sábado, 21 de novembro de 2009

Explicando os Monstros da Antiguidade

Nota: Essa matéria não é Lovecraftiana, mas achei muito bacana o tema.

O Kraken comia navios inteiros.

O Monstro era uma espécie de polvo gigantesco que atacava as embarcações em alto mar. Esticando seus poderosos tentáculos, ele conseguia superar a altura do mastro principal e abraçava o navio inteiro. Marinheiros rolavam no tombadilho e se afogavam nas ondas furiosas, ou pior, eram comidos pelo feroz monstro marinho. O Kraken supostamente tinha mais de uma milha de diâmetro, era tão grande que marinheiros podiam confundi-lo com pequenas ilhas.

Essa criatura colossal não é real.

Nunca foi.

Mas o Kraken por muitos séculos foi uma ameaça real e motivo de pânico para aqueles que navegavam pelo mar do norte.
O mito da criatura gigantesca das profundezas surgiu entre os povos nórdicos, provavelmente entre os séculos XV e XVI, para explicar por que alguns homens do mar não retornavam de suas viagens.

O Mito não foi gerado pelo inconsciente coletivo das pessoas ou era fruto de alucinações; o Kraken provavelmente surgiu da observação de animais semelhantes. As Lulas Gigantes podem ter inspirado a crença no Kraken.

Marinheiros podem ter visto Lulas Gigantes, alguma embarcação pode ter recolhido um enorme tentáculo flutuando na superfície da água ou na barriga de uma baleia, ou os restos de um desses animais pode ter aparecido na costa trazido pelas ondas.

A lula gigante existe e ainda pode ser encontrada em grandes profundezas. Ela possui um corpo delgado e longo que pode atingir algo entre 10 metros de comprimento, quase tão grande quanto um ônibus escolar, com um olho de 15 centímetros de diâmetro, o tamanho de uma bola de volei. A cabeça de uma lula gigante é arredondada como um cogumelo. Essa monstruosidade vive no fundo do oceano, a 3000 pés, cerca de 10 campos de futebol abaixo da superfície.

Em 2004, cientistas japoneses registraram as primeiras imagens da Lula Gigante em seu próprio habitat, provando sua existência, muito debatida até então. Pouco depois, em 2007, dois pescadores na Nova Zelândia recuperaram pedaços de um espécime que media 8 metros. Se os cientistas não tivessem registrado um animal semelhante três anos antes imaginem como a descoberta dos restos teria alimentado as estórias sobre monstros marinhos.

Marinheiros da era das navegações também encontravam essas lulas, mas não sabiam o que elas eram. Para explicar sua existência surgiram os Kraken.

O avanço científico e as pesquisas permitem que esses curiosos animais enfim sejam estudados e mitos como os Kraken sejam compreendidos.

O Kraken entretanto não é o único monstro mítico nascido a partir da descoberta de ossos ou restos pertencentes a animais desconhecidos. Gigantes, grifos, dragões, unicórnios e outros monstros finalmente estão sendo reconhecidos pela ciência através da análise de ossos encontrados na antiguidade.

Os Gigantes fazem parte da mitologia da Grécia antiga. Para os gregos, Zeus, o maior dos deuses, destruiu os gigantes e ciclopes que viviam na Terra antes do surgimento dos homens. A base dessas lendas pode ter sido a descoberta de ossos gigantescos que os gregos acreditavam pertencer a esses gigantes ancestrais. Cientistas acreditam que os ossos encontrados pelos gregos pertenciam a mamutes que habitaram a região na pré-história e desapareceram na aurora do homem.

Os gregos antigos encontraram essas estranhas ossadas em cavernas, minas ou em depósitos subterrâneos. Eles eram estudados e montados como se pertencessem a homens gigantescos.

O Grifo, outro animal mítico, pode ter surgido a partir da descoberta de ossos de animais como o protoceratops. Este dinossauro quadrúpede, possuía uma espécie de espinha revestida nas costas que quando erodida se assemelhava a armação das asas de pássaros. A observação dos ossos deixava a vaga ideia de que se estava diante de um enorme animal de quatro patas dotado de asas nas costas.

Pesquisadores cruzaram dados a respeito das regiões onde a lenda dos Grifos eram recorrentes e descobriram que era a mesma área em que viveram os protoceratops. Dentre os povos da antiguidade os gregos foram os primeiros paleontólogos primitivos. A descoberta de ossos de animais míticos provava a existência dos deuses e de um mundo fantástico.

Os chineses também colecionavam fósseis de animais pré-históricos e atribuíam a eles propriedades mágicas. Ossos de dinossauros eram a prova cabal da existência de dragões, animais que simbolizam conceitos universais de força e vigor. Na China antiga, ossos de dragões (ou de dinossauros) faziam parte do Monopólio Imperial. Qualquer pessoa que encontrasse tais ossadas deveria comunicar a descoberta imediatamente a emissários reais.

Alquimistas limpavam e moíam esses fósseis para destilar poções e bebidas que prolongavam a vida dos governantes e concediam a eles suposta vitalidade. Apesar dos decretos e das punições a quem desobedecesse esses éditos, na China existia um bem estruturado mercado negro de ossos de dinossauros comprados por verdadeiras fortunas. Quando os chineses empreenderam uma grande migração para o Oeste americano no século XVIII, muitos deles foram empregados para a construção de linhas de ferro. Muitos chineses trabalhando na América descobriram fósseis e conseguiram enriquecer vendendo suas descobertas.

Quando a Revolução Chinesa deu fim ao Regime Imperial, dentre o tesouros pertencente aos nobres havia um número significativo de fósseis em perfeito estado de conservação.

Não é de hoje que cientistas tem recorrido a fósseis para traçar a origem de mitos da antiguidade. Em 1914, o paleontólogo Othenio Abel, relacionou a descoberta de crânios pertencentes a mamutes encontrados nas ilhas do mar Egeu com o mito dos Ciclopes.

Segundo o Mito, os ciclopes eram gigantes de um olho só que viviam nessas mesmas ilhas e se alimentavam de marinheiros cujos barcos naufragavam. Abel postulava que os antigos podiam ter decoberto crânios desses mamutes e confundido a cavidade nasal central do animal com a cavidade ocular dos ciclopes.

Na década de 20, cientistas que se especializavam no estudo de animais pré-históricos determinaram que muitos mitos tinham como base a interpretação errônea de fósseis encontrados na antiguidade. No ano de 1250 d.C, na cidade de Klagenfurten na Áustria, foi desenterrado um enorme crânio quando o muro da cidade estava sendo construído. Por muitos séculos o crânio ficou em poder da família Habsburgo, como se fosse uma relíquia sagrada. Acreditava-se que ele pertencia a um dragão.


Quando os cientistas puderam estudar o fóssil em perfeito estado de conservação determinaram que o crânio do "dragão" pertencia na verdade a um rinoceronte peludo, animal extinto na Europa desde a Idade do Gelo.

Em 1931, um fragmento de osso pontiagudo descoberto na França Medieval e que segundo a lenda fazia parte do espólio do Rei Carlos Magno foi analisado. Por muitos séculos acreditou-se que o chifre pertencia a um unicórnio. Na verdade o estudo mostrou que se tratava de um chifre de narval, uma espécie de cetáceo marinho raramente visto na Europa, mas relativamente comum na região ártica.

Se por um lado esse conhecimento nos ajuda a compreender o mundo em que vivemos, é impossível deixar de lamentar que uma parcela da crença e do misticismo original está se perdendo, talvez para sempre.

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