesen. Os retratos dos personagens nesse suplemento ficam à cargo de Anton Vitus que entrega uma arte muito competente. Já a cartografia ficou à cargo de um trio de artistas italianos reconhecidos: Francesca Baerald, Moreno Paissan e Angela Gubert. O mapa destacável que acompanha Mythic Carpathia é simplesmente deslumbrante e sem dúvida será peça fundamental em qualquer mesa de jogo.


A estética do livro é aquela que já conhecemos e tanto amamos. O papel dos livros de Vaesen é grosso e texturizado, e os pequenos detalhes certamente enriquecerão a experiência de leitura tornando-a extremamente prazerosa. A capa é um primor e convida o leitor a explorar os segredos contidos nesse suplemento. 

Em resumo Vaesen: Cárpatos Míticos é um livro que expande o universo de Vaesen para uma nova e assustadora região. Criado com grande cuidado, o suplemento é elegante e robusto — uma adição útil e bela para qualquer coleção. 

Se, por outro lado, você nunca teve o prazer de jogar este jogo de terror nórdico tão intimamente ligado ao folclore, recomendo que aproveite e adicione mais uma peça à sua biblioteca de RPG.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Mistério Diabólico - Violência, feitiçaria e um crime macabro sem solução


A história está repleta de crimes sem solução que estão destinados a continuar assim para sempre. 

Por várias razões algumas pobres almas parecem fadadas a jamais descansar, seja pelas misteriosas, por vezes absurdas, circunstâncias que envolvem suas mortes ou pelo fato da identidade de seus assassinos jamais serem descobertas. Contudo, poucos casos são tão bizarros ou sinistros, quanto um incidente ocorrido há mais de 40 anos e que ainda desperta interesse por envolver elementos aterrorizantes de feitiçaria, satanismo, rituais sinistros e segredos inomináveis.

A história tem início com um cão. Em 19 de setembro de 1972, em Springfield, Nova Jersey, um cão retornou ao seu dono trazendo na boca algo inesperado e macabro. Para horror de seu dono, ele estava carregando os restos decompostos de uma mão humana. As autoridades foram contatadas imediatamente e começaram a empreender buscas na floresta onde o animal havia estado recentemente. Trouxeram cães farejadores que sem dúvida os levariam até o restante do cadáver, seja lá de quem fosse ele. Não demorou muito para que fosse encontrado nos arredores da Pedreira de Houdaille, um lugar afastado e isolado, desativado fazia alguns anos.

O corpo estava largado em uma área arborizada da pedreira que tinha o agourento nome de "Dente do Diabo" uma vez que as pedras espalhadas pelo terreno lembravam dentes afiados pendendo numa enorme mandíbula. O cadáver pertencia a uma jovem mulher caída de bruços no solo lamacento, a face voltada para o chão. Ela estava totalmente vestida, mas dias de exposição ao sol e chuvas haviam causado uma rápida degradação que dificultava determinar a causa da morte. Seria preciso fazer uma análise dentária para garantir a identificação, o que revelou se tratar do corpo da adolescente Jeanette DePalma de 16 anos. Ela vivia no local e seu desaparecimento havia sido registrado em 7 de agosto do mesmo ano. Na época da comunicação, a polícia conduziu extensas buscas pela garota que não resultaram em nenhuma pista de seu paradeiro. Para todos os efeitos, as autoridades imaginaram que ela havia fugido de casa, algo comum entre jovens.

A análise forense dos dentes demonstrou que ela estava morta fazia 6 semanas, o mesmo período de tempo pelo qual ela estava sumida. Contudo, ainda que o mistério do que havia acontecido com DePalma estivesse solucionado, o verdadeiro mistério estava apenas começando. Afinal, era preciso descobrir como ela havia morrido e em que circunstâncias. A partir desse ponto, a história se torna extremamente estranha.  


A análise da cena do crime onde o corpo foi achado rendeu algumas curiosas descobertas. Próximos do cadáver havia uma coleção de tocos de madeira e galhos que à primeira vista não pareciam ter nenhum significado, contudo, uma segunda análise demonstrou que eles haviam sido posicionados de modo intencional. Mais sinistro ainda, o padrão formava uma imagem ligada ao ocultismo. Uma testemunha que esteve presente na cena do crime afirmava que os galhos e tocos estavam posicionados formando um perímetro ao redor do corpo. Quase como se estivesse delimitando uma área trapezoide de onde ele não deveria ser removido. Exatamente ao lado da cabeça, algumas pedras foram posicionadas para apoiar uma cruz improvisada feita de galhos atados com um pano rasgado. A "cruz" havia caído, mas era óbvio que alguma pessoa a havia colocado de pé. A poucos metros de distância encontraram os restos de uma fogueira e o que parecia ser uma curiosa mesa de pedra e madeira que lembrava uma espécie de altar. Uma análise do tampo dessa mesa confirmou que as manchas escuras que a salpicavam eram realmente sangue. E uma análise mais criteriosa provou que era o sangue da jovem.

A essa altura a polícia começou a suspeitar que tinha em suas mãos algo muito mais sinistro do que um simples crime praticado por um matador de ocasião. A cena inteira indicava que elementos ritualísticos estavam presentes e que talvez, o responsável ou responsáveis por aquela morte, estariam envolvidos com feitiçaria, adoração satânica e sacrifício humano.

Os policiais providenciaram para que um antropólogo especializado em ocultismo fosse chamado e examinasse o local. Na época, havia muitos rumores a respeito de seitas satânicas e cultos, e o medo dessas coisas era palpável na sociedade norte-americana. De fato, alguns jornais sensacionalistas afirmavam categoricamente que cultos satânicos agiam livremente nas cidades e realizavam horríveis rituais de sangue e sacrifício. As autoridades não queriam aumentar ainda mais esse temor, portanto, decidiram manter a investigação em sigilo.

O estudioso pediu que os policiais fizessem uma busca pelos arredores e que escavassem ao redor do altar improvisado. Enquanto isso, ele se dedicou a verificar estranhos entalhes feitos nas árvores que compunham a clareira. Nos troncos haviam vários símbolos arranhados, a maioria destes semelhantes a flechas ou setas apontando para a direção da clareira em que o corpo havia sido achado. A escavação dos policiais revelou ossadas de animais enterrados perto do altar e na base de várias árvores. Encontraram ossos de gatos e pássaros, alguns deles com sinais de terem sido mutilados. A descoberta aumentou ainda mais a suspeita de que um cabal de feiticeiros havia capturado a garota e a assassinado em um ritual sangrento.               


Apesar do caráter sigiloso da investigação, não demorou muito até que a imprensa tomasse conhecimento das circunstâncias aviltantes do crime e fizessem a inevitável conexão do caso com elementos clássicos de bruxaria. Equipes de jornalistas seguiram para o local e a imprensa deu enorme destaque para o caso, rapidamente catapultado os acontecimentos para os principais programas de televisão do país. Na cidade não se falava de outra coisa e vizinhos se entreolhavam com uma expressão de suspeita, imaginando quem poderia estar envolvido com seitas diabólicas.

Feitiçaria não era exatamente algo estranho na área de Springfield, que possuía uma longa e fartamente documentada história de incidentes estranhos, muitos dos quais remontando ao período colonial. Entrevistas conduzidas com moradores revelaram que era fato conhecido que algumas pessoas na cidade tinham ligação com ocultismo, adoração ao diabo e que praticavam diferentes modalidades de feitiçaria. Uma cabala de bruxas teria se instalado lá e era sabido que seus membros se encontravam na Reserva Florestal de Watchung onde dançavam nuas ao redor de fogueiras e homenageavam entidades da natureza. Algumas pessoas comentaram que meses antes do assassinato de DePalma ter ocorrido, vários animais mortos foram achados na reserva.

As lendas locais da região incluem várias fábulas sobre bruxas e magia negra. Sendo uma área antiga remontando aos tempos da colônia, Springfield possuía sua parcela de histórias estranhas nascidas num período de enorme superstição. Ainda que as infames caças às bruxas tenham se concentrado na região da Nova Inglaterra, rumores a respeito de congregações de feiticeiras sempre estiveram presentes na história local. Considerada mais tolerante que as colônias de seus vizinhos puritanos, Nova Jersey teria atraído bruxas verdadeiras para seus limites.

Há inclusive uma antiga lenda local que menciona um incidente no qual 13 bruxas teriam sido mortas e enterradas após uma histeria motivada pelo desaparecimento de crianças no final século XVI. O local escolhido para o sepultamento das acusadas teria sido Johnston Drive, uma isolada trilha que antigamente ligava os povoados de Watchung e Scotch Plains. Não há elementos históricos comprovando esse acontecimento, que sem dúvida, dada a sua natureza, deveria ter sido documentado. Muitos historiadores consideram o incidente um boato que ao longo dos séculos se tornou real aos olhos de muitas pessoas.


Ainda assim, rumores como esse ajudaram a sedimentar a crença de que essa região de Nova Jersey, seria o berço de várias tradições de feitiçaria que remontam ao período colonial e que estas teriam ligação com as conhecidas cabalas da Nova Inglaterra que ensejaram a caça às bruxas. 

De fato, feitiçaria sempre esteve intimamente ligada ao povo dessa região em particular. Algumas testemunhas alegavam que rituais de magia negra eram conduzidos nas florestas há séculos e tinham entre seus praticantes pessoas importantes na sociedade local. Por essa razão, as autoridades faziam vista grossa para o que acontecia. Curiosamente, alguns meses antes do crime, um estranho acontecimento teria ocorrido em Springfield, quando vários roubos de livros pertencentes ao acervo da Biblioteca Municipal foram notificados. Dentre as obras que desapareceram das prateleiras estavam vários títulos ligados ao ocultismo, inclusive um raro volume da Enciclopédia do Ocultismo editada no século XVIII.

Uma vez que as investigações avançavam sob segredo de justiça, o público criava suas próprias teorias sobre o que teria acontecido com a garota. Uma das teorias mais populares é que Jeanette DePalma teria se metido com um dos grupos de feiticeiras ativo na região, mas que se arrependeu desse envolvimento e que cogitou abandonar a sociedade após sua iniciação, algo que teria sido visto como um tipo de traição. Desse modo, ela teria sido morta como punição e para prevenir que revelasse segredos ou a identidade dos demais membros da cabala. Para apoiar essa tese, alguns afirmavam que a garota teria manifestado interesse em assuntos relacionados a bruxaria, o que era confirmado por alguns de seus amigos de colégio. 

Outros, no entanto, defendiam que Jeanette simplesmente estava no momento errado no local errado, ou que teria atraído a atenção da cabala que a usou como sacrifício em um dos seus rituais. Embora a garota fosse descrita pelos pais e pelos amigos como dona de um gênio difícil, as pessoas mais próximas afirmavam que ela nunca iria se envolver com o estudo do sobrenatural. Por muitos anos a garota foi uma cristã evangélica devota, presente nos cultos e participativa em várias ações de apoio a drogados e alcóolatras. Os pais diziam que a própria Jeanette havia superado um problema com drogas e que sua recuperação se devia a sua crença no poder divino. Não faria portanto sentido que ela estivesse andando na companhia de bruxos ou satanistas, o que levou outras pessoas a ponderar se ela não estaria tentando regenerar essas pessoas e que elas teriam se voltado contra ela.


Infelizmente, uma série de contratempos, pistas falsas e até mesmo estranhos incidentes se mostraram um forte obstáculo para a descoberta da verdade. Havia muito poucos indícios para a polícia se concentrar e para piorar várias pessoas na cidade pareciam dispostas a dar sua opinião e oferecer sugestões sobre o que poderia ter acontecido. Após algumas semanas a investigação não havia avançado nenhum centímetro na direção da solução. As melhores pistas envolviam informações anônimas obtidas através de telefonemas ou cartas, mas mesmo estas não pareciam ceder informações sólidas para elucidar o caso. 

O único indivíduo a ser conduzido para interrogatório e que por algum tempo foi considerado suspeito foi um vagabundo local chamado Red Kierra. Algumas pessoas já haviam apontado o sujeito como alguém suspeito visto vagando sem destino pela pedreira e que não parecia mentalmente estável. Mas no fim, Kierra tinha um álibi para a época em que o crime havia ocorrido: ele estava preso em outra cidade por vadiagem. Estranhamente, mesmo inocentado da acusação, o vagabundo sumiu sem deixar vestígio. Alguns acreditam que ele possa ter sido vítima de algum grupo de justiceiros.

Sem nenhuma pista na qual pudessem se concentrar ou suspeitos, o caso inevitavelmente começou a esfriar. Quando o assassinato completou 30 anos, a revista Weird NJ lançou uma ampla investigação sobre o caso, tendo contratado detetives e investigadores particulares para avaliar o crime. Mas mesmo esta tentativa esbarrou em obstáculos de todo tipo. Por exemplo, descobriram que em 1990 todos os documentos oficiais e registros sobre o caso se perderam em uma inundação causada pelo Furacão Floyd. Antes porém, documentos importantes, inclusive o laudo da autópsia da vítima havia desaparecido de sua pasta. Na época, algumas pessoas levantaram suspeitas sobre o ocorrido, uma vez que vários arquivos do mesmo período e que eram mantidos no local, sobreviveram sem qualquer dano. Outro rumor bastante bizarro veio à luz quando se soube que os peritos da polícia não haviam feito nenhuma fotografia da cena do crime, um procedimento básico em qualquer investigação de homicídio. Esse rumor não foi confirmado, contudo, nenhuma foto da cena do crime jamais foi divulgada para o público.

Tentativas de entrevistar testemunhas e pessoas consultadas na época da investigação encontraram problemas similares. Décadas antes as pessoas pareciam interessadas em falar, de fato, era difícil controlar o fluxo de informações contraditórias dispensadas. Agora, as mesmas pessoas se negavam a comentar e preferiam se omitir sobre o caso, diziam não lembrar ou afirmavam ter mentido na época. O jornalista responsável pela matéria chegou a cogitar que algumas pessoas estavam temerosas de tocar no assunto, como se nesse período algo tivesse se sobressaído, criando uma sensação perceptível de temor à respeito do caso.  Praticamente todos procurados para falar a respeito demonstraram aquele mesmo desinteresse em cooperar. Aqueles que aceitaram falar a respeito do crime, se limitaram a repetir os mesmos detalhes encontrados nos jornais e pediram para que seus nomes fossem omitidos. O Departamento de Polícia de Springfield por sua vez, foi extremamente frio quanto a fornecer qualquer ajuda para os investigadores que afirmaram ter estranhado a pouca disposição dos policiais em auxiliá-los nos pedidos mais básicos.

A maior parte das novas informações coletadas veio de fontes anônimas enviadas por pessoas que supostamente viviam em Nova Jersey na época dos fatos, mas que haviam se mudado. A maior parte destas informações, no entanto, eram dúbias, vagas e absurdas servindo apenas para expandir ainda mais a aura de estranheza e mistério cercando o crime. Uma das coisas que ficaram claras é que a  maioria das pessoas ainda acreditava que a morte havia sido causada por um culto e que a polícia havia realizado uma investigação desleixada com o intuito de encobrir o nome dos envolvidos. Por isso a quantidade de pistas era tão pequena e por isso evidências haviam sido deliberadamente destruídas. Além disso, o caso parecia ter se tornado um tabu na cidade e na região como um todo.  


O que teria acontecido? Por que toda uma cidade parecia aterrorizada a respeito de falar sobre um crime com mais de 30 anos? Quem poderia ter interesse em ocultar a verdade? E mais importante de tudo, quem teria matado Jeanette DePalma? 

Os fatos bizarros a respeito do crime foram a fonte para incontáveis especulações. A maioria das pessoas acredita que há elementos claros de ocultismo permeando todo o incidente e que o responsável direto pela morte deve ter algum envolvimento com o paranormal. Não faltam teorias, algumas estapafúrdias sobre o culpado: cogita-se que pessoas importantes teriam se envolvido na morte, incuindo figuras nas finanças e na política da cidade. O acobertamento teria sido realizado para preservar o "bom nome" dessas pessoas e livrá-las da punição que deveriam receber. 

Nas últimas décadas, pessoas ligadas a Wicca e outras crenças neo-pagãs vieram à público para negar qualquer envolvimento com aspectos destrutivos ou criminosos, deixando claro que não apenas condenam qualquer tipo de violência como jamais realizariam algo semelhante a rituais de sacrifício humano.

A grande maioria das pessoas ainda acredita que adoradores do demônio podem ter sido os causadores da tragédia e que essa antiga cabala continua agindo nas sombras. Para reforçar ainda mais esse temor, muito se fala a respeito do alto índice de adolescentes e crianças desaparecidas no estado de Nova Jersey, um dos mais altos dos Estados Unidos. Os mais crentes acreditam que uma vasta conspiração de acobertamento se encarrega em desaparecer com pistas e manter as autoridades afastadas. Apenas o acaso revelou a morte de Jeanette DePalma, algo que não aconteceu em dezenas, talvez centenas de outros casos.

Seja qual for a explicação, o assassinato de Jeanette DePalma continua sem solução e tudo indica continuará dessa forma. Não existem documentos, perícias e arquivos e as informações sobre o caso se resumem a material da imprensa e os resultados obtidos pela revista Weird NJ. Os detalhes ao longo dos anos se distorceram de tal maneira que não é mais possível distinguir fatos de rumores, lenda urbana de sensacionalismo. Não há novos indícios que possam ser seguidos, nenhuma evidência, suspeitos, nada... 

Esse bizarro crime com o possível envolvimento de satanismo, feitiçaria e rituais bizarros, permanece tão difícil de ser solucionado quanto no momento em que ele veio à tona mais de 40 anos atrás. Aos poucos parece que a própria lembrança da vítima vai se apagando e se dissipando como se jamais tivesse existido. Se a verdade existe preservada em algum lugar, o tempo para ela aparecer parece estar chegando ao fim.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Maldições Japonesas - Sobre Espadas Mortais e Pilares Malditos no Japão


Continuando o artigo sobre coisas malditas e amaldiçoadas no Japão.

As maldições no Japão vão muito além dos jogos, quadros e brinquedos amaldiçoados. E quando se fala nesse tema, um tipo de objeto em particular merece seu próprio capítulo, eu me refiro, obviamente, às famosas espadas amaldiçoadas do folclore japonês. 

Com sua longa história de guerras feudais e guerreiros samurais, a espada, geralmente chamada de katana em japonês, era muito mais do que apenas uma arma; era um objeto sagrado e reverenciado, quase uma ferramenta que permitia um modo de vida. Para os samurais que as empunhavam, suas katanas eram uma extensão de si mesmos, resultado do trabalho meticuloso de mestres ferreiros que elevaram sua arte a tal ponto que a katana japonesa se tornou mundialmente renomada por sua qualidade superior, beleza e letalidade. Considerando essa longa tradição de qualidade suprema, reverência e o quão intrinsecamente ligada à cultura estão, as katanas se tornaram, sem motivos para surpresa a fonte de inúmeros mitos e lendas. Não faltam histórias sobre os acirrados duelos de espadas entre samurais e sobre os ferreiros que trabalhavam arduamente para forjar suas lâminas mortais. Ao buscar no folclore nipônico encontramos relatos de katanas que se tornaram tão conhecidas por seus misteriosos poderes quanto pela maestria de quem as empunhava. 

Entre os maiores e mais lendários ferreiros do Japão, destaca-se Muramasa Sengo, que viveu e exerceu sua arte durante o período Muromachi (séculos XIV e XV d.C.). Tanto Muramasa quanto sua escola de fabricação de espadas eram renomados pela extraordinária qualidade e pelas lâminas afiadas, o que tornava as armas altamente valorizadas e cobiçadas por guerreiros. De fato, Muramasa tornou-se não apenas um dos melhores ferreiros de todos os tempos, mas também ficou famoso por seu temperamento instável e por uma suposta maldição que pairava sobre suas espadas.

Muitos desses rumores tiveram origem na personalidade abrasiva e venenosa do próprio Muramasa. Além de ser obviamente um brilhante ferreiro, também se dizia que ele era insano e propenso a acessos repentinos de fúria violenta, durante os quais atacava qualquer um que tivesse o azar de estar por perto. Essa mente desequilibrada, que oscilava à beira da loucura, combinada com seu perfeccionismo implacável e paixão desenfreada por forjar espadas letais, resultava em uma mistura instável de genialidade, sede de sangue, foco intenso e insanidade, qualidades que, dizia-se, eram transmitidas às katanas que ele forjava. Soma-se a isso o suposto hábito de Muramasa de rezar fervorosamente para quem quisesse ouvir, pedindo que suas espadas se tornassem "grandes destruidoras". Não é por acaso, portanto, que suas armas ganharam uma reputação bastante sinistra, apesar de sua popularidade e alta demanda.

Inúmeras qualidades sombrias e sinistras foram atribuídas à suposta maldição das espadas de Muramasa. Talvez a crença mais persistente fosse a de que as espadas tinham uma certa tendência a possuir seus portadores, levando-os a um estado de fúria e, em algumas versões, concedendo-lhes uma habilidade superior, além de força sobre-humana e resistência à dor e ferimentos. Dizia-se também que as espadas Muramasa tinham sede de sangue e que, se não fossem saciadas pelo sangue derramado do inimigo, se voltariam contra seus donos, forçando-os ao suicídio para aplacá-las. De fato, era comum dizer que, assim que uma lâmina Muramasa era desembainhada, ela exigia sangue antes de ser guardada na bainha, o que significava morte quase certa para o portador se não houvesse ninguém por perto para descarregar a sede de sangue da espada. Mesmo quando não desembainhadas, as espadas às vezes clamavam por libertação ou tentavam compelir seus donos a sair à caça de alguma alma infeliz para assassinar.

Embora inegavelmente poderosas e formidáveis ​​em batalha, essa maldição sombria supostamente tornava as espadas e seus portadores perigosos para todos ao redor. Muitas histórias surgiram sobre espadas Muramasa se voltando contra seus donos, atacando e bebendo o sangue de qualquer um ao seu alcance, incluindo não apenas inimigos, mas também aliados e até mesmo familiares, algo que o portador nada podia fazer para impedir enquanto subjugado pela fúria maligna da espada. Inúmeras histórias descreviam samurais armados com espadas Muramasa atacando amigos queridos, aliados e familiares enquanto assistiam impotentes à sua própria morte. Dizia-se que, em seu estado mais sanguinário e furioso, as espadas mal discriminavam entre amigos e inimigos, usando seus donos meramente como instrumentos para matar. Não era incomum ouvir falar de donos de espadas Muramasa enlouquecendo lentamente à medida que eram corrompidos e subjugados pela vontade demoníaca de suas armas, às vezes cometendo suicídio para escapar da prisão sombria e insana.

Essa sinistra reputação acabou sendo ainda mais difundida quando o Xogunato Tokugawa, o último governo feudal do Japão, foi estabelecido em 1603 pelo xogum Tokugawa Ieyasu, que acreditava firmemente que as espadas Muramasa eram amaldiçoadas e as culpava pela morte de muitos de seus amigos, aliados e parentes. De fato, aparentemente o pai do xogum, Matsudaira Hirotada, e seu avô, Matsudaira Kiyoyasu, foram mortos quando seus vassalos foram tomados por um transe assassino enquanto empunhavam tais espadas. Tokugawa chegou a afirmar que havia sido gravemente ferido por uma katana Muramasa que estava sendo carregada por um de seus guardas samurais enquanto inspecionava suas fileiras. Mais tarde, sua própria esposa e filho adotivo teriam sido executados com uma espada Muramasa. Tudo isso alimentou rumores de que as espadas Muramasa tinham uma espécie de vingança contra a família Tokugawa e que possuíam uma afinidade especial por matar membros de seu clã.

Essa noção tornou-se tão difundida que Ieyasu Tokugawa acabou por banir as katanas Muramasa de seus domínios. Muitas delas foram posteriormente derretidas ou destruídas, mas, como eram tão reverenciadas por sua qualidade excepcional, outras foram escondidas ou tiveram suas características distintivas alteradas ou removidas, mesmo sob severas punições para quem as possuísse, geralmente o suicídio ritual, ou seppuku. Apesar disso, as katanas Muramasa continuaram sua trajetória rumo ao status lendário. Considerando que se acreditava que essas katanas eram capazes de encontrar e matar o xogum e sua família, houve também uma demanda renovada por elas entre os inimigos de Tokugawa, o que levou alguns ferreiros menos habilidosos a forjar réplicas falsificadas para obter lucro. De fato, devido ao número de falsificações produzidas durante essa época, é até hoje difícil determinar com certeza se uma suposta katana Muramasa é autêntica ou não.


Outra espada japonesa supostamente mágica e amaldiçoada é a conhecida como Kusanagi, também chamada de Kusanagi-no-Tsurugi, ou "Espada Cortadora de Grama", ou ainda pelo seu nome original, Ame-no-Murakumo-no-Tsurugi, que significa "Espada das Nuvens que se Reúnem no Céu". Segundo a lenda, um deus das tempestades chamado Susanoo travou uma batalha contra uma serpente maligna de oito cabeças chamada Yamata-no-Orochi, a qual ele acabou derrotando e então começou a cortar cada uma de suas cabeças e caudas. Dentro de uma das caudas da temível besta foi encontrada uma espada fabulosa, que ele chamou de Ame-no-Murakumo-no-Tsurugi e presenteou à deusa do sol Amaterasu. Séculos depois, essa espada passou para as mãos de um guerreiro chamado Yamato Takeru, que a levou para a batalha e descobriu que possuía poderes extraordinários.

Em um episódio, conta-se que Yamato foi emboscado durante uma caçada por um grupo de guerreiros que mataram seu cavalo e incendiaram o campo de capim alto com flechas flamejantes. Pensando que estava condenado a uma morte ardente ele começou a cortar freneticamente o capim em chamas para conter o avanço do fogo. Yamato se surpreendeu ao descobrir que sua espada, a Ame-no-Murakumo-no-Tsurugi, tinha o poder de controlar o vento, direcionando rajadas poderosas para onde quer que ele a golpeasse. Isso lhe permitiu empurrar o fogo na direção de seus inimigos e escapar daquela provação, após o que ele rebatizou sua espada mágica de Kusanagi-no-Tsurugi.

Essa história é muito difundida no folclore japonês e aparece no antigo texto do século VIII, o Kojiki, ou "Registros de Assuntos Antigos", um tomo de mitos históricos, bem como no Nihon Shoki, também chamado de "Crônicas do Japão", um texto do século VIII com registros históricos mais factuais. Embora a Kusanagi-no-Tsurugi, com sua história de origem bizarra e supostos poderes eólicos, pareça ser uma construção puramente mítica, ela é considerada há muito tempo uma espada real. De acordo com o Nihon Shoki, um registro amplamente confiável, essa espada realmente existiu e foi transferida do Palácio Imperial para o Santuário Atsuta em Nagoya, província de Aichi, em 688, porque acreditava-se que ela estivesse amaldiçoada e era culpada pela saúde debilitada do Imperador Tenmu. Apesar dessa nova e sinistra reputação de portadora de doenças, a Kusanagi-no-Tsurugi era considerada um precioso tesouro nacional, uma das Insígnias Imperiais do Japão, e foi guardada em segurança dentro do santuário.

Após a espada chegar ao Santuário Atsuta, ela foi escondida do público, supostamente envolta em uma caixa de madeira com uma pedra incrustada. Supostamente, ela só é exibida em ocasiões muito especiais, como cerimônias de coroação imperial, e mesmo assim permanece protegida por várias camadas de tecido e dentro de sua caixa. A espada é mantida em tanto segredo que pouquíssimas pessoas a viram, e de fato, não se sabe ao certo se ela realmente existe no santuário. Os sacerdotes xintoístas do santuário se recusam a exibi-la, e a maioria deles nunca viu a espada em si, apenas sua caixa.


Diz-se que aqueles que contemplaram a espada sofreram grande infortúnio, como foi o caso do sacerdote xintoísta Matsuoka Masanao e alguns companheiros, que afirmaram tê-la visto furtivamente enquanto recolocavam a caixa da espada durante o período Edo. Embora tenham conseguido descrever que a caixa de madeira continha outra caixa de pedra revestida de ouro, bem como a aparência da própria espada, com uma lâmina em forma de folha de cálamo com cor branca metálica, todos que a viram supostamente adoeceram violentamente e morreram, sendo Matsuoka o único sobrevivente. Esta é a última vez que se tem notícia de que a espada foi vista fora de sua caixa, e mesmo dentro dela raramente é avistada. Aparentemente, a última vez que esta caixa foi vista por alguém foi durante a cerimônia em que o Imperador Akihito ascendeu ao trono imperial em 1989.

Embora o santuário de Atsuta seja o local de repouso mais aceito atualmente para a Kusanagi-no-Tsurugi, sua existência ainda é questionada e existem outras histórias que falam de destinos diferentes para a espada lendária. De acordo com alguns relatos, como um de uma coleção de histórias históricas chamada "O Conto de Heike", a espada se perdeu no mar quando o Imperador cometeu suicídio, atirando-se ao mar com ela nos braços após uma derrota em uma batalha naval em 1185, durante a Batalha de Dan-no-ura. Outra história conta sobre um monge visitante traiçoeiro que roubou a espada e, em seguida, deixou seu navio afundar durante a fuga. Nessa versão dos eventos, a Kusanagi-no-Tsurugi teria sido encontrada em uma praia em Ise, onde foi acolhida por sacerdotes locais e depois desapareceu no desconhecido. Por sua vez, o governo japonês nunca confirmou nem negou nenhuma dessas histórias, nem mesmo se a misteriosa espada realmente existe.

É difícil dizer se alguma dessas espadas realmente possuía os supostos poderes ou maldições que lhes foram atribuídos. Muitas dessas histórias têm um fundo de verdade que se entrelaçou tanto com a lenda e o mito que é difícil separar os dois, e mesmo relatos históricos relativamente confiáveis ​​da época nem sempre são claros sobre o quanto foram influenciados pelo folclore. Ainda assim, esses contos e relatos oferecem um olhar fascinante sobre o mundo das supostas espadas mágicas e a história desses objetos dentro do folclore japonês. Se seus poderes eram reais ou não, nossa fascinação por essas histórias e por sua natureza intrigante e misteriosa certamente existe.

Mas há mais maldições, além das espadas na cultura do Japão. Além de objetos como caixas de quebra-cabeça, pinturas, brinquedos e espadas, algumas coisas amaldiçoadas no Japão estão ligadas a um lugar específico. Localizado nos jardins do Castelo de Himeji, na província de Hyogo, encontra-se um poço octogonal peculiar, cercado por 32 pilares de pedra dispostos em um padrão. Além de sua aparência única, o poço é envolto em lendas assustadoras. 


Diz-se que o poço é a prisão de uma mulher espectral conhecida apenas como "Okiku", presa a ele por uma maldição, e que ela sai do poço todas as noites para vagar pelos jardins do castelo. Existem diferentes histórias sobre como ela chegou lá, mas talvez a mais popular seja a de que ela era uma criada na propriedade de um samurai e que rejeitou suas investidas frequentes. Depois disso, o samurai alegou que lhe faltava um dos 10 valiosos pratos decorativos, e que ela o havia roubado, sendo a pena a morte. A jovem procurou por toda parte o décimo prato, mas não o encontrou. Enquanto isso, o samurai lhe disse que a pouparia se ela se tornasse sua amante. Okiku recusou, e, enfurecido, o samurai a atirou no poço do Castelo de Himeji, matando-a. A maioria das versões diz que o prato foi intencionalmente escondido ou quebrado pelo próprio samurai para manipulá-la, ou pela esposa dele em busca de vingança. De qualquer forma, a alma de Okiku ficou presa ao poço após a morte, buscando para sempre o décimo prato perdido.

Diz-se que Okiku é geralmente inofensiva, mas, em algumas ocasiões, ela se torna sinistra. A versão principal da história conta que, se alguém desagradar Okiku, ou se essa pessoa se parecer com o samurai que a matou ou com sua esposa, ela começará a contar até chegar a nove (o número de pratos), após o que gritará, saltará do poço e aterrorizará a vítima. Se a vítima não deixar o local imediatamente, supostamente sofrerá alguma grande desgraça, acidente ou morte. A única maneira de combater essa versão desequilibrada de Okiku é gritar "Dez!" (referindo-se ao prato que falta e que a colocou nessa situação) no momento exato em que ela estiver contando. Se isso for feito no momento certo, ela a deixará em paz. Além da aparição de Okiku, o poço também supostamente evoca sentimentos de desânimo, pavor e até mesmo terror absoluto em quem se aproxima. Até hoje, o poço está aberto a visitantes, então talvez valha a pena uma visita para conferir pessoalmente e tirar suas próprias conclusões.

Além do poço amaldiçoado, o Japão também possui pilares malditos. Diz-se que, antigamente, uma prática conhecida como hitobashira, literalmente "pilares humanos", era por vezes utilizada na construção de muros, castelos, túneis e pilares. Humanos eram enterrados vivos dentro das estruturas, acreditando-se que isso as tornaria mais resistentes e duráveis, além de criar uma ligação entre humanos e deuses, já que se dizia que divindades podiam ser consagradas dentro de pilares e postes. Outra crença persistente era a de que as almas daqueles que se sacrificavam para serem sepultadas nessas estruturas poderiam servir como espíritos guardiões contra forças sobrenaturais malignas.

Existem inúmeros relatos dessa prática ao longo da história japonesa, e muitas escavações nesses locais revelaram ossos e crânios humanos nas ruínas, frequentemente em pé, o que alimenta ainda mais as lendas. Em Hokkaido, existe o Túnel Jomon, construído em 1914, que passou por reparos após um grande terremoto. Para surpresa das equipes de construção, eles teriam encontrado inúmeros esqueletos em pé dentro das estruturas de concreto. Há muitas histórias semelhantes por todo o Japão, com um grande número de construções que supostamente utilizam esses pilares humanos, e alguns afirmam que, às vezes, os nomes daqueles ali enterrados estão gravados nas construções macabras.

As lendas que cercam esses pilares sempre envolvem sons, ruídos e sussurros que são ouvidos em determinadas noites. Supostamente, são as almas, aprisionadas nos pilares de sustentação chamando e relatando a tragédia de suas existências. Há inúmeras lendas relatando experiências desagradáveis de pessoas entrando em um lugar com tais colunas e sentindo a presença sobrenatural. Em alguns relatos esses espíritos desejam apenas partilhar suas histórias e infortúnios, mas em certas narrativas, as almas aprisionadas podem ser muito mais cruéis, sendo capazes de agarrar e encantar suas vítimas, fazendo com que percam a razão e se tornem obcecadas pelas construções. Em alguns casos, as histórias terminam com o suicídio da pessoa encantada, sempre diante de um desses pilares malditos. 


Algumas dessas histórias assustadoras têm um toque inegavelmente paranormal, como o caso do Castelo de Matsue, do século XVII, na província de Shimane. Segundo a lenda, as estruturas de pedra do castelo eram propensas a desabar, o que levou os construtores a encontrarem uma bela jovem, que eles então atraíram e selaram dentro das muralhas. Infelizmente para eles, diz-se que o espírito vingativo da mulher passou a assombrar o local desde então. O espírito atormentado por essa injustiça seria tão forte que era capaz de causar terremotos e fazer toda estrutura vibrar.

Em outra história semelhante, uma velha foi enganada e transformada em um pilar humano com a promessa de que seu filho se tornaria um samurai em troca. Eles cumpriram o acordo e ela se tornou um pilar do Castelo de Maruoka, na província de Fukui, mas os construtores renegaram a promessa. Isso aparentemente enfureceu o espírito da velha, pois ela supostamente foi responsável por causar inundações frequentes no fosso ao redor do castelo. Embora a existência desses pilares humanos seja tratada principalmente como um mito, a história, sem dúvida é muito curiosa.

Casos como esses mostram que o Japão é realmente um lugar misterioso, com coisas estranhas à espreita na periferia de nosso conhecimento. Coisas sobre as quais podemos apenas especular. Alguma dessas histórias são verdadeiras outras são passam de lendas elaboradas criadas com o propósito de assustar e maravilhar os ouvintes. Seja como for, todas essas lendas contribuem para criar uma bizarra tapeçaria sobre a Terra do Sol Nascente.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Japão Sinistro - Três Objetos Macabros e Malditos da Terra do Sol Nascente


É inquestionável que o Japão é uma terra ancestral repleta de lendas e folclore. 

Mais do que isso, é um lugar permeado pelo sobrenatural com uma infinidade de lendas sobre fantasmas, espíritos, assombrações e vários tipos de demônios. Dentre todas essas histórias, encontramos muitos contos envolvendo objetos amaldiçoados, que abrigam poderes sombrios além da nossa compreensão. 

O Japão tem muitas lendas e aqui veremos alguns dos objetos mais estranhos da Terra do Sol Nascente. Veremos peças raras, objetos estranhos e coisas amaldiçoadas, assombradas ou ambos.

AS MALIGNAS CAIXAS KOTORIBAKO


Começamos com a sinistra lenda de um objeto amaldiçoado que à primeira vista parece ser algo básico e inofensivo. Mas nada pode estar mais longe da verdade. Estas simples caixas de madeira, supostamente foram imbuídas com magia negra do pior tipo. Chamadas de kotoribako esses objetos se apresentam como pequenas caixas de madeira, geralmente adornadas com entalhes, desenhos incrustados e símbolos arcanos em suas tampas. Elas medem algo entre 20 a 30 centímetros de comprimento e pesam algumas poucas gramas.

Como uma caixa pode ser tão perigosa é o que veremos a seguir...

Segundo a lenda, a caixa é difícil de abrir, tendo uma tranca complexa bastante intrincada. Como ocorre com essas caixas, obviamente há um truque que permite a ela abrir facilmente quando desvendado. Pode parecer algo mundano até aqui, mas, uma vez aberta, a caixa supostamente libera uma poderosa maldição sobre suas vítimas desavisadas. A kotoribako é geralmente criada para atingir um inimigo específico contra quem seu criador nutre rancor. Um símbolo representando a pessoa que se deseja atingir é colocado na tampa. A caixa é simplesmente deixada próxima do alvo para que ele a encontre e uma vez aberta, libera sua devastadora magia. 

Os efeitos da maldição da kotoribako se manifestam imediatamente, com a vítima experimentando um surto de tontura, náusea e desconforto. Esses sintomas progridem rapidamente e a vítima então passa a vomitar sangue e sentir seu corpo perder vitalidade a medida que órgãos internos se rompem ou até mesmo se liquefazem. Se a caixa permanecer nas proximidades do alvo, a pessoa morrerá de forma agonizante em até 24 horas após a exposição. 

Costuma-se dizer que as kotoribako têm um número determinado de cargas, ou seja, de vezes que podem ser usadas, e que a cada uso subsequente seus poderes diminuem até se tornar uma caixa de madeira inerte e comum, que geralmente é levada a um santuário para passar por um ritual de purificação, garantindo que esteja livre de toda sua energia negativa. 

Em algumas versões da história, a caixa mantém seus poderes sombrios e é passada de geração em geração, com a família ou santuário que a detém realizando rituais elaborados e seguindo protocolos de armazenamento para contê-la. Ou seja: ela jamais deixa de ser um perigo e seu mal, quando muito, pode ser atenuado.

As origens das caixas kotoribako remontam à era Meiji do Japão (um período compreendendo entre 1869 e 1912). Segundo a lenda elas surgiram depois que um grupo de dissidentes deixou a Província de Shimane para escapar da perseguição do governo. Conta-se que um dia um misterioso estranho chegou à vila em busca de abrigo, fugindo ele próprio de uma revolta nas ilhas Oki. O homem era um feiticeiro e desejava se vingar dos seus inimigos. Em troca de proteção, o feiticeiro ensinou aos moradores de um vilarejo como criar esse poderoso objeto amaldiçoado. Eles então começaram a confeccionar o que viriam a ser conhecidas como as primeiras caixas kotoribako.

A construção da caixa não é nada agradável e inclui rituais bizarros. 

Uma vez confeccionada de forma convencional com madeira nobre, a caixa é preenchida com o sangue coletado de uma jovem virgem. Ela é deixada em repouso por uma semana de preferência exposta à luz da Lua cheia. Depois disso, é necessário que sejam feitos sacrifícios humanos, geralmente de crianças recém-nascidas, sendo o número de sacrifícios dependente do alvo pretendido e da potência desejada. Segundo a tradição um kotoribako exige de um a oito sacrifícios humanos. A caixa recebe símbolos arcanos especiais e é submetida a diferentes rituais para completar o processo de criação. 

Segundo a lenda, os aldeões que receberam o segredo logo perceberam o quão perigosas essas caixas podiam ser e juraram não criar outras, mas isso aparentemente não impediu que algumas pessoas inescrupulosas repassassem secretamente os segredos para a criação do kotoribako, sempre zelosamente guardados.

Não há um consenso à respeito de quantas caixas kotoribako foram criadas ao longo dos anos, nem quantos ainda existem, mas há relatos de santuários e famílias que afirmam possuir algumas, às quais são mantidas em segredo e longe dos olhos do público.

O último registro histórico de uma kotoribako data de 1910, quando uma caixa foi oferecida a um chefe militar com o objetivo de matá-lo. Ele descobriu a natureza da caixa e não a abriu... posteriormente ela foi doada ao Museu Histórico e de Arte da cidade de Osaka. E não, ela jamais foi aberta. 

A PINTURA DE HIKARU SAN


Um tipo de objeto amaldiçoado paranormal são as pinturas assombradas que se espalharam ao redor do mundo e que encontraram seu caminho até o Japão. O país abriga ao menos uma dessas pinturas que é bastante conhecida e temida. Em 1970, essa tela foi pendurada na Universidade de Matsuyama, na província de Ehime

À primeira vista ela parece bastante normal, embora um pouco sinistra. Intitulada Shojo ou "Garota", ela também é conhecida como a "Pintura de Hikaru San", devido à assinatura de "Hikaru Sato" no verso. Trata-se de uma tela a óleo que retrata uma jovem de longos cabelos negros, vestindo uma blusa amarela, sentada em uma cadeira e olhando para um ponto ligeiramente à direita do observador. Não é uma pintura particularmente bem executada e de fato, parece bem convencional. No entanto, essa pintura tornou-se infame como uma das mais amaldiçoadas telas do mundo.

Segundo os rumores, assim que a pintura foi exposta se iniciaram os estranhos relatos sobre ela. Um dos primeiros rumores foi que os olhos da mulher retratada seguiam os observadores, ou que sua expressão facial e a postura mudava sutilmente. Parece algo inofensivo, mas não demorou muito para que surgissem rumores de que pessoas que examinavam a pintura com atenção, posteriormente relatavam incidentes inexplicáveis. Ela seria a causadora de muitos infortúnios: doenças, acidentes e até mesmo mortes. Diziam ainda que se alguém tocasse a pintura, perderia o membro. Histórias espetaculares contam que a garota na pintura às vezes saía da tela para andar por aí à noite, e persistia um conto de como alguns estudantes universitários assustados tentaram destruir a tela com fogo, apenas para encontrar a pintura milagrosamente restaurada no mesmo lugar na manhã seguinte. 

Mas o pior, sem dúvida, eram os acidentes horríveis e bizarros. Supostamente pessoas morreram atropeladas, afogadas, sufocadas, caíam de sacadas ou foram alvejadas em acidentes bizarros. Uma pessoa teria morrido ao ser sugada pela hélice de um barco, outra foi picada por abelhas até a morte e uma terceira sofreu um ferimento mortal decorrente de um disparo de arpão que estava sendo limpo. Os estranhos incidentes estavam relacionados a alguém ligado à pintura.  

A obra assustou as pessoas por quase uma década antes de ser removida e trancafiada em um depósito na universidade. Depois disso, a atividade paranormal alegadamente cessou.

Há muito debate sobre as origens da pintura e por que ela pode ser considerada amaldiçoada, assombrada ou ambas as coisas. Não se sabe se "Hikaru" é o nome da mulher retratada ou do pintor, já que esse nome pode ser usado tanto para homens quanto para mulheres no Japão. Aparentemente não há registros da universidade sobre como a obra foi adquirida ou quando. A história mais popular é que a jovem retratada era a parceira romântica do pintor e que ela morreu pouco depois de concluído o quadro. Nessa versão, seu espírito teria sido transferido para a pintura, onde continuaria a guardar rancor por ter sido aprisionada ali. Outra versão da história conta que a retratada foi acidentalmente presa no porão da universidade, onde morreu. Sua alma se transferiu para o retrato carregando uma maldição vingativa conhecida como ju-on no japão. 

De tempos em tempos vem a superfície histórias sobre esse quadro maldito e ele continua atraindo a atenção.

RIKKA CHAN e OUTRAS BONECAS DIABÓLICAS


Outro objeto amaldiçoado e aparentemente malévolo tem suas origens na década de 1960 e se apresenta na forma de um brinquedo infantil. Uma linha de brinquedos popular entre meninas no Japão, até os dias atuais, é a das bonecas "Rikka Chan". Basicamente, são bonecas de plástico que vêm com várias roupas e acessórios, e são mais ou menos uma versão japonesa das bonecas Barbie do Ocidente. A história conta que, em 1967, o fabricante das bonecas criou acidentalmente algumas bonecas com o defeito de terem três pernas em vez das duas padrão, e que essas bonecas Rikka Chan de três pernas foram, por algum motivo, amaldiçoadas.

Ao longo dos anos, surgiram muitas versões sobre o que poderia acontecer ao encontrar uma boneca Rikka Chan de três pernas. A boneca geralmente se comporta como a maioria das bonecas assombradas, mudando de posição, desaparecendo e reaparecendo em diferentes partes da casa ou andando pela casa à noite. De forma ainda mais sinistra, diz-se que as bonecas amaldiçoadas sussurram coisas assustadoras para seus donos, como "Eu sou Rikka Chan e sou amaldiçoada", além de causar pesadelos vívidos e horríveis. A verdadeira maldição se manifesta se alguém tentar jogar fora ou se desfazer da boneca maldita. Se ela for retirada da casa ou deixada em algum lugar, retornará, às vezes até telefonando para o dono para anunciar que está voltando, após o que apresentará um comportamento mais violento ou o dono se envolverá em um infeliz "acidente". 

Se alguém tentar destruir a boneca, isso eventualmente resulta numa morte horrível. Aparentemente, o único recurso é tentar conter a boneca maligna levando-a a um santuário para um ritual de purificação, mas dizem que nem sempre este funciona. Não se sabe quantas bonecas Rikka Chan de três pernas ainda existem por aí, ou mesmo se elas realmente existiram, mas tornou-se uma lenda urbana persistente no Japão.

Ainda falando de bonecas amaldiçoadas, temos o bizarro e enigmático ritual japonês chamado Ushi no Koku Mairi, que se traduz aproximadamente como "Uma visita ao santuário na hora da raposa", geralmente entre 1 e 3 da manhã, uma espécie de "hora das bruxas" no Japão. O ritual em si é aparentemente praticado desde tempos imemoriais e envolve o uso de um tipo de boneca amaldiçoada feita de palha trançada, chamada waraningyo, usada para atingir inimigos ou desafetos. Esta boneca representa a pessoa a quem se deseja causar infortúnio ou mesmo a morte. Ela deve ser feita pelas próprias mãos da pessoa que deseja causar o mal.

Semelhante a uma típica boneca vodu, a waraningyo leva em seu interior algum objeto pessoal da pessoa a ser amaldiçoada, como cabelo, pele, sangue ou lascas de unhas, embora uma fotografia também seja considerada eficaz. O criador da boneca deve então vestir um traje tradicional específico, composto por um quimono branco, um espelho no peito, um chapéu chato, três velas acesas nas pernas e um pente de madeira preso entre os dentes. A boneca é levada a uma das árvores encontradas em santuários xintoístas, chamadas shinboku, e pregada a ela com longas estacas de ferro conhecidas como gosunkugi. Algumas dessas árvores sagradas em santuários famosos são cobertas com inúmeras cicatrizes de séculos de pregos cravados nelas por aqueles que executavam a maldição.

Durante todo o processo, existem certas regras que precisam ser obedecidas. A mais importante é que ninguém deve ser visto ou ouvido realizando o ritual sombrio, pois diz-se que isso fará com que a maldição sinistra retorne diretamente para quem a lançou, a menos que a testemunha seja morta. Isso é tão essencial e sério que se diz que, antigamente, aqueles que realizavam o ritual costumavam carregar uma faca ou espada consigo com o propósito de matar qualquer um que porventura se deparasse com seu ato macabro. O ritual também só pode ser realizado na hora da raposa, e há uma ordem específica para martelar os pregos na boneca, com o prego na cabeça por último. Embora existam inúmeras variações do ritual, esses detalhes são, em sua maioria, consistentes.

O suposto procedimento também varia. Dependendo da tradição local, a maldição pode ser realizada de uma só vez ou deve ser feita ao longo de várias noites, e os efeitos podem variar muito. Algumas tradições afirmam que essa maldição fará com que a pessoa adoeça gradualmente e morra de alguma doença, que ela terá azar ou que simplesmente cairá morta quando o último prego for cravado na cabeça de sua efígie. Outros dizem que o alvo será assombrado por um espírito vingativo, um demônio ou até mesmo um deus, ou kami. O ritual Ushi no Koku Mairi é levado bastante a sério no Japão e, independentemente de funcionar de fato ou ser apenas uma lenda urbana, aparentemente ainda existem leis para punir e processar qualquer pessoa flagrada tentando realizá-lo.

É incrível como tradição e folclore se fundem para criar estranhos e incomuns costumes. Mas estes são apenas alguns do Japão Sinistro, na sequência deste artigo, veremos outros.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Caixa Preta do Planeta Terra - O Monolito do Fim da Humanidade


Não há dúvidas de que nossa civilização ocupa apenas uma fração insignificante do tempo geológico da Terra. Estamos aqui faz muito pouco tempo. De fato na contagem do tempo geológico de nosso planeta, é como se a humanidade tivesse acabado de surgir. Além de jovem, somos incrivelmente frágeis. Toda nossa existência se equilibra em bases instáveis, e muitos fatores podem decretar nossa extinção.

Assim como aconteceu com os dinossauros que um dia governaram o planeta, podemos ser vitimas do apocalíptico choque de um meteoro. Podemos ser varridos da face da existência por um vírus mortal, pela incidência de devastadores tremores sísmicos, massivas erupções vulcânicas ou ainda pelo início de uma nova Era do Gelo. A humanidade é uma forma de vida frágil e embora sejamos capazes de nos adaptar e triunfar ante as adversidades, há inúmeros fatores que poderiam decretar nosso inevitável fim. 

Para piorar, como espécie, provamos ser extremamente autodestrutivos: travamos guerras e causamos atrocidades, consumimos  nossos recursos de forma desenfreada e somos um fator relevante na deterioração do meio ambiente do planeta. Observando a situação atual e as incontáveis variáveis as quais estamos submetidos, não é difícil imaginar que nosso domínio sobre a Terra será transitório. Parece inevitável a chegada de um dia em que tudo irá desmoronar: cidades outrora grandiosas ficarão em ruínas ou submersas pelo mar, populações inteiras irão desaparecer e tudo o que restar serão apenas alguns focos isolados de humanidade, ou talvez, absolutamente ninguém, apenas uma vasta paisagem de ruínas reverberando com os ecos do passado. 

Chegará o dia em que tudo ao nosso redor terá desaparecido, sem que ninguém sobreviva para relatar o que aconteceu.


Pensando nisso, uma equipe de cientistas desenvolveu um plano para salvaguardar a trajetória da humanidade para a posteridade. Seu ambicioso projeto visa manter um registro para que, quem quer que nos encontre num futuro distante, possa saber quem fomos e o que aconteceu conosco. Com esse intuito uma equipe internacional projetou uma vasta estrutura de aço chamada "Caixa-Preta do Planeta Terra".

A Caixa-Preta é um projeto liderado pela agência de marketing Clemenger, em colaboração com a agência criativa The Glue Society e cientistas da Universidade da Tasmânia. Seu plano é construir um simulacro indestrutível que funcionará essencialmente como a caixa-preta de um avião e fornecerá, segundo eles, um "relato imparcial dos eventos que levaram à destruição do planeta" para qualquer um que ainda estiver vivo  u que chegue até aqui e queira saber quem veio antes. 

A equipe pretende documentar e registrar as inúmeras calamidades que enfrentamos, incluindo mudanças climáticas, extinção de espécies, poluição ambiental, guerras e outros eventos catastróficos, por meio da preservação de um registro meticuloso e constante atualização das informações. O projeto utilizará algoritmos projetados para vasculhar a internet em busca de tweets, posts, notícias e manchetes, publicações em redes sociais e todas as outras fontes de informação possíveis que possam registrar nossa jornada, do início até o amargo fim.


A estrutura em si será um monólito de aço de 9,75 metros de comprimento, aproximadamente do tamanho de um ônibus, revestido com aço temperado de 7,6 centímetros de espessura e equipado com painéis solares e baterias de reserva para alimentar o conjunto de discos rígidos em seu interior. Ela será resistente a explosões atômicas, abalos sísmicos, tsunamis e outros problemas.

Sua localização será em algum lugar em uma planície granítica geologicamente estável na costa oeste da Tasmânia, a cerca de 4 horas de Hobart, onde acredita-se que estará a salvo da maioria dos cataclismos e poderá permanecer relativamente intacta no fim dos tempos. Tudo isso visa fornecer informações cruciais e um registro de como a Terra chegou ao seu fim para qualquer pessoa que possa se deparar com ela em um futuro distante, bem como responsabilizar aqueles que causaram o desastre e dar pistas sobre como qualquer sociedade futura poderá evitar os erros do passado. O site Earth’s Black Box afirma sobre o ambicioso projeto:

"A menos que transformemos drasticamente nosso modo de vida, as mudanças climáticas e outros perigos causados ​​pelo homem levarão nossa civilização ao colapso. A Caixa Preta da Terra registrará cada passo que dermos rumo a essa catástrofe. Centenas de conjuntos de dados, medições e interações relacionados à saúde do nosso planeta serão coletados continuamente e armazenados com segurança para as gerações futuras, a fim de fornecer um relato imparcial dos eventos que levam à destruição do planeta, responsabilizar as gerações futuras e inspirar ações urgentes. O desfecho dessa história depende inteiramente de nós."


O projeto ainda está em fase de planejamento, mas a previsão é de que seja concluído até 2028 e já se encontra na fase beta de testes, com gravações ambientais em tempo real. Embora pareça um plano intrigante, a equipe por trás do projeto tem enfrentado alguns obstáculos. Por exemplo, os discos rígidos têm uma capacidade de armazenamento limitada, suficiente para apenas 30 a 50 anos de gravações contínuas antes de se esgotarem. Por isso, a equipe está buscando uma maneira de aumentar essa capacidade. Outro problema é a manutenção dos painéis solares e dos discos rígidos, especialmente se entrarmos numa era em que o fim da civilização tenha chegado e ninguém esteja por perto para fazer isso ou esteja ocupado demais tentando sobreviver num novo mundo extremo e inóspito. 

Outra questão fundamental é como fazer com que a pessoa que encontre a Caixa Preta tenha o conhecimento para acessar os dados armazenados nela. Como descendentes primitivos catapultados para uma nova pré-história poderiam acessar os terminais ou ainda, como exploradores das estrelas fariam para compreender as informações ali contidas? Um dos planos é ter os discos traduzidos em várias línguas e dialetos ou ainda, se valer de informações visuais ou auditivas que não necessitem do domínio de línguas.

É claro, o projeto foi criticado como nada além de uma jogada de marketing, mas seus criadores insistem em levar tudo muito a sério. Em um comunicado no lançamento do projeto eles defenderam que a "Caixa-Preta" pode ser o último legado da humanidade, capaz de sobreviver a todos nós. 

É assustador imaginar que um dia, num futuro distante, os últimos remanescentes da humanidade, ou mesmo alienígenas, cheguem a este mundo desolado e sem vida e, vasculhando a poeira e as ruínas do que um dia foi, descubram este monumento contando sobre nossa destruição. Quem quer que o encontrasse seria capaz de decifrar o que há dentro dele, ou nossos últimos dias e o fim de tudo o que conquistamos como espécie permaneceriam para sempre esquecidos pelo universo, relegados ao esquecimento como se nunca tivéssemos existido? 


Haveria alguém para encontrá-lo, daqui ou de algum outro lugar além do nosso mundo? Ou esta pequena rocha gira sozinha através de um universo absolutamente indiferente? Será que esse monólito negro ficará esquecido pela eternidade? Há uma triste certeza niilista... nosso mundo não é eterno, nosso sol é finito e a raça humana está fadada a sumir um dia, a não ser que consigamos nos espalhar pelo cosmos através das estrelas.   

Seja como for, se não conseguirmos essa façanha, ao menos teremos o consolo deste monumento para contar quem um dia fomos e o que fizemos. Para o bem ou para o mal...