quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Será que um dia ainda veremos um filme de "Nas Montanhas da Loucura"?


O que teria acontecido com o filme "Nas Montanhas da Loucura" do diretor Guillermo Del Toro?

Faz uma década que a clássica novela de H.P. Lovecraft se tornou o projeto dos sonhos do diretor mexicano Guilhermo Del Toro. A história acompanha uma expedição nos anos 1930 que desembarca na até então pouco conhecida Antártida e lá encontra uma antiga civilização de criaturas bizarras que deixou no gelo ruínas que guardam segredos inomináveis sobre o passado remoto da Terra e da própria humanidade. Montanhas é uma das histórias mais populares de Lovecraft, um autor que em vida jamais poderia imaginar a popularidade que conquistaria após sua morte. Redescoberto por uma nova geração de leitores ávidos pelo seu trabalho, Lovecraft se tornou famoso em várias mídias além da Literatura, fazendo seu caminho através de quadrinhos, RPG, desenhos animados e mais recentemente séries de televisão. O cinema, contudo, sempre foi um destino complicado para as obras de Lovecraft.

Com produções modestas mas esforçadas, passando por verdadeiras porcarias indignas de levar seu nome, os filmes baseados na obra de Lovecraft sofrem de uma estranha síndrome de altos e baixos. Montanhas da Loucura poderia sinalizar com a reviravolta que alçaria seu nome a um lugar de destaque nas produções de Hollywood. E vindo dali um sucesso, quem sabe Lovecraft poderia se tornar um nome quente para os estúdios que poderiam adaptar outros contos emblemáticos do Cavalheiro de Providence.

Tudo parecia conspirar para algo monumental, como se as estrelas estivessem próximas de se alinhar. Se existia alguém capaz de fazer a correta transição de Lovecraft do papel para o celulóide, de tornar a aparentemente infilmável história algo factível, esse alguém seria Guilhermo Del Toro, um entusiasta de Lovecraft, nerd, fã de longa data que desfilava por aí com um anel de formatura da Miskatonic University pronunciando os nomes impronunciáveis com uma familiaridade desconcertante.

Em 2006, os rumores começaram a se espalhar e a coisa parecia estar tomando forma.

Del Toro escreveu um rascunho e trabalhou com um roteiro na companhia de Matthew Robbins que ajudou a conceber o script em tempo recorde. Na ocasião, o diretor disse que a paixão pela obra fazia com que as palavras surgissem quase que por encanto. Havia no entanto alguns problemas: a Warner Bros, estúdio que ficaria responsável pelo projeto reclamou do custo elevado (na casa dos 150 milhões) e do teor cínico da história. Para eles, uma história de terror, com conteúdo destinado ao público adulto e com um final pouco feliz era uma aposta perigosa. A saída dada pelos engravatados do estúdio era fazer algumas mudanças no roteiro apresentado: inserir uma personagem feminina, trazer a história para os dias atuais e fazer algumas mudanças no final. 


Os fãs prenderam a respiração.

Del Toro bateu o pé e disse que não comprometeria sua visão da obra de Lovecraft para agradar ao estúdio. Para ele, a história era perfeita da forma que estava e qualquer mudança iria diluir seu impacto, e como todos sabemos, uma história de horror sem impacto é receita para o fracasso.

Apesar de parecer ter ganho o primeiro round, o estúdio acabou recuando. Del Toro recebeu uma proposta para fazer o filme com 65 milhões, uma fração do que se julgava necessário. Foi a vez dele recuar. O projeto foi então engavetado e Del Toro foi lidar de dois outros projetos que tomaram sua atenção pelos quatro anos seguintes Hellboy II e a trilogia The Hobbit.      

Vamos avançar para 2010, quando Nas Montanhas da Loucura foi resgatado do limbo em que se encontrava por ninguém menos que James Cameron que havia acabado de bater todos os recordes de bilheteria com Avatar e que ainda era festejado como o homem que fez o Titanic navegar por águas milionárias. Era sem dúvida um nome de peso! Cameron tinha interesse de ser produtor e tudo parecia conspirar para as coisas avançarem. Ele fez contato com outro estúdio, a Universal Pictures que demonstrou enorme interesse na história, ainda que torcesse o nariz para os 150 milhões e para o final criado por Del Toro.

Ainda assim, as notícias davam conta de que Montanhas seria a maior aposta da Universal para o ano. Del Toro seria o Diretor e receberia carta branca para fazer o que bem entendesse para recriar a expedição ao Inferno Congelado. O nome de Tom Cruise passou a ser associado ao filme. O ator havia supostamente lido o roteiro e se animado com a ideia de viver o Professor Dyer. Outros nomes foram sugeridos em rumores cada vez mais animadores a respeito da produção: James McAvoy (dos filmes da franquia X-Men) que estava se tornando um ator bastante conhecido e Ron Perlman (o Hellboy em pessoa) um amigo e parceiro de longa data de Del Toro. Com grandes expectativas, Del Toro começou a trabalhar nos conceitos para que o filme fosse realizado em 3D, a única imposição da Universal.

Em uma entrevista para a FearNet, Cameron abriu o jogo e contou o que os fãs poderiam esperar da adaptação. De acordo com o produtor, o filme seria um triunfo do ponto de vista visual. Efeitos digitais de tirar o fôlego que marcariam um novo patamar de excelência técnica. Isso vindo de alguém que acabara de dirigir Avatar.


"O desenho da produção é fenomenal - tanto os conceitos tridimensionais quanto os em 2D são notáveis. As maquetes, os testes com CG, o trabalho dos artistas envolvidos. Os fãs certamente ficarão satisfeitos com o que vamos atingir nesse filme".   

Os primeiros modelos de como seriam as criaturas e como seria a interação delas com os personagens animou o estúdio. Ao menos por alguns minutos até eles verem quanto aquele primor custaria. O orçamento do filme chegaria a algo em torno dos 175 milhões, um valor com tendência a inchar ainda mais. 

O risco começava a fazer o estúdio suar frio. A Universal não estava feliz com o grau R (restricted) que o filme teria. Pediram uma reunião com Del Toro e Robbins para conversar sobre alguns aspectos mais sanguinolentos do roteiro e que sem dúvida tornavam o filme adequado apenas para o público adulto. Ou seja, nada de crianças e adolescentes, uma das fatias mais lucrativas da bilheteria. Os produtores expressaram a preocupação de que Montanhas não era um sucesso comercial em face de seu conteúdo aterrorizante. Del Toro bateu de frente com os produtores, contando apenas com o apoio de James Cameron. Ele disse que não iria remover os aspectos mais pesados da trama, e que se o fizesse, o filme não iria funcionar de modo algum. A queda de braço continuou sem que ninguém movesse um centímetro.

Del Toro concedeu uma entrevista na época em que dizia que "Os Pássaros" (clássico de Hithcock) era uma das suas maiores inspirações. Ele usaria efeitos especiais para realçar a visão perturbadora de Lovecraft. Isso tornaria o filme atraente para o grande público, mas não comprometeria sua visão. "O público adora o terror, quando ele é bem feito!" 

Adam Fogelson, o chefe do Departamento de Produção da Universal Pictures, eventualmente aceitou o projeto após várias reuniões com os cineastas. Estes deveriam ceder em apenas dois pormenores: incluir uma protagonista feminina (falou-se de Angelina Jolie por algum tempo) e refazer duas ou três cenas que aos olhos dos produtores seriam certeza de graduação R. Com essas sendo minimamente atenuadas, eles esperavam uma classificação PG-17, algo menos arriscado para o estúdio. Na ocasião, Fogelson descreveu o filme da seguinte maneira:

"Será uma das mais extraordinárias e gratificantes experiências cinematográficas dos últimos anos". 


Com sinal verde, Del Toro começou a trabalhar nos detalhes do filme cujo orçamento foi fixado em 160 milhões, o bastante para atingir o grau de excelência esperado. O filme deveria chegar aos cinemas em 2012 e ser uma adaptação fiel seguindo o roteiro original nos menores detalhes. Isso significa que os questionamentos existenciais e o horror cósmico iriam permear cada linha do texto de forma pessimista e aterrorizante. Del Toro queria monstros e ação, sustos e arrepios. Além disso, Del Toro esperava apresentar a primeira e mais fiel aparição do Grande Cthulhu

Com o projeto em pré-produção avançando o filme parecia ser uma realidade cada vez mais próxima. Os fãs esfregavam as mãos em antecipação e repetiam o mantra "em Del Toro, nós confiamos". Mas então vieram os problemas detectados na pré-produção.

O 3D e os efeitos CGI custariam, afinal de contas, muito mais caro do que o imaginado, inchando o orçamento para a casa dos 200 milhões segundo estimativas conservadoras. Del Toro queria nada menos do que a mesma equipe empregada em Avatar, algo com que Cameron já havia concordado.

O grande problema no entanto se encontrava em outra produção que já estava sendo concluída, a prequel de Alien dirigida por Ridley Scott: Prometheus. Muitas pessoas apontavam para uma alarmante semelhança entre os roteiros quanto a origem da raça humana, um dos temas centrais em Montanhas da Loucura. Os dois filmes seriam lançados por volta da mesma época, o que não era uma boa perspectiva do ponto de vista financeiro. Haveriam inevitáveis comparações e os dois filmes poderiam vir a sofrer com isso. Ademais, Prometheus havia largado na frente e Ridley Scott havia prometido entregá-lo com pelo menos 2 meses à frente de Del Toro.

Com tudo isso, o projeto foi colocado primeiro em espera. A Universal ainda tentou negociar com Del Toro uma classificação PG-13, mas nesse momento o próprio diretor decidiu que aquela briga iria continuar indefinidamente. Em meados de 2010, o projeto foi arquivado uma vez mais e continua mantido nesse arquivo como um daqueles filmes extremamente antecipados, mas que dificilmente um dia serão lançados.


Mas o que realmente aconteceu?

Depois do fracasso com a Universal, o Diretor tentou vender o projeto para outros estúdios, mas a essa altura todos já sabiam do altíssimo custo de produção agregado aos riscos inerentes do projeto. Del Toro estava irredutível quanto aos aspectos técnicos e artísticos de seu filme, ele não iria abrir mão de nada que pudesse comprometer sua visão. A Warner voltou a sinalizar para ele, aceitando aumentar o orçamento (sem no entanto, atingir os 200 milhões estimados), mas para isso exigia o comprometimento com um terror menos pesado, uma personagem feminina, um subplot explorando um romance e um final menos denso. Quando Del Toro ouviu que a proposta envolvia uma classificação PG-13 ele teria até abandonado a reunião.

Prometheus também não ajudou em nada. A história similar e o fato do filme receber grande atenção também não eram bom sinal. A luta entre os filmes seria desigual já que Alien era uma franquia consolidada, já Lovecraft não tinha muito a mostrar além de Reanimator. Del Toro estava desanimado com o anúncio de Prometheus, ele temia que o filme seria um sucesso estrondoso e que seu filme ficasse à margem dele...

No final das contas, Prometheus acabou não sendo o filme que se esperava. Apesar de ter conseguido uma boa bilheteria, o filme de Ridley Scott só atingiu uma fração do esperado. Tecnicamente perfeito, o roteiro tinha mais buracos que um queijo suíço. Crítica e Público concordavam que não era exatamente aquilo que se queria e a franquia Alien ficou em modo de espera. Se Prometheus não conseguiu o almejado, será que Montanhas teria melhor sorte?

Del Toro decidiu que tentaria lançar seu nome como diretor respeitado de filmes de ação coalhados de Efeitos Especiais. Ele tentaria um blockbuster na forma de Pacific Rim (2013). Se o filme, centrado em robôs e monstros gigantescos destruindo cidades, conseguisse o retorno esperado, ele teria respaldo para projetos de altíssimo risco como Montanhas na Loucura. Era uma aposta perigosa, mas Del Toro aceitou de bom grado.


Infelizmente Pacific Rim, não foi o sucesso que se esperava terminou por apenas empatar os elevados gastos da produção, em parte graças a bilheteria internacional. E Pacific Rim havia custado 150 milhões, tendo classificação PG-13. Os produtores viram aquilo como um alerta de que o nome de Del Toro podia ser respeitado, mas que seus filmes não tinham o retorno financeiro que se esperava. Assim como havia acontecido com Blade, Hellboy e O Labirinto do Fauno, outros filmes de Del Toro, o público acabava por descobri-los depois deles deixarem os cinemas. Tornavam-se adorados pelos fãs, mas tarde demais para os padrões de Hollywood.

Com o quase fiasco de Pacific Rim e com o Hobbit sendo considerado um projeto megalomaníaco, Del Toro teve de que se reinventar e fez isso com classe. Buscando algo menor e mais introspectivo ele conquistou a glória com "A Forma da Água" (2017), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme e Direção.

Com o sucesso, o nome de Guilhermo Del Toro se tornou respeitado novamente e muitos esperavam que agora ele poderia conduzir o projeto que bem entendesse. Desse modo, Nas Montanhas da Loucura finalmente estaria apto a ser filmado e lançado, certo?

Bem, até agora isso não aconteceu...

O roteiro continua em poder da Universal e ele permanece com o status de pré-produção, o que nos faz pensar que não foi enterrado de uma vez por todas. Um porta-voz da Universal chegou a cogitar que o filme poderia seguir adiante dirigido por outra pessoa, mas nesse caso Del Toro reagiu dizendo que seu roteiro não será negociado.

Com certeza o diretor espanhol não esqueceu da adaptação de H.P. Lovecraft e continua sonhando com ela. Esse é um projeto do qual ele não consegue se despedir e permanece como uma meta a ser alcançada. Ele disse em repetidas entrevistas que ainda espera filmar com Nas Montanhas da Loucura e que esse dia irá chegar num futuro próximo. No entanto ele parece bem mais ponderado e menos afoito em impor o filme custe o que custar. Del Toro parece ter compreendido que os filmes tem um momento certo para serem realizados e que é questão de tempo até que Montanhas complete seu caminho.


O sucesso recente da série da HBO Lovecraft Country ajudou a alavancar a esperança, mas ao mesmo tempo a imagem de Lovecraft como indivíduo preconceituoso não ajudou muito. Inegavelmente Lovecraft era um gênio, mas suas opiniões são o pesadelo para qualquer relações públicas. Vender um filme baseado em sua obra como "ame a obra, não o autor" parece ser a proposta mais acertada.

Mas será que ainda veremos Del Toro no timão desse navio?   

Em uma entrevista recente no Indiewire, ele disse que continuará lutando para ver esse filme pronto e que só vai desistir depois de estar morto e enterrado. Há boatos de que a Netflix em 2019 teria entrado em contato com a Universal Pictures, que detém os direitos sobre o roteiro escrito por Del Toro e que teria sinalizado com interesse de adquiri-lo. Não se sabe em que pé está essa negociação se é que ela existe. Seria o filme então transformado em uma série? E se for, isso seria bom ou ruim para a obra?

Enquanto essas perguntas não são respondidas, os fãs tentam observar o horizonte distante, que parece coberto por uma densa neve branca e um nevoeiro espesso. Eles esperam enxergar o contorno das Montanhas da Loucura se delineando a qualquer momento, mas os fãs fiéis de Lovecraft devem saber que isso só irá acontecer quando as estrelas estiverem certas.

Até lá nos aguardamos.

Bom, enquanto o filme não sai, podemos sonhar com o cartaz. Que tal esse aqui?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Ladrão de Cabelos - Um Invasor em busca de estranhos troféus


Localizada em Jackson County, Mississippi, encontra-se a cidade de Pascagoula. Embora hoje ela seja o centro do distrito de Jackson e conte com uma população de mais de 30 mil pessoas, houve um tempo em que ela não era mais do que uma tranquila vila de pescadores onde nada de importante acontecia. Apenas na Segunda Guerra, Pescagoula experimentou um certo desenvolvimento, quando foi convertida em estaleiro para a Marinha norte-americana desesperada por suprir a demanda por navios de guerra. 

A cidade então inchou, atraindo operários e técnicos especializados que passaram a trabalhar e morar lá. Em apenas dois anos, a população residente triplicou. Infelizmente isso trouxe uma quantidade considerável de pessoas indesejáveis para a sociedade local. A maioria eram simples ladrões, bêbados e bandidos raia-miúda, mas houve um outro criminoso que se instalou na cidade nesse período, um que deu origem a um dos mais bizarros casos de invasor misterioso de que se tem notícia.   

Tudo começou em 5 de junho de 1942, quando duas jovens chamadas Mary Briggs e Edna Hydel estavam dormindo em seus quartos no convento de Nossa Senhora das Vitórias em uma, até então, tranquila noite de verão. As duas acordaram assustadas por um ruído alto que atraiu sua atenção para a janela do aposento. Ali, iluminado pela luz da rua e emoldurado pela janela quebrada, estava a silhueta de um homem pequeno e magro. Ele olhou na direção das moças antes de agilmente escalar o parapeito e escapar para a escuridão da noite. Ao que tudo indica, o sujeito havia acidentalmente quebrado o vidro em sua tentativa de deixar o quarto. 

As moças assustadas gritaram e chamaram por ajuda que logo veio em seu socorro. Acreditavam se tratar de um ladrão, mas no quarto, após uma rápida revista, não deram pela falta de nada de valor. Uma outra moça então chamou a atenção para um fato curioso: cada uma das moças parecia ter perdido uma mecha de cabelo, como se tivesse sido cortado cuidadosamente com uma tesoura. Embora ninguém tenha se ferido, aquilo era estranho, já que alguém havia entrado no quarto de duas moças na calada da noite com o objetivo único de cortar seus cabelos.

Até essa altura, a polícia não se importou muito com o ocorrido, afinal, parecia, quando muito, algum tipo de brincadeira de gosto duvidoso. Entretanto, esse caso foi apenas o início de algo que se desenrolou numa série de estranhos incidentes cada vez mais bizarros.

Uma semana mais tarde, o invasor cortou uma tela e se infiltrou no quarto da casa da família Peattie para roubar um tufo de cabelo de uma menina de seis anos que dormia logo ao lado de seu irmão. Nesse caso ninguém ouviu nada e só perceberam que havia acontecido algo na manhã seguinte. Uma pegada deixada por um pé descalço e um punhado de terra na entrada da casa foram todas as pistas encontradas. O invasor não roubou nada - embora tenha passado pela sala onde havia um relógio caro sobre a mesa - e deixou a residência sem ferir ninguém.


Nessa mesma semana aconteceriam mais três casos similares, com o invasor cortando telas de proteção para entrar em casas no meio da madrugada para reclamar seu troféu de cabelo.

Para muitos, aquilo parecia uma brincadeira inofensiva, ainda que extremamente desagradável. Contudo as coisas iriam mudar e se tornar violentas, quando o Sr e Sra Heidelberg foram acordados no meio da noite e atacados brutalmente por um homem empunhando uma barra de ferro. O sujeito, descrito como um homem baixo com cerca de 30 anos, usou a barra para espancar o casal arrancando-lhes dentes e deixando ferimentos na cabeça. A Sra Heidelberg, atordoada pelo ataque, ainda ouviu o homem se aproximando e repetindo para si mesmo: "Vocês tinham que estar dormindo! Tinham que estar dormindo! Mas tiveram de acordar, tiveram de dificultar as coisas..." ele repetia nervosamente. Então retirou do bolso uma tesoura e cortou cuidadosamente os cabelos da mulher. Ela percebeu que o sujeito guardou os cabelos em um envelope, antes de sumir.

A repentina escalada de violência deixou a população de Pascagoula em pânico. Havia um maníaco na cidade, um que não se importava de espancar as pessoas para obter seu estranho prêmio. Esse estranho caso foi o suficiente para deixar as pessoas em alerta. Os jornais, por sua vez, faziam enorme estardalhaço com o caso, chamando o perpetrador pelo apelido de "O Barbeiro Fantasma de Pascagoula". As pessoas estavam temerosas e agora trancavam portas e janelas, coisa que jamais acontecia na pacífica cidade, sobretudo, nos meses de mais calor.

Três noites depois o Ladrão de Cabelos atacou novamente. Dessa vez, uma moça de 22 anos chamada Mae Anderson foi o a vítima. Ela acordou no meio da noite e percebeu que não estava sozinha no quarto. O homem percebendo que ela estava despertando correu na sua direção colocando a mão sobre sua boca. Ele sentou sobre ela, e a moça percebeu que o sujeito estava nu. Ele sussurrou em seu ouvido: "Fique calada ou vai ser pior. Eu não quero ferir você a não ser que precise". A moça perdeu a consciência com o susto e terror, quando acordou o invasor havia desaparecido assim como parte de seu cabelo cortado com tesoura. Na beirada da cama, o perpetrador havia deixado uma mancha de sêmen, mas não havia machucado a moça ou roubado qualquer coisa.

O medo era palpável em Pascagoula, sobretudo porque muitos acreditavam que o monstro havia violentado a moça e esta se encontrava traumatizada, incapaz de lembrar do horror. As pessoas ficavam acordadas, ouvindo qualquer ruído estranho que pudesse denunciar o ataque do ladrão de cabelos. Dois grupos de vigilância se formaram para proteger a vizinhança, os homens andavam armados com espingardas e tacos de baseball. Não encontraram nada!


Vários outros relatos chegaram nas semanas seguintes, sempre envolvendo casos em que um invasor havia entrado na calada da noite, cortando telas ou destrancando portas para chegar até suas vítimas. Agora ele não se contentava de cortar apenas uma mecha do cabelo, mas produzia enorme estrago cortando tufos inteiros para saciar sua compulsão bizarra. Aos poucos, um padrão começou a se formar: o ladrão de cabelos dava preferência a cabelos loiros, era mais ativo nas segundas e sextas e parecia se satisfazer sexualmente com suas ações. Em mais de uma ocasião, encontrou-se manchas deixadas no colchão ou mesas de cabeceira dos quartos. O maior temor era justamente que o criminoso já havia demonstrado propensão para a violência e não parecia disposto a ser capturado. Ainda que aparentemente não tivesse molestado nenhuma das mulheres, tal coisa parecia ser questão de tempo.

As autoridades estavam desesperadas para pegar o invasor e tomaram medidas para isso. Contrataram seis novos delegados e recrutaram voluntários para montar uma força tarefa que deveria patrulhar as ruas. Dois cães farejadores foram trazidos de Memphis para ajudar na caçada. Até mesmo o Exército, que havia se instalado na cidade ajudou na caçada, reformulando horários de trabalho e auxiliando as autoridades com membros da Polícia Militar destacados para a função. Apesar de todos esses esforços ninguém foi preso e a única pista foi um par de luvas ensanguentadas encontradas em um bosque próximo. Se havia alguma conexão entre as luvas e o Barbeiro Fantasma ninguém sabia ao certo. 

Pior, o Ladrão de Cabelos continuava atacando impunemente apesar da polícia patrulhar as ruas que agora ficavam iluminadas. O Ladrão de Cabelos conseguiu entrar na casa da Sra. Edith Newman de 32 anos, esposa de um militar enviado para lutar. Ela acordou com o homem misterioso em seu quarto e conseguiu descrever o que se passou em termos no mínimo perturbadores. Assim que percebeu que ela estava desperta, ele avançou contra ela e a agrediu com um soco no rosto que a fez perder os sentidos. Edith acordou posteriormente, descobrindo que estava amarrada na guarda da cama com pedaços rasgados de lençol usados para imobilizá-la pelos pulsos e tornozelo. Sua boca foi amordaçada e ela se sentiu obviamente aterrorizada temendo o que viria a seguir.

O invasor ainda estava ali com ela, nu, usando uma máscara na face. Ela viu então que ele se aproximou para afagar sua cabeça: "Você é bonita! Que cabelo bonito!" disse com um sussurro. Em seguida apanhou a tesoura e começou a cortar parte de seu farto cabelo loiro. O mais estranho veio a seguir, o maníaco levantou a máscara o bastante para destampar a boca onde enfiou mechas inteiras do cabelo recém cortado. O sujeito engolia parte do cabelo ajudado por goladas numa garrafa que estava sobre a cômoda. A sra. Newman assistiu aquilo transtornada virando o rosto de um lado para o outro, o que desalojou a mordaça que a impedia de falar. Ela então soltou um grito de desespero aterrorizante. O maníaco saltou sobre ela e socou seu rosto fazendo com que ela perdesse os sentidos. Alertados pelo grito, vizinhos chamaram a polícia, mas quando estes chegaram, encontraram a mulher em choque. Não havia nenhum sinal do Ladrão de Cabelos que escapou novamente.

A essa altura, as pessoas já começavam a se perguntar se não haveria algo sobrenatural nos ataques. Circulava o boato de que o Ladrão de Cabelos não era um homem e sim um fantasma capaz de vagar pela cidade sem ser visto ou detectado pelas autoridades. Uma coisa era certa, depois da perturbadora descrição dada pela mulher, a população estava disposta a acreditar em qualquer coisa. A Sra. Newman não chegou a sofrer ferimentos graves, mas o choque do incidente a deixou profundamente traumatizada. O que poderia significar esse comportamento bizarro? O que pretendia o Ladrão e porque tal coisa parecia ser tão importante para ele?

Após uma ausência, possivelmente motivada pela vigilância cada vez mais rigorosa, o Invasor atacou três semanas depois em uma área isolada nos arredores da cidade. Dessa vez, o maníaco usou de uma estratégia diferente para vitimar a Sra. Elisa Taylor, 24 anos, esposa de um soldador que trabalhava no estaleiro naval nos turnos da madrugada. Taylor contou que sentiu um forte cheiro de produto químico antes de perder os sentidos. Seu marido a encontrou desmaiada com parte do cabelo faltando. A polícia suspeitava que o invasor tivesse usado um agente químico, provavelmente um derivado de clorofórmio para agir sem o risco de ser descoberto. O ataque causou uma histeria jamais vista na cidade, com a população exigindo que o responsável por aquela onda de crimes fosse capturado. Um tumulto, causado por uma suspeita entre funcionários do estaleiro quanto a um dos seus colegas, quase terminou com um inocente sendo linchado. O acusado em questão sequer estava na cidade na época dos primeiros ataques e possuía álibis que o isentavam de qualquer responsabilidade.


Em meio a esse pânico crescente a polícia surpreendeu a todos anunciando que havia encontrado um suspeito que acreditavam ser o Ladrão de Cabelos. O homem era um químico, descendente de alemães chamado William Dolan que trabalhava com compostos químicos e tinha uma longa história de rancor com os Heidelberg. O elemento mais comprometedor, no entanto, foi um envelope de papel contendo cabelo humano achado em uma gaveta trancada em sua casa. O cabelo loiro supostamente pertencia a Sra. Heidelberg e havia sido guardado com enorme cuidado. Dolan se disse totalmente inocente, afirmava que não tinha nada a ver com os crimes cometidos e que havia sido incriminado por ser descendentes de alemães. Dizia que a polícia havia forjado a prova dos cabelos achados em sua casa.

Havia muita discussão a respeito da culpa de Dolan e muitos achavam que realmente ele servia como bode expiatório. Uma teoria é que ele foi incriminado para desviar a verdadeira identidade do Ladrão de Cabelos, que na concepção de alguns seria um oficial militar de carreira, uma pessoa de família importante ou ainda um cidadão acima de qualquer suspeita, o pastor e o prefeito estavam entre os suspeitos. Dolan era um simpatizante do nazismo, em 1938 havia participado de demonstrações favoráveis ao regime alemão pelo seu antissemitismo raivoso. Muitos o viam desde então como um traidor embora ele não tivesse realizado nenhum outro ato de apoio aos nazistas, ao menos desde a entrada da América na Guerra. Alguns especulavam se Dolan não teria sido incriminado pelo próprio Ladrão de Cabelos que tramou tudo para escapar da perseguição. 

Dolan não tinha álibi para todas as noites em que o Barbeiro atacou, vivia sozinho em uma cabana isolada e não tinha muitos amigos. Era um tipo solitário e nem um pouco simpático. Ainda assim, isso seria o bastante para apontá-lo como o criminoso que colocou a cidade de joelhos? Pesava contra a teoria o fato dele ser alto, com quase 1,85 e ter um QI muito baixo, de apenas 100.

Muitos apontavam o fato de que, desde a prisão nenhum outro ataque havia ocorrido. Para todos os efeitos, o sumiço do criminoso apontava que Dolan podia ser o culpado afinal de contas. Dois boatos circularam pela cidade nos dias posteriores à prisão: o primeiro de que um Tenente do Exército havia sido transferido de Pescagoula. Posteriormente muitos acreditavam que ele recebeu baixa por transtorno psicológico e que teria sido mandado para uma unidade militar de tratamento mental. Não s efalava muito à respeito porque as forças armadas cuidavam dos seus, mesmo os problemáticos. O outro boato mencionava o suicídio de um rapaz baixo e atarracado de 20 anos chamado Jerry Hinds. O rapaz havia se enforcado num banheiro público depois de ser dispensado do serviço militar. Ele foi encontrado nu com uma carta de despedida em que admitia sua culpa nos crimes, ainda que tal carta jamais tenha sido vista. Hinds, descrito como uma pessoa introvertida, estranha e com uma passagem pela polícia por exibição indecorosa, era um excelente suspeito.

Uma vez que os crimes cessaram logo em seguida, e a situação de guerra continuou atraindo muito mais atenção, a população começou a deixar de lado o bizarro caso. Aos poucos ele foi se tornando uma estranha lembrança, quase uma nota de rodapé dos tempos da Segunda Guerra.

Restam, no entanto muitas questões. A principal: Por que cabelos?


À Luz da Psiquiatria Forense, o criminoso parecia ser um clássico fetichista compulsivo, um indivíduo que se satisfaz com a obtenção de determinados objetos que, para ele, possuem um significado profundo. Os fetichistas geralmente revivem suas fantasias e precisam estabelecer uma conexão cada vez mais material com suas lembranças exuberantes. Não é raro que quando iniciam uma carreira de crime, sigam adiante com ela, para sustentar sua necessidade patológica. Criam coleções guardadas com enorme devoção e zelo. Estas funcionam como um componente físico para ativar suas lembranças. O risco, a sensação de domínio e principalmente a excitação é rememorada pela manipulação dos objetos - chamados de troféus. 

Cabelos são um tipo de troféu comum entre fetichistas. Eles simbolizam a vaidade feminina e são também elemento associado com a beleza. O fetiche poderia ser por afagar os cabelos da vítima, uma sugestão sexual clara ou ainda cortar os cabelos, um elemento claro de humilhação. Considerando que o criminoso demonstrava alívio sexual após cortar os cabelos, é provável que ele fosse normalmente impotente e que dificilmente conseguisse manter uma relação satisfatória.   

Geralmente o fetichista clássico não incorre em violência, contudo, não é impossível que a patologia mental possa evoluir nesse sentido, sobretudo se eles se sentirem ameaçados. Ao contrário de muitos outros criminosos eles não desejam ser apanhados pois tem vergonha de seus hábitos e do que as pessoas podem pensar deles. Os fetichistas podem recair em violência física, cometendo estupro ou até assassinato em certos casos. O Ladrão de Cabelos parecia estar progredindo nessa direção e seria questão de tempo até ele incorrer em algo mais grave do que mera invasão. É extremamente raro que eles parem de cometer atos criminosos, exceto se capturados ou totalmente impedidos de fazê-lo. A compulsão do fetichista é muito forte, quase um vício.

Isso não explica, entretanto, a medonha descrição dos cabelos sendo consumidos.

Nesse caso, a explicação nos leva a assumir que o criminoso tinha uma compulsão tão exacerbada que o forçava não apenas a coletar os troféus, mas incorporá-los inteiramente a si mesmo. Ele não guardava os prêmios conquistados, mas os absorvia por inteiro acreditando que aquilo era o mais próximo que ele poderia chegar da intimidade almejada. 

A verdadeira identidade do Ladrão de Cabelos ainda hoje é motivo de debate. William Dolan chegou a ser condenado, mas eventualmente foi colocado em liberdade no ano de 1951. Os autos de seu processo atestam que ele foi condenado por associação criminosa e receptação de mercadorias roubadas, não pelas invasões em Pascagoula como muitos supunham. Ele negou até sua morte que fosse o responsável pelas invasões e que foi incriminado para que o verdadeiro perpetrador escapasse ileso. Ele morreu em 1960 de câncer no pulmão.     

Seja lá o que tenha acontecido entre junho e setembro de 1942 em Pascogula, Mississippi, é provável que jamais venhamos a compreender. O caso permanece hoje como uma nota de rodapé na história em meio a um momento de grande comoção.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Explorando os Mythos mais obscuros - Nug e Yeb as obscenidades gêmeas


Dentre os Mythos de Cthulhu, essas duas obscuras entidades referidas coletivamente, constituem um mistério profundo envolvido por um enigma indevassável. A verdadeira origem e propósito de Nug e Yeb permanecem insondáveis e nenhum culto, estudioso ou feiticeiro pode se dar ao crédito de afirmar entender sua natureza profana.

Conhecidos como as Obscenidades Gêmeas, eles são citados brevemente no Necronomicon. Os horrores parecem compartilhar da mesma origem sendo tratados como irmãos gêmeos. Acredita-se que eles sejam as crias de Shub-Niggurath e de Yog-Sothoth, gerados nas entranhas do universo quando os dois titânicos Deuses Exteriores se encontraram. Seu nascimento teria se dado através de fissão assexuada. Em outras versões o sêmen de Yog-Sothoth teria fertilizado o útero fecundo de Shub-Niggurath, dando origem aos gêmeos que foram gestados no ventre da Cabra Negra. Eles estariam entre as mais poderosas crias da Cabra Negra, descendentes diretos de duas das mais portentosas forças cósmicas do universo. Outra suposição é que Nug e Yeb seriam a prole de Shub-Niggurath e Hastur, o que parece mais razoável considerando que essas duas entidades são frequentemente mencionadas em conluio. 

Além dessa procedência familiar ilustre, as aberrações, segundo alguns estudiosos, teriam produzido ninguém menos que Cthulhu e Tsathoggua. Essa teoria foi fortemente contestada e resultou em um ponto de atrito entre diferentes cultos. Algumas seitas consideram a mera noção uma heresia, enquanto outras defendem que muitas entidades dos Mythos possuem uma complexa relação de afinidade entre si - uma que não nos cabe ponderar a respeito.


Como acontece com a maioria dos detalhes sobre o Mythos, não há como corroborar essas suposições. Tudo pode não passar de um simples delírio da mente distorcida de Abdul Al-Hazred que escolheu vê-los como irmãos gêmeos. São poucos os tomos que versam a respeito da genealogia do Mythos, em especial os Pergaminhos de Pnom, tratado em sânscrito que oferece um vislumbre da descendência dos Deuses e suas progênie.

O que se sabe é que Nug e Yeb foram venerados em Irem, ainda quando a Cidade dos Mil Pilares era habitada pela raça não-humana que a construiu. Posteriormente, milênios depois da cidade ser abandonada, tribos nômades encontraram o local em que os habitantes originais cultuavam seus deuses. Naquelas câmaras de pedra ainda reverberavam as energias dos antigos e estas despertaram nos homens a vocação para seguir tais divindades. O lendário Santuário dos Ritos localizado nas ruínas de Irem guarda vários entalhes em suas paredes onde Nug e Yeb são representados como forças cósmicas opostas. Um desses entalhes ancestrais teria dado origem ao símbolo místico do yin-yang, representando o equilíbrio entre forças antagônicas. 

Dos desertos da Arábia Saudita onde Irem permanece sepultada sob as areias, os cultistas teriam carregado o saber de Nug e Yeb. Um dos lugares em que esse saber profano teria florescido foi o lendário continente de Mu localizado em algum lugar do Pacífico. Os dois, no entanto jamais foram tão populares quanto os outros horrores abertamente venerados pelo povo do continente. Em parte por ser caráter egoísta e indiferente, permaneceram louvadas por alguns poucos dementes. 


Quando Mu foi destruída, o conhecimento dos Deuses viajou novamente, encontrando caminho até as cavernas profundas de K´N-Yan. Nesse reino subterrâneo, em meio a um abominável povo imortal, os Gêmeos granjearam maior reconhecimento. O povo de K-N-Yan, conhecido pelo seu misticismo e devoção ao Mythos dedicou a Nub e Yeb vários rituais. A maioria dessas cerimônias orgiásticas eram especialmente execráveis, envolvendo sacrifícios, violação e tortura como elementos fundamentais. Durante tais cerimônias, um simulacro humano incorporava a essência das Obscenidades Gêmeas tornando-se um ser andrógeno. Ele então era levado a um templo na forma de arena onde o aguardava um grupo de homens e mulheres escolhidas para a Cerimônia de Acasalamento. O simulacro devorava os homens depois de extrair deles o esperma para ser alterado em seu próprio corpo e o usava para inseminar as mulheres. Estas eram impregnadas para gerar bebês ungidos por Nug e Yeb. As mulheres estavam fadadas a morrer quando dessem à luz aos horrores que cresciam em seu útero. Delas iria emergir uma nova geração de simulacros ainda que apenas o mais forte deles sobrevivesse.  

Para os sacerdotes de K'n-yan, os gêmeos são os criadores do Grande Jardim em que Yig viceja. O Deus Serpente, que nos milênios seguintes se converteria em uma das entidades principais do prolífico Panteão de K'n´yan acabou sendo associado intimamente aos deuses gêmeos. Em várias interpretações teológicas esse Jardim luxuriante, criado por Nug e Yeb, seria o equivalente a um Paraíso que permitiu o surgimento de todos os seres vivos, inclusive o homem. Ele representaria metaforicamente a Terra e sua luxuriante natureza. 

Contudo, esse Jardim está fadado a ser destruído quando o alinhamento cósmico sinalizar com o retorno dos Grandes Antigos. Na filosofia de K´n-yan, os dois serão os responsáveis por abrir os portais através do qual os Antigos se materializarão na Terra. Antes eles irão devastar a superfície do planeta com fogo e água, que consumirá toda vida no globo. Isso irá purificar a Terra e a deixará pronta para o retorno dos Antigos. 


As escrituras sagradas de K'n-yan atestam a existência de dois dispositivos localizados nos polos do planeta que serão usados para extinguir toda vida no globo. Esses misteriosos dispositivos conhecidos como Fornalha de Yeb e Tocha de Nug, supostamente estão enterrados sob o gelo dos polos aguardando o momento de serem acionados pelos gêmeos. Qual a sua forma, como surgiram e quem os construiu são questionamentos jamais explicadas embora alguns teóricos acreditem que os dispositivos sejam na verdade vulcões adormecidos.

Até onde se sabe, não existe nenhum culto puramente humano venerando Nug e Yeb nos últimos milênios. O caráter egoísta e abominável dos rituais talvez tenha contribuído para afastar qualquer culto devotado a esses horrores. Algumas doutrinas esotéricas disseminadas pelos Monges de Leng ensinam que as Obscenidades Gêmeas seriam respectivamente os nomes verdadeiros dos obscuros Grandes Antigos Lloigor e Zhar. Esses dois Deuses são cultuados exclusivamente pelos degenerados Tcho-Tcho que habitam os planaltos da Ásia Central.

A aparência blasfema de Nug e Yeb é bastante similar o que torna difícil saber quem é quem. De fato, há muita controvérsia a respeito da identidade desses horrores. 

A dupla surge como uma enorme massa purulenta que se contorce, reforma e se desfaz a cada instante. As criaturas são compostas simultaneamente por gases de vapor nocivo e matéria sólida alienígena. A substância gasosa os envolve num tipo de envelope miasmático de coloração verde amarelada extremamente densa como um nevoeiro em torvelinos. O gás é tóxico recendendo a um fedor profundo de cloro e enxofre que empesteia o ar e irrita tanto olhos quanto a garganta. Esse gás forma uma espécie de defesa que afugenta qualquer tentativa de aproximação.  


A massa sólida que dá forma aos horrores por sua vez assume a aparência de um aglomerado de carne cinzenta pustulenta e ulcerosa que flutua em meio ao nevoeiro daninho. Essa massa pode medir algo entre dois e dez metros de comprimento, variando de acordo com a intensidade com a qual os deuses escolhem se materializar. Olhos arredondados com íris róseas descoloridas e desprovidos de pálpebras surgem em toda massa brotando, observando e então se desmanchando. Da mesma maneira uma infinidade de bocas largas aparecem rasgando horizontalmente a superfície; elas estalam, mordem e cospem antes de desaparecer ao serem reabsorvidas. Uma infinidade de estruturas similares a esfíncteres também se abrem e fecham em todo canto. O conjunto inteiro goteja e escorre numa farta torrente de saliva, suor, bile, pus e sânie que cobre inteiramente as criaturas numa medonha combinação de excrementos.

Na parte inferior das criaturas destacam-se estruturas coalescentes que pendem soltas no ar, semelhantes a pernas descarnadas dotadas de garras e por vezes cascos. Estas escoiceiam à esmo, aparentemente sem uma utilidade prática visto que não são usadas para deslocamento. Abaixo delas uma floresta de órgãos sexuais, tanto masculinos quanto femininos se formam e reformam, intumescendo e molificando à todo momento.

Os horrores flutuam lentamente parecendo grandes balões de ar que se mantém a alguns centímetros do chão. Eles evitam tocar o solo ou qualquer objeto sólido ao seu redor, embora deixem um rastro pegajoso após sua passagem. Nug e Yeb parecem evitar qualquer tipo de interação com o ambiente que os cerca ou outros seres: não respondem a súplicas, ameaças ou ordens, de fato, não se comunicam e parecem totalmente alheios a presença de seres inferiores. É provável que sequer reconheçam humanos como algo digno de sua atenção. Se por algum motivo eles se sentirem incomodados os dois reagem com certo descaso, a não ser que sejam de alguma forma ameaçados ou feridos. Nesse caso eles formam longos braços fibrosos para agarrar e enormes bocas repletas de presas afiadas para morder e destroçar suas vítimas. Essa reação é totalmente passiva, como o movimento de uma pessoa para afugentar um mosquito.  

Poucas coisas podem ser mais aviltantes e grotescas do que as Obscenidades Gêmeas e a mera visão delas é capaz de despertar um terror primal incontrolável no observador. Felizmente Nug e Yeb raramente se manifestam fisicamente diante de plateias humanas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Destruidor de Pirâmides - A Vida e os tempos de Giuseppe Ferlini


Se existe uma coisa que simboliza a arqueologia, essa coisa é o cuidado.

Cada toque, cada retirada de terra, cada movimento é cuidadosamente calculado com o objetivo de jamais danificar uma peça. Na maioria das vezes, esse cuidado é justificável pela idade e fragilidade dos objetos. De fato, uma das ferramentas mais utilizadas pelos arqueólogos é a escova macia, usada para remover pequenas concentrações de areia e poeira.

Mas nem sempre foi assim. Em seu início, a Arqueologia buscava obter resultados imediatos exumando as civilizações do passado a qualquer custo, com métodos diretos sem qualquer cerimônia.  A maioria dos especialistas ficariam horrorizados com a forma como as coisas eram feitas, literalmente com pás, picaretas e marretas. Um bom exemplo desse estilo brutal de arqueologia pode ser sintetizado pela figura de Giuseppe Ferlini.  

Vamos nos posicionar cronologicamente para compreender quem era ele e em que época ele viveu. No início do século XIX, a Arqueologia era uma ciência auxiliar da história, sem o respeito de hoje em dia. Obviamente as pessoas sempre tiveram interesse no passado e nas crônicas dos povos antigos, contudo foi apenas depois do Renascimento que aconteceu um revival da Antiguidade Clássica. A arte, ciência, filosofia e arquitetura clássicas passaram a ser admiradas, desejadas e copiadas. Tudo antigo, era almejado. Sabemos que indivíduos como Brunelleschi, Michelangelo e Domenico Fontana participaram de escavações de ruínas romanas em busca de artefatos perdidos.

Nos séculos seguintes, o interesse pelo passado apenas aumentou com o surgimento de sociedades que buscavam tesouros com o intuito de preservá-los. Havia ricos colecionadores que se interessavam em coletar esses objetos para suas coleções. Vários nobres e ricos comerciantes mantinham galerias particulares em que despontavam estatuetas, documentos, obras de arte e outros objetos. Mas foi apenas no século XVIII, quando Johan Joachin Winckelmann começou a escavar a cidade soterrada de Pompeia, que se deu o nascimento da Arqueologia moderna.

As Pirâmides de Meroé, ou o que sobrou delas

Foi o início de uma verdadeira corrida entre as nações mais esclarecidas da Europa. Uma busca incessante por antiguidades que permaneceram esquecidas por muito tempo e que repentinamente despertavam interesse. Durante a Campanha do Egito, Napoleão tratou de levar consigo uma comitiva de cientistas, historiadores e arqueólogos para estudar os monumentos e coletar o maior número possível de artefatos. Os ingleses fizeram o mesmo, bem como as demais nações, Era a época dos Gabinetes de Curiosidades, coleções de itens raros ambicionados pelos ricos e influentes. Coube aos soldados o trabalho pesado de pilhar tumbas, saquear ruínas e varrer o deserto em busca de qualquer coisa que pudesse ter algum valor. Contrabandistas e agenciadores facilitavam o transporte desses artefatos que podiam atingir valores exorbitantes para os colecionadores na Europa. Foi nesse período de grande interesse pelo Egito Antigo que Ferlini atuou.    

Giuseppe Ferlini nasceu na cidade italiana de Bologna em 1797, mas logo deixou sua casa para escapar da coexistência impossível com sua madrasta. Dono de um espírito inquieto, ele desejava conhecer o mundo e viajar muito além das fronteiras de seu país. Juntou-se a uma companhia de mercenários antes mesmo de completar 16 anos. Ele esteve em Veneza e Corfu, onde atuou como assistente do médico de sua tropa, aprendendo a suturar, remover balas e amputar membros. Viajando de um lado para o outro, ele acabou indo parar na Albânia em 1817. O país ainda era parte do Império Otomano, mas estava engajado numa sangrenta rebelião contra o Sultão. O exército albanês dava as boas vindas a qualquer pessoa que quisesse participar da revolta, especialmente se tivesse experiência militar. Se soubesse o básico de medicina de campo, tanto melhor. Ferlini rapidamente se tornou um oficial e viu ação nos sangrentos campos de batalha.

A rebelião foi esmagada e Ferlini acabou escapando para a Grécia onde se juntou a um novo exército que enfrentava os Turcos na Península do Peloponeso. Novamente derrotado pelos inimigos liderados por Ibrahim Pasha, filho do governador do Egito, Mehmet Ali, Ferlini fugiu de volta para a Itália. Na ocasião carregou consigo um butim de artefatos gregos antigos que ele descobriu poderiam ser negociados com colecionadores. Equilibrando suas finanças, ele voltaria a se juntar ao conflito quando os principais poderes da Europa (Rússia, França e Inglaterra) interferiram no conflito contra os Turcos.
  
Ferlini não participava dessas guerras por razões políticas, embora ele odiasse os turcos com todas as suas forças, o que o motivava era a perspectiva de enriquecer. Ele havia descoberto que explorar as grandes nações do passado em busca de objetos valiosos podia ser muito lucrativo. 

A única fotografia existente de Giuseppe Ferlini tirada em 1858

Quando a coalizão derrotou os Turcos em Navarini, o mercenário bolonhês concluiu que havia chegado a hora de imigrar mais uma vez. O destino dessa vez seria o Egito, que lhe interessava por duas razões. A primeira é que muitos de seus companheiros gregos estavam estacionados lá para lutar contra os odiados turcos. A segunda é que lá ele esperava encontrar artefatos ainda mais valiosos que fariam sua riqueza ao retornar para casa. 

Os planos de Ferlini, no entanto mudaram quando ele descobriu que Mehmet Ali estava modernizando sua administração e tencionava contratar vários técnicos europeus. Um médico era mais do que bem vindo. Engolindo seu ódio pelos turcos e seu próprio orgulho, ele acabou se oferecendo para trabalhar no Cairo na construção de um hospital para a cidade. Em 1829, o italiano acabou se alistando no Exército Turco que havia combatido fervorosamente a maior parte de sua vida. Ferlini foi alçado ao posto de oficial médico e se tornou um dos responsáveis por criar um serviço de saúde para o Primeiro Regimento de Sennar que enfrentou insurgentes na Etiópia.       

Sua jornada pelo Norte da África durou cinco meses e nesse período Ferlini visitou lugares históricos como Cartum e Wadi Halfa, no qual explorou numerosas ruínas e sítios arqueológicos repletos de artefatos. Após um sangrento combate, Ferlini decidiu abandonar o exército e se radicou na Etiópia, onde casou com uma ex-escrava e enfrentou um surto de malária. Depois da morte de sua esposa e filho, vítimas da doença, ele partiu para Cartum, transferido com uma equipe médica. Com mais de 30 anos, ele se tornou amigo do Governador britânico que comprou várias de suas peças. O bolonhês participou de várias expedições pelo Deserto Núbio em busca de tesouros perdidos. Cavalgava montado num camelo, vestido como árabe, carregando um rifle nas costas, bandoleiras e um cinturão onde pendiam coldres com revólveres e a cimitarra tomada de um saqueador.


As pirâmides de Meroé antes de sua destruição

A essa altura, Ferlini sabia que não lhe restava muito tempo para conseguir uma fortuna que sempre almejou. Ele apostava que o Egito poderia ser a resposta para seus problemas: os antigos Faraós haviam escondido enormes riquezas em câmaras ocultas nas ruínas. Bastava ter disposição para cavar e encontrar esses tesouros. Havia precedentes em que ele podia se amparar. O francês Bernardino Drovetti, seu compatriota Giovanni Batista Belzoni e o britânico Henry Salt haviam acumulado uma enorme fortuna com artefatos egípcios. 

Ferlini escolheu Meroé como seu alvo, o antigo reino que deu ao Egito as Dinastias de Faraós negros. Ele se lançou em uma expedição financiada pelo mercador albanês Antonio Stefani, que pagou pelo equipamento, armas e suprimentos em troca de parte dos lucros.

Os dois começaram a jornada até Meroé em agosto de 1834, acompanhado por esposas, guias, homens armados, centenas de carregadores, além de um bom número de cavalos e dromedários. À princípio o resultado dessa aventura não foi muito bom. O grupo se estabeleceu próximo de um templo parcialmente enterrado, mas embora tenham conseguido acesso ao interior, não acharam nada valioso. A expedição chegou a encontrar um enorme obelisco decorado com hieróglifos, mas este não pode ser transportado em face de suas dimensões e peso. Infelizmente doença e fome começaram a se espalhar, matando homens e animais.

A expedição não se mostrava nem um pouco promissora quando Ferlini decidiu tentar a sua sorte com as pirâmides. Não as egípcias, mas os mais de 100 monumentos erguidos em Meroé que haviam sido descobertos poucas décadas antes. Ele havia ouvido lendas a respeito de depósitos de ouro no interior das pirâmides e estava disposto a encontrá-los à qualquer custo. E de fato ele não iria parar por nada. Acompanhado por mais de 100 escavadores munidos de pás e picaretas, ele ordenou a abertura das pirâmides, uma por uma.   

Uma representação de como foi Meroé em seu auge

O dano foi irreparável e desnecessário. Não havia nada de valor que ele pudesse levar. Desesperado, o bolonhês escolheu a maior das pirâmides, a que hoje em dia é conhecida como N6, e ao invés de derrubar as paredes laterais optou por derrubá-la de cima até embaixo. Dessa vez, a sorte acabou sorrindo para Ferlini que encontrou um sarcófago, sem múmia, acompanhado de uma série de ornamentos valiosos. Ele imaginou que se tratasse de uma sepultura real e que haveria mais. Outras pirâmides foram igualmente destruídas pelos operários que usaram o que tinham à mão para demolir paredes e colocar abaixo as obras que haviam sobrevivido a passagem de séculos. Ferlini encontrou então braceletes, anéis, colares, estatuetas e diversos adornos de valor inestimável. Temendo que os nativos estivessem planejando roubá-lo, ele deixou a escavação no meio da madrugada com três camelos carregados.

Ao reencontrar Stefani, Ferlini o apressou para que juntos deixassem a escavação antes que os escavadores nas pirâmides viessem em seu encalço. Os dois partiram no meio da noite, perseguidos pelos homens ironicamente contratados para fazer sua segurança. Eles conseguiram chegar até a quinta catarata do Nilo, escapando de emboscadas e dos seus perseguidores. Ao chegar ao Cairo ele foi recebido com honras pelo governador que o tratou como um verdadeiro herói. A história de Ferlini foi publicada em 1836, na forma de uma série de artigos com o título Nell'interno dell'Africa (Primeira Viagem pelo interior da África).

O impressionante tesouro obtido por Ferlini foi compartilhado pela Europa inteira, através de vendas, doações e leilões para recuperar o investimento na expedição. Boa parte das peças foi arrematada por Museus em Berlim e Munique pelo egiptólogo Karl Richard Lepsius, que reconheceu o valor das peças depois que o Museu Britânico as tratou erroneamente como falsificações. Os tesouros da Pirâmide N6 estão entre os maiores e mais importantes artefatos do Reino Núbio de Meroé.

O que restou das pirâmides depois da passagem de Ferlini

Após sua derradeira aventura, Ferlini decidiu se aposentar e viveu dos lucros obtidos na empreitada e das histórias que contava (elas foram republicadas dezenas de vezes). Ele morreu em 1870, aos 73 anos de causas naturais e foi enterrado no Cemitério de Certosa em Bolonha com grandes honrarias, cercado de indivíduos ilustres da história italiana. 

Giuseppe Ferlini jamais foi censurado em vida por ter destruído monumentos de enorme importância para a história da humanidade. Os danos extensivos produzidos nas Pirâmides não puderam ser restaurados. Por muitos anos ele foi considerado como um dos mais importantes Arqueólogos do século XIX. Posteriormente, seu trabalho foi descreditado e a maioria dos arqueólogos passaram a tratá-lo como um simples ladrão de sepulturas e caçador de tesouros interessado exclusivamente em riquezas, não na preservação da história. 

Hoje ele é pouco lembrado, exceto pelo título "Destruidor de Pirâmides".

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Anjo da Morte e os Gêmeos - As Experiências bizarras de Josef Mengele


Atenção: O Artigo a seguir contém descrições gráficas e conteúdo chocante para pessoas sensíveis. Recomenda-se discrição.

Um dos Campos de Pesquisa considerado importante para a ciência médica envolve o estudo de gêmeos e estes estudos são realizados em todo mundo. Gêmeos são vistos como vitais para o estudo da genética comportamental e uma vasta gama de outras áreas como doenças hereditárias, a genética da obesidade, a base para formação de doenças comuns e muito mais. Ainda assim, apesar de todos os benefícios que o estudo dos gêmeos pode proporcionar, existiram médicos inescrupulosos que realizaram pesquisas aterrorizantes que até os dias de hoje nos causam horror. Os mais misteriosos e perversos desses estudos foram conduzidos por médicos operando sob a égide Nazista no auge do regime.   

Durante a horrível mácula na história que foi a existência dos nazistas e seu papel marcante na Segunda Guerra Mundial, um local maligno se tornou o centro de um horror inenarrável, o infame Campo da Morte de Auschwitz, na Polônia. A ordem de construção do campo se deu em abril de 1940, por ordem do figurão nazista Heinrich Himmler. O Campo cresceria então rapidamente, expandindo em três campos principais e mais 45 campos auxiliares até o término do conflito. Este verdadeiro Inferno na Terra seria o destino final para um número estimado de 1,1 milhões de judeus, ciganos, homossexuais, criminosos, deficientes físicos e mentais, oponentes políticos e prisioneiros de guerra, transportados em vagões de gado como animais. O campo se tornou um dos mais medonhos centros de assassinato criados pela humanidade, um sinônimo do Holocausto sistemático e da maldade em geral, com a morte chegando para os que lá viviam de muitas maneiras, seja pela fome, trabalho forçado, doença, tortura e é claro, execuções em massa, nas câmaras de gás

Entre os muitos horrores cultivados em Auschwitz encontra-se os numerosos experimentos médicos conduzidos pelos cientistas Nazistas Carl Clauberg e Josef Mengele. Os experimentos cobriam diversas áreas de pesquisa, incluindo encontrar maneiras de esterilizar as mulheres judias, determinar os efeitos de várias substâncias no organismo humano e encontrar um método de produzir um exemplar genético do que eles consideravam o "perfeito ariano". Frequentemente, os escolhidos para esses experimentos eram indivíduos com características físicas desejáveis para os médicos, como a cor dos olhos, da pele ou dos cabelos. Estes eram separados para que os médicos pudessem realizar seus estudos, usando essas pessoas como cobaias. Tamanho era o desprezo de Mengele pelos indivíduos que logo ele recebeu um apelido condizente: "O Anjo da Morte".

Crianças em Auschwitz em 1941

Certamente uma das mais infames linhas de pesquisa, levadas à cabo por Mengele, envolvia experimentos com gêmeos. De fato, o médico tinha um fascínio quase doentio por gêmeos, e ele acreditava que eles eram a chave para preservar a raça ariana se as mulheres fossem condicionadas a produzir apenas bebês gêmeos de olhos azuis e cabelos loiros. Mengele fazia uma triagem de todos os prisioneiros que chegavam, tentando separar os "espécimes" que melhor se encaixavam em seus procedimentos. Ele buscava especificamente por gêmeos, que eram imediatamente separados da multidão e preservados do trabalho pesado e regime de fome. Por alguns dias estes recebiam rações maiores e tratamento diferenciado em instalações especiais, contudo, mal sabiam que estavam marcados para um destino ainda mais terrível.

Os gêmeos, que podiam ter até 5 anos de idade, eram levados às instalações especiais e mantidos lá até apresentar uma melhora na saúde. Mengele costumava visitar esses hospitais levando brinquedos, doces e chocolate, por vezes se mostrando muito simpático e dedicado, como um verdadeiro médico. Ele se deleitava ao ser chamado por estes pacientes especiais de "Tio Mengele". As crianças não tinham os cabelos raspados, por vezes vestiam roupas normais e ficavam isentas de trabalhos pesados. O tratamento dispensado pelos guardas à serviço de Mengele também era diferenciado, raramente incluíam punições ou surras que eram extremamente comuns no restante do Campo. Parecia um verdadeiro Paraíso quando comparado ao que os demais confinados do campo tinham de passar. Entretanto, isso era apenas uma fachada para esconder a verdade, e os gêmeos não sabiam os horrores que os aguardavam.

Prisioneiros eram abruptamente retirados de seus quartos e encaminhados para uma das alas de pesquisa. Essa transferência acontecia durante a madrugada, sem explicações e sem alarde para não levantar qualquer suspeita nos demais. Uma vez que eram bem tratados e gozavam de uma estadia relativamente tranquila, eles não tinham motivos para temer o que estava por vir. Os experimentos realizados nessas alas eram bizarros e beiravam a depravação. O propósito básico dos testes era despertar os genes da "Raça Mestre", uma espécie de ser humano evoluído e superior a todos os demais, meta de todo Programa Nazista. Outros testes visavam apenas compreender o tipo de conexão estabelecida entre gêmeos, o famoso sexto-sentido que muitos parecem possuir. Finalmente, vários experimentos pareciam serviam ao único e solene propósito de satisfazer a curiosidade de Mengele e saciar os seus prazeres sádicos. 

Gêmeas fotografadas em Auchwitz

As experiências eram bastante diversificadas, mas quase sempre horrendas. Em alguns casos os gêmeos eram separados e mantidos em isolamento total uns dos outros. Em seguida, um deles era torturado mentalmente ou fisicamente para que pudesse ser medido no outro uma resposta. Os nazistas suspeitavam da existência de um vínculo psíquico entre os gêmeos e desejavam saber como ele funcionava e como poderia ser usado. Por vezes, um interno era mantido em um estado de privação total dos sentidos, enquanto o outro gêmeo era deixado numa sala adjacente. Em outros testes, substâncias desenvolvidas pelos médicos eram injetadas na corrente sanguínea das cobaias para testar os efeitos colaterais que elas sem dúvida despertariam. Apenas Mengele e alguns dos seus assistentes sabiam exatamente o que continha essas injeções, mas elas eram responsáveis por causar dor severa, doença e morte. É provável que fossem coquetéis de patógenos, perigosas substâncias químicas, veneno e drogas pesadas. Em muitos casos, apenas um gêmeo recebia as drogas e o outro era mantido como grupo de controle. 

Havia um importante programa destinado a realização de transfusão sanguínea entre gêmeos, algo que seria extremamente útil no campo de batalha, já que a ciência da transfusão ainda estava engatinhando. Outros testes envolviam dar injeções com substâncias especiais para mudar a cor dos olhos, cirurgias com anestésicos experimentais para remoção de órgãos, biopsias, castração e amputação. Em alguns casos extremos, Mengele supervisionou experimentos em que gêmeos eram costurados para criar siameses artificiais. 

Não é de se surpreender que a maioria desses experimentos, resultassem na morte das cobaias. Quando um gêmeo morria, o que quase sempre acontecia, o outro também era morto para que autópsias pudessem ser realizadas simultaneamente. Mesmo se os dois gêmeos de alguma forma sobrevivessem aos experimentos, eles seriam rotineiramente mortos e dissecados em busca de uma análise clínica completa. Quando o Campo da Morte de Auschwitz enfim foi liberado, estima-se que por volta de 900 a 1,500 pares de gêmeos tenham sofrido com experimentos nas mãos de Mengele, sendo que a vasta maioria não suportou a provação.

Uma das poucas fotografias com experimento em gêmeos

Ainda que muitos gêmeos envolvidos nos experimentos dementes de Mengele tenham morrido, há alguns que quase como por milagre conseguiram sobreviver ao final da guerra. Foi através desses sobreviventes que a maioria das informações sobre o que Mengele estava tentando realizar, já que os nazistas sistematicamente destruíram a maioria dos seus documentos sobre o programa de gêmeos para evitar que esse material caísse em mãos inimigas. 

Um desses sobreviventes é Vera Kriegel, que conta suas memórias sobre os horrores que vivenciou nos laboratórios de Mengele. Uma de suas lembranças mais apavorantes envolve ter sido conduzida por guardas até uma ala do complexo em que as paredes eram cobertas por prateleiras repletas com vidros transparentes contendo milhares de globos oculares. Ela contou:

"Eu acordei em uma sala com vidros em todo canto, todos eles contendo olhos humanos. Paredes inteiras de olhos azuis, castanhos, verdes. Era como uma imensa coleção de borboletas guardadas em vidros para exposição. Quando vi aquilo desmaiei."   

Quando os experimentos tiveram início, Kriegel e sua irmã foram mantidas em jaulas como animais submetidas a injeções dolorosas que deveriam fazer com que os olhos castanhos mudassem de cor para o azul desejado pelos médicos. Essas injeções ocorriam frequentemente. Em certa ocasião ela foi infectada com o patógeno causador da Doença de Noma, que faz surgir enormes bolhas na boca e nos genitais. Um dos experimentos normalmente realizados segundo ela envolvia realizar cirurgias para remoção de órgãos visando transplantes. 

Uma das sobreviventes mais conhecidas que passou pelas mãos de Mengele é Eva Mozes Kor, que foi levada a Auschwitz com sua irmã Miriam Mozes, quando tinham apenas 10 anos de idade e que ficaram no campo entre 1944 e 1945. A família inteira, incluindo pais, avós, duas irmãs mais velhas, tios, tias, primos, foram assassinados no Campo da Morte. Elas foram poupadas das execuções por serem gêmeas e separadas dos demais assim que chegaram. Ela conta a respeito: 

"Quando as portas do vagão de transporte de gado se abriram, eu ouvi os oficiais da SS gritando: “Schnell! Schnell!”, e ordenando que todos descessem imediatamente. Minha mãe agarrou Miriam e eu pela mão. Ela sempre tentava nos proteger pois éramos as mais jovens. Tudo acontecia muito rápido e os soldados tratavam de separar as pessoas para que assim fosse mais fácil controlar as famílias. Meus pais e irmãs sumiram na multidão. Um homem nos viu e gritou “Gêmeos! Gêmeos!”. Um homem da SS com roupa branca se aproximou e nos examinou por um instante. Ele perguntou com certa candura à minha mãe: "Elas são gêmeas"? "Isso é bom ou ruim?", minha mãe perguntou. Ele acenou com a cabeça e disse "Elas são gêmeas. Podem pegá-las!". Imediatamente um soldado veio até nós e nos separou sem explicação ou aviso. Nossos gritos foram afogados em meio ao barulho. Eu lembro de olhar por sobre o ombro do homem que nos carregava e ver minha mãe em desespero, com os braços estendidos. Essa foi a última vez que eu a vi".

Eva Moses Kor uma verdadeira sobrevivente

Kor descreveu vários horrores que presenciou enquanto esteve no Campo da Morte. Ela viu um par de gêmeos ciganos ser costurado um de costas para o outro, com os órgãos e vasos sanguíneos conectados. Eles ficaram na jaula ao lado da sua e ela conseguiu ouvir os gritos de agonia e sofrimento deles até que a gangrena os levou três dias depois. Kor disse que os experimentos aconteciam ao longo de uma semana inteira e depois eram uma ou duas semanas de descanso para verificar os resultados. Ela se recorda de ser levada nua até uma sala branca cheia de homens de jaleco que a observavam, mediam e faziam perguntas estranhas. Então vinha novamente o período de testes em que ela recebia injeções misteriosas e quando era separada da irmã. Ela contou que chegou a ter contato direto com Mengele: 

"Ele vinha colher as amostras de sangue pessoalmente. Ele sempre parecia simpático e bondoso, perguntava se estávamos nos sentindo bem e que o pior já havia passado. Ele retirava uma quantidade enorme de sangue cada vez e em outras injetava alguma coisa que dizia ser remédio. Nós não sabíamos o que era. Depois de receber esse "remédio" nos sentíamos estranhas, tínhamos tremores, febre e inchaço. Eu lembro que apareciam marcas no corpo todo. Nunca soube que tipo de veneno eles colocaram no meu corpo, só lembro do Dr. Mengele sorrindo e perguntando depois de tirar a agulha "não foi tão ruim assim, foi" 

Kor chegou a  receber cinco injeções em um único dia. Ela teve febre alta e tremia sem parar. Os braços e pernas ficaram inchados, o corpo coberto de bolhas. Mengele e seu assistente, o Dr. Konig vinham todo dia de manhã colher sangue e fazer a inspeção. Eles olhavam para os gráficos que acompanhava minha febre e sinalizavam negativamente com a cabeça. Certo dia, Mengele comentou com os demais médicos: "Uma pena que a febre está tão alta. Ela não deve passar de duas semanas".

Uma das fotografias do Anjo da Morte

Contrariando todas as perspectivas tanto Eva quanto a irmã Miriam sobreviveram a esses experimentos brutais. Elas estavam entre os gêmeos deixados vivos depois que as tropas soviéticas liberaram Auschwitz. Kor conta que na época era muito jovem para compreender o que estava acontecendo e que apenas depois que foram libertadas é que se deram conta de que eram prisioneiras no campo. Até então, ela foi levada a acreditar que era paciente num hospital e que estava recebendo tratamento para melhorar. Ela acreditava que aqueles "bons médicos" estavam tentando salvá-la e nem imaginava que seu sofrimento era causado por eles.

Nos anos do pós-guerra Eva Kor se tornou porta-voz do Programa CANDLES, organização que reúne os sobreviventes do Campo da Morte, sobretudo os gêmeos que passaram por experimentos médicos. Ela foi capaz de localizar 122 gêmeos residindo em dez países e quatro continentes. Eles foram essenciais para que o mundo viesse a conhecer a extensão abominável dos experimentos nazistas.

"Nós conversamos com muitos deles. O que descobrimos é que houve muitos experimentos. Muitos que ninguém conhecia. Por exemplo, os gêmeos que tinham mais de 16 anos e estavam na idade de reprodução eram usados em experiências de transfusão de sangue entre gêneros. O sangue ia de um espécime do sexo masculino para outro do sexo feminino e vice versa. Infelizmente não havia conhecimento a respeito de grupos sanguíneos e compatibilidade e muitos acabavam morrendo. Stephanie e Annette Heller, gêmeas que hoje moram na Austrália e um casal em Israel sobreviveram às experiências de Mengele. Eles foram testados com o objetivo de gerar filhos gêmeos".

A principal questão é saber quantos desses gêmeos sobreviveram. Boa parte deles obviamente morreram. Mengele também realizava estranhas experiências com o fígado. O médico havia sofrido de sérios problemas renais quando tinha 16 anos em 1927. Ele teve que se ausentar da escola por três ou quatro meses por problemas relacionados ao fígado de acordo com sua ficha pessoal nos arquivos da SS. Como resultado ele passou a se interessar pelo assunto por razões particulares. Existem pelo menos três casos de gêmeos sobreviventes que desenvolveram sérias infecções renais que não respondiam ao uso de antibióticos.   

Miriam Kor desenvolveu um problema renal em face das injeções com substâncias desconhecidas recebidas na infância. Ela sofreu de vários problemas no fígado e eventualmente precisou passar por um transplante no qual recebeu um órgão novo em 1987. Ainda assim, acabou falecendo em 1993 em decorrência de problemas relacionados ao fígado. Os médicos não sabiam exatamente o que pode ter provocado a condição que a atormentou até o fim da vida. 

Irmãs Gêmeas sobreviventes do Holocausto

Até hoje há muito debate a respeito das razões para os experimentos e qual o objetivo que eles estavam tentando atingir. Uma vez que Mengele jamais foi capturado e não deixou registros sobre as metas das experiências o melhor que se pode fazer é traçar teorias sobre seus objetivos. Nãos e sabe o que os médicos injetavam nas suas cobaias humanas, mas é provável que eles tivessem acesso a laboratórios avançados e drogas de todo tipo. A Alemanha Nazista incentivou a indústria farmacêutica, o que tornou o país uma das referências mundiais no uso de substâncias químicas. Muitos dos remédios e drogas em desenvolvimento foram livremente testados em seres humanos. Da mesma maneira, cirurgias experimentais, transplantes e transfusão de sangue, ainda estavam sendo estudadas e é provável que os médicos nazistas estivessem interessados em desenvolver esses métodos para favorecer as tropas. Isso daria uma grande vantagem para o exército em futuras guerras.

Mas por que os gêmeos eram parte essencial nesse programa? 

A grande verdade é que não se sabe ao certo. Os projetos de eugenia implementados pelos nazistas levavam em conta o desenvolvimento da Raça Ariana e eles tinham um conhecimento moderado de genética. Supõe-se que os médicos estavam pesquisando formas de cultivar órgãos em laboratório e realizar transplantes. Nesse caso, eles teorizavam que o transplante entre gêmeos tinha mais chances de sucesso devido ao perfil compatível dos gêmeos. 

Outra possibilidade assustadora é que os médicos nazistas estivessem tentando lançar as bases para o processo de clonagem humana. Muitos pesquisadores defendem que a chave para a clonagem humana reside na compreensão do mecanismo genético por trás dos gêmeos. Compreender o processo e tentar copiá-lo levaria segundo estes pesquisadores ao processo mais confiável de clonagem. Sem restrições éticas, os médicos nazistas se sentiam perfeitamente livres para testar e realizar os experimentos que julgassem necessários e que promovessem progressos. É possível que eles tenham obtido uma avançada compreensão do tema, comparável apenas com o que se alcançou após os experimentos de clonagem no final do século XX.     

Fotografia civil de Josef Mengele

Mas o que aconteceu com a pessoa diretamente envolvida nessa tragédia e que poderia explicar os objetivos de suas experiências?

Quando os soviéticos se aproximaram de Auschwitz, Mengele e vários de seus assistentes concluíram que a única forma de sobreviver seria escapar para o ocidente. Se fossem capturados, melhor que caíssem nas mãos dos americanos. Infelizmente era difícil identificar alguém como Mengele, que até então não era especialmente conhecido e que não tinha a tatuagem da SS que identificava vários de seus membros. Mengele provavelmente obteve documentos falsos e à medida que seguiu para a Europa Ocidental se misturou a civis. Vários criminosos nazistas conseguiram escapar da guerra se fazendo passar por refugiados. Ele aguardou até surgir a oportunidade de imigrar junto com as massas de pessoas que pretendiam deixar a Europa no pós-guerra, pessoas que haviam perdido tudo e que não tinham perspectivas. 

Para alguém inteligente e articulado como Mengele, não deve ter sido difícil criar uma nova identidade e assumir uma nova vida.  Sabe-se que ele deixou a Europa em 1949 e imigrou para a Argentina. Lá conseguiu iludir todos os esforços para rastreá-lo depois que seu nome ganhou notoriedade mundial nas décadas que se seguiram. Joseph Mengele passou a figurar na lista dos criminosos de guerra mais procurados do mundo. Ainda assim, ele continuou a escapar da justiça mudando-se de um país para outro da América do Sul  da Argentina para o Paraguai, então Bolívia e finalmente Brasil. Mengele acabou estabelecendo várias identidades falsa e se mudou repetidas vezes. 

Por fim, ele se estabeleceu em São Paulo em uma pequena casa cujo aluguel era pago por amigos e simpatizantes. Já bastante idoso e com vários problemas de saúde, ele acabou aceitando um convite para passar férias no Balneário de Bertioga, litoral paulista. Lá sofreu um derrame enquanto nadava e acabou se afogando no ano de 1979. Ele foi enterrado sob o nome falso de Wolfgang Gerhard, um de seus pseudônimos. Sua verdadeira identidade só foi descoberta em 1985 após uma complexa investigação empreendida pela Sociedade Simon Wiesenthal, um dos maiores caçadores de nazistas.      
Uma das únicas fotografias de Mengele no exílio nos anos 60

Pouco se sabe a respeito do que Mengele fez nos anos em que esteve em seu exílio, escondendo-se das organizações que caçavam os criminosos nazistas. Presume-se que ele se viveu em fazendas no interior dos países que escolheu residir, usando nomes falsos e levando uma vida extremamente discreta. Ele foi ajudado por simpatizantes germânicos e trabalhou como carpinteiro, vendedor e empresário. Viajou repetidas vezes para a Europa e para os Estados Unidos sem chamar a atenção. Para todos os efeitos ele era apenas um senhor distinto acima de qualquer suspeita. 

No entanto, há os que defendem que as experiências de Mengele jamais terminaram e que ele continuou realizando suas pesquisas obsessivamente, mesmo quando estava no interior na América do Sul. Mengele viveu na Argentina por muitos anos em uma estância afastada e segundo boatos realizava consultas médicas, fazendo inclusive operações. Ele era conhecido e respeitado como um médico suíço. Posteriormente ele terminou indo parar no Brasil onde passou vários anos.

Segundo o historiador Argentino Jorge Camarasa, Mengele mantinha um profundo interesse nas suas pesquisas médicas e se ofereceu para trabalhar em companhias farmacêuticas e hospitais no Brasil. Um dos principais rumores é que o criminoso teria exercido a medicina na cidade de Cândido Godoi, no interior do Rio Grande do Sul nos anos 1960. Curiosamente Cândido Godoi é uma das cidades brasileiras com maior incidência de nascimento de gêmeos no país, com um número muito acima da média nacional. 

O passaporte de Josef Mengele

Consta que esse aumento se deu sobretudo, após os anos 60, com uma quantidade notável de crianças nascidas com olhos azuis e cabelos loiros na população local. Para alguns pesquisadores, Candido Godoi serviu de laboratório para Josef Mengele que trabalhou no hospital local da cidade em conluio com outros médicos de ascendência germânica. Não há, no entanto, nenhuma prova que corrobora essa suspeita e o hospital da cidade diz que as suspeitas são infundadas e absurdas. 

Teria Mengele, o Anjo da Morte continuado a realizar seus macabros experimentos na América do Sul? Mais importante, teria ele atingido o objetivo que almejava durante o período em que comandou a Divisão Médica de Auschwitz? Ninguém sabe. A única coisa de que temos certeza é que Josef Mengele escreveu seu nome na história como um dos mais terríveis e imorais cientistas de todos os tempos. Ele será lembrado como um monstro disposto a matar e causar sofrimento em inocentes para promover os mais perversos experimentos científicos. Em um vasto rol de crimes praticados pela escória do mundo, Mengele consegue se destacar. É pouco provável que um dia venhamos a saber no que ele estava envolvido, que resultados ele obteve e se ele foi bem sucedido em algum dos seus experimentos bizarros envolvendo gêmeos. 

O que podemos esperar é que esses horrores jamais se repitam.