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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Navegadores dos Mares Etéreos - Anatomia das cruéis Bestas Lunares


"De fato, uma luz brilhava nos painéis à frente, mas não era a luz que a lua proporciona. 
Terrível e penetrante era o feixe de fulgor avermelhado que fluía pela janela gótica, 
e todo o recinto resplandecia com um esplendor intenso e sobrenatural."

Lovecraft - Os Pântanos Lunares

Poucas criaturas dentre as raças que habitam os recessos mais distantes do universo são tão mal compreendidas quanto aquelas que os antigos chamavam de Moon Beasts, Selenitas ou mais comumente, Bestas Lunares. Não se deve imaginar que sejam simplesmente animais que habitam nosso satélite, como afirmam alguns naturalistas de espírito excessivamente literal. A Lua que lhes serve de morada não é necessariamente aquela que contemplamos nas noites de céu claro, mas um lugar situado muito além das fronteiras ordinárias do mundo, acessível apenas por caminhos que atravessam o Sonhar. Ali, nas regiões mais remotas da legendária Terra dos Sonhos, ergue-se uma lua de vales cinzentos, montes pálidos e pântanos sem estrelas, onde essas criaturas estabeleceram seus domínios.

Alguns afirmam que chegaram àquele lugar vindas de outro mundo; por intermédio de meios desconhecidos que lhes garantiram esse tipo de peregrinação astral. Outros sustentam que as Bestas Lunares são tão antigas quanto a própria Lua e que, quando os primeiros homens aprenderam a olhar para o céu, elas já observavam de volta com curiosidade para o planeta ao redor do qual seu satélite girava.

Sua origem permanece motivo de disputas entre os poucos estudiosos que ousaram investigar o assunto. Há quem sustente que as Bestar Lunares são uma raça degenerada de seres lunares aborígenes que, em eras esquecidas, abandonaram uma forma superior e assumiram corpos adequados à existência subterrânea. Outros defendem que foram criadas deliberadamente por Nyarlathotep, como servas destinadas a dominar os caminhos do Sonhar. Esta última hipótese é particularmente repugnante, mas não inteiramente desprovida de evidências. Certos manuscritos mencionam que as Bestas prestam homenagem ao Caos Rastejante, oferecendo-lhe sonhos, escravos e lembranças roubadas. Outras fontes, entretanto, afirmam que sua verdadeira devoção pertence a uma entidade lunar chamada simplesmente de Senhor da Lua, cuja natureza é tão obscura que talvez seja apenas outro nome pelo qual atende o Caos Rastejante.

A descrição de seu aspecto físico, felizmente, é mais consistente. As Bestas Lunares possuem corpos grandes e disformes, vagamente semelhantes aos de sapos ou lesmas gigantes, sustentados por membros inferiores curtos porém musculosos. Sua carne é úmida, pálida ou de coloração cinzenta e pustulenta. Sua anatomia inteira parece ter sido concebida para inspirar repulsa antes mesmo que qualquer comportamento hostil seja observado. Não possuem rosto no sentido que os homens atribuem à palavra, pois lhes faltam feições. Onde deveria existir a face, encontra-se uma massa informe da qual emergem longas proboscídeas ou trombas carnosas cor de rosa, utilizada para alimentação, respiração e percepção. Este apêndice multifuncional costuma ser percebido tateando tal qual uma serpente utiliza sua língua para sondar o ambiente. A boca num esgar horizontal existe abaixo dos apêndices e é como a de um batráquio, escondida entre dobras de lábios. O interior dela contém dentes pequenos e arredondados brotando nas gengivas gotejantes. Alguns relatos mencionam olhos ocultos nos vincos rugosos; outros afirmam que tais criaturas não possuem olhos e percebem o mundo através de vibrações, odores e sonhos. Indubitavelmente elas são atentas aos seus arredores e com um grau de alerta que lhes permite detectar outras pessoas antes delas serem detectadas. 

Como disposto, as Bestas Lunares possuem pernas fortes que são usadas para se movimentar com um manquitolar característico. Os pés são longos com dedos compridos terminando em polegares arredondados que lhes garante equilíbrio ainda que andem arrastando os pés. Os braços são longos e esquálidos, com mãos dotadas de três ou quatro dedos terminando em ventosas. Raramente vestem roupas, mas quando o fazem, preferem tecidos tingidos e lenços coloridos, ou então argolas e brincos unidas por correntes de metal que pendem livremente e que servem de adornos tilintantes. 

É possível que as Bestas Lunares tenham se adaptado a gravidade rarefeita de seu mundo e que elas se movam de forma atípica por conta disso. Há razões para acreditar que a espécie seja capaz de alterar sua anatomia conforme o ambiente em que se encontra, garantindo assim uma notável adaptabilidade a variações de gravidade.


As Bestas se comunicam por intermédio de pequenas flautas de metal que são levadas ao canto da boca e sopradas em tons que denotam uma linguagem. Há relatos de que algumas destas criaturas são capazes de produzir ruídos semelhantes a palavras que soam de forma gutural e que podem ser compreendidas como uma tentativa de emular idiomas com quem tiveram contato. Elas se valem desse método de comunicação poucas vezes, considerando-o bárbaro.

Seu comportamento revela uma inteligência que não deve ser confundida com sabedoria. São seres sociais, capazes de se organizar em comunidades, construir embarcações e utilizar ferramentas de maneira consideravelmente sofisticada. No Sonhar, em especial no lado escuro da Lua, erguem cidades de calcário poroso e madeira apodrecida, onde vivem em bandos numerosos sob a autoridade dos indivíduos mais antigos. Estes agem como déspotas impondo sua vontade, muitas vezes pela força e pela violência. Quando um destes começa a envelhecer e demonstra fraqueza, uma Besta Lunar mais jovem e decidida acaba contestando a autoridade e eliminando o mais velho afim de tomar seu lugar. Essa mudança de poder tende a ser algo um evento rápido e sanguinolento.

A Sociedade destas criaturas gravita em torno do comércio, atividade muito valorizada embora o conceito mercantil entre elas seja bastante diferente daquele praticado pelos homens. As bestas negociam carne, especiarias, escravos e itens exóticos, além, é claro, segredos. Eles consideram perfeitamente legítimo entregar um prisioneiro em troca de informações sobre uma passagem entre mundos. As Bestas sabem que muitas raças, em especial humanos se mostram apreensivos diante delas. Para garantir o comércio elas tendem a contratar agentes que barganham suas mercadorias em Celephais, Leng e outros portos espalhados pela Terra dos Sonhos. Os Homens de Leng tendem a ser seus associados mais frequentes, já que falam vários idiomas e podem transitar pelos portos humanos sem chamar atenção - desde que escondam suas características mais perturbadoras. Já os nefários Gatos de Saturno, outra raça alienígena nativa da Terra dos Sonhos tendem a ser companheiros de viagem das Bestas Lunares e seus aliados usuais. As Bestas Lunares não são consideradas confiáveis e os mercadores da Terra dos Sonhos tendem a tratar qualquer negociação com elas com muito cuidado. Mesmo relações amistosas estabelecidas podem ser rompidas de modo repentino caso ele percebam alguma vantagem ao fazê-lo. Sua moralidade, ou melhor  imoralidade, não é cruel; sendo simplesmente incompatível com a nossa.

A escravidão parece constituir parte essencial de sua sociedade. Humanos capturados durante incursões pelo Sonhar podem ser empregados como trabalhadores, carregadores, remadores ou então alimento. Não existe crueldade especial nisso aos olhos das Bestas; para elas, aparentemente, o homem possui o mesmo valor que um animal doméstico possui para nós. Ao abordar uma embarcação humana, as Bestas determinam imediatamente qual a função que cada prisioneiro recolhido terá e esta tende a ser uma decisão inapelável.

Seus navios merecem uma menção especial. Diz-se que as Bestas Lunares navegam os mares negros de éter de sua Lua em embarcações semelhantes a grandes galeras ou naus, capazes de singrar tanto pela água quanto pelos mares oleosos que não possuem equivalente no mundo desperto. Algumas embarcações são conduzidas por escravos humanos, enquanto outras parecem mover-se por meios que nenhum marinheiro conseguiu compreender. Não se deve cometer o erro de imaginar que tais navios pertencem exclusivamente à Lua. Há registros de viajantes que afirmam ter encontrado Bestas em portos do Sonhar, onde comercializam mercadorias provenientes de regiões que não aparecem em qualquer mapa. Talvez certas embarcações sejam capazes de atravessar a própria fronteira entre o sonho e a realidade. Se isso for verdadeiro, não seria prudente considerar essa raça como confinada ao seu domínio selenita.

Quanto aos tomos que registram sua existência, três fontes são frequentemente mencionadas. A primeira é o Livro dos Sonhos, atribuído a sacerdotes cujo nome se perdeu e que descreve os caminhos entre a vigília e as regiões profundas do Sonhar. A segunda é o Necronomicon, embora apenas algumas traduções contenham referências suficientemente claras para que se possa identificá-las. Há ainda menções dispersas no Unaussprechlichen Kulten, de von Junzt, onde se afirma que certas raças lunares mantêm relações com povos terrestres desde antes da existência das primeiras cidades humanas. É difícil determinar quais dessas passagens são autênticas. Alguns exemplares consultados pelo autor apresentavam páginas inteiras dedicadas a criaturas que simplesmente não existiam em outras versões. Isso pode ser atribuído a erros de tradução. Ou talvez os livros existam apenas no Sonhar.

É curioso observar que as Bestas não parecem possuir uma religião comparável à dos homens. Não constroem templos para suplicar proteção nem realizam sacrifícios por esperança de uma existência futura. Sua devoção parece assumir uma forma mais prática e terrível: veneram aquilo que lhes concede acesso aos caminhos do Sonhar e às criaturas que podem ser exploradas nesses caminhos. Nyarlathotep aparece repetidamente nesses relatos, mas talvez seja um erro dos autores humanos atribuir a ele toda manifestação sobrenatural que não compreendem. Existe ainda uma tradição segundo a qual as Bestas veneram uma divindade cujo rosto jamais pode ser contemplado e cuja voz é ouvida somente durante os eclipses. 

Há, entretanto, uma característica que merece especial atenção: as Bestas parecem possuir uma relação particularmente íntima com o medo humano. Não são predadores irracionais. Observam, aprendem e aguardam. Um homem encontrado sozinho no Sonhar pode ser capturado sem que seus perseguidores demonstrem qualquer pressa; eles simplesmente o seguem durante horas ou dias, aprendendo seus hábitos, seus sonhos e seus caminhos preferidos. Há testemunhos de pessoas que acordaram repetidamente de pesadelos nos quais uma enorme criatura semelhante a um sapo as observava de longe. Algumas descobriram, ao despertar, marcas úmidas no chão de seus quartos. Outras desapareceram. É provável que a maior parte desses relatos seja superstição. Naturalmente, aqueles que desapareceram não puderam esclarecer a questão.

Outra característica peculiar e especialmente desagradável diz respeito ao gosto que essas criaturas tem pelo sofrimento, em especial pelas formas mais variadas de tortura. Sabe-se de casos de Bestas Lunares realizando torturas extremamente cruéis e dolorosas em prisioneiros humanos que caem em suas garras. Essas torturas não parecem atender a nenhuma outra razão além da torpe satisfação desses seres degenerados. Alguns teóricos supõem que os Selenitas extraem do sofrimento alheio algum tipo de complemento emocional ou que o fazem com o intuito de instar o medo de uma maneira mais direta. Não se sabe ao certo qual o significado disso, mas é perfeitamente possível que estes seres sejam tão somente perversos e que a agonia de outras criaturas os agrade. Não é raro encontrar na residência ou mesmo nas embarcações das Bestas Lunares compartimentos de tortura com estranhos aparelhos e ferramentas infernais. De fato, uma das atividades prediletas destes seres em sociedade é comparecer a grandes arenas em que espetáculos de tortura são realizados. 

  

Para os investigadores que se deparam com tais criaturas, convém recordar que uma Besta Lunar não deve ser confundida com um simples monstro. Sua força física é considerável, mas sua verdadeira vantagem está na inteligência, no conhecimento do Sonhar e na capacidade de utilizar outras criaturas como instrumentos para atingir seus objetivos. Um encontro isolado pode ser perigoso; uma comunidade inteira pode constituir uma ameaça muito maior. Elas não precisam necessariamente matar. Podem capturá-los, torturá-los, interrogá-los, negociar com eles ou utilizá-los como moeda de troca. A possibilidade mais aterradora é aquela em que uma Besta percebe que seus prisioneiros possuem conhecimentos úteis. Nesse caso, mantê-los vivos pode ser muito mais vantajoso do que destruí-los.

Dizem alguns que as Bestas Lunares não podem abandonar o Sonhar. Trata-se de uma afirmação reconfortante e provavelmente errônea. Outros sustentam que elas podem atravessar para o mundo desperto somente quando são convidadas, seja através de um sonho, de um ritual ou da abertura de determinada passagem. Também há aqueles que afirmam que cada lua cheia aproxima seus domínios do nosso e que, em determinadas noites, uma criatura pode atravessar sem auxílio.

Por fim, deve-se registrar a mais perigosa das possibilidades. Talvez as Bestas Lunares não sejam simplesmente criaturas que habitam um mundo onírico e ocasionalmente capturam sonhadores humanos. Talvez estejam observando nossa espécie há muito mais tempo do que imaginamos. Talvez os sonhos sejam, para elas, equivalentes às pegadas deixadas por animais durante uma caçada. Cada pesadelo, cada visão recorrente, cada criança que descreve uma criatura que jamais poderia ter visto pode ser apenas mais uma oportunidade para que elas estudem nosso mundo. Se assim for, a pergunta não deveria ser "Como encontrar as Bestas Lunares?", mas sim "Como saber se elas já nos encontraram?"

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Na Calada da Noite - Encontros apavorantes com o misterioso Rastejante Cinzento


Entre os muitos encontros estranhos no mundo do paranormal, existem aqueles que se destacam por sua singularidade. São casos que pairam além da nossa capacidade de classificá-los ou nomeá-los. Seriam fantasmas, animais misteriosos, extraterrestres ou o quê? Não há respostas claras nesses relatos, que permanecem à margem do paranormal. Entre esses relatos bizarros, encontramos histórias de seres magros e pálidos, frequentemente curvados, andando agachados ou rastejando como se saíssem de um pesadelo. Essas coisas medonhas ficaram conhecidas coletivamente como "Rastejantes Cinzentos" e são tão assustadores quanto se pode imaginar. Aqui, analisaremos uma seleção de relatos dessas entidades enigmáticas e insondáveis.

Começaremos com uma seleção de encontros dos arquivos do pesquisador paranormal Albert S. Rosales que dedicou boa parte de sua carreira como investigador a buscar relatos sobre a coisa que ele passou a chamar de Rastejador Cinzento. Rosales, um repórter investigativo com trinta anos de serviço e um currículo invejável possui um extenso arquivo com mais de 100 relatos de pessoas que tiveram experiências com essa entidade. Segundo ele, essas criaturas pertencem a uma espécie de criptídeo desconhecida, vista com mais frequência no norte dos Estados Unidos perto da fronteira com o Canadá. Os casos foram registrados desde os anos 1970, mas tudo indica que avistamentos são reportados muito antes disso.

Vamos começar com um caso especialmente estranho ocorrido no outono de 1978. Uma testemunha chamada Tim McConnaugh estava em um evento da igreja com seus pais em Clearville, Pensilvânia, quando se afastou para perto do cemitério da igreja à noite. Enquanto estava naquele lugar escuro e sepulcral, ouviu alguns ruídos vindos de um dos antigos pinheiros que circundavam a área arborizada e, ao olhar para cima, viu olhos demoníacos brilhando para ele na escuridão. Enquanto observava, chocado, uma criatura saltou do alto da árvore e caiu no chão, olhando para ele por uma fração de segundo antes de fugir em disparada pelo campo. Tim conseguia vê-la claramente naquele momento, descrevendo-a como tendo cerca de 2,1 metros de altura, extremamente magra, com uma cabeça grande e bulbosa. Os olhos enormes brilhavam refletindo como os de gatos e suas pernas estavam dobradas para trás em um "ângulo acentuado em relação ao corpo". Tim ficou paralisado de medo diante daquela monstruosidade sobrenatural, mas em um instante a criatura desapareceu e o pavor se dissipou. Ele contaria para sua família, mas ninguém acreditaria nele. O que ele teria visto, afinal de contas?
 
Na primavera de 1983, um estudante do último ano do ensino médio chamado Robert Bruster voltava do trabalho para casa em Piton, Maine, quando fez uma curva na estrada e viu algo magro e cinza sob os faróis andando no acostamento. A pele da criatura era aparentemente lisa e brilhante, sem pelos visíveis e sem roupas, e seus olhos eram de um amarelo intenso. A testemunha a descreveria como "branca e reluzente". Ela teria olhado para ele por um instante antes de pular para um barranco do outro lado. A testemunha disse que era algo que nunca tinha visto antes. 


Em maio de 1986, uma testemunha não identificada estava passeando com seu cachorro em Sorrento, Colúmbia Britânica, Canadá, quando notou um "brilho laranja/vermelho" à frente, no final da estrada. Ao se aproximar, conseguiu ver uma clareira banhada por uma luz que não parecia vir de lugar algum. Em seguida afirmou ter visto uma figura pálida que parecia estar rastejando sob essa luz. A criatura parecia não ter cabelos, sua pele possuía coloração cinza e ela era muito magra, quase esquelética. Disse ainda que ela "parecia estar de joelhos e cotovelos no chão, movendo-se como se arrastando. A cabeça estava abaixo dos braços dobrados, o que era muito estranho".
 
Em 1992, Rosales também relatou um caso interessante e bizarro na região de Troy, Pensilvânia. Um homem chamado Victor Sayles e sua namorada, Amanda Bayers estavam dirigindo por uma estrada rural quando viram um movimento próximo à beira da estrada. Inicialmente, pensaram que a figura fosse um homem nu rastejando pelo chão, o que já era bastante estranho, mas, à medida que se aproximavam, perceberam que era algo ainda mais bizarro. O relatório de Rosales diz:

"O motorista parou a cerca de 9 metros de distância com as luzes concentradas diretamente sobre a figura incomum. Logo perceberam que não se tratava de uma pessoa, mas sim de uma criatura que rastejava rente ao chão. Enquanto observavam, a criatura assumiu uma posição de agachamento, com as costas completamente retas, algo semelhante à postura de um canguru. Os braços da criatura estavam firmemente presos ao corpo e eram longos e finos. Eles pareciam terminar em longas garras, semelhantes às de uma águia. Estimou-se que as garras tivessem entre 20 e 25 centímetros de comprimento. A criatura tinha um corpo delgado. A cabeça da besta tinha uma forma oval, sem orelhas ou nariz, limitando-se estes a buracos escuros. Os olhos também eram pequenos e pretos, brilhando de forma tênue refletindo a luz do farol. Sua boca no entanto era longa e rasgada de uma ponta a outra doa face. Segundo as testemunhas, a criatura inteira era cinza, enrugada e destituída de pelos."

Eles conseguiram ver a criatura claramente o que lhe permitiu verificar esses detalhes. Ela ficou agachada pelo tempo todo, deveria ter cerca de 1,20 metro de altura. Enquanto o casal observava, perplexo, a criatura começou a se esticar. O homem disse que, nesse instante, ela se levantou sobre as patas traseiras, ao mesmo tempo em que se apoiava nos braços. O motorista disse ainda que, nessa posição semiereta, a criatura parecia ter entre 1,8 e 2,1 metros de altura.  Ela então virou a cabeça para a direita e olhou na direção do veículo. O motorista disse que ela olhou diretamente para eles e a viu respirar fundo. Ele teve a sensação de que a criatura estava perdida ou confusa e que, quando percebeu a presença deles ali, reagiu com preocupação. Inclinou-se então para trás e estendeu as garras para a frente. A criatura então deu um salto tremendo, ultrapassou um barranco de dois metros e desapareceu de vista em uma área arborizada. Os dois estimaram que o salto teve cerca de doze metros de comprimento. Enquanto saltava, estava perfeitamente reta e mantinha os braços dianteiros estendidas para a frente.

O motorista salientou: "Sua forma era completamente diferente de quando estava agachada". A mulher afirmou que ela "assumiu outra forma". Ela achou que era marrom-escura e que poderia ser algo alienígena. Ela estimou que, quando saltou para a mata, a criatura tinha cerca de 2 metros de altura. Após a experiência, o homem pesquisou na internet para tentar descobrir o que tinha visto e disse ao investigador que a descrição mais próxima que conseguia encontrar seria a de uma gárgula sem asas. O homem comentou em seu depoimento a Rosales: "Nunca me esquecerei do que vimos naquela noite, foi apavorante."


Mas estes não são os únicos testemunhos à respeito dessa coisa estranha.

Em 1996, Jansen Willard dirigia para a casa de seu pai por uma estrada deserta na Pensilvânia cercada por bosques densos e escuros, pontilhados por casas abandonadas e campos agrícolas sem uso. Em determinado momento, a testemunha parou para urinar, e foi aí que as coisas ficaram estranhas. Enquanto fazia suas necessidades, Willard foi repentinamente tomado por uma sensação de pavor. O restante do relato diz:

"Ele terminou rapidamente e, impulsionado pela súbita sensação de pânico, correu de volta para sua caminhonete, entrou e trancou as portas. Acendeu os faróis e deu partida no motor com tanta força que era possível ouvir as engrenagens rangendo. Assim que começou a voltar para a estrada, saindo do acostamento, seus faróis iluminaram a vala e captaram algo do outro lado da estrada, a cerca de trinta centímetros do asfalto. Seu estômago revirou imediatamente.

Havia algo rastejando para fora da vala, de quatro. Estava agachado como um animal, mas seu corpo parecia quase humano, embora não fosse exatamente humano. Não tinha cabelos e sua cor era uniforme, um tom cinza amarelado. Sua cabeça grande tinha formato oval, mas não possuía orelhas ou nariz visíveis. A boca era muito, muito larga e parecia uma linha fina e reta que se estendia por todo o rosto da criatura. Era ligeiramente curvada para cima nas bordas, como um leve sorriso. Os olhos eram muito pequenos e brilhantes. 

Como estava a cerca de dois metros de distância, tinha certeza de que não era apenas uma pessoa usando uma máscara. O corpo nu e enrugado parecia um tanto "estranho", mas ele não conseguia identificar o porquê. Não conseguia ver pés nem mãos, pois havia cerca de trinta centímetros de grama na beira da estrada. Seja lá o que fosse, tinha o tamanho de um adolescente. Assim que os faróis o iluminaram, ele percebeu, pelos movimentos, que a criatura estava subindo lentamente a vala em direção à estrada e, quando a luz a atingiu, ela recuou um pouco, como se tivesse se surpreendido ao ser descoberta. A testemunha então pisou fundo no acelerador e correu para a casa do pai, onde passou a noite em claro.

A parte da experiência que mais a assustava era que a coisa estava definitivamente subindo aquela vala para alcançá-lo enquanto ele estava de costas. "Se eu não tivesse sido alertado por aquela sensação estranha de pânico, ela iria me pegar pelas costas".


Outro relato vem de uma testemunha do Canadá chamado Charles Oder, que em 1999 descreveu para Rosales uma experiência semelhante. A testemunha diz que estava voltando para casa quando ouviu os cachorros da vizinhança latindo loucamente. Oder achou estranho, mas continuou caminhando normalmente até que as coisas ficaram bizarras. Ele contou o seguinte:

"O que eu vi quando virei a esquina fez meu coração parar. Congelei por um segundo ao ver algo se arrastando pela rua muito rápido. Havia apenas um poste de luz que iluminava sua figura. Era cinza e muito magro, seu corpo era esguio como o de um cadáver e desproporcional. Muito alto. Ele se arrastava rente ao chão, a barriga para cima e as pernas em um ângulo que não fazia sentido com joelhos dobrados e apoiado nas mãos. Estava se aproximando e foi quando gritei e corri o mais rápido que pude, quase escorregando. Quando cheguei em casa e senti que havia escapado a descarga de adrenalina foi tamanha que comecei a chorar sem parar.

Na minha cabeça, pensei que aquela coisa queria me pegar. Moro perto da mata, então provavelmente foi dali que ela veio. Não saí à noite por um tempo e ficava assustado quando passava naquele trecho pois foi uma experiência traumatizante. Não sou de inventar coisas desse tipo, meus amigos ficaram surpresos com meu ataque de histeria. Espero nunca mais ver aquela coisa." 

Há muitas histórias de avistamentos dessas criaturas em reservas indígenas ao longo dos anos. De fato, os mitos indígenas mencionam uma criatura semelhante ao Rastejante Cinzento em suas tradições milenares. Conforme o folclore dos povos Objwa e Metis que habitam a região compreendendo os Grandes Lagos e a Colúmbia Britânica, esses seres fazem parte de uma raça de habitantes primordiais que antecedem as tribos locais. Embora haja pequenas diferenças culturais eles sempre são retratados como seres desprezíveis e cruéis.

Os Algonquin chamam essas entidades de Pukwudgies e os descrevem como criaturas maiores que um homem que se movem furtivamente, arrastando-se pelo chão com as grandes pernas dobradas e os braços compridos sendo usados como apoio. Os Pukwudgies são maliciosos e perversos, gostando de capturar crianças que são então transformadas em seus servos ou escravos. A criatura tende a criar seu cativo tratando-o com crueldade, impondo castigos severos e ameaçando de que qualquer tentativa de fuga será punida com surras, tortura e até, em alguns casos, a amputação de um membro. Quando a criança cresce e se torna adolescente, o monstro a liberta uma vez que prefere criados que possa controlar. Em alguns casos, se ele captar um desejo de vingança, ele pode matar seu servo e substituí-lo por outro mais fácil de amedrontar.

Uma lenda similar existe entre os povos da Tribo Wabanaki que conhecem o Rastejante Cinzento como Skadegamutc um tipo de espírito que possui seu escolhido e a transforma em uma criatura magra e enrugada que anda rastejando pelo chão, acocorada e com as mãos servindo de apoio quando corre. Segundo a lenda essa criatura era um xamã que realizou algum tipo de feitiçaria proibida e que acabou sendo punida pelos seus atos reprováveis. O Skadegamutc vive apenas para espalhar o caos, recorrendo a truques e dissimulação para atrair as pessoas e capturá-las. 

Finalmente os Metis que habitam vastas áreas do Canadá Meridional conhecem o Rastejante Cinzento como o Stikini, o homem cinzento que tem olhos pretos cheios de maldade, uma boca repleta de dentes afiados e disposição para o canibalismo. O Stikini vive em túneis estreitos e de difícil acesso que apenas eles com seu corpo maleável conseguem adentrar. Seus ossos são flexíveis e podem se curvar e dobrar de uma maneira não natural permitindo que se escondam em lugares apertados como troncos de árvores e espaços sob pedras. Essa abominação adora devorar mulheres e crianças que eles conseguem agarrar e levar até seus esconderijos afastados. O covil desse monstro está sempre repleto de ossadas roídas e de cabelos que ele regurgita por não conseguir digerir.   


As antigas lendas de nativos americanos parecem se encaixar perfeitamente nos relatos bizarros sobre criaturas cinzentas e esqueléticas, criando um dos criptídeos mais populares da região fronteiriça entre os Estados Unidos e Canadá. De fato, o Rastejante Cinzento é uma lenda local que só perde em popularidade para a do Pé Grande ou Sasquatch. Soma-se a isso o número considerável de desaparecimentos aleatórios de pessoas ao longo dos anos nas florestas e bosques canadenses e temos uma lenda constantemente renovada através de relatos bizarros e assustadores.

Em 2005, uma câmera automática instalada por guardas florestais na Floresta de Alberta Falls no Canadá registro algo estranho e que causou sensação nas redes sociais. A fotografia de uma criatura magra e estranha, claramente não humana dividiu a opinião pública com muitos afirmando se tratar de uma montagem muito bem feita ou de alguém usando uma fantasia convincente. A imagem foi bastante debatida e para alguns ela é a prova incontestável da existência do Rastejante Cinzento. A imagem em questão está no alto dessa postagem, julgue por você mesmo.  

Mas no final das contas, o que estaria por trás dessas narrativas terríveis sobre um monstro sobrenatural espreitando nas matas de coníferas? 

Esses relatos parecem estar além de qualquer classificação. As teorias variam enormemente aceitando diferentes hipóteses  desde algum tipo de criptídeo, passando por fantasmas, intrusos interdimensionais e é claro, seres alienígenas. Mas o que seriam essas coisas se é que elas realmente existem? Obviamente, os casos parecem ir muito além dos relatos incomuns, deixando-nos com a reflexão sobre o que poderia estar acontecendo nessa região. Sejam quais forem as respostas, os Rastejantes Cinzentos são algo que ninguém gostaria de encontrar numa estrada escura à noite cruzando o caminho dos faróis de seu carro.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Nosferatu - Resenha do grande filme de terror do ano

Vou começar essa resenha com uma constatação. Quando se trata de filmes de terror, eu não me assusto facilmente. Não estou me gabando sobre minha suposta bravura; mas é fato que ao longo dos anos e de inúmeros filmes assistidos, sinto que ganhei certo grau de resistência. Eu cresci cercado por filmes de terror, e sou tão devoto ao gênero que me sinto imune ao seu poder bruto. Eu amo terror — é um dos meus gêneros favoritos — mas raramente fico assustado quando assisto a um filme de terror. Então, quando um filme realmente me causa arrepios, eu considero isso algo digno de nota. 

Entra em cena "Nosferatu" do diretor Robert Eggers, um filme que me arrepiou e fez meu coração bater mais rápido. Eu senti que isso poderia acontecer e tomei a decisão acertada de assistir esse filme no cinema: no escuro, com som potente e mergulhando na trama, absorvendo cada detalhe. Esse não é um simples filme de terror, é um acontecimento.   

O diretor fez algo especial aqui: produziu um filme fantasmagórico, gótico e macabro como há muito não era realizado. A obra é ainda mais impressionante devido ao fato de que Eggers não está exatamente pisando em terreno novo aqui — ele está refazendo o clássico filme mudo de F. W. Murnau, que foi, é claro, fortemente (e ilegalmente) influenciado pelo maior clássico de vampiros de todos os tempos, "Drácula". A abordagem de Eggers se mantém bastante próxima aos eventos do filme de Murnau e do romance de Bram Stoker, e ainda assim, o cineasta cria algo que nunca parece uma repetição ou uma regurgitação dos elementos. O resultado é impressionante, com cenas belíssimas e doentias, imagens perturbadoras e uma aura sufocante de medo.

Eggers, que dirigiu "A Bruxa", "O Farol" e "O Homem do Norte", é um cineasta aparentemente obcecado pelo passado. Todos seus filmes, incluindo "Nosferatu", estão firmemente enraizados em eras passadas, em uma busca pela visão de uma determinada época da forma mais fiel possível. Soma-se a isso um talento especial para criar uma sensação de autenticidade. Não sou historiador, então não posso comentar sobre o quão "precisos" os filmes de Eggers são, mas tudo ali parece incrivelmente correto, pesquisado, transbordando autenticidade. 

O diretor é habilidoso em contar histórias que têm um senso tangível de realidade. "Nosferatu", como todos os filmes anteriores de Eggers, não parece uma recriação — realmente parece que estamos de alguma forma observando o passado. É o equivalente a abrir uma janela para outra época. A trama se passa em 1838, com figurinos, cenários e ambiente nada menos do que deslumbrantes gerando um mundo frio e estéril. Aliás, o filme é impecável em cada quesito técnico.

Mas e quanto à história? 

Bem, se você viu o "Nosferatu" original, ou o remake de Werner Herzog de 1979, ou ainda, qualquer adaptação de "Drácula", estará familiarizado com a trama: um vampiro antigo e estrangeiro tem como alvo um grupo de personagens jovens, trazendo morte e destruição para todos que cruzam seu caminho. Mas Eggers encontra maneiras eficientes de contar essa história e usar a familiaridade como arma; esperamos que a história se desenrole de uma certa maneira, e ficamos surpresos quando as coisas seguem um caminho um tanto diferente. São pequenas mudanças, mas todas elas muito bem executadas. A trama segue sob uma atmosfera genuinamente sombria, com inúmeras cenas que se desenrolam sob a lógica de um sonho febril ou de um pesadelo surreal.

Quando "Nosferatu" começa, o ambicioso advogado Thomas Hutter (Nicholas Hoult) recebe a proposta de seu chefe, o obscuro Sr. Knock para viajar a trabalho e receber uma promoção. Ele deixa sua casa em Wiesburg na Alemanha com o objetivo de chegar até uma terra remota nos recessos da Transilvânia. Lá deverá fechar um acordo imobiliário com o misterioso Conde Orlok (Bill Skarsgård). A viagem é uma jornada através de um Leste Europeu imerso em superstição, costumes bizarros e folclore estranho. Quanto mais se afasta da familiaridade de sua casa idílica, mais Hutter sente estar avançando num ambiente perigoso e nefasto. A cena em que ele encontra um grupo de ciganos é carregada de estranheza e desconfiança esmagadoras.  

Mas o pior ainda está por vir! Ao chegar ao Castelo decrépito do Conde, nas Montanhas dos Cárpatos, o  advogado se vê diante de um pavor indescritível. Orlok não é um mero homem — ele é um vampiro antigo com sede de sangue... e mais. Seus planos são aterrorizantes e envolvem não apenas a perdição de Hutter, mas de tudo que ele ama e preza. Não é apenas sua vida que está em perigo, mas tudo que está ao seu redor. 

Skarsgård tinha um desafio e tanto quando aceitou esse papel. Orlok é um dos monstros mais icônicos do cinema, interpretado de forma memorável por Max Schreck, Klaus Kinski e outros ao longo dos anos. É o tipo do papel que consagra ou desgraça uma carreira. Em vez de recriar o personagem seguindo a fórmula de seus antecessores, o filme ousou reinventar o protagonista. 

A clássica aparência do monstro, com feições de roedor, que Schreck e Murnau empregaram tão efetivamente foi profundamente alterada para esse filme. Não vou estragar a surpresa, já que o marketing fez de tudo para mantê-lo em segredo, mas efetivamente a maquiagem transforma Skarsgård em algo sobrenatural e apropriadamente desumano. Empregando um sotaque profundo, imponente e gutural, Skarsgård desaparece completamente no papel e se transforma no personagem. Seu Orlok parece antigo; podemos praticamente sentir o cheiro dos séculos de podridão, mofo e corrupção sepulcral cobrindo sua carne macilenta.

Mais do que alterar a imagem icônica, o roteiro vai mais além ao estabelecer indícios de que o Conde sempre foi algo perverso, mesmo quando estava vivo. Praticante de artes negras e ciências proibidas, o personagem é o próprio mal encarnado, uma entidade que invoca uma aura de inenarrável força sobrenatural. Essa noção de tornar Orlock um ocultista calejado é um aceno às origens traçadas por Albin Grau que na obra original despejou sob o Conde uma série de elementos arcanos. Diferente do Drácula de Bran Stoker, o vampiro de Nosferatu é um feiticeiro de maldade irrefreável. Não há nada nobre nele. Nada de romântico. Ele não deseja a redenção, pois mesmo que ela estivesse ao seu alcance, não é esse seu objetivo. Orlock existe apenas para espalhar a morte, a doença e a destruição.  

A câmera e a fotografia mantêm Orlok imerso nas sombras — nunca temos uma visão clara dele, o que torna o personagem ainda mais misterioso. Ele é como um vulto que surge no canto dos olhos, uma sombra que desliza e que se mescla com a escuridão premente.

Orlok tem mais em mente do que simplesmente adquirir uma nova propriedade. Ele é atraído pela noiva de Hutter, a problemática e melancólica Ellen, interpretada de forma hipnotizante por Lily-Rose Depp. A protagonista feminina desempenha um papel muito mais importante nessa trama do que nas versões anteriores. Ela não é uma mocinha desamparada que aguarda ser salva pelos demais personagens, ao invés disso, ela tem maior compreensão do que está acontecendo a sua volta. Ela também tem um vislumbre do que precisa ser feito para derrotar a criatura monstruosa e qual o preço que deverá ser pago.  

A atuação de Depp é notável alternando fragilidade e força arrebatadora. Nas cenas em que o Vampiro tenta possuir seu corpo (e alma) ela se entrega a uma interpretação visceral que traduz o tormento pelo qual está passando, lutando não só contra Orlok, mas com seus próprios demônios internos. Depp se joga no papel literalmente, abraçando um componente físico perturbador. Quando ela é arrebatada pelo Conde, seu corpo reage violentamente, tentando expulsá-lo em espasmos frenéticos. A cena resultante é nada menos do que apavorante. 

Ellen e Orlok têm um tipo de vínculo que influencia todos os aspectos do filme. Um prólogo de abertura (novamente tétrico) mostra que Ellen aparentemente convocou essa criatura da noite por meio de suas próprias paixões inflamadas; um misto de luxúria e depressão simplesmente irresistível para o monstro. Ele literalmente a alcança através dos golfos do tempo e espaço para cumprir uma espécie de contrato firmado nos sonhos febris da jovem.

A jornada do navio que carrega o Conde e seu caixão através de mares escuros é memorável. As cenas de horror dos tripulantes expostos a um monstro morto-vivo que os caça são medonhas. Quando Orlok finalmente chega à Alemanha, traz consigo hordas de ratos e a peste. Ele é a morte personificada; um cadáver ambulante que se alimenta dos vivos. Aliás, Eggers faz o vampiro se alimentar de uma maneira diferente da tradicional mordida na jugular. 

Logo, todos ao redor de Ellen são colhidos no tormento e no horror, incluindo sua querida amiga Anna (Emma Corrin) e seu confuso marido, Friedrich (Aaron Taylor-Johnson) os dois ótimos. Todo filme de vampiro que se preze precisa de caçadores, o que traz o Dr. Sievers (Ralph Innerson, com seu vozeirão) à trama. Percebendo que o problema está muito além de seus talentos médicos, ele procura seu antigo professor, o alquimista Albin Eberhart Von Franz, interpretado com a pitada certa de insanidade pelo grande Willem Dafoe. Ele tem as melhores falas do filme, incluindo um trecho em que proclama: "Eu vi coisas que fariam Isaac Newton rastejar de volta para o ventre de sua mãe!"

Assim como o Conde, inclinado para o estudo do oculto, Von Franz, o equivalente a Van Helsing, é um estudioso das artes místicas, detentor de um conhecimento que quase destruiu sua carreira e o condenou a loucura e esquecimento. É ele quem irá buscar uma solução para a situação dramática dos protagonistas e também da cidade, arremessada para um caos de morte e doença desde a chegada do monstro.  

O roteiro trabalha muito bem a função de cada um desses personagens, simples mortais, que se chocam com o mal indizível representado pelo Nosferatu. Ninguém sairá desse confronto intocado e cada um deles sofrerá com o embate até o confronto final. 

Auxiliado por uma fotografia deslumbrante à luz de velas e por uma trilha sonora arrebatadora e trágica, Nosferatu causa uma espécie de overdose sensorial. O som é incrível tornando quase uma necessidade assistir em uma sala com som de alta qualidade - para ter a sensação de ouvir a voz do Conde como se ele estivesse sussurrando em seu ouvido. A trama oferece alguns sustos concebidos com a eficiência de efeitos práticos - pouco ou nada, foi criado digitalmente. O verdadeiro pavor, entretanto surge em meio ao caos em que tudo está imerso. Como a própria morte, Orlok parece inevitável e quando ele está na tela sua presença se mostra implacável. 

Eu já vi muitas adaptações de "Drácula", filmes e livros, conheço a história de cabo a rabo, mas "Nosferatu" conseguiu me pegar de surpresa e me desarmou totalmente. Ele é tão marcante que mesmo quando o filme acaba, mesmo quando acendem as luzes, as imagens ficam gravadas na sua mente. Não é exagero nenhum considerar "Nosferatu" não apenas um ótimo filme de terror, talvez o melhor da década, mas também, desde já, um dos melhores filmes do ano.

Trailer:

Poster:

 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Perseguindo Sombras - Os 100 anos e o legado imortal de Nosferatu


Para muitos fãs de horror, o filme Nosferatu de Robert Eggers é o filme mais esperado do ano, talvez, até mesmo da década até aqui. Ele teve uma história conturbada com muitos trancos e barrancos ao longo do caminho antes de finalmente chegar às telas após quase uma década em produção. 

Sem dúvida, há muito em jogo e esse é um legado difícil de seguir dada a importância das obras que o antecederam, mas se o burburinho pré-lançamento servir como indicativo, o filme deve exceder as expectativas monumentais ao seu redor.

A história de Nosferatu remonta a mais de cem anos e é um dos maiores e mais consistentes legados de terror no cinema. Ostensivamente ele reconta a trama clássica de Drácula, mas com fundamentos muito mais sinistros do que a maioria das histórias "oficiais" do vampiro mais famoso de todos os tempos. Nosferatu em todas as suas formas se inclina para as ideias de peste, desespero e ocultismo com imagens que estão entre as mais perturbadoras de todo gênero Terror. 

Vamos falar um pouco de cada uma dessas encarnações do terrível Conde Orlock nas telas:

Nosferatu: Uma Sinfonia de Horror (1922)

Embora o filme original tenha sido atribuído ao brilhante diretor alemão F.W. Murnau, a verdadeira força motriz por trás de Nosferatu: Eine Symphonie des Gauens foi seu produtor/diretor de arte Albin Grau. A grande historiadora do cinema expressionista alemão Lotte H. Eisner descreveu Grau como um "espiritualista ardente", mas hoje podemos muito bem chamá-lo de ocultista devoto. Ele viu imediatamente o potencial cinematográfico de Drácula de Bram Stoker, mas não tinha, nem ele e nem sua pequena produtora, a Prana-Film recursos suficientes para adquirir os direitos sobre o romance. Sendo assim, ele, junto com o roteirista Henrik Galeen, elaborou um roteiro que eles acreditaram poderia escapar despercebido do olhar atento da viúva de Stoker, Florance. 

O roteiro alterou os nomes e os locais do romance, mantendo sua estrutura básica. Jonathan Harker se tornou Hutter, Mina se tornou Ellen, Van Helsing se tornou Professor Bulwer, Renfield se tornou Knock e Drácula se tornou Conde Orlok. A ação principal foi traduzida da Inglaterra para a cidade de Wisborg, Alemanha. Na verdade, todo o romance complicado é simplificado para três cenários principais: o Castelo na Transilvânia onde Orlok vivia, o navio que o leva até Wisborg e a pequena cidade alemã em si. São três ambientes distintos que reúnem o início, meio e fim da trama.

O que dá a Nosferatu seu caráter singular são os muitos desvios do material de origem. Embora as raízes da história original ainda sejam identificáveis, ela ganha um caráter diverso pelas referências visuais únicas. Isso é percebido mais claramente no visual macabro do Conde Orlok, uma aparência única e diferente do idealizado por Bran Stoker em seu romance. É bem provável que a forma tétrica do conde tenha sido projetada por Grau, como implícito em seus desenhos de pré-produção. Seu vampiro não tem nada de charmoso, belo ou atraente - pelo cntrário, ele é monstruoso até a última fibra de seu ser. Grau muito acertadamente escolheu destacar as características físicas do ator Max Schreck usando maquiagem e próteses, dando destaque a sua cabeça calva e concedendo a ele dentes afiados localizados centralmente em sua boca. O resultado final é assustador, o vampiro ganhou uma aparência única de morcego ou rato que ressaltou os temas de peste do filme. 

Assim como no remake de Egger, o Nosferatu de Murnau estava a apenas quatro anos do auge de uma pandemia global que ceifou milhões em todo o mundo. As pessoas ainda se recuperavam de suas perdas e  filme ganhava dimensão ao acessar esse drama recente. Justa ou injustamente, o rato serviu como símbolo da peste por séculos, graças ao seu papel na disseminação da peste bubônica por toda a Europa medieval. Em retrospectiva, a praga de ratos também pode ser interpretada como uma indicação do clima político e social da Alemanha sob a República de Weimar, que governou a nação do fim da Primeira Guerra Mundial até 1933, como sendo solo fértil para ideias pestilentas se consolidarem. Isso, é claro, se concretizou na ascensão de Hitler e do partido nazista, apenas onze anos após o lançamento de Nosferatu.

Hoje, o filme é corretamente considerado uma obra-prima e F.W. Murnau, em grande parte por causa de Nosferatu, foi declarado por Lotte Eisner como "o maior diretor de cinema que os alemães já conheceram". A direção de Murnau, juntamente com a brilhante cinematografia de Fritz Arno Wagner, infundiu Nosferatu com algumas das imagens mais inesquecíveis de toda a história do cinema. O surgimento de Orlok de seu caixão a bordo do navio, sua sombra subindo a escada para o quarto de Ellen (Greta Schröder) antes de se estender pela porta da câmara, Orlok agarrado às molduras das janelas de sua casa abandonada. Tudo isso foi tão inovador e surpreendente que marcou um novo e vibrante estilo de filmagem. Não é de se admirar que o filme tenha capturado a imaginação de cinéfilos e cineastas por mais de um século, e é um atestado de sua importância que ele continue tão relevante.  

De certa forma, é quase um milagre que ele continue existindo. Depois que Florence Stoker soube do filme, ela imediatamente processou Grau e Prana-Film. O juiz do caso ordenou que todas as cópias do filme fossem destruídas. Há inclusive a lenda de que um procurador da viúva acabou se ferindo gravemente ao atear fogo em um rolo de filme para garantir sua destruição. Muitas cópias acabaram sendo destruídas, mas grupos clandestinos protegeram cópias que acabaram sendo contrabandeadas para fora do país. Alguns cineastas e proprietários de salas de cinema perceberam a genialidade da obra e tomaram para si a missão de preservá-la. Por muitos anos, ter uma cópia de Nosferatu podeia ser algo perigoso, já que a lei ordenara pesadas multas para quem tivesse a fita em seu poder, ou pior, a exibisse.

Nas décadas de 1930 e 1940, cópias surgiram e desapareceram. No decorrer da Segunda Guerra, algumas apareceram em Londres e foram destruídas, sobretudo por conta do sentimento anti-alemão causado pelo conflito. Contudo alguns bravos cineastas tomaram para si o dever de proteger algumas cópias e graças a eles Nosferatu pôde ser salvo. Surpreendentemente cópias originais aparecem até hoje, em coleções particulares, acervos de filmes ou até em velhos porões de cinemas desativados. Por vezes esses tesouros ocultos da sétima arte trazem cenas adicionais, imagens ou mesmo trechos em melhores condições que acabam sendo incorporados ao filme. Isso concedeu a obra um caráter de morte e renascimento bastante condizente com o tema abordado. 

Nosferatu: O Vampiro da Noite (1979)

No final dos anos 1970, o diretor Werner Herzog produziu e dirigiu dois filmes consecutivos que eram tentativas de se conectar com o melhor da herança cinematográfica alemã. O primeiro deles foi Nosferatu, o segundo, Woyzeck que começaria a ser filmado apenas cinco dias após Nosferatu ser concluído. Herzog descreveu a experiência como uma forma de se conectar com seus avôs cinematográficos. Ele frequentemente descreveu sua geração de cineastas alemães, que inclui principalmente Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders e ele mesmo, como uma geração sem pais porque eles tinham comprado a cultura nazista ou fugido do país por causa dela. "Como a primeira geração real do pós-guerra, éramos órfãos sem pais com quem aprender"; Herzog contou aos seus biógrafos: "Não tínhamos professores ou mentores ativos, pessoas cujos passos seguir. Isso significava que eram os avôs — Lang, Murnau, Pabst e outros — que se tornaram nossos pontos de referência."

Herzog foi atraído por Nosferatu por várias razões, não menos importante entre elas, seu sentimento de que o filme de Murnau era "o melhor filme alemão de todos os tempos". Ele buscou conexão com seus antepassados ​​criando sua própria versão dele, que ele nunca pensou como um remake. "Ele segue seu próprio caminho com seu próprio espírito e se mantém em seus próprios pés como uma nova versão", disse mais tarde à respeito do filme.

E, de fato, o filme é genuinamente único em comparação ao seu antecessor. Embora ainda incorpore alguns de seus aspectos marcantes, ele consegue certo grau de independência. Quando Herzog decidiu fazer sua versão de Nosferatu, Drácula já havia caído em domínio público há muito tempo. Ele dispensou as armadilhas do filme original que tinha a intenção de velar, ainda que superficialmente, as origens de Nosferatu no romance de Bram Stoker e escolheu chamá-lo de Conde Drácula em vez de Orlok, Hutter mais uma vez se tornou Jonathan Harker (Bruno Ganz), agora casado com Lucy (Isabella Adjani), e Roland Topor interpretou Renfield (e um dos Renfields mais bizarros e hilários da história) em vez de Knock. Os locais, no entanto, mantiveram a semelhança com o filme de Murnau, assim como o visual do vampiro, a ênfase na praga simbolizada por hordas de ratos e a centralidade de Lucy como aquela que detém o poder de destruir o mal que invadiu sua cidade natal.

Os elementos singulares que tornam esse filme algo mais do que mera repetição do original são muitos, mas os mais notáveis ​​têm a ver com o vampiro, a protagonista e a maneira como os locais são capturados no filme. O filme marcou a segunda de cinco colaborações de Herzog com o lendariamente volátil e imprevisível protagonista Klaus Kinski. Herzog o descreveu essa como a sua experiência de trabalho mais agradável. "Durante quase toda a filmagem, Klaus estava feliz e à vontade consigo mesmo e com o mundo, embora ele fizesse birra talvez a cada dois dias." 

Esta foi uma melhoria marcante em relação ao relacionamento deles em Aguirre: a Cólera de Deus (1972), que acabou sendo um mero prenúncio do furacão que estava reservado para eles em Fitzcarraldo (1982). Em Nosferatu, Herzog e Kinski buscaram "humanizar" o vampiro, dando a ele "uma angústia existencial real" que o sugador de sangue sem alma de Schreck não tinha. “Eu queria dotá-lo de sofrimento humano, com um verdadeiro anseio por amor e, mais importante, a única capacidade essencial dos seres humanos: a mortalidade”, disse Herzog, “Ele estava profundamente amargurado com a solidão e incapacidade de se juntar ao resto da humanidade.”

De muitas maneiras, o Nosferatu de Herzog deu origem aos vampiros com crises existenciais e questionamentos sobre o que eles haviam se tornado e como enxergavam um mundo que não era mais o deles. Essa linha dramática foi posteriormente explorada por inúmeros autores e diretores e serviu para oxigenar o mito dos vampiros concedendo a eles nuances que iam muito além do monstro morto-vivo.

A Lucy, de Adjani, também tem mais o que fazer do que a Ellen, de Schröder, e tem muita diligência no filme. Numa das cenas mais marcantes ela se encontra no meio da praça da cidade enquanto dezenas de caixões passam por ela nos ombros de homens que os carregam para fora da cidade. Perto dali, homens e mulheres atordoados dançam ao redor de fogueiras alimentadas pelos móveis de casas que ardem. As pessoas não precisam mais de nenhuma dessas meras posses, pois os ocupantes estão todos mortos e os ratos invadem as ruas. É uma imagem surpreendente que evoca o tema da peste, a praga disseminada e a mortalidade humana. 

Outra sequência marcante acontece no início do filme, quando Harker viaja para o Castelo Drácula a pé por paisagens impressionantes e por lugares ermos que ninguém parece ter visto em muito tempo. A sensação de isolamento é sufocante. Este é um dos maiores dons de Herzog como cineasta — ir a lugares que ninguém mais iria para nos mostrar paisagens que nunca foram vistas e posicionar sua câmera de modo que essas paisagens pareçam sobrenaturais. O filme é uma obra de beleza poética infundida com uma sensação constante e implacável de pavor.

A Sombra do Vampiro (2001)

Por mais que eu ame as versões "oficiais" de Nosferatu, e embora esta esteja fora desse reino, Sombra do Vampiro é um dos meus filmes prediletos de vampiros. A premissa do filme é bastante simples: E se o misterioso ator Max Schreck fosse realmente um vampiro? 

A trama oferece uma visão do processo da produção cinematográfica, do método usado para a produção e da natureza da própria arte em si, tudo reunido em rápidos noventa e cinco minutos. É tudo muito "rápido" e "direto ao ponto", mas não soa corrido ou apressado de forma nenhuma. Na verdade, o filme captura muito da estranheza do filme de Murnau, ao mesmo tempo em que é um drama envolvente e um filme muito, muito divertido. 

Produzido pelo astro Nicolas Cage, um entusiasta e fã assumido de vampiros, e dirigido por E. Elias Merhige, que chamou a atenção do produtor com seu filme sombrio e surreal Begotten (1989), Sombra é um casamento perfeito de cineastas e uma obra específica. Assim como Albin Grau, Merhige é fascinado pelo ocultismo e tinha um relacionamento próximo com Werner Herzog na época em que ele fez o filme. Diz a lenda que ele teria oferecido a Herzog o papel de Murnau, mas que este não aceitou apesar da insistência. Dá para imaginar como ele teria atuado, literalmente calçando os sapatos de seu ídolo, mas por outro lado não teríamos uma das grandes atuações de John Malkovich que assumiu o personagem.

Sombra do Vampiro apresenta um dos elencos mais brilhantes já reunidos para um filme desse tipo, incluindo John Malkovich como Murnau, Udo Kier como Grau, Cary Elwes como Wagner, Catherine McCormack como Greta Schröder e Eddie Izzard como Gustav von Wangenhein, que interpretou Hutter em Nosferatu. Todos têm atuações excelentes, mas Willem Dafoe como Max Schreck é nada menos que sensacional. Ele recebeu uma merecida indicação ao Oscar pela sua construção do Conde. 

O cerne do filme se concentra nos esforços que um artista (no caso o diretor) está disposto a fazer para ter sua visão concretizada, não importando os custos para si ou para qualquer outra pessoa. Os cineastas são retratados como cientistas loucos vestindo jalecos e óculos de proteção, uma necessidade na época devido aos resíduos criados pela iluminação. Murnau é regularmente chamado de "Herr Doktor" e esse tipo de Dr. Frankenstein declara repetidamente que fazer filmes é um ato de guerra. "Nossa batalha, nossa luta é criar arte. Nossa arma é o filme", ​​ele diz enquanto a equipe embarca em um trem para seu primeiro local de filmagem. Ao longo do filme a câmera é comparada a uma metralhadora. 

No final, essa versão fictícia da produção de Murnau se torna tão avassaladora que o mundo se torna o artifício e o que é filmado, a única coisa real. Sombra do Vampiro é um filme genial sobre loucura e criatividade.

É também o mais difícil de todos esses filmes de se encontrar. Apesar do elenco de estrelas, d eter sido produzido por um ícone de Hollywood e ser propriedade da Lionsgate e Universal, o filme não está disponível para streaming e permanece preso em um DVD fora de catálogo. Agora, com todo burburinho em torno de Nosferatu, nenhum filme é mais merecedor de um streaming de alta definição e lançamento físico do que esse. Para quem não assistiu, fica a dica, se conseguir colocar as mãos nele, assista.

Sombras e Influência

Vários outros filmes se apropriaram do nome de Nosferatu e o usaram para vários propósitos. 

Klaus Kinski assumiu a responsabilidade de retornar ao seu personagem vampírico, com resultados muito diferentes do filme de Herzog, em "Nosferatu em Veneza", de 1988, dirigido por Augusto Caminito e sobre o qual, quanto menos se falar, melhor. 

Mimesis: Nosferatu (2018) vê um professor do ensino médio, Professor Kinski (Joseph Scott Anthony), montando uma produção teatral de Drácula fortemente influenciada pelo filme de Murnau e estrelando um aluno obcecado por vampiros chamado Michael Morbius (Connor Alexander) no papel principal. O filme contém uma série de easter eggs relacionados a vampiros, incluindo vários nomes inspirados em Fright Night, Salem’s Lot e até mesmo Twilight. Ele também apresenta várias aparições breves de Lance Henriksen como um mentor enigmático criando um culto de vampiros no molde do Conde Orlok de Max Shreck. 

Também lançado nesse mesmo ano, após um longo período de gestação, temos "Nosferatu: Uma Sinfonia de Horror" estrelando Doug Jones no papel do vampiro. O filme, financiado por uma campanha do Kickstarter, é mais ou menos um remake cena por cena do filme de Murnau com atores modernos inseridos em recriações geradas por computador dos locais e cenários usados ​​no original. Curioso sem dúvida, embora talvez desnecessário.

Talvez ainda mais prevalentes tenham sido os muitos filmes que prestam homenagem ou refletem a influência de Nosferatu para criar vários efeitos — do assustador ao cômico. Em 1979, o mesmo ano do filme de Herzog, a produção televisiva de Tobe Hooper, "Salem's Lot" baseado na obra de Stephen King apresentou Kurt Barlow, uma criatura claramente modelada a partir do Orlok de Max Schreck. Curiosamente o personagem tem muito pouca semelhança com o personagem descrito no livro de King. 

Outras homenagens incluem Ben Fransham como Petyr no filme de mesmo nome lançado em 2014 e uma vez mais Doug Jones como o Barão Afanas na versão televisiva de "O Que Fazemos nas Sombras" (2019). No ano passado, Javier Botet interpretou o vampiro cinza, careca e com orelhas de morcego com grande efeito em "A Última Viagem do Deméter", pelo qual o personagem é creditado como Drácula/Nosferatu. 

O alcance de Nosferatu pode ser encontrado ao longo da história do cinema em personagens tão diversos quanto as formas animalescas dos vampiros em A Hora do Espanto (1985) e The Lost Boys (1987) a várias encarnações do Conde de Gary Oldman em Drácula de Bram Stoker (1992) a Marlow de Danny Huston em 30 Dias de Noite.

Parece provável que a nova versão do filme de Eggers fique ombro a ombro com o longo e imponente legado de Nosferatu. Parece que os fãs de terror estão famintos por uma releitura da versão clássica do mito do vampiro que seja genuinamente perturbadora, até mesmo, ouso dizer, assustadora. Provavelmente, e digo por mim mesmo, talvez seja o momento do vampiro clássico reclamar o status de MONSTRO uma vez mais, e se libertar da figura de criatura amargurada que o acompanha nas últimas décadas. O vampiro surgiu como um horror incompreensível, uma força nefasta de morte e esquecimento, que existe (não vive) para tornara  vida dos mortais um tormento. É para isso que ele foi criado, é para isso que precisa voltar.

Com as inúmeras variações do personagem ao longo dos anos, é revigorante retornar ao básico do porquê essas criaturas invadem nossos sonhos e nossos medos em primeiro lugar. De porque são tão fascinantes e por que o asco que deviam causar se converte em fascínio?

Há uma qualidade primitiva em Nosferatu que é encontrada além das virtudes de Drácula, ele é a fera inumana que não tem romance ou remorso, simplesmente ataca nossos medos mais profundos, sombrios e potentes em busca de sangue.

E é esse o vampiro de que sentimos saudade!

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

O Mastim Alado - A Criatura maldita do conto "The Hound" de H.P. Lovecraft

Dentre as várias criaturas dos Mythos de Cthulhu existe uma relação de horrores intimamente  relacionados a objetos amaldiçoados. O mais conhecido talvez seja o lendário Assombro na Escuridão, um dos avatares do Caos Rastejante, Nyarlathotep em forma de um ser quiróptero que habita o igualmente legendário Trapezoedro Brilhante. 

Mas há muitos outros horrores que residem objetos aparentemente inofensivos e que justamente por conta disso são ainda mais perigosos. 

Um tipo de objeto que se insere nesta categoria são os macabros Amuletos do Mastim Alado. Estes talismãs são usados por membros do decrépito Culto dos Devoradores de Cadáveres de Leng, uma sociedade secreta criada pelo degenerado povo Tcho-Tcho. Ao longo dos séculos, outros povos se juntaram a suas fileiras assumindo posições proeminentes na seita a medida que ela avançava para as terras ocidentais. 

Os membros mais proeminentes da seita recebiam como presente por seus serviços prestados um amuleto de jade com a figura do horror chamado por eles de Mastim Alado. Haja vista, a maneira de se referir a esse horror é alegórica, visto que ele embora lembre um enorme cão dotado de asas, não pode ser jamais compreendido como algo nem remotamente encontrado em nosso planeta.

O Mastim Alado é antes de tudo um protetor do Culto, chamado para cumprir tarefas e missões ditadas pelo detentor do amuleto. Ele é um habitante de planos distantes, gerado na intercessão de realidades e livre para percorrer diferentes dimensões com a desenvoltura que transitamos em nossa realidade tridimensional.

Há conjecturas sobre o berço desses seres bestiais, alguns ligam sua origem aos infames e muito temidos Mastins de Tindalos. De fato, há tomos esotéricos que supõem que os Mastins Alados possam ser uma espécie derivada do mesmo cantão dimensional que gerou essas bestas. O excessivamente raro Monstres and their Kynde faz essa ligação, postulando que magias para contatar os Mastins de Tindalos (feitiços incrivelmente raros e perigosos) por vezes acabam atraindo Mastins Alados em seu lugar.

O Manuscritos Pnakotico, outro livro esotérico, desfaz essa contradição ressaltando que se tratam de entidades distintas. Enquanto os Mastins de Tindalos estão sujeitos às marés do tempo existindo nos ângulos temporais, os Mastins Alados rompem o tecido dimensional sem carecer de ângulos pré-determinados ou conformidades de hiper geometria favorável. Os segundos tampouco são atraídos por incursões no tempo-espaço, algo que parece de grande importância para os Mastins de Tindalos.

Finalmente existe a diferença da aparência geral. 

As feras de Tindalos são maiores, possuem o corpo coberto de uma conhecida substância azulada e tem uma longa língua serpenteante. Os Mastins por sua vez possuem grandes asas coriáceas em seu dorso delgado. Em comum o fato de haver uma identificação com o biótipo da família canídea de corpo esguio e musculoso. Dali eles terem sido chamados de cães e até mesmo galgos em certas interpretações. 

Conforme dito esses seres não podem ser compreendidos formalmente como cães, embora sejam quadrúpedes com patas poderosas e uma cabeça em formato vulpino. Eles não possuem qualquer sinal de pelos em seus corpos lisos e fibrosos que se assemelham a ligamentos de um músculo descarnado. A coloração deles é acobreada, com traços castanhos avermelhados variando para um marrom profundo, sendo as asas mais claras. As asas são reminiscentes às de um morcego, surgindo no dorso da criatura atingindo uma envergadura de 2 metros. Elas são fortes o bastante para impelir a fera pelo ar e permitem que ele se desloque a uma velocidade considerável.

Essas criaturas medem aproximadamente 180 centímetros de comprimento, com 85 centímetros de altura, embora possam haver indivíduos maiores. A cabeça é maciça e forte, com um focinho proeminente e orelhas pontiagudas eretas. A criatura possui sentidos de faro e audição aguçados. Seus olhos são pequenos de uma coloração amarelada sem íris e que costumam brilhar intensamente. Ele enxerga perfeitamente na escuridão. 

A mandíbula é extremamente forte, dotada de presas afiadas e poderosas, projetadas para rasgar e lacerar. A mordida de um Mastim Alado é equivalente a do Kangal, o canídeo com a mordedura mais potente no mundo. Ele pode arrancar pedaços inteiros da carne de uma presa e partir ossos com facilidade. 

O Mastim ataca majoritariamente mordendo mas ele também é capaz de atacar com suas enormes garras que são afiadas e resistentes. A criatura investe saltando e usando seu peso considerável para derrubar e prender a presa, usando em seguida a mordida que visa invariavelmente a garganta. Alternativamente o Mastim pode investir voando afim de surpreender e derrubar a presa. Uma vez prendendo a vítima com sua potente mandíbula, o Mastim tende a dilacerar seu corpo com movimentos bruscos de sua cabeça.

Uma das características mais infames do Mastim Alado é o seu uivo que transcende os planos e é detectado apenas pela presa que ele busca. Quando empreende uma caçada, a criatura anuncia sua chegada com longos e lamentosos uivos que no início parecem distantes. Este som vai se tornando cada vez mais ameaçador e próximo com o passar do tempo. Essa medida visa minar a sanidade da presa fazendo com que ela sinta que seu fim está cada vez mais próximo. Há um efeito psicológico desconcertante que incide sobre os nervos da presa fazendo com que ela não consiga dormir ou relaxar sabendo que a criatura está cada vez mais próxima. Depois de ser comandado a buscar um alvo, o Mastim não se desvia de sua tarefa e irá empreendê-la de maneira implacável. Não há nenhuma maneira de postergar ou cancelar a caçada. 

A chegada do Mastim Alado ocorre quando ele literalmente rasga o véu dimensional penetrando em nossa realidade para fazer sua coleta. Testemunhas que presenciaram tal coisa afirmam que a criatura surge no ar em meio a uma cacofonia aterrorizante de alarido e uivos. A presa pode ser morta imediatamente pelo Mastim ou carregada por ele até sua dimensão de origem. Lá seu destino é incerto, mas considerando que ninguém levado através da fenda dimensional retornou, é justo supor o que acontece.

MASTIM ALADO para Chamado de Cthulhu

FOR 100   CON 120   TAM 95   

INT 70      POD 130   DEX 90   

HP: 22

Bônus de Dano (BD): +1D6

ATAQUES: Mordida 60%, dano 1d10*

Garras 45%, dano 1d6 + BD

* O Dano ignora todas as armaduras, mesmo as mágicas

Ao Morder uma vítima o Mastim Alado a mantém capturada em suas presas e causa 1d6 pontos de dano por rodada posterior sem precisar realizar testes adicionais. Uma vitima capturada nas mandíbulas da fera pode testar sua FOR contra a FOR da criatura para se livrar.

ARMADURA: Nenhuma, porém nenhuma arma física pode ferir o Mastim Alado. Feitiços e armas mágicas são capazes de ferir a criatura normalmente. Ao ser reduzido a 0 HP, o Mastim desaparece em uma nuvem de fumaça, ele se reintegra em 1d6 noites e ressurge para continuar a caçada.

 MAGIAS: O Mastim conhece 1d10 magias à escolha do Guardião.

HABILIDADES: Esquiva 90%, Saltar 90%, Farejar 90%, Rastrear 100%

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quinta-feira, 18 de julho de 2024

O Habitante das Cloacas - Uma entidade de terror urbano

 

baseado no original por Luis Bustillos Sosa

Nas lobregas e esquecidas entranhas da Cidade do México, onde as trevas devoram vorazmente as fontes de luz e o ar se torna um veneno para os pulmões, existe um labirinto escuro de túneis e condutos infindáveis: as Cloacas.

Neste submundo putrefato, onde as águas residuais fluem e refluem como um rio desbocado e os ruídos discordantes da civilização desaparecem na negritude eterna, vagam horrores indizíveis. As cloacas são terreno perigoso, infestado de pragas e doenças infeciosas. Os refugos da civilização escorrem por esses canos e desaguam nas galerias repletas com o excremento e sujeira, rescaldo e secreções imundas.

Num ambiente tão insalubre, inacessível para qualquer ser que não se alimenta de podridão e faz dela seu covil, vive uma criatura nascida das mutações mais perversas e da decadência urbana.

Poucos ousam mencionar o seu nome, mas os que o fazem, entre sussurros nervosos, o chamam simplesmente de o "Habitante".

Alguns sugerem que ele pode ser uma terrível mutação catalisada pelas substâncias aviltantes presentes na água poluída. Existe a noção de que ele possa um dia ter sido um ser humano, transformado pelo meio após anos de confinamento nos esgotos. Gradualmente teria sido consumido e deformado, até se tornar uma paródia grotesca do seu antigo eu. Outros, mais temerosos, murmuram que se trata de uma entidade demoníaca, atraída pelos segredos ocultos e pelas misérias insondáveis da grande metrópole. Finalmente há os que apontam para uma forma que nasceu espontaneamente em meio ao lodo cru e que se desenvolveu, tendo nesse meio uma espécie de caldo primordial.

Mas ninguém sabe ao certo que forças nefastas teriam sido combinadas para dar vida a esse horror. Sua origem permanece imersa em incertezas, sendo impossível aferir como se deu gênese tão profana.


Não obstante, o Habitante vaga pelos alagadiços, nutrindo-se com as formas de vida rasteiras e extraindo desse meio aquilo que necessita. Ele atrai ratos e os devora, bem como baratas, mocas e larvas. Quando o calor dos túneis chega a uma temperatura insuportável nos meses de verão, ele rasteja laboriosamente até perto da superfície na esperança de recolher alguma presa maior. Desaparecimentos de animais domésticos e pequenas crianças não são algo raro próximo das grades de coleta de chuva. E mais de um vagabundo já foi capturado pela coisa. De fato, alguns anos atrás, a descoberta de ossos, tanto de animais quanto de humanos numa galeria, reascendeu as histórias sobre o Habitante.

Há lendas que são contadas sobre ele desde os anos 60, quando as pessoas mencionavam os ruídos guturais de algo grande se arrastando pelos túneis. Falavam também do fedor pútrido, algo pior que mil fossas abertas num dia de calor, um odor ocre que emergia por bueiros e canos irrompendo das profundezas. Nas décadas seguintes a história se popularizou, como uma espécie de lenda urbana da qual as pessoas riam, mas apenas quando estavam na segurança de suas casas, bem distante das cloacas. 

Entre técnicos e pessoal de manutenção, as lendas sobre a coisa nas Cloacas eram bastante populares. A maioria deles jamais ousariam descer sozinhos ou explorar algum túnel sem levar consigo uma gaiola com um gato. A ideia é que se a coisa fosse ouvida ou o fedor detectado, o felino fosse deixado para garantir a fuga apressada de volta à superfície. Há muitos relatos de trabalhadores citando tais situações, e narrativas dramáticas sobre colegas que não tiveram a mesma sorte. "As cloacas são cheias de ossos" - diz um ditado conhecido entre esses funcionários da companhia mexicana de água e esgoto.

Mas com o que se parece o Habitante das Cloacas?

Esta abominação é descrita como uma massa revoltante de carne pálida, pele pustulenta e escorregadia, similar a borracha que se contorce e arrasta. Uma bolha aviltante de sujeira gordurosa que deixa um rastro após sua passagem, como uma gigantesca lesma. O Habitante não tem membros e sim pseudopodes mal formados que se esticam, agarram e puxam a massa informe, impelindo-o pelos túneis. Ele vive em câmaras submersas ou cheias de lixo e não parece se importar com o ambiente que o cerca encontrando nichos onde passa dias imóvel.


A coisa se move lentamente, mas aperfeiçoou táticas para atrair vítimas em potencial deixando objetos brilhantes, por vezes de valor, próximo de onde está escondida. Quando alguma presa se aproxima, ela avança para capturá-la ou cai sobre ela. A criatura também faz uso de uma toxina química produzida por seus órgãos internos. Essa substância se concentra em uma espécie de bolha inchada e escura na superfície de sua massa. Quando assim deseja, ela se infla e estoura, liberando uma nuvem causticante de cheiro nauseante que age sobre as sinapses cerebrais paralisando a vítima que a respira. O habitante simplesmente então avança sobre a vítima que não consegue se defender.

Não há como saber quais os sentidos que a guiam ou se ela é dotada de real consciência. Seus olhos são como dois poços profundos que engolem a escassa luz ao seu redor e suas fossas respiratórias fungam constantemente fazendo um som de roufenho. É sua enorme boca rasgada que chama mais a atenção. Ela é dotada de dentes compridos e afilados como cerdas nas costas de um porco espinho. Uma vítima colhida pelo monstro é empurrada por essa bocarra que se distende, escorregando para dentro da goela graças a uma saliva que corre em profusão. No processo, ela é rasgada e fatiada. Grande o bastante para consumir um homem adulto, o Habitante pode engolir sua presa e lentamente a matar em seu interior.

É costumeiro que após a vítima parar de se debater, ele regurgite os restos uma e outra vez afim de absorver todo material. A criatura não consegue processar ossos, couro sintético ou cabelos e esse material é vomitado.

O Habitante é uma entidade solitária, passa a maior parte de seu tempo imóvel sendo difícil de distingui-la de uma simples pilha de refugo. Após se alimentar ela passa semanas deglutindo, período em que se mantém inativa. Contudo, seu apetite voraz, mais cedo ou mais tarde, irá levá-la a caçar novamente.

Os degredados e maltrapilhos compartilham seu saber em torno de fogueiras moribundas, trocando histórias de terror sobre essa coisa atroz e seu reino subterrâneo. Para alguns, o Habitante é um castigo nascido dos pecados da urbanização desenfreada. Outros acham que ele é um guardião sinistro que protege segredos velados de um mundo nauseante.

Em torno desse horror se formou uma espécie de culto doentio que venera o Habitante como uma espécie de divindade que deve ser aplacada e apaziguada. Esse bando de degenerados manifestam em seus corpos todo tipo de doença e carregam essas pústulas com distinção, considerando-as como símbolos de sua devoção irrestrita. São fanáticos e completamente insanos. Eles marcam os túneis que formam seus domínios com grafites elaborados em tinta.


A criatura aprendeu a confiar no séquito e a aceitar interagir com ele, ainda que, se especialmente faminta, devore um ou dois desses cultistas dementes. Os rituais improvisados são realizados nas galerias profundas, feitos na presença da criatura que asperge sua gordura vitriólica como uma espécie de sacramento batismal aos recém iniciados. Ele causa alucinações e revela portentos místicos. Os iniciados recolhem os restos regurgitados pela criatura, que são reunidos com grande devoção e empilhados em altares profanos. Sacrifícios, auto mutilação e outros comportamentos desprezíveis são levados à cargo na presença do Habitante na esperança de distraí-lo ou agradá-lo. Não há como saber se tal coisa o satisfaz de alguma maneira.

O Habitante das Cloacas é um enigma para aqueles que se aventuram a contemplar as profundezas proibidas da capital mexicana, mas é provável que seres semelhantes existam em outras metrópoles modernas ao redor do mundo.

Suas motivações são inextricáveis, mas uma verdade permanece inabalável: essa perversa entidade é a perdição daqueles que cruzam seu caminho.