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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Mesa Bárbara: Beasts and Barbarians - Jogo de Sword and Sorcery no Saia da Masmorra


Olá pessoal,

Semana passada, tivemos mais uma edição do Saia da Masmorra, encontro para mestres e jogadores, com uma proposta de apresentar jogos e sistemas de RPG pouco conhecidos. Os encontros mensais acontecem sempre na Galeria da loja Point HQ em Ipanema.

Nessa edição, o tema do encontro era Sword and Sorcery, ocasião perfeita para narrar pela primeira vez Beasts and Barbarians um jogo para o sistema Savage Worlds (da Retropunk) que se passa em um mundo de decadência, barbárie e magia.

Eu gostei bastante...vamos ver como foi a sessão. Mas antes, para aqueles que não conhecem, deixe eu falar um pouco sobre Sword and Sorcery.

Sword and Sorcery (literalmente Espada e Feitiçaria) é um sub-gênero da literatura de Fantasia, geralmente caracterizado por espadachins aventureiros envolvidos em sangrentos combates e emocionantes tramas de perigo e ação. As estórias envolvem romance, elementos de magia, horror e sobrenatural. Nessas estórias, algumas vezes épicas, a ação se fixa no herói, na maioria das vezes um guerreiro bárbaro, que precisa se valer de suas habilidades extraordinárias para triunfar diante de inúmeras adversidades. O pano de fundo para essas estórias são mundos inspirados por civilizações antigas e terras distantes com reinos e povos exóticos. O termo "Sword and Sorcery" foi criado por Michael Moorcock, autor das estórias de Elric de Melniboné, um dos mais conhecidos escritores no gênero, que tem em Robert E. Howard seu maior expoente. Howard foi o criador de Conan, o Bárbaro, Kull, Solomon Kane e Bran Mak Morn, além de ter escrito inúmeros contos de aventura pulp. Não por acaso, ele é considerado o pai do gênero.

Curiosamente, o gênero tem uma estreita ligação com o Horror Cósmico criado por H.P. Lovecraft. Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, Fritz Leiber, nomes que ajudaram a criar o Sword & Sorcery eram amigos e correspondentes de Lovecraft e utilizaram bastante os conceitos do Mythos de Cthulhu em suas estórias. Deuses, monstros e criaturas tipicamente lovecraftianas figuravam como entidades obscuras nos contos Sword and Sorcery, e aos poucos alguns temas fizeram o caminho inverso, visitando narrativas dos Mythos.

Por essa razão, Sword and Sorcery e os Mythos podem ser considerados gêneros que desfrutam de um certo grau de parentesco.

O cenário de Beasts and Barbarians (daqui em diante B&B) se passa em um típico mundo de fantasia, magia e aventura. Nele, os jogadores criam seus personagens inspirados pela tumultuada estória de decadência de uma região conhecida como Dread Domains (Domínios Sinistros). O continente de B&B, assim como a Terra Hiboriana de Conan, é uma enorme massa de terra, com uma colcha de retalhos de Reinos semelhantes a civilizações antigas divididos em povos civilizados e bárbaros. No centro do continente desponta o Império de Ferro de Faberterra, o mais poderoso dos Impérios que conquistou e se espalhou pelo mundo conhecido e que agora se encontra em franca decadência com invasões de povos bárbaros, pilhagens e corrupção corroendo suas instituições. É questão de tempo até o Império ruir por completo e o que surgirá de suas cinzas, ninguém pode prever.  

O cenário que narrei para B&B foi inspirado em uma aventura de Conan, o Bárbaro, escrita por Howard, tendo como título "O Mausoléu dos Famintos". Nela, um grupo de audazes aventureiros em viagem pela perigosa Cordilheira de Ferro aceita a oferta de um misterioso nobre. Através de um antigo manuscrito, ele tomou conhecimento da localização de um mausoléu encravado na montanha que serviu de repouso para um poderoso monarca. Seduzidos pela promessa de ouro e riquezas inestimáveis, os aventureiros aceitam explorar o lugar, descobrindo coisas muito mais sinistras habitando seus corredores amaldiçoados.

Aqui estão algumas fotos do encontro e do material de jogo: 


Uma das coisas mais bacanas no Savage Worlds é que o jogo é fácil: de jogar, de narrar e de ensinar... não tem muito segredo, o jogo flui muito facilmente e memso quem nunca jogou pega rapidamente as manhas. 


O grupo que deu vida aos aventureiros. Um típico Bárbaro da Fronteira Selvagem, um Nobre herdeiro do Império de Ferro, uma perigosa Amazona da Ilha de Ascaia e um Monge guerreiro do distante reino oriental de Lhoban.  


Um daqueles momentos de interpretação quando uma aberração morta-viva sem a cabeça emerge das sombras e avança sobre o grupo com garras afiadas, enquanto sua cabeça decepada fincada na ponta de uma lança grita enlouquecida... Sword and Sorcery, como não amar isso? 



Antes de começar a sessão uma breve história dos Dread Domains, de seus reinos, povos e tradições... muito mais do que um reino de pancadaria, morte e destruição, os Reinos possuem uma cronologia bem definida com mais de 3000 anos desde os antigos impérios, passando por um apocalipse (na forma de um meteoro) até chegar aos últimos anos de Faberterra.



Uma vez que Savage Worlds é um sistema em que o posicionamento dos personagens é importante, fiz algumas miniaturas de papel para facilitar. Mas só os heróis ganharam tokens coloridos...


O Baralho de Iniciativa de Savage Worlds sempre é uma atração... muito bom esse sistema de iniciativa baseado em cartas. Por sinal, nessa mesa rolou Coringa toda hora.


Apesar do livro básico de B&B trazer um mapa do Continente dos Dread Domains, eu achei ele meio pequeno e francamente sem graça. Os lugares assinalados são tão pequenos e a escala parece tão reduzida que um reino fica literalmente acavalado no outro. Preferi então usar um pouco de licença poética e criar o meu próprio mapa.


Deu um pouco de trabalho, mas no fim ficou do jeito que eu queria. Para fazer o mapa usei uma folha de papel pardo normal, tracei o desenho do continente, espalhei os reinos aqui e ali, dando uma distância maior entre eles e depois pintei com pilot e giz de cera.


Tudo bem, dava para ter ampliado o mapa original em alguma gráfica, mas não teria a mesma graça... não é de hoje que eu adoro fazer os mapas das minhas ambientações, devo ter um monte desses mapas guardados de 7th Sea, Ravenloft, Five Rings e outros tantos...


Ah sim, a sessão foi legal para que eu pudesse estreiar esse Battle Mat. Embora ultimamente eu tenha usado bem pouco grids de combate tático. O melhor desse grid é poder escrever em cima, fazer apontamentos e detalhar com diferentes cores o que está acontecendo. Isso sem dúvida cria uma dimensão extra no jogo e o torna mais envolvente.


E no fim, os heróis conseguiram escapar do terrível Mausoléu dos Famintos abrindo caminho à golpes de espada e machado...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Aqueles que vivem na Escuridão - O lendário Povo Pequeno na Literatura de Horror

O artigo anterior a respeito dos Goblins de Hopkinsville deixa em aberto a origem e a identidade das misteriosas criaturas responsáveis pelo cerco a Fazenda Sutton. Como todo bom enigma sobrenatural, é praticamente impossível determinar o que eram os seres se é que realmente existiram. Entretanto, podemos levantar hipóteses e suposições (afinal, todos os alegados especialistas fazem isso).

Lendo o texto é impossível para quem conhece a obra do romancista galês Arthur Machen dissociar esses "goblins" do lendário Povo Pequeno (Little People) que figuram de forma proeminente em várias de suas estórias.

Após ler a estória dos Goblins, achei que seria um bom momento para falar do Povo Pequeno.

Segundo a literatura de horror de Machen, o Povo Pequeno, conhecido no folclore da Irlanda como Daione Sidhe e pelo nome Tylwyth Teg no País de Gales constitui uma raça nativa das Ilhas Britânicas. Essas criaturas viviam originalmente na superfície e eram de muitas formas semelhantes aos humanos, embora tivessem pequena estatura e feições delicadas. Os primeiros colonos humanos a chegar às Ilhas teriam sido os Celtas, que desembarcaram no litoral por volta de 1000-15000 aC. Eles encontraram o povo pequenino e imediatamente começaram a disputar espaço com ele. Sucessivas lutas fizeram com que o Povo Pequeno fugisse para a segurança de subterrâneos escavados sob montanhas e ravinas nas partes mais remotas do interior do país. Eles passaram a habitar essas regiões primitivas, criando ali os últimos refúgios de sua raça em meio a completa escuridão e isolamento. Geração após geração, essas criaturas privadas da luz do dia começaram a mudar, sofrendo uma progressiva degeneração que os transformou em monstros de pele almiscarada, olhos brilhantes e aparência bestial.  

Ainda conforme a mitologia de Machen, a humanidade perdeu o contato com o Povo Pequeno após seu êxodo para as profundezas da terra. Aos poucos, os homens esqueceram desse povo e de que ele realmente existiu em uma passado distante. As únicas lembranças a respeito deles, passaram a figurar no reino das lendas e dos mitos. A memória do Povo Pequeno foi gradualmente esquecida e absorvida pelo folclore das Ilhas Britânicas, incorporado ao conjunto de crenças sobre os sidhe, fae ou como chamamos hoje em dia, fadas.

Elfos, anões, duendes, sprites, trolls, goblins, brownies, ninfas, dryades e todos os mitos primevos que segundo o folclore das ilhas habitam as florestas, teriam surgido a partir das esparsas informações remanescentes sobre o Povo Pequeno.

Mas Machen deixou uma brecha aberta na relação entre humanos e o Povo Pequeno e explorou essa ligação em sua Literatura de Horror.

Em contos como "The White People", "Out of the Earth", "The Novel of the Black Seal", "The Shinning Pyramid", Machen considera que embora os humanos acreditem que o povo pequeno não passa de uma lenda inofensiva, na realidade tais seres continuam existindo. Mais do que isso, o povo pequeno guarda um rancor duradouro contra os humanos que os forçaram a uma existência lúgubre nas entranhas da terra. Eles sabem que os humanos foram os responsáveis pela sua degeneração e pelo confinamento imposto aos seus ancestrais, e esse sentimento se traduz em um ódio cego. Quando humanos inadvertidamente adentram seus domínios, existentes nos ermos mais selvagens além da fronteira da civilização, as consequências tendem a ser dramáticas.

Pessoas sensíveis são capazes de sentir a presença do Povo Pequeno espreitando e vigiando. Talvez esse "sexto sentido" tenha sido herdado de nossos antepassados que enfrentaram esse mesmo povo. Muitos ao sentir essa "presença invisível" preferem se afastar, cheios de maus pressentimentos e sensações desagradáveis. Contudo, aqueles, alheios ao perigo ou os que preferem ignorar seus pressentimentos e continuam se embrenhando cada vez mais fundo nos domínios do povo pequeno acabam invariavelmente caindo em uma de suas armadilhas. E para esses não há retorno.

É claro, na obra de Machen, nem todo o contato entre humanos e o Povo Pequeno resulta em morte. Por vezes, coisas mais tenebrosas que a morte, podem ocorrer...

Em "The White People" a jovem protagonista ingenuamente entra em contato com o Povo Pequeno acreditando que eles são bondosas entidades dos contos de fadas. Ela não imagina o perigo que corre ao trocar presentes com as criaturas. 

Em "The Novel of the Black Seal" o personagem tenta trazer à tona os segredos de uma civilização pré-humana nas montanhas do País de Gales e descobrir a verdadeira natureza de uma criança que parece esconder um segredo assustador. 

Já em "The Shinning Pyramid" um homem encontra estranhas pedras cobertas com a confusa escrita Aklo do Povo Pequeno, e ao tentar decifrar esses objetos acaba despertando a ira das criaturas. 

Mas em nenhuma outra estória a presença do Povo Pequeno causa tanta repulsa e horror quanto em "The Great God Pan". Não por acaso, na opinião de H.P. Lovecraft esta é uma das maiores obras de literatura fantástica escritas. Nessa genial estória, o Povo Pequeno age de forma demoníaca e absolutamente maligna. Em "O Grande Deus Pã" as criaturas estão dispostas não apenas a assassinar, mas violentar e enlouquecer a protagonista a ponto de fazer com que a realidade perdesse o sentido na sua mente combalida.

Arthur Machen talvez tenha sido o primeiro dos autores de ficção fantástica a tratar do Povo Pequeno e das fadas perversas, mas com certeza ele não foi o único. Jovens autores são inclinados a emular escritores que eles admiram e respeitam, Robert E. Howard não era exceção. O autor americano, muito lembrado pelos seus contos dentro do gênero Sword & Sorcery (Conan, Kull, Solomon Kane) demonstrou claramente sua afinidade com a obra de Machen ao utilizar o Povo Pequeno em muitas (e excelentes) estórias.

Howard tomou emprestado o Povo Pequeno para alguns de seus mais celebrados contos dentro do gênero Horror. Coube a ele também fazer a ligação entre o Povo Pequeno e as entidades do Mythos de Cthulhu.

Na concepção de Howard, o Povo Pequeno é o blasfemo resultado da união de uma raça anti-diluviana, o Povo Serpente da Valúsia com seres humanos. Os primeiros homens a colonizar as Ilhas Britânicas encontraram ali uma sociedade formada por medonhos Homens Serpentes, espécie ancestral cuja civilização, em um determinado tempo extremamente avançada na ciência e na magia, vinha decaindo gradativamente. Incapazes de enfrentar o grande número de humanos que migrava para seus domínios, o Povo Serpente foi retrocedendo cada vez mais para o interior da ilha. Logo eles tinham razões para temer sua própria extinção. Como forma de perpetuar a espécie, alguns tentaram procriar com fêmeas humanas gerando criaturas híbridas que não podiam se passar por humanos, mas que guardavam algumas similaridades com estes.

Vistos com desconfiança e repulsa pelos conquistadores humanos, os híbridos se refugiaram sob ravinas e montanhas, escavando túneis cada vez mais profundos no solo. Numerosos refúgios existiriam na Britânia Central e no País de Gales, locais até pouco tempo intocados pela presença humana. O tempo e o completo isolamento, em conjunto com as costumes selvagens por eles praticados, terminaram por sepultar de vez qualquer traço de humanidade que um dia vieram a possuir. O resultado foi uma progressiva degeneração em uma raça primitiva, bárbara e feroz.

Chamados em algumas estórias de "Vermes da Terra", o Povo Pequeno de Howard é tão (ou até mais) perigosos do que o criado por Machen.

"The Little People" foi o primeiro conto de Howard trazendo a raça de híbridos degenerados que habitam as montanhas selvagens do País de Gales. Um dos personagens, um jovem dono de terras recém chegado a isolada região cita Machen e "The Shinning Pyramid" referindo-se ao ambiente tenebroso onde escolheu fincar raízes. Pouco depois, horríveis criaturas tentam raptar sua irmã e arrastá-la para os subterrâneos. Ele deve resgatá-la de um destino pior do que a própria morte.

No conto seguinte, "The Children of the Night" (considerada uma de suas melhores estórias de horror) Howard aprofunda a ligação entre o Povo Pequeno e o Mythos de Cthulhu relacionando as criaturas com seu próprio Tomo de conhecimento profano, o Nameless Cults. Nessa estória, o narrador acidentalmente descobre ter sido lançado em um passado ancestral, habitando o corpo de uma prévia encarnação, na época em que homens enfrentavam o Povo Serpente pelo controle das Ilhas Britânicas. Após lutar com dezenas de híbridos com feições reptilianas, ele retorna a sua época deparando-se com uma revelação chocante.

"People of the Dark", o conto seguinte envolvendo o Povo Pequeno também está inserido no universo do Mythos. Nessa aventura negra, o narrador novamente é transportado para o corpo de um antepassado - no caso ninguém menos do que o próprio Conan o Bárbaro (personagem icônico de Howard). Uma vez habitando o corpo do cimério ele enfrenta uma situação, que guarda estranha similaridade com os acontecimentos recentes de sua vida. Ele tem que enfrentar um rival, resgatar sua amada e ainda confrontar horrendas criaturas que habitam o interior de uma caverna.

Finalmente "Worms of Earth" é o conto mais significativo da série de Howard a respeito do Povo Pequeno (e de longe o meu favorito!). Na trama, o líder bárbaro Bran Mak Morm (anteriormente citado em "The Children of Night"), promete vingança contra os romanos que invadiram as Ilhas Britânicas e massacraram seu povo. Ele se alia aos vermes da terra, uma raça de seres banidos para as profundezas pelos seus antepassados e que se transformaram em monstros bestiais. Para forçar os vermes da terra a conquistar seu intento, Bran deve recuperar um artefato perdido e assim fazer com que as criaturas obedeçam suas ordens. Mas prestes a conquistar sua tão desejada vingança, Bran descobrirá que algumas alianças não devem ser forjadas, nem mesmo contra o poder de Roma.             

Pioneiros da ficção fantástica como Arthur Machen e Robert E. Howard conseguiram subverter os contos de fadas pintando as lendas infantis com cores sombrias e sinistras. Sua contribuição continua gerando frutos ao longo dos anos com contos de fadas nada indicados para crianças. Se obras como o filme "O Labririnto do Fauno", as séries "Grimm" e "Once Upon a Time" ou os quadrinhos da Vertigo intitulado "Fábulas" existem hoje em dia, devem muito aos precursores que trilharam antes esse caminho.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Resenha | Conan - O Bárbaro (2011)

Esse final de semana assisti ao novo filme Conan, o Bárbaro. Como todos já devem ter percebido pelos artigos nessa última semana, sou um grande fã de Robert E. Howard e das histórias que ele escreveu, sobretudo aquelas que envolvem Conan. Por esse motivo, é claro, eu estava aguardando ansiosamente pelo filme.

Mas, é claro, eu vinha acompanhando as críticas destruidoras que o filme recebeu. Li uma série de resenhas e a maioria delas desanca com a produção. Frases como "pior coisa que eu já vi", "simplesmente ridículo" e "guarde seu dinheiro, evite esse filme à todo custo", são apenas alguns dos comentários que encontrei. Confesso que essa reação me deixou bastante preocupado.

Eu nunca esperei um filme sensacional. Jamais imaginei que ele seria um marco, uma obra definitiva, um divisor de águas - assim como o primeiro Conan não o é. O que eu esperava, e digo isso sinceramente é que o filme conseguisse cumprir a simples tarefa de ser divertido. Algo capaz de entreter e empolgar em alguns momentos.

Foi com esse espírito que resolvi assistir ao filme sem me deixar envenenar pelos comentários depreciativos. Quando o filme terminou cheguei a seguinte conclusão: Embora Conan não seja um filme de ação memorável, ele não é (nem de longe!) terrível como estão pintando. Não vou, contudo, eximir o filme de seus defeitos, eles existem e não são poucos.

O filme peca a começar pelo roteiro escrito por três roteiristas que aparentemente não conhecem à fundo o personagem título. O Conan que aparece no filme não é exatamente o bárbaro idealizado por Howard e terem mexido em sua gênese talvez tenha sido o maior dos problemas.

É impossível falar desse Conan 2011, sem fazer comparações com o filme original de 1982, por isso vou mencionar os dois e citar várias vezes as suas diferenças.

O primeiro ponto é que o foco central das estórias de Howard, a luta entre o barbarismo e a civilização, embate no qual o primeiro sempre sairá vitorioso, é tratado muito superficialmente. O filme original de 1982, com roteiro de Oliver Stone, conseguia compreender o tema ao estampar antes até dos créditos iniciais a frase de Nietzsche: "Aquilo que não me mata, fortalece". Conan era acima de tudo um sobrevivente, disposto a tudo para sair vivo, um sujeito que não se importa com regras, a não ser aquelas que ele mesmo faz. A versão 2011, faz de Conan um bárbaro que em certos momentos parece se desculpar por ser um bárbaro. Ele não demonstra desprezo para com a civilização. O Conan dessa nova versão chega a libertar escravos pois na sua opinião "nenhum homem deveria viver acorrentado".

Eu também não gostei da forma que o novo filme aborda os cimérios. Se no primeiro eles eram um povo rude e violento, que vivia e morria pela espada, neste eles parecem preocupados demais com laços de família. Antes eles eram um clã de guerreiros, agora eles são uma comunidade que fica horrorizada quando Conan ainda criança mata sem dó nem piedade um bando de saqueadores. Ou os caras são bárbaros ou não! Não dá para ser bárbaro só de vez em quando...

Mas não quero perder o fio da meada, voltemos ao roteiro. Eu me pergunto: "Será que seria tão difícil adaptar um dos contos originais escritos por Howard"?

Quer dizer; o sujeito escreveu verdadeiros clássicos do gênero Sword & Sorcery, então porque não adaptar uma dessas estórias ao invés de se arriscar criando uma nova? Os fãs iriam ao delírio com "Colosso Negro", "A Witch Shall be Born" ou mesmo o imortal "A Torre do Elefante", se qualquer um desses contos fosse adaptado para o cinema... mas não.

No início do filme, uma voz (a lá Morgan Freeman) apresenta a Era Hiboriana e uma tal "Máscara de Acheron", um artefato maligno, poderoso e o escambau, que no passado foi usado por uma raça antiga para tentar dominar o mundo. Tribos bárbaras lutaram contra o tal povo de Acheron (os caras maus) e conseguiram vencer. Ao invés de destruir a máscara, os vitoriosos, resolveram quebrá-la em várias partes e deixar um fragmento com cada tribo (o que poderia dar errado?). É claro, um desses fragmentos, fica em poder dos cimérios.

Corte na introdução e vemos Conan literalmente nascendo em um campo de batalha, quando seu pai, Corin (um envelhecido Ron Perlman usando um barbão épico, 100% poliester) faz uma cesariana com espada na própria esposa. A mulher morre para que Conan - um bebê meio mirrado - possa nascer.

O tempo passa e vemos o jovem Conan participando de algo que só pode ser definido como "parkour bárbaro" - atravessar uma floresta cheia de obstáculos carregando um ovo. O rapaz logo demonstra ter incríveis habilidades como guerreiro, a ponto de vencer inimigos adultos (os sempre confiáveis saqueadores pictos) com as mãos nuas. Apesar dessa façanha, seu pai acha que só quando ele aprender a controlar sua fúria (!?!) poderá se tornar um grande guerreiro (Sério mesmo? Ser um bárbaro furioso funcionou muito bem na hora de despachar cinco inimigos, mas o cara quer controle? Tá bom, vá lá...)


Não demora para que os Cimérios sejam atacados por um malvadão que está (pasmem!) tentando reaver as partes da máscara maldita. O vilão chamado Khalar Zym (Stephen Lang) pretende usar a máscara para ganhar poder (não brinca!), reviver a esposa morta (romântico ele) e se tornar um Deus (modesto também). Para auxiliá-lo nessa missão ele conta com a filha, Marique (Rose MacGowan) uma feiticeira esquisita com quem aparentemente mantém uma relação meio incestuosa.

Os cimérios são massacrados por Khalar Zym e seus homens, Conan é o único sobrevivente. Ele assiste a morte de Corin e jura sobre o cadáver um dia se vingar (tan-tan-tan!). Até aí nenhuma novidade, acho que nada disso é spoiler.

Khalar Zyn é um vilão meio convencional, embora ele não esteja ruim, não chega a empolgar e falta carisma ao personagem. Não sabemos muito a respeito dele: de onde veio, como ele se tornou líder de uma horda, porque os outros o servem... tudo isso fica meio que no ar sem uma resposta.

O tempo passa mais uma vez e quando Conan aparece novamente já se transformou no sujeito bombado que conhecemos como o Karl Drogo na série Game of Thrones. Vamos direto a pergunta que não quer calar: "Jason Momoa é um bom Conan"?

Uma coisa deve ser dita, o cara sua a camisa (não literalmente, já que está sempre sem ela) para fazer um bom Conan. Ele não decepciona no papel de bárbaro: mata tudo o que se move com desenvoltura, faz boas cenas de ação e luta, trata mal as mulheres e come tudo rápido fazendo questão de mastigar de boca aberta. Em termos de Hollywood é um bárbaro perfeito. Mas sem brincadeira, o ator se sai bem o bastante para não comprometer o filme. Acho até que se Momoa não tivesse sido escalado como Conan, muita gente iria reclamar e perguntar porque o sujeito que fez um clone do Conan em Game of Thrones não foi escalado para viver o próprio.

Seja como for, Conan descobre uma pista que o leva até Khalar Zym o que reascende nele o desejo de vingar a chacina de seu povo. Infelizmente Zym está prestes a conseguir cumprir a sua meta, tudo que ele precisa é encontrar uma mulher com sangue puro de Acheron para ativar a máscara maligna. A sua busca o leva até Tamara (Rachel Nichols), uma sacerdotiza que escapa da destruição de seu templo e dos bandidos graças ao próprio Conan.

A dupla então resolve unir forças e planeja uma maneira de deter os planos de Khalar Zym. Ao longo do filme há espaço de sobra para muitas lutas, vilões rosnando, grunhindo e praguejando, explosões e algumas cenas bacanas (em especial uma em que Conan devolve um dos bandidos ao seu patrão via aérea, usando uma catapulta).

As sequências de combate são bem coreografadas e se não apresentam grandes novidades também não são decepcionantes. Conan, o bárbaro como não poderia deixar de ser tem várias lutas de espada, sangue espirrando para todo o lado e membros sendo amputados. Um amigo achou meio fraco no quesito sangue e vísceras, mas o cara é fã de quanto mais sanguinolento melhor... ao meu ver estava dentro do esperado e o filme cumpre a premissa básica de mostrar um sujeito forte pra cacete batendo em inimigos até transformá-los em polpa. O que mais se poderia querer?

Em contra-partida se a porção Sword (espada) estava bem servida, a metade Sorcery (feitiçaria) deixou um pouco a desejar. Dois elementos essenciais no gênero são pouco explorados no filme: monstros medonhos e feitiçaria.

Embora o filme tenha um monstro até bacana que surge metade final, tudo o que aparece da criatura são os tentáculos tentando agarrar os personagens e esmagá-los. Poxa, se uma série de tentáculos aparecem e dão trabalho, espera-se que mais cedo ou mais tarde o dono desses mesmos tentáculos apareça em toda sua glória, não importa se vai ser tosco ou não. Mas a cena acaba sem o mostro dar as caras o que é meio frustrante. Parece que não rolou verba para o bicharoco ser feito em CGI.

A filha do Khalar Zym, até faz uma boa bruxa (de longe é melhor vilã que o pai) mas a personagem é pouco explorada e fica meio que perdida na trama. Parece que ela vai ter um papel fundamental em algum momento da história, mas ela acaba sendo desperdiçada como apenas mais um dos bandidos. Uma pena pois a atriz consegue chamar a atenção pela bizarrice, seria muito mais proveitoso se concentrar nela do que na mocinha da estória, enjoadinha pacas, apesar de Conan não dispensar uns malhos nela.

Bom, o final do filme não tem lá grandes surpresas, as coisas acontecem da forma que você imagina que vão acontecer e tudo caminha para um desfecho previsível com a óbvia luta final em que o personagem principal vai ter a sua vingança e os bandidos vão acabar se ferrando feio.

Conan, o bárbaro é dirigido por Marcus Nispel cujas credenciais incluem a sofrida adaptação de Sexta Feira 13 e o "épico" Pathfinder - onde vikings e índios se enfrentam. Algum produtor deve ter achado isso o suficiente e passaram Conan para as mãos dele. Ao meu ver bem que poderia ter sobrado para alguém mais experiente capaz de construir um roteiro melhor.

Fui ver esse filme sem nenhuma espectativa, e apesar das limitações, Conan consegue ser um filme divertido. Ele passa longe do original que contava com um roteiro amarrado, trilha sonora grandiosa de Basil Polidorius (um clássico para mesas de D&D) e um certo ator de nome complicado que logo iria virar estrela dos filmes de ação. De qualquer forma, o meu maior temor - que o filme fosse uma versão infantilóide ao estilo "O Escorpião Rei" - graças à Crom, não se confirmou.

Conan é uma aventura descompromissada com o mesmo pedigree dos filmes que passavam na sessão da tarde nos bons e velhos tempos. Se você está disposto a desligar o cérebro por quase duas horas enquanto assiste um cara matando 4/5 dos personagens em cena, então pode assistir sem medo.

Confiram o Trailer legendado:

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dívida de Sangue - O Cimério em Quadrinhos

Por Clayton Mamedes

Como muitos de nós, tive o meu primeiro contato com o Cimério de Bronze através dos dois filmes estrelados por Arnold Schwarzenegger. Contudo, uma imensa parcela da minha experiência com Conan tem origem nas páginas das histórias em quadrinhos.

Na rua onde eu morava antigamente, existia o Calango, o irmão mais velho do lendário Duda (da velhíssima guarda do RPG), com quem dividíamos mesas de Gurps Fantasy, Velho Oeste, Mafia e outras coisas. Este irmão do Duda possuía pilhas de revistas de formato grande, com ilustrações em preto-e-branco. Assim li a minha primeira A Espada Selvagem de Conan, isso lá em 1993.

A Espada Selvagem foi publicada no Brasil de 1984 a 2001, totalizando 205 edições mensais, onde tínhamos as aventuras insanas do Cimério, acompanhado algumas vezes de outros personagens criados pro Robert E. Howard, como Kull, o Conquistador, Salomão Kane e Bran Mark Morn. Além disso, existiu a versão colorida desta revista, que sobreviveu a 13 edições na década de 90. Para os mais fanáticos, Conan ainda protagonizou uma edição “gibizinho”, pequena e colorida chamada de Conan, o Bárbaro, que circulou de 1992 a 1997, em 59 números. A estes título regulares, podemos ainda somar diversas coletâneas ou edições especiais, tais como Graphic Marvel e outras.

Fuçando no meu armário, encontrei algumas edições dignas de nota, que compartilho com vocês em algumas fotos e comentários sugestivos.

A Espada Selvagem de Conan #104:
Esta edição tem um significado especial para mim. Ela conclui a saga da Caveira dos Mares, cujo início foi no exemplar 101. É simplesmente um épico genial, escrita pelo lendário Roy Thomas e ilustrada pelo inesquecível John Buscema.

Destaque aqui para a participação dos Serpent People, diretamente extraídos dos confins dos Mythos. O bacana é que na HQ utilizam a frase que anula a magia Consume Likeness, muito utilizada pelo povo serpente para se passar por humanos: “Ka Nama Kaa Lajerama!”




A Espada Selvagem de Conan #127:


Este número traz umartigo um tanto curioso: um relato sobre um filme perdido de Conan. Nele, um tal de Charles Alexander Piltdown alega ter adquirido uma escrivaninha em leilão, que pertencera a Willis O' Brien, designer de produção do filme King Kong, em 1934. Junto com o móvel havia alguns esboços de um roteiro e ilustrações para um filme do Cimério, chamado Blood and Ice, onde o próprio Howard estaria colaborando. Ao que tudo indica, o filme não saiu da fase de planejamento devido à morte prematura do escritor. Será?


Graphic Marvel #12 – Conan, o Indomável
Conan visitou as páginas da série Graphic Marvel também, desta vez com mais uma história da famosa dupla Buscema e Thomas, desta vez colorida. Obviamente, a mulherada não poderia faltar. Gosto muito desta capa.

A Espada Selvagem de Conan #100
A centésima edição da Espada Selvagem nos trouxe uma trama muito peculiar. Nela, a jornada de Conan em uma taverna muito suspeita tem a sua narrativa intercalada com a incursão de Howard em um bar nefasto na fronteira mexicana. Criador e criatura juntos em plenos anos 90! Fico devendo a foto real da edição, pois a minha está emprestada. Pelo menos sei com quem está!

Conan, o Bárbaro #2

O segundo volume da revista “gibizinho” do Cimério traz outra grata surpresa: uma quadrinização do clássico conto “A Torre do Elefante”. É uma das minhas histórias favoritas. Na verdade, A Torre já havia sido quadrinizada por Roy Thomas e John Buscema na Espada Selvagem #11, porém esta versão aqui foi desenhada pelo lendário Barry Smith, com argumento de Thomas novamente; esta foi a primeira versão, apesar de ser publicada aqui depois.


Rei Conan
Esta mini-série em 8 edições foi publicada para concluir a saga de Conan como rei da Aquilônia, iniciada em 1990, com as 24 edições de Conan Rei, em formato americano e colorido. Aqui no fechamento do ciclo temos um Cimério casado com Zenóbia e com um filho, de mesmo nome, mas conhecido como Conn.

Conan Saga #1
Em 1993, A Espada Selvagem entrou em nova fase: as histórias ali contadas seriam em ordem cronológica, relatando períodos específicos da vida do Cimério. Já as tramas fechadas ou especiais, seriam publicadas em Conan Saga, que durou 17 edições. Destaque neste primeiro número para a horripilante “A Morte Espreita no Labirinto” (sim, me assustei quando li) e a “Fúria das Femizonas”, onde temos um futuro alternativo dominado pelas mulheres!!.

Assim concluo esta minha breve colaboração ao blog. Ao invés de focar o artigo em fatos objetivos sobre as HQs de Conan no Brasil, preferi uma abordagem mais pessoal, com relatos das obras que pude ler e apreciar. Garanto que foi uma fase inesquecível de minha vida e que deixou saudades, principalmente por não termos mais publicações regulares do Cimério por aqui nas nossas bancas.

Quem sabe com o novo filme, alguma editora não se anima e reedita A Espada Selvagem? Seria um boa notícia em tanto.

sábado, 17 de setembro de 2011

As melhores opções para ler a obra de Robert E. Howard

Robert E. Howard é um escritor bem conhecido e ao longo dos anos ele foi publicado em vários idiomas em um grande número de antologias que reúnem seus contos mais importantes. Infelizmente o leitor brasileiro não tem acesso a obra inteira de Howard pois apenas parte de seus contos foi publicado em português.

Abaixo estão três opções para conhecer o personagem mais importante criado por Howard: Conan, o Bárbaro.

Livros em Português:

Existem três livros publicados em português devotados aos contos de Robert E. Howard.

A Editora Conrad lançou dois volumes caprichados com o título "Conan, o Cimério". Cada edição contém contos clássicos escritos por Howard, além de alguns extras como fragmentos de textos, notas a respeito dos contos e alguns rascunhos incompletos.

A tradução dos contos é excelente e a edição não deixa nada a desejar à versão original americana (intitulada "The Coming of Conan the Cimmerian"). As páginas são adornadas por belíssimas imagens - assinadas por Mark Schultz - em preto e branco na beirada dos textos e algumas em página inteira.

Uma pena que estas edições estejam esgotadas, mas ainda é possível encontrar em algumas livrarias, sebos ou em grandes lojas online. Vale muito a pena!

Conteúdo:

O Volume 1 traz os seguintes contos: "Ciméria", "A Fênix na Espada", "A Filha do Gigante de Gelo", "O Deus na Urna", "A Torre do Elefante", "A Rainha da Costa Negra" e "Colosso Negro". Entre os extras estão esboços, fragmentos de alguns textos, sinopses e o ensaio "Gênese Hiboriana". Embora esse material seja interessante eu preferia o espaço ocupado por mais um ou dois contos, mas creio que a edição original tenha esse formato.

O Volume 2 é composto dos seguintes contos: "A Cidadela Escarlate", "Sombras de Ferro sobre a Lua", "Xuthal do Crepúsculo", "O Poço Macabro", "Inimigos em Casa", "O Vale das Mulheres Perdidas" e "O Demônio de Ferro". A edição acompanha sinopses, fragmentos, rascunhos e notas sobre os contos.

Infelizmente o terceiro volume que fechava a coleção não chegou a ser publicado pela Conrad.

Aproveitando a carona do novo filme (reparem na capa), a Editora Generale lançou recentemente um volume intitulado Conan, o Bárbaro com mais alguns contos do personagem inéditos em português.

A edição traz ainda "A Hora do Dragão", o único romance escrito por Howard ao longo de sua carreira, e uma seleção de três ótimos contos: "Além do Rio Negro", "As Negras Noites de Zamboula" e "Os Profetas do Círculo Negro".

A tradução de Alexandre Callari é ótima e a edição, embora não conte com a inspiradora arte em preto e branco em suas páginas, tem um bom acabamento e um prefácio assinado por Roy Thomas, o lendário editor da Marvel Comics.

Livros em Inglês

Para o leitor que domina o idioma inglês, há muitas opções para conhecer a obra de Robert E. Howard. Uma boa opção é a antologia em três volumes que deu origem a edição brasileira. "The Coming of Conan the Cimerian", "The Bloody Crown of Conan" e "The Conquering Sword of Conan" lançados pela Editora Del Rey com ótimo acabamento. Todos eles podem ser encontrados no Amazon.com com um preço bem acessível.

Entretanto, na minha opinião quem realmente é fã do personagem ou quer conhecê-lo deve optar pelo tomo lançado pela Gollancz: "The Complete Chronicles of Conan".

Essa edição especial é simplesmente espetacular!

A Gollancz também é responsável por "Necronomicon - The Best Weird Tales of H.P. Lovecraft" que recebeu uma resenha aqui no blog. A qualidade é basicamente a mesma.

A capa dura com imitação de couro e letras douradas dá uma idéia do luxo e beleza desse imponente volume de 930 páginas (!!!)

A contra capa tem o mapa do Mundo Hiboriano conforme esboço do próprio Howard.

O livro contém TODOS os contos originais de Conan, poesias, manuscritos inacabados e ensaios assinados por Robert E. Howard, além de em posfácio contando a importância desses contos para a criação de um gênero literário próprio (o Sword & Sorcery) e a biografia comentada do autor.

O livro traz ainda uma boa arte em preto e branco e desenhos de rodapé.

A edição tem um acabamento impressionante e a melhor parte é que esse tremendo livro não custa mais do que US$ 25,00 (mais o frete) em boas livrarias online. Para quem é fã, é um livro quase obrigatório!

Quadrinhos da Marvel:

Finalmente existe a opção de conhecer a obra de Howard através de quadrinhos editados nos anos 70 pela Marvel.

As primeiras estórias de Conan em que eu pus as mãos foram os quadrinhos que saíram aqui pela Editora Abril ao longo dos anos 80. A revista mensal "Espada Selvagem de Conan" marcou época e tenho certeza, muitos aqui leram as sangrentas estórias adaptadas pelo genial Roy Thomas que formava parcerias imbatíveis com monstros sagrados do desenho como John Buscena, Ernie Chan e Alfredo Alcala.

É uma pena que a revista "Espada Selvagem" tenha acabado. Depois da saída de Thomas a qualidade caiu um bocado, mas enquanto esteve na revista (por mais de 40 edições) ela era incrível.

Bom, para aqueles que assim como eu guardam suas edições amassadas e amareladas na casa dos pais, aqui vai uma dica. A Dark Horse lançou volumes encadernados, cada um com 500+ páginas trazendo o melhor da extinta "The Savage Sword of Conan".

Eu comprei os dois primeiros volumes e tenho outros já na alça de mira. A coleção já está em seu décimo volume, embora o filé mignon sejam os cinco primeiros volumes (que pega a fase do Thomas).

São exatamente as mesmas estórias que saíram aqui, com aquela arte vibrante em preto e branco invocando toda a ferocidade das batalhas e com os roteiros imortais de Roy Thomas, um verdadeiro poeta do barbarismo.

Para quem se amarrava nessas estórias é quase uma viagem no túnel do tempo.

Ah sim, a parte legal é que esses encadernados estão sempre em promoção em livrarias online como a Amazon.com, Barnes & Noble e a Book Depository. Em média uma dessas edições custa algo em torno de US$ 12 a 15 dólares (mais o frete), um bom preço para um tremendo calhamaço de 500 páginas.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

As Viagens de Conan - Cronologia do Personagem (Parte 2)

Continuando com a viagem e as aventuras de Conan.

Eventos acabam conspirando para que Conan desistisse de tentar transformar os Afghulis em um exército regular. Depois de vagar por algum tempo nas ricas terras de Vendhia ele segue para oeste explorando Kosala. Com pouco dinheiro e com sua cabeça à prêmio em toda região, ele visita a cidade de Zamboula onde pretende ganhar algum dinheiro.

Em "As Negras Noites de Zamboula" (Shadows in Zamboula), Conan cruza o caminho de um assustador culto canibal Darfari que venera o Deus Macaco Hanuman. Depois de extrair vingança contra um sinistro estalajadeiro, Conan retorna às terras hiborianas com 29 anos de idade.
Howard planejava escrever um conto à respeito de Conan roubando a jóia conhecida como Estrela de Khorala e pedindo um resgate real da Rainha de Ophir, mas esse conto não foi finalizado pelo escritor.

Pouco depois, estoura uma batalha naval entre Argos e a Estígia e Conan chega a tempo de se alistar na Marinha sob o comando de Zapayo de Cova. O plano é que a marinha argoseana ataque o litoral da Estígia, enquanto seus aliados kothianos invadem as fronteiras cercando a cidade estuária de Khemi. O plano falha quando Koth trai a aliança e faz a paz com os estígios. Em desespero, os mercenários tem que escapar cruzando o deserto à leste de Shem sob ataque constante dos soldados estígios.

Em "Drums of Tombalku" Conan acaba capturado e levado até a cidade de Tombalku para ser executado. O destino coopera com o cimério, quando o Rei Sakumbe o reconhece como sendo Amra, o Leão. Os dois foram compaheiros de armas nos tempos entre os corsários negros. Sakumbe promove Conan a General de suas tropas, pouco antes de ser deposto e morto em um golpe.

O bárbaro segue para os reinos negros ao sul de Kush. Nessa época ele assiste um ritual envolvendo o símbolo de Jhebbal Sag, uma entidade que detém poder sobre os animais. Conan aprende a desenhar o glifo que lhe será útil no futuro. Aproveitando sua reputação como Amra, conquistada ao lado de Bêlit, o bárbaro se torna chefe de guerra de uma tribo negra.

Em "O Vale das Mulhees Perdidas" (The Valey of Lost Women), ele quebra uma trégua firmada entre tribos durante um conselho de guerra para salvar uma mulher hiboriana que foi escravizada. Ele consegue garantir que a mulher retorne para a Estígia e conquiste sua liberdade.
Aos 30 anos, Conan viaja pela costa oeste oferecendo sua espada como pirata das Ilhas Barachas. Ele passa a servir à bordo de um navio e se torna um líder entre os marinheiros. Seu nome é sussurrado com um misto de medo e admiração quando ele passa a integrar a "Irmandade Vermelha". Afundando navios e saqueando cidades portuárias ele passa a ser um dos maiores predadores do Mar Ocidental. Alvo de intrigas entre rivais, que invejam sua posição de prestígio, Conan sofre uma tentativa de assassinato em Porto Tortage, mas escapa mergulhando no mar.

Em "O Poço Macabro" (The Pool of the Black Ones) Conan é resgatado por uma nau comandada pelo renegado capitão Zingaro, Zaporavo. Aceito na tripulação ele toma parte em vários saques e na destruição de navios mercantes, por fim o barco chega a uma ilha misteriosa. Conan conspira para substituir o capitão quando os piratas desembarcam, mas a situação foge do controle. Selvagens de pele negra que habitam a ilha capturam a tripulação e planejam sacrificar cada homem em um poço com poderes sobrenaturais. Conan salva os marinheiros e é feito capitão da embarcação prometendo guiar a nau até "portos ricos e navios mercantes carregados de pilhagem".

O trabalho como capitão o ocupa por quase um ano inteiro, dividindo seus ataques entre as rotas comerciais e navios piratas pertencentes aos Barachos que o traíram. Tranformado em corsário, o bárbaro experimenta grande sucesso em suas investidas contra a marinha Argoseana e Estígia. Sua sorte se mantém até que o barco é colhido numa tempestade e lançado contra recifes na costa de Shem. Depois de se recuperar, Conan vaga por algum tempo nas cidades shemitas aguardando alguma guerra ou conflito onde possa vender sua espada, mas o período é de relativa paz.

Sua notoriedade se espalhou pelas terras hiborianas e sua cabeça está à prêmio em Turan, Argos, Zingara e na Estígia. Eventualmente, Conan viaja para a Ciméria a fim de rever sua terra natal. Em seguida toma o caminho do sul novamente, conhecendo a Aquilonia. Ele tem 34 anos.
Viajando pela Aquilônia ele fica sabendo que existe trabalho na região de Westermark. Recrutado no exército regular ele logo se torna oficial e é despachado para o Forte Tuscelan em Conajohara no coração dos Sertões Pictos. A vida na fronteira é perigosa desde que Numedides, o recém coroado Rei da Aquilonia, decidiu reduzir as tropas que defendem a fronteira contra os selvagens pictos.

Em "Além do Rio Negro" (Beyond the Black River) Conan enfrenta o feiticeiro Zogar Sag que conseguiu unificar as tribos de pictos e lançar um ataque devastador contra os colonos. A invasão liderada pelo bruxo é sangrenta e o Forte é destruído. Conan consegue avisar os aquilonianos à tempo de guarnecer a cidade de Velitrium e estancar o avanço dos selvagens salvando milhares de vidas. O cimério também consegue vingar a morte de colonos inocentes assassinando Zogar Sag e enfrentando o demônio do pântano que o serve.

Presume-se que Conan passa mais alguns meses à serviço da coroa da Aquilônia atacando focos de revoltas dos pictos e tribos hostis que continuam infernizando a região. Ele toma parte em pelo menos três incursões pelas densas florestas e pântanos comandando soldados ou avançando solitariamente com o intuito de matar os "selvagens pintados".

Em The Black Stranger, Conan consegue escapar de implacáveis caçadores pictos e encontra o legendário tesouro do pirata Tranicos depositado nas profundezas de uma caverna. De posse do tesouro ele planeja retomar sua vida de corsário comprando um navio e armando uma tripulação. Seus planos acabam indo para o inferno quando o porto onde Conan está refugiado é atacado pelos pictos. Aos 35 anos, seu tesouro acaba se perdendo e ele se vê novamente sem dinheiro.

Conan acaba retornando a "Irmandade Vermelha" como capitão do "Mão Vermelha" uma embarcação que leva o caos às rotas comerciais defendidas pela marinha Zingara. Para deter o cimério, a marinha real envia vários navios de guerra no encalço do pirata, eles obtém sucesso e afundam o Mão Vermelha após uma longa batalha naval na costa de Shem. O capitão sobrevive ao desastre nadando para a costa.

Meses mais tarde Conan fica sabendo que os "Companheiros Livres" sob o comando de Zarallo, planejam reestruturar a companhia mercenária. O bárbaro cavalga até a fronteira com a Estígia onde os mercenários fazem seu primeiro ataque conquistando a cidade de Sukhmet. Nessa campanha Conan conhece a pirata Valéria da Irmandade Vermelha acusada de esfaquear um capitão da tropa e fugir. Conan apaixonado pela pirata resolve segui-la.

Em Red Nails, Conan e Valeria matam um dragão (na verdade um dinossauro) que defendia a cidadela perdida de Xuchotl e em busca de riquezas exploram o lugar envolvendo-se em um feudo de sangue entre duas facções rivais.

A dupla participa de algumas aventuras nos arredores da Costa Negra mas acaba se separando. Valéria retorna ao mar, enquanto Conan decide investigar os rumores sobre um fabuloso tesouro em uma terra mística no extremo oriente, chamada Keshan. O cimério empreende uma longa viagem cruzando planícies, selvas e montanhas até finalmente atingir a cidade real de Keshia. A reputação do bárbaro aparentemente havia chegado a essas terras distantes e ele é contratado para comandar o exército contra seus inimigos hereditários na nação de Punt.

No decorrer dessa guerra, Conan tem a oportunidade de explorar as ruínas de Alkmeenon na estória "Jewels of Gwahlur". Nesse lugar abandonado ele descobre o lendário tesouro conhecido como Dentes de Gwahlur. Com 37 anos, ele resolve se retirar por algum tempo ao lado da hiboriana Muriella. Mas o chamado da aventura acaba contagiando o bárbaro pouco mais de um ano depois.

Retornando às terras hiborianas, Conan fica sabendo que o governo do Rei Numedides lançou a Aquilônia - o mais poderoso Reino Hiboriano - em um caos sem precedentes. Poderosos inimigos se aproveitam do clima de instabilidade para reinvindicar terras além da fronteira. Alistado no exército da Aquilônia, Conan faz valer a sua indicação como comandante de regimento e enfrenta bravamente invasores Zingaros na província de Poitain. O combate é sangrento e o bárbaro assume o cargo de General de todo o exército aquiloniano para forçar uma vitória decisiva. Conan se torna o grande herói da guerra por destruir a poderosa armada Zingara e recuperar Poitain.

Numedides convoca o comandante vitorioso para a Capital, Tarantia e o apresenta como o salvador da Aquilônia. O bárbaro é ovacionado e seu nome gritado pela população, mas os bons tempos não durariam muito. Temendo a popularidade de seu general, Numedides ordena que ele seja preso na infame Torre de Ferro.

Ajudado pelo Conde Trocero e outros nobres insatisfeitos com o reinado de Numedides, Conan consegue escapar da prisão infernal e é conduzido até Poitain onde já se fala abertamente de uma revolta armada e um exército começa a se formar. Trocero recebe ordens de desmantelar sua tropa, mas ao invés disso prepara seus homens para a batalha nomeando Conan o comandante geral. Após uma vitória triunfal no campo de batalha, o caminho para Tarantia está aberto e Conan marcha para capturar a capital. Ele estrangula Numedides no salão do trono e toma a sua coroa sagrando-se Rei por seus próprios méritos. Conan tem quase 40 anos quando o sonho de conquistar um trono torna-se realidade.

A vida de rei não é uma cama de rosas para o recém sagrado regente da Aquilônia. Vários nobres não estão satisfeitos em ter um bárbaro no trono, mas a população reage bem às suas medidas que diminuem os impostos e restringem os abusos de décadas.

Em "A Fênix na Espada" (The Phoenix on the Sword), Conan enfrenta a primeira e mais séria ameaça ao seu governo quando Quatro conspiradores aquilonianos tramam seu assassinato e um golpe de estado, mas o bárbaro consegue desmascarar os envolvidos no plano.

Cerca de um ano depois desse complô, Conan assina um acordo com a nação de Ophir. Pouco depois, Ophir pede ajuda a Aquilonia para repelir uma invasão do Reino de Koth. O Rei envia um contingente de cinco mil homens para lutar mas descobre que foi traído.

O Rei é feito prisioneiro em "A Cidadela Escarlate" (The Scarlet Citadel) , por ordem de Amalrus de Ophir e Strabonus de Koth. Ele fica preso na Cidadela Escarlate, mas consegue escapar da masmorra com a ajuda de um prisioneiro, o feiticeiro Pelias de Koth.

De volta a Aquilonia ele contém uma revolta punindo os nobres que tencionavam entregar o reino a Koth e Ophir. Conan move a corte de volta a Tarantia e passa a viver no suntuoso palácio que pertenceu a Numedides.

Em "A Hora do Dragão" (The Hour of the Dragon) um plano de reestruturar as fronteiras hiborianas é colocado em curso quando o feiticeiro ancestral Xaltotun de Acheron é trazido de volta à vida. Os aliados do mago usurpam o trono da Nemedia e conseguem depor Conan usando magia negra. O Rei bárbaro consegue escapar e embarca em uma aventura para reclamar seu trono devolvendo também ao Rei Tarascus seu lugar na Nemédia. Conan tem 45 anos e resolve tomar Zenobia como sua Rainha.

O reinado de Conan foi marcado pela violência e períodos turbulentos, mas ele conseguiu se manter no poder à despeito da insatisfação de nobres e do cerco de conspiradores. A Aquilonia protegeu suas fronteiras mesmo com as nações vizinhas testando seu poder. Finalmente Conan empreendeu um ataque aos seus inimigos, expandindo as fronteiras e tomando territórios que formariam um verdadeiro Império. A extensão desse império, no entanto, é desconhecida.

É interessante perceber que o Rei continuou participando de campanhas militares e visitas a outras terras. Consta que ele fez uma visita oficial a Hyrkania e que participou de uma comitiva que se aventurou na distante Khitai. Há rumores que ele também patrocinou uma expedição em busca de um continente desconhecido além do Mar Ocidental.

Não há registros destas jornadas e sobre o destino final do Cimério, e talvez isso seja algo bom. As Crônicas à respeito das aventuras e do reinado de Conan foram encontradas pelos Filhos de Arrius nas ruínas de Tarantia (a atual cidade de Lyon) quase um milênio mais tarde.