domingo, 31 de janeiro de 2021

A Gruta de Margate - Cavernas ancestrais onde Deuses Marinhos eram venerados


A pouco mais de trinta milhas ao norte de Dover, um percurso de 40 minutos de carro, encontra-se a cidade costeira de Margate. Localizada no distrito de Kent, ela tem hoje cerca de 57,000 habitantes e uma orgulhosa tradição marítima. Desde 1760 Margate é um dos destinos de férias prediletos para muitos moradores de Londres, ávidos por desfrutar de suas praias e mar.

No curso da história, houve violentos incêndios que destruíram prédios e construções antigas, sendo que a última grande destruição ocorreu com bombardeios nazistas em 1941. Desde metade do século passado a indústria pesqueira perdeu bastante espaço para concorrentes e a cidade entrou em decadência. Embora o lugar faça o possível para parecer uma colônia de férias, é difícil afastar a aura que pesa sobre ela, a de uma típica cidade litorânea que já teve mais importância. Na rua principal, à beira mar, é possível encontrar hotéis, lojas e restaurantes. Próximo do porto o visitante encontra uma estátua de bronze da Dama do Mar - uma figura típica da região, vista em vários souvenir vendidos em todos os cantos e que remete a uma sereia adornada com conchas, pérolas e contas coloridas. No passado ela era considerada uma figura assustadora, como uma bruxa maligna que arrastava os marinheiros para as profundezas, nas últimas décadas ela se transformou numa figura amistosa, como uma ninfa marinha.

Contudo, Margate é famosa por outra coisa.

O que torna Margate especial é a presença de um misterioso sistema de cavernas e grutas que se estende ao longo de toda região. As grutas estão em toda parte, mesmo embaixo das casas, jardins e ruas da cidade, algumas podendo ser acessadas a poucos metros da superfície.  

A palavra gruta, vem do italiano "grotto", em Latim pode ser traduzida como cripta. Cavernas ou grutas podem se formar naturalmente ou de forma artificial. Em formações naturais, o calcário é lentamente dissolvido por depósitos de água rica em carbono. O processo é extremamente lento, mas ao longo de séculos as rochas começam a ficar porosas e em seguida cedem, permitindo o surgimento de corredores, câmaras e recessos cheios de estalactites e estalagmites.


Cavernas sempre tiveram um papel importante na história humana. Elas foram usadas como proteção, moradia e como lugar de honra, fosse para sepultar os mortos ou para venerar os espíritos da terra. Em Lascaux (na França) artistas pré-históricos cobriram as paredes de uma caverna com algumas das representações rústicas mais belas e antigas conhecidas pelo homem. Nos tempos do Império Romano, as grutas também cumpriam um papel fundamental. O famoso Oráculo de Delphos vivia em uma gruta considerada sagrada. O maior e mais antigo cemitério de Roma se localizava em uma caverna natural. Na Odisséia de Homero, uma gruta permite que Odisseu derrote o monstruoso ciclope PolyphemusPlatão usava as grutas como uma alegoria para representar a diferença entre a ausência de conhecimento (aqueles que vivem na escuridão) e a obtenção do saber (aqueles que resolveram sair e ganhar a iluminação). Mesmo hoje, existem grutas onde as pessoas se reúnem para veneração. Por exemplo, as cavernas de Massabielle na cidade de Lurdes onde a Virgem Maria apareceu em um milagre em 1858. 

Após o século XVI e dali em diante, as pessoas começaram a construir grutas artificiais em jardins na Itália e França. Decoradas com fontes, cachoeiras, estátuas de ninfas, pedras preciosas e conchas coloridas elas eram usadas como piscinas, capelas e teatros. Sabe-se que existe algo entre 20 e 30 grutas desse tipo na Inglaterra. Entretanto, é surpreendente que em Margate, exista uma das maiores e mais enigmáticas que se conhece.

Mas o que faz dessa gruta um lugar estranho, vocês podem estar se perguntando.

Em 1835, o diretor de uma escola local, o Sr. James Newlove desejava construir um lago artificial em seu jardim de campo. Enquanto escavava, sua pá desapareceu em uma abertura de baixo de uma placa de pedra. Removendo essa placa ele encontrou o que parecia ser a entrada para uma caverna muito profunda que estava imersa nas trevas. Ele amarrou seu filho Joshua em uma corda e o desceu pela abertura com um lampião. Depois de verificar o interior da caverna, o garoto foi puxado de volta e retornou falando de estranhas decorações nas paredes e de coisas que ele sequer conseguia descrever. "É como um outro mundo" disse o menino.  


Várias pessoas desceram e tiveram a mesma impressão: estavam diante de algo inexplicável. Para facilitar o acesso para a caverna uma rampa horizontal foi escavada e aberta ao público. Os corredores foram iluminados com lampiões à gás que concediam uma aura sobrenatural ao interior.

O que torna a gruta de Margate um mistério incomum é que não se sabe praticamente nada a respeito de sua origem. Não se sabe, por exemplo quem o construiu, quando e para qual propósito. Tudo indica que o lugar tenha sido erguido como uma espécie de Templo, mas não há qualquer pista de quais divindades eram veneradas naquelas câmaras profundas alagadas de acordo com a variação da maré. O trabalho de construir e ornamentar toda a caverna deve ter sido monumental, consumindo anos e indicando que um número considerável de pessoas esteve envolvida na tarefa. 

Pesquisadores calculam que mais de 4,6 milhões de conchas ornamentam as paredes, espalhadas ao longo de um paredão de 21 metros que se ergue como um mosaico até a superfície. As conchas de todos os tamanhos foram dispostas uma ao lado da outra em padrões simétricos diferentes: estrelas, espirais, triângulos, círculos... as imagens formadas com as conchas são alinhadas e lembram os padrões utilizados em igrejas ou catedrais medievais, exceto pelo fato de que são muitíssimo mais antigas.

Na câmara maior, onde Newlove encontrou a entrada para a gruta, existe um enorme bloco de pedra ornamentado com conchas que lembra um altar rudimentar. Diante dele, uma espécie de piscina ou túnel alagado ligava o centro da câmara a túneis inundados. Em 1850, essa piscina foi lacrada com pedras por motivo de segurança. O propósito desse acesso para o mar só pode ser especulado, mas tudo indica que a água tivesse uma importância vital nos rituais ali realizados. 

Os corredores terminam em portas no formato de arcadas e são exatamente do mesmo tamanho. Esses corredores ligam quatro câmaras distintas, três delas aparentemente naturais e a quarta escavada artificialmente. Os desenhos no interior das câmaras parecem reminiscentes de padrões orientais. Com um pouco de imaginação, é possível enxergar tartarugas, pássaros, flores, luas e árvores em alguns desenhos. Não há, contudo, nenhum símbolo que remete a cristandade, nem mesmo o peixe que era um símbolo associado aos primeiros cristãos. 


Oitenta por cento das conchas nas paredes são típicas da costa britânica, as outras parecem ter vindo de longe - algumas são típicas da Costa da França e Irlanda e foram colocadas em lugares de destaque como para evidenciar o fato delas terem sido trazidas de regiões distantes. Estudiosos afirmam que na câmara maior existem conchas cor de rosa que são típicas do Caribe e outras que só podem ser encontradas no litoral de Cuba. O fato seria apenas curioso se muitos não tivessem atribuído a construção da gruta a homens pré-históricos ou a pescadores anteriores ao período de ocupação romana nas Ilhas Britânicas, ou seja muitos séculos antes dos primeiros navegadores chegarem a América. 

Outra possibilidade, levantada por pesquisadores é que a caverna tenha sido construída por Fenícios. Esse povo que habitava as regiões que hoje conhecemos como Síria e Líbano tiveram seu apogeu entre 1500 e 400 antes de Cristo. Sabemos que os Fenícios eram excelentes navegadores e responsáveis pela criação de um alfabeto complexo. Entretanto, a cidade de Margate se localiza no ponto mais distante de Kent uma região que na época dos Fenícios dificilmente poderia ser atingida através da costa. Além disso, nenhum dos padrões remete a divindades cultuadas por esse povo.  

A verdade é que até hoje foi impossível precisar a idade das conchas que não são passíveis de análise por radiocarbono. É bem provável que na ausência de pistas adicionais, jamais venhamos a saber quando a Caverna de Conchas de Margate foi construída.

Outro tema polêmico diz respeito a utilização da gruta como Templo Pagão. Os desenhos permitem uma ampla especulação a respeito de sua origem, podendo ser Fenícios, Romanos, Egípcios, Cópticos e até Templários dependendo a quem se pergunta.  

O fato da Caverna ter servido como Templo religioso, no entanto, parece óbvio.

No final do corredor, na câmara principal existe um altar que tudo indica, era o ponto central da construção e onde a congregação devia se reunir para assistir as celebrações. No chão, ao redor do altar há indícios de que o piso foi gasto, formando um padrão de círculos concêntricos o que é condizente com várias religiões do mundo antigo, onde andar ao redor de um altar, fazia parte do rito. Apenas para citar alguns exemplos, os Dervishes dançavam em círculos concêntricos para se aproximar de Deus. Na Bíblia, o povo de Jericó precisou dar sete voltas em torno da cidade para causar a destruição de suas muralhas. Muçulmanos dão sete voltas em torno da Kaaba de Meca durante o Hajj para se elevar espiritualmente. Seriam as marcas no chão uma indicação de que as pessoas que usavam a gruta tentavam contatar um poder superior?


Se esse é o caso, quais Deuses teriam sido venerados naquela Caverna próxima do Litoral?

Muitos acreditam que Deuses e Espíritos Marinhos seriam as divindades mais prováveis de receber a atenção daquela congregação formada por homens do mar. Grupos de pescadores primitivos poderiam se reunir na gruta afim de pedir proteção ou o favor dos deuses para que eles proporcionassem uma pesca abundante. Comunidades pesqueiras desse tipo eram comuns em muitas regiões da Europa, mas em nenhuma se viu tamanho grau de devoção. 

Outro elemento importante é a piscina que leva a um túnel alagado que também sugere ser o mar um elemento importante dos rituais ali conduzidos. Especialistas não afastam a possibilidade de que esse túnel fosse utilizado para rituais de sacrifício, no qual vítimas poderiam ser lançadas no túnel para morrerem afogadas, cumprindo assim o papel de oferendas para divindades marinhas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Bokrug - O Grande Lagarto, Deus da Vingança e Reparação

Conhecido na Terra dos Sonhos como o "Senhor da Vingança", o "Reparador das Afrontas" e "Causador da Calamidade", Bokrug é uma divindade obscura até para os padrões do Mythos de Cthulhu.

Raramente citado nos tomos de conhecimento esotérico, a entidade ganhou fama pelos seus feitos quase sempre envolvendo alguma destruição, catástrofe ou cataclismos que atinge alguma civilização conduzindo esta à inevitável decadência. Os poucos textos que se referem a ele, mencionam povos do passado que foram riscados da existência e levados à derrocada por terem de alguma forma desagradado a esse Deus Irascível. Bokrug parece se envolver diretamente nas vinganças, acatando os pedidos de povos injustiçados ou vítimas de atos terríveis. Por outro lado, é possível que Bokrug simplesmente atenda as súplicas daqueles que lhe rendem homenagens, sem se importar realmente com suas motivações.

O Deus é famoso pela sua intervenção junto aos Thuum-Ha, os seres anfíbios da devastada Cidadela de Pedra Cinzenta de Ib, aniquilados pelos humanos de Sarnath. Após massacrar os Habitantes de Ib, seguidores fiéis de Bokrug, os guerreiros de Sarnath tomaram como troféu de sua vitória uma estatueta do Deus Réptil que foi levada ao Templo para dessacralização. A afronta de alguma forma parece ter sido registrada por Bokrug que se vingou imediatamente do sumo-sacerdote Taran-Ish. Este foi morto dentro do próprio templo enquanto a estatueta desapareceu sem deixar vestígios. Taran-Ish provavelmente recebeu algum tipo de visão profética na qual testemunhou a derrocada de Sarnath mil anos no futuro, portento que o enlouqueceu e custou sua vida. Antes de morrer, ele deixou no altar uma marca de "Maldição" na qual alertava que o fim de Sarnath havia sido decretado.

Cultos devotados a Bokrug são muitíssimo raros e ao que tudo indica ficaram na maioria das vezes confinados na Terra dos Sonhos. Após a Aniquilação de Sarnath, povos humanos de Mnar reconheceram o poder de Bokrug. Exploradores recolheram a estatueta que representava a divindade e a levaram até a Cidade de Ilarnek onde ele se tornou o Deus principal. O Templo em Ilarnek, originalmente dedicado a outros deuses, é o maior santuário do Deus Reptiliano. Visitado em datas festivas, ele recebe peregrinos vindos de todos os Reinos oníricos e visitantes do mundo desperto. Outro centro de culto parece ser a cidade pré-humana de Lh-Yib.


No Mundo Desperto, Bokrug jamais possuiu um culto organizado e dedicado aos seus interesses. Contudo, sabe-se de pequenas seitas quase sempre envolvidas com a exploração onírica que tomaram conhecimento de sua existência e elaboraram um tipo de doutrina religiosa. Esta quase sempre envolve o caráter vingativo de Bokrug, invocado como forma de trazer a aniquilação de inimigos e infiéis. 

Na antiga Suméria, surgiu a mais antiga seita dedicada a Bokrug, tendo como sede a Cidade de Nipur. A pequena facção, formada por feiticeiros, teria descoberto o Deus após visitar a Terra dos Sonhos e travar contato com os Seres de Ib, Sarnath e demais cidades de Mnar. Eles levaram esse conhecimento para a antiga Suméria e o copiaram em tábuas de argila. Posteriormente a seita foi desmantelada pelos acádios. Parte de seu conhecimento sobreviveu até os dias de hoje, tendo sido encontrado por arqueólogos que escavaram Nipur entre 1889-1900. Duas placas atualmente se encontram no Oriental Institute em Chicago. Outra placa contendo o feitiço "Portal de Oneiros" estava em poder do do Museu de Mosul, mas este foi saqueado em 2003 durante a Guerra do Iraque e o artefato desapareceu.

Outro Culto dedicado a Bokrug teria se formado entre os gregos no Período Arcaico, com sede em Helicarnassus e mais tarde na Ilha de Rhodes. Essa seita possivelmente também se valia de métodos para explorar as sendas oníricas e através dessas, tomaram conhecimento do Deus. O culto se manteve ativo até meados do século oitavo a.C quando perdeu adeptos em face do surgimento de outro culto onírico dedicado a Hypnos. Há boatos de que o lendário Colosso de Rodes destruído por um terremoto em 224 a.C, teria sido aniquilado por uma maldição lançada pelos membros remanescentes da Seita de Bokrug, teoria jamais comprovada.

O último culto mais ou menos organizado devotado a Bokrug de que se tem notícia, surgiu na Península da Manchúria durante a Expansão Guguryeo em meados do século VI d.C. Esse Império que teve como base a atual Coréia do Sul, conquistou boa parte da Manchúria chegando até a Mongólia. A Seita dedicada a Bokrug surgiu entre nobres e aristocratas e foi razoavelmente popular por algum tempo dando origem a mitos duradouros sobre o poder de lendários dragões marinhos. O Culto acabou desaparecendo após o período de guerra contra a Dinastia Sui da China.


O interesse do próprio Bokrug por cultos surgidos em seu nome parece ser nulo. Considerado como um dos Grandes Antigos, ele raramente responde a invocações, ainda que possa ser persuadido a se manifestar através de sacrifícios de sangue ou por ofertas de artefatos especialmente poderosos. Sua vinda é motivada por súplicas para que ele destrua ou aniquile algum oponente o que, por vezes, ele acaba cumprindo. Entretanto, Bokrug parece ter seu próprio tempo e suas próprias motivações, um pedido de vingança pode demorar anos, séculos até milênios para ser respondido, como ocorreu em Sarnath.

A descrição de Bokrug é outro ponto de controvérsia. 

Em algumas versões ele seria um ser reptiliano que se assemelha bastante a um iguana de coloração verde clara, ainda que muito maior, atingindo algo em torno de 5 metros de comprimento. Com escamas de textura metálica, olhos com um brilho amarelado e espinhas afiadas como lâminas, Bokrug surge na água, nadando com desenvoltura. Essa descrição, no entanto, é bem distante da fornecida por outras fontes, como os Cilindros de Kadatheron que conceituam Bokrug de forma bem distinta. Isso leva a crer que em algum momento, cultistas fizeram alguma confusão entre o verdadeiro Grande Antigo e uma raça de seres iguanídeos que veneram Bokrug tendo-o como sua Divindade. É possível ainda que alguns cultos tenham contatado membros dessa espécie acreditando serem eles o Destruidor de Sarnath.

A descrição de Bokrug fornecida pelos Cilindros de Kadatheron é bem mais imponente.


Nessa versão ele é uma criatura reptiliana, ainda que possuidora de características únicas, estranhas a essa classe de animais, o que denota o fato de sua origem não ser terrestre. Bokrug tem um corpo titânico e musculoso, uma criatura realmente gigantesca com mais de 25 metros de comprimento, da cabeça até a cauda. Sua grande cabeça parece ser fundida ao tronco, por sua vez equilibrado por quatro patas poderosas que sustentam sua massa corporal. Escamas verde-azuladas recobrem o corpo concedendo a ele uma blindagem eficiente contra a maioria dos ferimentos. Essas escamas são tão pesadas que tornam Bokrug lento em terra, fazendo com que ele prefira nadar ao invés de andar. Sua cauda afilada usada principalmente para auxiliar na natação, é igualmente musculosa com uma divisão em forma de tridente na extremidade. Uma crista espinhal corre pela sua coluna na forma de uma linha do dorso até a cauda. Essas protuberâncias ósseas são afiadas e responsáveis tanto por proteger o monstro quanto por provocar ferimentos em seus atacantes.

Poucas armas são capazes de atravessar a couraça escamosa e ferir o Grande Antigo. Lâminas e armas de ponta aguçada simplesmente resvalam na superfície coriácea sem provocar danos. Mesmo projéteis, exceto aqueles com enorme poder de penetração, falham em varar essa proteção natural. Explosivos de alto impacto parecem ser o que surte maior efeito, bem como eletricidade e fogo.

A enorme força e potência fazem de Bokrug um oponente formidável. Sua boca é larga e repleta de fileiras de presas afiadas que agarram e destrincham suas presas, movendo-se como uma serra. Sua mordida tende a ser mortal, embora muitas vezes a bocarra cavernosa da criatura seja capaz de engolir uma ou mais presas, empurrando-as direto para a goela num único movimento. Além da mordida, Bokrug investe com suas patas frontais ciente de sua massa de várias toneladas, tentando esmagar o que estiver em seu caminho.

Na área que corresponderia a parte inferior do pescoço, o monstro possui uma profusão de tentáculos que servem majoritariamente para agarrar e conduzir presas para dentro de sua bocarra. Esses apêndices cartilaginosos estão sempre se movendo, esticando e rescindindo como se fossem estruturas independentes. Mesmo quando perfeitamente imóvel, em repouso, os tentáculos se mantém ativos como se fossem dotados de um sensor que capta movimentos próximos. Bokrug é estritamente carnívoro, embora sua dieta raramente demande que ele busque presas para satisfazer seu apetite. Contudo, ele recebe de bom grado quaisquer sacrifícios oferecidos.


A maior parte do tempo, Bokrug passa imóvel, como uma imensa estátua de pedra ocupando uma caverna ou fissura no fundo do grande lago de Mnar na Terra dos Sonhos. Ele pode ser invocado a se manifestar temporariamente em outros lugares, mesmo na Terra Desperta, geralmente próximo de lagos e rios. A invocação depende de um ritual no qual uma estatueta talhada em pedra verde deve estar presente além de uma grande quantidade de sacrifícios. Nessas raras ocasiões, propiciadas apenas por  conjunções de estrelas e alinhamentos planetários favoráveis, ele surge para receber ofertas atiradas na água e ouvir o clamor de seus cultistas. Em geral, ele sequer aparece por inteiro, preferindo manter-se sob a água e lançar seus tentáculos para colher as oferendas. O fato de ignorar os apelos de cultistas faz com que o Deus seja pouco venerado, contudo, nas vezes em que se sente especialmente benevolente, ele atende os pedidos que lhe são feitos. 

Uma divindade vingativa, Bokrug é convocado para promover grande destruição. 

Os fiéis que invocam a entidade são agraciados por visões apocalípticas nas quais enxergam a devastação que está por vir e se regozijam com a certeza de terem sido atendidos. Curiosamente, a Vingança de Bokrug pode levar séculos para se cumprir, mas uma vez prometida se torna uma certeza indelével. Há boatos de que nos dias finais do Regime Baat no Iraque, um ritual teria sido realizado em honra de Bokrug para esmagar os inimigos do estado. Segundo rumores, visões proféticas atestam que a súplica por vingança foi ouvida e que é questão de tempo até uma catástrofe atingir os Estados Unidos com força.

Quando conjurada, a destruição promovida por Bokrug assume diferentes formas, podendo se manifestar através de terremotos, maremotos, erupções vulcânicas, tempestades devastadoras e como no caso de Sarnath, enchente. Em comum, o fato de que todos os cataclismos se provam devastadores com um número elevado de vítimas fatais. Seguidores creditam a ele a ocorrência de enormes catástrofes registradas na história humana, reputando ao Deus Vingativo a erupção do Vesúvio que cobriu Pompeia (no ano 79), o devastador terremoto de Lisboa (em 1755) e mais recentemente o Terremoto do Haiti (em 2010). 


Uma controvérsia surgida nos últimos séculos, levanta a hipótese inquietante de que Bokrug não seria realmente um Grande Antigo, mas o avatar de uma entidade muito mais perigosa. Se essa suspeita é verdadeira não se sabe qual a identidade real do Deus da Vingança.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Seres de Ib - Os Habitantes da Cidadela de Pedra Cinzenta


Muito antes dos humanos conquistarem a Terra de Mnar, uma Cidadela de Pedra Cinzenta existia à beira de um lago sem nome.

Dizem as lendas que a cidadela não foi construída, simplesmente surgiu em uma noite de lua cheia, aparecendo onde antes não havia nada. Os poucos que a conheciam, chamavam o lugar de Ib, mesmo sem saber quem havia dado esse nome ou o seu significado.

As casas de pedra em Ib tinham uma arquitetura incomum, com ângulos retos, em formato de caixote e encimadas por estranhas cúpulas oblongadas. Lado a lado, as casinhas quadradas se espalhavam ao longo da margem do lago plácido. Eram construções rústicas de ardósia cinzenta que lhes concedia um aspecto grosseiro. Sua distribuição era incerta, sem respeitar ruas ou espaçamento entre as construções. Essas casas não tinham janelas ou adornos, parecendo todas iguais, as portas, meros losangos na fachada frontal conduziam às moradias de um único cômodo. Lá dentro; escuridão completa. Os moradores não viam necessidade de lareiras ou fogareiros. O interior ermo era dominado por estruturas de pedra bruta, coral branquicento e uma alga esverdeada, comum em todo entorno do lago. A mesma alga se espalhava pelas vielas tortas, depositadas nos cantos e ali deixadas para apodrecer ao sol.

As únicas construções que se destacavam, além das casas, eram monólitos de pedra escura, raiada com veios esverdeados que se espalhavam pelo que poderia ser considerado os limites da cidadela. Esses monólitos variavam em altura, alguns com metro e meio, outros com mais de três metros. Aos pés deles, ajuntava-se montes de alga seca, usada para acender fogueiras em noites específicas quando as pedras assumiam importância nos rituais religiosos. Muito se perguntou a respeito da origem desses monólitos, mas ninguém foi capaz de determinar que tipo de pedra era aquela que lhes dava forma. Não era natural de nenhum lugar de Mnar, disso todos tinham certeza.


Próximo da orla do lago, descansando em um tipo de pedestal maciço despontava o único monumento trabalhado de Ib. Era uma estatueta verde-mar, cinzelada no formato de uma criatura reptiliana, um monstro de aparência desagradável e maligna enrodilhado como uma serpente prestes a dar o bote. Diziam que aquele era Bokrug, o Senhor do Lago, espécie de Dragão aquático que habitava as profundezas onde dormia. Era a divindade principal da Cidadela, talvez a única. 

Os estranhos Habitantes de Ib jamais foram encontrados em outros lugares de Mnar e ninguém conhecia suas origens. Raramente se afastavam do entorno do lago e dos limites de sua cidadela cinzenta, fazendo-o apenas para coletar algas nas margens mais afastadas ou para pescar peixes, camarões e caranguejos que habitavam os bancos de areia e eram facilmente capturados e depositados em cestas de alga trançada. 

Esses Seres de Ib, que assim passaram a ser genericamente conhecidos, eram incrivelmente estranhos aos olhos dos humanos. Não era apenas a aparência deles que causava incômodo, mas algo em seus modos evidenciava um elemento não-natural, como se eles fossem absurdamente inadequados. De fato, os primeiros homens que os viram se sentiram imediatamente incomodados por eles. Achavam-nos asquerosos e sempre que os encontravam buscavam se afastar e mantê-los o mais longe possível. Os primeiros exploradores que os encontraram os descreviam em termos gerais como "detestáveis" e essa parecia ser a impressão geral de todos.

É difícil explicar os fatores que causavam a total incompatibilidade entre humanos e os Seres de Ib. Alguns conjecturam se não haveria um elemento oculto, um tipo de memória genética adormecida que deflagrava uma aversão natural. Contudo, é possível que o sentimento fosse puramente derivado de preconceitos e antipatias formados ao longo de uma convivência forçada. 


Fisicamente eram humanoides com estatura média entre 1,40 e 1,70, pesando não mais do que 60 quilos. A pele fina e elástica, tinha um tom verde oliva, podendo assumir uma coloração verde escura ou acinzentada quando eram afastados de fontes de água. Eram totalmente lisos, úmidos e gelados ao toque. Eles não possuíam cabelos ou pelos corporais, mas seus corpos tinham verrugas na barriga, genitais e pescoço. Tudo indica que os Seres de Ib fossem anfíbios, adaptados a vida dentro e fora d'água, começando suas existências na água e fazendo a transição para a terra sem jamais, entretanto, se afastar de áreas alagadas. Não há menção a respeito de filhotes e não se sabe como se dava a reprodução da espécie. Tampouco se sabe se eles possuíam alguma divisão sexual.

As características mais marcantes dos Seres de Ib dizem respeito a sua feiura pungente o que era amplamente citado pelo povo de Sarnath. O rosto era marcado por pústulas, emoldurado por grandes olhos esbugalhados, bocas largas com lábios moles e caídos, curiosas orelhas e fossas nasais gotejantes. Os braços e pernas eram compridos e finos, pouco musculosos e não muito articulados. As mãos e pés terminavam em quatro dedos de mesmo tamanho e com pequenas garras. Camadas de pele fina ocupavam o espaço entre os dedos. Ao andar, o faziam com um gingado, deixando pegadas úmidas por onde passavam. Suas secreções exalavam um odor pungente e desagradável reminiscente de amônia. 

Nunca se soube de Seres de Ib eram capazes de se comunicar verbalmente, mas sabe-se que eles  produziam um ruído roufenho semelhante a um coaxar. Esse ruído podia ser ouvido mais frequentemente quando as criaturas estavam sob algum tipo de excitação, muito embora ele não parecesse ser um idioma. O coaxar podia ser ouvido sobretudo nas noites de lua cheia durante os rituais realizados em Ib.

As cerimônias invariavelmente envolviam um tipo de reunião aos pés dos monólitos de pedra espalhados pela cidadela. As criaturas acendiam piras na base dos monólitos e dançavam grotescamente ao redor deles executando saltos e rodopios. Por vezes as evoluções eram acompanhadas do coaxar característico, de chocalhos e flautins que ditavam um ritmo mais ou menos cadenciado. Os rituais sempre terminavam perto da estátua de Bokrug que ocupava um lugar de destaque na cidadela. As criaturas batráquias se atiravam diante da estátua e segundo testemunhas realizavam sacrifícios de tempos em tempos. Esse boato levantou suspeitas de que os Seres de Ib conheciam e dominavam um tipo de feitiçaria. 


Foram esses rumores que deram aos humanos o pretexto para atacar Ib e massacrar seus habitantes. Quando Sarnath ainda era jovem e a população não chegava a 5 mil, espalhou-se um boato que os Seres de Ib eram os responsáveis pelo sumiço de crianças na calada da noite. Não se sabe o número exato de vítimas e se os de Ib realmente estavam envolvidos, mas isso serviu para mobilizar os guerreiros de Sarnath num violento ataque. Até onde se sabe, não houve reação além de tentativas de fuga. O massacre, uma vez iniciado, prosseguiu por um dia e meio. Quando concluído todos os Seres de Ib haviam sido exterminados. Os corpos foram lançados no lago que assumiu uma cor verde escura, possivelmente decorrente da cor do sangue dessas criaturas.

Sabe-se que a vingança dos Seres de Ib eventualmente atingiu Sarnath e que ela envolveu diretamente o Deus Bokrug. Tal vingança, identificada pelo sacerdote Taran-Ish como uma Maldição demorou um milênio para atingir Sarnath, mas quando se abateu sobre a cidade em seu ápice, atingiu proporções catastróficas por meio de enchentes devastando a cidade por completo.

Também foi mencionado que criaturas semelhantes aos Seres de Ib surgiram em meio ao nevoeiro que se ergueu do lago e pousou sobre diferentes distritos de Sarnath. Estes seres foram responsáveis por massacrar boa parte da população, sobretudo aqueles que estavam no Palácio Real por ocasião das festividades da vitória sobre Ib. Como os seres de Ib conseguiram promover essa chacina é um mistério, visto que até então eles haviam se mostrado combatentes de pouca habilidade.

Poucos textos devotados ao Mythos de Cthulhu mencionam os Seres de Ib, contudo os Papiros de Ilarneck que podem ser consultados por exploradores da Terra dos Sonhos, citam alguns detalhes a respeito deles. A raça atenderia pelo nome de Thuum-ha e eles seriam nativos de uma outra realidade - ou estado superior, acessado em raríssimas ocasiões. Nestas, transferência seria possível, resultando em intrusão de indivíduos nessa ou naquela realidade. 


É perfeitamente possível que em algum momento intrusões semelhantes tenham ocorrido na Terra. Os relatos envolvendo o surgimento de cidadelas habitadas por seres não-humanos presentes na antiguidade, podem se referir a tais eventos. Os mitos das tribos Navajo se referem a um povo estranho que surgiu da noite para o dia no Monument Valley, no passado remoto. Eles foram enfrentados pelos guerreiros que os expulsaram de volta para um lago que desapareceu em meio a um denso nevoeiro. Existem lendas semelhantes na Civilização Harapeana que viveu no Vale do Indus no século XIX aC. Finalmente na Cultura Chavin do Peru pré-Inca, se encontra menção da vinda de um povo meio-sapo que habitava uma cidadela de pedra surgida às margens do Lago Titicaca. Ironicamente em todas essas lendas, a violência acabou explodindo entre nativos e os estranhos seres batráquios. 

Há teorias que relacionam os Seres de Ib com os Abissais, mas ao que tudo indica as espécies não possuem qualquer vínculo. Os Cilindros de Kadatherom, outro documento redigido na Terra dos Sonhos e que supostamente foi traduzido por Sacerdotes Purana da India meridional, menciona que os Thumm-Ha estavam familiarizados com divindades obscuras e possuíam suas próprias tradições místicas. Seitas chegaram a venerar o Deus Sapo Tsathogua e o obscuro Senhor dos Reinos Caóticos Yibb-Tstll, estes dissidentes, no entanto, constituíam uma minoria, sendo a maior parte dos Seres de Ib fiéis à Bokrug.

Alguns teóricos do Mythos acreditam que os antigos Sumérios estabeleceram contato com os Seres de Ib e utilizaram portais que lhes permitiu voltar no tempo e visitar a cidade. Tábuas de argila recobertas de caracteres cuneiformes, encontradas em escavações nas Ruínas de Nipur, mencionam essa jornada empreendida por magos que visitaram não apenas Ib e Sarnath, mas outras cidades da Terra de Mnar.

Não se sabe de nenhuma interação atual entre humanos e Seres de Ib, o que não significa que tal coisa não possa vir a acontecer.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Sarnath - Quando a Maldição caiu sobre a mais magnífica das cidades


Um dia Sarnath foi a mais bela das cidades da lendária Terra de Mnar, isso até a Maldição.

Quando a Maldição caiu sobre capital, ela deixou de existir, restando em seu lugar apenas uma ruína devastada. De um dia para o outro milhões de seus orgulhosos habitantes desapareceram, bem como suas imponentes construções, palácios, monumentos e residências. Mais terrível, sua glória, até então considerada eterna, se desfez. 

Tudo por conta da Maldição.

Mas para compreender o triste destino de Sarnath é importante entender tudo que levou até ele.

Sarnath despontava nas Terras de Mnar, um recanto pacato, afastado das províncias fronteiriças, tanto das reais como as do reino de sonho. Para alguns, apenas em sonhos a Terra de Mnar podia ser visitada e explorada. Outros contudo situavam Mnar no passado remoto do que hoje conhecemos como Arábia. Seja como for, Mnar era uma terra muito antiga, um dos reinos primigênios da humanidade que o próprio tempo deixou intocado por eras. 

Cortada pelo sinuoso Rio Ai, as terras pastoris de Mnar foram o berço de vários povos, de incontáveis etnias. Em seu coração nasceram cidades como Thraa, Ilarnek e Kadatheron, nomes hoje, ouvidos apenas por sonhadores, que deles esquecem ao despertar.

Nas páginas de papiro amarelado existentes na Biblioteca de Ilarnek encontramos menções aos povos de pele morena que ergueram as primeiras cidades de Mnar. Eles guiavam seus rebanhos de ovelhas felpudas seguindo o curso do Ai e se espalhavam ao longo dele, pontilhando humildes assentamentos aqui e ali. Um destes povos, mais ousado que os demais decidiu avançar através das planícies, marchando na direção de um mítico lago que existiria além das terras que ofereciam pasto. Os colonos haviam ouvido lendas sobre um rincão rico em metais preciosos.


Esses ousados exploradores chegaram à margem do tal lago, um corpo de água de cor verde esmeralda com um perene nevoeiro igualmente esverdeado flutuando sobre o espelho d'água. Haviam ouvido falar desse lago através de pioneiros que o viram com seus próprios olhos. Eles trouxeram narrativas curiosas, nem todas compreensíveis. Uma delas mencionava uma estranha cidadela de pedra-cinzenta, que se esparramava por uma das margens, Tinha ela uma estranha arquitetura que nenhum homem ousaria erguer. Nenhum homem por certo, pois aqueles que erigiram a cidadela chamada Ib não eram homens e sim seres de aparência bizarra.

É importante salientar que naqueles tempos imemoriais, não apenas humanos viviam sobre a superfície da Terra de Mnar, mas seres estranhos que claramente guardavam poucas semelhanças com homens. De pele verde, traços batráquios e aparência repugnante, os Seres de Ib, habitavam há incontáveis séculos a Cidadela de Pedras Cinzentas. Haviam descido nos raios da lua ou num nevoeiro que transportou não apenas a eles, mas a cidade e o próprio lago. Como? Quando? Por que? Quem sabe.

Viviam naquela localidade desde que os primeiros homens podiam lembrar e eram os senhores daquelas margens lamacentas. Sua cidade de pedra cinzenta havia testemunhado inúmeros festivais devotados aos deuses estranhos e bestiais que veneravam. Dentre todos, Bokrug, o Réptil do Lago, era a divindade mais importante e em sua honra fogueiras eram acesas e rituais conduzidos.

Os homens recém chegados tentaram se aproximar dos Seres de Ib, mas a aparência repulsiva deles, somada com seus rituais blasfemos os afastava. Não queriam nada com aquelas criaturas de olhos esbugalhados, membros flácidos e modos incompreensíveis. Nos primeiros anos, homens e os Seres de Ib mantiveram distância uns dos outros, reticentes a respeito do que uma aproximação poderia render. Os humanos viam os seres como insondáveis. O que os seres pensavam dos humanos, ninguém podia saber ao certo.


O fato é que nos arredores do lago, os colonos prosperaram encontrando minas repletas de metais valiosos. A riqueza do solo era tamanha que um homem podia se descobrir rico em pouco tempo, meramente escavando o chão. A notícia se espalhou e mais e mais pessoas vieram tentar sua sorte, esvaziando algumas das cidades já consolidadas ao longo do Ai e lançando caravanas na direção do assentamento que nasceu com bases na ambição - SARNATH.

Com o tempo, mais e mais homens se fixavam na até então incipiente Sarnath. Erguiam cabanas de madeira e junco, drenavam as terras lamacentas, bebiam a água turva e ali passavam a viver. Sarnath cresceu na margem oposta de Ib, que assistia a vizinha se espalhando pela orla do lago, mais e mais perto. Os habitantes de Sarnath observavam seus estranhos vizinhos na cidade cinzenta. Observavam e não gostavam do que viam. Pode-se dizer que eles os detestavam com toda força: seus rituais, as fogueiras que acendiam, os sons noturnos que produziam e seus deuses inumanos. 

O ódio lançado na terra, encontrou solo fértil para crescer em Sarnath. Rumores de que os Seres de Ib praticavam um tipo de feitiçaria alimentada com sacrifício de crianças sequestradas na calada da noite se espalharam entre o povo local. A desconfiança diante do incompreensível se tornou raiva e esta explodiu numa noite de barbárie. 

Armados com lanças, machados, paus e pedras, os de Sarnath contornaram o lago e chegaram à cidadela de pedra cinzenta. Seu propósito era claro, mas os Seres de Ib não compreendiam a natureza humana e apenas quando os primeiros foram trespassados por ferro é que se deram conta que seus dias estavam contados. 


O holocausto foi eficiente, pois em poucas artes o homem demonstra tanta maestria quanto na da matança. Uma noite e um dia bastaram para que até o último dos Seres de Ib fosse passado pela lâmina das armas do povo de Sarnath. Seus corpos se espalhavam nas ruas com calçamento de pedra, se ajuntavam nas praças e se empilhavam nos poços. Sangue verde escuro corria em profusão, exalando um fedor almiscarado que nauseava os homens. Eles sequer cogitaram atear fogo nos cadáveres, acreditando que se o fizessem o ar ficaria empesteado para sempre. Ao invés disso empurraram os corpos usando lanças compridas, lançando-os para dentro do lago sem tocá-los. Aos poucos, eles afundaram nas águas caudalosas, desaparecendo com as provas da violência. Não satisfeitos se voltaram então para os prédios e monumentos da cidadela cinzenta, aqueles que lhes causavam um terror inexplicável. Os monólitos, estátuas e demais pedras de cunho religioso foram arrastadas para o lago da mesma maneira e afundadas até desaparecerem por completo.

Em sua ânsia por purificar o lago da presença de qualquer presença não humana, Sarnath devastou a incrivelmente antiga Ib. O único resquício sobrevivente foi um enorme ídolo de pedra verde-marinha que os guerreiros vitoriosos reivindicaram como espólio de guerra. A escultura retratava nada menos que Bokrug, o réptil considerado Deus máximo de Ib.

Durante as celebrações pela vitória, os guerreiros inebriados pela conquista e matança deixaram o ídolo no grande templo de Sarnath. O sumo-sacerdote Taran-Ish, o colocou aos pés do púlpito onde pretendia realizar um ritual para dessacralizá-lo na manhã seguinte. Enquanto as festividades orgiásticas se espalhavam por Sarnath, algo ocorreu no templo que guardava o ídolo. Ninguém jamais soube ao certo o que se passou, mas na manhã seguinte, quando as portas foram abertas, lá encontraram o corpo sem vida de Taran-Ish, sua face transfigurada em um hirto de horror indescritível. Em traços incongruentes sobre o altar sagrado do templo, ele havia desenhado com seu próprio sangue o sinal de Maldição. Mais estranho ainda, o ídolo de Bokrug, havia desaparecido como que por encanto.

Os sacerdotes se perguntaram a respeito do que poderia ter acontecido e o significado do símbolo deixado no altar. Ninguém acreditava que os seres de Ib pudessem ter se vingado, não quando eles se mostraram oponentes tão passivos. Mesmo com os estranhos relatos de luzes pulsantes e ondulações sob a superfície do lago, ninguém realmente temia por uma retaliação.

Se havia alguma suspeita essa foi sumindo com o passar do tempo. Enquanto isso, Sarnath continuava progredindo à olhos vistos com ouro fluindo para dentro da cidade através do estabelecimento de rotas de caravanas vindas de todos os cantos de Mnar. Ouro e prata enriqueceu uma nova dinastia real e toda uma casta de casas nobres. 


Ironicamente Sarnath floresceu após a destruição de Ib, como se aquela brutalidade tivesse sido a mola propulsora para a cidade conquistar seu lugar preponderante. Talvez o sacrifício dos Seres de Ib, tenha agradado aos Deuses, ou ao menos foi o que os sacerdotes disseram. Seja como for, a passagem dos anos, décadas e séculos abriu Sarnath para o mundo e em questão de gerações ela se converteu na Grande Capital de Mnar.

Reis se sucederam, sentando em magníficos tronos de bronze com leões esculpidos, ladeados por feras magníficas. As ruas se alargaram, dando vazão a alamedas arborizadas e calçamento de ônix. Pelos portões da cidade adentravam caravanas vindas de terras distantes com camelos e elefantes carregados de mercadorias. As moradias suntuosas de Sarnath eram cercadas de muros altos tendo seus próprios jardins, monumentos e tesouros de dar inveja aos visitantes. Um porto movimentado lançava embarcações brancas de uma margem para outra do lago que foi engolido pela metrópole em franco crescimento. No grande anfiteatro, sangrentos espetáculos de gladiadores eram disputados com homens e bestas se enfrentando para delírio do público.

Era contudo, nos palácios e jardins suspensos que residiam as maiores belezas de Sarnath. Eles apequenavam os palácios reais de Kadatheron ou Ilarnek, com o esplendor de sua arte, engenharia, arquitetura e decoração. Os nobres se devotavam a embelezar a cidade, mandando trazer mármore branco imaculado e de várias cores para cobrir os prédios. Havia fontes de água perfumada nos parques onde cresciam arbustos moldados e campinas esmeralda. Todas as belezas pareciam convergir para Sarnath e os poetas do mundo rendiam a ela sonetos apaixonados.

Enormes torres de vidro se espalhavam pela cidade e podiam ser vistas há quilômetros de distância. Resplandeciam com o brilho das joias adornando suas cúpulas. Os 17 Templos da Capital disputavam entre si qual era o mais luxuosos. A maioria possuía estátuas moldadas em ouro, cravejadas com joias exóticas e diamantes cintilantes. Alguns diziam que os velhos deuses barbados se sentiam à vontade em Sarnath enquanto os sacerdotes vestiam seda e fios de platina em seus trajes cerimoniais. Eles passavam seus dias observando as estrelas, a lua misteriosa e o sol magnânimo interpretando a vontade de seus mestres divinos.

Aos olhos de todos, Sarnath seria eterna e ninguém duvidava disso.


Contudo, o imprevisível por vezes se apresenta para contradizer o que temos por certeza. O fim de Sarnath começou com a aproximação do aniversário do Milênio da Conquista de Ib, data comemorada anualmente com grande pompa e circunstância. Naquela ocasião, dada a importância da data, os festivais seriam muito maiores e extravagantes.

Uma verdadeira multidão convergiu para Sarnath interessada em participar ou ao menos assistir às festividades que muitos asseguravam seriam as maiores de todos os tempos. Haveria dança, música, ceias e orgias fantásticas. Do mais humilde cidadão até o mais nababesco senhor, todos tomariam parte nos festejos. Suntuosa além do imaginável, as festividades durariam dias e despesas não seriam contadas. 

Das cidades vizinhas vieram comitivas de dignitários: nobres e príncipes da mais fina estirpe, com seus herdeiros, esposas e concubinas. Seus imensos pavilhões foram montados diante dos portões de Sarnath e suas cores voavam altivas em mastros. O Rei se esmeravam em oferecer banquetes para os ilustres convidados em seu Palácio e estes se admiravam com pratos exóticos e luxuosos. Mesmo nos templos, os sacerdotes dos vários deuses de Sarnath comemoravam a ocasião, decretando feriados e perdoando os excessos que por acaso fossem cometidos nas celebrações.

O clima de alegria desvairada, no entanto, estava prestes a se tornar o mais detestável Horror.

Quando a noite chegou, luzes misteriosas foram vistas nas profundezas do Grande Lago. Sombras bizarras passavam diante da lua cheia e um denso nevoeiro miasmático começou a subir das águas plácidas. Isso não seria suficiente para causar disparate nas testemunhas, mas outra coisa parecia estar ocorrendo e um sentimento de grave ameaça começou a dominar as pessoas que viam aquilo e não compreendiam. Os mais receosos se aprumaram para partir o quanto antes, temiam os sinais como se eles fossem o prelúdio de uma tempestade vindoura. Estes conseguiram deixar Sarnath antes que o horror tivesse início. Enquanto fugiam da cidade, ouviam ao longe os gritos e lamentos, os ruídos de violência e que enchiam a noite. Ouviam, mas não ousavam olhar para trás, pois todas suas energias estavam concentradas no ato de escapar.


Por volta da meia noite, o lago transbordou e as pedras que marcavam os limites das margens foram submersas. As águas lavaram as ruas e alamedas carregando o que estivesse em seu caminho numa torrente interminável. Prédios inteiros ruíram com a força da água, como se fossem feitos de barro. Pessoas foram arrastadas junto com seus animais, seus escravos e seus entes queridos. Afogados nas águas e puxados para baixo por um vórtice inclemente. Tudo o que a névoa verde tocava ficava repentinamente obscurecido e de dentro dela vinham os gritos mais desesperados.

No Palácio de Sarnath, onde ocorria o banquete real, a cacofonia de berros selvagens foi ainda mais grotesca. Silhuetas de seres estranhos semelhantes aos lendários habitantes de Ib podiam ser parcialmente vistas em meio à névoa. Onde ela pousava seguia-se aquele espetáculo de mortandade. E quando o nevoeiro seguia para outro canto da cidade, o que se via na área recém desvelada eram corpos dilacerados. Cadáveres feridos por garras afiadas, usadas como instrumento de uma vingança por muito tempo ansiada. 

Enfim a Maldição desceu sobre Sarnath.

As caravanas que partiram antes da tragédia retornaram para suas cidades natais levando consigo o confuso relato do que havia transcorrido. Contaram como a Maldição havia atingido Sarnath e como seus milhões de habitantes haviam sofrido.

De Sarnath que um dia foi a mais brilhante joia da Terra de Mnar, verdadeira maravilha da civilização, nada restou. Onde antes havia uma metrópole vibrante e cosmopolita, agora se estendia um vasto lago de água estagnada e margens pantanosas que reclamou tudo. As muralhas e torres desabaram, bem como os palácios e templos, nem mesmo as minas permaneceram incólumes. Tudo foi sepultado e desapareceu sob ás águas turvas de onde ainda se erguia aquela doentia névoa esmeralda.

Anos mais tarde, exploradores enfim tomaram coragem de visitar o local. Não acharam sinal de Sarnath. Era como se ela jamais tivesse um dia existido, exceto em sonhos. Porém, os visitantes encontraram entre os juncos um ídolo peculiar esculpido em pedra verde-mar com a imagem de um horrível réptil aquático. Era Bokrug, aquele a quem os Seres de Ib veneravam e que havia enfim ouvido seus apelos. 

*     *     *


Por volta de 1919, H.P. Lovecraft esteve presente em uma palestra do celebrado autor Lord Dunsany. Entusiasmado pelo seu trabalho, ele leu toda a obra. O resultado desse interesse súbito foi uma série de histórias a respeito de reinos fantasiosos em um estilo muito similar ao do próprio Dunsany. Estes esforços ajudaram a criar a mitologia onírica de Lovecraft conhecida como Dreamlands (Terra dos Sonhos). 

"A Maldição de Sarnath" (The Doom that came to Sarnath) foi escrito em dezembro de 1919 e publicada pela primeira vez na revista The Scot no 44 em junho de 1920. Mais tarde ele foi publicado novamente na Weird Tales (junho de 1938).

As histórias de fantasia de Lovecraft tiveram continuação em outros contos como The Quest of Iranon, Polaris e é claro, A Busca Onírica por Kadath seu épico mais fantasioso. Lovecraft construiu uma rica tapeçaria de deuses, terras e povos que ajudaram a consolidar seu ciclo de sonhos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Caverna Proibida - Os misteriosos painéis rupestres de Lascaux


Nós ainda estamos muito longe de documentar e compreender todos os grandes mistérios da nossa Pré-História. Contudo, há lugares que nos permitem ter um breve vislumbre do passado remoto. Ao redor do mundo, certos lugares escondidos de nosso olhar, encontram-se preservados como verdadeiras cápsulas de tempo que resistiram a passagem das eras e encontram-se exatamente iguais a como eram na aurora de nossa existência.

Um destes lugares aguardou sepultado em meio a escuridão e esquecimento por dezenas de milhares de anos. Enquanto a marcha das eras seguia seu curso natural, ele permanecia estacionado no período em que nossos antepassados o usaram como uma tela para expressar sua criatividade. Localizado no interior da França, trata-se de um magnífico complexo subterrâneo de cavernas e túneis que se estende por quilômetros abaixo da superfície. Mas o que realmente chama a atenção nele são as enigmáticas pinturas deixadas por homens pré-históricos.

Sua descoberta foi considerada um divisor de águas na arqueologia. Ela demonstrou toda a engenhosidade dos homens primitivos e abriu as portas para conceitos que revolucionaram nossa forma de ver o passado. Contudo, após a sua descoberta, as cavernas foram novamente seladas, mantidas fora do alcance da maioria das pessoas; seus segredos hoje são conhecidos apenas por alguns poucos pesquisadores e especialistas. 

A fantástica descoberta arqueológica, uma das mais importantes da era moderna aconteceu por mero acidente. Em 12 de setembro de 1940, um rapaz de 18 anos chamado Marcel Ravidat estava explorando as montanhas próximo do vilarejo de Montignac na região de Dordogne, na companhia de seu fiel cão. Era um dia perfeitamente normal até que o animal encontrou um buraco na encosta da colina conhecida como Lascaux (lê-se Lascô). Ravidat achou que aquilo era um perigo e que uma pessoa andando por ali poderia cair na fissura e desaparecer. Ele chamou alguns amigos com a intensão de fechar o buraco antes que acontecesse um acidente. Os amigos o acompanharam até o local e verificaram a fissura, descobrindo que ela era muito mais profunda do que imaginaram. Amarraram uma lanterna na ponta de uma corda e a desceram pela rachadura descobrindo que ela media aproximadamente 15 metros. A imaginação dos rapazes se concentrou então no que poderia existir oculto naquela escuridão indevassável. Imaginavam incríveis maravilhas e quem sabe até tesouros perdidos. De certa forma, estavam certos!

Marcel Ravidat e seus amigos mostram a sua descoberta

Um grupo de acadêmicos explora as cavernas logo após a descoberta

O grupo formado por quatro rapazes escavou a borda da fissura o bastante para que um deles fosse capaz de escorregar para dentro. Amarraram uma corda em sua cintura, enquanto ele escalava usando uma segunda como guia. Na cabeça levava um capacete de mineiro com uma lanterna presa que permitia enxergar em meio às trevas. Assim, ele se tornou a primeira pessoa em milênios a penetrar na caverna e em um mundo perdido.    

O poço conduzia até uma câmara estreita com um túnel baixo com pouco mais de 70 centímetros de largura. O rapaz teve de se arrastar através desse corredor por quase três metros até encontrar uma câmara maior que na luz de sua lanterna parecia não ter nada de mais. Entretanto, a medida que ele concentrava a luz da lanterna nas paredes lisas, uma miríade de desenhos começou a surgir na luminosidade tênue, pinturas antigas que representavam estranhos animais, homens e curiosos símbolos abstratos, tudo retratado com tinta vermelha, amarela e preta. Excitados com esse incrível painel, verdadeira janela para o passado, os rapazes retornaram no dia seguinte e exploraram mais fundo no complexo, encontrando novos corredores e alcovas, todas adornadas com as mesmas pinturas misteriosas. As Cavernas de Lascaux eram uma verdadeira galeria de arte da antiguidade, suas paredes recobertas com os mais bem preservados e impressionantes murais de arte rupestre encontrados até então.

Sabendo que haviam feito uma descoberta de importância transcendental, os rapazes retornaram para Montignac onde compartilharam a incrível descoberta com um professor. Estes entrou em contato com outros pesquisadores conceituados. A arqueologia na França estava em seu ápice, com achados sendo feitos regularmente desde que o Incidente Glozel acendera o fascínio por tais descobertas. Lascoux era entretanto a maior de todas as descobertas.       


Detalhes do interior das Cavernas de Lascaux

Nas semanas seguintes, experientes espeleólogos exploraram o subterrâneo mapeando suas cavernas e perfazendo os caminhos. Descobriram que ela se dividia em várias áreas cada qual formada por centenas de câmaras, a maioria delas contendo as notáveis pinturas. As representações deixadas nas paredes traziam uma variada fauna, que incluía pássaros, alces, ursos, equinos, auroques e grandes felinos, bem como animais que não existiam na Europa há milênios como leões, girafas, mamutes e rinocerontes. Traziam ainda figuras humanas bastante detalhadas além de símbolos abstratos como círculos, triângulos e losangos e também sóis, luas e estrelas. A natureza pré-histórica surgia em desenhos de plantas, árvores e até paisagens conforme foram apreciadas pelos olhos de homens num passado remoto.  

A maioria dos desenhos de animais retratavam antepassados de animais atuais e outros extintos há tempo. Outros desenhos, mais estranhos e perturbadores retratavam animais desconhecidos e seres monstruosos que provavelmente identificavam deuses e demônios da antiguidade. Homens com chifres de alce, criaturas humanoides com pele de pantera, monstros com aparência de bisões mas dotados de terríveis presas e garras, além de pássaros monstruosos com asas gigantescas. O que eram essas coisas? Teriam elas existido? Ninguém sabe se foram vistas ou se não passam de uma invenção dos artistas primitivos nascidas de suas superstições. 

Os pesquisadores dataram a caverna como pertencente ao Paleolítico Superior. Provavelmente elas serviram com abrigo para um grande número de pessoas, contudo em determinado momento de sua ocupação, ela se tornou algo muito mais importante e marcante. Um tipo de templo ou quem sabe até galeria onde os homens antigos vinham para ver, conhecer e quem sabe até venerar aquelas imagens. Cobrir as paredes com todos aqueles painéis deve ter demandado gerações, com o segredo de retratar o mundo à sua volta, sendo passado através da tradição oral.    


Representações de animais nas paredes da Caverna 

Os desenhos foram executados com pigmentos minerais, mas a medida que foram se tornando mais e mais elaborados é possível perceber o uso de outros ingredientes misturados para criar a tintura. Cada desenho cobre as paredes de rocha nuas e lisa que realmente parece uma tela apenas aguardando por um artista. Mesmo onde ângulos e curvas se formavam naturalmente, as paredes foram pintadas, incorporando às representações o traçado da caverna. Em geral, as pinturas apresentam enorme grau de habilidade e cuidado em sua criação, evidenciando uma habilidade artística nata e técnicas que até então se imaginava desconhecidas pelos homens pré-históricos. 

Entre as diferentes seções das cavernas encontra-se uma câmara batizada como Salão dos Touros, que apresenta paredes cobertas de representações de touros, búfalos, cavalos e cervos, incluindo uma imensa imagem de um touro medindo mais de 5 metros de comprimento. Outra câmara é chamada de "Nave", e contém uma famosa pintura conhecida como "O Bisão Cruzado" que usa um aprimorado truque de perspectiva muitíssimo avançado para a era em que foi concebido. Em outra câmara menor batizada como Abide (Ápice), temos uma parede coberta por centenas de pequenas pinturas que sugerem terem sido feitas ao longo de séculos por diferentes artistas cada qual com uma técnica distinta. Várias outras câmaras se estendem pelo complexo, cada qual com nomes sugestivos como "Fosso do Homem Morto", "A Câmara das Gravações", "A Galeria Pintada", "Câmara dos Felinos" e assim por diante.

Toda a Caverna de Lascaux é de tirar o fôlego um trabalho majestoso que até hoje desafia nossos conceitos e preconceitos sobre nossos humildes antepassados.


Representações antropomórficas mostrando caçadores e presas 

Contudo, a Caverna também possui uma aura de mistério que é debatida desde sua descoberta. Há muito o que não sabemos a respeito dela e que permanece envolto em dúvidas.

Uma das questões mais debatidas envolve a idade das pinturas. Nunca se chegou a uma conclusão definitiva sobre o quão antigas elas são. Pelas espécies de animais retratados e as várias ferramentas encontradas largadas pelas cavernas, acredita-se que o lugar tenha sido ocupado em um período entre 17,300 a 20,000 anos atrás, mas ainda existe muitas dúvidas à respeito. 

Outra questão central diz respeito aos motivos para as pinturas terem sido feitas em primeiro lugar. Embora existam várias outras pinturas rupestres cobrindo as paredes de cavernas em toda região, nada chega sequer perto da escala megalomaníaca que encontramos em Lascaux. Isso sugere que o lugar era de alguma forma importante, tendo um significado especial para as pessoas que a fizeram. Há teorias de que as pinturas teriam sido criadas como uma forma de aprendizado para crianças, como um modo de explicar o mundo exterior antes de permitir que elas deixassem a segurança da família. Outra possibilidade é que as imagens estivessem ligadas a um tipo de misticismo primitivo no qual a representação devidamente "capturada" nas paredes serviria para obter parte da força do que era retratado. Ou seja, ao pintar um mamute, por exemplo, o artista trazia parte da sua força ou resistência para a caverna e aqueles que dormiam aos pés da imagem seriam de alguma forma "abençoados" pelas características daquele ser, ganhariam ao menos em parte sua força e resistência. Nesse sentido, as imagens teriam uma serventia similar aos totens animistas usados por povos que adotavam animais como seus espíritos guias.

Uma possibilidade é que as paredes contavam histórias sobre lendas, mitos e grandes feitos realizados por heróis da tribo. Uma importante caçada podia ser retratada numa determinada câmara e antes de uma nova caçada ser realizada, os envolvidos sentavam aos pés da pintura para contar a história e compartilhar a experiência. Desse modo, acreditavam que seriam abençoados e teriam o mesmo grau de sucesso.

Como as Pinturas de Lascaux foram feitas pelos homens primitivos


Outro detalhe que torna a façanha ainda mais impressionante é que parte dos pigmentos usados nas pinturas se vale de óxido de manganês substância que não está presente na área. Estudos da composição geológica apontam que a única fonte desse material se encontra a 250 quilômetros, significando que os artistas tinham de empreender jornadas consideráveis para obter os ingredientes necessários para fazer suas obras. Além disso, teriam que produzir uma mistura usando proporções perfeitas de gordura animal para produzir a tinta. 

Seja como for, a maioria das perguntar permanecem sem uma resposta visto que cada vez menos pessoas recebem autorização para conhecer as Cavernas de Lascaux que se tornaram nas últimas décadas um lugar proibido para os curiosos.

Nem sempre foi assim! As cavernas um dia foram abertas ao público atraindo um número cada vez maior de visitantes interessados em ter um vislumbre do passado. Em 1948, ano em que as Cavernas abriram pela primeira vez para turistas, uma verdadeira multidão foi até lá. Contudo, as análises dos cientistas concluíram que essa súbita movimentação causou uma alteração na temperatura, no nível de luminosidade e humidade nas cavernas, fatores que ameaçavam seriamente as pinturas.

Por volta de 1960 descobriu-se concentrações de cristais, algas e liquens crescendo na caverna, elementos que foram sem dúvida trazidos de fora. Em 1963, as cavernas foram definitivamente fechadas para o público e apenas estudiosos credenciados passaram a receber autorização para visitá-la. Mesmo assim, em 2000, um tipo de contaminação de bolor branco tomou as pinturas causando danos irreparáveis. A ameaça retornou em 2007 na forma de uma espécie desconhecida de fungo que se espalhou por algumas câmaras.

Uma vez que esses problemas constituem uma ameaça constante à integridade do sítio, o acesso de visitantes foi ainda mais limitado, significando que ainda menos pessoas recebiam o privilégio de ver as pinturas de perto. Mesmo pesquisadores conceituados e experts em seus campos, tiveram pedidos de visitação negados. Tudo isso torna o estudo das pinturas um processo lento e agonizante com apenas uma elite acadêmica especialmente constituída gozando do privilégio de explorar o local. O mais perto que a maioria das pessoas pode chegar das Cavernas é um túnel adjacente que revela apenas uma pequena parcela das maravilhas ocultas.

Isso não impede que de tempos em tempos algumas pessoas tentem invadir ou penetrar na área proibida. Apenas em 2017 houve seis tentativas de invasão, com os envolvidos capturados e multados em milhares de euros.

Com toda essa aura de mistério e proibição a respeito das Cavernas de Lescaux, Teóricos da Conspiração formularam hipóteses a respeito dos "reais motivos" para que o acesso seja tão restrito. Pare estes, as Cavernas embora frágeis à contaminação, foram lacradas por outras razões. 



Em 1962, boatos a respeito da descoberta de uma nova e mais impressionante câmara nas profundezas do complexo foram alardeados por estudiosos. Estes imediatamente exigiram que o acesso de visitantes ao local fosse proibido para a realização de estudos. A caverna foi isolada e entre os meses de maio a outubro daquele ano apenas um grupo de acadêmicos selecionados teve permissão para entrar nas cavernas e conhecer as tais descobertas. Pouco depois, alguns experts vieram à público e relataram que o que havia sido descoberto era um poço que levava a uma nova galeria. Fotografias da área foram apresentadas, mas ninguém além dos estudiosos recebeu permissão de conhecer o lugar. No ano seguinte a caverna foi definitivamente fechada para visitantes.

Algumas pessoas acreditam que a descoberta de uma câmara contendo pinturas de alguma forma sensíveis para o público em geral, deu causa ao fechamento do complexo. 

Mas o que poderiam ser essas pinturas tão chocantes?

Os teóricos defendem que as pinturas se dedicariam a algo inesperado, algo inexplicável ou que lançaria uma dúvida sobre a própria origem do homem. Supõem que nessas paredes mantidas em segredo constariam representações de entidades divinas aos olhos dos homens primitivos. Na verdade seriam seres alienígenas, objetos voadores, passagens dimensionais e até de paisagens extraterrestres para onde os artistas de Lascaux teriam sido levados em algum momento. Posteriormente, estas pessoas teriam retornado e retratado nas câmaras mais profundas tudo aquilo que viram.

Obviamente todas essas teorias controversas carecem de confirmação e até onde se sabe existem apenas no campo das hipóteses. Oficialmente as Cavernas de Lascaux constituem um frágil tesouro arqueológico que precisa ser protegido à todo custo.      

É triste pensar que peças tão importantes sobre nosso passado tenham de ficar escondidas por sabe-se lá quanto tempo, até que surja uma solução para sua deterioração. Mas será que haveria algum motivo ulterior para todo segredo que recobre esse lugar?

Quem sabe um dia possamos entrar novamente nas Cavernas Proibidas e saber de uma vez por todas, vendo com nossos próprios olhos, o que nossos antepassados mais distantes deixaram como seu mais valioso legado. 

sábado, 16 de janeiro de 2021

Glozel - A Controversa descoberta arqueológica do Século


Se uma palavra pode descrever o Incidente Glozel, esta deveria ser "controvérsia". Uma das maiores e mais longas controvérsias no mundo da Arqueologia. 

Tudo começou em Março de 1924, quando um rapaz de 17 anos chamado Émile Fradin, na companhia de seu avô Claude Fradin descobriu algo estranho na fazenda da família. Os dois estavam trabalhando em um campo conhecido como Glozel, que havia recebido o medonho apelido "le Champ des Morts", ou "O Campo dos Mortos". Poucos anos antes, o local foi palco de violentos enfrentamentos entre tropas alemãs e francesas na Grande Guerra. As velhas trincheiras escavadas no solo revirado, as fundas crateras produzidas pela artilharia e restos enferrujados de arame farpado ainda marcavam a paisagem, mas o som da guerra havia sido substituído por um silêncio bucólico. Glozel havia se tornado um lugar pacífico, usado para agricultura. 

Émile estava trabalhando o solo quando uma das vacas que puxava seu arado prendeu a perna em um buraco. O animal mugia desesperado e os Fradin tiveram dificuldades em soltá-lo, pensando que ela havia ficado presa em uma armadilha. Finalmente conseguiram livrar a vaca, e isso revelou algo inesperado. Oculto sob a terra havia uma estrutura formada por tijolos de argila cozida e uma curiosa pedra lisa que servia de tampa para o que julgaram ser uma sepultura. Repousando sob essa pedra estavam ossos humanos. À princípio eles acharam que se tratava de uma sepultura comunal usada pelos soldados alguns anos antes, mas logo ficou evidente que os ossos eram muitíssimo mais antigos.

Até então, aquela parecia uma descoberta arqueológica trivial como muitas outras feitas no interior da França. Aquela região havia sido habitada ao longo de toda sua história por povos que deixaram sinais de sua passagem: De ruínas e cemitérios até cavernas com arte rupestre nas paredes. 

À pedido dos Fradin, uma professora examinou os achados reunidos em uma caixa de madeira. Ela tinha alguns conhecidos no Ministério da Educação e enviou uma carta a eles relatando a descoberta sugerindo que poderia ser algo importante. Demorou alguns meses, mas em meados de julho, Benoit Clément, outro professor e membro da Societé d'Emulation du Bourbonnais, visitou o sítio na companhia de um arqueólogo chamado Viple. Clément e Viple examinaram os objetos e depois pediram para conhecer o local onde foram achados. Usando pás e picaretas cavaram mais fundo encontrando os restos de uma parede de tijolos e um teto. O arqueólogo Viple identificou o sítio como pertencente ao período gaulês-romano. Ele explicou que embora fosse interessante não se tratava de uma descoberta expressiva e liberou o campo para a estação do plantio.


Contudo, em janeiro de 1925 uma edição do boletim da Sociedade publicou fotografias dos objetos, em especial de uma pedra lisa repleta de inscrições. A Sociedade organizou uma pequena escavação coordenada por um médico local e entusiasta de arqueologia, o Dr. Anton Morlet especialista no período romano na Gália. Após estudar os objetos ele concluiu que eles eram consideravelmente mais antigos, talvez da Cultura Magdaleniana. Morlet supunha que pertenciam ao Paleolítico Superior (entre 12,000 a 9500 anos antes de Cristo), uma vez que as peças incluíam pontas de lança feitas de ossos de rena e representações desses animais, extintos desde 10,000 aC.

A nova escavação comandada por Morlet removeu uma infinidade de tabuletas de argila, ídolos, ferramentas, pedras talhadas e objetos com curiosas inscrições. As descobertas foram apresentadas em setembro de 1925 como artefatos neolíticos e atraíram a atenção de jornalistas que publicaram a história em detalhes. Embora Morlet tenha datado os artefatos como Neolíoticos, ele não estava cego para o fato de que o sítio continha objetos de épocas diferentes. Ele mantinha a opinião de que boa parte deles era muito antigo, portanto sua conclusão é que a área serviu como assentamento humano durante a transição de vários períodos, mesmo que alguns delas fossem separados por milênios.  

Certos objetos eram realmente anacrônicos: uma pedra mostrava a representação de uma rena, acompanhada de símbolos que sugeriam o que parecia ser um alfabeto bem construído. Conforme mencionado, as renas desapareceram da região em meados de 10,000 aC, e a mais antiga forma de escrita humana foi estabelecida em 3,300 aC, no Oriente Médio. O consenso geral era de que nenhum povo anterior a esse período possuía uma forma de comunicação escrita, contudo na opinião de Morlet as descobertas de Glozel contrariavam isso enormemente. 

Para tornar tudo ainda mais complicado, o estilo do alfabeto era semelhante ao fenício, datado de 1,000 aC. Mas é claro, era consenso que a Civilização Fenícia jamais estabelecera colônias naquela região, mesmo no auge de sua expansão marítima. 

Não é de se espantar portanto que a maioria dos acadêmicos de arqueologia fossem bastante céticos quanto às conclusões de Morlet; afinal de contas, o estudo havia sido redigido por um arqueólogo amador. Várias das conclusões soavam absurdas: Escrita pré-histórica? Um cruzamento entre Paleolítico e Neolítico? "Tolice", vociferavam os acadêmicos! "Ridículo" ecoavam os pesquisadores!


Infelizmente para os círculos acadêmicos franceses, Morlet não se deu por vencido facilmente. Ele convidou outros arqueólogos que simpatizavam com suas teorias para visitar e realizar escavações no sítio. Durante o ano de 1926, Salomon Reinach, curador do Museu Nacional de Saint-Germain-en-Laye, passou dias escavando o sítio e ficou impressionado com o que descobriu. Reinach confirmou a autenticidade do sítio e dos artefatos nele encontrados. Outro importante estudioso a visitar o local foi Abbé Breuil que à princípio demonstrou entusiasmo com a profusão de peças e ossos retirados do local. Contudo, o próprio Breuil levantaria dúvidas a respeito da autenticidade de algumas peças chegando a afirmar que vários artefatos eram falsificações.   

Breuil levantou suspeitas de que Morlet e Fradin teriam criado os artefatos usando como inspiração fotografias de peças originais encontradas em outra escavação. O fantástico alfabeto paleolítico, possivelmente a escrita mais antiga de todos os tempos seria nada mais do que uma série de símbolos inventados pelos falsários.

À despeito das graves acusações, Morlet continuou retirando de Glozel centenas de objetos em um período de dois anos. As fantásticas descobertas incluíam tabuletas de argila cozida com aquele mesmo alfabeto estranho e mais de quinze pedras polidas com a impressão de mãos humanas. Outros achados incluíam ídolos religiosos, pedras decorativas, cerâmicas, vidros, ossos e muito mais. Morlet acreditava que Glozel havia servido como importante centro religioso em algum momento do passado remoto e que posteriormente ele teria se convertido em um cemitério.

A essa altura os debates sobre Glozel já dominavam o meio acadêmico com grupos debatendo sua veracidade.

Em junho de 1927 dois outros sítios foram localizados pelo Dr. Morlet. Um deles contendo 67 e o outro 121 artefatos e uma infinidade de ossos humanos. Parecia claro que Glozel teria de ser aceito como uma relevante descoberta arqueológica à despeito da controvérsia sobre a origem das peças. Em uma reunião do Instituto Internacional de Antropologia em Amsterdam, realizada em setembro de 1927, Glozel se tornou o centro de todos debates. 


Uma comissão internacional, formada por especialistas levaria à cargo investigações que tentariam revelar a natureza do sítio e sua origem. O grupo chegou a Glozel em novembro de 1927.

Durante os três dias em que a comissão esteve nos sítios, os arqueólogos encontraram uma profusão de artefatos. Tão grande a quantidade que um dos envolvidos disse que "eles simplesmente pareciam brotar do chão". Entretanto, após analisar as descobertas, a comissão declarou que tudo, com exceção de algumas pedras talhadas era uma fraude. A notícia caiu como uma bomba entre os defensores de Glozel. As peças foram consideradas cópias de outras peças autênticas encontradas em museus por toda França. Acadêmicos de renome acusavam Morlet e os Fradin de conduzir uma fraude absurda e demandavam que as peças fossem apreendidas como um engodo.

A discussão então passou para a esfera jurídica com os Fradin contratando um advogado para processar os acadêmicos, tendo como cabeça René Dussaud, nada menos do que o curador do Museu do Louvre que devolveu as peças de Glozel afirmando que o prestígio do Museu não poderia ser manchado por o que ele chamou de "uma fraude grotesca". 

A disputa continuava causando acalorada controvérsia entre acadêmicos e em uma reunião realizada na Normandia, dois arqueólogos chegaram às vias de fato. Muitos pesquisadores pareciam "querer" à qualquer custo que Glozel fosse uma realidade enquanto outros sequer queriam discutir a possibilidade. Aqueles que defendiam o sítio ansiavam que uma civilização ancestral, surgida na França, se tornasse dona da escrita mais antiga do mundo, pré-datando as culturas semíticas em milênios. Era uma questão de orgulho! Sem falar que tal descoberta impulsionaria centenas de escavações e a abertura de sítios em toda França. Seus críticos duvidavam de tudo e afirmavam que Glozel produzia apenas lixo.

Nesse meio tempo, os Fradin, com ajuda de Morlet inauguraram um pequeno Museu com suas descobertas, cobrando entrada dos visitantes. Ultrajados pelo que afirmavam ser uma demonstração de má-fé um grupo de estudiosos foi até Glozel e começou a depredar o museu. Na ocasião várias peças foram destruídas a golpes de marreta. A polícia foi chamada e a confusão terminou em um verdadeiro quebra-quebra. 


Um novo grupo de arqueólogos isentos, chamado Comitê de Estudos foi apontado para coordenar os esforços de verificar e datar as peças. O grupo visitou Glozel e conduziu escavações encontrando pedras e tabuletas que foram reunidas para futura análise. Embora o comitê tenha reconhecido que o sítio era autêntico, a conclusão que chegaram sobre as peças levantava suspeitas. Uma das tabuletas foi investigada criteriosamente e pequenos grãos de pólen foram achados aderidos à pintura o que poderia evidenciar que ela era mais recente do que se imaginava.

Bizarramente um dos estudiosos envolvidos nas análises, um respeitado pesquisador chamado Michel Bayle foi assassinado na mesma época com um golpe de picareta enquanto vagava por uma escavação. O caso causou grande repercussão e inflamou ainda mais o debate. No fim das contas, um outro estudioso foi apontado como o responsável pelo assassinato e o motivo do crime não tinha relação direta com Glozel. Os colegas de Bayle continuaram seu trabalho, recebendo frequentes ameaças anônimas de morte.

O relatório final do Comitê, chamado Relatório Bayle em homenagem ao professor assassinado, foi concluído em junho de 1929. Ele deixava claro que a maioria das peças recuperadas nas sepulturas em Glozel eram falsas. Cerca de 80% delas eram mais recentes do que se imaginava, tendo sido, provavelmente produzidas pouco antes de sua alegada "descoberta". Emile Fradin e o Dr. Morlet chegaram a ser formalmente acusados de terem falsificado o material para ganho próprio, contudo nenhum processo foi levado à termo e as acusações contra eles foram arquivadas em 1932.

Morlet continuou escavando o sítio até meados de 1938. Durante essa década de pesquisa, a maior parte dos museus e universidades de respeito da Europa se negavam a recebê-lo, vedavam o uso de bibliotecas e sequer analisavam suas descobertas. Morlet passou a ser considerado persona non grata. Suas peças eram tidas pela maioria dos cientistas como fraudes bem engendradas por pseudo-acadêmicos.

Descreditado e largamente ridicularizado pela comunidade internacional, o Dr. Morlet tentou uma última cartada em 1950, oferecendo os ossos achados em Glozel para que um laboratório realizasse a datação por rádio carbono, uma técnica então muito recente. Um laboratório na França se negou a conduzir os testes e outro nos Estados Unidos, após muita deliberação acabou cancelando a análise. Morlet morreu em 1965 sem conseguir autenticar os artefatos pelos quais tanto lutou.


A última carta de Morlet para os Fradim demonstrava seu descontentamento:

"Não tenho mais forças. Prefiro desistir do que prosseguir dessa maneira. A verdade virá à tona um dia, tenho certeza disso, mas não acho que iremos viver para vê-la!"

Então, com tudo isso o que dizer dos Artefatos de Glozel? Seriam uma fraude ou autênticos?

Talvez a maior evidência de que o sítio fosse genuíno fosse seu descobridor, Emile Fradin. Um rapaz de 17 anos, sem educação formal, passaria centenas de horas se dedicando exclusivamente a criar uma farsa? Além disso Fradin, não detinha nada além de conhecimentos básicos sobre história e arqueologia. Como poderia produzir tamanha quantidade de artefatos, a maioria deles, capaz de enganar arqueólogos treinados.    

O que chama mais a atenção é que Fradin jamais tentou vender as peças, o que poderia ser muito lucrativo se ele construiu a fraude para ficar rico. Ao invés disso, ele sempre achou que as peças deveriam ser doadas a museus e universidades. O que ele teria a ganhar se jamais desejou vender as peças? Além disso, todos os especialistas que visitaram o sítio inicialmente o reconheceram como autêntico e apenas depois de muitas análises voltaram atrás. Alguns acadêmicos mudaram de opinião apenas depois de alguns especialistas mais gabaritados o fazer primeiro.

Seria possível que Morlet estivesse certo e que foi vítima de um complô que buscava desacreditá-lo? E se essa é a explicação, por qual motivo? Uma das teorias mais conspiratórias envolvia até mesmo uma Sociedade Secreta incumbida de manter a Civilização Perdida em segredo uma vez que seus mistérios não deveriam jamais ser divulgados.


Seja como for, após 1942, uma nova lei proibiu a realização de escavações privadas o que obrigou o fechamento do sítio em Glozel. Ele permaneceu fechado por ordem do Ministério da Cultura e só reabriu para escavações em 1983. Seu estigma ainda era tão grande que ninguém desejava trabalhar nele. Apenas em 1995, o sítio recebeu novas escavações e um relatório assinado por estudiosos concluiu que Glozel continha objetos da Idade de Ferro e do Período Medieval. 

A controvérsia ainda prosseguia. Em 1996 as sepulturas 2 e 3 foram identificadas como sendo do século XIII com artefatos desse período. Já a sepultura 1, a primeira descoberta pelos Fradim, tinha artefatos que foram identificados como pertencentes ao período de 300 aC até 300 dC, relativos a civilizações celtas e romano-gaulesas, conforme os primeiros relatórios sobre Glozel indicavam originalmente. 

Finalmente em 1997, um exame de datação por radio carbono nos ossos demonstrou que a maioria deles pertencia ao Período Medieval, ainda que existissem fragmentos de ossos consideravelmente mais antigos, remontando ao século III. 

A conclusão é que o lugar foi largamente utilizado por povos antigos em diferentes períodos e estes deixaram resquícios de sua passagem na forma de artefatos e ossos. A mais controversa teoria de Morlet, que o convenceu de sua origem Neolítica, eram os ossos de renas. Contudo biólogos na década de 1990 demonstraram que alguns desses animais sobreviveram em áreas isoladas da Europa até meados do período Gaulês-romano, talvez até ao período medieval, o que explicava suas representações em imagens e os ossos presentes na sepultura.    

Outro dos aspectos mais fascinantes a respeito de Glozel, sem mencionar controversos, dizia respeito às famosas Tabuletas de Glozel. Totalizando quase 100 peças de cerâmica com inscrições, essa era a mais fantástica das descobertas retiradas do solo. Se elas realmente fossem Neolíticas como o Dr. Morlet sugeria, as descobertas de Glozel provariam a existência de povos avançados vivendo na Europa muito antes das civilizações do oriente médio se formarem. Tal coisa mudaria para sempre nossa compreensão da antiguidade.

Qual a conclusão a respeito desse alfabeto e seu conteúdo?


A resposta não é fácil de ser dada. 

As inscrições jamais foram satisfatoriamente traduzidas e ninguém sabe que povo as criou ou quando embora a corrente majoritária sugira que as tabuletas são do século III. Ao longo dos anos, vários especialistas afirmaram ter conseguido decifrar os símbolos correlacionando a linguagem neles contida com inscrições produzidas por povos bascos, caldeus, celtas, hebreus, ibérios, latinos, berberes e fenícios. Nenhum dos especialistas, no entanto, conseguiu ir além de teorias a respeito da origem desses símbolos e eles permanecem um grande mistério até os dias atuais.

Mesmo hoje, a controvérsia a respeito de Glozel prossegue forte, gerando enorme debate e discussão entre arqueólogos. E ao que parece a conclusão não está sequer próxima de ser obtida. 

A história da região continua obscurecida por uma sombra que dificilmente um dia será iluminada.