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terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

A Dama Desaparecida - O dia em que Agatha Christie sumiu sem deixar vestígio


Por anos seu nome foi sinônimo de suspense, mistério e assassinato. Por décadas ela foi a Rainha inquestionável dos romances policiais. Seus personagens, detetives e investigadores dedicados a provar a verdade e desvendar os mais intrincados casos, ganharam fama mundial.

Na Idade de Ouro das histórias de mistério, não havia nome mais conhecido do que o de Agatha Christie.

Contudo, nenhum mistério da ficção é tão intrigante quanto o desaparecimento da própria autora ocorrido em 1926. Um caso que permanece sem solução, mas que foi tratado com seriedade e como um acontecimento chocante em todo mundo.

Tudo teve início em uma fria manhã de dezembro quando a celebrada autora, então com 36 anos de idade desapareceu de sua propriedade em Sunningdale, condado de Berkshire. Christie sumiu repentinamente e embora tenha deixado um bilhete avisando que se aumentaria para desfrutar de férias, todos se surpreenderam com a atitude intempestiva. Uma espécie de workaholic, a criadora de Hércules Poirot, Miss Marple e outros personagens eternos, raramente abandonava sua rotina, ainda mais na véspera de concluir um de seus romances.

Se a sua estranha ausência já era uma surpresa, a descoberta de seu automóvel encontrado abandonado numa estrada, tornou tudo aquilo ainda mais complexo. O carro não havia sido simplesmente deixado de lado: a porta aberta, as luzes acesas e a capota baixada, mesmo em um dia chuvoso davam a ideia de que ela havia descartado o veículo.

Para tornar tudo ainda mais dramático, o carro estava numa estrada que levava até uma pedreira abandonada. O local já havia servido como palco para o suicídio de duas mulheres num espaço de seis meses. As duas se lançaram no vazio, vindo à despencar no fundo de um abismo com mais de 40 metros de altura. A preocupação era evidente.

As autoridades revistaram o interior do veiculo e lá estava um casaco de pele que pertencia a autora, sua licença de motorista e uma bolsa arrumada as pressas contendo roupas amassadas. Circulou o boato de que haveria ainda uma pistola de um único tiro, uma Lady Derringer, embalada em uma echarpe, mas tal informação não foi comprovada.


As manchetes na manhã seguinte estampavam a notícia de que Agatha Christie a escritora mais popular do mundo havia desaparecido.

Muitos suspeitaram imediatamente de crime.

As autoridades acreditavam que ela tivesse sido atraída por um criminoso sob falsas alegações, e uma vez levada até um lugar deserto teria sido sequestrada. Uma autora responsável por vários best sellers, sua fortuna pessoal era considerável, e isso poderia justificar o crime. Outros suspeitavam de assassinato, já que não havia sinal dos seus passos.

A maioria, no entanto, temia que a Sra. Christie pudesse ter cometido suicídio. Não era exatamente um segredo que seu casamento com o Coronel Archie Christie não ia bem e que ela dava sinais de depressão. Amigos próximos diziam que ela estava emocionalmente vulnerável considerando o divórcio.

Notícias sobre o desaparecimento de Christie se espalharam rapidamente e uma imensa caçada humana teve início. Mais de 1000 oficiais de polícia e 15 mil voluntários varreram a região enquanto equipes de mergulhadores e escaladores vasculhavam lagos e a pedreira. Até mesmo dois biplanos foram alugados para vasculhar os bosques do ar, a primeira vez que tal recurso foi empregado.

Até mesmo colegas de profissão se envolveram na busca. A autora Dorothy L. Sayers visitou a cena do crime e ofereceu seu auxilio e observações. Sir Arthur Conan Doyle foi outro que se manifestou pedindo um par de luvas que pertenciam a Christie e as entregando a uma médium na esperança de que o mundo espiritual pudesse auxiliar na resolução do mistério.


A medida que os dias passavam sem uma solução, o caso se transformou em uma Obsessão nacional.

Os ingleses estavam profundamente envolvidos em cada aspecto da investigação. O tema chegou a ser discutido no Parlamento e foi objeto de análise da Coroa britânica que chegou a cogitar oferecer uma recompensa por informações sobre sua ilustre súdita.

Alguns acreditavam que a Rainha do Crime estivesse morta. Mas se tal coisa havia acontecido, quem seria o responsável? 

Muitos suspeitavam do marido, o Coronel Archie Christie. O velho militar havia se envolvido em um caso amoroso com uma jovem chamada Nancy Neele, e nao havia feito qualquer tentativa de esconder a relacao de sua esposa. No dia do desaparecimento, o casal havia discutido asperamente e Archie teria dito que passaria o final de semana com sua amante.

Agatha Christie ficaria desaparecida por 11 longos dias. Entao, em 14 de dezembro ela finalmente foi encontrada - nao em uma cova rasa, mas em uma estância hidroterápica em Harrogate. Um músico que também era hóspede a viu e reconheceu seu rosto. Estranhamente, Agatha havia se registrado no spa com o nome Theresa Neele e dado como referência a Cidade do Cabo, na África do Sul. Ela havia tomado emprestado o sobrenome da amante do marido.


A reviravolta terminou chocando o público. Alguns furiosamente creditaram o ocorrido a um golpe de publicidade, sobretudo por conta do romance "O Assassinato de Roger Ackroyd" que estava sendo lançado. Outros resumiam o incidente a uma tentativa bizarra de ensinar ao marido uma lição. 

Mas alguns sugeriam algo mais sinistro - depressão suicida, golpe de seguro ou um esperto esquema para incriminar Archie e sua amante.

A própria Christie falou muito pouco sobre o desaparecimento. Ela se negava a discutir o assunto em entrevistas e o bizarro episódio não aparece em sua autobiografia. 

Para alguns amigos íntimos o episódio seria ainda mais estranho, em especial para uma misteriosa fonte anônima que ofereceu uma história incomum para os tabloides da época. Segundo a sua versão do ocorrido, Agatha Christie não teria apenas se registrado em um Hotel para terapia, mas sim, desaparecido em uma outra realidade - um tipo de dimensão paralela.

A autora teria revelado para essa confidente uma história incrível e surpreendente. Seu interesse ao deixar a casa intempestivamente era realmente se afastar do marido infiel e se esconder do mundo. Ela teria contemplado cometer suicídio, o que a levou a pegar a estrada que levava até a famosa pedreira abandonada. No caminho, segundo ela teria narrado para a confidente, algo estranho aconteceu e ela sentiu uma forte vertigem acompanhada de uma sensação de confusão mental.

Nessas condições, ela teria deixado o automóvel e vagado pelo bosque sem rumo, sendo encontrada por um casal, Leslie e Albert Bunnian que a levaram para casa e prestaram socorros. Após dormir e descansar por quase 48 horas, ela agradeceu ao casal que gentilmente disse que a levaria até Sunningdale onde ela residia. Estranhamente os Bunnian não conheciam a famosa autora, mas o mais estranho viria a seguir. Albert começou a comentar sobre estranhos acontecimentos que não eram inteiramente incomuns, mas que demonstravam pequenas discrepâncias - por exemplo, ele assegurava que a Grande Guerra tinha durado até 1921 e não 1918. Afirmava que o Primeiro Ministro Britânico era outro, que o Império estava enfrentando uma questão delicada na sua colônia da Índia com um sangrenta revolta e que uma nova Guerra, contra a Alemanha, era vista como certa.


Apesar de estranho, o que aconteceu a seguir é que realmente deixou a Sra. Christie em choque: Ao chegar em Sunningdale ela descobriu que a casa onde afirmava residir pertencia a outra pessoa, e que segundo o morador, a propriedade estivera em nome de sua família nos últimos 40 anos. Depois disso, ela ficou hospedada mais alguns dias na Casa dos Bunnian, vindo a encontrar uma série de outras pequenas incongruências no mundo que parecia estranhamente deslocado. O Canadá estava em um processo de separação do Reino Unido, a Itália havia lançado uma ofensiva bem sucedida contra o norte da África e a Liga das Nações havia criado uma delegação para tratar de conflitos em larga escala. Além disso, uma linha de aviões fazia o transporte ligando Europa e América (algo que não aconteceria até 1935), um explorador do qual ela jamais ouvira falar conquistava a Antártida e estranhas descobertas arqueológicas eram realizadas no Egito (algo que só começaria em 1930).

De forma muito curiosa, o mundo que surgia diante dos olhos de Agatha Christie não era exatamente o mundo que ela conhecia. Era como se ele fosse muito parecido, mas alguns pequenos detalhes tornavam tudo diferente, sobretudo no que dizia respeito a datas e figuras históricas. Nesse mundo alternativo, Agatha Christie jamais havia escrito um livro sequer e seu marido não vivia na Inglaterra, e sim numa colônia do Oriente Médio.

Agatha ficou na companhia dos Bunnian por alguns dias, lendo jornais, livros e enciclopédias que traziam notícias e informações estranhas que não se encaixavam na história que ela conhecia. Finalmente, certa manhã ela se recorda de ter despertado no Hotel Hidroterápico, como hóspede registrada lá sob nome falso.

A estranha narrativa, publicada em um jornal em maio de 1926 recebeu pouca importância. O público que havia passado dias grudados em boletins de rádio e jornais, à espera de notícias sobre o paradeiro de Agatha Christie perdeu momentaneamente o interesse por ela. Demorou até ela reconquistar seu prestígio como grande escritora que era. Algumas pessoas se perguntaram quem seria o estranho casal que deu a ela guarida por alguns dias, mas ninguém jamais soube ao certo quem eram e mesmo se eles existiam.


Curiosamente, Agatha Christie apenas aceitou falar sobre seu curioso desparecimento em uma entrevista prestada em 1959. Ela mencionou um misterioso estado de sonho consciente, ou transe, do qual se recordava muito pouco. Posteriormente ela assumiu uma identidade totalmente nova: "Durante 48 horas eu vaguei em um estado de sonho, e então me encontrei em Harrogate como uma mulher feliz que acreditava ter acabado de chegar da África do Sul."

Sobre os boatos envolvendo sua experiência dimensional, ela não quis tecer comentários, e apenas reconheceu que lembrava bem pouco do que havia ocorrido nos onze dias nos quais esteve desaparecida.

O que podemos tirar dessa confusa história? O que teria acontecido com uma das mulheres mais famosas de seu tempo? Ela teria cogitado suicídio? Seu estado de confusão mental teriam criado um tipo de lapso de memória? E o que dizer de sua alegada história confidenciada para uma amiga que permaneceu anônima? Haveria algum fundo de verdade na teoria sobre sua viagem para outra realidade? Ou tudo não passou de um colapso?

O Caso do Desaparecimento da Dama do Mistério permanece como uma curiosidade de outra época e uma estranha narrativa da qual, a verdade provavelmente jamais saberemos.

domingo, 20 de março de 2022

USS Cyclops - Um dos mais Misteriosos Desaparecimentos de Navios na História


Com quase 168 metros de comprimento, o USS Cyclops era um dos maiores navios do arsenal da Marinha dos EUA em março de 1918. Com apenas oito anos de serviço, o Cyclops era um verdadeiro titã naval, batizado em homenagem aos lendários gigantes da mitologia grega, os ciclopes. Seu nome era bastante adequado, mas não se referia apenas ao tamanho. Ele impressionava pela capacidade de carga, velocidade, aparelhamento moderno e potência dos motores. Tudo nele era colossal.

Não por acaso, os jornais o definiam como uma cidade mineradora flutuante, tamanha a quantidade de carvão que ele era capaz de transportar em seus vastos compartimentos de carga - algo em torno de 13 mil toneladas. A função principal do Cyclops não era apenas transporte, mas abastecimento. Em uma época em que os navios navegavam queimando toneladas de carvão, ter um navio de abastecimento num comboio era essencial em termos de logística. Isso fornecia um trunfo decisivo para a Marinha Norte-Americana ir onde bem entendesse.

Na sua última viagem oficial, o Cyclops partiu do gélido Porto de Norfolk, em Maryland com destino ao Brasil, onde deveria apanhar uma carga de 11 mil toneladas de manganês. Era uma das maiores vendas de minério da história do Brasil e os americanos precisavam urgentemente dela para a Guerra na Europa na qual eles haviam entrado recentemente. A carga seria usada para a produção prioritária de armas e equipamento.

O navio, com uma tripulação de 300 almas seguiu para o porto do Rio de Janeiro para abastecimento e a primeira parte da viagem transcorreu sem maiores problemas. O Cyclops e sua tripulação não eram estranhos ao mar. Tendo estado em operação frequente desde 1910, o enorme navio de transporte era um visitante regular de portos no México e do Caribe, sendo frequentemente utilizado no transporte de carvão para vários locais. Ele também havia ido recentemente até a Inglaterra onde deixara tropas, suprimentos e armas.


No retorno, o experiente Comandante George Worley enviou uma mensagem logo depois de deixar o Porto de Barbados. Ele havia feito uma parada para corrigir alguns pequenos problemas no navio, mas deixou claro que não havia motivos para preocupação. Em seguida, o Cyclops seguiria para concluir o trajeto de retorno até Baltimore. "Tempo bom, tudo bem" transmitiu através do rádio se referindo aos mares tranquilos que esperava adiante. Ninguém poderia imaginar que aquela seria a sua última mensagem. Ao longo dos nove dias que se seguiram, o prazo estimado de chegada, o Cyclops simplesmente não fez mais nenhum contato e em algum ponto desapareceu nas águas do Atlântico.

Parece razoável assumir que algo deu terrivelmente errado durante a travessia. Algo que até hoje é motivo de debate, conjecturas e questionamento. Quaisquer que sejam os eventos que levaram ao desaparecimento do navio, aconteceu tão rapidamente que não houve tempo de enviar um sinal de socorro, baixar um barco salva-vidas ou fazer qualquer indicação de que a carga e os tripulantes estavam em perigo. 

O Cyclops desapareceu dos mares que singrava e se tornou um dos maiores enigmas náuticos da história.

Geralmente, um balde de madeira ou um colete salva-vidas de cortiça identificado como pertencente a um navio perdido é recolhido após um naufrágio, mas não foi o que aconteceu com o Cyclops. Nada, absolutamente nada transpareceu!


À princípio, boatos alertaram de que o navio havia sido avistado navegando à esmo na Costa de Virginia, mas os barcos de busca que patrulharam a área não encontraram nada. Também foram mencionados avistamentos de uma embarcação de grande porte navegando à deriva pelo norte das Bermudas, mas estes também não foram confirmados. Até mesmo aviões de reconhecimento, uma tecnologia recente, foram empregados na tentativa de desvendar o mistério. Nenhum resultado foi obtido.

O mistério de seu desaparecimento permanece sem solução mais de um século depois. O que poderia ter acontecido com o Cyclops durante sua fatídica viagem de retorno a Baltimore?

À medida que pesquisadores históricos e investigadores amadores sondaram o mistério exaustivamente durante as décadas seguintes, as menções sobre o lendário Triângulo das Bermudas se tornaram irresistíveis. O lugar, afinal constitui um dispositivo conveniente para defensores do paranormal e toda sorte de mistérios. De uma coisa os céticos não podiam se desviar, o Cyclops estava navegando justamente através do Triângulo no momento em que desapareceu sem deixar vestígios.


Algumas sugestões sobre o que teria acontecido causaram controvérsia, entre as quais, a formação de um imenso redemoinho ou vórtex que teria causado o naufrágio do navio, levando-o para as profundezas em poucos minutos. Também se cogitava a possibilidade de um submarino alemão ter realizado um ataque surpresa, embora não fosse provável haver u-boats tão distantes naquela altura da guerra. Poderia também a embarcação ter se chocado com uma mina submarina. Outros diziam que uma forte tempestade como as que se formavam repentinamente no Mar do Caribe poderia ser responsável por virar o Cyclops. 

Teorias mais plausíveis sobre o destino do navio incluíam a ideia de que o Cyclops possuía um problema estrutural que se acentuou quando a carga de 11 mil toneladas foi embarcada. Essa teoria até ganhou corpo quando as autoridades portuárias de Barbados confirmaram que o cargueiro recebeu reparos emergenciais e que se cogitou desembarcar parte de sua carga de manganês por uma questão de segurança. O Comandante, no entanto, não aceitou o conselho de fazê-lo e decidiu seguir em frente - ele sabia da necessidade premente de entregar a carga. 

Outros mencionaram o boato de que Barbados estava cheia de espiões e sabotadores. Um agente inimigo poderia ter se infiltrado à bordo e causado uma explosão em alto mar usando para isso algum dispositivo temporizador. Ambas possibilidades podiam de fato explicar o desaparecimento, mas não eram suficientes para explicar como nenhum destroço havia sobrevivido. Um navio das dimensões do Cyclops não vai simplesmente para as profundezas sem deixar alguma pista.

Com o passar do tempo, alguns olharam além do horizonte em direção a outras possibilidades. Em vez de ação inimiga – uma teoria para a qual há tão pouca evidência quanto há para o paradeiro do próprio Cyclops – alguns pesquisadores propuseram que o Capitão do navio, George Worley, poderia ter sido o culpado pelo desaparecimento. Teorias envolvendo tudo, desde o gosto de Worley por bebidas fortes, até relatos de motim a bordo do navio, levaram a investigações da Marinha. Eles também se concentraram nos meses que antecederam ao desaparecimento do navio buscando algum indício de um agente externo sabotador. 


Apuraram que Worley mantinha uma relação conflituosa com sua tripulação e que alguns chegaram a denunciá-lo como pró-alemão. Realmente, Worley embora tivesse cidadania americana havia nascido na Alemanha e mudado seu nome pouco antes do início da guerra. Alguns se recordavam dele dizer que "os motivos para a guerra eram justos para a Alemanha e que ele esperava que seu país natal vencesse o conflito'. É claro, sua opinião provavelmente mudou quando os Estados Unidos entraram no conflito, mas muitos estavam dispostos a contar o que ouviram o Capitão falando anos antes. 

Outro detalhe apurado dava conta de que o Cônsul Especial da Embaixada Americana no Rio de Janeiro embarcou repentinamente no Cyclops. O homem chamado Moreau Gottschalk, era obviamente descendente de alemães e também mantinha uma indisfarçável simpatia pela causa germânica, tendo chegado a participar de atos favoráveis ao país no Brasil. Os motivos para seu embarque não ficaram claros, mas alguns amigos próximos garantiram que ele sofria de depressão e que havia mencionado repetidas vezes que o envolvimento da América na Guerra era um erro. 

Poderia um deles ou ambos terem conspirados para afundar o Cyclops e causar um revés ao esforço de guerra norte-americano? E se foi isso, estariam dispostos a morrer por essa causa? Nenhum dos dois sobreviveu para contar a história.

Apesar de todas as suspeitas, a investigação da Marinha inocentou Worley e Gottschalk das acusações e não encontrou motivos para suspeitar que eles tenham agido sozinhos ou em conluio para destruir o navio e sua valiosa carga. Realmente, os investigadores apuraram que o cônsul no Rio havia se desligado da missão com o intuito de se alistar, seguir para a Europa e lutar pelo seu país.


Apesar da limpeza do nome de Worley, os investigadores acharam as circunstâncias do desaparecimento do Ciclope não menos preocupantes, com a Marinha emitindo uma declaração oficial que chamou o incidente de "um dos mistérios mais desconcertantes dos anais da Marinha". O mesmo documento acrescentava que "todas as tentativas de localizar a embarcação falharam". Um dos investigadores responsáveis chegou a apresentar um estudo que se amparava no curso de águas e marés para demonstrar que ao menos alguns destroços deveriam surgir em determinada região. Nada foi achado e ele cunhou a frase: "não há como explicar o inexplicável sem dados suficientes".

Uma teoria proposta por Marvin Barrash, descendente de um dos homens que presumivelmente afundou com o navio, acredita que um evento conhecido como Tempestade Perfeita poderia ter causado o naufrágio. Este incidente não se refere a um evento climático, mas uma combinação de elementos que sozinhos não seriam capazes de causar o desfecho, mas que combinados teriam êxito. Portanto, uma sequência de elementos: do carregamento superpesado de magnésio no navio, combinado com falhas estruturais e algum elemento exterior, como uma tempestade inesperada, provavelmente teriam causado o desastre. Como o Cyclops navegava nas proximidades da Fossa de Porto Rico, provavelmente teria naufragado em águas profundas. Lá ele supostamente permanece escondido até hoje, numa sepultura marinha inacessível.

Mas será que foi apenas isso? Um acidente trágico, raro, mas convencional? Não haveria algum elemento adicional relacionado de alguma maneira? Algo, digamos, sobrenatural?

Anos mais tarde, as teorias à respeito da região conhecida como Triângulo das Bermudas trariam novas teorias para o desaparecimento. Teorias sobre abdução alienígena, uma bolha de energia submarina, portais dimensionais, deslocamento temporal, contato com formas de vida submarinas... todo tipo de teoria ganhou força, amparadas pela quantidade assombrosa de incidentes inexplicáveis ocorridos nessa área em particular. 


De fato, desde o início das viagens marinhas por essa região, desaparecimentos e casos estranhos se multiplicam nos relatos de navegadores. Com o tempo, e a proliferação de rotas cortando o Triângulo, mais e mais casos aconteceram, fazendo com que essa área geográfica ganhasse fama internacional.

Os relatos conflitantes sobre o suposto avistamento do Cyclops também foram responsáveis por um elemento adicional de mistério paranormal. Navegadores e tripulações inteiras juraram ter visto uma embarcação de grande porte aparentemente sem destino no Triângulo das Bermudas. Mas sempre que o navio era perseguido ou dele se aproximavam, um estranho fenômeno climático, parecido com um nevoeiro parecia cercá-lo e sumir com ele. Em um dos casos mais emblemáticos, um navio com bandeira panamenha teria se aproximado o bastante do Cyclops para ler o seu nome no costado. teriam tentado se aproximar ainda mais, mas de um momento para o outro o navio simplesmente desapareceu como se fosse uma visão fantasmagórica.

Poderia o Cyclops ter sido transportado para outra realidade, outro plano ou mesmo, outra dimensão da qual emerge, apenas como um vislumbre fugaz? E se tal coisa for verdade, como aconteceu e qual o destino da tripulação? Alguns teóricos conspiratórios afirmam que o incidente com o Cyclops seria um exemplo notável de deslocamento espaço-temporal, fenômeno que o governo americano passou a estudar dali em diante e sobre o qual possui extenso material.


E é claro, existem os que afirmam ter sido o Cyclops abduzido por alguma raça extraterrestre ou veículo espacial que o transportou para outro lugar. O filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau, mostra o Cyclops sendo encontrado no Deserto de Gobi, na Mongólia, transportado, sabe-se lá de que maneira. O filme explica o ocorrido através da ótica extraterrestre.

No fim das contas, sejam lá quais forem as circunstâncias que fizeram o navio sumir junto com seus 300 tripulantes, tornou-se parte da história. Ele é considerada a maior perda de vidas na história naval dos EUA, sem uma solução oficial. 

O Cyclops é um marco do mistério marítimo e aparentemente fadado a continuar dessa maneira pela eternidade, ou até que alguém o encontre nas profundezas. 

Adendo:

Como curiosidade, encontrei alguns recortes de jornais da época, publicados em jornais do Brasil sobre o mistério do Cyclops. Eles são bem interessantes pois mostram a confusão entre as pessoas que não entendiam como um navio das dimensões do cargueiro poderia desaparecer daquela forma.





quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Albert Fish - O Homem Cinzento (conclusão)


"Independentemente do termo que possa ser usado para definir as fronteiras médicas e legais da insanidade, o caso do Sr. Fishestá muito além dessa fronteira. "

Frederick Werthan -
Médico Psiquiatra 

ATENÇÃO: O texto à seguir contém descrições chocantes, portanto, recomenda-se discernimento.

                                 *     *     *

A confissão de Albert Fish seria ouvida por muitos policiais e psiquiatras ao longo das semanas seguintes. Muitos deles sairiam da sala, horrorizados pelas suas descrições vívidas e pelas reminiscências repletas de sadismo. Sabe-se que pelo menos um estenógrafo deixou o aposento para vomitar e que um policial agarrou o velho decidido a estrangulá-lo ali mesmo.


Fish por sua vez estava feliz em contar os detalhes mais mórbidos como se fossem façanhas invejáveis. Ele estava satisfeito por receber toda atenção de homens estudados e melhores que ele, pela primeira vez em sua desprezível existência.

Uma versão de sua confissão, devidamente editada, foi publicada nos jornais que alardeavam a prisão do "Vampiro do Brooklyn", também chamado de o "Monstro de Nova York". A população da cidade estava horrorizada que tal criatura pudesse realmente existir.

O longo depoimento prestado na Delegacia para embasbacados policiais era uma verdadeira odisseia de perversão e depravação. Tudo aquilo parecia inacreditável, até que detalhes começaram a ser corroborados mediante investigação. Tudo era ainda mais surpreendente considerando como Fish parecia um idoso decrépito e inofensivo. Ele era um velho encarquilhado de aparência frágil, com cerca de 60 quilos e apenas 1,50 m de altura. Nada nele depunha à respeito do caráter selvagem de seus crimes e os detetives se perguntavam se ele não seria simplesmente um louco querendo aparecer. Mas não... infelizmente, tudo o que o velho dizia podia ser provado e confirmado.
 
O detetive King foi o responsável pela confissão inicial. Fish disse-lhe que no verão de 1928 ele foi dominado pelo que chamou de uma insuportável "sede de sangue" - uma necessidade patológica de matar. Quando ele respondeu ao anúncio de emprego de Edward Budd, era o jovem, não sua irmã Gracie, que ele pretendia atrair até um local remoto para cortar seu pênis, deixando-o sangrar até a morte.

Logo depois de deixar a casa dos Budd pela primeira vez, Fish comprou as ferramentas de que precisaria para matar e mutilar os meninos: um cutelo, uma serra e uma faca de açougueiro. Ele embrulhou esses objetos em um pacote que deixou em uma banca de jornal antes de ir para a casa da família pela segunda e última vez. Quando Fish viu o jovem e robusto Edward, do tamanho de um homem adulto, e seu amigo Willie, ele se convenceu de correria risco em tentar dominar os dois ao mesmo tempo.

Foi só depois de ver Gracie que ele mudou de ideia e de planos. Era ela que ele queria matar desesperadamente agora. Conforme havia escrito na carta, ele sabia que precisava devorá-la, à qualquer custo.

Quando conseguiu convencer os pais da menina a deixá-la acompanhá-lo, ele saiu com a convicção de matá-la. Fish parou na banca de jornais para pegar seu pacote antes de pegar um trem que os levou até o Bronx e depois para o vilarejo de Worthington em Westchester. Para Grace, ele comprou uma passagem só de ida. O velho descreveu como Gracie ficou encantada com a viagem de quarenta minutos até o campo. Apenas duas vezes em sua vida ela estivera fora da cidade. Na estação de Worthington, Fish estava tão absorto em seu plano monstruoso que deixou o pacote de ferramentas no trem. Ironicamente, Gracie percebeu e o lembrou de trazer o pacote.

Eles caminharam por uma estrada remota até chegarem a um prédio abandonado de dois andares chamado Wisteria Cottage no meio de uma área bonita e arborizada. Enquanto Grace se divertia do lado de fora com as várias flores silvestres, Fish foi até o quarto do segundo andar, abriu seu pacote de ferramentas e tirou as roupas em preparação para o que viria à seguir.

Então ele chamou Gracie para subir.

Com as flores silvestres que ela juntou arrumadas em um buquê, Gracie entrou na casa e subiu para o quarto seguindo a voz do velho. Ao ver o homem nu, gritou pela mãe e tentou fugir. Mas Fish a agarrou pela garganta e a sufocou até a morte. Ele estava sexualmente excitado pelo ato de estrangulá-la, tanto que chegou a ejacular ao apertar seu pescoço.

Ele apoiou a cabeça dela em uma velha lata de tinta e a decapitou com o facão, lembrando de recolher a maior parte do sangue da lata. Depois, ele jogou o balde no quintal. Ele despiu a criança sem cabeça e a cortou em dois com a faca de açougueiro e o cutelo. As partes do corpo de sua escolha ele levou embrulhadas em jornal. O resto ele deixou lá para que voltasse dias depois, quando jogou tudo nos fundos e cobriu com pedras soltas e terra. Ele se desfez de suas ferramentas da mesma maneira. 

Após sua confissão, o detetive King fez uma pergunta final: "o que o levou a fazer essa coisa horrível?"

"Você sabe", respondeu Fish pensativo. "Eu nunca consegui explicar isso."

O capitão John Stein perguntou-lhe por que ele havia escrito a carta aos Budd e Fish respondeu que também não sabia por quê: "Eu tenho essa mania de escrever."

Naquele dia, a polícia foi ao Chalé Wisteria e recuperou os restos mortais de Gracie. Albert Fish estava por perto, completamente sem emoção ao testemunhar a cena.

Fish foi interrogado pelo promotor público assistente Francis Marro e quando ele perguntou a Fish por que havia assassinado Gracie, ele explicou que "uma espécie de sede de sangue o dominara. Depois ele disse ter sido tomado por grande tristeza. "Eu teria dado minha vida meia hora depois de fazer o que fiz, para devolvê-la à vida."

Marro perguntou se ele havia estuprado Gracie e Fish foi inflexível: "Isso nunca passou pela minha cabeça." Nada foi perguntado na ocasião sobre o alegado canibalismo mencionado na carta de Fish aos Budd. A polícia considerava aquilo muito insano para ser verdade. Ou, talvez, eles já estivessem pensando que incluir detalhes horríveis sobre o canibalismo reforçaria o inevitável caso de defesa por insanidade.

Naquela noite, a captura de Albert Fish vazou para os jornais e repórteres apareceram no apartamento dos Budd com a notícia. Pouco depois, o detetive King levou o Sr. Budd e seu filho Edward à delegacia para identificar Fish.

Edward fez mais do que identificar Fish. Ele se jogou sobre o velho. "Seu bastardo! Filho da puta sujo!" disse tentando socá-lo.

O Sr. Budd ficou surpreso com a falta de emoção de Fish. "Você não me conhece?" ele perguntou ao velho.

"Sim," Fish respondeu educadamente. "Você é o Sr. Budd."

"E você é o homem que veio à minha casa como hóspede e levou minha garotinha embora", disse ele em lágrimas.

Albert Fish, como era de se esperar, era bem conhecido pela polícia. Seu histórico remontava a 1903, quando foi preso por furto. Desde então, ele havia sido preso seis vezes por vários crimes menores, como o envio de cartas obscenas e pequenos furtos. Nada muito sério. Metade dessas prisões ocorreu na época do sequestro de Gracie. Todas as vezes, as acusações foram retiradas por ele ser velho e ninguém considerar correto mandá-lo para a prisão. Ele também havia estado em instituições mentais mais de uma vez.

Quando questionado sobre sua formação, Fish disse: "Nasci em 19 de maio de 1870, em Washington, DC. Meu pai era o capitão Randall Fish, maçom de 32º grau, e ele está enterrado no terreno da Grande Loja do cemitério do Congresso. Ele era um capitão de barco do Rio Potomac, indo de DC a Marshall Hall, Virgínia", contou sem esconder uma ponta de orgulho.

"Meu pai caiu morto em 15 de outubro de 1875, na velha estação da Pensilvânia, onde o presidente Garfield foi baleado, e fui colocado no Orfanato St. John em Washington. Fiquei lá até quase nove anos e foi aí que tudo começou a dar errado. Eu era açoitado sem misericórdia. Vi meninos fazendo muitas coisas que não deveriam ter feito. Cantei no coro de 1880 a 1884 - soprano, no St. John's. Vim para Nova York. Eu era um bom pintor de interiores.

"Eu comprei um apartamento e trouxe minha mãe de Washington. Nós morávamos na Rua 76 West com a 101 e foi lá que conheci minha esposa. Depois que nossos seis filhos nasceram, ela me deixou. Ela pegou todos os móveis e nem mesmo deixou um colchão para as crianças dormirem.

"Ainda estou preocupado com meus filhos", ele fungou. Os seis filhos tinham de 21 a 35 anos. "Eu achei que eles viriam visitar o velho pai na prisão, mas não vieram."

Albert Fish enfrentava acusações em Manhattan e no condado de Westchester. Este o indiciou por assassinato em primeiro grau, enquanto Manhattan preparava uma acusação de sequestro.

Enquanto isso, a polícia prosseguia investigando a vida do velho em busca de novas pistas. O motorista da linha de bonde do Brooklyn viu uma foto de Fish no jornal e se adiantou para identificá-lo como o velho nervoso que viu em 11 de fevereiro de 1927, que tentava acalmar um garotinho sentado com ele no bonde. Joseph Meehan, o motorista aposentado, observava os dois com atenção. O menino, que não tinha paletó nem casaco, chorava continuamente pela mãe e precisava ser arrastado pelo velho para dentro e para fora do carrinho. O velho disse que o menino era seu neto, Billy. O garotinho, no fim das contas, era Billy Gaffney que havia sido raptado pelo "Bicho Papão".

Quando confrontado com esse crime, Fish apenas acenou com a cabeça reconhecendo a culpa: "Sim, sim, o menininho", disse dando início a confissão sobre os atos indescritíveis que sujeitou o pequeno Billy Gaffney: "Eu o trouxe para os lixões da Riker Ave. Há uma casa que fica isolada, eu o levei lá, onde ninguém ouviria nada". 

Fish contou como despiu e amarrou as mãos e pés do menino, amordaçando-o com um pedaço de pano sujo que tirou do lixo. Então queimou suas roupas. Em seguida, voltou e pegou o bonde para 59 St. às 2 da manhã. e caminhou de lá até em casa. "estava pensando no que faria".

No dia seguinte, por volta das 14 horas, pegou suas ferramentas e foi até a casa determinado a dar cabo do menino. Uma de suas "ferramentas" era um velho cinto de couro curtido que ele transformou num chicote de nove pontas. Fish bateu no menino até ele perder os sentidos. Depois mutilou sua face com uma faca que levava consigo. Ele morreu depois de um tempo. Em meio ao frenesi, ele ainda mordeu e bebeu o sangue da criança.

"Então eu o cortei para aproveitar as partes mais macias e tenras", disse sem manifestar qualquer emoção. Quando ficou satisfeito com os pedaços que havia escolhido, jogou o restante em quatro sacos de cheios de pedra no rio Hudson. Fish contou que preparou as partes do corpo no fogão de sua casa, comendo por cinco dias um ensopado temperado com cebola, cenoura, nabo, aipo, sal e pimenta. "Estava delicioso", concluiu por fim.

Dias depois, um homem de Staten Island se apresentou para identificar Fish como o homem que tentou atrair sua filha de oito anos para a floresta não muito longe de onde Francis O'Donnell foi assassinado três dias depois, em 1924. A garota, no final da adolescência, o viu em sua cela e o reconheceu. 

Fish era o Homem Cinzento, assim descrito naquela época. O velho também foi relacionado a um assassinato em 1932 de uma garota de quinze anos chamada Mary O'Connor em Far Rockaway. O corpo mutilado da garota foi encontrado em uma floresta perto de uma casa que Fish estava pintando.

Com todas essas acusações em diferentes condados. Havia muito pouca chance de Albert Fish ser absolvido pelos crimes que cometeu. Sua única oportunidade de evitar a pena de morte era fazer com que os alienistas ou psiquiatras forenses o declarassem louco e portanto inimputável.

O Dr. Fredric Wertham em seu livro The Show of Violence descreve seu primeiro encontro com o maníaco Albert Fish em sua cela. Ele ficou chocado ao ver como Fish era "manso, gentil, benevolente e educado". "Se você quisesse alguém a quem confiar seus filhos, ele seria aquele que você escolheria."

A atitude de Fish em relação à sua situação era de total distanciamento. "Não tenho nenhum desejo particular de viver. Não tenho nenhum desejo particular de ser morto. É uma questão indiferente para mim. Não acho que esteja totalmente certo."

A psicose parecia ter se instalado no seio da família de Fish pelo que o Dr. Wertham pode averiguar: "Um tio paterno sofria de psicose religiosa e morreu confinado num hospital estadual. Um meio-irmão também morreu institucionalizado. Um irmão mais novo era débil e morreu de hidrocefalia. Sua mãe era considerada "muito esquisita" e dizia-se que ouvia e via coisas. Uma tia paterna era considerada "completamente louca". Um irmão sofria de alcoolismo crônico. Uma irmã tinha algum tipo de 'aflição mental.

Ele alegou que seu nome verdadeiro era Hamilton Fish, em homenagem a um parente distante que era secretário de Estado do presidente Grant. Cansado de ser provocado por esse nome, ele preferiu o nome de Albert e passou a usá-lo por conta própria. Quando tinha vinte e seis anos, ele se casou com uma jovem de dezenove e com ela teve seis filhos. Quando a criança mais nova tinha três anos, a mãe fugiu com outro homem, deixando Fish para criar os filhos. Posteriormente, ele "casou" três outras vezes, embora não fossem matrimônios legais, uma vez que ele nunca se divorciou da primeira esposa.

O Dr. Wertham considerou a perversidade sem paralelo de Fish única nos anais da literatura psiquiátrica e criminal. "O sadomasoquismo dirigido contra as crianças, principalmente os meninos, assumiu a frente de seu desenvolvimento sexualmente regressivo."

Fish disse-lhe: "Sempre tive o desejo de infligir dor aos outros e de que os outros me infligissem. Sempre gostei de tudo o que doía."

Wertham contou que "experiências sádicas de todos os tipos imagináveis ​​foram praticadas por ele, ativa e passivamente. Fish sentia um desejo crônico de causar e de sentir dor. Muitas das coisas medonhas que ele fez com suas vítimas, foram feitas com ele, com seu consentimento".

Fish confidenciou ao Dr. Wertham sua longa história como predador sexual de crianças, "pelo menos cem", disse ele ao contabilizar suas vítimas infantis. Fish as atraía com dinheiro ou doces. Ele geralmente escolhia crianças negras porque acreditava que a polícia não prestava muita atenção quando elas estavam feridas ou desaparecidas. Depois de atacar, ele evitava retornar ao local. Com isso, viveu em pelo menos 23 estados e em cada um matou pelo menos uma criança. Às vezes, ele perdia o emprego como pintor porque sua presença levantava suspeitava de que estava ligado a crianças desaparecidas. Ele era visto conversando com elas ou espiando de longe.

O maníaco tinha uma compulsão para escrever cartas obscenas e o fazia com frequência. De acordo com o Dr. Wertham, não eram as cartas obscenas típicas baseadas em fantasias e devaneios para fornecer uma emoção fugaz. Eram tentativas de descobrir pessoas com inclinações sadomasoquistas".

Inicialmente, o psiquiatra teve dúvidas sobre se Fish estava mentindo para ele, especialmente quando disse ao psiquiatra que havia enfiado agulhas em seu corpo durante anos na área entre o reto e no escroto: "No início, disse ele, só enfiara essas agulhas e as puxava de novo. Depois enfiara outras tão fundo que não conseguia tirá-las, e elas ficavam lá." O médico fez um raio-X e descobriu pelo menos 29 agulhas instaladas na região pélvica.

Por volta dos 55 anos, Fish começou a ter alucinações e delírios cada vez mais frequentes. "Ele teve visões de Cristo e começou a se envolver em especulações religiosas sobre como purificar os pecados. A maneira mais lógica, aos seus olhos, era através do sofrimento físico e autotortura. Ele misturava citações da Bíblia com trechos que afirmava terem sido reveladas a ele em visões. Teria dito: "Feliz aquele que pega os pequeninos e bate suas cabeças contra as pedras." Fish acreditava que Deus havia ordenado que ele castrasse meninos, coisa que havia feito várias vezes.

Wertham ficou surpreso quando Fish descreveu o horrível canibalismo do corpo de Billy Gaffney. "Seu estado de espírito enquanto descrevia essas coisas nos mínimos detalhes era uma mistura peculiar. Ele falava de maneira prática, como uma dona de casa descrevendo seus métodos favoritos de cozinhar. Mas às vezes sua voz e expressão facial indicava uma espécie de satisfação e emoção". 

Que Fish sofria de alguma psicose religiosa era indiscutível. Os filhos de Fish o viram "se ferindo com um remo cravejado de pregos até ficar coberto de sangue. Eles também o viram sozinho em uma colina com as mãos levantadas, gritando: "Eu sou o Cristo".

O Dr. Wertham, nomeado como alienista da defesa, acreditava que Fish era totalmente insano: "Eu caracterizei sua personalidade como introvertida e extremamente infantil. Descrevi sua constituição mental anormal e sua doença mental, que diagnostiquei como psicose paranoica. Fish sofria de delírios e particularmente estava tão confuso sobre as questões de punição, pecado, expiação, religião, tortura, autopunição, que não via a si mesmo como um pervertido. Ele achava realmente estar à serviço de um poder superior. 

Wertham acreditava que Fish teria matado pelo menos quinze crianças e mutilado cerca de cem outras. Dois outros alienistas testemunharam que Fish era clinicamente insano. No entanto, os quatro alienistas chamados pela promotoria eram de opinião contrária, diziam que Fish era são no momento dos crimes. Um desses alienistas da promotoria era o chefe do hospital psiquiátrico onde Fish fora destacado para observação alguns anos antes, onde havia sido considerado "inofensivo e são".

O julgamento de Albert Fish pelo assassinato premeditado de Gracie Budd começou na segunda-feira, 11 de março de 1935. A Defesa atacou a competência dos alienistas do Hospital Bellevue que observaram Fish em 1930 e o declararam são. Ele também planejou estabelecer que Fish estava sofrendo de "envenenamento de chumbo", uma demência sofrida por pintores de paredes que provoca alucinações.

A principal estratégia da Promotoria foi resumida no início do julgamento: "A prova, resumidamente, será que este réu é legalmente são e que ele conhece a diferença entre certo e errado e a natureza dos seus atos. Ele não é mentalmente defeituoso, possui uma memória maravilhosa para um homem de sua idade, tem orientação completa do que acontece a seu redor, Não possui deterioração mental de qualquer tipo. Ele é sexualmente anormal, conhecido clinicamente como um pervertido sexual e psicopata sexual. Seus atos são anormais, mas quando ele raptou e matou uma menininha, ele sabia que era errado fazer isso, e por isso, deve responder por seus atos . "

O advogado de defesa se concentrou na vida bizarra de Fish e na autoflagelação com remos e agulhas. Em seguida, ele mencionou a competência de Fish como pai e seu amor pelos filhos: "Apesar de todas essas tendências brutais, criminosas e perversas, há um outro lado desse réu. Ele foi um pai muito bom e nunca fez qualquer mal aos seus filhos. Ele encerrou seus comentários lembrando ao júri que cabia à promotoria provar que um homem que matava e comia crianças era são.

No terceiro dia do julgamento, apesar das extenuantes objeções do advogado de defesa, uma caixa com os restos mortais de Grace Budd foi trazida para o tribunal como prova, enquanto o detetive King recriava a partir da confissão de Fish como a garota foi morta. Então o Promotor enfiou a mão na caixa e estendeu o pequeno crânio da garota morta para o júri. Foi um momento absurdamente bizarro.
 
A Defesa colocou vários filhos de Fish no banco para testemunhar seu comportamento bizarro, mencionando a autoflagelação e suas ilusões religiosas. Eles também testemunharam que ele era um bom pai que sempre cuidou deles e nunca os maltratou fisicamente. Também foram lidas várias das cartas obscenas escritas pelo réu, o que fez algumas pessoas desmaiarem e o Juiz ordenar o esvaziamento do tribunal.

O julgamento durou dez dias, mas o júri levou menos de uma hora para chegar ao veredicto de culpado. Posteriormente alguns jurados disseram que Fish provavelmente era louco, mas que seus crimes eram tão medonhos que ele merecia morrer de qualquer maneira. 

O condenado não gostou do veredicto, mas não chegou a protestar formalmente e disse que não iria sequer recorrer da sentença que lhe foi atribuída. Aparentemente, a perspectiva de morrer na cadeira elétrica o atraía e fazia seus olhos faiscarem em antecipação. Ao fim do julgamento, ele se manifestou, agradecendo ao Juiz, Promotor e ao Júri por colocar um fim na sua existência lamentável. Ele afirmou que não queria mais viver e que morreria feliz se não causasse mais nenhum mal. 

Em 16 de janeiro de 1936, as luzes da Prisão de Sing-Sing oscilaram, quando uma descarga elétrica de 2 mil volts atravessou o cérebro de Albert Fish. Foi o fim de um dos mais perversos seres humanos de todos os tempos.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Glozel - A Controversa descoberta arqueológica do Século


Se uma palavra pode descrever o Incidente Glozel, esta deveria ser "controvérsia". Uma das maiores e mais longas controvérsias no mundo da Arqueologia. 

Tudo começou em Março de 1924, quando um rapaz de 17 anos chamado Émile Fradin, na companhia de seu avô Claude Fradin descobriu algo estranho na fazenda da família. Os dois estavam trabalhando em um campo conhecido como Glozel, que havia recebido o medonho apelido "le Champ des Morts", ou "O Campo dos Mortos". Poucos anos antes, o local foi palco de violentos enfrentamentos entre tropas alemãs e francesas na Grande Guerra. As velhas trincheiras escavadas no solo revirado, as fundas crateras produzidas pela artilharia e restos enferrujados de arame farpado ainda marcavam a paisagem, mas o som da guerra havia sido substituído por um silêncio bucólico. Glozel havia se tornado um lugar pacífico, usado para agricultura. 

Émile estava trabalhando o solo quando uma das vacas que puxava seu arado prendeu a perna em um buraco. O animal mugia desesperado e os Fradin tiveram dificuldades em soltá-lo, pensando que ela havia ficado presa em uma armadilha. Finalmente conseguiram livrar a vaca, e isso revelou algo inesperado. Oculto sob a terra havia uma estrutura formada por tijolos de argila cozida e uma curiosa pedra lisa que servia de tampa para o que julgaram ser uma sepultura. Repousando sob essa pedra estavam ossos humanos. À princípio eles acharam que se tratava de uma sepultura comunal usada pelos soldados alguns anos antes, mas logo ficou evidente que os ossos eram muitíssimo mais antigos.

Até então, aquela parecia uma descoberta arqueológica trivial como muitas outras feitas no interior da França. Aquela região havia sido habitada ao longo de toda sua história por povos que deixaram sinais de sua passagem: De ruínas e cemitérios até cavernas com arte rupestre nas paredes. 

À pedido dos Fradin, uma professora examinou os achados reunidos em uma caixa de madeira. Ela tinha alguns conhecidos no Ministério da Educação e enviou uma carta a eles relatando a descoberta sugerindo que poderia ser algo importante. Demorou alguns meses, mas em meados de julho, Benoit Clément, outro professor e membro da Societé d'Emulation du Bourbonnais, visitou o sítio na companhia de um arqueólogo chamado Viple. Clément e Viple examinaram os objetos e depois pediram para conhecer o local onde foram achados. Usando pás e picaretas cavaram mais fundo encontrando os restos de uma parede de tijolos e um teto. O arqueólogo Viple identificou o sítio como pertencente ao período gaulês-romano. Ele explicou que embora fosse interessante não se tratava de uma descoberta expressiva e liberou o campo para a estação do plantio.


Contudo, em janeiro de 1925 uma edição do boletim da Sociedade publicou fotografias dos objetos, em especial de uma pedra lisa repleta de inscrições. A Sociedade organizou uma pequena escavação coordenada por um médico local e entusiasta de arqueologia, o Dr. Anton Morlet especialista no período romano na Gália. Após estudar os objetos ele concluiu que eles eram consideravelmente mais antigos, talvez da Cultura Magdaleniana. Morlet supunha que pertenciam ao Paleolítico Superior (entre 12,000 a 9500 anos antes de Cristo), uma vez que as peças incluíam pontas de lança feitas de ossos de rena e representações desses animais, extintos desde 10,000 aC.

A nova escavação comandada por Morlet removeu uma infinidade de tabuletas de argila, ídolos, ferramentas, pedras talhadas e objetos com curiosas inscrições. As descobertas foram apresentadas em setembro de 1925 como artefatos neolíticos e atraíram a atenção de jornalistas que publicaram a história em detalhes. Embora Morlet tenha datado os artefatos como Neolíoticos, ele não estava cego para o fato de que o sítio continha objetos de épocas diferentes. Ele mantinha a opinião de que boa parte deles era muito antigo, portanto sua conclusão é que a área serviu como assentamento humano durante a transição de vários períodos, mesmo que alguns delas fossem separados por milênios.  

Certos objetos eram realmente anacrônicos: uma pedra mostrava a representação de uma rena, acompanhada de símbolos que sugeriam o que parecia ser um alfabeto bem construído. Conforme mencionado, as renas desapareceram da região em meados de 10,000 aC, e a mais antiga forma de escrita humana foi estabelecida em 3,300 aC, no Oriente Médio. O consenso geral era de que nenhum povo anterior a esse período possuía uma forma de comunicação escrita, contudo na opinião de Morlet as descobertas de Glozel contrariavam isso enormemente. 

Para tornar tudo ainda mais complicado, o estilo do alfabeto era semelhante ao fenício, datado de 1,000 aC. Mas é claro, era consenso que a Civilização Fenícia jamais estabelecera colônias naquela região, mesmo no auge de sua expansão marítima. 

Não é de se espantar portanto que a maioria dos acadêmicos de arqueologia fossem bastante céticos quanto às conclusões de Morlet; afinal de contas, o estudo havia sido redigido por um arqueólogo amador. Várias das conclusões soavam absurdas: Escrita pré-histórica? Um cruzamento entre Paleolítico e Neolítico? "Tolice", vociferavam os acadêmicos! "Ridículo" ecoavam os pesquisadores!


Infelizmente para os círculos acadêmicos franceses, Morlet não se deu por vencido facilmente. Ele convidou outros arqueólogos que simpatizavam com suas teorias para visitar e realizar escavações no sítio. Durante o ano de 1926, Salomon Reinach, curador do Museu Nacional de Saint-Germain-en-Laye, passou dias escavando o sítio e ficou impressionado com o que descobriu. Reinach confirmou a autenticidade do sítio e dos artefatos nele encontrados. Outro importante estudioso a visitar o local foi Abbé Breuil que à princípio demonstrou entusiasmo com a profusão de peças e ossos retirados do local. Contudo, o próprio Breuil levantaria dúvidas a respeito da autenticidade de algumas peças chegando a afirmar que vários artefatos eram falsificações.   

Breuil levantou suspeitas de que Morlet e Fradin teriam criado os artefatos usando como inspiração fotografias de peças originais encontradas em outra escavação. O fantástico alfabeto paleolítico, possivelmente a escrita mais antiga de todos os tempos seria nada mais do que uma série de símbolos inventados pelos falsários.

À despeito das graves acusações, Morlet continuou retirando de Glozel centenas de objetos em um período de dois anos. As fantásticas descobertas incluíam tabuletas de argila cozida com aquele mesmo alfabeto estranho e mais de quinze pedras polidas com a impressão de mãos humanas. Outros achados incluíam ídolos religiosos, pedras decorativas, cerâmicas, vidros, ossos e muito mais. Morlet acreditava que Glozel havia servido como importante centro religioso em algum momento do passado remoto e que posteriormente ele teria se convertido em um cemitério.

A essa altura os debates sobre Glozel já dominavam o meio acadêmico com grupos debatendo sua veracidade.

Em junho de 1927 dois outros sítios foram localizados pelo Dr. Morlet. Um deles contendo 67 e o outro 121 artefatos e uma infinidade de ossos humanos. Parecia claro que Glozel teria de ser aceito como uma relevante descoberta arqueológica à despeito da controvérsia sobre a origem das peças. Em uma reunião do Instituto Internacional de Antropologia em Amsterdam, realizada em setembro de 1927, Glozel se tornou o centro de todos debates. 


Uma comissão internacional, formada por especialistas levaria à cargo investigações que tentariam revelar a natureza do sítio e sua origem. O grupo chegou a Glozel em novembro de 1927.

Durante os três dias em que a comissão esteve nos sítios, os arqueólogos encontraram uma profusão de artefatos. Tão grande a quantidade que um dos envolvidos disse que "eles simplesmente pareciam brotar do chão". Entretanto, após analisar as descobertas, a comissão declarou que tudo, com exceção de algumas pedras talhadas era uma fraude. A notícia caiu como uma bomba entre os defensores de Glozel. As peças foram consideradas cópias de outras peças autênticas encontradas em museus por toda França. Acadêmicos de renome acusavam Morlet e os Fradin de conduzir uma fraude absurda e demandavam que as peças fossem apreendidas como um engodo.

A discussão então passou para a esfera jurídica com os Fradin contratando um advogado para processar os acadêmicos, tendo como cabeça René Dussaud, nada menos do que o curador do Museu do Louvre que devolveu as peças de Glozel afirmando que o prestígio do Museu não poderia ser manchado por o que ele chamou de "uma fraude grotesca". 

A disputa continuava causando acalorada controvérsia entre acadêmicos e em uma reunião realizada na Normandia, dois arqueólogos chegaram às vias de fato. Muitos pesquisadores pareciam "querer" à qualquer custo que Glozel fosse uma realidade enquanto outros sequer queriam discutir a possibilidade. Aqueles que defendiam o sítio ansiavam que uma civilização ancestral, surgida na França, se tornasse dona da escrita mais antiga do mundo, pré-datando as culturas semíticas em milênios. Era uma questão de orgulho! Sem falar que tal descoberta impulsionaria centenas de escavações e a abertura de sítios em toda França. Seus críticos duvidavam de tudo e afirmavam que Glozel produzia apenas lixo.

Nesse meio tempo, os Fradin, com ajuda de Morlet inauguraram um pequeno Museu com suas descobertas, cobrando entrada dos visitantes. Ultrajados pelo que afirmavam ser uma demonstração de má-fé um grupo de estudiosos foi até Glozel e começou a depredar o museu. Na ocasião várias peças foram destruídas a golpes de marreta. A polícia foi chamada e a confusão terminou em um verdadeiro quebra-quebra. 


Um novo grupo de arqueólogos isentos, chamado Comitê de Estudos foi apontado para coordenar os esforços de verificar e datar as peças. O grupo visitou Glozel e conduziu escavações encontrando pedras e tabuletas que foram reunidas para futura análise. Embora o comitê tenha reconhecido que o sítio era autêntico, a conclusão que chegaram sobre as peças levantava suspeitas. Uma das tabuletas foi investigada criteriosamente e pequenos grãos de pólen foram achados aderidos à pintura o que poderia evidenciar que ela era mais recente do que se imaginava.

Bizarramente um dos estudiosos envolvidos nas análises, um respeitado pesquisador chamado Michel Bayle foi assassinado na mesma época com um golpe de picareta enquanto vagava por uma escavação. O caso causou grande repercussão e inflamou ainda mais o debate. No fim das contas, um outro estudioso foi apontado como o responsável pelo assassinato e o motivo do crime não tinha relação direta com Glozel. Os colegas de Bayle continuaram seu trabalho, recebendo frequentes ameaças anônimas de morte.

O relatório final do Comitê, chamado Relatório Bayle em homenagem ao professor assassinado, foi concluído em junho de 1929. Ele deixava claro que a maioria das peças recuperadas nas sepulturas em Glozel eram falsas. Cerca de 80% delas eram mais recentes do que se imaginava, tendo sido, provavelmente produzidas pouco antes de sua alegada "descoberta". Emile Fradin e o Dr. Morlet chegaram a ser formalmente acusados de terem falsificado o material para ganho próprio, contudo nenhum processo foi levado à termo e as acusações contra eles foram arquivadas em 1932.

Morlet continuou escavando o sítio até meados de 1938. Durante essa década de pesquisa, a maior parte dos museus e universidades de respeito da Europa se negavam a recebê-lo, vedavam o uso de bibliotecas e sequer analisavam suas descobertas. Morlet passou a ser considerado persona non grata. Suas peças eram tidas pela maioria dos cientistas como fraudes bem engendradas por pseudo-acadêmicos.

Descreditado e largamente ridicularizado pela comunidade internacional, o Dr. Morlet tentou uma última cartada em 1950, oferecendo os ossos achados em Glozel para que um laboratório realizasse a datação por rádio carbono, uma técnica então muito recente. Um laboratório na França se negou a conduzir os testes e outro nos Estados Unidos, após muita deliberação acabou cancelando a análise. Morlet morreu em 1965 sem conseguir autenticar os artefatos pelos quais tanto lutou.


A última carta de Morlet para os Fradim demonstrava seu descontentamento:

"Não tenho mais forças. Prefiro desistir do que prosseguir dessa maneira. A verdade virá à tona um dia, tenho certeza disso, mas não acho que iremos viver para vê-la!"

Então, com tudo isso o que dizer dos Artefatos de Glozel? Seriam uma fraude ou autênticos?

Talvez a maior evidência de que o sítio fosse genuíno fosse seu descobridor, Emile Fradin. Um rapaz de 17 anos, sem educação formal, passaria centenas de horas se dedicando exclusivamente a criar uma farsa? Além disso Fradin, não detinha nada além de conhecimentos básicos sobre história e arqueologia. Como poderia produzir tamanha quantidade de artefatos, a maioria deles, capaz de enganar arqueólogos treinados.    

O que chama mais a atenção é que Fradin jamais tentou vender as peças, o que poderia ser muito lucrativo se ele construiu a fraude para ficar rico. Ao invés disso, ele sempre achou que as peças deveriam ser doadas a museus e universidades. O que ele teria a ganhar se jamais desejou vender as peças? Além disso, todos os especialistas que visitaram o sítio inicialmente o reconheceram como autêntico e apenas depois de muitas análises voltaram atrás. Alguns acadêmicos mudaram de opinião apenas depois de alguns especialistas mais gabaritados o fazer primeiro.

Seria possível que Morlet estivesse certo e que foi vítima de um complô que buscava desacreditá-lo? E se essa é a explicação, por qual motivo? Uma das teorias mais conspiratórias envolvia até mesmo uma Sociedade Secreta incumbida de manter a Civilização Perdida em segredo uma vez que seus mistérios não deveriam jamais ser divulgados.


Seja como for, após 1942, uma nova lei proibiu a realização de escavações privadas o que obrigou o fechamento do sítio em Glozel. Ele permaneceu fechado por ordem do Ministério da Cultura e só reabriu para escavações em 1983. Seu estigma ainda era tão grande que ninguém desejava trabalhar nele. Apenas em 1995, o sítio recebeu novas escavações e um relatório assinado por estudiosos concluiu que Glozel continha objetos da Idade de Ferro e do Período Medieval. 

A controvérsia ainda prosseguia. Em 1996 as sepulturas 2 e 3 foram identificadas como sendo do século XIII com artefatos desse período. Já a sepultura 1, a primeira descoberta pelos Fradim, tinha artefatos que foram identificados como pertencentes ao período de 300 aC até 300 dC, relativos a civilizações celtas e romano-gaulesas, conforme os primeiros relatórios sobre Glozel indicavam originalmente. 

Finalmente em 1997, um exame de datação por radio carbono nos ossos demonstrou que a maioria deles pertencia ao Período Medieval, ainda que existissem fragmentos de ossos consideravelmente mais antigos, remontando ao século III. 

A conclusão é que o lugar foi largamente utilizado por povos antigos em diferentes períodos e estes deixaram resquícios de sua passagem na forma de artefatos e ossos. A mais controversa teoria de Morlet, que o convenceu de sua origem Neolítica, eram os ossos de renas. Contudo biólogos na década de 1990 demonstraram que alguns desses animais sobreviveram em áreas isoladas da Europa até meados do período Gaulês-romano, talvez até ao período medieval, o que explicava suas representações em imagens e os ossos presentes na sepultura.    

Outro dos aspectos mais fascinantes a respeito de Glozel, sem mencionar controversos, dizia respeito às famosas Tabuletas de Glozel. Totalizando quase 100 peças de cerâmica com inscrições, essa era a mais fantástica das descobertas retiradas do solo. Se elas realmente fossem Neolíticas como o Dr. Morlet sugeria, as descobertas de Glozel provariam a existência de povos avançados vivendo na Europa muito antes das civilizações do oriente médio se formarem. Tal coisa mudaria para sempre nossa compreensão da antiguidade.

Qual a conclusão a respeito desse alfabeto e seu conteúdo?


A resposta não é fácil de ser dada. 

As inscrições jamais foram satisfatoriamente traduzidas e ninguém sabe que povo as criou ou quando embora a corrente majoritária sugira que as tabuletas são do século III. Ao longo dos anos, vários especialistas afirmaram ter conseguido decifrar os símbolos correlacionando a linguagem neles contida com inscrições produzidas por povos bascos, caldeus, celtas, hebreus, ibérios, latinos, berberes e fenícios. Nenhum dos especialistas, no entanto, conseguiu ir além de teorias a respeito da origem desses símbolos e eles permanecem um grande mistério até os dias atuais.

Mesmo hoje, a controvérsia a respeito de Glozel prossegue forte, gerando enorme debate e discussão entre arqueólogos. E ao que parece a conclusão não está sequer próxima de ser obtida. 

A história da região continua obscurecida por uma sombra que dificilmente um dia será iluminada.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Tecnologia nos anos 1920 - Mais alguns itens e equipamentos úteis


Olá investigadores,

Essa é a segunda parte de nossa série a respeito de itens e equipamentos disponíveis nos anos 1920 e que por vezes podem causar alguma dúvida. Convido os que não leram a primeira parte a fazê-lo para completar as informações. Aqui abordamos algumas invenções que já estavam disponíveis na Era Clássica de Chamado de Cthulhu e que podem ser úteis no decorrer de uma investigação.

Na dúvida, siga a máxima: "melhor ter e não precisar de um equipamento, do que precisar e não ter". Alguns deles podem ser bastante úteis, facilitar uma investigação ou até mesmo representar a sobrevivência dos investigadores nos momentos mais inusitados.

Vejamos o que temos nessa lista.

Alimentos Enlatados

Ano da Invenção: 1795
Quando se tornou popular: 1865 (produção em massa a partir de 1912)


A primeira iniciativa para a criação de comida enlatada pode ser traçada até as Guerras Napoleônicas, quando o francês Nicolas Appert desenvolveu um método de conservar alimentos por mais tempo de modo que os soldados pudessem levar para o campo de batalha seus suprimentos. O grande problema sempre foi eliminar os micro-organismos responsáveis pela deterioração dos alimentos. Appert desenvolveu um método que preservava o alimento, lacrando-o em um compartimento hermeticamente fechado que uma vez privado de oxigênio garantia uma validade prolongada.

Os britânicos refinaram o método de Appert e foram os pioneiros na criação de latas de metal para estocar alimentos. Com o processo devidamente aprimorado a produção se tornou mais eficiente e com menor custo. Alimentos enlatados passaram a ser usados pelas forças armadas e em viagens marítimas de longa duração. 

Apenas em 1880 surgiram os primeiros produtos fabricados e vendidos a civis. As sardinhas foram o primeiro alimento preservado dessa maneira em latas, mas logo uma vasta gama de outros produtos a seguiram, modificando a forma como as pessoas se alimentavam e estocavam alimentos. Na Grande Guerra, alimentos em lata foram usados por todas as forças envolvidas no Conflito e após seu final esse tipo de alimento ganhou enorme popularidade. 

As latas de metal conhecida como folha de flandres foram gradualmente substituídas a partir de 1930 por latas de alumínio, mais leves e que aceitavam modelos diferentes. Data de 1935 a primeira cerveja em lata conhecida, produzida em New Jersey.

Uso em aventuras - Em cenários de exploração que contemplam expedições a lugares isolados e perigosos, os alimentos enlatados são essenciais. Eles constituem a única forma de sustento em uma Expedição aos confins gelados da Antártida, por exemplo. São os alimentos enlatados que garantem a sobrevivência da tripulação em viagens marítimas aos confins do planeta ou aos limites da civilização onde nem sempre alimentos frescos poderão ser encontrados. 

Alimentos podem ser usados para atrair animais selvages ou criaturas capazes de detectar cheiros. Estas podem ser conduzidas para armadilhas preparadas pelos investigadores. É claro, exsite a possibilidade também de inserir substâncias tóxicas nocivas em alimentos e esperar que elas surtam algum efeito em criaturas cuja fisiologia alienígena pode se mostrar sensível.

Finalmente, ambientes maculados pela ação ou presença de criaturas dos Mythos tendem a exercer um efeito marcante em certos alimentos. Abrir latas e verificar se o conteúdo se deteriora mais rápido pode ser uma forma de determinar a presença de criaturas nos arredores.
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Extintor de Incêndio

Ano da Invenção: 1896
Quando se tornou popular: 1928


Lidar com o fogo e combater incêndios sempre foi uma preocupação das pessoas. Desde o início sempre se imaginou que a melhor maneira de combater um incêndio seria simplesmente lançar sobre ele uma quantidade suficiente de água capaz de apagar as chamas. Os primeiros aparatos que se propunham a extinguir o fogo utilizando substâncias químicas inibidoras surgiram no século XIX.

O primeiro extintor de incêndio tubular em formato cilíndrico, semelhante ao que temos hoje em dia, foi criado em 1896. Ele era preenchido com uma solução de potássio e ar comprimido. Diversas outras substâncias químicas foram testadas com o objetivo de combater as chamas sendo que em 1928, foi criado um extintor que utilizava um cartucho de dióxido de carbono (CO2) seco inserido em um cilindro de cobre. Para utilizar o extintor, o operador tinha de pressionar uma válvula no topo do cilindro que perfurava o tanque e liberava o material químico do interior através de uma mangueira direcionado ao fogo. Esse tipo de extintor de incêndio passou a ser largamente utilizado como medida preventiva e combativa de incêndios no período. Eles estavam disponíveis na maioria das instalações onde havia risco de incêndio e não demorou até que eles fossem disponibilizados para civis.

Em 1938, extintores químicos se tornaram obrigatórios em prédios com moradores como medida de segurança. Em 1952 extintores menores passaram a fazer parte do equipamento de segurança de automóveis. 

Uso em aventuras: Extintores podem ser obviamente muito úteis em situações envolvendo um incêndio. Contudo eles também podem ser usados para ferir inimigos cuja fisiologia alienígena seja sensível a determinados compostos químicos. Talvez um mi-go ou mesmo um Shoggoth possa se sentir incomodado por um jato direto de CO2. É importante lembrar que extintores podem ser preenchidos com diferentes substâncias, cada qual indicada para o combate de um tipo de fogo. Alguns destes componentes químicos podem afetar as criaturas, outros não, saber qual é qual seria essencial. 

Um extintor também pode ser útil para revelar a presença de inimigos invisíveis, cuja silhueta seria delineada numa nuvem dispersa de gás. Além disso, o conteúdo de um extintor pode ser usado para danificar alguma máquina ou componente elétrico sensível.

Finalmente, se tudo mais falhar, um extintor de incêndio, feito de metal se transforma em um porrete quase perfeito para derrubar oponentes numa briga mano a mano.   

Lanterna à Pilha

Ano da Invenção: 1896
Quando se tornou popular: 1908

A respeito de Lanternas manuais à pilha, eu indico ler o artigo aqui no Mundo Tentacular que se refere exclusivamente a elas. Nele vocês encontrarão informações a respeito desse equipamento e modelos à disposição no período. 

Lanternas Elétricas em 1920

Locação de Automóveis

Ano da Invenção: 1906
Quando se tornou popular: 1916


O mais antigo exemplo de serviço de locação de veículos data de 1906. Uma companhia alemã chamada Sixt oferecia automóveis para aluguel a interessados em ter um veículo por um dia, uma semana, um mês ou até um ano. O serviço permitia que pessoas que tivessem a necessidade de usar automóveis os alugassem pelo tempo necessário para uma determinada tarefa - transportar carga, pelo tempo de férias ou para viajar até um determinado local.

Em 1916, surgiu nos Estados Unidos um serviço semelhante em Nebraska que oferecia automóveis Ford Modelo T para quem quisesse alugar por um tempo limitado. O serviço cobrava 10 centavos por milha. A empresa, chamada Saunders Drive-It-Yourself se espalhou por 56 cidades dos Estados Unidos. Em 1923, ela foi comprada e expandido se tornando o que hoje conhecemos como AVIS. 

Empresas competidoras de aluguel surgiram quase simultâneamente. Em Chicago, John Hertz fundou a Hertz Rent-a-Car em 1926, oferecendo o modelo Ford T. A rede expandiu seus negócios rapidamente incluindo no serviço de locação veículos maiores com caminhonetas e motocicletas. Serviços similares apareceram ao redor do mundo com empresas especializadas em fornecer automóveis de todos os tipos e valores. O setor experimentou um rápido crescimento, aparecendo em praticamente todas as cidades grandes da América. Com a Grande Depressão ele iria deslanchar, já que nem todos tinham como comprar um carro em meio a recessão. 

Em geral, a burocracia para alugar um automóvel é pequena, com o interessado tendo de fornecer apenas alguns dados pessoais e sua licença de motorista. Automóveis alugados demandam uma caução e em geral possuem seguro contra dano, acidente e terceiros.

Uso em Aventuras: Investigadores muitas vezes precisam de automóveis para ir de um canto a outro em busca de pistas e indícios. Investigações podem levar o grupo a se aventurar em expedições motorizadas a lugares isolados e afastados, onde normalmente não se poderia chegar sem um carro.

Por vezes, os investigadores não querem arriscar seus veículos e preferem alugar um carro de terceiro que não levantará muitas suspeitas. Especialmente se a ação deles for clandestina ou perigosa. É claro, algumas vezes será preciso lidar com o seguro e explicar o que são as estranhas marcas de garras na lataria de um carro alugado.

Gasolina 

Ano da Invenção: 1891
Quando se tornou popular: 1923


O refinamento de petróleo utiliza um processo conhecido como aquecimento passo-a-passo, ou destilação fracionada, para ferver e separar os vários produtos combustíveis. Após a destilação, um típico barril de petróleo cru resultava em 25% de gasolina e 15% de querosene. Antes de 1900 essas proporções eram perfeitamente satisfatórias, uma vez que querosene possuía várias utilizações práticas no dia a dia. Naqueles dias, gasolina era um produto sem tanto uso e de pequeno valor de mercado. Ela era vendida como combustível para aquecedores, ou simplesmente descartada em rios como matéria inútil. Eventualmente leis proibiram esse descarte, não por uma questão ecológica, mas pelo risco de incêndios.

A criação dos automóveis não apenas criou um mercado para a gasolina, mas em 1915 quase levou a indústria do petróleo a uma crise. Nesse ano, a venda de gasolina ultrapassou a de querosene pela primeira vez e a demanda de gasolina se tornou muito grande já que havia cada vez mas automóveis nas ruas. Os produtores de petróleo temiam que a demanda aumentasse e não existisse combustível para manter os automóveis rodando. Em 1912, o químico W.M. Burton descobriu um método de fazer um barril de petróleo produzir 45% de gasolina e apenas 6% de querosene. Essa nova percentagem tranquilizou o mercado e permitiu que a demanda pelo combustível fosse suprida.

Nos primeiros motores automotivos, o vapor de gasolina nos cilindros era comprimido a um quarto de seu volume antes da ignição. Alta compressão dava mais força ao motor, mas um grau elevado não podia ser atingido sem o risco do vapor explodir. Em 1922 Thomas Miggely Jr descobriu que acrescentando tetraetil de chumbo na gasolina permitia aumentar a compressão sem risco o que resultaria em veículos com maior potência.

Tratada, a gasolina etílica chegou aos postos para venda em 1923. Em 1930 engenheiros adotaram o teste de octanagem para verificar a qualidade dos combustíveis. Quanto mais alto o índice de octanagem, maior a compressão do combustível e potência para o motor. Refinarias logo descobriram como aumentar a qualidade da octanagem da gasolina comum. Isso gerou diferentes tipos de combustível, cada qual indicado para diferentes veículos. Enquanto automóveis em 1920 usavam octanagem de 6/1, combustíveis de aviação tinham um grau de 100/1, enquanto carros de corrida atingiam 12/1.

Uso em aventuras: Combustível é necessário em praticamente todas aventuras em que investigadores tenham de se deslocar de um local para outro. Felizmente, com a modernização dos automóveis, postos de gasolina se multiplicaram na mesma proporção. De fato, em 1920 um dos negócios mais promissores na América era abrir um posto de abastecimento. Para lidar com a concorrência, alguns passaram a vender alimentos e oferecer serviços automotivos. Nasceram assim as primeiras lojas de conveniência.

Contudo, gasolina não é útil apenas para manter os motores em funcionamento, combustível pode ser usado para acabar com provas e destruir cenas inconvenientes, sobretudo onde tenha ocorrido um crime. Já perdi a conta de quantas vezes aventuras terminaram com os investigadores queimando um lugar de alto à baixo com gasolina.

É claro, gasolina também pode ser usada como uma arma eficaz contra criaturas dos Mythos, muitas das quais imunes a armas comuns, mas afetadas pelo poder purificador do fogo. Na dúvida, a expressão "jogue gasolina e deixe queimar" pode ser a solução para os problemas de investigadores às voltas com os horrores mais resistentes.

Contador Geiger

Ano da Invenção: 1908
Quando se tornou popular: 1920


O físico alemão Hans Geiger desenvolveu um equipamento capaz de registrar o grau de radiação presente num ambiente em 1908. O contador tinha a forma de um cilindro de metal cheio de gás e com um mostrador de vidro. Quando radiação ionizante atingia o gás, ele produzia uma corrente elétrica fraca. Essa corrente era então traduzida em ruídos que uma vez quantificados forneciam a medição. Geólogos e prospectores logo passaram a usar os aparelhos Geiger portáteis para encontrar depósitos radioativos naturais.

Contadores Geiger maiores são muito mais precisos e fornecem leituras mais confiáveis, entretanto eles são pesados e difíceis de serem levados para o campo. Por esse motivo, os contadores simples fornecem apenas uma leitura referencial. O Contador de Cintilação, aprimorado pelo próprio Geiger, também passou a ser usado. O modelo de Cintilação é capaz de detectar a radiação em substâncias medindo pequenos flashes de luz quando um item é bombardeado por partículas alfa dos materiais radioativos. Essa leitura é tida como mais confiável, embora os dois tipos de Contador Geiger tenham se mantido em operação até os dias atuais sem muitas variações.

Os aparelhos em 1920 se assemelham a pequenas caixas com correias para transporte, podendo pesar até 15 quilos. Um fio condutor ligado a um cilindro é apontado na direção do local de onde se deseja obter a medição. Uma agulha de medição no topo da maleta fornece as leituras a serem interpretadas.

Uso em Aventuras: Quem pode saber qual a composição de certas criaturas do Mythos? Cores do Espaço, Servos dos Deuses Exteriores ou mesmo os Byakhee podem emitir uma assinatura radioativa visto que eles vem do espaço. Com certeza Azathoth ou Yog-Sothoth também produzem algum tipo de assinatura energética que um técnico poderia captar com um Contador Geiger. Empregar um equipamento de medição Geiger pode ser a maneira mais confiável de seguir uma criatura ou de localizar seu covil.

Fonógrafo e Gramofone

Ano da Invenção: 1877
Quando se tornou popular: 1926


Em 1877, Thomas Edison desenvolveu o primeiro aparelho comercialmente prático para mecanicamente gravar e reproduzir o som. Sua invenção ganhou o nome de Fonógrafo. O mecanismo básico do fonógrafo era uma agulha presa a um diafragma que vibrava quando tocava as ondas de som. Para gravar o som, Edison fazia com que a agulha raspasse uma folha de papel-alumínio. O cilindro girava e fazia com que a agulha traçasse uma espiral. A medida que o cilindro girava, a agulha marcava o diafragma em diferentes profundidades correspondendo a diferentes sons. Infelizmente, o papel alumínio de Edison era bom para apenas alguns usos, depois do qual acabava se rasgando. Em 1885 o papel-alumínio foi substituído por um cilindro de cera que era consideravelmente mais durável. O cilindro gravava os sons com maior fidelidade, mas também funcionava para um determinado número de usos depois dos quais se tornava inútil.

Os cilindros de cera se tornaram muito populares, em especial para realizar gravações caseiras e transmitir informações de forma confiável.

Em 1887 um disco chato feito de laca foi introduzido no mercado. O mecanismo que permitia girar o disco era bem mais simples do que o cilindro de cera e mais barato de ser produzido. Essa versão do aparelho de Edison recebeu o nome de Gramofone e se tornou bastante popular. Para funcionar, era preciso rodar uma manivela que impulsionava o disco.

Os sistemas tinham vantagens e desvantagens. Os discos do Gramofone eram mais vulneráveis a arranhões, mas não precisavam ser substituídos depois de uma determinada quantidade de execuções. Discos também ocupavam menos espaço quando não estavam em uso. Por outro lado, o Fonógrafo podia fazer suas próprias gravações, algo que o Gramofone não permitia.


No final das contas, o gramofone se tornou mais popular graças a facilidade de produção dos discos. O custo para produzir um único cilindro de fonógrafo equivalia ao custo de 25 discos. Não é exagero dizer que os gramofones ajudaram a tornar a indústria da música possível. Com o tempo, a tecnologia dos discos melhorou e o vinil foi introduzido.

Em 1926 os Gramofones receberam melhorias com câmaras acústicas mais potentes e gabinetes que tornavam o som muito mais puro. Já em 1930, Gramofones eram um item popular que podia ser encontrado na maioria das casas de classe média.

Uso em Aventuras: O Fonógrafo pode ser de extrema utilidade para pesquisadores e acadêmicos. As anotações e informações podem ser armazenadas em som ao invés de cadernos e diários, facilitando bastante o trabalho. Dada a popularização desses itens, o Guardião pode considerar desenvolver uma pista na forma de uma gravação ao invés de um item físico.

Algumas criaturas podem ser afetadas ou incomodadas pelo som. Podem ainda ser atraídas para armadilhas por ondas acústicas ou músicas específicas.

O uso mais inteligente de gramofone que vi em uma aventura, foi o grupo sugerir gravar em um disco palavras mágicas que poderiam afetar um feiticeiro trazido de volta dos mortos. Uma vez executado em uma altura considerável, o bruxo teria de ouvir. Grande ideia!

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Na próxima parte dessa série, a última, teremos mais alguns itens interessantes para o período dos Loucos anos 1920.

Fiquem conosco...