sábado, 21 de novembro de 2015

A Cabeça do Samurai - A História de uma das assombrações mais famosas do Japão


Tóquio, a Capital do Japão é uma barulhenta megalópole, conhecida em todo mundo por suas realizações tecnológicas, suas ruas iluminadas por placas de neon, pelos arranha céus que desafiam as nuvens e pela ocupada população de milhões. Diante de tal paisagem moderna, é difícil acreditar que essa vibrante metrópole possa esconder estórias de fantasmas que parecem mais adequadas a pequenas cidadezinhas do interior. Ainda assim, uma movimentada área de Tóquio, supostamente hospeda uma vingativa assombração, o espírito de um Guerreiro Samurai cuja cabeça se recusa a descansar, espalhando destruição e má sorte sobre todos que cruzam seu caminho.

Para compreender a origem da lenda de como o fantasma de um samurai veio a assombrar uma das mais modernas e populosas cidades do mundo, é importante lembrar que Tóquio nem sempre foi a cidade que é hoje. Por muito tempo, ela foi o palco de perversas disputas entre Senhores Feudais: batalhas, assassinatos e sangrentos massacres mancham o passado da cidade. Foi durante um dos períodos mais agitados da turbulenta história de Tóquio, por volta do século X, que um poderoso e temido samurai chamado Taira no Masakado, se rebelou contra seu Daimio (o senhor a quem ele devia obediência). Isso deu início a uma contenda de sangue que criaria um dos mais sinistros casos de assombração do Japão.

Masakado nasceu em Kanmu Heishi, era parte do clã Taira cuja linhagem descendia diretamente do Imperador Kanmu. Nascido com vários privilégios, Masakado sempre teve um espírito indomável, teimoso e abrasivo com todos ao seu redor. Segundo as lendas, ele matou seu instrutor de esgrima quando tinha apenas oito anos e se tornou um temido espadachim que costumava desafiar seus desafetos para duelos até a morte. Seus problemas de verdade, começaram quando ele tinha 17 anos. Após a morte de seu pai, um tio exigiu o direito sobre uma porção de terras. Uma vez que não haviam leis de herança suficientemente claras na época a reivindicação foi considerada justa, já que Masakado ainda não havia atingido a maioridade. Um emissário oficial se apresentou diante de Masakado para lhe dar a notícia, furioso ele sacou sua espada e matou o homem e seus acompanhantes. Em seguida, enviou a cabeça do mensageiro para o tio avisando que iria pessoalmente decapitar qualquer um que reclamasse a posse das terras que eram suas de direito. A morte de um emissário era um crime considerável na época, já que eles eram praticamente intocáveis.

O tio enviou então homens para capturar o sobrinho e trazê-lo diante das autoridades. Masakado ficou sabendo e preparou uma emboscada na qual enfrentou e derrotou cinco homens em combate. Sua fama a essa altura só aumentava: ele era conhecido por ser implacável e impiedoso. Conforme o prometido, Masakado decapitou os homens e colocou suas cabeças em estacas, fincadas para demarcar limites de suas terras. Temendo insistir em um banho de sangue, o tio desistiu de reclamar a propriedade e permitiu que Masakado permanecesse nas terras.


Dois anos se passaram em relativa tranquilidade, até que Masakado resolveu que era o momento de aumentar seus domínios. Durante o período de relativa tranquilidade, o samurai havia montado um pequeno mas bem treinado exército e arquitetado detalhadamente uma invasão às terras de seu tio. A tropa comandada por Masakado adentrou as terras adjacentes, conquistando povoados, ateando fogo aos fortes e matando todos os soldados que encontrou. Qualquer um que se colocasse em seu caminho era morto e decapitado. Na brutal investida ele queimou e destruiu vilarejos inteiros, mandando enforcar os camponeses que se negavam a aceitá-lo como novo senhor.

A disputa foi levada ao Imperador, mas Masakado foi capaz de evitar qualquer punição invocando leis e tradições que ainda estavam em vigor. Quando a corte considerou que ele estava apenas reagindo a uma provocação prévia - a tentativa de assassinato sofrida, ele recebeu uma anistia direta do Imperador Suzaku, um indulto para prosseguir em sua campanha. Finalmente, ele conseguiu conquistar as terras do tio que fugiu a tempo de não ser ele próprio decapitado - três primos de Masakado não tiveram a mesma sorte e perderam a cabeça.

Mesmo no exílio, o tio conseguiu convencer alguns aliados que Masakado não pararia por aí e que havia a necessidade de reunir um exército. Ele estava certo! Mas antes que o exército pudesse ser formado, Masakado cavalgou com seus homens para a Província de Hitachi onde o tio havia encontrado refúgio. Ele cercou o palácio do governante e demandou que o tio fosse entregue, quando a ordem foi negada, ele mandou atear fogo ao palácio e matar todos em seu interior. Mas sua sede de conquista e de sangue não estava saciada. Nos quatro anos que se seguiram ele anexou as terras de mais oito senhores feudais, todos eles vencidos no campo de batalha. Masakado costumava dizer que não tinha paciência para negociar tratados e mesmo quando emissários se apresentavam com termos de rendição, ele ordenava o ataque.


Embora os nobres da época condenassem suas ações, na prática, não havia muito que pudesse ser feito. Masakado vinha de um clã importante e era praticamente imbatível, não tendo perdido, até então, uma única batalha. Para complicar ainda mais as coisas, Masakado passou a cultivar sua fama como guerreiro através de músicas e poesias que enalteciam suas façanhas. Tudo isso cativou os camponeses sob seu comando. Ainda que ele tratasse os súditos com inegável desdém e abuso de poder, os camponeses o viam como um líder admirável a quem deviam respeito e total devoção. Muitos o chamavam de Grande Daimio e já se falava que Masakado ambicionava um título ainda mais elevado.

O governo, na época centrado na cidade de Kioto, começou a se preocupar com o poder e influência cada vez maior do Senhor Feudal. Se com menos de 25 anos ele já havia conquistado tanto, o que poderia acontecer se ele prosseguisse em suas bem sucedidas campanhas militares. O temor de que ele pudesse reclamar o Trono Imperial era bastante real, e se confirmou quando Masakado começou a fazer ousadas declarações nas quais aludia à sua herança real e ao fato dele ser um descendente direto do Imperador Kanmu.

Em Kioto, o Imperador não recebeu bem as notícias de que Masakado contestava seu direito como regente do Japão. Masakado foi taxado como rebelde e traidor, e uma imensa recompensa foi oferecida para qualquer um que trouxesse sua cabeça. Um formidável exército, incluindo alguns dos parentes do próprio Masakado, que haviam sobrevivido às suas conquistas, foi mobilizado. Liderado pelo poderoso comandante Fujiwara no Hidesato, a tropa marchou a cavalo para a região de Kanto na fronteira dos domínios de Masakado. Em 940, o exército de Masakado se apresentou em um campo próximo a Shimosa, envergando uma bandeira imperial que declarava abertamente sua contestação ao poder. Masakado lutou bravamente mas seus homens estavam em minoria de 5 para 1, e acabaram sofrendo sua primeira e única derrota.

O corpo de Masakado foi encontrado entre os guerreiros tombados no massacre. Uma flecha havia atravessado sua cabeça e ele havia sido esmagado pelos cavalos. O estado do cadáver era tão ruim que as pessoas que o conheciam, trazidas para identificar seu corpo, tiveram dificuldade em concordar que era de fato ele. Por fim, uma de suas concubinas acabou confirmando a identidade. O comandante Fujiwara decapitou o Senhor da Guerra pessoalmente e levou o troféu da vitória para a apreciação do Imperador em Kioto.  

É a partir desse ponto que a estória começa a ficar estranha e entra de vez no reino do sobrenatural. A cabeça decapitada de Masakado de fato foi levada até Kioto, mas logo se percebeu que havia algo errado com ela: ela não se decompunha. A carne continuava presa ao crânio, os olhos estranhamente vivos pareciam queimar com uma furiosa centelha e os dentes pareciam ranger com um ódio incontido. A cabeça não exalava o inevitável fedor da corrupção e sequer atraia moscas como seria de se esperar. Após inspecionar o troféu, o Imperador ordenou que a cabeça fosse colocada sobre o portão do palácio para que todos pudessem ver o que acontecia com aqueles que desafiavam sua autoridade. Com o passar dos dias, as pessoas percebiam que a cabeça continuava igual. Meses se passaram e a cabeça de Masakado continuava como no dia em que havia sido separada de seu corpo. Para alguns, a expressão até chegou a se alterar, a face havia assumido uma expressão de desdém e os olhos pareciam mais desafiadores do que antes.  


Aldeões que passavam pelo portão olhavam para o outro lado, temendo os olhos frios do samurai. Foi nesse momento que os rumores realmente macabros tiveram início: a cabeça de Masakado supostamente falava! Toda noite, a cabeça decapitada gritava ordens de comando e praguejava com supostos guerreiros. Alguns diziam que ele jurava vingança. Certa noite, um grupo teria visto um brilho fantasmagórico e de repente a cabeça simplesmente se soltou do portão e flutuou no ar desaparecendo, deixando para trás uma gargalhada triunfante. Segundo a lenda, a cabeça foi encontrada posteriormente em uma vila de pescadores chamada Shibazaki, em um lugar até hoje chamado Masakado no Kubizuka, ou "O Monte da Cabeça de Masakado". Os pescadores limparam a cabeça e a enterraram no sopé do monte. Lá construíram um pequeno templo para que ela tivesse descanso. Mas o fantasma de Makado tinha outros planos, e descansar não era um deles.

Não muito tempo depois da cabeça ser enterrada sob o templo, o lugar começou a ser assombrado por estranhos fenômenos. Violentos tremores de terra, a presença de cães selvagens e a visão de luzes espectrais se tornaram constantes. Além disso, a própria cabeça do samurai começou a ser vista, aterrorizando os habitantes locais. Ela surgia flutuando no ar, gargalhando e deixando um rastro de sangue. Os camponeses preocupados com todas essas manifestações rezaram para tranquilizar o espírito, construíram um monumento e uma lápide em honra do guerreiro. Um grupo de monges da Ordem Sengai tomava conta do lugar e rezava toda semana para apaziguar a raiva do samurai e aparentemente as coisas se acalmaram, por um tempo. 

Alguns anos depois, a Ordem religiosa foi expulsa da região e com sua partida, o verdadeiro horror teve início. A cabeça era vista frequentemente por pessoas que passavam pelo lugar à noite. Ela flutuava e gritava ordens de comando, perseguia e tentava morder as pessoas e de seus olhos irradiava uma luz esverdeada. A seguir, a epidemia de uma estranha doença se alastrou pela região e as pessoas sofriam de uma febre que as levava ao delírio mo qual alucinavam com combates e morte. Ouviam o galope de cavalos, brados de guerra e os murmúrios dos feridos. No auge da febre, se erguiam da cama e tinham de ser contidos para não ferir a si mesmos e a quem tentava detê-los. Desejavam lutar, com um ardor incontrolável pela violência e brutalidade, mordiam, cuspiam e gritavam sem controle. Um pai teria estrangulado a filha, um marido esfaqueou a mulher, uma viúva se lançou de uma ribanceira após investir contra inimigos invisíveis.   

Por volta de 1300, uma terrível praga se abateu sobre Edo causando milhares de mortes, todas elas atribuídas ao espírito vingativo de Masakado. Os monges Sengai foram chamados para tranquilizar o espírito novamente e o túmulo foi aberto. A cabeça, depositada em um barril, foi levada para o mosteiro de Kanda Myojin, onde havia um importante templo. Os religiosos sepultaram a cabeça novamente com todas as honras de um Grande Senhor, mas embora as estórias sobre as visões fantasmagóricas tenham diminuído ainda se ouvia rumores sobre coisas extraordinárias acontecendo. Com o tempo, o templo se tornou um lugar de visitação, com muitos atribuindo a Masakado um status semi-divino. 

Em 1874, o Imperador Meiji visitou o templo e declarou que era inaceitável que um conhecido traidor como Masakado recebesse tamanha honraria. Os Meiji eram parentes do governante que havia ordenado a morte do Samurai rebelde. O Imperador ordenou que as homenagens dispensadas ao templo e ao ilustre samurai fossem revogadas de uma vez por todas. Os Monges acataram a ordem e pararam de incentivar a peregrinação e as visitas. 


O desastre retornou em 1923, quando o Grande Terremoto de Kanto atingiu a região, provocando mortes e destruição, além de incêndios que destruíram a maioria dos prédios. O templo de Kanda Myojin foi um dos únicos lugares que não sofreu danos significativos. Na noite do terremoto e durante o incêndio que consumiu as cidades próximas, a cabeça de Masakado foi vista por inúmeras testemunhas, flutuando sobre as chamas inclementes que destruíam suas casas. Vários membros da Família Imperial morreram na tragédia e outros caíram doentes, a hemofilia se tornou um mal entre os herdeiros do Clã Meiji. Em 1928, após a morte de dois herdeiros no espaço de apenas três anos, foi decidido que o Templo voltaria a receber visitantes e peregrinos, desde que fosse realizado um Ritual Anual de Purificação.

Quando a Segunda Guerra eclodiu, o governo tinha outros assuntos mais importantes do que cuidar de espíritos de samurais mortos séculos atrás. O ritual foi ignorado repetidamente, tratado como uma superstição tola que precisava desaparecer no Novo Império do Sol Nascente. Em 1940, entretanto, um raio atingiu o templo precisamente mil anos após a morte de Masakado e pessoas começaram a falar novamente na maldição. O Ministério da Propaganda emitiu uma nota no qual proibia que o assunto fosse discutido abertamente e ameaçou de prisão qualquer um que desafiasse essa ordem. Mas de nada adiantou... entre 1940 e 1944, a cabeça foi vista repetidas vezes por pessoas que falavam abertamente sobre aquela visão aterrorizante.

Após a derrota na Guerra, os japoneses usaram a lembrança de Masakado como uma forma de intimidar as tropas de ocupação norte-americanas que se instalaram no país. O espírito do samurai se erguia agora contra a indesejável presença dos gaijin. Soldados americanos relataram estranhos acontecimentos na área de um estacionamento ao lado do templo dedicado a Masakado. Alguns monges advertiram que o barulho dos veículos militares estava irritando o fantasma do samurai e que era melhor mudar o estacionamento de lugar. Em 1947, um grupo formou uma junta e pediu que os soldados deixassem de usar a área sagrada. Apenas depois que um tanque aparentemente perdeu o controle e derrubou um muro, provocando ferimentos em duas pessoas, os americanos decidiram acatar o pedido. A área voltou a ser usada apenas pelos japoneses e estrangeiros pararam de frequentar aquele espaço.

Em 1961, religiosos decidiram conferir a Masakado o status de divindade e alçaram o samurai ao panteão das divindades que mereciam tributo. A decisão foi polêmica e causou muita discussão entre a população: para muitos o samurai era um traidor, para outros era um símbolo de rebelião e de ousadia.


Até hoje, a sinistra maldição da cabeça de Taira no Masakado é conhecida e temida entre os habitantes de Tóquio. A área toda ao redor do monumento e da primeira sepultura do samurai continua sendo o palco de acontecimentos aterradores. Ela registra uma alta taxa de suicídios e mortes acidentais. Em 1998, sete jovens cometeram suicídio coletivo perto da montanha, dois deles usaram uma espada samurai para cortar o baixo ventre, como na Cerimônia do Sepoku. Otemachi, onde ainda se localiza o Templo de Kanda, dedicado ao samurai, hoje está cercado por enormes prédios de escritórios e sedes de corporações. É uma das áreas mais privilegiadas e com um dos metros quadrados mais valorizados da metrópole. 

Alguns cogitaram mover o templo para outra localização, mas sempre, na última hora, os planos são abandonados.Voluntários cuidam dos jardins do templo que recebe visitantes que deixam oferendas para o Samurai Rebelde, como uma forma de apaziguar sua fúria. Todo ano, o Ritual de Purificação atrai peregrinos que ajudam a lavar as pedras e queimar incenso. De tempos em tempos, alguém relata uma estória bizarra envolvendo a visão da cabeça de Masakado e os jornais estampam manchetes sensacionalistas que relembram a lenda apresentando os detalhes a uma nova geração.

O fantasma de Taira no Masakado talvez seja a mais famosa assombração do Japão e com certeza a mais antiga e duradoura.

2 comentários:

  1. um bom de partida para uma historia de assmbração em blood and honor e lenda dos cinco anéis

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