sábado, 21 de novembro de 2009

Handouts de Call of Cthulhu

Call of Cthulhu é um jogo investigativo.
No decorrer das sessões os investigadores dedicam grande parte do jogo a obter pistas: escarafunchar informações em velhas bibliotecas, perscrutar velhos diários, consultar tomos proibidos e buscar documentos em cartórios que dêem uma informação decisiva para resolver o mistério.


Cthulhu foi o primeiro RPG a introduzir as pistas físicas, ou Handouts, para os jogadores consultarem e lerem.


Um Handout (literalmente "entregue em mãos") é um fragmento de pista obtido pelos investigadores e que pode ser manipulado na mesa pelos jogadores. Ao invés do keeper dizer: "Ok, vocês encontram uma página velha e amarelada onde está descrito o ritual", o mestre abre sua pasta e entrega aos jogadores um pedaço de papel amarelado e amassado com uma letra rebuscada onde o grupo pode ler o ritual como se fossem os próprios investigadores do caso.


Nem preciso dizer ó quanto é mais bacana poder manipular as pistas e provas, ao invés de ter um resumo descrito pelo mestre. Os Handouts em geral são parte dos cenários prontos de Call of Cthulhu, eles sempre acompanham os livros e podem ser encontrados nas últimas páginas, xerocados ou copiados. Pessoalmente eu prefiro criar os meus próprios Handouts: traduzir os textos, mudar alguns elementos, usar papel jornal, caprichar na caligrafia, amarelar folhas e forjar documentos como se fossem originais.


Sem dúvida dá trabalho, mas é bem mais legal usar essas pistas do que descrever uma descoberta de modo estéril.


Abaixo alguns dos Handouts que eu produzi ao longo de muitos anos mestrando Call of Cthulhu:

Aqui está a coleção completa de Handouts. Eu costumo guardar em uma dessas pastas organizadoras para não correr o risco de perder nenhum, uma vez que costumo reprisar varios cenários para grupos diferentes. Espalhei todos eles em cima da cama e tirei essa foto a medida que ia organizando depois. Assim não dá para ter uma idéia exata da quantidade de papel, mas acreditem, é muita coisa.


Esses são os "Tomos dos Mitos" que eu produzi. Na verdade um deles (o com a borda vermelha) é um desses livros de anotações onde colei vários Handouts para facilitar a procura na hora de narrar. O outro é uma dessas pequenas bíblias antigas escritas em Latim que herdei da minha avó (tadinha, não sabe para que acabei usando o livro). Essa página amarelada com o Grande Cthulhu em destaque é parte da minha versão caseira do Chaat Aquadingen, usado no Primeiro Torneio Tentacular.



Mais algumas páginas dos meus tomos malditos. Eu gosto especialmente desse que tem as posições das mãos para realizar os encantamentos. A fotografia do frasco contendo um espécime também é muito bacana, embora na época em tenha feito a coisa com um vidro de verdade.


Essas são as tradicionais páginas de diários que contém pistas e informações sempre pertinentes nas investigações de Call Of Cthulhu. Eu gosto dessas páginas com a borda rasgada como se tivessem sido arrancadas de um livro às pressas. O desenho do monstro foi um improviso pouco antes de começar um cenário. A imagem fazia parte da aventura de um colega, mas era tão legal que pedi para colar no livro de Handouts. As fotos em preto e branco do navio fantasma e do farol iluminando Kingsport também ficaram show de bola.



Esse é um dos meus Handouts favoritos em todos os tempos. Trata-se de um desenho em que uma criança tenta reproduzir a aura de horror dos sonhos que ele vinha tendo em uma casa mal assombrada. Pedi a meu afilhado na época com 8 anos para fazer o desenho (sem a mãe dele ver, é claro!). Assim ele ficou o mais autêntico possível. Não se preocupem, o sangue eu coloquei depois. A cara dos jogadores quando encontram esse handout é sempre de choque, o pessoal fica impressionado.


Esse é outro do qual me orgulho muito. Trata-se de uma ficha de requisição de livros na Universidade Miskatonic. À primeira vista, o papel está em branco, mas reparando bem, era possível ver as ranhuras da caneta sobre o papel. Para ler, o grupo tinha de passar um lápis levemente sobre o formulário e assim obter a informação de qual livro o NPC estava pesquisando na biblioteca.


Mais alguns Handouts, inclusive a parte interna da Bíblia com algumas das imagens religiosas mais assustadoras que já vi. Eu sempre gostei do handout no alto da foto, um anúncio da Universidade de Oxford para uma palestra sobre "A Verdade sobre os Mitos Arturianos". Esse veio de um cenário que se passava em 1890. A poesia escrita à mão era parte de uma carta de suicídio de um personagem num cenário nas Dreamlands, pesquisei em vários livros até encontrar uma poesia que ficasse dentro do contexto, a "Rima do Velho Marinheiro" caiu como uma luva.


Esse também ficou bem legal, são páginas de um dos tomos proibidos, o "New Canaan" do caçador de bruxas, Ward Phillips. Na borda do livro esquerda inferior copiei algumas passagens em árabe da melhor maneira possível. O trecho é a versão em árabe da famosa rima de Cthulhu "Não está morto, aquele que pode eternamente jazer, e em estranhos eons mesmoa morte pode morrer". O círculo de proteção fazia parte de um cenário, o pessoal se empolgou tanto que desenhou com giz o círculo no chão do playground onde estávamos jogando. Resultado: o final da aventura virou uma espécie de live action.


Este é outro que deu trabalho. São duas páginas de um longo diário escrito por uma dama da sociedade no século XVIII. As páginas estavam escondidas dentro de um fundo falso há anos. Para simular isso, envelheci as páginas usando essência de baunilha e colocando no forno. Infelizmente na primeira tentativa os papéis pegaram fogo e tive de fazer tudo de novo... observando o tamanho do texto, vocês podem imaginar como fiquei animado em ter de copiar uma segunda vez.


Uma miscelânia de Handouts. Eu gosto especialmente da página à esquerda que relata um ritual contido no Necronomicom usado para banir um monstro. As palavras descritas no texto tinham de ser lidas perfeitamente para que a magia funcionasse. O grupo passou por maus bocados até acertar a pronúncia correta das palavras. O mapa infelizmente não ficou muito claro, trata-se de um mapa do interior da Nova Inglaterra que marcava a localização da cova de um feiticeiro. O grupo tinha de interpretar o mapa a partir de um poema no verso do mapa e só assim conseguiria chegar ao lugar correto.

Esses são da aventura "No Man´s Land" que se passa na Grande Guerra. Fiz um formulário para simular a correspondência oficial de um oficial médico alemão. Minha esposa, cúmplice nessas maluquices, fez uma versão em alemão para parecer 100% autêntico. Havia ainda um em português e outro com palavras misturadas nos dois idiomas. O primeiro era para o caso do grupo conseguir traduzir perfeitamente o texto, o segundo se eles falhassem no roll e só conseguissem entender partes do que estava escrito. O handout da esquerda é um manuscrito arrancado do Al Azif e também deu um trabalho monstruoso pois foi impresso em papel de seda que rasgava toda hora.


À direita podem ser vistos os tradicionais telegramas que muitas vezes iniciam as aventuras convidando os personagens para a investigação. À esquerda está um Boarding Pass do Orient Express, usado obviamente na Campanha "Horror on the Orient Express". Cada um dos jogadores recebeu um desses com seu nome e informações personalizadas no início da campanha e um aviso: se alguém perder o seu é como se tivesse perdido os documentos necessários para viajar no Orient Express. Dito e feito, um dos jogadores perdeu e quem teve de pagar o pato foi o personagem ficou para traz em um trecho, enquanto providenciava documentação para seguir viagem.



Esses também são Handouts tradicionais muito usados, os clipings de jornal. Na internet encontrei um programa que permite simular páginas de jornal com o nome da publicação, manchete e até data. Fica perfeito para criar Handouts. Colocar as fotografias no canto da notícia cria um ar de legitimidade e faz parecer "de verdade".



Esses Handouts fazem parte de uma mini-campanha que se passava no Egito em 1925. Eu destaco o voulcher para o Barco à vapor Sudan, na parte inferior da fotografia. Esse deu um trabalho do cão, mas valeu a pena, ficou muito parecido com o original que encontrei na internet. A fotografia da placa, foi usada porque o prop em gesso não ficou pronto à tempo para o dia da aventura. A adaga com cabo na forma de Ibis foi usada da seguinte forma: o investigador que estivesse com o Handout estaria efetivamente portando a faca. Em meio à um combate, o Handout acabou caíndo no chão e declarei que a adaga havia caído da mão do personagem, foi um momento muito legal da aventura.

Uma série de fotografias em preto e branco. Handouts fotográficos sempre fazem muito sucesso, especialmente quando existem informações ou anotações no verso da foto. Eu gosto especialmente da foto no lado direito onde um dos indivíduos está assinaldo em um círculo. Esse Handout ficou especialmente bem feito pois usei papel de revelação antigo e a foto ficou granulada como as da época.


Esses são os tradicionais Handouts "O que você sabe a respeito de...". Eles fornecem informações a respeito de personagens que os investigadores já conhecem previamente e dizem exatamente o que eles sabem a respeito de amigos, colegas ou companheiros de trabalho. É bem mais interessante fazer desse jeito do que puxar um dos jogadores no canto e dizer a ele: "você é amigo desse cara".

Essas são as páginas do meu Necronomicom com informações constantes no livro e rituais. Meu plano era copiar várias páginas e encardenar para fazer um livro de verdade. Esse livro poderia ser usado para as aventuras. Eu cheguei a começar esse projeto, mas inflelizmente acabei abandonando no meio do caminho. Vendo agora estou sentindo aquela vontade de começar de novo, quem sabe nas férias...

Esse é outro do qual tenho muito orgulho. São páginas do Necronomicom contendo a magia "Ressurreição dos Sais Perfeitos", a mesma usada por Joseph Curwen na novela "O Caso de Charles Dexter Ward" de H.P. Lovecraft. As imagens foram copiadas de livros de anatomia renascentistas e os trechos da magia foram escritos em latim dando um trabalho monstruoso, mas valeu a pena. Imprimi em folhas de gramatura especial deixando-as mais grossas. Na borda da página esquerda coloquei um selo da Biblioteca do Vaticano, como se as páginas tivessem sido roubadas dessa coleção.
* * *
Bem é isso... são alguns dos Handouts que fiz ao longo dos anos. Em outra oportunidade coloco os props físicos usados nas campanhas.

11 comentários:

  1. Muito f@d#!!! Handouts muito bem produzidos. Parabéns!

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  2. Incrível, não tem outra maneira de envelhecer papel não? No forno duraria quanto tempo? (eles não ficaram com cheiro de baunilha?)

    Ah, se for matar alguém ou SE matar, queime isso antes que alguém veja e coloque a culpa em Cthulhu, imagino o estrago que uma reportagem sensacionalista com esses papeis faria xD

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  3. Opa Hunter,

    Para envelhecer papel existem diferenets métodos.

    A baunilha e forno é o mais confiável, o que não se pode fazer é deixar quente demais como eu deixei.

    O cheiro de baunilha é meio que inevitável, o melhor é deixar respirando por algum tempo antes de usar. Aos poucos, vai sumindo.

    Também é possível envelhecer papel com betume da judéia e com suco de limão (quanto mais ácido melhor).

    Suco de limão aliás é ótimo para passar mensagens secretas, alguém lembra do filme O Nome da Rosa?

    Se for usar suco de limão recomendo, deixar a folha secar e depois usar um ferro de passar roupa não muito quente. A coloração amarelada vai surgindo aos poucos.

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  4. Haja dedicação! Excelentes handouts, parabéns ae :D

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  5. Sensacional!!
    Acabei de fazer envelhecer papel utilizando limão, muito mais fácil do que utilizar café como alguns sites gringos ensinam a fazer e o resultado é satisfatório.

    Seria legal colocar o nome do software que você utilizou para fazer os recortes de jornal citados no artigo.

    Abraços

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  6. Caramba, velho! Isso tudo deve ter dado uma trabalheira! Mas ficaram muito bons, imagino como deva ter rolado as aventuras envolvendo esses holdouts!

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  7. Isso sim é um mestre de CoC. Parabéns!

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  8. O que o senhor herdou não foram pequenas biblias em latim... mas sim um ''missal quotidiano'' (latim/vernacula)dificilmente encontrado...e quando encontrado mui caro. Eu tambem tenho um, porem utilizo de outra forma...

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  9. Valeu Lazanha, obrigado pelo esclarecimento à respeito do Missal quotidiano.

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  10. Por nada ;) disponha... eu tenho o missal e outros livros antigos... sou amante das gravuras religiosas antigas... é bem interessante avaliar a mudança artistica de lá pra cá... as gravuras monocromáticas eram bem mais inspiradoras

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  11. Estou bobo... Sensacional!

    Seria muito atrevimento meu pedir pra vc disponibilizar alguns handouts ? (em arquivos, claro)

    Abraxx

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