Mostrando postagens com marcador Call of Cthulhu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Call of Cthulhu. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Checklist: Todas as Campanhas de Chamado de Cthulhu lançadas até o momento


Ao longo de sua história, Call of Cthulhu construiu uma das mais importantes coleções de campanhas prontas dos RPGs. Desde aventuras clássicas como Máscaras de Nyarlathotep até campanhas de grande escala como Horror no Expresso do Oriente, a Chaosium explorou diferentes épocas, lugares e estilos de horror, oferecendo aos Guardiões histórias que podem se estender por dezenas de sessões. Algumas dessas campanhas tornaram-se verdadeiros clássicos do hobby e ajudaram a definir aquilo que uma campanha investigativa de horror pode ser.

Mais do que simplesmente reunir aventuras relacionadas, essas campanhas apresentam diferentes maneiras de jogar Call of Cthulhu: investigações urbanas, viagens internacionais, expedições arqueológicas, aventuras pulp e histórias que atravessam décadas ou até mesmo diferentes períodos históricos. Nesse artigo, vamos conhecer algumas das principais campanhas publicadas pela Chaosium, observando sua proposta, ambientação, estilo de jogo e aquilo que as tornou marcantes dentro da história do RPG.

MASKS OF NYARLATHOTEP
(MÁSCARAS DE NYARLATHOTEP, lançado pela Editora New Order em 2024)

Poucas campanhas na história dos RPGs alcançaram o status de Máscaras de Nyarlathotep. Publicada originalmente pela Chaosium em 1984, a campanha se tornou uma das obras mais influentes de Call of Cthulhu e ajudou a estabelecer o potencial do sistema para aventuras investigativas de grande escala. Em vez de concentrar a ação em uma única cidade ou região, a campanha leva os investigadores a uma verdadeira viagem internacional durante os anos 1920, passando por diferentes países enquanto tentam compreender uma conspiração ligada ao culto de Nyarlathotep, o Caos Rastejante. Ao longo das décadas, o material recebeu diversas revisões e expansões, sendo a versão moderna consideravelmente mais desenvolvida que a publicação original.

A estrutura da campanha é um de seus maiores atrativos. Os investigadores começam diante de acontecimentos aparentemente desconectados e, pouco a pouco, percebem que estão diante de uma conspiração gigantesca. A investigação passa por Nova York, Londres, Cairo, Quênia, Xangai e Austrália, entre outros locais, e cada capítulo apresenta uma identidade própria, incorporando elementos de investigação policial, exploração, intriga, horror sobrenatural e, em alguns momentos, sobrevivência. O deslocamento entre países não funciona apenas como mudança de cenário: cada lugar revela uma nova parte do mistério e oferece informações que podem alterar completamente a compreensão dos acontecimentos anteriores.

No centro da campanha está Nyarlathotep e uma complexa rede de cultistas, sociedades secretas e agentes humanos que trabalham para seus propósitos. A grande ameaça, entretanto, raramente se manifesta de maneira direta. Os investigadores precisam reunir pistas, comparar documentos, interrogar testemunhas e compreender conexões que inicialmente parecem impossíveis. A campanha recompensa especialmente grupos que gostam de investigação cuidadosa e construção gradual de uma conspiração, pois informações aparentemente secundárias podem adquirir enorme importância muitas horas depois. Também é uma aventura que não hesita em punir investigadores imprudentes: combater tudo o que parece suspeito é frequentemente uma maneira rápida de terminar a investigação — e a vida dos personagens.

O estilo de Máscaras de Nyarlathotep combina aquilo que Call of Cthulhu faz de melhor com uma estrutura quase épica. Existe uma sensação constante de que os personagens estão participando de acontecimentos muito maiores do que eles próprios, enquanto cada cidade apresenta novos personagens, sociedades, perigos e mistérios. Ao mesmo tempo, a campanha mantém a essência do horror lovecraftiano: quanto mais os investigadores compreendem, mais aterradora se torna a verdade. A viagem pelo mundo também permite que o Guardião varie bastante o ritmo, alternando investigação urbana, exploração de locais remotos, confrontos com cultistas e encontros com manifestações dos Mythos.

Mais do que simplesmente uma aventura longa, Máscaras de Nyarlathotep tornou-se uma espécie de referência para campanhas investigativas de horror. Sua estrutura internacional, a quantidade de personagens e pistas e a maneira como diferentes histórias aparentemente independentes se encaixam em uma conspiração maior ajudaram a definir o modelo de muitas campanhas posteriores. Para jogadores que desejam experimentar Call of Cthulhu em sua forma mais ambiciosa, poucas campanhas representam tão bem a proposta do sistema: viajar pelo mundo em busca de respostas, descobrir que os Mythos estão muito mais próximos do que se imaginava e, finalmente, perceber que algumas verdades deveriam permanecer enterradas.

HORROR ON THE ORIENT EXPRESS
(O Horror no Expresso do Oriente, publicado pela Editora New Order em 2025)

A Caixa mais extensa e luxuosa de sua época. Publicada originalmente pela Chaosium em 1991, Horror on the Orient Express é uma das campanhas mais conhecidas e ambiciosas de Call of Cthulhu. Como o próprio título sugere, sua estrutura aproveita a famosa linha ferroviária que ligava Paris a Constantinopla, transformando a viagem pelo continente europeu em uma longa investigação sobrenatural. A campanha começa em Paris e conduz os investigadores por uma sucessão de cidades e países, acompanhando o trajeto do Expresso do Oriente. Assim como Máscaras de Nyarlathotep, a viagem é parte fundamental da experiência, mas aqui ela assume um caráter mais claustrofóbico e itinerante.

A trama gira em torno de uma investigação que começa de maneira relativamente convencional, mas rapidamente revela uma história envolvendo artefatos ocultistas, sociedades secretas e acontecimentos sobrenaturais ligados ao passado. A campanha percorre França, Suíça, Itália, Iugoslávia, Grécia, Turquia e outras regiões, fazendo com que cada etapa apresente uma nova peça do mistério. O próprio trem funciona como um elemento recorrente, criando uma sensação interessante de continuidade: os investigadores não estão simplesmente saltando de uma aventura para outra, mas seguindo uma rota definida enquanto tentam compreender uma ameaça que parece estar sempre alguns passos à frente deles.

Uma das características mais marcantes da campanha é justamente a variedade. Há investigação urbana, exploração de ruínas, perseguições, ocultismo, confrontos com cultistas e criaturas dos Mythos, além de episódios que exploram profundamente a história e o folclore dos locais visitados. A campanha também trabalha bastante com a ideia de objetos aparentemente banais que escondem uma importância sobrenatural, fazendo com que os investigadores precisem determinar o que realmente estão procurando e em quem podem confiar. O ritmo pode variar consideravelmente entre investigação e ação, mas existe uma sensação constante de que cada parada do trem está conduzindo o grupo para algo maior.

Em termos de estilo, Horror no Expresso do Oriente tem uma atmosfera particularmente cinematográfica. A própria viagem proporciona ao Guardião uma excelente ferramenta para criar suspense: personagens encontrados em uma cidade podem reaparecer centenas de quilômetros depois, pistas podem ser descobertas durante o percurso e o trem pode transformar-se tanto em local de descanso quanto em cenário de perseguição e horror. Ao mesmo tempo, a campanha exige bastante do Guardião, especialmente pela quantidade de localidades, personagens e informações que precisam ser administradas. É uma aventura para grupos que gostam de campanhas longas, viagens, investigação e uma narrativa que vai crescendo gradualmente em escala.

O resultado é uma das experiências mais características de Call of Cthulhu. Se Máscaras de Nyarlathotep transforma a investigação dos Mythos em uma conspiração mundial, Horror no Expresso do Oriente utiliza a própria jornada como estrutura narrativa. O trem não é apenas o meio pelo qual os investigadores chegam aos próximos mistérios: ele é parte da identidade da campanha, levando os personagens de uma Europa aparentemente familiar para lugares cada vez mais estranhos e perigosos. Para quem aprecia o lado aventureiro de Call of Cthulhu, mas não quer abrir mão da investigação e do horror, é uma campanha que demonstra como uma simples viagem de trem pode se transformar em uma descida progressiva ao mundo dos Mythos.

THE ORDER OF STONE

The Order of the Stone é uma campanha menos conhecida dentro da linha de Call of Cthulhu, mas que merece atenção justamente por apresentar uma proposta bastante diferente das grandes campanhas internacionais da Chaosium. Em vez de acompanhar os investigadores por uma sucessão de países e cidades, a aventura concentra sua narrativa em torno de uma conspiração ocultista e de uma investigação que gradualmente revela conexões com os Mythos. É uma campanha que aposta mais no clima de mistério e na descoberta progressiva do que na grandiosidade de Máscaras de Nyarlathotep ou Horror no Expresso do Oriente.

A história coloca os investigadores diante de acontecimentos aparentemente isolados que começam a apontar para uma antiga ordem secreta, cujas atividades remontam a acontecimentos ocultistas do passado. A partir daí, o grupo precisa reconstruir uma história fragmentada, seguindo pistas, documentos e personagens envolvidos em uma trama que mistura sociedades secretas, conhecimento proibido e manifestações sobrenaturais. Como acontece em boa parte das campanhas clássicas de Call of Cthulhu, a verdadeira dimensão da ameaça permanece escondida durante boa parte da aventura, fazendo com que a investigação seja tão importante quanto os confrontos que eventualmente surgem.

O estilo de The Order of the Stone é, portanto, bastante próximo daquele que caracteriza as melhores aventuras tradicionais do sistema: investigação, atmosfera e revelação gradual. A campanha oferece ao Guardião oportunidades para trabalhar com documentos antigos, locais carregados de história, personagens suspeitos e pistas cuja importância só se torna evidente quando os jogadores conseguem estabelecer as conexões entre elas. Isso produz uma experiência menos orientada para a ação e mais adequada a grupos que apreciam montar um quebra-cabeça enquanto percebem lentamente que estão lidando com forças muito maiores do que imaginavam.

Talvez justamente por não possuir a mesma escala ou fama das campanhas mais célebres da Chaosium, The Order of the Stone seja uma curiosidade interessante dentro da história de Call of Cthulhu. Seu maior mérito está em mostrar que uma campanha não precisa necessariamente atravessar continentes ou envolver uma conspiração capaz de destruir o mundo para produzir uma boa história de horror. Uma investigação aparentemente pequena pode esconder algo muito maior, e a sensação de descoberta gradual continua sendo uma das características mais eficientes do gênero. Para quem procura uma campanha menos conhecida e deseja explorar uma faceta mais concentrada e investigativa do Mythos, ela oferece uma alternativa interessante às grandes sagas da linha

A COLD FIRE WITHIN

A Cold Fire Within é uma campanha publicada pela Chaosium para Pulp Cthulhu, levando a proposta de horror lovecraftiano para um terreno deliberadamente mais aventureiro. Em vez do investigador frágil e frequentemente condenado das histórias tradicionais de Call of Cthulhu, aqui os personagens são figuras capazes de enfrentar perigos extraordinários, sobreviver a situações improváveis e participar de uma história com ritmo de aventura pulp dos anos 1930. A campanha utiliza esse tom para combinar investigação, exploração, sociedades secretas e conspirações dos Mythos com uma dose considerável de ação.

A história começa com os investigadores envolvidos em acontecimentos aparentemente inexplicáveis que os conduzem a uma conspiração de proporções cada vez maiores. A campanha coloca o grupo diante de fenômenos sobrenaturais, experimentos científicos, cultistas e locais remotos, enquanto uma ameaça ligada aos Mythos se revela gradualmente. A estrutura aproveita bastante o imaginário das histórias pulp: viagens perigosas, expedições, cientistas excêntricos, inimigos determinados e situações nas quais os personagens precisam agir rapidamente em vez de simplesmente permanecer escondidos investigando.

O grande diferencial está justamente no estilo de jogo. A Cold Fire Within foi concebida para mostrar como Pulp Cthulhu pode funcionar em uma campanha completa, e não apenas como uma variação mais cinematográfica de aventuras convencionais. Os investigadores são mais resistentes, possuem habilidades e talentos pulp e têm maiores possibilidades de enfrentar diretamente os perigos encontrados. Isso não significa que o horror desapareça, mas ele assume outra função: os personagens podem desafiar os monstros e sobreviver às situações impossíveis, embora continuem descobrindo que existe uma dimensão dos Mythos que não pode ser derrotada simplesmente com armas.

A campanha também se destaca pelo uso de exploração e descoberta. Conforme os investigadores avançam, a aventura amplia progressivamente sua escala e apresenta novos lugares, personagens e ameaças, criando aquela sensação típica das grandes histórias de exploração pulp em que cada resposta conduz a um mistério ainda maior. O Guardião encontra bastante espaço para alternar investigação, perseguições, combates e momentos de estranheza sobrenatural, mantendo um ritmo consideravelmente mais acelerado do que uma campanha tradicional de Call of Cthulhu.

No conjunto, A Cold Fire Within funciona especialmente bem como uma porta de entrada para quem gosta dos Mythos de Cthulhu, mas prefere heróis capazes de reagir ao horror em vez de simplesmente fugir dele. A campanha não abandona a atmosfera lovecraftiana, mas a coloca dentro de uma estrutura de aventura mais dinâmica e cinematográfica. É uma demonstração bastante eficiente da proposta de Pulp Cthulhu: enfrentar os horrores cósmicos continua sendo uma péssima ideia, mas, desta vez, os investigadores têm a oportunidade de sacar suas armas, entrar em um templo perdido e dizer — talvez imprudentemente — "vamos descobrir o que existe lá dentro."

A TIME FOR HARVEST


A história dessa campanha é um pouco diferente. Ela saiu primeiro como uma série de artigos na página da Chaosium e depois foi montada, ilustrada e renovada para se tornar uma campanha. Publicada originalmente pela Chaosium em 2018, A Time to Harvest é ambientada principalmente na década de 1920, tendo como ponto de partida a pequena cidade universitária de Arkham e a Miskatonic University. A proposta combina dois elementos particularmente importantes da tradição lovecraftiana: o ambiente acadêmico da Nova Inglaterra e a descoberta gradual de que conhecimentos aparentemente científicos podem conduzir diretamente aos horrores dos Mythos. É uma campanha que começa de maneira relativamente discreta, mas que escala progressivamente à medida que os investigadores descobrem que existe algo muito errado por trás de determinados acontecimentos.

A aventura acompanha estudantes, professores e outros personagens ligados à universidade em uma investigação que envolve expedições, pesquisas científicas, sociedades secretas e conhecimentos proibidos. Sem revelar seus principais acontecimentos, a campanha leva os investigadores para além do ambiente familiar de Arkham, incluindo viagens a regiões remotas e situações nas quais a fronteira entre pesquisa acadêmica e ocultismo começa a desaparecer. O próprio título dá uma pista importante sobre sua atmosfera: existe a sensação constante de que algo está sendo preparado e que os investigadores estão se aproximando de um momento em que aquilo que foi semeado finalmente será colhido.

O grande mérito de A Time to Harvest está no modo como utiliza o ambiente universitário como motor da investigação. Os personagens não são simplesmente detetives que chegam a Arkham para solucionar um mistério; eles fazem parte de um mundo de professores, estudantes, pesquisadores e instituições acadêmicas. Isso permite explorar temas muito lovecraftianos, como a busca obsessiva pelo conhecimento, a arrogância intelectual e o perigo de descobrir algo que a humanidade não deveria conhecer. Ao mesmo tempo, a campanha apresenta uma boa variedade de situações, passando de investigação e exploração para sobrevivência e horror sobrenatural conforme a história avança.

Em termos de estilo, é uma campanha que começa relativamente próxima do horror investigativo tradicional, mas gradualmente assume características de uma aventura de maior escala. A sensação de isolamento aumenta, os investigadores passam a lidar com ameaças que não podem ser compreendidas apenas através dos métodos convencionais e o mundo conhecido começa a parecer cada vez menos seguro. O Guardião recebe bastante material para trabalhar a atmosfera de Arkham e da Miskatonic, enquanto os jogadores têm a oportunidade de construir uma relação mais profunda com o ambiente e os personagens recorrentes.

No conjunto, A Time to Harvest é uma campanha particularmente interessante para grupos que gostam do lado mais "lovecraftiano" de Call of Cthulhu: universidades antigas, professores excêntricos, expedições, livros proibidos, conhecimento científico levado longe demais e a descoberta de que existem coisas escondidas muito além da compreensão humana. Em vez de começar com uma grande conspiração mundial, a campanha constrói seu horror a partir de uma investigação aparentemente localizada e vai ampliando gradualmente suas consequências. É, sobretudo, uma história sobre o preço de querer saber demais — e sobre aquilo que pode estar esperando quando finalmente encontramos as respostas.

THE TWO HEADED SERPENT
(A Serpente de Duas Cabeças, publicado pela Editora New Order)


A primeira Campanha oficial especialmente criada para Pulp Cthulhu, The Two-Headed Serpent abraça sem reservas a proposta de aventura vertiginosa. Ambientada principalmente na década de 1930, ela coloca os investigadores a serviço da Caduceus Foundation, uma organização aparentemente filantrópica dedicada à medicina e à pesquisa científica. Naturalmente, em uma campanha de Call of Cthulhu, uma instituição tão bem-intencionada esconde segredos muito mais perigosos. A partir daí, os personagens são lançados em uma aventura internacional envolvendo ciência, arqueologia, conspirações e os Mythos.

A campanha percorre diversos cenários ao redor do mundo, levando os investigadores da América do Sul à África e ao Ártico, entre outros locais. A escala é deliberadamente grandiosa: expedições em regiões selvagens, ruínas antigas, tribos misteriosas, organizações secretas, criaturas monstruosas e acontecimentos sobrenaturais fazem parte da experiência. Existe uma forte inspiração nas histórias de aventura das décadas de 1920 e 1930, e a campanha não tem vergonha de colocar os personagens em situações que seriam completamente absurdas para uma aventura tradicional de Call of Cthulhu. Aqui, o impossível não é exceção: é praticamente parte da programação.

O grande diferencial está no modo como The Two-Headed Serpent utiliza as regras e o espírito de Pulp Cthulhu. Os investigadores são personagens extraordinários, capazes de sobreviver a ferimentos, enfrentar criaturas gigantescas e participar de combates que seriam impensáveis em uma campanha convencional. A investigação continua presente, mas divide espaço com perseguições, tiroteios, viagens perigosas e confrontos espetaculares. O resultado é uma experiência muito mais próxima de uma história de aventura serializada, na qual cada capítulo apresenta um novo cenário e uma nova ameaça, enquanto a conspiração central vai se tornando progressivamente maior.

Sem revelar seus principais acontecimentos, a campanha também merece destaque pela maneira como trabalha a própria Caduceus Foundation. O que inicialmente parece ser uma organização dedicada ao progresso da medicina gradualmente revela conexões muito mais profundas com forças sobrenaturais. Os investigadores precisam descobrir até onde podem confiar em seus próprios empregadores e compreender o verdadeiro significado de determinadas pesquisas. Isso permite que a campanha mantenha uma das melhores características do horror lovecraftiano — a descoberta de que o conhecimento pode ser perigoso — mesmo quando seus protagonistas são aventureiros muito mais capazes de enfrentar fisicamente os horrores que encontram.

The Two-Headed Serpent é, portanto, uma excelente demonstração de como Pulp Cthulhu pode transformar os conceitos tradicionais do Mythos em uma grande aventura de ação sem abandonar completamente o horror cósmico. É uma campanha para grupos que querem viajar pelo mundo, combater monstros, explorar ruínas e enfrentar conspirações gigantescas, mas ainda desejam aquela sensação de que existe algo incompreensível por trás de tudo. Se Call of Cthulhu tradicional pergunta ao investigador quanto tempo ele conseguirá sobreviver depois de descobrir a verdade, The Two-Headed Serpent faz uma pergunta diferente: o que ele será capaz de fazer antes que o mundo descubra o que realmente está acontecendo?

SHADOWS OVER STILLWATER


Shadows Over Stillwater é uma campanha para Pulp Cthulhu que transporta o horror dos Mythos para um cenário bastante diferente das tradicionais histórias ambientadas na Nova Inglaterra: o Velho Oeste americano. A campanha apresenta uma versão sobrenatural do Oeste, combinando a atmosfera de histórias de fronteira, cidades isoladas, pistoleiros e regiões selvagens com o horror cósmico de Call of Cthulhu. O resultado é uma proposta que se aproxima tanto do western quanto do horror, permitindo que os investigadores sejam personagens mais resistentes e capazes de enfrentar diretamente os perigos encontrados.

A campanha concentra-se na pequena comunidade de Stillwater, onde acontecimentos estranhos começam a revelar que existe algo muito errado por trás da aparente tranquilidade da região. Os investigadores precisam lidar com desaparecimentos, mortes, rumores e manifestações sobrenaturais enquanto exploram uma comunidade marcada por conflitos e segredos. A história utiliza elementos bastante característicos do western — saloons, fazendas, pistoleiros, autoridades locais e territórios selvagens — mas gradualmente introduz os elementos dos Mythos, transformando o que inicialmente parece ser uma história de fronteira em algo muito mais sinistro.

O grande atrativo está justamente nessa mistura de gêneros. Shadows Over Stillwater não tenta simplesmente colocar monstros lovecraftianos em um cenário de western; ela aproveita a própria lógica do Velho Oeste para criar horror. O isolamento é maior, as autoridades são limitadas e a violência faz parte da vida cotidiana, enquanto determinados acontecimentos podem ser facilmente confundidos com crimes, conflitos entre moradores ou lendas locais. As regras de Pulp Cthulhu ajudam a sustentar o estilo, permitindo personagens capazes de sobreviver a tiroteios, perseguições e confrontos que seriam extremamente perigosos para investigadores tradicionais.

Com isso, Shadows Over Stillwater oferece uma alternativa bastante interessante dentro das campanhas de Call of Cthulhu. É uma aventura para quem gosta de western, exploração, tiroteios e cidades de fronteira, mas quer acrescentar à fórmula a sensação de que existe alguma coisa antiga e incompreensível escondida além das montanhas. A campanha demonstra como os Mythos podem funcionar mesmo longe de Arkham e das grandes cidades europeias, encontrando no Oeste americano um ambiente particularmente apropriado para o horror: uma terra vasta, pouco conhecida e onde, quando a noite chega, nem sempre é possível saber se o som distante é o de um coiote, de um pistoleiro ou de algo que jamais deveria estar ali.

THE CHILDREN OF FEAR


The Children of Fear é uma campanha para Call of Cthulhu publicada pela Chaosium em 2021, levando os investigadores para um dos ambientes mais incomuns da linha: a Ásia dos anos 1920. A campanha começa na Índia e se desenvolve através de uma extensa jornada pelo continente, explorando regiões como o Tibete, a China e outras áreas da Ásia Central. A proposta combina investigação e horror lovecraftiano com elementos de aventura, folclore e espiritualidade asiática, criando uma experiência bastante diferente das campanhas tradicionalmente centradas na Europa e nos Estados Unidos.

A história começa quando os investigadores se envolvem com uma série de acontecimentos aparentemente desconectados, relacionados a uma criança misteriosa, antigas tradições religiosas e uma ameaça sobrenatural. A partir daí, a investigação transforma-se em uma longa viagem, durante a qual o grupo precisa reunir informações sobre acontecimentos ocorridos em diferentes lugares e épocas. O percurso é tão importante quanto o mistério: templos, cidades, montanhas, comunidades isoladas e regiões remotas oferecem novos personagens, crenças e perigos, enquanto a verdadeira natureza da ameaça vai sendo revelada gradualmente.

Um dos aspectos mais interessantes da campanha é justamente sua tentativa de explorar o Mythos através de culturas e tradições pouco utilizadas nas campanhas clássicas de Call of Cthulhu. Religião, mitologia, espiritualidade e folclore ocupam um espaço importante, mas não são simplesmente tratados como versões exóticas dos elementos ocidentais. A campanha procura construir sua atmosfera a partir das próprias culturas visitadas pelos investigadores. O resultado é uma aventura de ritmo variado, alternando investigação, exploração, encontros sobrenaturais e momentos de viagem, com uma forte sensação de descoberta de um mundo muito maior do que aquele conhecido pelos personagens.

The Children of Fear é, portanto, uma campanha especialmente interessante para grupos que desejam experimentar uma faceta diferente de Call of Cthulhu. Sua estrutura de grande jornada através da Ásia aproxima-a, em alguns momentos, de uma aventura de exploração, mas a campanha nunca abandona o horror e a investigação característicos do sistema. Em vez de simplesmente deslocar os Mythos para outro cenário, ela utiliza a viagem para apresentar uma perspectiva diferente sobre o desconhecido. O resultado é uma campanha de grande escala, atmosférica e bastante peculiar, na qual cada nova etapa da jornada parece aproximar os investigadores não apenas da solução de um mistério, mas de uma verdade antiga que talvez fosse melhor permanecer esquecida.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Resenha de Terror Australis - Todos os Segredos da Austrália dos Mythos de Cthulhu


A nossa série sobre a Austrália não poderia estar completa sem uma resenha de Terror Australis, um suplemento para Chamado de Cthulhu que trata especificamente do país.

Publicado originalmente no distante ano de 1987, Terror Australis, foi escrito na época da Terceira Edição. Ele sempre foi um suplemento atípico quando comparado com o material mais convencional do sistema. A Chaosium sempre deu mais atenção aos livros descrevendo o horror cósmico centrado nos Estados Unidos (em especial na Lovecraftian Country) ou quando muito, na Europa. Abordar a Austrália sob um ponto de vista dos Mythos de Cthulhu era algo peculiar e inovador na época. Não que a Austrália esteja alheia ao horror escrito por Lovecraft, de fato, ela figura como um dos lugares mais importantes graças ao conto A Sombra Fora do Tempo (The Shadow Out of Time) em que boa parte da trama se passa por lá. Mas ainda assim, mover a ação das fantasmagóricas cidadezinhas da Nova Inglaterra para os desertos centrais da Austrália soava como uma enorme ousadia.

Mas essa ousadia rendeu frutos, não apenas porque Terror Australis é considerado um livro seminal para a proposta de espalhar os Mythos mundo à fora - não apenas por ter iniciado a franquia "Secrets of...", (Segredos de) mas por oferecer na época um capítulo extra para a campanha Máscaras de Nyarlathotep.    

Quase 30 anos depois de seu lançamento original, a Chaosium decidiu resgatar Terror Australis de seu longo limbo, adaptando o livro para a atual Sétima Edição: atualizando, revisando e expandindo o material para tornar seus respectivos conteúdos mais acessíveis e jogáveis.


Notavelmente, Terror Australis: Call of Cthulhu in the Land Down Under (algo como Terror Australis: Chamado de Cthulhu na Terra lá embaixo) tem o dobro do tamanho do Terror Australis de 1987. Na verdade, inclui o dobro de material de contexto e referência em comparação com o Terror Australis antigo — além de dois cenários inéditos e bastante extensos. Ou seja é um baita livro: capa dura, inteiramente colorido, fita de marcação e muitas informações. 

Desde as primeiras páginas, Terror Australis adota uma postura madura e respeitosa em relação ao tema que será abordado. Ele identifica os povos indígenas do continente como os povos aborígenes e reconhece seu valor histórico sem se esquivar do espinhoso tema do racismo prevalente na época por parte da Austrália branca. A maneira como faz isso, é o principal ponto do material. Os autores não tentam simplesmente sinalizar virtude ou tapar o sol com a peneira, eles são corretos e diretos ao ponto em sua abordagem.  
 
Terror Australis começa com uma análise da história australiana, que, naturalmente, inicia-se com a chegada dos europeus, visto que não há registros históricos anteriores. A obra examina a exploração europeia inicial, a fundação da colônia penal britânica — um período já explorado na série Convicts & Cthulhu — passando então para a Corrida do Ouro da década de 1850 e demais momentos relevantes, até chegar ao envolvimento da Comunidade australiana na Primeira Guerra Mundial e seus efeitos. Tudo é feito de uma maneira didática sem ficar cansativo ou desinteressante, o texto é rico em história e detalhes do país. Em seguida, há um guia sobre a geografia do continente, que também aborda brevemente sua arqueologia.


Enquanto a história começa com a chegada dos europeus, boa parte do livro se concentra nos povos aborígenes. Ele se debruça sobre a história, cultura, arte, crenças espirituais e visão de mundo, fornecendo informações suficientes para que o Mestre crie NPCs envolventes e os jogadores construam investigadores interessantes. Os australianos brancos recebem tratamento semelhante, com o suplemento observando que a maioria deles será de descendência britânica e que a metrópole domina a vida e a sociedade australiana, ao mesmo tempo que destaca a cultura masculina dominante com seu apreço pelo trabalhador, pela bebida e pelo jogo. 

O suplemento inclui um guia de gírias e pronúncia australianas, além de novas ocupações e habilidades. Para os povos aborígenes e das Ilhas do Estreito de Torres, há o Caçador/Coletor e o Homem/Mulher Sábio, enquanto as ocupações mais abrangentes apoiam a natureza da classe trabalhadora da sociedade australiana. Elas incluem o Homem da Fronteira, que percorre e repara as divisas das fazendas de gado; o Fora da Lei; o Condutor de Camelos, que atua como guia e acompanhante no interior; Ex-mineiro ou ex-soldado; o Vaqueiro, que trabalha em fazendas de gado ou ovelhas; e o Trabalhador Itinerante. É claro que as muitas outras profissões de Chamado de Cthulhu são adequadas para inclusão em um cenário ou campanha ambientada em Terror Australis, embora o livro discuta a natureza do detetive particular na Austrália durante esse período, destacando como eles são desregulamentados, vistos com desconfiança e, às vezes, culpados de atos criminosos na busca pelas evidências ou provas que seus clientes desejam. 



Os Relativistas — em sua maioria físicos e astrônomos — são apresentados como uma organização investigadora com interesse no inexplicável, enquanto a Sociedade Teosófica e os Espiritualista são mencionados mais adiante. O livro consegue estabelecer bases para a criação de personagens únicos com o tom adequado para o lugar onde os cenários vão se passar. Esse é um ponto importante para que os personagens australianos tenham esse diferencial em relação aos investigadores de Arkham, Londres, Nova York ou outros lugares. 

Além de apresentar breves perfis de cerca de vinte australianos notáveis, incluindo artistas, cientistas, jornalistas, políticos, ativistas e aviadores, o suplemento detalha o sistema policial e jurídico da Austrália, o sistema de saúde, as redes de transporte e as comunicações. Dada a natureza de Chamado de Cthulhu, é provável que os investigadores se vejam "indo para o interior" ou organizando uma expedição ao Outback, portanto, há conselhos sobre como conduzir expedições e garantir sua sobrevivência no ambiente hostil além das costas habitadas da Austrália. Da mesma forma, para os jogadores e seus investigadores, há, obviamente, um guia sobre a legislação relacionada a armas de fogo. Não falta a inestimável análise de Universidades, museus e bibliotecas onde pesquisas podem ser realizadas pelos investigadores. 

As cinco principais cidades da Austrália são descritas em detalhes — as duas maiores, Sydney e Melbourne, bem como Perth, Adelaide e Brisbane. Cada uma começa com um par de referências úteis: um guia para representar a cidade e outra com um guia geral da cidade, além de locais de destaque, o submundo do crime e muito, muito mais.



Além de mapas detalhados das cidades, é aqui que Terror Australis começa a explorar o lado mais peculiar do país. Inicialmente, isso se dá por meio de boxes intitulados "Austrália Estranha", no qual incidentes bizarros são apresentados para conceder um colorido sinistro ao ambiente. A presença de vários cultos em cada cidade também é abordada, desde o Culto do Morcego de Areia, de Máscaras de Nyarlathotep, até o Culto de Cthulhu e a ambiciosa New World Incorporated, apresentada na Campanha O Dia da Besta

Uma porção considerável de Terror Australis é dedicado especificamente aos Mitos de Cthulhu típicos da Austrália. Compreensivelmente, seu foco inicial recai sobre a Grande Raça de Yith, seu lugar na pré-história australiana, a grande cidade em ruínas de Pnakotus e seus inimigos, os Pólipos Voadores, explorando como esses seres habitam (ou habitaram) a Austrália eons atrás. Além disso as páginas introduzem vários locais de interesse para os Mitos, com destaque para a Grande Colméia dos Habitantes da Areia (que lugar maneiro!). 

Terror Australis também se aprofunda nas ameaças trazidas ao continente pelos europeus. Entre elas, estão os Carniçais, cultistas da parte mais sombria de Gloucester e um culto bestial no Vale do Barossa. O bestiário dos Mitos adiciona uma variedade de criaturas e entidades diferentes, além de discutir a presença de criaturas e entidades mais tradicionais dos Mitos na Austrália. Assim, temos espaço para Carniçais e Cães de Tindalos, ao lado de Bunyips e Yowies.



Mas onde o livro realmente acerta em cheio é na criação de um misticismo próprio e de um sistema de magia conhecido pelos povos aborígenes. Essas crenças espirituais são exploradas em profundidade notável no Capítulo "Alcheringa", como é conhecida a "Terra dos Sonhos" na Austrália. Esse campo espiritual é um espaço dominado por forças sobrenaturais e por seres mágicos. O Alcheringa pode ser acessado através de rituais complexos e uma vez nele... bem, tudo é possível! É claro, existem perigos, mas também revelações, maravilhas e recompensas inesperadas para os exploradores dessa realidade inusitada.

As regras para interagir com o Alcheringa são complementadas por exemplos de recompensas e alterações que podem ser operadas na realidade da dimensão. O capítulo sobre o Mundo do Sonho Australiano é uma adição impressionante a Chamado de Cthulhu, ajudando a dar um colorido todo especial às Dreamlands, um território que a Sétima Edição ainda não explorou à contento. O material adiciona essa dimensão ao universo lovecraftiano, abrindo um leque de opções para o mestre que deseja construir uma campanha onírica do zero.

Os dois cenários que acompanham Terror Australis são inéditos. O primeiro, "Long Way From Home" (Muito Longe de Casa), é radicalmente diferente dos cenários prontos que costumam acompanhar os suplementos. Trata-se de um cenário essencialmente "sandbox" no qual os personagens jogadores — os investigadores — têm liberdade para vagar como quiserem e interagir com os elementos descritos da maneira que preferirem. Sendo Chamado de Cthulhu um RPG de horror investigativo, "Long Way From Home" oferece múltiplas linhas investigativas. Ambientado na região norte da Cordilheira Flinders, ao norte de Adelaide, este cenário se inicia com uma misteriosa chuva de meteoros, envolve abalos sísmicos, uma seita que oferece curas milagrosas e uma oferta de emprego para explorar uma mina de cobre desativada. Cada uma dessas linhas narrativas é independente e segue de forma fluida, ainda que todas conduzam a mistérios ancestrais adormecidos (ou prestes a despertar). 



Há um toque de ficção científica no cerne deste cenário que em alguns momentos se sobrepõe ao horror com o qual estamos habituados, mas não se engane, o final grandioso da trama é puro suco de Horror Cósmico.

O segundo cenário, "Black Water, White Death" (Água Negra, Morte Branca), tem uma abordagem mais tradicional em termos de Chamado de Cthulhu, com uma investigação que vai revelando lentamente as suas camadas. Até mesmo o início é tradicional, com os investigadores sendo chamados a um leilão para representar um cliente. Trata-se de um professor de antropologia cuja área de interesse envolve sociedades primitivas adeptas do canibalismo. Ele tem interesse em adquirir o diário de um condenado que fugiu da prisão na ilha da Tasmânia na década de 1830 e que supostamente esteve envolvido em crimes de canibalismo. Na segunda porção da trama, os investigadores são chamados para comprovar as informações contidas no diário, o que significa visitar a Tasmânia. 

Esse é um cenário bastante extenso, quase como uma pequena campanha dividida em duas partes independentes entre si. O desenvolvimento é bastante interessante e o final potencialmente sangrento é chocante na medida certa.

Ambos os cenários são bem escritos e bons substitutos para os que apareciam no Terror Australis original. Dos dois, "Água Negra, Morte Branca" é o mais fácil de conduzir, sendo mais direto e objetivo do que "Longa Jornada", que exigirá maior preparação por parte do Mestre com suas várias tramas paralelas. Curiosamente nenhum dos dois cenários envolve o Alcheringa, embora haja a opção de incluí-la em "Longa Jornada" como um desvio na trama. É irônico que o livro devote várias páginas ao tema e dê a ela destaque, mas não a aborde em seus cenários.  


Além dos dois cenários detalhados, vale ressaltar que o suplemento está repleto de ganchos para construir aventuras que o Guardião pode desenvolver. O material é complementado por quatro apêndices, contendo, respectivamente, uma lista de preços de equipamentos, um bestiário da fauna australiana comum, porém frequentemente mortal, cronologias mundanas e de acontecimentos estranhos, além de uma boa bibliografia.

Como praticamente todos os suplementos lançados pela Chaosium em sua sétima edição este é um livro visualmente caprichado e atraente. O layout é limpo e organizado, totalmente colorido e ilustrado com uma ampla variedade de artes e fotografias de época. A cartografia também é boa e o texto, excelente.

Em 1987, Terror Australis já era um bom suplemento, mas trinta anos depois, a Chaosium que poderia simplesmente ter republicado o material com uma roupagem atualizada, fez muito mais do que isso. Ela reescreveu, expandiu, redefiniu e transformou o material em algo muito maior, tornando-o um dos melhores suplementos da edição atual.

Se vale a pena? Sim, vale muito!  

sábado, 19 de julho de 2025

Dicionário do Mythos de Cthulhu - Letra F de "Família Ferenczy"

 Família Ferenczy

Radicados na porção central da Transilvânia, na atual Romênia, a Família Ferenczy possui uma longa e infame tradição como feiticeiros, adoradores do demônio e cultistas de forças nefastas. A linhagem pode ser traçada até o século XI, tendo como ancestral mais antigo conhecido o Barão Radu Ferenczy, um nobre de estirpe germano-eslava que se fixou na isolada região de Halmagiu. Radu teria usurpado o título da família nobre que exercia domínio sobre essas terras, depois de servi-los por décadas. 

Os detalhes são incertos, mas supostamente foi um herdeiro de Radu, Faethor Ferenczy quem deu início a construção de uma Fortaleza que se tornou um bastião defensivo para o Vale de Nygori e os Cárpatos Meridionais. Os rumores dão conta de que Faethor foi o primeiro dos Ferenczy a se envolver com feitiçaria após desposar Drunila Vasilescu, sua prima e uma conhecida bruxa servil aos Mythos. Ela iniciou Faethor em tradições ancestrais e o persuadiu a venerar o Grande Antigo Nyogtha em troca de poder e influência.

Segundo cronistas do período, Drunila convenceu seu esposo a instituir uma espécie de loteria na qual os nomes de jovens camponesas que viviam nas aldeias próximas eram sorteados. Aquelas escolhidas pelo acaso eram levadas para servir na Fortaleza Halmagiu. Essas moças não eram mais vistas. As jovens eram sacrificadas em um altar subterrâneo na Masmorra da Fortaleza. Quando determinado número de sacrifícios foi atingido, Nyogtha consagrou o local como um Templo onde os mais pérfidos rituais de magia negra foram realizados.

Eventualmente uma revolta de camponeses destruiu parcialmente a Fortaleza e extinguiu por algumas décadas a cabala nefasta que a controlava.

Um novo Barão Ferenczy reclamou seu título em 1476, tornando-se o regente de Halmagiu e súdito de Stevan I da Hungria. Desta linhagem destaca-se Janos Ferenczy outro membro do ramo decaído subserviente aos Mythos de Cthulhu. Janos, considerado um vampiro e licantropo, ficou famoso pela crueldade e por enfrentar os turcos otomanos que invadiram a Romênia. Os prisioneiros eram sacrificados no mesmo altar profano erguido pelos seus antepassados na masmorra.

Os Turcos acabaram sitiando o castelo, Janos foi capturado e executado depois de ser tratado como feiticeiro. Na ocasião as centenas de ossadas encontradas nas câmaras do templo se tornaram prova incontestável do horror que lá se passava. A história de Janos Ferenczy persistiu até os dias atuais como uma lenda muito disseminada na região.

Séculos depois, outro homem assumiu o Castelo, alegando ser um descendente direto da linha sucessória dos Ferenczy. Ele iniciou uma nova linhagem de Barões que se manteve por aproximadamente duzentos anos e se tornou tão infame quanto as demais. Foi um destes nobres, supostamente Costandinus Ferenczy quem engajou extensa correspondência com o bruxo Joseph Curwen de Pawtuxet no século XVII. Supostamente ele também era membro dos Cavaleiros de Yog-Sothoth, uma fraternidade internacional de feiticeiros. Constandinus esteve envolvido na troca de restos humanos reduzidos a condição de sais essenciais e que podiam ser revividos através de ritos profanos, uma das atividades mais infames desse seleto grupo.

O último Barão Ferenczy foi convocado pelo governo romeno em 1947 para prestar contas à respeito de uma explosão que devastou a Fortaleza Halmagiu. Oficialmente a explosão foi causada por um acidente num depósito de munições utilizado na Segunda Guerra Mundial. Nos círculos de feitiçaria ativos no país alguns sugeriram que a explosão foi deflagrada por uma tentativa mau sucedida de invocar Yog Sothoth. O derradeiro nobre a carregar o nome Ferenczy cometeu suicídio numa prisão estatal no mesmo ano de sua prisão.

Acredita-se que ainda existam descendentes da linhagem original espalhados pelo Leste Europeu, alguns deles, do ramo não decaído, migraram para a Grã-Bretanha e Canadá em meados do século XX. 

Uma ilustração da Dolma de Nobres (Assembléia) com um Ferenczy no poder 

Um quadro do temido Barão guerreiro Janos Ferenczy

Um afresco nas paredes da Masmorra da Fortaleza de Halmagiu

A Fortaleza de Halmagiu em 1934

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Seres das Trevas - Vampiros adaptados para Call of Cthulhu


Este artigo apresenta vampiros especialmente adaptados para a realidade de Horror Cósmico dos Mythos de Cthulhu.

Cada um desses terríveis "Seres das Trevas" foi criado com base na série de artigos a respeito de Vampiros. As fichas dos vampiros com suas estatísticas estão de acordo com as habilidades e poderes de vampiros conforme o Livro Básico de Chamado de Cthulhu - Capítulo Beasts and Animals.

Eu recomendo seguir três diretrizes para usá-los:

1 - Chamado de Cthulhu é um jogo a respeito de Horrores Cósmicos, nada impede o uso de uma criatura de Horror Gótico, ainda mais se adaptada a realidade dos Mythos, CONTUDO o foco do cenário devem ser os Mythos. O vampiro em questão é apenas mais uma criatura afetada pelos horrores dos Mythos.

2 - Vampiros são raros, muito raros. Leve em consideração que devem existir pouquíssimas dessas criaturas no mundo e que via de regra eles não se interessam em criar outros de sua raça. Vampiros são paranoicos, eles não se interessam em criar uma força capaz de um dia sobrepujá-los.

3 - Vampiros não são humanos. Quanto mais estranhas e bizarras as suas ações melhor. Mesmo os vampiros que vivem em sociedade o fazem apenas para ter acesso a alimento, vampiros, em especial estes vampiros, deixaram para traz qualquer resquício de humanidade.

Borska, o Maldito


Nas frias estepes do Cáucaso, próximo a fronteira que separa o norte da Turquia da Rússia resistem à passagem do tempo antigas lendas que são sussurradas com um misto de respeito e temor. Uma dessas lendas menciona Borska, aquele que atende pela alcunha de o Maldito.

Ninguém sabe o quão antiga é essa lenda, mas os mais antigos lembram de tê-la ouvido dos lábios de seus avós, que por sua vez, ouviram de seus próprios avós quando eram apenas crianças.

Borska é um bicho papão no Cáucaso, uma figura aterrorizante usada para assustar as crianças e fazer com que elas obedeçam seus pais e não se afastem de seus olhos zelosos. "Se você não se comportar, Borska vem te pegar!" dizem os pais e os pequenos obedecem temerosos de atrair a atenção do monstro.

Em vida Borska foi um feiticeiro de enorme poder, um homem que segundo as lendas era capaz de invocar demônios das estrelas que obedeciam suas ordens. Ele vivia como eremita em uma caverna aos pés do Monte Elbrus (na atual Geórgia), onde conduzia seus experimentos e flertava com as trevas. Todos temiam a caverna e evitavam o lugar pois coisas de fora desse mundo eram vistas e ouvidas na calada da noite. O feiticeiro era odiado pelos poderosos chefes guerreiros que desejavam tê-lo como aliado, mas que eram desprezados por ele. Borska não se envolveria em pequenas disputas, ele tinha coisas mais sérias a tratar, como a busca pela imortalidade e o poder que apenas os Grandes Antigos podiam conceder.

Em um ritual obscuro, Borska invocou a Escuridão Viva, o Grande Antigo, chamado Nyogtha e firmou com ele um pacto de imortalidade. O longo ritual drenou as forças do feiticeiro e esgotado ele baixou suas guarda. Um de seus inimigos, um chefe guerreiro, aproveitou a oportunidade e invadiu sua caverna acompanhado de 12 homens. Encontraram Borska em transe e sem pensar duas vezes o assassinaram. Seu corpo foi então amarrado a cavalos e despedaçado. Os restos foram atirados em um fosso profundo, no interior de uma de suas cavernas. Extasiados com a vitória, os guerreiros seguiram para comemorar a façanha.

Borska permaneceu morto por dias, mas o pacto firmado com Nyogtha seria honrado na próxima noite sem lua. O Antigo preencheu o interior do cadáver apodrecido com parte de sua essência negra como piche, o bastante para animá-lo e para emendar os ferimentos de seu cadáver mutilado, fazendo-o andar sobre a terra como uma criatura sobrenatural... um vampiro.

A vingança de Borska contra aqueles que o mataram foi cruel e é a parte mais conhecida da lenda. Os guerreiros envolvidos não foram mortos, ao invés disso, o vampiro foi atrás de cada um e os forçou a beber de uma taça onde havia regurgitado a escuridão dentro de sua carcaça apodrecida. Isso os transformou em seus servos pela eternidade, incapazes de resistir aos comandos de seu novo mestre. Borska forçou cada um deles a destruir tudo que lhes era querido: suas famílias, suas terras, seus amigos, seus animais. O vampiro fez com que os próprios homens tomassem parte no vilipêndio: em cada morte, cada destruição e violação impingida.

Quando mais nada restava a eles senão o sentimento de perda e a insanidade, ele os tornou seus seguidores devotados a Nyogtha até o final dos tempos. Dizem que Borska ainda vive no interior das cavernas no Cáucaso e que continua realizando suas experiências e adorando os demônios de além do tempo e do espaço.

Borska aguarda há séculos a realização de uma Profecia revelada a ele por Nyogtha. Quando a data marcada pelas estrelas chegar, a Terra será coberta pela escuridão em um longo eclipse. Um poderoso ritual então tornará essa noite perpétua e com essas condições Borska pretende libertar Nyogtha. Os seguidores do poderoso vampiro, todos eles vampiros como o próprio, vagam pelo mundo coletando indícios de que o eclipse se aproxima. Há rumores de que o Tempo das Trevas sem Fim estão próximos.

Nas profundezas de sua caverna, Borska aguarda pacientemente.

Borska, cruel feiticeiro e vampiro, idade desconhecida 3000+ anos

FOR 120
CON 75
TAM 60
INT 90
POD 120
DES 75
Bônus de Dano: +1d6
PV: 14
Ataques: Mordida 50%, dano 1d4 +
Garra* 50%, dano 1d4 +db
Olhar ** (compare POD x POD) o vampiro deve estar se concentrando na vítima.

A Essência de Nyogtha:

O corpo de Borska é um depositário da Essência de Nyogtha e ele pode liberar parte dela na forma de uma massa escura como uma sombra viva.

Tentáculos (1d4 ataques/round): 60%, dano 1d6 ou Agarrar

* Em um rolamento oposto de POD x POD, o toque do vampiro drena 1d3 pontos de magia que é transferido para o vampiro.
** Se o teste for bem sucedido a vítima é hipnotizada e obedecerá simples instruções. Se essas instruções forem autodestrutivas ou contra a moral do personagem, ele pode fazer um teste de INT x5 para quebrar o transe.

Armadura: O corpo do vampiro recebe dano normal mas se recupera na proporção de 1 PV por hora até ser totalmente regenerado. Se o corpo for destruído, a essência negra de Nyogtha em sua forma amorfa continua ativa. A essência negra de Nyogtha que preenche o interior do corpo é imune a todos os danos físicos. Magia, armas mágicas, fogo e eletricidade causam dano normal.

Habilidades Relevantes: Cthulhu Mythos 41%, Tortura 62%, Psicologia 65%, Ocultismo 78%, Russo 85%

Magias: Qualquer uma que o Guardião julgar adequada.

Poderes e Limitações como Vampiro: Necessita de Sangue humano, Afetado pela Luz do Sol (1d6 pontos/rodada), imune a símbolos sagrados, imune a estacas, Repelido pelo próprio reflexo, necessita repouso no interior de cavernas, domínio através da ingestão da essência de Nyogtha (POT 25).

Sanidade: 0/1d4 ao descobrir que se trata de um vampiro, - 1/1d6 se a sua essência negra for revelada.

Enloch


O Culto devotado ao Grande Antigo Rlim Tegoth sempre existiu no pequeno vilarejo de Cyoghan, no sudoeste da Irlanda.

Praticamente todos os habitantes são cultistas fiéis a Rlim Tegoth, chamado por eles de "O Verme Pálido". A população se reúne há gerações para venerar seu Deus em uma antiga construção de pedra erguida numa colina no centro de Cyoghan. No passado essa construção foi um templo dedicado aos antigos. Abaixo da construção existe um complexo infindável de túneis que adentram nas profundezas da terra e levam até o covil de Rlim Tegoth onde o verme dorme até que as estrelas estejam certas e ele possa despertar em definitivo.

Dentre os cultistas se destaca um indivíduo raramente visto, exceto quando se aproxima a época dos mais sagrados rituais que ocorrem a cada quatro anos.

A figura pálida e musculosa, com longa cabeleira castanha e barba. Ele habita os túneis abaixo do templo e dorme a maior parte do tempo despertando apenas quando sua presença se faz necessária. Os cultistas o respeitam e temem na mesma medida pois ele é o mensageiro de Rlim Tegoth. Em Cyoghan ele sempre foi chamado de Enloch, ninguém conhece sua estória ou sua origem, tudo o que sabem é que há muito ele não é um homem e sim um vampiro.

Ao despertar o povo de Cyoghan prepara uma festividade solene. Duas jovens virgens e uma criança do sexo masculino são entregues ao vampiro para apaziguar sua fome. Diante da comunidade reunida em um círculo ele se alimenta vorazmente do sangue das duas jovens até drená-las por completo. Se ficar satisfeito, ele escolta a criança para o interior dos túneis para ser entregue como sacrifício para o verme branco. Se por algum motivo Enloch não ficar satisfeito com a oferenda, sua fúria será sentida por todos no vilarejo e ele irá punir os cultistas matando quantos achar necessário.

Se tudo correr bem, Enloch retornará na noite seguinte com uma dádiva de Rlim Tegoth: o veneno mortal que é a bile do colossal verme. Quando diluída e consumida em pequenas doses essa substância proporciona visões premonitórias e alucinações. Esse presente blasfemo é compartilhado por todos os cultistas com deferência. Sob o efeito da substância eles se entregam a uma orgia desenfreada cujo frenesi perdura por vários dias.

Enloch cumpre um segundo papel de suma importância perante o culto. Quando alguém ousa quebrar as leis ou ameaça a estabilidade no vilarejo, o vampiro é invocado para fazer valer a justiça do Verme Pálido. Sua atuação tende a ser rápida e sangrenta e todos os inimigos do culto são eliminados sem piedade.

Enloch, aquele que defende o Culto, idade desconhecida aproximadamente 700+ anos

FOR 140
CON 90
TAM 85
INT 60
POD 80
DES 75
Bônus de Dano: +2d6
PV: 18
Ataques: Mordida 60%, dano 1d4 +db
Garra 65%, dano 1d4 +db *
Olhar ** (compare um teste oposto de POD x POD) o vampiro deve estar se concentrando na vítima.

* Em um rolamento de POD x POD, o toque do vampiro drena 1d3 pontos de magia que é transferido para o vampiro.
** Se o teste de resistência for bem sucedido a vítima é hipnotizada e obedecerá simples instruções. Se essas instruções forem autodestrutivas ou contra a moral do personagem, ele pode fazer um teste de INT x5 para quebrar o transe.

Armor: O corpo do vampiro recebe dano normal mas se recupera na proporção de 3 PV por rodada mesmo que seja reduzido a zero ou menos PV. Dano causado por fogo, eletricidade, magia ou armas mágicas não é regenerado. Ferimentos dessa natureza são regenerados 1 PV/hora a menos que o corpo seja decapitado e carbonizado.

Habilidades Relevantes: Agarrar 55%, Psicologia 50%, Furtividade 75%, Gaélico 70%

Magia: Qualquer uma que o Guardião julgar adequada.

Poderes e Limitações como Vampiro: Necessita de Sangue Humano, Enfraquecido pela luz do sol (POD/2 durante o dia), suscetível a símbolos sagrados (cruzes), suscetível a estacas através do coração (dano dobrado), necessita repouso no solo, capaz de assumir a forma de morcego e lobo.

Sanidade: 0/1d4 ao descobrir que se trata de um vampiro. 1/1d4 ao presenciar transformação.

Umbassi


A exploração dos europeus na África Ocidental subsaariana foi pontuada por genocídio e atrocidades inenarráveis. Tribos inteiras foram exterminadas e outras tantas submetidas a indignidade da escravidão. No Senegal, os portugueses fundaram a Cidade Porto de Dakar e lá estabeleceram um lucrativo tráfico de escravos.

Em meados do século XVII, temendo pelo futuro de seu povo, feiticeiros da outrora orgulhosa tribo Lebou, tomaram uma decisão drástica. Séculos antes o ancestral culto devotado ao Deus Ahtu havia sido banido e seus praticantes dispersados pelos Lebou que consideravam os macabros rituais uma aberração.

O Culto de Ahtu, também chamado de Deus da Língua Sangrenta, foi aniquilado apenas depois que seu alto-sacerdote, Umbassi, foi morto e seu espírito espúrio aprisionado por um ritual. Mas diante da loucura e cobiça dos homens brancos, os feiticeiros concluíram que precisavam de algo mais poderoso para enfrentá-los. Eles decidiram que o espírito de Umbassi deveria ser libertado e compelido a enfrentar os invasores.

Uma cerimônia de magia negra foi realizada e como resultado o espírito de Umbassi foi conjurado. Mas antes que o ritual para controlar o espírito pudesse ser concluído, ele se apossou do corpo de um dos feiticeiros. Com a fúria acumulada pelos séculos, o espírito espúrio matou cada um dos feiticeiros e bebeu o sangue quente de suas veias, transformando-se em uma monstruosa criatura nem viva e nem morta.

Histórias sobre a criatura se espalharam pela população nativa e passaram a ser repetidas para os colonos brancos que a tratavam como mera superstição. Em 1664, uma sangrenta revolta eclodiu em Dakar. Durante os massacres que se seguiram, Umbassi foi atraído pelo odor de sangue até a cidade. Em meio ao caos reinante o vampiro começou a atrair seguidores que o reverenciavam. Prevendo que era o momento certo para estabelecer novamente o Culto há muito destruído, Umbassi proclamou a si próprio Chefe Feiticeiro da Língua Sangrenta.

Após a revolta, os portugueses perderam a cidade para os ingleses que se estabeleceram e proibiram o tráfico escravo. Apesar do rígido controle dos britânicos, o Culto de Ahtu continuou a crescer clandestinamente com os cultistas exercendo forte influência sobre a população nativa. Umbassi sozinho detinha o poder de vida e de morte sobre a população local e comandava uma legião de cultistas fanáticos que prosperavam com tráfico ilegal de escravos, pirataria e todo tipo de ativiadde criminosa. Os britânicos tentaram erradicar o culto mas falharam, pouco antes de partirem e ceder o território aos franceses, o Governador Colonial foi morto pelo próprio Umbassi em uma tétrica demonstração de força.

Os franceses aceitaram negociaram diretamente com Umbassi que consideravam não passar de um chefe tribal usando de superstição para controlar os nativos. O vampiro concordou em deixar Dakar e se retirou para o interior do Senegal ocupando terras na província interior de Kolda. Lá o Culto da Língua Sangrenta fincou suas raízes tornando-se a verdadeira autoridade agindo das sombras. Paralelamente Umbassi continuou controlando o tráfico de escravos e contrabando, além de fomentar revoltas tribais e disputas étnicas.

No início do século XX, Umbassi continua controlando o culto em Kolda, agora uma cidade com presença de colonos franceses. As autoridades locais sabem da existência de cultos nativos, alguns praticantes de magia negra e sacrifício, mas tendem a fazer vista grossa desde que os cultistas não importunem a população branca. Enquanto isso a população negra de Kolda vive em constante terror imposto por Umbassi e seus seguidores.

Umbassi, Sumo-Sacerdote do Culto de Ahtu, a Língua Sangrenta, idade desconhecida 900+ anos

FOR 140
CON 100
TAM 70
INT 80
POD 100
DES 90
Bônus de Dano: +1d6
PV: 17
Ataques: Mordida* 65%, dano 1d4 +db
Garra** 55%, dano 1d4 +db
Olhar *** (teste de POD x POD) o vampiro deve estar se concentrando na vítima.

* A mordida de Umbassi é extremamente dolorosa, alguém ferido dessa forma deve fazer um Teste de Constituição para não perder a rodada seguinte em virtude da dor lancinante.
** Em um teste de POD x POD, o toque do vampiro drena 1d3 pontos de magia que é transferido para o vampiro.
*** Se o teste de resistência for bem sucedido a vítima é hipnotizada e obedecerá simples instruções. Se essas instruções forem autodestrutivas ou contra a moral do personagem, ele pode fazer um teste de INT x5 para quebrar o transe.

Armadura: O corpo do vampiro recebe dano normal mas se recupera na proporção de 3 PV por rodada mesmo que seja reduzido a zero ou menos PV. Dano causado por fogo, eletricidade, magia ou armas mágicas não é regenerado.

Magias: Todas que o Guardião achar adequadas.

Habilidades Relevantes: Cthulhu Mythos 25%, Ocultismo 58%, Furtividade 50%, Rastrear 70%, Navegação 80%, Dialetos tribais 80%, Francês 15%

Poderes e Limitações como Vampiro: Necessita de Sangue Humano, Enfraquecido pela Luz do sol (POD/2 durante o dia), afetado por símbolos sagrados de crenças africanas, imune a estacas, suscetível a água corrente (1d6 pontos de dano/rodada), necessita repouso no solo, Capaz de assumir a forma de morcego vampiro, tigre, abutre, babuíno, serpente, escorpião (milhares) e chacal. Capaz de controlar predadores selvagens com o olhar.

Sanidade: 0/1d4 ao descobrir que se trata de um vampiro - 1/1d4 ao testemunhar transformação em animal.