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domingo, 4 de abril de 2021

A Ordem dos Cavaleiros Leprosos - Os Cruzados que não tinham nada a perder


Documentos medievais os mencionam na mesma proporção que os conhecidos Cavaleiros Templários, os poderosos Cavaleiros Hospitalarios (ou Cavaleiros de St. John) e os brutais Cavaleiros Teutônicos. Como os demais, eles foram uma importante Ordem Religiosa que se converteu em Ordem Militar de Cavalaria, com influência e seus próprios privilégios, respondendo apenas à autoridade do Sumo Pontífice em pessoa.

Mas enquanto as demais Ordens foram objeto de estudos, lendas e de um escrutínio cuidadoso da cultura pop, as bandeiras auriverdes da Ordem de São Lazarus se converteram em uma nota de rodapé menor na história das Cruzadas. No longo período das Guerras Santas que varreram a Europa e o Oriente Médio entre os séculos XI e XIII, os Cavaleiros que um dia foram de extrema importância, hoje são pouco conhecidos. 

Existem seis Santos reconhecidos pela Igreja Romana Católica chamados de Lazarus (ou aportuguesando Lázaro), e não se sabe exatamente qual deles é o patrono da Ordem. Os dois mais prováveis são Lázaro de Betânia - que foi trazido de volta dos mortos por Jesus Cristo, conforme a parábola de João 11:1-46, e o mendigo Lázaro que foi menosprezado por um homem rico, mas que encontrou seu lugar no Paraíso - em Lucas 16:19–3.

Lázaro o mendigo, segundo os estudiosos bíblicos sofria de lepra, uma das doenças mais temidas da antiguidade e que não tinha cura. O Lázaro que havia morrido e recebido o dom da ressurreição também estava além de qualquer ajuda. É provável que, na visão Medieval, o que os tornava especiais fosse o fato deles terem sido salvos das mais terríveis aflições humanas - da doença e da morte, pela intercessão do Poder Divino. Ou seja, forças sobrenaturais, ou miraculosas, atuaram sobre eles para reverter uma situação da qual não havia solução.


A Idade Média foi uma época marcada pela doença e pelo temor diante dos males que devastavam o corpo. A Lepra é uma infecção bacteriana crônica que afeta os nervos nas extremidades - a pele, o nariz, os olhos e o trato respiratório superior. É uma doença de ação progressiva, e embora hoje existam tratamentos eficazes para combatê-la, no mundo das Cruzadas, ela era incurável. Aqueles que a contraiam estavam fadados a uma horrível jornada sem um final feliz.

Os afligidos com lepra estavam fadados a uma pavorosa meia-vida, à medida que seu corpo apodrecia lentamente, consumindo a carne em um turbilhão furioso de degradação. Quando a gangrena invariavelmente se instalava, dedos caiam, membros apodreciam e cartilagens liquefaziam. A vítima se sentia fraca, lutava para respirar e ficava cega. O corpo parecia se revoltar por inteiro, desfazendo-se em pruridos mal cheirosos, transformando o indivíduo num arremedo de ser humano, desfigurado além do reconhecimento.

Na Europa Cristã, marcada pela culpa e pela ignorância religiosa, a Lepra era vista como um Castigo de Deus. Ela era uma punição pelos pecados cometidos, no qual o corpo traduzia em feridas a corrupção da alma. Por conta disso, o estigma era pesado, nenhum grupo na sociedade medieval era mais desprezado que o dos leprosos.

Mas para alguns, a doença era vista como uma provação na qual a fé era testada até seus limites. O Martírio definitivo impingido sobre alguns escolhidos, e se estes conseguissem suportar de forma resoluta o sofrimento, deles seria o Reino dos Céus.

A origem exata da Ordem de St. Lázaro é desconhecida, mas por volta de 1130, um grupo de monges já administravam um hospital nos arredores de Jerusalém. Sua missão solene era cuidar dos leprosos da cidade, aqueles que ninguém queria sequer se aproximar. A Capital do Reino Cristão de Jerusalém, a cidade natal da cristandade havia sido conquistada pelos Cruzados em 1099 e desde então, mantida sob seu controle. Ela era importante para cristãos, judeus e muçulmanos, o berço da fé para as três principais religiões do mundo antigo e por elas disputada.


As Ordens de Jerusalém dependiam de monastérios e de terras na Europa para se sustentar. Nobres enviavam doações e os lordes tomavam para si a responsabilidade de protege-las. Com as Cruzadas, as doações migraram para ordens militares que defendiam a Terra Santa e mantinham seu controle. A recém fundada Ordem dos Cavaleiros Templários era a Guardiã de Jerusalém e grande parte dos recursos eram destinados a eles. Com efeito, se tornaram extremamente ricos e poderosos.

A Ordem de St. Lázaro, entretanto, tinha seus próprios patronos. Com a lepra sendo muito comum no Oriente Médio, muitos nobres consideravam o trabalho dos monges essencial para a cidade sobreviver. Se não fosse por eles, quem faria esse difícil trabalho? A doença não se importava com status social e ninguém estava imune a ela, nem mesmo um dos mais emblemáticos governantes de Jerusalém, o Rei Balduíno IV (1173-85).

A despeito de sua condição, Balduino IV era um Rei amado pelo povo, um bravo guerreiro e astuto governante, que liderava seus homens pessoalmente nos campos de batalha. Para esconder a doença, sua face devastada ficava oculta por um elmo dourado criado exclusivamente para ele. Balduíno fez substanciais doações em favor da Ordem de São Lázaro, incluindo a propriedade de terras. 

Lepra tem um longo período de gestação mas seus sintomas iniciais eram facilmente detectados, mesmo pelos Médicos Medievais. Podia demorar até sete anos para que os efeitos debilitantes se manifestassem fisicamente. Isso permitia a leprosos continuar participando de muitas atividades, inclusive combates.

Inevitavelmente cavaleiros e nobres foram afligidos, assim como aconteceu com Balduíno IV. Mas apesar da doença, eles ainda se mantinham fiéis ao seu juramento de lutar pela cristandade. Em uma época na qual relíquias sagradas e direito de sangue eram algo importante, cavaleiros com lepra passaram a ser vistos como mártires. Aos olhos da população, eles estavam mais próximos do sagrado Cristo em decorrência de seu sofrimento visceral. Marchando para a batalha contra os "inimigos infiéis", os Cavaleiros acometidos pela doença, insuflavam os corações cristãos. Eram vistos como verdadeiros heróis inteiramente dedicados à causa.


Um código legal, redigido na aurora do século XIII impôs que qualquer cavaleiro afligido pela lepra e que quisesse continuar ativo fosse obrigatoriamente integrado a Ordem de São Lázaro "que poderia suprir as necessidades de pessoas com tal doença". O Código dos Cavaleiros Templários tornava opcional que um doente se transferisse para os Lazarentos ao invés de continuar com seus irmãos. Isso se dava porque os Templários perceberam que suas fileiras estavam diminuindo sensivelmente assim como suas doações e recursos. Em contrapartida, a Ordem de Lázaro ganhava força.

Após a Queda de Jerusalém, que se seguiu após um cerco promovido pelos muçulmanos, o Reino foi transferido para a costa e instalado na cidade de Acre onde Templários e Lazarentos formavam as Ordens principais. A necessidade fez com que eles se tornassem mais próximos, tendo de dividir quartéis e templos. Com efeito, mais templários acabaram se unindo aos Lazarentos, por escolha ou por necessidade.

Mais do que luxuosos hospitais, ao menos para os padrões medievais, e enfermarias para atender doentes, a Ordem de São Lázaro estava se estabelecendo como uma Ordem de Combate. Seus membros tinham treinamento, dinheiro, equipamento e fartos recursos. Os registros mencionam a determinação dos seus cavaleiros que lutavam bravamente. Diziam que eles combatiam como homens que não tinham nada a perder, pois morrer em campo de batalha era mais honroso do que definhar lentamente com a doença. Muitos acreditavam que essa morte podia redimir suas almas e garantir um lugar no Paraíso.


Para os oponentes muçulmanos, a noção de combater inimigos leprosos era aviltante. Em combate havia sangue, suor e contato direto, e eles sabiam que tal proximidade podia resultar em contaminação. Nada assustava mais do que o temor de contrair lepra. Sabendo disso, alguns cavaleiros usavam táticas bizarras para aterrorizar o inimigo, incluindo sujar a espada com o próprio sangue, lançar garrafas contendo sua urina e até cuspir ao se aproximar. Um comportamento nada condizente com um cavaleiro, mas ainda assim popular como forma de desestabilizar o inimigo.

Os cavaleiros leprosos expunham a face arruinada pela doença com intuito de causar terror. Mesmo em vantagem numérica, as vezes os Cavaleiros árabes preferiam se retirar diante daquela visão profana. 

Entretanto, algumas fontes afirmam que os Cavaleiros foram usados como bucha de canhão pelos seus comandantes. Alguns os viam como opções mais viáveis do que homens saudáveis para investidas arriscadas. Sabe-se que eles eram a linha de frente para combate e que muitos se voluntariavam para as missões mais perigosas. Com tão pouca documentação é impossível saber ao certo.

John, Bispo de Jerusalém escreveu em 1323:

"Irmãos Cavaleiros e monges ligados à Ordem de São Lázaro por vezes morriam de forma horrenda. Os infiéis os tratavam com especial violência. Eram alvejados com flechas ou abatidos com lanças duas vezes mais longas para que não fossem tocados. E quando seus corpos caiam no solo, imediatamente os queimavam com óleo até que restassem apenas seus ossos enegrecidos".


Em meados do século XIII, cavaleiros  saudáveis e leprosos lutavam lado a lado sob o estandarte de São Lázaro. A Ordem aceitava a todos e não os repelia através de iniciações e testes. Evidentemente ela gozava de tanto prestígio quanto os Templários ou Hospitalários, atraindo jovens que desejavam se dedicar a causas religiosas e viver aventuras militares.

As histórias sobre a coragem e honra dos seus membros havia se espalhado pela Europa, tornando-os objeto de admiração. Os rumores mencionam tesouros coletados no Oriente e guardados em câmaras secretas sob o controle da Ordem. Mencionavam ainda artefatos místicos ligados aos Santos e mártires da cristandade: a mortalha de São Lázaro, capaz de sanar todas as doenças do corpo e as sandálias do Santo, que permitiam a quem as calçava não se cansar em suas peregrinações. Tinham ainda pedaços da Cruz verdadeira, um dos pregos da crucificação e um Cântaro usado para amenizar a sede de Cristo quando ele estava a caminho do Gólgota. Tudo isso tornava a Ordem muito influente já que nobres viam nesses artefatos um símbolo de inquestionável status. 

Mas tudo isso estava para mudar e A Ordem de Cavalaria caminhava para sua ruína.

Em dado momento, a lepra diminuiu no Oriente Médio, em parte pelos tratamentos concedidos pela própria Ordem. Os principais hospitais, aqueles que recebiam as maiores doações fecharam suas portas e isso se refletiu nas finanças da Irmandade. Para piorar, a Cidade de Acre caiu em 1291, enquanto os Cavaleiros de São Lázaro a defendiam. Os monges saudáveis foram feitos prisioneiros, os doentes executados ou banidos pelos conquistadores islâmicos. Forçados a se retirar para suas propriedades e monastérios na Europa, particularmente no Sul da França, os Lazarentos tentaram negociar a liberação de seus irmãos, mas não conseguiram chegar a um acordo. Muitos prisioneiros terminaram seus dias presos no Oriente, sentindo-se traídos pelos companheiros. Isso trouxe má fama para a Ordem.

Embora a lepra ainda existisse na Europa, permitindo à Ordem administrar vários hospitais, o espectro de uma doença ainda mais terrível começou a flutuar ameaçadoramente sobre o continente. 

À medida que a Peste Negra ia se espalhando, matando indiscriminadamente, os leprosos foram apontados como causadores da terrível pestilência. A simpatia que muitos sentiam pela ordem declinou à medida que aumentava a desconfiança e o preconceito. Hospitais e enfermarias foram destruídas com doentes sendo guiados até piras para que pudessem ser purificados pelas chamas. 


Os leprosos dispersos se viram abandonados uma vez mais à própria sorte. Forçados a vagar pelo interior dos reinos, expulsos das cidades e perseguidos como o vetor principal da doença. Em determinado momento, os leprosos ficaram tão associados à Peste que eram exterminados. Alguns cavaleiros ainda tentaram ajudá-los, mas estes temiam reprimenda. Mais de um templo da Ordem de São Lázaro acabou destruído depois que se descobriu serem eles santuários para doentes.

Na Alemanha a Ordem foi forçada a se fundir com os Cavaleiros Hospitalares e ceder seus estabelecimentos a eles. Na Inglaterra, as terras acabaram confiscadas, visto que a maioria de seus donos eram franceses e as nações estavam envolvidas na Guerra dos 100 anos. Na França e Itália ainda haviam alguns templos restantes, mas eles foram perdendo sua importância em face das perseguições. Mesmo entre os Cavaleiros havia o temor de que a Lepra podia realmente propagar a Peste. Na Hungria e leste da Europa, as terras da Ordem foram confiscadas pelos Turcos Otomanos que invadiram a região. 

Com o tempo, a Ordem de São Lázaro foi caindo na obscuridade, ainda que cercada em mistérios e segredos. Havia lendas a respeito de tesouros escondidos em câmaras secretas e artefatos mágicos trazidos das Cruzadas, que despertavam a cobiça de muitos caçadores de riqueza. Peças que pertenceram a eles apareceram ao longo dos séculos por toda Europa, em coleções particulares e nos cofres de monarcas.

Após um longo período na obscuridade, Ordem experimentou um ressurgimento a partir do século XIX, graças a ricos patronos que desejavam se igualar aos Cavaleiros do passado que se dedicavam a ajudar os pobres e necessitados. No século XX, a Ordem esteve envolvida em serviços de apoio a doentes afetados no Período de Guerras. Seus membros buscavam promover ajuda, apoio e conforto. Atualmente, a Ordem de São Lázaro existe em vários pontos do Mundo, com Hospitais especializados no combate à doenças, contando entre seus associados com médicos e cientistas dedicados a causas filantrópicas. 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Médico da Peste - Aqueles que lidavam com a Morte Negra


É interessante questionar o fascínio que a Idade Média exerce sobre nós hoje em dia. 

Não foi, nem de longe, o momento mais iluminado da humanidade, muito pelo contrário. O que marcou esse período, não por acaso chamado de Idade das Trevas foi violência, ignorância, superstição, privações e é claro, doenças. 

Em meio a todo o horror da Idade Média, poucas coisas poderiam ser mais aterrorizantes do que a Peste Negra. A doença, que viríamos a conhecer como Peste Bubônica (a bactéria Yersina pestis), era transmitida pelas pulgas que infestavam os ratos pretos comuns. Viajando nos porões de navios mercantes, ela se espalhou velozmente graças às condições degradantes na qual boa as pessoas viviam. Sozinha a peste foi responsável por dizimar boa parte da população da Europa no século XIII e XIV.

A terrível doença era capaz de esvaziar cidades inteiras, matando indiscriminadamente ricos e pobres, os que acreditavam em Deus e os que o renegavam, homens e mulheres, jovens e velhos. Em sua sanha assassina, a doença não ignorava ninguém. Ela não escolhia um alvo em particular, mirava em uma região e nela todos morriam. A Peste não obedecia aos limites traçados pelo homem: cruzava territórios invadindo feudos e atravessava as fronteiras penetrando nos reinos. Sua passagem pelo mundo ocidental deixou sinais vívidos na arte, na escrita e na memória coletiva das gerações que se seguiram. 

Por muito tempo acreditou-se que era o Apocalipse. E por pouco não foi!

A Peste devasta a Cidade francesa de Marselha
A peste surgia, e devastava rapidamente a população, e tão rápido quanto aparecia, cessava inexplicavelmente de um momento para outro. Mas não demorava a ser sucedida por outra onda devastadora. Para a maioria das pessoas era uma provação. O auge da pandemia ocorreu entre 1347 e 1351. Estima-se que ela matou algo entre 75 e 200 milhões de pessoas na Europa, Oriente Médio e Norte da África. Apenas na Europa as mortes atingiram entre 40% e 60% da população.

Dentre os personagens que viveram nesse período dramático, os Médicos da Peste permanecem como um estranho símbolo de tempos sombrios onde a vida podia ser abreviada pela foice invisível da morte.   

A figura do Médico da Peste era singular sobretudo pelas suas vestimentas. Sua imagem é universalmente conhecida e documentada em gravuras e descrições de época. A representação mais famosa, sem dúvida é Der Doctor Schnabel Von Rom de Paul Furst, mas existem centenas de outras imagens dessas figuras de aparência sinistras. Uma rápida busca no Google por "plague doctor" resulta em inúmeras fotos de fantasias e máscaras, além de fontes históricas. 

A indumentária foi provavelmente o primeiro traje primitivo de proteção contra contaminação na história. Naquela época, ninguém, nem mesmo os médicos, tinham ideia de como se dava a transmissão da doença. Tudo era um grande mistério! A teoria mais popular era que a praga seria transmitida através do ar contaminado ou por algum tipo de veneno que os doutos chamavam de Miasma.

A famosa representação de Paul Furst dos Médicos da Peste
O origem do miasma variava de acordo com cada estudioso ou sua escola de pensamento. Alguns supunham que ele provinha das profundezas da terra, exalando através de fissuras no solo que chegavam até as profundezas do inferno. Respirar o ar contaminado da corte satânica causava a doença e significava a morte. Outros supunham que o miasma era proveniente dos cadáveres insepultos e moribundos que se agarravam à vida na vã tentativa de superar a doença. Era popular a teoria de que o miasma surgia em áreas pantanosas com grande concentração de água parada. Mas existiam teorias ainda mais estapafúrdias que atribuíam a geração do miasma à flatulência de bodes e cabras negras, a maresia formada após uma forte ressaca e até a ingredientes usados nas cozinhas medievais.

De qualquer forma, os estudiosos e acadêmicos medievais concordavam que o problema deveria estar no ar.

Com isso em mente, os médicos do século XIV começaram a vestir os famosos trajes de proteção para evitar contaminação. Sua criação foi atribuída a Charles de Lorne, médico particular de Luis XIII de França. Ao longo dos anos, as roupas usadas pelos médicos da peste mudaram bem pouco. 

O chapéu preto de aba curta era tipicamente usado pelos praticantes da medicina. Quando um médico saía à campo ou para realizar um exame, o chapéu era uma espécie de identificação para que fosse reconhecido por guardas e vigias noturnos que poderiam interpelá-lo em um momento de urgência. O corpo era protegido por um grande manto geralmente preto para que as manchas de sangue não ficassem evidentes. Sobre o manto vestiam um avental coberto de cera ou parafina que o tornava à prova d'água. O colarinho do traje era suspenso e amarrado por um cordão que servia também para proteger a cabeça. Sapatos com solas reforçadas eram usadas nos pés, junto com caneleiras de couro reforçado quando não haviam botas disponíveis. As mãos eram protegidas por luvas grossas que se estendiam até o antebraço e eram amarradas às mangas do manto.

O médico carregava uma mochila trespassada no peito por cima do avental. Ali levava seus instrumentos, que incluíam vidros para coleta, bandagens, facas afiadas e vários ingredientes na forma de poções e unguentos. Fora essa mochila levavam a mão um tipo de bengala de madeira indispensável para realizar os exames de uma distância segura. A bengala era usada para apontar, tocar e manipular os doentes de uma distância segura. À elas podia ser acoplada uma faca para furar e perfurar cadáveres quando o médico buscava sinais da doença nos mortos (marcas escuras e feridas no pescoço, axilas e virilha). A bengala além disso, podia ser usada como uma arma eficaz para golpear pessoas enlouquecidas pela doença. 


Entretanto, era o rosto do Médico da Praga que mais chamava a atenção. Sobre a face eles usavam uma grotesca máscara confeccionada de tecido ou couro, dotada de uma longa protuberância similar a um bico. No interior deste eram depositadas ervas aromáticas (menta, mirra, sândalo, láudano) e temperos fortes (pimenta limão, canela e junípero) que supostamente filtravam e diminuíam a potência dos miasmas. No melhor dos casos, essa medida servia para reduzir o fedor, mas na prática era pouco eficaz contra a doença. 

Os olhos eram protegidos por aros de vidro grosso, associados a saber e aprendizado. Alguns médicos defendiam que vidro vermelho era o ideal para essa proteção, uma vez que ele permitiria enxergar com mais clareza as emanações miasmáticas no ar. A máscara era amarrada ou costurada no manto para evitar que se desprendesse da face. O pescoço era considerada uma área sensível, por isso ele era envolvido por um cachecol de tecido embebido em cânfora. Nenhuma parte do corpo ficava à mostra, mas toda essa proteção era extremamente desconfortável.

O Médico da Peste geralmente contava com um assistente de confiança que o acompanhava em seus trabalhos de campo. Este em geral era um aprendiz que tencionava também exercer o ofício de seu mestre. Muitas vezes eram jovens, não raramente crianças. Eles não contavam com um traje igual ao do médico, por isso, muitas vezes a carreira era abreviada pelas circunstâncias. A função do assistente era conduzir o praticante, já que a visão deste ficava comprometida pelas lentes que acabavam embaçando. Outra atribuição era falar com as pessoas já que muitas vezes estes não conseguiam ouvir o que o médico dizia por trás da máscara. Era comum que Médicos e ajudantes desenvolvessem uma forma de comunicação através de sinais para facilitar sua interação.    

O conjunto era impressionante e transmitia à população uma aura de austeridade e seriedade. Há relatos de que a mera visão de um médico era suficiente para conjurar pânico e fazer com que as pessoas fugissem assustadas. Em algumas partes da Europa eles eram chamados de Corvos, Gralhas e Aves Negras e sua aparição representava a certeza de que o pior estava à caminho.

Não por acaso, o traje logo foi incorporado pelas companhias itinerantes de artistas mambembes, em especial a Commedia dell'Arte que criou um personagem chamado Medico della Peste. A máscara é uma peça até hoje popular no Carnaval de Veneza.


Curiosamente quando os Médicos da Peste apareceram, sua função não era tratar dos doentes ou mesmo reduzir o grau de contaminação. Ninguém esperava que eles pudessem fazer tal coisa. A função dos médicos era basicamente observar a ação da doença, verificar como ela se espalhava e principalmente contabilizar os mortos. Acreditava-se que a observação poderia de alguma forma resultar em uma maior compreensão do desenvolvimento e progressão da epidemia.

De fato, bem poucos Médicos da Peste podiam ser realmente chamados de médicos pois sequer exerciam esse ofício. Em geral, os homens que vestiam a máscara e entravam em lugares devastados pela Peste, não possuíam educação formal. Quando se metiam a tratar a população afligida, o faziam através de métodos torpes como a realização de sangrias e o uso de remédios caseiros. Era comum o uso de sanguessugas e sapos que supostamente tinham a faculdade de sorver os miasmas responsáveis pelas moléstias. 

Eram quando muito médicos de segunda categoria ou recém formados em busca de um trabalho estável. Na França e Países Baixos atendiam pelo nome de Empíricos que auxiliavam aos médicos oficiais que jamais iriam se arriscar em um trabalho tão perigoso.

Isso não significava que os Médicos da Peste não conseguissem obter resultados graças ao seu trabalho. Foi através da observação deles que muitos progressos foram feitos, sobretudo no que diz respeito a transmissão e proliferação da doença. Foram Médicos da Peste os primeiros a fazer uma relação direta entre condições de alimentação e higiene com a taxa de mortalidade. Com o tempo, eles ganharam respeito e admiração, chegando a obter inclusive a permissão clerical para realizar autópsias e conduzir cremações, dois fortes tabus religiosos. Graças ao aconselhamento de Médicos da Peste, partes de cidades foram colocadas em quarentena como medida de segurança. Eles também instruíam a população sobre como se comportar durante a epidemia.  

No século XV, os Médicos da Peste já eram contratados por governantes que pagavam a eles salários consideráveis. Praticantes famosos eram especialmente requisitados e certas cidades consideravam uma questão de prestígio contar com mais de um desses profissionais quando havia uma peste à caminho. Veneza, com seu rico comércio chegou a contar com um plantel de dezoito Médicos da Peste em 1348. O Papa Clemente VI contratou uma equipe de 10 desses profissionais para auxiliar em uma epidemia que atingiu Avignon.


Em 1650, dois importantes Médicos da Peste de Barcelona foram sequestrados por bandidos de estrada quando estavam a caminho de Tortosa onde havia eclodido uma epidemia. Um resgate foi exigido e após grande pressão popular, a cidade acabou pagando o que era demandado pelos criminosos garantindo assim o regresso de seus médicos. Com efeito, muitos Médicos da Peste se tornaram exclusivos das cidades que os contratavam, como o respeitado Matteo Angelo que em 1348 ganhava quatro vezes mais do que qualquer médico convencional.

Com o passar dos séculos, a medicina progrediu e a ciência foi capaz de compreender as causas das epidemias e como lidar com elas para diminuir as fatalidades. Mas à despeito disso, Médicos da Peste ainda podiam ser encontrados ao longo do século XVIII, XIX e até o início do XX, acompanhando o rastro das grandes epidemias modernas. Em plena década de 1920, Médicos da Peste ressurgiram (com direito a máscara e manto) tentando auxiliar o combate da Gripe Espanhola (Influenza) que se alastrou pelo Mundo logo após a Grande Guerra.

Hoje vivemos a realidade de uma nova pandemia, exatamente 100 anos depois da última grande tragédia mundial de saúde. O Covid-19 já escreveu seu nome no rol das doenças que colocaram a humanidade em cheque e que nos desafiam a encontrar maneiras de enfrentar um inimigo invisível. 

Não é a primeira vez, não será a última, mas nós vamos prevalecer.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Para o caso deles retornarem - Os horríveis costumes de um vilarejo medieval


Em verdes prados, margeando um bosque, jaz um povoado sem nome.

Um dia, ali floresceu uma comunidade medieval, ainda que não particularmente grande ou significativa: um mero vilarejo que um dia ocupou a fronteira Oeste de Yorkshire na Inglaterra.

Não restou muito desse lugar perdido no tempo, exceto pelas suas fundações de pedra e pelas ruínas do que um dia foi uma igreja dedicada a São Martinho. A construção era o centro do vilarejo e onde a comunidade se desenvolveu em um período de quatro séculos, até ser completamente  abandonado pelos seus habitantes.

O que torna esse simples vilarejo notável e ao mesmo tempo estranho, é sua perturbadora história secreta, uma que envolve superstição e medo. Os habitantes desse vilarejo cujo nome se perdeu, mutilavam seus mortos na esperança de assim evitar que eles retornassem para atacar os vivos.

As origens do vilarejo podem ser traçadas até o século X. Essa região é mencionada no Domesday Book, tratado que dispõe sobre as províncias de Yorkshire. Ela é  citada com o nome de Warron, que se refere ao Bosque, não à cidadezinha em si. De acordo com arqueólogos, está região teve uma população bastante ativa desde a pré história, embora seu auge tenha ocorrido do século XI até o XII.

Muito do que se sabe vem das numerosas escavações arqueológicas na área, já que não há praticamente nenhum registro escrito que tenha sobrevivido. Graças a fotografias aéreas, o padrão irregular dos campos nas redondezas foi percebido, o que motivou a realização de escavações em areas específicas.


Um exame mais cuidadoso revelou que o vilarejo possuía ao menos duas grandes propriedades e um total de 35 a 40 casas menores. As fundações eram edificadas em pedra, mas como as paredes eram de madeira, precisavam de frequente manutenção, bem como os telhados. Não por acaso, tudo isso desapareceu.

Os limites ao sul do povoado terminavam em pequenos montes relvados, enquanto ao oeste se erguia uma elevação semelhante a um platô. Nessa posição provavelmente foi erguido um forte ou posto de guarda que permitia vigiar todo perímetro. Restos de estacas de madeira cravadas fundo no solo atestam que em determinado momento pode ter havido também uma cerca ou paliçada que contornava o povoado, garantindo uma defesa mais eficiente. Até mesmo uma trincheira foi escavada junto da cerca para dificultar qualquer aproximação indesejada. Os restos de um portão ao norte atestam que os habitantes prezavam pela sua segurança.

De fato, eles pareciam temer enormemente a possibilidade de sofrer uma invasão.


Outra característica peculiar é que os historiadores encontraram fechaduras em algumas portas. Estas sobreviveram pois eram construídas com madeira reforçada trazida de regiões vizinhas. Fechaduras eram um verdadeiro luxo no mundo medieval, sobretudo em regiões isoladas dos grandes centros. Em geral a segurança de uma casa era garantida por barricadas dispostas no lado de dentro, mas no vilarejo, as fechaduras evidenciavam uma busca notável por segurança.

O que levava essas pessoas a se proteger de tal forma? O que fazia com que elas agissem com tamanha desconfiança?

A resposta provavelmente se encontrava a cerca de um quilômetro e meio do centro do povoado.

Seguindo por uma estrada tortuosa em direção a um pântano os historiadores encontraram os restos de um muro de pedra que limitava o que descobriam ser um grande cemitério.


O vilarejo sobreviveu aos horrores impostos por William o Conquistador que submeteu com os habitantes dessa região com mão de ferro. No período, toda Yorkshire sofreu com um rígido controle no qual qualquer sinal de revolta era tratado com brutalidade. Mais de um povoado foi incendiado e seus habitantes submetidos a punições por parte do monarca cujo reinado foi marcado por execuções.

Acredita-se que em determinado momento, os arredores de Warron foram palco de uma ou mais batalhas sangrentas. Como os mortos eram abandonados no campo de batalha, era costume que camponeses fossem forçados a enterrar os cadáveres em covas coletivas. Quando os arqueólogos começaram a escavar o cemitério encontraram várias dessas valas transbordando com esqueletos que haviam perecido em combate.

Não bastasse isso, havia ainda um grande número de sepulturas marcadas com um círculo preto que indicava o local onde uma vítima da Peste Negra havia sido enterrada. No meio do século XII, a Peste atingiu com força Warron matando boa parte da população residente.

Em uma época de extrema superstição, a presença de inúmeros cadáveres de forasteiros, mortos violentamente ou vitimados pela peste, depositados no cemitério local, deve ter causado um medo considerável nos habitantes do vilarejo.

Entre os povos medievais, os mortos despertavam um terror extremo. Havia muitas crendices a respeito de mortos vingativos e espíritos malignos capazes de escavar suas sepulturas para arrastar consigo os vivos.

Lendas a respeito de Revenants ou Espíritos de Vingança, eram comuns. Elas relatavam como homens e mulheres que haviam sofrido mortes violentas podiam retornar para levar a cabo uma terrível vingança contra os vivos. Seu desejo de extinguir a vida dos outros lhes concedia força sobre-humana e um ímpeto perverso para espalhar o mal.

Os Revenants eram como esqueletos animados, sua carne apodrecida se desprendida dos ossos expostos. Eles caminhavam lentamente, mas as orbes vazias onde um dia estiveram seus olhos, pulsavam com um brilho amarelado. Suas mãos estavam sempre prontas para agarrar uma vítima e puxa-la para de baixo da terra, sufocando-a lentamente ou partindo seu pescoço. Mais terrível de tudo, o Revenant quando fixava sua ira em uma pessoa jamais desistia de seu objetivo. Poderia ser depositado na terra uma, duas, cem vezes, mas encontraria uma maneira de voltar, nem que se arrastando de sua campa pútrida para extrair seu desejo de vingança.

Não por acaso, a literatura medieval está repleta de casos envolvendo Revenants. Eles eram tratados como um problema grave, com real temor e preocupação pelos aldeões.

Os almanaques medievais afirmavam que padres podiam por um fim aos Revenants benzendo a terra onde os restos mortais eram lançados. Outras medidas práticas envolviam deitar os cadáveres de bruços e trespassa-los com uma estaca de ferro ou ainda prender seus pés com correntes. Uma receita considerada infalível envolvia colocar na boca do cadáver uma raiz de acônito e costurar os lábios com linha. Outra dava conta de tatuar na testa do cadaver um desenho da cruz e pingar sobre seus olhos cera quente. Como se pode ver, os métodos flertavam de perto com noções de necromancia.

Mas como se certificar de que um espírito desses não voltaria para atormentar os vivos? E caso voltasse, como contê-lo?


Os arqueólogos que escavaram os restos do cemitério se surpreenderam com os métodos usados pelos aldeões.

Cerca de 230 ossadas datando do século XI a XIII demonstravam sinais inequívocos de mutilação post morten. Marcas de faca, que cortaram até o osso foram achadas onde se encontravam os tendões e músculos. Da mesma maneira, pernas e pés foram amputadas dos cadáveres, geralmente na altura da canela a fim de limitar a capacidade de movimento, caso os mortos se erguessem para cumprir seus propósitos nefastos.

Ao menos sete cadáveres tiveram os pés arrebentados por marretas. Uma dúzia tiveram braços e mãos serrados na altura do cotovelo e pulso. E pelo menos um foi totalmente esquartejado para resolver de vez o problema.

Decapitações também pareciam ocorrer com frequência. Ao menos duas dúzias de restos apresentavam sinais de que as cabeças haviam sido separadas pouco antes do enterro. Curiosamente, as cabeças eram enterradas em covas afastadas, depois da boca ser devidamente preenchida com alho, terra consagrada ou uma mistura de ervas ou raízes. Em alguns casos, mandíbulas e dentes eram partidos a marteladas afim de evitar mordidas.

A preocupação dos aldeões com Revenants era tamanha que eles chegaram a construir um muro ao redor do cemitério. Dispunham ao longo deste, bonecos semelhantes a espantalhos que imitavam a aparência de pessoas. A ideia é que como ninguém jamais havia testemunhado um morto escavar sua sai da da cova, eles só o faziam quando não eram vigiados. Os espantalhos poderiam coibir suas ações.

Não se sabe exatamente o que motivou esse terror e essas precauções da parte dos aldeões. Também se desconhece as circunstâncias em que o vilarejo foi abandonado no século XIII, embora a Peste Negra seja a causa mais provável de sua deserção.

Hoje, o Vilarejo na região de Warron é considerado como um dos assentamentos medievais mais bem preservados de que se tem notícia. Ele é uma espécie de relíquia da Era das Trevas, alimentando os pesquisadores com evidências de dias obscuros e assustadores.

Tempos em que temia-se que os mortos andassem.

domingo, 30 de dezembro de 2018

A Donzela de Ferro - Uma Horrenda e Infame Forma de Execução


Won't you come into my room, I wanna show you all my wares
I just want to see your blood, I just want to stand and stare
See the blood begin to flow as it falls upon the floor
Iron Maiden can't be fought, Iron Maiden can't be sought

Iron Maiden - Iron Maiden

O torturador empurrou a pobre vítima para dentro da Donzela de Ferro, enquanto ela gritava em desespero.

"Não! Isso, não! Piedade! Piedade!" ela gritou e implorou quando viu a Donzela de Ferro aberta à esperando..

Mas de nada adiantava. Uma vez posicionada no interior da Donzela de Ferro a porta foi fechada e seu abraço extraiu da pobre mulher um lamento longo e doloroso. O som era música para os ouvidos do torturador. E logo um fluxo de sangue começou a escorrer do interior do instrumento de tortura a medida que os espinhos penetravam cada vez mais fundo em sua carne.

*     *     *

Donzelas de Ferro talvez sejam os aparelhos de tortura mais notórios e temidos.

Mas será que eles realmente foram usados ao longo da história?

A resposta mais simples para a questão provavelmente é: Não.

A presença de Donzelas de Ferro em praticamente todas as câmaras de tortura é um mito disseminado a partir do século XVIII, quando esses impressionantes instrumentos de suplício se tornaram acessórios em peças teatrais a respeito da Era Medieval. Elas se tornaram extremamente populares em montagens de histórias góticas e nas famosas peças de Grand Guignol em que morte e tortura eram encenadas para o delírio do público. Contudo, a probabilidade de que esses terríveis aparelhos de tortura tenham sido largamente utilizados na Idade Média, é pequena.


Isso não torna a ideia da Donzela de Ferro menos aterrorizante. A Donzela de Ferro (Iron Maiden) é descrita como uma caixa de metal do tamanho de uma pessoa adulta. No interior desse aparelho diabólico eram colocadas pontas agudas de metal que ficavam presas na parede interna e na porta. A vítima era colocada dentro da caixa e a porta fechada fazendo com que os espetos perfurassem seu corpo em lugares chave. O ideal era que os cravos não atravessassem nenhum órgão vital, para que a tortura pudesse se prolongar. Para tornar a coisa ainda mais terrível, as Donzelas de Ferro possuíam um dispositivo de manivela operado pelo torturador que permitia mover a parede, fazendo com que os cravos avançassem empalando lentamente a vítima. Esta experimentava um sofrimento indescritível e uma morte lenta causada pelo choque do sangramento.

Ok, sinistro.

Mas basicamente pura ficção. A primeira referência histórica a respeito da Donzela de Ferro é feita muito depois da Idade Média, no final do século XVII. O filósofo alemão Johann Philipp Siebenkees escreveu a respeito de uma alegada execução ocorrida no ano de 1515. A vítima teria sido um falsificador de moedas da cidade de Nuremberg que enfrentou o abraço da donzela e sucumbiu em seu interior depois de dois dias de tortura incessante.

Na mesma época que a descrição foi feita por Siebenkees, Donzelas de Ferro começaram a aparecer convenientemente em museus na Europa. Isso inclui a infame Virgem de Nuremberg, possivelmente a mais conhecida das peças de tortura que ficou exposta no Museu da cidade como uma relíquia de tempos menos tolerantes. Curiosamente, a Virgem de Nuremberg jamais foi usada para torturar, ela foi construída no início de 1800 para ser exposta. A peça teria sido destruída em um bombardeio aliado em 1944 e uma substituta foi forjada em 1954. 

Siebenkees não foi o primeiro a imaginar o uso da terrível caixa de metal cheia de cravos como aparelho de tortura. Um livro em latim, chamado "A Cidade de Deus", escrito no século quinto depois de Cristo, relata uma medonha tortura sofrida pelo General romano Marcus Atilius Regulus nas mãos dos cartagineses. Segundo a narrativa ele foi trancafiado em uma caixa de metal com espinhos de ferro. Marcus não teria morrido no aparelho, ele foi levado dentro da caixa até o local de execução onde acabou sendo decapitado.

O historiador grego Polybius, que viveu no ano 100 aC, também ajudou a espalhar uma história similar. Polybius contava que o tirano espartano Nabis mandou construir um engenho de metal com a face de sua esposa Apega na porta. No interior da caixa haviam pregos de metal que se enterravam no corpo dos que eram postos ali dentro. O diabólico mecanismo era usado em cidadãos que se recusavam a pagar impostos ou que ousavam se rebelar contra o governante.  

Polybius escreveu em uma crônica a seguinte descrição do aparelho sendo usado:

"Quando o homem foi colocado na caixa, a porta foi fechada e seus gritos puderam ser ouvidos. Seus braços e mãos, bem como suas costas, foram atravessadas por pregos aguçados de ferro que cobriam as paredes internas da caixa. Quando a porta foi empurrada por Nabis, os espetos perfuravam a vítima em um abraço mortal... ele fez o homem prometer que jamais falaria novamente contra seu Rei. Aquele homem sobreviveu, mas outros tantos não tiveram a mesma sorte e pereceram no interior da infame Caixa de Metal que era carregada para as praças com intuito de intimidar os revoltosos".

É difícil dizer se qualquer dessas narrativas são verdadeiras - historiadores da antiguidade tinham forte tendência a exagerar e criar situações, mas o conceito da Donzela de Ferro não parece ter surgido na Idade Média. De fato, o período é associado a vários tipos de tortura, mas a grande maioria delas foram adaptadas a partir de métodos bem mais antigos. Mesmo o famoso rack de tortura, um instrumento associado a tortura medieval, usado para estender braços e pernas provocando o rompimento de articulações, não foi concebido no período. Ele já era conhecido nos tempos de Alexandre, o Grande. Da mesma forma, existem menções sobre cadeiras de ferro em que vítimas eram amarradas e o assento aquecido gradualmente até queimar o pobre diabo. Tal implemento, famoso na Europa Medieval parece ter sido uma criação dos persas. Os persas também teriam criado o conceito da crucificação que os romanos usaram extensivamente como forma de execução. Uma vez que a crucificação passou a ser identificada com o martírio de Cristo, ela deixou de ser utilizada na Idade Média.

Tudo indica que os torturadores medievais eram menos engenhosos do que se pensa, já que foram poucas as modalidades de tortura desenvolvidas no período.

Isso, no entanto, não significa que a tortura não acontecia na Idade Média. Ela ocorria, e com enorme frequência. Tortura era empregada como forma de extrair confissões de culpa, para preparar uma pessoa condenada, para punir certos tipos de transgressão e em alguns casos, usada como ferramenta da própria execução.


Existia a noção na Era Medieval de que as pessoas se tornavam realmente honestas quando eram sujeitas a considerável sofrimento. A verdade aflorava através da dor e da punição ao corpo. Os torturadores eram instruídos a jamais produzir ferimentos graves o bastante para causar a morte antes que a vítima confessasse seus crimes. Um torturador experiente conhecia seu ofício bem o bastante para prolongar o sofrimento de sua vítima por horas ou mesmo dias, extraindo cada gota de sofrimento através do uso de suas ferramentas.

Entretanto, a tortura medieval não era tão elaborada quanto imaginamos. Cordas, ferros em brasa e chicotes eram as ferramentas preferidas dos torturadores. Estes não eram particularmente criativos em seus métodos. Dispositivos de tortura eram algo incomum, mesmo nas famosas masmorras e câmaras de tortura dos castelos medievais. De certa forma, aparelhos como estes eram pouco confiáveis e os torturadores por vezes iam longe demais e acabavam matando as vítimas antes da hora. Métodos mais simples, podiam ser mais eficazes, afinal, causar dor não é uma ciência complexa. De fato, alguns historiadores medievais acreditam que muitos aparelhos de tortura até podiam adornar as masmorras, mas eles eram usados muito mais para intimidação do que na prática.

A frase, "mostre os instrumentos" era comumente utilizada como forma de intimidar e soltar a língua da vítima antes mesmo que qualquer ferimento fosse produzido. Um prisioneiro podia ser levado até a masmorra e apresentado aos terríveis aparelhos de tortura e isso muitas vezes era suficiente para que ele confessasse tudo, mesmo aquilo do qual não sabia ou pelo qual não era responsável. Donzelas de Ferro podem ter cumprido justamente essa função, a de ser um estímulo a confissão, através de uma ameaça clara do que ela representava.


Muitas das lendas a respeito de tortura medieval surgiram no século XVIII e XIX, quando as pessoas pareciam interessadas em atribuir aos seus antepassados um perfil mais brutal do que o seu. A ideia era atribuir ao período medieval um caráter selvagem para torná-los menos selvagens.

Mas com todos esses fatos, será então que a Donzela de Ferro nunca passou de uma lenda?

Talvez não... existem documentos e documentos que confirmam a existência de tais instrumentos em tempos medievais, ainda que fossem extremamente raros, restritos apenas aos maiores castelos comandados pelos Senhores mais poderosos que podiam se dar ao luxo de mandar construir tais engenhos de sofrimento.

Criar uma Donzela de Ferro demandava grande capacidade em metalurgia e conhecimento em manipulação de metais. A peça conforme descrita é muito mais do que uma simples caixa com espetos agudos, estes precisavam ser soldados, a porta devia possuir molas e o mecanismo de manivela deveria demandar ainda mais engenhosidade por parte do ferreiro.

Os documentos mais confiáveis a respeito da existência de Donzela de Ferro vem das Terras Germânicas. Eles mencionam a existência de um dispositivo chamado Schandmantel que pode ter servido de inspiração para a construção das Donzelas. O Schandmantel (que significa barril da vergonha), era um tipo de barril de madeira reforçado com ferro no qual uma pessoa era colocada. As paredes desse barril tinham cravos de ferro rebitados que se enterravam na carne da vítima,sobretudo quando ele era rolado no chão para frente e para trás.


Existem inclusive desenhos de Shandmantel com figuras femininas entalhadas na tampa, que podem ter servido como inspiração direta para as Donzelas de Ferro que se tornaram mais tarde populares.

No Museu da Tortura de Praga, na atual República Checa, existe um dispositivo datando do século XVI que parece muito com uma Donzela de Ferro. Ela é uma espécie de caixa do tamanho de uma pessoa adulta, com uma estrutura de metal mas recoberta de couro, dotada de furos. Nesses espaços intermitentes, lanças ou cravos podiam ser enfiados para perfurar uma pessoa presa no interior.

Curiosamente, não existe no mundo nenhuma Donzela de Ferro que comprovadamente foi construída (e usada) na Idade Média. Muitos museus possuem em seu acervo tais instrumentos de tortura, mas mesmo as peças mais conhecidas não passam de versões construídas após o século XVII. Embora tudo leve a crer que as Donzelas de Ferro não passem de uma ficção, não há como se descartar a brutalidade e violência que o ser humano é capaz de desencadear. A concepção desse e de outros instrumentos de tortura apenas demonstram como nossa espécie é criativa e eficiente quando se trata de nos ferirmos uns aos outros.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mesa Tentacular | "Here be Dragons" no Dungeon Carioca mestrado pelo Keeper Thiago Queiroz

Domingo passado tivemos a quarta edição do encontro de RPG Dungeon Carioca na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

O Dungeon Carioca já se converteu em uma excelente opção para juntar grupos, rolar dados e congregar veteranos e iniciantes em busca de um jogo amistoso do nosso querido hobby. Por falar nisso, cada vez mais gente tem aparececido no encontro que cresce a olhos vistos.

Infelizmente eu não pude participar dessa edição por estar viajando, mas nem por isso o bom e velho Call of Cthulhu deixou de marcar presença e atrair jogadores ansiosos por enfrentar as forças tenebrosas do Mythos. Coube ao nosso colega Thiago Queiroz fazer a sanidade rolar ladeira abaixo, e com estilo...

Ele mestrou um cenário de Cthulhu Dark Ages, ambientação que leva o horror das entidades ancestrais para a Idade das Trevas, no longinquo ano 1000 da Era Cristã.

O Thiago fez a gentileza de escrever um relato de como foi a experiência do jogo e eu complementei com algumas fotos tiradas na ocasião.

À propósito, o tópico "Mesa Tentacular" está aberto para os keepers que desejam contar como foram seus jogos e deixar um registro de suas mesas aqui no Mundo Tentacular.

Abaixo o relato da aventura. Pena que não deu para participar dela, mas sempre haverão outras oportunidades...

Para um Keeper de primeira viagem, acho que não me saí mal!

Eu narrei uma aventura disponível no site http://home.kpn.nl/gesbe000/, chamada "Here Be Dragons". É um cenário para iniciantes um tanto quanto curto. Fui preparado para o pior, da parte dos jogadores e da minha! Caso não sentisse confiança, ou achasse que não estava cativando os jogadores, a aventura teria um final mais abrupto. Porém, o sistema facilita MUITO! Com alguma inspiração do bom e velho Lovecraft e bons pitacos de Ravenloft, é possível imaginar e levar os jogadores a imaginarem um lugar bem obscuro e um tanto quanto perturbador! Resolvi tomar meu plano B, inseri um "side plot", que na verdade, aconteceu antes da aventura original, e que preparou o terreno pro horror que se desenrolaria!

Os aventureiros sob a liderança do xerife local, são enviados ao pequeno vilarejo de Clottone para verificar o porque do atraso no envio do pagamento de impostos e aluguel das terras para o Lorde local. Chegando lá, descobrem que a cidade está sob a névoa do medo. Três crianças de famílias locais sumiram enquanto brincavam perto de um poço, os aldeões apavorados, e sem uma guarda, organizaram uma pequena milicia para tentar proteger os limites do vilarejo. Com isso, não tinham levado o dinheiro e contribuições que o Lorde ansiava. Porém tal milícia era inefetiva, afinal os moradores estavam apavorados com os sons que vinham do bosque próximo da sua cidade!

Nossos heróis tomaram coragem e decidiram verificar o que estava acontecenmdo, após descobrirem rastros que pareciam ser de lobos, só que, muito maiores, próximo ao poço apontando diretamente para o bosque, seguiram a trilha até o corpo destroçado de uma jovem menina. Ainda tentando se refazer da cena grotesca, começaram a ouvir sons que poderiam apenas serem descritos como "latidos saídos diretamente do inferno". Apesar de aterrorizados, decidiram seguir em frente e descobrir qual criatura infernal havia feito aquilo com a pobre criança.

Avançaram mais para o interior do bosque descobriram uma pequena gruta: "Servos do demônio!" exclamou o monge ao se deparar com quatro criaturas de forma grotesca, cabeças como a de cachorros, mas corpos lembrando o de homens, se alimentando vorazmente dos restos de sabe-se-lá-o-que havia dentro da gruta que usavam como covil. Após uma batalha feroz, onde um de nossos heróis quase sucumbiu a força dos demônios, finalmente eles triunfaram!

 Infelizmente, devido aos ferimentos de seu amigos, o grupo se viu obrigado a fazer acampamento naquele lugar ermo. Afinal, já anoitecia, e a volta para o vilarejo era perigosa já que com um ferido, seu passo seria muito reduzido e seriam alvos fáceis para quaisquer criaturas rondando durante a noite.

A noite proporcionou ao aventureiro ferido muito mais que o descanso dos justos! Sonhos com uma criatura saída dos piores pesadelos do ser humano, algo que ele poderia apenas descrever como um DRAGÃO. No amanhecer do dia seguinte, o herói acordou a todos com um grito de horror, a imagem que estava em sua cabeça o afetarou profundamente.

Ansioso por deixar aquele lugar amaldiçoado, o grupo decide juntar forças e tentar retornar para o povoado, afinal, já haviam livrado o lugar de um grande mal. Mas ao chegar, perceberam que aquele seria um longo dia. Surpreendidos por uma confusão no centro da cidade causada pela mulher de um fazendeiro que gritava, esperneava, e falava sobre um dragão que habitava o bosque. Segundo ela, os moradores do vilarejo deveriam ajuda-la enfrentar essa ameaça.

Imediatamente nosso amigo ferido se juntos a ela gritando sobre a tal criatura vista em seu sonho. O pânico se instalou nos corações de todos! Subitamente os sinos da abadia do Priorato se puseram a tocar e ambos, o aventureiro e a mulher se acalmaram. Após tranquilizar a multidão e levar a mulher para um local seguro, o grupo decidiu fazer uma pesquisa na pequena biblioteca do priorado. Lá descobrem uma pista. Um texto escrito em uma língua antiga, num pedaço de papel ainda mais velho, e trechos do diário de um legionário Romano, datando de séculos antes, relatando uma terrível batalha contra os Druidas que habitavam aquele lugar e sobre um dragão que atacava ambos os lados.

Seguindo o conselho de um dos monges, eles partiram em busca de uma velha curandeira que vivia próximo ao vilarejo, já que esta poderia traduzir as palavras contidas no manuscrito antigo. Após conseguirem convencer a mulher de que suas intenções eram boas e não pretendiam causar nenhum mal a ela, a curandeira revelou aos aventureiros a história por trás do vilarejo de Clottone.

Alvo da disputa entre Druidas e Romanos, várias batalhas foram travadas naquele local, um lado tentando expulsar o outro. Próximos da derrota, os druidas recorreram a um último recurso: invocaram uma criatura terrível, que não deveria existir fora dos pesadelos dos homens.

Porém, eles não tinham o poder para controlar sua fúria! Em um ato de desespero, sacrificaram seu mais alto sacerdote e prenderam a criatura em um local sagrado na parte mais escura do bosque. Os Romanos terminaram por expulsar os habitantes restantes, e a criatura foi esquecida por séculos. A mulher também lhes contou que o manuscrito ocultava um poderoso feitiço usado para prender a criatura, feitiço que agora estava enfraquecendo, o que permitia à criatura influenciar as pessoas e animais próximos a ela. Sabendo disso, ela aceitou ensinar como realizar o feitiço e prender o dragão uma vez mais.

Infelizmente neste momento, tivemos que terminar a sessão de jogo, já que os jogadores tinham que ir embora, afinal, alguns moravam bem longe! Ficamos de concluir a estória em uma próxima oportunidade.

Aqui estão fotos da mesa:




terça-feira, 24 de julho de 2012

Mythic Iceland - Suplemento para Cthulhu Dark Ages escrito por Pedro Ziviani

Um texto enviado pelo nosso colaborador e colega Pedro Ziviani, cujo livro "Mythic Iceland" recentemente foi publicado pela Editora Chaosium.


Abaixo, o Pedro fala um pouco sobre a proposta do seu livro, sobre o conteúdo e informações pertinentes para aqueles que desejam lançar seus jogadores em aventuras na misteriosa Islândia da Idade das Trevas.


Mythic Iceland é um suplemento publicado pela editora Chaosium para o sistema de regras Basic Roleplaying (o mesmo sistema usado em Call of Cthulhu), lançado nesse Junho passado, e que traz para a mesa de jogo o mundo das Sagas Vikings e dos contos de fadas da Islândia.

RPGs com uma temática Viking não são nenhuma novidade. Qual seria então o diferencial de Mythic Iceland? Enquanto outros RPGs sobre Vikings dão ênfase no aspecto do guerreiro sanguinário, em detrimento de aspectos culturais interessantes, e tentam cobrir uma área geográfica muito extensa e um período histórico amplo demais, Mythic Iceland tem foco nas Sagas Islandesas, as grandes obras de literatura medieval cobrindo as intrigas das famílias e as aventuras dos grandes heróis e anti-heróis Vikings, e na mitologia e folclore como o povo daquela época realmente acreditava.

Por que um foco na Islândia, e não em outro país nórdico? São vários os motivos, dentro eles o fato de que quase tudo que sabemos hoje sobre mitologia nórdica vem de livros escritos na Islândia, dentre estes as Sagas e as Eddas. Ainda, a Islândia tem uma história extremamente interessante, sendo o único país europeu nesse período a ser governado não por um rei, mas sim por uma assembleia de homens livres, e com cultura, tradições e folclore únicos.

Mythic Iceland se concentra nos anos da chamada República Pagã Independente, do ano 930 ao 1050. Esse período cobre o estabelecimento da Assembleia Nacional e vai até a consagração do primeiro bispo cristão do país. Para quem se interessa em um período histórico diferente dentro dessa mesma ambientação, o livro também traz informações sobre a era grega e romana, sobre a colonização do país no século IX, os primeiros séculos de cultura cristã, e sobre a guerra civil no século XIII.

Mythic Iceland foi escrito de maneira a possibilitar tanto campanhas cheias de magia e criaturas fantásticas, quanto também campanhas puramente históricas. O livro discute a vida na Islândia do período Viking, o funcionamento das assembleias, aspectos culturais, traz mais de trinta novas criaturas do folclore nórdico, e muito mais. As colônias na Groenlândia e América também são amplamente discutidas em Mythic Iceland, junto com as populações locais e criaturas exclusivas dessas novas terras. Na parte de regras, Mythic Iceland traz sistemas para: resolução de conflitos legais em assembleias, duelos na tradição Viking, competições de consumo de álcool, maldições e profecias, saque de vilas e mosteiros, e um sistema inovador de magia rúnica. Um belo mapa colorido acompanha o livro.

Agora, você deve estar se perguntando o por que desse artigo sobre um cenário histórico e de fantasia num blog sobre Lovecraft e os Mythos de Cthulhu. Boa pergunta! Permita-me explicar. Na verdade, Mythic Iceland nasceu como uma proposta para se escrever um "Secrets of Iceland" para Call of Cthulhu. Como sugestão dos Grandes Antigos da editora Chaosium, o projeto cresceu e se transformou num cenário medieval completo para o sistema Basic Roleplaying, mas ainda com bastante material para Call of Cthulhu.

Falando do conteúdo para Call of Cthulhu em Mythic Iceland, o livro traz um apêndice de vinte páginas sobre como usar as informações do livro numa campanha de Cthulhu Dark Ages, e mais várias criaturas, livros e magias dos contos de fadas mais sombrios e perturbadores, e ainda uma aventura completa para Cthulhu Dark Ages ambientada na Islândia do período Viking. Um dos pontos explorados nesse apêndice liga o passado distante da Islândia com a civilização de Hyperborea, dos contos do autor Clark Ashton Smith, que foi contemporâneo de Lovecraft e que contribuiu para o Mythos. Sob a lente do Cthulhu Mythos, os trolls e elfos da cultura nórdica seriam raças sobreviventes de Hyperborea, com motivações muito além do que os habitantes da ilha podem imaginar, e conexões com divindades sombrias do Mythos.

Se você tem interesse em trazer a mitologia nórdica e a cultura Viking para a sua mesa de jogo, seja para uma campanha de Basic Roleplaying ou de Call of Cthulhu, você vai encontrar em Mythic Iceland tudo que precisa!

LISTA DE CAPÍTULOS: Introduction • History of Mythic Iceland • Character Creation • Life in Saga-Age Iceland • Law and Government • Norse Religion • Magic in Mythic Iceland • A Traveler’s Guide to Mythic Iceland • Elves and the Hidden People • Álfheimur • The Lands to the West • The Wide World • Going Viking • Running a Game of Mythic Iceland • Creatures of Mythic Iceland • The Trouble with Neighbors • Cthulhu Dark Ages Iceland • Cthulhu Dark Ages Scenario • Bibliography • Fold-Out Map.

Algumas imagens das páginas:



Recursos:

Link para download da ficha de personagem para Mythic Iceland:

Link para download da aventura gratuita Night of the Yule Cat para Mythic Iceland:

Grupo no Facebook sobre Mythic Iceland:

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mandados para Valhalla - Cova com Guerreiros Vikings encontrada na Inglaterra

Despojados, decapitados e lançados em uma cova comum. Os corpos de 51 jovens guerreiros foram descobertos em uma escavação no sul do Reino Unido. Os homens brutalmente assassinados finalmente foram identificados como guerreiros vikings.

Os esqueletos sem cabeça foram encontrados em Junho de 2009, em uma cova rasa com mais de mil anos de idade, nos arredores da cidade litorânea de Weymouth.

Exames preliminares de rádio-carbono atestaram que os homens viveram entre 910 e 1030 d.C., um período extremamente violento da história européia, marcado por invasões de saqueadores nórdicos.

Até recentemente, os arqueólogos não sabiam precisar a quem pertenciam os cadáveres sem cabeça. A decapitação era uma forma comum de punição a criminosos e inimigos na Inglaterra do século X. O objetivo, é claro, era fazer com que eles servissem de exemplo para outros trangressores. Desde o início havia a suspeita que os corpos poderiam pertencer a vikings, mas não se podia dizer com certeza.

Um novo estudo investigou traços químicos nos restos que revelaram sua origem geográfica. Isótopos isolados nos ossos mostraram que eles pertenciam a indivíduos provenientes de climas mais frios que a Grã-Bretanha. O laudo apontou também que eles tinham uma dieta rica em proteínas e frutos do mar, com os mesmos índices obtidos nos restos de indivíduos que habitavam a costa da Suécia neste mesmo período.

As análises também indicaram que os homens tinham entre 17 e 24 anos de idade quando morreram e que possuíam ferimentos condizentes com uma vida de violência e batalha. Eles eram grandes, com formação óssea robusta. Alguns ossos apresentavam desgaste no ombro e pulso, relacionado a prática de luta com espadas, machados e outras armas pesadas. Ossos partidos e ferimentos cicatrizados demonstravam que alguns deviam ser veteranos de outras batalhas.

Tudo indica que os homens foram feitos prisioneiros e levados até o local para serem executados. Vários cadáveres foram jogados na vala com os braços atados às costas e pernas imobilizadas. Marcas distintas na traquéia sugerem o uso de garrotes e lâminas antes da decapitação.

Uma curiosidade é que nada foi encontrado junto dos esqueletos. Os homens marcharam para a morte nus. Suas armas, roupas e objetos pessoais foram confiscados em uma demonstração clara de vingança. Seus algozes não lhes permitiriam o menor conforto ou dignidade enquanto eles eram conduzidos para seu destino final. De fato, os habitantes das regiões costeiras odiavam os saqueadores nórdicos e quando conseguiam capturar um deles, os tratavam com extrema brutalidade. O fato deles terem sido enterrados também demonstra uma forma de desrespeito para com os guerreiros que preferiam ser cremados em piras funerárias.

As cabeças de metade deles repousava em uma cova próxima, elas foram cuidadosamente empilhadas antes de serem cobertas. As demais provavelmente se tornaram horríveis troféus de batalha, adornando estacas fincadas nas praias e demais locais de desembarque a fim de desestimular outros saqueadores.

À despeito da reputação brutal dos vikings, seu comportamento em batalha era bastante similar ao dos guerreiros ingleses e saxões da época. Até visualmente devia ser difícil diferenciar um guerreiro Viking de um saxão, visto que todos usavam o mesmo equipamento composto principalmente de lanças, tendo espadas e machados como armas reserva. Alguns empregavam também escudos redondos de madeira reforçada.

O que diferenciava os Vikings é que eles eram mestres em ataques de surpresa. Uma de suas táticas mais eficazes envolvia realizar o desembarque em alguma praia distante e marchar para os vilarejos durante a noite, atacando de madrugada. Enquanto esperavam o momento do ataque eles bebiam para espantar o frio. Antes da batalha, a maioria dos guerreiros já se encontravam embriagados e ansiosos pelo massacre.

É relativamente seguro afirmar que nenhum povoado a menos de 25 quilômetros da costa estava em segurança de sofrer um ataque. Surgindo na calada da noite carregando tochas e com elmos de chifres, uma horda Viking devia ser uma visão aterrorizante. Os clássicos capacetes com chifres aliás eram especialmente assustadores para os supersticiosos britânicos. Nos primórdios do cristianismo, religiosos preferiam cometer suicídio (indo contra um dos dogmas mais fortes da sua fé) do que se deixar capturar pelos guerreiros nórdicos.

Mas nem sempre eles conseguiam escapar impunes como comprova a cova de Weymouth, um testemunho assustador de uma era de incrível violência.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

The Long Ships - Cenário Viking para Cthulhu Dark Ages (Conclusão)

Conclusão da saga Viking com os nórdicos enfrentando os horrores dos Mitos Ancestrais.

Cena 5 - Jornada em terreno Inimigo

Após o chocante encontro com Fionualla, a bruxa, os guerreiros retornam para o vilarejo pesqueiro de Annagh a fim de descansar.

Na manhã seguinte, o grupo se prepara para seguir rumo aos pântanos salgados no norte. Os camponeses entregam a eles armas e provisões para alguns dias de viagem e Carlen concorda em levá-los num barco de pesca.

O grupo parte em uma tarde cinzenta, os homens estão preocupados com o que vão encontrar e Olaf pondera se vale a pena seguir com o plano. Bjorn e Rurik o convencem a ir adiante. "Os deuses odeiam os fracos!" urra Brodir e todos riem. Olaf com a sabedoria da idade comenta baixo: "Eles odeia ainda mais os idiotas descuidados..."

Após um dia inteiro de viagem, o barco chega ao seu destino. Os marinheiros afirmam que não podem se aproximar mais por temer avariar o casco da embarcação. O grupo terá de nadar até a costa e escalar o paredão.

O grupo salta à cerca de 50 braçadas da costa e nada até o paredão. Pedras escuras cobertas de limo os saúdam. Não é uma visão animadora! Uma queda aqui pode ser mortal. Os vikings buscam um caminho mais fácil para escalar e Bjorn o mais hábil dentre todos encontra um acesso.

A escalada é árdua mas depois que Bjorn e Leif atingem o topo e fixam cordas, os demais escalam mais facilmente. Enquanto aguarda no topo, os olhos de Leif percebem uma posição de sentinela no alto.
Assim que Rurik termina de escalar, ele e Bjorn se aproximam para averiguar. Leif fica de longe observando. O jovem então lança um grito de alerta, um sentinela lá do alto os avistou! O homem se apressa em pegar um arco curto, mas os dois vikings conseguem se proteger atrás das pedras evitando as flechas mortais.

Enquanto Bjorn o distrai, Rurik contorna a posição e escala a parede pelo flanco. Um segundo sentinela percebe sua aproximação e ataca com uma lança, o viking consegue se esquivar e responde com a espada que rasga o ventre do guarda. Ele grita e solta a arma caíndo de joelhos. Brodir que já escalou se junta a luta, mas quando ele e Bjorn enfim chegam ao posto de vigília, Rurik já os aguarda. O homem do arco está morto com uma estocada que lhe partiu a clavícula e o mandou para a terra dos mortos tão rápido que a expressão de pânico ainda está estampada na sua cara feia. "O maldito tentou acender uma fogueira! Eu dei um jeito nele!" diz o guerreiro.
O guarda ferido é interrogado, mas fala pouco mesmo com uma faca pressionada no ferimento. "Clulu os devorará! Ele virá para matar todos vocês homens do mar, pois Ele é o senhor dos mares!" Antes de ter sua garganta cortada, o homem grita palavras desconexas para seus deuses negros: "Iä! Iä! Clulu!". Olaf examina o morto e nauseado se afasta, o sujeito tem os dedos dotados de membranas como as asas de um peixe voador. Seus olhos também são estranhamente grandes e a boca larga como de um sapo. Tatuagens ritualístiocas de monstros com tentáculos cobrem seu peito.

O grupo segue para o interior. O terreno é inclemente, pontilhado de charcos e um lamaçal que adere às roupas como se fosse piche. Ossadas de ovelhas mortas podem ser encontradas evidenciando o perigo desse terreno insalubre. Felizmente Bjorn conhece bem o terreno e sabe como evitar os mortais charcos. [A travessia desses charcos foi bem mais emocionante, acreditem em mim!]
Brodir encontra uma trilha deixando o terreno, há rastros recentes. Os guerreiros decidem seguir à margem desse caminho a fim de não chamar a atenção. Alguns minutos depois a trilha os leva por um bosque fechado. Numa clareira eles encontram um estranho monumento com pedras escuras erguidas em um círculo.

Rurik faz o sinal da cruz e comenta que aquelas estruturas são usadas como templo por religiões antigas. "Praga dos infernos, vejam!" ele aponta para o centro dos megálitos de pedra negra.

Ali repousa um grande bloco negro coberto de símbolos e manchas escuras de sangue. O lugar fede como um abatedouro e provoca arrepios que correm as espinhas, mesmo de homens habituados ao ofício da matança. "Queria uma bebida! Lutar sóbrio não é a mesma coisa" diz Olaf secamente coçando a barba.

Deixando o círculo eles voltam para a trilha e seguem um curso de água. Não demora chegam a um lago de água salgada que se estende até onde a vista alcança. Os olhos de Leif avistam uma pequena aldeia na borda do lago.

Cena 6: Rumo a Ilha

Os vikings planejam o que fazer e passam algumas horas observando a aldeia e seus habitantes. Não há muitas pessoas, na sua maioria são mulheres e velhos que podem ser vistos andando entre as cabanas rústicas de pedra. Eles se mantém escondidos entre as turfas e o mato alto.

Faltando algumas horas para o anoitecer, três barcos se aproximam vindos do lago e aportam num pequeno ancoradouro. São dois barcos pequenos e um maior. Duas dúzias de guerreiros armados com lanças e cobertos pelas mesmas tatuagens desembarcam. Eles vão até uma casa e ao sair escoltam alguns prisioneiros para o barco maior. As pessoas parecem apavoradas e obedecem sem questionar.

Em seguida, o barco parte com os guerreiros deixando alguns poucos homens abastecendo os dois barcos menores. Os vikings decidem atacar e avançam pelo lado direito do vilarejo menos guarnecido. O ataque é fulminante, os poucos guardas não tem nenhuma chance. Os homens são passados pelo fio das espadas impedosamente. Leif mata seu primeiro inimigo, um homem baixo com cara de sapo e estômago arrendodado. Sua espada o corta acima da virilha e ele cai segurando as tripas e xingando.

O único levemente ferido é Olaf que teve um corte superficial no braço que Rurik trata com algumas ervas. Os vikings encontram nos sacos turfa, madeira e carvão mineral. Mais importante, eles roubam os dois barcos.

Os vikings remam através do lago coberto por densa neblina que a luz do sol é incapaz de atravessar. Enquanto remam os vikings permanecem atentos para qualquer som fora do comum já que a visibilidade está sensivelmente comprometida.

O barco segue pelo lago coberto de algas de uma coloração esverdaeada doentia, sons curiosos de algo mergulhando se fazem ouvir e apresença de algo na água os deixa atônitos. É então que o barco atinge um banco de areia e eles se vêem presos. Brodir verifica o chão e conclui que as algas se tornaram tão densas que permitem o avanço à pé.

Eles seguem andando e depois de alguns minutos avistam o lugar mencionado por Fionualla, uma ilhota que emergiu das profundezas do lago salgado. É difícil avançar por esse terreno irregular, escorregadio e repleto de poças. Na paisagem bizarra se destacam construções em ruínas de arquitetura inumana. Estátuas de pedra esverdeada mostrando criaturas das profundezas e horrores de eras perdidas. A própria arquitetura do lugar com ângulos impossíveis faz a mente dos vikings girar.

Em meio às algas os vikings encontram um majestoso Drakkar, muito antigo recoberto pela vegetação marinha. Talvez Odda, o Skald pudesse precisar a idade da embarcação, mas os guerreiros apenas podem supor quem o usou.

Mais adiante eles observam uma coluna de fumaça ascendendo para o céu. Seguindo até lá encontram o local onde é realizado o ritual envolvendo a tribo de saqueadores. Trata-se de uma área grande onde se concentram cerca de 100 homens e mulheres envolvidos em uma espécie de orgia frenética e abominável. Alguns batem no corpo, dançam e gritam iluminados por uma grande fogueira. Os pobres aldeões sequestrados em toda a costa aguardam amarrados e vigiados por homens armados com lanças.
Os guerreiros ficam atordoados e mais ainda quando percebem em meio a multidão de cultistas existem figuras bizarras com aparência degenerada que mais parecem batráquios que homens. Olaf perde a respiração por alguns intantes, enquanto Brodir ri sem parar como um louco.

Mais adiante há uma estrutura em ruínas. As colunas marcadas pelo limo das eras suportam um teto semi-destruído guarnecido de escoras de rocha polida entalhada por símbolos. Sem dúvida é templo mencionado pela bruxa o lugar onde o tesouro é mantido. Dois guardas armados com lanças protegem a porta de entrada.

Cena 7: O Templo de Clulu

Os vikings contornam cuidadosamente o templo decrépito. Eles passam facilmente pelos dois guardas que são abatidos rapidamente e arrastados para o interior. Os gritos dos cultistas abafa o ataque.

O templo em escombros possui apenas um grande salão iluminado por tochas presas nas paredes. O chão de pedra e as paredes são adornadas por representações apavorantes de entidades malditas. A iluminação é suficiente para revelar um grupo de sacerdotes vestidos com mantos realizando algum tipo de ritual ao redor de um fosso redondo de profundidade desconhecida. Uma estátua de pedra esverdeada domina o salão, sem dúvida trata-se de uma representação grotesca do demônio Clulu. Um enorme monstro marinho com cabeça de polvo, asas nas costas e corpo de homem. Aos pés da estátua repousam tesouros valiosos e riquezas conforme a bruxa descreveu.

Um sacerdote vestindo um capuz que lhe esconde as feições sacrifica as vítimas cujos corpos são atirados no fosso depois do pescoço ser cortado por uma faca de aspecto sinistro. Uma das vítimas uma jovem mulher resiste ao ataque do sacerdote, ela briga sem parar e arranca o capuz de sua cabeça. Gritos irrompem no salão: a face do sacerdote é a de um monstro mais peixe do que homem. Brodir não suporta a visão e grita, partindo furioso com um berseker para cima dos cultistas. Os outros o seguem com armas nas mãos, olhos faiscando e sede de sangue. Mais monstros do que homens, os sacerdotes removem os capuzes e reagem, mas a maré de ferro dos furiosos guerreiros nórdicos os cobre como uma onda escarlate.

Leif é ferido pela garra afiada de um dos sacerdotes que lhe arranha a garganta. A luta corre sangrenta a medida que outras Crianças das Profundezas se unem a escaramuça. Em meio a luta o sacerdote principal acaba ferido, bradando o nome de Clulu ele se atira no fosso negro.

"Vamos pegar o tesouro e sair daqui!" grita Bjorn e os outros se apressam em pegar o que podem. Mas nisso, do fundo do horrível fosso brota um fedor pior que o de mil tumbas abertas. E em seguida ergue-se uma besta aterradora: o guardião do templo. Rurik investe contra o monstro mas sua pele é resistente como ferro, a espada não consegue ferí-lo. O experiente guerreiro é atirado por um golpe batendo a cabeça na parede e desmaiando.

Bjorn e Leif são igualmente repelidos. Brodir apanha um machado e ataca o monstro, mas a coisa o segura pelas cintura, o ergue e o aperta esmagando cada osso de seu corpo. Um som de folhas secas se faz ouvir quando ele é despejado no chão.
Olaf então se recorda da bruxa lhes disse e invoca o nome de Shub-Niggurath. No mesmo instante o velho viking sente uma horrível ânsia. Algo se move em seu estômago e escala pela sua garganta sendo expelido em uma torrente de vômito. A massa é atirada ao chão e se contorce a medida que cresce em tamanho e se torna um monstro tão tenebroso quanto aquele enfrentado. Olaf desmaia por um instante e Bjorn corre para ajudá-lo, a medida que a coisa se interpõe no caminho da criatura invocada. O choque das duas faz as paredes do templo estremecer.

"Dane-se o tesouro! Corram!" grita Bjorn, enquanto Leif já dispara pelo portão despachando um híbrido com sua espada. Infelizmente outros saqueadores percebendo a comoção dentro do templo barram a saída. Leif é cercado e luta como um leão contra dezenas de inimigos. Uma lança o acerta no flanco e uma adaga corta os tendões de sua perna direita. O rapaz fraqueja e um cultista ergue uma pesada clava. O crânio do jovem é esmagado por um golpe seco.
Olaf e Bjorn - carregando Rurik semi-consciente - retrocedem para o templo. Lá dentro os monstros se agarram em um abraço mortal a medida que se arrastam para a borda do fosso despencando nas trevas. Os cultistas vendo a cena se desesperam e fogem.

Em seguida a ilha inteira estremece como em um colossal terremoto. Prevendo o que está por vir, os vikings correm para a saída a medida que a ilha começa a afundar rumo às profundezas abissas. A fuga é desesperada, Olaf tropeça e cai várias vezes, mas os sobreviventes conseguem chegar ao velho Drakkar tomado pelas algas.

À bordo Olaf e Bjorn se esforçam para cortar todas as algas enquanto a ilha inteira estremece e afunda. Híbridos tentam escalar o lado do navio viking mas Rurik já suficientemente desperto os derruba com um lança longa.

A ilha então desaparece sob a superfície do lago quase virando o drakar. A medida que o sol começa a despontar no horizonte os vikings manobram o drakkar para um rio que os despeja no mar.

Epílogo:

Ainda horrorizados pelo que testemunharam os vikings seguem na direção de sua casa em Hordalung. O que é uma viagem de alguns dias para quem enfrentou um horror ancestral?

Do vasto tesouro eles conseguiram recuperar apenas algumas poucas peças, o suficiente para lhes garantir alguns anos de conforto. Eles jamais esquecerão de seus companheiros mortos e dos momentos de terror experimentados. Mas ao menos eles lutaram para viver e sua luta dramática com certeza lhes garantiu um lugar no Valhalla.

E isso é mais do que muitos guerreiros podem aspirar.