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terça-feira, 11 de abril de 2023

Cthulhu Mythos - Explorando o Saber Profano e como este afeta os Investigadores


De todas as habilidades na ficha de personagem do Investigador em Chamado de Cthulhu, nenhuma é mais atraente, desejada e perigosa do que o célebre Cthulhu Mythos.

O uso da habilidade Cthulhu Mythos permite que os Investigadores reconheçam monstros, tomos, artefatos, magias e divindades do Mythos. Ele é uma espécie de conhecimento esotérico que inclui todo tipo de informação referente ao Mythos. De notas de rodapé à grandes revelações, de detalhes obscuros aos segredos mais indizíveis, impronunciáveis, inimagináveis...  

Ele se difere da habilidade Ocultismo, que se concentra em segredos mais mundanos transmitidos através da civilização humana ao longo dos milênios. Enquanto Ocultismo se refere às tradições herméticas clássicas, a mitologia convencional e às superstições rudimentares, o Cthulhu Mythos é a "coisa de verdade". Enquanto o primeiro trata de fantasmas, vampiros e porque a sexta feira 13 é uma data azarada, o outro se debruça sobre horrores cósmicos impenetráveis e milenares. Comparativamente ocultismo é menos potente, mais "pé no chão", enquanto que o Cthulhu Mythos é a própria razão de ser do termo "conhecimento perigoso".

Em ambientações lovecraftianas, via de regra, os investigadores começam o jogo sem pontos em Cthulhu Mythos, isso porque seus investigadores ainda não foram expostos a esse horror. Existe um Pacote de Experiência opcional no Manual do Investigador que sugere aumentar o nível para 1D10+5 enquanto incorre nas deduções de Sanidade apropriadas. Nem todos os Guardiões permitem essa regra opcional, e francamente eu mesmo não gosto muito dela, mas cada um sabe do seu jogo.


Desvendar os terríveis segredos do universo, não é algo simples e os investigadores tendem a sentir na pele os efeitos dessas revelações.  Muitos personagens, esperam, no entanto, colocar em prática suas habilidades arduamente conquistadas. Na maioria dos casos, porém, eles devem fazer testes heroicamente desafiadores para obter informações enigmáticas e, mesmo se forem bem-sucedidos, não terão oportunidade de aumentar sua habilidade durante a Fase de Desenvolvimento do Investigador. Diferentemente das demais habilidades expressas na ficha, Cthulhu Mythos, tem um progresso restrito. Tanto na vertente Clássica quanto na Pulp, há maneiras específicas de obter os valiosos pontos nessa habilidade. 

Os investigadores aumentam seu valor de Cthulhu Mythos de duas maneiras: 

A) Através do estudo dos lendários Tomos de Feitiçaria que contém o saber maldito destilado e vertido em suas páginas. Livros blasfemos como o Necronomicon, o Vermiis Mysteriis ou o Livro de Eibon, ocupam um lugar de destaque nas histórias lovecraftianas e eles são a maneira mais comum de acessar o Mythos. O indivíduo precisa de tempo e dedicação para perscrutar os livros e compreender o que o autor queria dizer - nem sempre uma tarefa simples, já que os escritores tendem a ser, eles próprios, instáveis e insanos. Esse processo exige um investimento de tempo substancial dos investigadores nem sempre possível em cenários. Alguns livros mais intrincados demandam semanas de estudo e dedicação para dissecar e compreender seu conteúdo blasfemo.

Se o leitor de um livro for um descrente, alguém que trata aquilo tudo como bobagem, o estudo de um tomo permite o aprimoramento da habilidade sem custo para a sanidade. O personagem absorve o conhecimento assumindo que ele não passa de uma mera mitologia ou superstição. No entanto, uma vez que o investigador entra em contato com o Mythos, ele perde os pontos correspondentes. Isso simula o princípio de "ver para acreditar" e funciona muito bem no jogo.


Os Tomos com conhecimento do Mythos, também não são fáceis de encontrar. Eles são volumes raros, fora do alcance das pessoas, restritos a bibliotecas vedadas, coleções particulares ou então repousam nos templos de Cultos apocalípticos. Resgatá-los desses lugares pode ser tão difícil quanto compreendê-los. Uma aventura inteira pode tratar da obtenção de um livro. E uma vez recuperado, o "tesouro" pode se mostrar muitíssimo perigoso.

B) O confronto direto com as forças do Mythos, seja na forma de criaturas, deuses, feitiços ou artefatos é a segunda maneira de se obter esse conhecimento. Por confronto pressupõe-se que o investigador testemunha algo, é atingido por uma magia, ativa um artefato ou então, mais comumente vê uma criatura pessoalmente.

O primeiro encontro do Mythos em geral é uma experiência traumática. É como se uma venda fosse removida dos olhos do investigador com ele em uma sala iluminada por holofotes. O choque é compreensível! A revelação de que o Universo é muito mais vasto e aterrorizante do que se poderia supor às vezes pode causar uma grave confusão mental.

Essa experiência concede cinco por cento na habilidade Cthulhu Mythos e incidentes subsequentes garantem um por cento adicional. Portanto, um investigador com uma carreira mais longa (o que nem sempre ocorre, por razões óbvias) acaba conhecendo mais sobre o Mythos à medida que o explora.

À medida que o nível da habilidade aumenta, a sanidade máxima do investigador sofre uma redução correspondente. Isso se encaixa na perspectiva Lovecraftiana de que os humanos tropeçam ignorantemente em um universo enorme e incompreensivelmente escuro. O acesso limitado à percepção mística serve tanto ao Guardião quanto aos jogadores quando se trata de capturar esse tom específico.


Campanhas épicas e de longa duração, como Máscaras de Nyarlathotep ou Horror no Expresso do Oriente, que apresentam muitos e variados encontros com o Mythos, permitem grandes oportunidades para os investigadores desenvolverem razoavelmente a habilidade. Pode chegar o momento em que personagens veteranos encontraram no curso de suas carreiras tantas coisas bizarras que eles próprios passam a ser indivíduos bizarros. O saber do Mythos molda a percepção de várias maneiras e representar isso no jogo pode ser algo bem interessante.

Mais do que um simples teste para determinar o que se sabe ou não, uma rolagem de Cthulhu Mythos deve ter um peso considerável.

Ao testar Cthulhu Mythos, tenha em mente que um resultado positivo funciona como uma REVELAÇÃO que atinge o personagem com enorme impacto. Ele não é uma simples informação e sim a uma constatação de como o mundo é um lugar assustador por aceitar a existência de tais horrores. Portanto, não trate de maneira leviana tais testes.

Aqui estão algumas sugestões de como um teste de Cthulhu Mythos bem sucedido pode ser emulado numa mesa de jogo. Essa não é uma tabela, mas uma lista que pode ser empregada pelo Guardião para aumentar a dramaticidade de uma cena de revelação. Use com moderação ou sem qualquer moderação, de acordo com o que for interessante para seu cenário. Da mesma maneira, fica aberto aos jogadores consultar essa lista e usar como parâmetro para sua interpretação.

1 - O personagem sofre uma confusão mental. Ele não sabe exatamente como lidar com o saber e fica momentaneamente perdido. A mente parece se fechar, tentando processar a informação. Essa sensação pode levar alguns segundos ou até mesmo longos minutos.

2 - O personagem tem uma explosão emocional. Ele grita, chora, gargalha de forma incoerente ou quem sabe um misto delas. A revelação às vezes cobra um preço alto e este é pago sob a forma de uma reação inesperada. Imagine entender as dimensões de uma trama cósmica! Alguém pode ser censurado por surtar momentaneamente? 

3 - A revelação faz com que o indivíduo se sinta amortecido. É como se o mundo ao seu redor parasse de girar e ele se sentisse no centro do Universo. Ele não ouve, não sente, não experimenta nada. As vozes parecem distantes. Diferente do estupor descrito anteriormente, que lhe é imposto, aqui o indivíduo escolhe se fechar para o mundo. Ele precisa de um tempo para processar o que descobriu.

4 - O personagem reage com um fascínio mórbido e um interesse renovado no assunto. Como a mariposa que se aproxima da chama mortal, ele sabe do perigo, mas este é tão encantador que ele não consegue evitar.

5 - O teste causa um transtorno de curta duração. O indivíduo se sente esmagado pela revelação e reage como se estivesse sob grave ameaça. O lugar onde ele está pode se tornar insalubre, os aliados à sua volta são passíveis de desconfiança e uma paranoia o consome de dentro para fora. Se alguém o pressionar ele pode reagir com agressividade ou até recorrer à violência. Isso dura alguns instantes até o controle retornar gradualmente.

6 - O personagem tem um choque que abala o seu auto-controle. Ele pode começar a gaguejar ou perder a fala por completo. Pode sofrer um episódio psicosomático com as pernas fraquejando ou a visão escurecendo que o deixa paralítico e cego por alguns instantes. 

7 - Uma forte crise de ansiedade o consome. O personagem sente que não está seguro, que algo ruim está na iminência de acontecer e que ele irá morrer ou então sofrer. Em casos típicos de Crise de ansiedade é possível sentir falta de ar, incômodo e até desfalecer por alguns instantes.

8 - O personagem se perde em devaneios. Ele não consegue articular de maneira coerente e balbucia nomes e termos abstratos: "O Sultão Demoníaco"... "O Caos Rastejante"... "Os shoggoths"... "Cthulhu Fhtagn", "O horror... o horror...", "Oh, a humanidade"...

9 - O indivíduo é dominado por uma onda avassaladora de náusea. O asco diante da revelação é tamanho que ele pode chegar a vomitar ruidosamente. É como se ele tentasse expelir fisicamente de seu organismo o conheciemnto. Serão necessários alguns instantes até ele se sentir apto a agir normalmente.       

10 - CHOQUE. Um frio cortante se espalha pelo seu corpo congelando as extremidades e fazendo com que o investigador se sinta paralisado. O choque é uma reação física a um desequilíbrio emocional grave. O personagem treme, bate os dentes e pode até sofrer um colapso.  
Tenha em mente que o uso bem-sucedido da habilidade Cthulhu Mythos não deve arruinar de todo o seu cenário. Para Guardiões preocupados com revelações improvisadas após o sucesso de um investigador, considere adiar a pista fornecendo-a em um sonho, visão repentina ou ilusão algum tempo depois. Não há uma regra para como um teste bem sucedido deve ser encarado. 

Se você sabe que seus jogadores gostam de testar a habilidade Cthulhu Mythos, considere preparar alguns trechos de informações tentadoras que aprofundam o sabor do cenário ou oferecem uma pequena vantagem no encontro final ou resolução do caso. Talvez eles lembrem de alguma passagem ou de algum detalhe de rodapé num livro que pode vir a ser útil. De qualquer forma, mesmo um Sucesso Extremo não permite ver estatísticas do monstro ou compreender suas motivações específicas. Considere que o teste é um vislumbre sob a cortina, mas não uma apreciação completa do que ela oculta.

sábado, 26 de novembro de 2022

Tomo Proibido - A infame história do Livro de São Cipriano


Eu não sei quanto a vocês, mas quando alguém menciona o Livro de São Cipriano, sempre me vem a mente algo proibido e assustador. Chego a ouvir o som de trovões no fundo e cães uivando...

Ok, não vamos tão longe, mas para quem, assim como eu, está na casa dos 40-50 anos, deve estar familiarizado com o tal livro. Quando eu era criança, São Cipriano era o supra sumo do aterrorizante. 

Para quem não viveu essa época, ou não tem ideia do que estou falando, o Livro de São Cipriano era uma espécie de Manual de Magia Negra, verdadeiro Tomo de Feitiçaria que supostamente reunia uma série de rituais, magias e encantamentos que prometiam de tudo um pouco, desde "trazer a pessoa amada" e "encontrar tesouros escondidos" até "eliminar os inimigos e sumir com desafetos", além do famoso ritual para criar um "diabinho numa garrafa". Tinha uma coisa chamada "Oração da Cabra Negra" que me deixava especialmente apavorado.

O livro era vendido pelo correio (numa época em que Internet era ficção científica). Para ter acesso a um exemplar, era preciso mandar um ticket recortado de certas revistas para um endereço junto com o valor mais o frete e esperar entre 6 e 8 semanas até receber (ou não) seu volume em casa. A Lenda Urbana, no entanto, atestava que o livro precisava ser ganho como presente de um iniciado para um iniciante. Se você comprava o livro, os tais encantamentos não iriam funcionar. O Livro de São Cipriano também podia ser encontrado em certas lojas, aquelas que ofereciam toda sorte de velas, santos e parafernália mística. Se você fosse numa dessas lojas e procurasse com cuidado, ele estaria lá, na vitrine ou prateleira.

Se bem me recordo, o tal livro tinha duas versões, cada qual prometendo ser a "verdadeira" e mais "confiável". Uma delas era o Livro de São Cipriano de Capa Preta, já o outro era a famosa Capa de Aço (já que tinha a capa metalizada meio mambembe). As duas prometiam a mesma coisa: remédios e místicos e bruxedos para todo tipo de problema. 

Numa época mais inocente, na qual essas coisas eram conversadas pela molecada aos sussurros, os livros eram o máximo do proibido. Sempre havia alguém na pracinha com um tio, um avô ou um parente que possuía o Livro de São Cipriano guardado em lugar secreto. Isso por que, segundo outra crendice, o livro não podia ser folheado ou lido por outra pessoa além de seu dono original. Eu era criança quando ouvi falar do Livro de São Cipriano pela primeira vez e fiquei impressionado pela descrição dele. Simplesmente manusear o livro podia ser "perigoso", de modo que o melhor era sequer tocar nele. E quer saber de outra Lenda Urbana? Haviam os que diziam que o Capa de Aço podia cortar os dedos de quem o lesse e sugar o sangue que caísse sobre ele. E se tal coisa acontecesse, você estaria perdido...


Como pode-se ver, não faltavam boatos, rumores e exageros sobre esse Livro Maldito, quase um Necronomicon do mundo real.

Mas afinal de contas, do que trata o infame Livro de São Cipriano? Qual o seu conteúdo? De onde veio a sua fama de livro perigoso? E mais importante, existe alguma base histórica para as histórias que o cercam?

Eu pesquisei a respeito e encontrei algumas coisas interessantes a respeito dele.

Para começo de conversa, sim, São Cipriano de fato existiu. Para ser totalmente justo, existiram dois santos com esse mesmo nome, o que cria certo grau de confusão já que viveram quase na mesma época: São Cipriano de Cartago, o mais conhecido é um dos Patriarcas da Igreja Católica e figura muitíssimo estudada por teólogos e filósofos. Já São Cipriano de Antióquia (uma importante região que hoje fica no Norte da Turquia) é conhecido por outras façanhas. Os Ciprianos são quase contemporâneos, enquanto o primeiro viveu no século III, seu xará andou pela Antióquia do século IV. Mas embora ambos sejam santos reconhecidos pela Igreja Católica, o segundo tem uma história colorida, para dizer o mínimo. Cabe saber que ele é tido como um dos mais poderosos Magos Ancestrais. Salomão é considerado como o mago judeu mais famoso, enquanto São Cipriano é sua contraparte cristã.

Como ocorre com figuras históricas antigas, a vida dele é uma mistura considerável de realidade com lenda e ficção. Não faltam histórias escritas em livros, inseridas em tradições cristãs ocidentais e orientais, como o Flos Sanctorum, um dos primeiros compêndios sobre a vida dos Santos e Mártires. Na Península Ibérica existem várias tradições sobre ele, já que vem de lá a maioria dos registros do passado e mais contemporâneos. Há documentos do século XII que se referem à trágica história e ao martírio de Cipriano e sua amada Justina. A história aliás é bastante peculiar e dá ensejo a uma série de questionamentos, levantando dúvidas sobre o caráter farsesco da narrativa.


Segundo a lenda, Cipriano nasceu nos arredores da cidade de Antioquia, na Turquia. Desde muito cedo, teve contato com as ciências ocultas, estudando alquimia, astrologia e diversas modalidades de magia ritualística. O interesse de Cipriano pelo mundo sobrenatural o impulsionou a uma longa viagem pelo Egito e Arábia, onde aprendeu muito a respeito de tradições místicas. Retornando de sua jornada ele se estabeleceu em sua cidade natal, onde passou a ser respeitado e temido como bruxo. Em certa ocasião, Cipriano foi contratado para lançar um feitiço sobre uma dama chamada Justina que havia se convertido a fé católica. O bruxo utilizou de todos os recursos que conhecia para afetar a jovem, contudo nenhum de seus malefícios surtiu efeito. Acreditando que Justina era defendida por uma força superior, Cipriano procurou saber mais sobre os cristãos. Em algum momento, graças à própria Justina que o perdoou por tentar lhe fazer mal, ele se converteu, renegando seu passado como feiticeiro.  

A notícia sobre a conversão de Cipriano chegou aos ouvidos do Imperador Diocleciano, um feroz inimigo da cristandade. Ele ordenou que o bruxo arrependido e Justina fossem presos e trazidos diante dele. Os dois foram ordenados a renegar sua fé. Teriam sido submetidos a severas torturas para que abandonassem sua crença. Os dois foram colocados em um caldeirão de cera quente, mas conseguiram suportar os tormentos graças à sua fé. Furioso com a teimosia dos prisioneiros, o Imperador ordenou os dois fossem decapitados. Seus corpos ficaram em exposição por seis dias, até que um grupo de cristãos conseguiu recuperar os restos e levá-los para Roma. Ao chegar lá, encontraram os restos em perfeito estado e mais, as cabeças reunidas novamente aos corpos. O acontecido foi tratado como um milagre e imediatamente eles foram canonizados. Os restos se encontram na Basílica de São João de Latrão em Roma.

Segundo a Doutrina Católica São Cipriano teria escrito um suposto Livro de Magia para ser usado contra todos os tipos de feitiçaria, encantamentos e olho gordo. Este se tornou muito famoso nos primeiros séculos da cristandade. Há, no entanto, muitos outros livros atribuídos a São Cipriano entre os quais Grimórios contendo Ensinamento Místico e uma fartura de instruções sobre como encontrar tesouros ocultos, utilizar magia negra, sabedoria profana e demonologia. Os defensores do Santo afirmam que esses tratados teriam sido escritos antes de sua conversão e nos tempos em que ele professava as artes mágicas. Tais livros são citados nos Tribunais da Santa Inquisição e em processos judiciais como material blasfemo. 

Na baixa Idade Média, possuir tal material poderia dar ensejo a uma investigação oficial da Inquisição e resultar, entre outras coisas, em execução. Uma referência a um processo instaurado em função de tais livros pode ser encontrado nos autos contra Juan de Toledo em 1610. O acusado tinha em seu poder um Livro de São Cipriano e o teria usado "para encontrar tesouros ocultos, valendo-se de magia e encantamento". Da Galicia espanhola vem uma conhecida referência que cita o "Libro de San Cipriano" num processo movido contra Juan Rodríguez, Presbítero del Ferrol, em 1702. Novamente o tratado teria sido usado pelo acusado com o objetivo de encontrar tesouros perdidos e riquezas materiais usando para isso poderes mágicos.    

É uma pena que os livros citados nos julgamentos não tenham sobrevivido nos arquivos inquisitoriais. Por algum motivo, o mito de São Cipriano tornou-se muito popular na Espanha e em Portugal a partir do século XII, possivelmente trazido por estudiosos que visitaram a Turquia pouco antes. Muitos autores famosos, como Miguel de Cervantes e Calderon de la Barca nos séculos XVI e XVII, escreveram obras teatrais tendo São Cipriano como protagonista (“La Cueva de Salamanca” e “El Magico Podrigioso”). Em Salamanca ficava a famosa Cueva de Salamanca, ou Cueva de San Ciprián, caverna que servia de sacristia – abaixo da Iglesia de San Ciprián (Igreja de São Cipriano) na qual se dizia que o Diabo ensinava magia negra aos universitários de Salamanca. Salamanca é uma das universidades mais importantes da Espanha e uma das mais antigas. A gruta esteve aberta até que a "Rainha Católica" Isabel mandou fechá-la por volta de 1500 lacrando os acessos ao local.


Em 1580 a igreja foi definitivamente destruída, mas parte da sacristia (que era ao mesmo tempo parte da gruta) sobreviveu e ainda hoje está lá. Salamanca e Toledo foram os centros mágicos mais famosos da Península Ibérica durante a Idade Média. Foi nestas importantes cidades que edições apócrifas da obra de São Cipriano foram editadas clandestinamente pela primeira vez, espalhando-se pelo restante da Espanha e outras nações. Livros de São Cipriano pipocaram na França, Itália e Inglaterra.   

No início do século XVII, algumas publicações surgiram em Portugal, nas cidade do Porto e na Capital, Lisboa. Estas supostamente foram editadas para satisfazer o desejo de nobres e ricos colecionadores portugueses que pagavam verdadeiras fortunas para ter em suas coleções os "verdadeiros" livros de São Cipriano. O desejo por esses livros era tamanho que há registros de indivíduos que venderam casas, vacas e fazendas para trocar por esses manuais de magia. Acreditava-se que os Livros eram uma forma de obter tesouros e que os valores pagos por eles retornariam, quase como um investimento. É dessa época que provavelmente decorre o termo "verdadeiro" que acompanha vários livros até hoje vendidos. Os colecionadores portugueses não queriam cópias, mas os livros reais que "cumpriam aquilo que prometiam".

Não existe, entretanto, nenhuma cópia conhecida em manuscrito do Livro de São Cipriano, ainda que registros feitos pela Inquisição afirmem que eles circularam pela Espanha trocando de mãos frequentemente. O estudioso Bernardo Barreiro afirmava possuir um desses originais, mas jamais permitiu que este fosse autenticado. As razões para não se conhecer nenhum exemplar são várias. Primeiro, a longa influência da Inquisição espanhola que censurou o livro, confiscou e destruiu os que caíram em seu poder. Segundo os volumes sendo tratados como tesouros valiosos, desaparecendo em coleções particulares e finalmente o confisco de livros já no século XX. Durante a Guerra Civil Espanhola e a ditadura de Franco, incontáveis volumes raros e inestimáveis foram queimados pelas autoridades. Certamente muitos textos mágicos e ocultos acabaram sendo destruídos nesses expurgos. 

Outra razão que pode explicar não haver exemplares sobreviventes diz respeito ao clima do noroeste da Espanha. A região galega é muito úmida e chuvosa, e os livros costumam estar muito mal conservados, quando não acabam destruídos pelas intempéries. Além disso, muitas pessoas que provavelmente possuíam tais exemplares acabaram imigrando para a América, evitando de levar esses livros potencialmente perigosos que poderiam acarretar em problemas com a Inquisição.

Os livros mais antigos de que se tem notícia, versando sobre a Obra de São Cipriano são do início do século XVIII. Um deles tem o cerimonioso título "HEPTAMERON OU ELEMENTOS MÁGICOS COMPOSTOS POR SAN CIPRIANO O MAGO", traduzido do Latim, mas com anotações em espanhol feitas por Fabio Salazar y Quincoces - Astrólogo, alquimista e famoso naturalista da época. É uma edição curiosa, diferente das outras por não ter semelhanças evidentes com grimórios europeus famosos. Seu conteúdo é típico: quiromancia, fisionomia, astrologia e feitiços. O nome de Cipriano é usado apenas no título do livro. Sua linguagem (espanhol em estilo antigo) e gravuras demonstram sua antiguidade.


Outra versão foi editada em Santiago de Compostela com o título "FEITICEIROS E ASTRÓLOGOS DA GALÍCIA E NOTAS DO FAMOSO LIVRO DE SAN CIPRIANO", que foi posteriormente publicado no Porto alguns anos depois. Este livro trata dos processos da Inquisição galega contra feiticeiros e astrólogos da segunda metade do século XVI e primeira metade do século XVII. O livro foi censurado, tornando-o mais acessível ao público em geral. A primeira parte da obra é semelhante à do Grande Grimório, tratando-se da preparação do mago e da criação do círculo cabalístico. A segunda parte inclui instruções sobre Círculos Mágicos e as Hierarquias Infernais Goéticas, além de receitas mágicas, criação de poções e eventuais rituais para encontrar tesouros ocultos.

Na América espanhola, os Livros de São Cipriano chegaram primeiro ao México, Peru e Argentina em meados do século XIX. Eles foram editados pela primeira vez em 1856 (no México) e se tornaram populares pelas promessas de riquezas e tesouros - novamente tratados como "verdadeiros e completos" em relação ao livro original.

Não demorou muito para que eles chegassem também ao Brasil. É provável que volumes editados em Lisboa tenham sido os primeiros a desembarcar no solo brasileiro, vindos na coleção de nobres e indivíduos ricos. Levou, no entanto, algumas décadas para que uma edição brasileira fosse impressa e vendida no país. A primeira de que se tem notícia data de 1895 numa pequena tiragem impressa no Rio de Janeiro da qual não se conhece nenhuma cópia sobrevivente. Depois dessa, é conhecida uma editada em São Paulo no ano de 1900 que já trazia o titulo de "O Verdadeiro Livro de São Cypriano, o Mago" na capa.

A primeira edição impressa em tiragem data de 1923 e ganhou o título "Grande Livro de S. Cipriano ou Thesouro do Feiticeiro", contando com aproximadamente 300 páginas e impressa pela Gráfica do Diário de Notícias, um dos jornais populares do período. O livro foi um impressionante sucesso de venda que justificou pelo menos mais três edições e uma versão popular com 108 páginas que podia ser comprada por pessoas menos abastadas. 

Depois disso, inúmeras edições foram publicadas no Brasil ao longo dos anos 1930-40, sendo o título redescoberto novamente em meados da década de 1960 quando o misticismo começou a atrair adeptos. Depois disso, o livro de São Cipriano nunca mais parou de ser vendido.


As versões brasileiras desde o princípio incorporavam textos de origem muito diversa, mencionando santos católicos, espiritismo, magia negra e finalmente trazendo elementos de religiões africanas. Não tratava mais especificamente do tema dos tesouros, tão importante em outras edições, mas dedicava enorme espaço a criação de objetos mágicos, patuás e amuletos de proteção, algo bem tradicional no Brasil. Incluía também longas receitas para curar doenças tropicais, tratar do veneno de animais peçonhentos, bênçãos, imposição das mãos e aflições causadas por demônios, maneiras de fechar o corpo contra o mal, etc. – algumas versões também apresentavam cartomancia, astrologia e quiromancia no seu repertório variado.

Nos anos 1970, os livros de São Cipriano no Brasil ganharam outro adendo sinistro que provavelmente contribuíram para a aura de proibição que pairava sobre este título. Eles passaram a conter rituais e magias que permitiam falar com os mortos, invocar demônios e compelir tais entidades à servitude. Magia branca e negra se misturavam nas páginas, com rituais que muitas vezes envolviam sacrifício de animais - gatos, pombos e cabritos pretos, algo que as versões ibéricas raramente abordavam. Em dado momento, aparentemente os Livros de São Cipriano (ironicamente ainda sendo chamado de "verdadeiros") mudaram tanto e de tal forma, que tinham bem pouco em comum com os livros que os precederam, mesmo aqueles editados no Brasil no início do século XX. 

De fato, os livros passaram a reunir todo tipo de Mambo-Jambo de quinta categoria, mais com o intuito de chocar e surpreender o leitor casual do que oferecer um tratado de misticismo ou ocultismo convencional. Em outras palavras, os livros de São Cipriano se tornaram uma mistureba de noções, conceitos e crendices variadas que bebiam de todas as fontes possíveis e imagináveis. Isso explica, a razão pela qual alguns livros passaram a trazer na capa as imagens de Exu, de caveiras, tridentes e outros símbolos de crenças africanas. Se um dia os livros ofereceram um vislumbre histórico, esse se diluiu de tal maneira que praticamente nada remonta ao Manual de Magia supostamente escrito por Cipriano de Antióquia. No fim das contas, o Livro de São Cipriano é acima de tudo uma colcha de retalhos de coisas diferentes. 

Para terminar essa história, eu não poderia deixar de contar sobre quando finalmente comprei um Livro de São Cipriano. Eu devia ter uns 17 anos e encontrei ele à venda numa feira de livros usados. Não resisti, levei para casa. De madrugada, sem ninguém por perto, abri o "livro proibido". E foi com uma grande frustração que folheei as páginas encontrando coisas bem ridículas numa edição barata.

Foi inevitável dar uma risada e pensar comigo mesmo: "Era disso que eu tinha tanto medo quando era criança"?

Acho que ainda tenho o meu exemplar do famigerado Capa Preta guardado em algum canto aqui em casa, não olho para ele há anos - e antes que alguém pergunte, claro que nunca tentei fazer nenhuma dessas * aham * "magias". Ele permanece como uma curiosidade e um belo exemplo entre a diferença abismal entre expectativa e realidade.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

A Jornada Final - A conclusão da vida de Abdul al-Hazred


Seguimos para  conclusão da longa jornada do feiticeiro, sábio, viajante, mago e ocultista Abdullah ibn Jabir al-Hazraj al-Ansari que viria a ser conhecido posteriormente pelo nome de Abdul al-Hazred, o autor do blasfemo Al Azif que por sua vez, ganharia fama como Necronomicon.

11. Em Damasco e Novos aprendizados 

De volta à Arábia através da Pérsia, al-Hazred seguiu para Basra, onde conheceu Saddam ibn Shahab, um místico árabe que havia recentemente retornado das terras ocupadas pelo Califado visigodo (a região que hoje pertence ao sul de Portugal). Ibn-Shahab assim como, al-Hazred se tornou um viajante cujas jornadas foram motivadas por visões obtidas através de sonhos. Mas diferente de al-Hazred ele tentou negar essas revelações adotando o dogma Islâmico. Ibn-Shahab era também muito mais jovem e não tinha um compreendimento completo das suas visões que o aterrorizavam.

Ainda assim, suas obras impressionaram al-Hazred, sobretudo a coleção de escritos conhecidos como "Sonhos do Vale de Pnakot". Tentando compreender como controlar suas visões, Ibn-Shahab intuitivamente encontrou um método de explorar seus sonhos de forma consciente. Por algum tempo, apesar de bem mais jovem, se tornou professor de al-Hazred guiando-o através das sendas oníricas e da exótica Terra dos Sonhos. Juntos os dois avançaram através do Labirinto de Zin, as Câmaras de Vaultoor e os recessos de Throk, além é claro de conhecer os mistérios do Vale de Pnakot. Saddam também aproveitou o encontro para absorver as narrativas sobre os Antigos e aprender as práticas de meditação usadas para estabelecer comunicação com os "deuses que sonham".   

Depois de se separar de ibn-Shahab, o peregrino decidiu retornar para a Síria. A essa altura da vida, ele já beirava os 70 anos, mas aqueles que o viam dificilmente dariam a ele mais do que 50 anos. Sua energia e vivacidade pareciam inesgotáveis e ela era frequente tema de rumores que afirmavam ser impossível um homem de sua alegada idade conservar o viço e frescor daquela forma. Ninguém entretanto levantava questionamentos, ao menos não diante dele.

Ao chegar a Damasco, vindo de Palmira, al-Hazred decidiu que passaria os anos vindouros naquela grande cidade, colocando à prova seu conhecimento em experimentos práticos. Para tanto ao chegar à majestosa cidade comprou um verdadeiro Palácio só rivalizado em tamanho e suntuosidade pela residência real. Lá reuniu material para construir um laboratório de magia, repleto de ingredientes trazidos de todos os cantos do mundo conhecido. Caravanas vinham até ele, oferecendo tesouros valiosos ou itens raros para abrilhantar sua coleção. Ele os pagava em ouro e todos o tinham como um rico sábio de gostos peculiares, alguém beirando a excentricidade.


Em seu santuário al-Hazred testou os limites de suas habilidades mística, desencadeando feitiços de enorme poder e inquestionável imoralidade. Realizou o milagre da transmutação, sondou os segredos da invisibilidade, da magia negra que permite a troca de mentes, exercitou sentidos obscuros e é claro, testou as fórmulas que permitem trazer os mortos de volta à vida por intermédio dos sais perfeitos. Seu covil macabro era conhecido entre os mais desprezíveis mercadores de escravos que ofereciam espécimes para seus experimentos. Para hospedar essas vítimas, uma masmorra foi construída sob seu palacete e lá ficavam confinados aqueles que seriam submetidos a todo tipo de provação com o intuito de ampliar o já considerável rol de habilidades arcanas do feiticeiro. Gritos e lamentos irrompiam dessa escura masmorra maldita, onde os prisioneiros nem sempre eram humanos ou mesmo, estavam vivos.

A busca incessante por esse saber profano ocupava todo tempo de al-Hazred e ele se alienou de assuntos mundanos e mesmo do que se passava na cidade onde ele havia se radicado. Por volta de 722, al-Hazred soube com raiva e indignação que Yazid II, que havia ascendido ao trono, instituiu um édito ordenando a destruição de todas as imagens em seu Califado. De acordo com fontes bizantinas no período, ele chegou a essa decisão instigado por um cabalista judeu que previu um longo reinado para o Califa se ele tomasse para si a missão divina de destruir todos ícones nos seus domínios. Evidências arqueológicas confirmam que igrejas cristãs sofreram muto durante esse período e que incontáveis templos foram invadidos, tendo suas estátuas transformadas em pó.

Al-Hazred foi tomado pela ira e consternado se dirigiu até a residência do Califa exigindo o imediato cancelamento do édito e que dentro do possível fossem feitas compensações para os danos causados. O Califa reagiu de forma ainda mais furiosa às ordens daquele insolente que só poderia estar louco. Yazid chegou perto de ordenar a execução de al-Hazred, mas foi dissuadido de fazê-lo por conselheiros que conheciam a fama do feiticeiro. Ao invés disso, ofereceu um cargo na Corte como Pesquisador de Ciências já que muitas das maravilhas propostas por al-Hazred se encontravam no campo da natureza e não da magia negra. Para convencê-lo a aceitar o cargo, o Califa eximiu o mago de livrar de sua coleção de estatuário.

Entretanto, al-Hazred não ficaria muito tempo nessa importante função. Yazid II morreu em 724, no auge de sua vida (de causas desconhecidas, mas com menos de 30 anos). Seu sucessor, Hisham ibn Abd al-Malik, forçou ainda mais o édito e mandou confiscar e destruir estátuas e multar pesadamente aqueles que as detivessem. O palacete de al-Hazred foi invadido e várias de suas valiosas estátuas, inclusive representações milenares dos Antigos, foram confiscadas e destruídas quando ele estava fora. Ao retornar, sua fúria foi visceral!

Pouco depois do ocorrido, al-Malik caiu doente, afetado por uma moléstia desconhecida que consumia sua vida à olhos vistos. Nenhum médico ou filósofo foi capaz de determinar que mal o afligia e parecia ser questão de tempo até o Califa expirar em terrível agonia. Desesperados para achar uma cura, chamaram al-Hazred para examinar o nobre. Com presteza ele despachou um agente até seu laboratório e mandou que lhe trouxesse ingredientes selecionados com os quais preparou um unguento milagroso que afastaria os espíritos invisíveis que dizia, estavam drenando a vida do Califa. Com efeito, ele se curou em poucas semanas e passou de desenganado a plenamente refeito de seu infortúnio. Muitos consideraram o evento um milagre, outros temiam que tipo de cura o feiticeiro havia promovido. No fim, a salvação de al-Malik veio com um documento assinado pelo próprio Califa no qual garantia benefícios exclusivos a al-Hazred de que nem ele, nem a sua preciosa coleção de estátuas seriam novamente perturbados.   

12. O Kitab al-Azif

Ainda em Damasco, Abdul al-Hazred começou a se comportar de uma maneira estranha para um homem de sua expressiva fortuna e notável posição social. Ele se ocupava cada vez mais frequentemente em ler seus poemas nas esquinas do Grande Bazar, fazendo estranhos e quase incompreensíveis sermões para os transeuntes. Muitas pessoas que passavam ignoravam aquele homem de barba longa e face coberta de cicatrizes. Mas os que se colocavam aos seus pés eram recompensados por belas poesias e histórias de vida.


Por volta de 722, com 80 anos de idade (e ainda parecendo não ter mais do que 50), ele deu início a um dos mais ambiciosos projetos de sua tumultuada existência e que escreveria seu nome nos anais da história. Ele decidiu que a integralidade de seu trabalho precisava ser de alguma forma preservado e seu conhecimento transmitido para as gerações futuras. Para alguns, colocar em papel todos os pensamentos que povoavam sua mente febril era uma necessidade para lidar com a insanidade que o acometia, mas outros supõem que a concatenação daquele tratado esotérico se deu com o intuito de aplacar um antigo pacto firmado com Nyarlathotep. Conhecendo a natureza de tal divindade, é realmente possível que o sardônico Caos Rastejante tenha exigido o cumprimento desse pormenor como forma de saudar um débito antigo.

Parte livro, parte registro, de certa forma um Testamento, o tratado recebeu o título Kitab al-Azif (O Livro de Al-Azif). Infelizmente, não existem informações confiáveis do que significaria esse nome, embora suponha-se que possa ser uma forma respeitosa de tratamento, usada para se referir aos Antigos. Algumas fontes árabes atestam que essa palavra se refere ao som que as cigarras e outros insetos produzem e que segundo o folclore árabe simboliza o ruído da conversa entre os jinns e demônios do deserto. Um defensor dessa teoria afirma que tal forma de conversação é conhecida como "Versos de Shaitan" (demoníacos ou satânicos).

O historiador do Islã al-Nihaya aponta para uma versão similar do termo: "Aziful Jinn" que seria a voz dos jinn, o povo místico do deserto que uiva com o vento. Há outra hipótese incomum para o título que poderia ser traduzido como "O Livro da Cura". O conceituado dicionário russo-árabe Baranov, editado no século VII traduz "azif" como "momento de cura promovido após a provação, geralmente uma calamidade". Nesse contexto, seria cabível ainda uma tradução próximo como "Livro das Tragédias" ou "Livro das Calamidades".

Várias fontes indicam que o texto original redigido pela mão de al-Hazred teria sido escrito em pele humana. No entanto, tal presunção parece ser pouco confiável, uma vez que residindo em Damasco ele teria poucas oportunidades de extrair e processar tamanha quantidade de material. Ainda que tenha contado com um círculo de mercadores de escravos por décadas, não parece factual que ele pudesse se prestar a tal atividade que ocuparia boa parte de seu tempo. Entretanto, um exame de um volume traduzido do al-Azif pelo grego Theodorus Philletas, atestava que uma das primeiras edições havia sido encapada com a pele de bebês cristãos como um tributo ao al-Azif original encadernado com a pele de mil escravos. Por algum tempo, o rumor sobre as edições do al-Azif encadernadas com pele humana circulou, dando vazão aos rumores de que o texto supostamente "precisava ser confinado em tal material" para que conservasse suas propriedades arcanas. Tal pensamento provavelmente é mera superstição e não possui qualquer base ou comprovação.

Segundo os biógrafos de al-Hazred ele teria demorado 3 anos e sete meses para concluir o al-Azif, tarefa que demandou sua atenção completa em um regime extremamente disciplinado de escrita. Philletas mencionava na introdução que o autor teria transcrito trechos inteiros da obra durante incursões na Terra dos Sonhos, extraindo da realidade onírica mais de um capítulo da obra. O que isso realmente significa fica aberto a interpretação do leitor.


O resultado final do Tratado, uma vez concluído, é nada menos do que monumental. O esforço hercúleo de descrever as experiências esotéricas e metafísicas de uma longa existência devotada a desvendar os segredos dos Antigos só pode ser igualado a obras do calibre da Bíblia, Torah ou o próprio Corão. Sozinho, al-Hazred escreveu de modo febril, dia e noite sobre tudo que sabia e acumulou de conhecimento dos celebrados Mythos de Cthulhu. O resultado era algo impensado e de teor indescritível; nada menos que o maior Compêndio sobre os Mythos jamais escrito.

A despeito de estar repleto de toda sorte de superstição, preconceito e sincretismo mitológico que é característico nos tratados medievais, o livro parece estar muito à frente de seu tempo. Por vezes é difícil compreender o que o texto expressa, o que seria simplesmente alegórico ou metafórico, meramente poético ou surreal. Ler o al-Azif (ou mesmo suas traduções posteriores) é um exercício complexo, intrincado e que traz mais dúvidas do que certezas. Não constitui de modo algum leitura para os não iniciados, e mesmo o mais calejado ocultista se verá acossado por conceitos e noções difíceis de assimilar ou decifrar o teor desejado pelo autor. Há de se lembrar que Abdul al-Hazred não por acaso era chamado "árabe louco" e como tal, seu trabalho refletia um estado mental de alguém acometido por um saber devastador, capaz de pulverizar a razão, aniquilar a sensatez.

Não obstante, há detalhes impressionante que denotam o quanto seu conhecimento do universo e das coisas que o constituem se destacava em meio aos sábios do período. Por exemplo, quando descreve os planetas, o autor usa o termo "esfera", ao invés de "disco", como faziam muitos contemporâneos medievos. Além disso, a noção de um universo vasto que se estende muito além da Terra - uma parte irrisória do cosmo, constitui uma noção incomum, diversa do que acreditavam os astrônomos de sua época.

No sutra "De Yidhra, Aquele que promove os sonhos", al-Hazred demonstra noções compatíveis com a célebre teoria da Evolução das Espécies de Darwin (que só seria proposta formalmente no século XVIII e XIX). Ele escreve de modo bastante claro: "E a matéria da vida em estado puro se tornou um verme, e o verme uma serpente, e a serpente se tornou um lagarto, e este, desenvolvendo pernas andou, nadadeiras, nadou e asas, voou (...) e ao longo dos milênios, esse ser se tornou o homem".

O autor também indica conhecer a multidimensionalidade do espaço, e que a parte visível do universo é meramente uma projeção de um todo. Ele estuda os conceitos dos Deuses Exteriores e os correlaciona com fenômenos da natureza observável em nossa realidade, projetando que colossos como Yog-Sothoth e Azathoth representam a incorporação de elementos cósmicos, no caso, o tempo/espaço e a entropia. Al-Hazred lança dessa forma bases para um pensamento filosófico que encontra conformidade nas teorias da Física Quântica moderna.       

Capaz de mudar paradigmas da história, alterar percepções e surpreender com uma notável modernidade oculta, o al-Azif  constitui um mistério quase insondável. Ele era tão incompreensível para a maioria dos homens que o leram na Idade das Trevas, quanto ainda o é hoje, exceto para os mais iluminados partidários da metafísica.            


É curioso notar que o al-Azif parece ser uma obra não terminada, um trabalho que não foi concluído uma vez que o autor morreu (ou desapareceu) antes de deitar a pena. As traduções dos estudioso que tiveram acesso a ele deixam claro que alguns capítulos não apresentavam conclusão e que certas ideias são simplesmente abandonadas em meio a exposição. Propositalmente ou não, quem pode saber? É conveniente tentar explicar a ausência de trechos e a censura de alguns parágrafos, como falha dos tradutores gregos latinos ou ingleses que se debruçaram sobre o material original, mas Theodorus Philletas, Ollaus Wormius e John Dee, defendem que a tarefa de traduzir o texto, foi cumprida da maneira mais fiel possível, com direito a todas as incoerências e fragmentos quebrados contidos na versão original.

É possível supor que se al-Hazred tivesse vivido um pouco mais, ele teria revisado o manuscrito até atingir a perfeição literária e filosófica, corrigindo os trechos em que prevalece uma disposição confusa e caótica, que grosso modo permeia todo o trabalho. Seria então o al-Azif mais acessível, menos intrincado ou parcialmente legível? Novamente, quem pode saber...

Ao terminar suas anotações, Abdul al-Hazred deve ter contemplado seu vasto trabalho, tocado o velino cru com os dedos manchados de tinta e se conscientizado do monumental trabalho ali reunido. Teria ele ponderado sobre o perigo que aquilo representava? Teria imaginado em algum momento que tantas vidas seriam consumidas pelas palavras que cobriam aquele tecido? Outros acadêmicos que tomaram para si o trabalho de decifrar o blasfemo tratado relataram ter sofrido após concluir a tarefa. Meditaram a respeito de queimar, rasgar, destruir o resultado de sua labuta... evitando assim, de alguma forma, que tal livro caísse nas mãos dos homens. Os clérigos que condenaram Ollaus Wormius por ter traduzido o Necronomicon do grego para  Latim o amaldiçoaram e o condenaram aos tormentos do Inferno pelo seu intento, e ele era mero tradutor... que dizer de al-Hazred que escreveu de sua própria lavra o tratado? Teria ele se arrependido e desejado jamais tê-lo feito?

Isso jamais saberemos, pois ele preferiu não discorrer a respeito.

13. A Derradeira Jornada

Finalmente chegamos ao capítulo final da longa vida de Abdullah al-Hazraj, a história de sua morte. Muitos historiadores usaram o destino traumático do "Árabe Louco" como metáfora para alertar as pessoas quanto aos perigos da busca obsessiva por conhecimento proibido. Também falaram de sua morte como forma de prevenir aqueles que cortejam o favor dos Deuses Ancestrais ou neles buscam aliança. Mas a pergunta que se faz é: mesmo que soubesse de seu fim, será que um homem como al-Hazred teria mudado algo em sua existência terrena? Teria ele se arrependido e buscado redenção em outros caminhos menos tortuosos? Conhecendo a inquietude que marcou sua vida e a rebeldia que ele abraçou desde jovem, parece pouco provável que ele se arrependesse de qualquer coisa.

Mas não há como ter certeza, e portanto, ao invés de falar sobre o que se assume, falemos a respeito do que temos como fato.


Naquela altura de sua vida, já bastante idoso, o mago soube que sua morte era iminente e convencido de que havia uma última tarefa a cumprir decidiu empreender uma derradeira Peregrinação. Antes de partir, ele doou suas posses em favor da construção do grande Mosteiro de Damasco que ganharia notável fama entre os filósofos e cientistas árabe-muçulmanos. Poucas décadas mais tarde, ele se tornaria a primeira universidade de Damasco.

Outra providência tomada foi entregar a um dos seus discípulos de confiança, supostamente um jovem de nome Umar bin-Tuffalah, o manuscrito original do al-Azif. Este recebeu instruções criteriosas para guardar o documento e levá-lo até Basra onde ele deveria ser colocado aos cuidados de um outro antigo discípulo que tinha contatos com copistas que poderiam disseminar o trabalho. Dessa forma, ele não ficaria restrito a um único leitor, a uma coleção ou uma biblioteca. Desde o início al-Hazred parecia preocupado em espalhar sua palavra e fazer com que ela chegasse ao maior número possível de interessados. E não é exatamente isso que fazem os Profetas ungidos com o saber? Seja como for, sabe-se que ele entregou junto com o pacote contendo o documento original uma soma considerável de moedas para que fossem feitas cópias da sua obra prima. E tudo indica que essa vontade foi cumprida pois ao menos três cópias do manuscrito vieram à tona nos anos seguintes, em Basra, Alexandria e Damasco e a partir destas a palavra foi lançada na Terra. Ibn Khalikan, o famoso acadêmico árabe foi um dos contemplados com uma dessas cópias e esta supostamente teria viajado para o ocidente, ensejando na tradução que impingiu no mundo o celebrado Necronomicon.

Quanto a al-Hazred, ele se juntou a uma caravana que seguia para o sul, almejando visitar uma última vez a mítica Irem, a Cidade dos Pilares. Talvez ele desejasse morrer exatamente onde sua vida sofreu uma guinada e onde ele ganhou compreensão de seu propósito maior: ser o Profeta dos Antigos e porta voz do seu conhecimento. Outros acreditam que ele estava tentando escapar das Divindades ou dos seus emissários que o perseguiam tanto nos sonhos quanto na realidade. Nos meses finais passados em Damasco, ele não conseguia dormir, não se alimentava e não encontrava paz de mente ou espírito. Seus servos de confiança assistiam ele definhar a cada noite, com os olhos cada vez mais fundos, palidez cadavérica e uma fraqueza devastadora. De fato, a única coisa que o salvou de morrer ali mesmo era a perspectiva de empreender sua última jornada, ainda que dificultada enormemente pela idade avançada. A energia e jovialidade que lhe eram características e que causava espanto naqueles que tomavam conhecimento de sua verdadeira idade parecia enfim ter se esvaído.

Desde que havia dado por terminado seu envolvimento na redação do al-Azif ele parecia ter envelhecido horrivelmente. Como se a conclusão da colossal tarefa tivesse decretado que seus dias estavam contados. Há outra teoria, uma que envolve a busca pelas peças finais de um mosaico que existiria nos subterrâneos de Irem e que ele pretendia contemplar uma última vez. Este concederia um vislumbre do destino final do universo, algo que ele não ousou contemplar quando visitou o lugar décadas antes. Agora, próximo de se tornar pó, seria o momento adequado de ver tal coisa e saber que, assim como ele, a própria Criação também não seria eterna.

Seja como for, nove dias antes de sua morte (como podemos precisar de acordo com o preâmbulo contido no al-Azif) o feiticeiro soube que não chegaria ao seu destino e que jamais veria novamente as câmaras subterrâneas de Irem. Um eclipse solar estava se aproximando e várias visões confirmavam que ele morreria logo depois deste.


A ocorrência do eclipse nos permite determinar acuradamente o tempo e lugar da morte do Profeta dos Antigos. A maioria dos historiadores e biógrafos acreditavam que ele teria morrido no ano 738 na cidade de Damasco, mas a evidência astronômica não nos permite aceitar essa versão. Haviam apenas três eclipses solares ocorrendo nesse período, mas nenhum deles visível de Damasco como afirmam os biógrafos. O mais provável é que a morte tenha ocorrido na fronteira com o Rub al-Khali, em março de 732, após o meio dia, mas certamente antes do por do sol.

Segundo os rumores, o Profeta dos Antigos teria se afastado da caravana e caminhou solitariamente na direção do deserto tendo o sol sobre sua cabeça. Mais tarde, seu rastro foi seguido por alguns homens que deram pela falta do estranho ancião, mas suas pegadas simplesmente desapareciam no meio das dunas como se ele tivesse sumido. Seu desaparecimento se deu justamente no momento em que o sol foi encoberto e o dia se transformou em noite. E quando brilhou novamente, não havia sinal de Abdul al-Hazred nesse mundo.

14. A Ascensão de Al-Hazred

Existem muitos rumores sinistros e contraditórios a respeito desse desaparecimento e morte. Sobre o que teria acontecido com o ancião e como ele teria simplesmente sumido no deserto. Os homens da caravana realizaram uma busca, mas logo concluíram que ela seria inútil. Temiam que os jinn tivessem carregado aquele velho estranho, e ninguém pretendia se arriscar e desafiar os espíritos que habitavam o Rub al-Khali.

Seja como for, meses se passaram e nesse período não se soube nada de al-Hazred. Em Damasco, a cidade que ele havia adotado como lar por longos anos, chegavam boatos de todo tipo. A fama do ancião como feiticeiro era muito grande, de modo que alguns viram seu passamento com certo grau de alívio. Nem mesmo os poucos discípulos e servos que tinham contato mais próximo lamentaram seu fim. Se resignaram de que seu mestre havia partido.

Seis meses após o ocorrido, ninguém mais esperava ver o velho novamente. O nome dele já circulava livremente nos lábios daqueles que antes se limitavam a sussurrar seu nome. Mas então ocorreu o mais estranho dos incidentes que teve lugar não numa viela escura na calada da noite, mas em pleno grande bazar à luz do dia. O evento foi visto por inúmeras pessoas, gente de todas as classes e tipos, que testemunharam o ocorrido. Sabe-se a respeito do incidente através do relato detalhado de um copista que achou importante incluir um capítulo à cerca do destino final do autor. O trecho sofreu várias interpretações posteriores e foi bastante desvirtuado, mas tudo indica que a versão mais fiel aos fatos seja a descrita a seguir.


Certo dia, um vento quente soprou sobre Damasco fazendo as areias se erguerem em uma forte tempestade. E quando enfim a fúria dos elementos diminuiu, foi a vez dos chacais uivarem enlouquecidos. Em toda cidade cães ladravam, crianças choravam e os perturbados gritavam, como se soubessem o que estava por vir. Ao mesmo tempo, entrou pelos portões da Cidade Antiga uma figura desmazelada e alquebrada, suja de terra e vestindo um manto com capuz que escondia suas feições. Mas todos que lançaram os olhos sobre aquela forma cadavérica foram unanimes em dizer que não se tratava de outro senão Abdul al-Hazred. E mais, diziam que embora andasse não se encontrava mais no mundo dos vivos, o que levou a maioria das pessoas a bater no peito e pedir a proteção do Misericordioso.

À passos trôpegos ele seguiu pelas ruas de calçamento de pedra, repelindo animais e afastando curiosos que abriam caminho para que a forma em andrajos passasse sem embargo. Assim ele seguiu lentamente, com uma pequena comitiva que tentava manter uma distância segura, sem no entanto perdê-lo de vista. A pequena procissão, seguiu pelas ruas de Damasco até chegar ao Grande Bazar. Lá, a figura teria removido o capuz revelando que de fato era o temido feiticeiro, ainda que transformado num cadáver andante.

E quando revelou suas feições desmortas, houve um novo rumor de choro e desespero que varreu a cidade. Pois a seguir, o ancião se pôs a falar, como quando recitava seus poemas incompreensíveis, mas de sua boca brotava uma surah profanas e repleta de pecado. E os que ouviam não conseguiam censurá-lo ou contê-lo, pois tremiam dos pés à cabeça, choravam e se contorciam como possessos. Pois eram as palavras apocalípticas dos Antigos que falavam através de seu Profeta mor.

E quando o horrível sermão terminou, dizem, o corpo do velho foi erguido do chão por uma força invisível que o levantou até a altura dos telhados próximos. E em um único movimento sua cabeça, braços e pernas foram arrancados de seu torso e devorados por uma horda faminta de demônios invisíveis. Seu corpo desmembrado foi inteiramente consumido daquela forma, deixando na areia apenas os respingos de seu sangue. Horrorizada a população de Damasco comentou por meses o tenebroso acontecimento, temendo que a cidade tivesse sido amaldiçoada. Para conter a onda de rumores o Califa ordenou que o Bazar fosse três vezes abençoado em nome de Ala o misericordioso para que qualquer presença espúria fosse esconjurada. 

Posteriormente, a história contada foi que al-Hazred teria morrido no grande bazar, mas o trecho descrito acima é muito mais significativo. Ele assume que o Profeta já estaria morto, teria retornado para fazer seu sermão final e então Ascender a seu modo sangrento. Não por acaso, o testemunho é tratado como "A Ascensão de al-Hazred", encontrando ecos na transição do Buda para o Paranirvana, na crença do Cristo ressurrecto sendo erguido na direção do céu e da aparição final de Maomé em Meca. Seria de se esperar menos do Profeta dos Antigos?

Com isso, encerrou-se a longa vida de Abdullah al-Hazraj aos 90 anos de idade. Posteriormente, ele ficaria conhecido pela alcunha de Abdul al-Hazred, ou então simplesmente o "Árabe Louco", autor do infame al-Azif, base para o Necronomicom.


É difícil medir a importância de al-Hazred e o quanto seu trabalho seminal contribuiu para difundir o conhecimento sobre o Mythos. É um fato conhecido que o al-Azif teve enorme influência num primeiro momento dentro de círculos devotados ao misticismo no Oriente Médio. Espalhando-se entre defensores de correntes filosóficas e religiosas proscritas, formando movimentos dissidentes que atuaram clandestinamente. Ele sem dúvida patrocinou a formação de cultos, cabalas e sociedades secretas.

A chegada do al-Azif à Europa demorou quase 300 anos pela barreira linguística, mas eventualmente o manuscrito caiu nas mãos de um monge grego que o traduziu para seu idioma em meados do ano 1000. Foi entretanto a tradução seguinte, para o latim que sedimentou o texto de Al-Hazred como o mais desejado compêndio de conhecimento místico de todos os tempos, verdadeiro manual de saber esotérico e tomo inestimável para todos que perseguem as revelações dos Mythos ancestrais.

E tudo isso se deve a um certo "árabe louco".

sexta-feira, 10 de julho de 2020

As Peregrinações de Al-Hazred - A biografia do Árabe Louco


Dando sequência aos artigos a respeito da vida de Abdullah al-Hazrajah (que ficaria mais conhecido como Abdul Al-Hazred), o infame autor do blasfemo e profano Al-Azif, livro que por sua vez daria origem ao Necronomicon.

Nessa segunda parte cobrimos a árdua jornada pelo perigoso Rub Al-Khali, o Grande Vazio, a exploração da mítica Irem, o período no Iêmen e as misteriosas jornadas que levaram o Árabe Louco de uma parte a outra do mundo antigo.

7. Rub Al-Khali

O tempo que passou em Mosul foi de relativa tranquilidade, mas logo Abdullah al-Hazrajah sentiria novamente o desejo de empreender novas Peregrinações. Ele sabia que não poderia escapar delas e que aquele era seu destino.   

Certa noite, após um sonho especialmente auspicioso no qual lhe foi revelada a existência de uma Cidade de Maravilhas indescritíveis, ele decidiu que era o momento de partir. Sem olhar para trás abandonou sua casa, libertando os escravos e avisando aos serviçais que não retornaria. Ele tomou o caminho para o oeste e suas visões o levaram na direção do temido Rub al-Khali, o deserto do Grande Vazio. De acordo com a lenda, era nesse lugar inóspito, verdadeiro caldeirão de desolação que um dia havia florescido a mítica Cidade dos Pilares Irem, também conhecida como Ubar onde atualmente se encontra o Oman. Al-Hazred suspeitava que aquela cidade magnífica de seu sonho era Irem.


Ele esperava que as visões o conduzissem até a cidade, mas ao mesmo tempo temia essa jornada. O Rub al-Khali era um lugar de morte implacável e mesmo as tribos nômades mais adaptadas à severidade do deserto o evitavam à todo custo. Ainda assim, ele sentia que era preciso adentrar o deserto de areias vermelhas, pois era lá que residia seu destino. Na borda da desolação ele se colocou a meditar e jejuar preparando-se para a jornada. Ele foi visitado por vozes e visões, mas conseguiu suportar a provação que poderia levar qualquer outro homem à loucura.

Devidamente preparado, ele penetrou no deserto inclemente encontrando uma fornalha durante o dia, com sol abrasador e um frio congelante após o cair da noite. A fome e a sede eram suas únicas companheiras, pois nada vivia no Rub al-Khali a não ser escorpiões e plantas venenosas. Os dias passavam lentamente e sua peregrinação parecia não levá-lo a lugar algum. Seus passos se perdiam nas dunas e ele sentia o desespero lançar raízes em sua alma, mas ainda assim perseverou e prosseguiu. Os pés sangravam, a face descascava e os pulmões se enchiam de pó.

Nas profundezas do Deserto Escarlate o Profeta experimentou o terror e ouviu as provocações dos Djinns que ofereciam a ele a sobrevivência... por um preço. Tentado com prazeres, comida, bebida e salvação, ele não cedeu até que um dia uma miragem se cristalizou diante de seus olhos causticados e ele a seguiu vacilante. Era a Cidade dos Pilares, reduzida a ruínas de pedra negra que secavam ao sol há milênios. No olho de sua mente ele conseguia ver a dura realidade se misturar a fantasia na qual a cidade pulsava com vida e belezas indescritíveis. Usando uma técnica de meditação que lhe permitia mergulhar nas profundezas de sua percepção, ele experimentou sonhos lúridos num estado de consciência alterado. Em transe, descobriu como adentrar as câmaras secretas que haviam sido soterradas muito antes dos homens existirem.

Escavando na areia ele revelou a entrada e arrastando-se por esse túnel como uma serpente, alimentando-se de escaravelhos e besouros que apanhava até atingir a câmara interna. Em júbilo diante das maravilhas de uma arquitetura imponderável, ele comungou com as memórias contidas naquele antro blasfemo. Através dos olhos da mente ele enxergou além da escuridão estígia e contemplou as verdades sobre os Grandes Antigos e a respeito dos Deuses Exteriores. Compreendeu os mistérios que cercavam essas entidades de poder cósmico, lamentando amargamente a insignificância do ser humano e a pequenez dos deuses criados pelo homem. Ele passou dias no escuro; ouvindo e aprendendo com vozes incorpóreas que sussurravam as verdades dos eons.

Quando não havia mais nada a aprender, ele se ergueu e se arrastou de volta para os túneis na direção da superfície. Mas ao respirar o ar puro, ele se descuidou e a luz do sol cegou seus olhos habituados à escuridão. Ele estava cego e perdido em meio ao deserto. Qualquer homem iria se afogar no desespero, mas al-Hazred não era um homem qualquer. Ele compreendeu que aquele era o teste derradeiro. Sem se desesperar pôs-se a caminhar, sentindo o pulso do mundo aos seus pés que o guiaram até a borda externa do Rub al-Khali como por milagre.


Ao deixar o horror da desolação, sua visão foi voltando e ele avistou uma caravana de mercadores de seda que seguia para o litoral. Ele pagou ao chefe da caravana, lendo a sorte dele e prometendo tesouros quando chegassem a seu destino na terra do Iemen onde tencionava então viver.

8. Vida no Iêmen

A primeira constatação foi que muito tempo havia passado enquanto ele peregrinava pelo Rub al-Khali. Dez anos para ser preciso, sem que ele sequer percebesse. O preço por obter o conhecimento nas paredes de Irem era de fato alto e provavelmente havia afetado sua percepção do tempo.

Contando 40 primaveras, Abdallah sentia pela primeira vez o peso dos anos e a necessidade de descansar depois de tamanha provação. Ele adquiriu uma mansão e escravos em Sana, capital do Iemen e logo se tornou famoso como sábio, cortejado pelos sicofantas e poderosos que viam nele um aliado valioso. Lá ele conheceu uma mulher cujo nome, bem como o nome de sua mãe, a história falhou em registrar. Há rumores de que a mulher era parte da dinastia de Saif Dhu Yazan, o último Rei Judeu do Iemen, que conquistou aquelas terras em 576.

As lendas mencionam um envolvimento romântico, ainda que em mais de uma versão da biografia Al-Hazred seja tratado como incapaz física e emocionalmente de tal relacionamento. Ainda assim, há mais de um registro que dá conta de que ele teria se casado e dignatários teriam participado de suas bodas na qualidade de ilustres convidados que "cobriram os nubentes com valiosos presentes". 

É dito ainda que o feiticeiro frequentou a Corte do Rei do Iêmen, e mais, que teria servido como conselheiro para assuntos esotéricos e até como vizir. Não se sabe por quanto tempo ele desfrutou dos prazeres da corte, mas com certeza foi tempo suficiente para criar raízes. Muitos biógrafos inclusive afirmam que ele seria um iemenita, nascido e criado em Sanaa, o que é contrariado por registros de família e por façanhas que ocorreram cronologicamente antes.


O feiticeiro não teria abandonado sua busca incessante por conhecimento profano como alguns afirmam. No período em que esteve no Iêmen ele traduziu para o árabe as estranhas palavras que viu talhadas nas câmaras subterrâneas de Irem. Na grande biblioteca real de Sanaa ele teria obtido acesso a antigos tomos que consultou e usou como base para compilar os rascunhos que mais tarde dariam origem ao Al Azif. Ele foi o primeiro a traduzir trechos inteiros do Livro de Eibon, dos Tabletes de Zanthu e do incrivelmente raro e monumentalmente antigo Livro de Skelos. Todos esses livros tiveram enorme influência em seu crescimento como mago e aprimoraram suas habilidades místicas. Em certo momento, ele teria inclusive aceitado discípulos, entre os quais uma mulher de nome Isminah a quem transmitiu parte de seu saber - e que dizem se tornou sua concubina. 

Por um período Abdalah al-Hazraj teria experimentado a felicidade, mas seu envolvimento com a Casa de Sayf teria atraído olhares de reprovação de inimigos, sobretudo árabes Sassanidas que tinham ambições sobre o trono de Sanaa e desejavam depor a dinastia judaica. Em algum momento ele teria caído em desgraça, perdendo seus aliados, riquezas e sendo publicamente execrado pelo seu alegado conluio com entidades proscritas. Seus inimigos o teriam arrastado pelas ruas amordaçado (para que não pudesse amaldiçoá-los), amarrado (para que não pudesse reagir) e nu (para que sua humilhação fosse completa). Em todo percurso do bazar da cidade até o Distrito dos Qadis, ele foi ridicularizado, apedrejado e vilipendiado pelo povo.

Segundo registros ao ser apresentado sofreu uma severa punição tendo "o pênis cortado, bem como o nariz e as orelhas, enquanto que as bochechas foram marcadas com ferro em brasa". Tal punição parece condizente com a pena de bruxos ditadas pelos legisladores islâmicos do período, mas há ainda outras indignidades. Um registro afirma que ele teria sido "forçado a assistir a esposa ser queimada por sua associação espúria" e "sua discípula (foi) despedaçada e (ele) forçado a comer partes de seu corpo". É provável que haja exagero nessa narrativa, mas todas deixam claro o teor e a extensão das indignidades que ele enfrentou. Para terminar, ele teria sido exilado no Rub al-Khali, onde foi abandonado para morrer de fome e sede no Grande Vazio.

Contudo, al-Hazred já havia experimentado as provações do Deserto e as vozes dos jinns lhe eram velhas conhecidas. Amargurado e louco por obter vingança ele teria feito uma barganha para que Sanaa e seu povo sofresse como ele sofreu e para que pagasse pela ousadia de apenar o Profeta dos Antigos. Ele teria beijado o Anel de Shaitan e usado de sua influência compelindo uma dúzia de jannis e daos (espíritos do ar e da terra) para forçá-los a criar a maior e mais arrebatadora tempestade de areia que Sanaa já conheceu. A tempestade varreu o deserto, erguendo-se do Rub al-Khali, com areias vermelhas como sangue, sopradas sobre a bela capital do Iêmen. A nuvem de poeira nublou o céu e transformou dia em noite. Dizem as lendas que aqueles que estavam desprotegidos tiveram a pele lacerada até os ossos ficarem expostos tamanha a fúria dos elementos, enquanto os que estavam dentro de construções, nelas ficaram presos pela eternidade. Sanaa foi sepultada sob a areia vermelha e em meio a conflagração, a gargalhada insana do feiticeiro podia ser ouvida.


O preço para obter sua vingança foi aferido pelos Antigos (talvez pelo próprio Nyarlathotep) que o fez jurar verter em agourentas palavras, deitando pena sobre pergaminho, o Evangelho do Apocalipse. De sua lavra surgiria um texto que traduziria em linhas tortuosas todo o terror dos Antigos. Era um preço ao qual Abdalah al-Hazraj estava preparado para pagar.  

9. Egito e o Mundo Antigo

Após o Iêmen ele compreendeu que seu destino se encontrava nas estradas e que era chegado o momento de novas peregrinações. Na época, o mundo árabe estava em um novo momento  sócio-político conturbado e ainda mais agitado na esfera religiosa. Sunitas e Xiitas se enfrentavam no terreno da filosofia e quando os debates entre os sábios não chegavam a uma solução para suas questões, descambavam para a violência. As disputas internas haviam custado ao Califado a Tunísia, Argélia e Smyrna. Bizâncio reclamava territórios que havia perdido na Guerra de Conquista.

Foi nesse panorama que Abdalah al-Hazraj decidiu se juntar aos peregrinos que participavam dos festejos do Ramadã. Era seu desejo conhecer Meca, mas não por razões religiosas, longe disso. Ele desprezava toda e qualquer religião criada pelo homem, atribuindo a Deuses e Profetas um status irrisório diante dos verdadeiros Deuses que vagavam mais além das esferas. Ao chegar ao seu destino, Al-Hazraj se colocou diante da Kaa´ba que ele chamava depreciativamente de "pedra do crocodilo" para ler poemas obscenos. Por pouco não foi apedrejado, mas muitos o trataram como insano e simplesmente o ignoraram. 

Segundo um registro ele teria sido reconhecido e apresentado a parentes da parte de seu pai que viviam na Cidade Santa dos muçulmanos. Não se sabe em que circunstâncias, mas ele rompeu relações com esse lado da família pouco depois. Em seguida, esteve em Petra, onde publicamente realizou um ritual em homenagem aos Antigos no santuário de Manat proferindo os nomes sagrados de Yog Sothoth e fazendo com que ele se manifestasse. Uma caravana que passava testemunhou o incidente e aqueles que não enlouqueceram pela visão do "Todo em um" saudaram o feiticeiro como um Profeta que tinha o poder de falar com Deus. Sobre essa ocasião ele escreveu mais tarde: "Eu jurei fidelidade diante do Templo de Manat aos Antigos e a eles devotei minha existência dali em diante".


Após deixar Petra, Abdullah atingiu Jerusalem, onde testemunhou (ou segundo alguns participou) de um ritual ou experimento místico na companhia de outro feiticeiro chamado Ibn Marut, que terminou com a morte deste em circunstâncias aviltantes. O feiticeiro teria sido arrebatado por criaturas nefastas que habitavam os cemitérios sagrados e que o teriam devorado vivo. Al-Hazred os chamaria de gholas ou ghuls, dedicando a eles um capítulo inteiro do Al-Azif.

Depois disso, ele atravessou o Sinai e atingiu o Egito, terra que sempre desejou visitar para absorver de seu conhecimento ancestral. Al-Hazred chamava a antiga terra dos Faraós de Estígia ou Khem, reputando a ela nomes ancestrais pelos quais ele não era chamada há gerações. Após uma breve passagem por Bubastis, ele fez uma parada em Alexandria, sendo recebido por um sábio de nome Khephnes com quem estudou por semanas os segredos da criação mágica de talismãs. Ele soube de livros que haviam sobrevivido à destruição da Biblioteca de Alexandria e teve acesso a alguns tratados que estavam sob o poder de Guardiões que os protegiam como inestimáveis tesouros.

Alguns biógrafos atestam que ele esteve em Gizé, Tebas e Memphis (onde, dizem, explorou as catacumbas) e encontrou manuscritos perdidos desde a época que os Faraós andavam sobre a terra. Teria se alimentado de mumia, a substância geriátrica que envolve os cadáveres ancestrais e que conserva o conhecimento dos tempos. Por um mês inteiro teria vivido exclusivamente dessa dieta incomum que lhe proporcionou inúmeras revelações.

Após essa longa passagem pelo Egito, trilhando estradas empoeiradas que cortavam os desertos ele se banhou nas águas azuis do Nilo para seguir rumo aos Reinos negros da África subsaariana, a Etiópia Cristã e o ancestral Benin. Aparentemente ele também explorou a Ifriqiya (o território hoje correspondente a Tunisia) aproveitando da companhia de tribos nômades que aceitaram escoltá-lo e que o viam como um homem santo. 

Na introdução do Al-Azif (citada por Philletas na versão grega que recebeu o titulo Necronomicon) essas jornadas por mares de areia e mais além eram mencionadas: "Viajei de oásis em oásis, de ilha em ilha, ouvindo e coletando histórias esquecidas e conhecimento perdido". A extensão da peregrinação empreendida parece fantástica e potencialmente fantasiosa, contudo, Philletas alega que Al-Hazraj se gabava de ter embarcado em navios nos antigos portos da decadente Fenícia, viajando neles até as Ilhas da Grécia (Creta é citada com detalhes), passando por Constantinopla e até mesmo chegando à Sagrada Roma dos Cristãos. Poderia ter ido ainda mais longe, a ponto de ter atingido a "Ilha dos Britões", a qual ele menciona como uma terra tocada pelos Antigos.


Não há obviamente provas de que ele perfez sequer uma fração desse vasto caminho ou que tenha visitado tais lugares. Meramente ele pode ter tomado conhecimento deles através de outros viajantes assumindo para si a proeza de tê-los conhecido, mas jamais tendo fincado os pés neles.     

10. O Caminho para o Oriente

Após retornar ao norte da África, al-Hazraj teria iniciado imediatamente outra Peregrinação. A mais longa e mais misteriosa de suas jornadas em direção ao oriente. Seu itinerário detalhado é desconhecido, bem como a maioria de suas atividades durante essa suposta viagem. Novamente, é possível apenas conjecturar se a viagem realmente aconteceu ou se aconteceu dentro dos parâmetros descritos por biógrafos, entre os quais o mais notável, Theodorus Philletas.

Em teoria, um dos objetivos de al-Hazraj - ainda que não o único, era catalogar e obter ervas usadas em suas experiências místicas. Uma vez que a fitogeografia contida no Al-Azif é incrivelmente ampla (algumas ervas mencionadas existem apenas no sudeste asiático, por exemplo), é possível inferir que ele as tenha obtido nessa viagem em particular.

Nessa árdua jornada por terras estranhas e culturas diversas, ele também fez anotações sobre costumes e folclore. Sabemos que um dos primeiros lugares visitados foi Shiraz, onde ele teve contato com refugiados que professavam a crença no Zoroastrismo e estavam à caminho do oeste da India. A seguir ele seguiu para o norte que o levou até a Província do Punjab, um reconhecido centro religioso. Com isso o Profeta dos Antigos teria visitado todas as grandes capitais das principais religiões (Cairo, Meca, Petra, Sinai, Jerusalem e Shiraz) e assumindo que ele mantivesse esse itinerário deve ter conhecido também Patna (que foi o berço do Budismo indiano e Jainismo), além de vários localidades em que o hinduísmo se desenvolveu. Ele deve ter experimentado algum grau de contato com o Budismo Tibetano, anda que este tenha se formado mais tarde.


Os biógrafos falham em traçar uma linha coerente desse ponto em diante. Colocam al-Hazraj a seguir tomando a famosa Rota da Seda de volta à Pérsia onde ele teria encontrado o "lama" Idak Yung (nome que significa "A Voz dos Espíritos Famintos"), que também era um viajante e estudioso dos mitos ancestrais. Teria sido nesse fortuito encontro que ele tomou ciência da mitologia que concerne ao Grande Cthulhu e suas criaturas. Através de meditação induzida por Yunk ele teria captado as emanações psíquicas do Senhor de R'Lyeh que tiveram grande impacto sobre seu trabalho posteriormente. É possível que o "lama" fosse um dos lendários sacerdotes imortais do Culto de Cthulhu existente nas Montanhas do Tibet.

As Peregrinações de Al-Hzred estão chegando ao fim, mas ainda é preciso mencionar a criação do Al Azif, os pactos finais e o destino do Profeta dos Antigos.