
Em 1599, viveu na Escócia um homem chamado Thomas Weir.
Seu pai, um funcionário público, não gozava da melhor reputação em termos de probidade, era suspeito de desfalques nos cofres públicos, dinheiro usado para alimentar o vício em jogo. Teria cometido suicídio, nunca confirmado. Sua mãe era suspeita de praticar feitiçaria. Parte de uma família tradicional, ela era versada na leitura do tarô, alegava conhecer feitiços e ser capaz tanto de curar quanto de matar usando maldições. Seus irmãos, quatro no total, também tinham uma vida conturbada, envolvendo acusações de traição, prisões e desconfiança geral. Sua irmã mais nova era especialmente difícil sendo suspeita de várias atividades ilícitas como veremos mais adiante.
Thomas se alistou no exército para escapar dessa família problemática, e com a Revolta Puritana ele começou a ganhar reconhecimento na forma de promoções. Alcançou o posto de Major em 1641, após servir com destaque em campanhas contra os monarquistas. Em 1649, aposentou-se do serviço ativo e, a partir de então, foi empossado como Comandante da Guarda da Cidade de Edimburgo.
Seu mandato foi notável pela rígida devoção aos princípios militares, aliada a um zelo correspondente na perseguição aos inimigos monarquistas. Um relato da época descreveu Weir como "muito ativo na descoberta e captura de traidores, levando-os a serem julgados e sempre buscando condenações capitais". Dizem que o Major Weir era especialmente cruel e criativo no emprego de tortura física e psicológica para que seus cativos apontassem colegas conspiradores. Ele mantinha seus prisioneiros em uma masmorra escura e sufocante, sob rígida vigilância e constante brutalidade. Utilizava instrumentos de tortura: açoite e ferros em brasa nos interrogatórios e participava ativamente de cada sessão. Ele ficou famoso pelo tratamento que dispensou ao Marquês de Montrose, que ele próprio processou, acusou e sentenciou.
Após vários anos no cargo, Weir deixou o posto — não se sabe ao certo se foi por demissão ou renúncia voluntária —, ficando livre para se dedicar mais plenamente à vida religiosa. Sua ardente devoção ao presbiterianismo, aliada ao seu vasto conhecimento das Escrituras e à sua impressionante eloquência na oração, fizeram com que o povo de Edimburgo o considerasse praticamente um santo vivo. “Feliz era o homem com quem ele conversava”, dizem, “e bendita era a família na qual ele se dignava a orar”. Sua fama se espalhou a tal ponto que as pessoas viajavam dezenas de quilômetros apenas para ouvir seus sermões improvisados.

A sociedade tinha conhecimento de apenas uma controvérsia envolvendo esse estimado cidadão. Um ministro, John Nave, foi informado por uma de suas paroquianas que ela havia visto o Major Weir na companhia de pessoas suspeitas em um campo certa vez. Nesse episódio ele estaria presidindo uma estranha reunião noturna com direito a uma fogueira e entoações misteriosas. A alegação foi rejeitada por falta de provas, e a acusadora de Weir foi açoitada pelo carrasco local "por caluniar um homem santo tão eminente".
Em 1642, Weir casou-se com uma viúva chamada Isobel Mein. Foi após a morte dela e o casamento de sua enteada que a vida do Major tomou um rumo mais estranho. Depois de ficar sozinho, ele permitiu que sua irmã solteira, Jean (ou Grizel, em alguns relatos), fosse morar com ele como governanta. A irmã tinha péssima fama, alguns diziam que havia se envolvido em escândalos com homens casados. Mas havia rumores muito mais graves! Alguns diziam que Jean era praticante bruxaria, versada nas artes negras e que adorava o Demônio.
Como os eventos revelariam, a relação entre os dois pode muito bem ter sido — para dizer o mínimo — mais íntima do que a sociedade aceitava no que diz respeito a irmão e irmã. É provável que o peso psicológico esmagador dessa violação específica do tabu tenha levado à tragédia final.
A queda de Weir foi tão inesperada quanto dramática. Rumores circulavam em Edimburgo, embora ninguém falasse abertamente. Criados mencionavam estranhas celebrações no porão da casa do Major, reuniões soturnas com conhecidos criminosos e mulheres acusadas de má conduta. Diziam que algo havia corrompido aquela casa e que Weir mantinha uma vida dupla secreta: de dia um homem religioso e justo, à noite um devasso praticante de satanismo.
Em um certo dia da primavera de 1670, houve um grande encontro religioso em Edimburgo no qual o Major Weir seria um dos convidados. Em determinado momento da cerimônia, ele se levantou para discursar aos fiéis. Contudo, em vez das usuais “frases entusiasmadas, êxtases e arrebatamentos”, ele ofereceu à sua plateia algo completamente diferente. Weir, na verdade, cometeu suicídio diante dos olhos cada vez mais horrorizados de todos.
Ele começou a relatar seus muitos pecados — pecados que deixaram os irmãos atônitos e revoltados. Aquele homem que, por tantos anos, fora visto como o epítome da piedade e da virtude, estava, por sua própria vontade, revelando-se um monstro. Contou sobre atos de incesto (com sua irmã e sua enteada), bestialidade, inúmeros encontros sexuais com criadas e o pior de tudo, confirmou a Adoração ao Diabo. “Diante de Deus”, exclamou, “não lhes contei nem a centésima parte dos pecados que cometi, e do que sou culpado!”
Ele já havia contado o suficiente. O primeiro instinto de seus ouvintes foi encobrir tudo. Seria péssimo ter esse “escândalo desconcertante” dentro de sua igreja tornado público. Isso poderia muito bem destruir a reputação de todos eles.
Como explicação para quaisquer relatos desse incidente chocante que pudessem ter vazado, os irmãos anunciaram que Weir havia adoecido gravemente. Durante vários meses, pareceu que a terrível verdade sobre o que a igreja abrigava em seu seio poderia ser mantida em segredo. No entanto, um dos ministros confidenciou ao Lorde Prefeito de Edimburgo, Sir Andrew Ramsay, o que havia acontecido. Sir Andrew, supondo que “crimes tão horríveis quanto os que o ministro lhe disse que o Major havia confessado” fossem simplesmente terríveis demais para serem verdade, enviou vários médicos à casa de Weir para “examinar seu cérebro perturbado”. Os médicos relataram que Weir parecia “livre de hipocondria” e estava perfeitamente são. Seu único mal, julgaram, era “uma consciência excruciada que o forçava a confessar tudo o que tomou parte”. Weir queria ser levado à justiça e, na opinião dos médicos, seu desejo deveria ser atendido. Alguns “ministros” que o prefeito enviou para interrogar o Major concordaram com esse diagnóstico. “Os terrores de Deus”, disseram eles, “o impeliram a confessar e se acusar”.
E que confissões eram aquelas! Bombásticas para dizer o mínimo! Weir relatou ter sido iniciado na Igreja de Satanás e que tinha a marca do diabo tatuada em sua virilha. Disse que renunciou a Deus e as Escrituras e que escreveu seu nome com sangue no Livro do próprio Demônio. Firmou com este um pacto diabólico recebendo riqueza e saúde em troca de sua alma imortal. Disse ainda que realizou toda sorte de sortilégio e malefício na companhia de sua irmã, uma feiticeira com quem dividia a cama. Weir confessou ter conduzido missas negras nas quais crianças foram sacrificadas em altares, que manteve um diabrete familiar e que aprendeu magia negra para afetar inimigos. Seus crimes eram tantos e tão variados que ele deveria pagar por eles.

As autoridades da cidade se desesperaram. Era impossível acobertar o escândalo público já que muitos na cidade já comentavam o teor blasfemo das confissões. Por fim, admitiram que não havia outra alternativa senão levar o Major a julgamento. Weir e sua irmã — a quem ele havia incriminado profundamente em sua confissão e que posteriormente reconheceu seus pecados — foram enviados para a prisão. Quando os irmãos foram detidos, Jean disse aos policiais para confiscar um "Cajado Mágico" pertencente a Weir que estava na casa. Esse objeto maligno tinha poderes e poderia ser usado contra os dois por membros da cabala em uma vingança.
Observou-se que esse "Cajado" era feito de espinheiro e decorado com imagens de centauros e uma carranca na extremidade. Jean Weir disse que seu irmão "o recebeu do Diabo e fez coisas impossíveis com ele". As autoridades também descobriram em sua casa um pano contendo "uma certa raiz". Quando esse objeto foi jogado no fogo, as chamas "circularam e brilharam como pólvora e, passando pela chaminé, deram um estalo como um pequeno canhão, para espanto de todos os presentes". Também ficaram sabendo de algumas moedas que Weir possuía, as quais causavam perturbações semelhantes a poltergeist onde quer que fossem guardadas. O porão onde os rituais supostamente ocorriam foi misteriosamente destruído, alegadamente por membros da cabala que tentaram ocultar seu envolvimento no caso. Weir garantiu que entre seus asseclas estavam pessoas poderosas e influentes na cidade.
Enquanto aguardava o julgamento, Weir encarava seu destino com indiferença. Rejeitava os apelos ao arrependimento, respondendo que estava irremediavelmente condenado e que qualquer oração seria inútil. Um historiador da época atribuiu a atitude de Weir à astúcia: "já que iria para o Diabo, não o irritaria".
Sua irmã contou às autoridades que herdara da mãe o talento para a magia negra. Jean também exibia uma "marca de bruxa" em forma de ferradura na nádega direita. Segundo Jean, ela e o irmão eram parceiros do Diabo há muitos anos e este os tornou seus comensais. Em 7 de setembro de 1648, ela contou que foram levados de Edimburgo a Musselburgh e de volta por uma carruagem satânica puxada por seis cavalos "que tinham cascos flamejantes". Ela deu detalhes sobre o "cajado encantado" do irmão, que ele usava "para cometer atos indizíveis". O instrumento era um canalizador da força diabólica e podia ser usado para matar inimigos e desafetos.
Em 9 de abril de 1670, os irmãos foram a julgamento com acusações de incesto, fornicação, idolatria, bruxaria e assassinato. Por algum motivo, a acusação contra o Major se concentrou em seus pecados sexuais, enquanto apenas a Jean enfatizaram as acusações de feitiçaria. Nenhum advogado se dispôs a defendê-los. Ambos os réus afirmaram prontamente a veracidade de todas as acusações, e o júri não teve dificuldade alguma em considerá-los culpados. Dois dias depois, o Major foi estrangulado e seu corpo “queimado até virar cinzas” em uma pira montada na praça central de Edimburgo. Seu corpo exalou um fedor de enxofre segundo testemunhas. No dia seguinte à morte de seu irmão, Jane Weir foi enforcada em outra execução medonha. Seus olhos teriam pulado das órbitas e a língua tornou-se preta pendendo para fora da boca. Tamanho era o horror de seu semblante cadavérico que os restos foram removidos da jaula onde eram mantidos e incinerados.
Conta-se que Thomas Weir encontrou seu destino “em desespero, declarando que não tinha esperança de misericórdia”. Enquanto a corda era colocada em seu pescoço, foi encorajado a rezar. "Não vou rezar", respondeu ele secamente. "Vivi como uma Besta e devo morrer como uma Besta." Seu cajado mágico foi queimado com ele, e dizia-se que estalou e chilreou nas chamas como algo vivo.
Ao longo dos anos, muitos mitos macabros e cada vez mais extravagantes foram contados sobre Weir, que permanece o "bruxo" mais notório da Escócia. Essas histórias parecem exagerar a realidade. Certamente, os fatos básicos de sua história já são suficientemente arrepiantes.

Somente um século após a morte de Weir alguém se dispôs a morar em sua casa, um local que os residentes acreditavam firmemente estar impregnado de maldade. O primeiro inquilino intrépido permaneceu por apenas uma noite, alegando ter visto "uma forma semelhante à de um bezerro" aparecer ao lado de sua cama durante a noite. A casa acabou sendo ocupada por diversos estabelecimentos comerciais, mas nunca mais foi usada como residência particular. De acordo com o historiador e folclorista escocês Andrew Lang, os espíritos inquietos de Thomas e Jean Weir foram vistos ainda no início do século XX. Por muitos anos, acreditou-se que a sinistra casa dos Weir havia sido demolida em 1878. No entanto, na edição de fevereiro de 2014 da revista "Fortean Times", Jan Bondeson revelou que suas pesquisas o levaram a descobrir que a casa foi incorporada a um prédio existente, que atualmente abriga a Casa de Reuniões Quaker, no número 7 da Victoria Terrace. E sim, os ocupantes do prédio relataram ter visto coisas estranhas acontecer no local.
A história do Major Weir é estranha, bizarra e cheia de questionamentos. Haveria algum fundo de verdade em suas narrativas aterrorizantes ou seria o resultado de alguma doença mental que o levava a confessar ator indizíveis.
Talvez nunca venhamos a saber... e provavelmente é melhor ficar desse jeito.