segunda-feira, 27 de junho de 2011

Resenha | The Whisperer in Darkness - O melhor filme até hoje inspirado por H. P. Lovecraft


O que diferencia um filme puramente comercial de um filme feito por fãs?

Essa é a pergunta principal para entender uma produção como "The Whisperer in Darkness". Inspirado na obra homônima de H.P. Lovecraft, o filme foi produzido de forma independente pela H.P. Lovecraft Historical Society (HPLHS) e é acima de tudo uma homenagem de fãs a um dos grandes mestres do horror do século XX e uma declaração de amor a sua obra. E é justamente essa devoção que faz toda a diferença, pois quem melhor do que os fãs para traduzir a atmosfera dos Mythos ancestrais e fazer com que eles ganhem vida de forma tão espetacular?

Sem nenhum exagero, The Whisperer in Darkness é a melhor adaptação de um conto de Lovecraft para o cinema até os dias atuais. Um trabalho apaixonado de fãs que realizaram algo fantástico com recursos limitados e dedicação à toda prova.

"The Whisperer in Darkness" não é o primeiro filme realizado pela HPLHS. "The Call of Cthulhu", filme com média duração (com 47 minutos) foi lançado em 2005 e já atestava o talento e inventividade da equipe responsável por Whisperer. Ao contrário da maioria dos filmes de horror ao longo dos anos, que se apropriaram das idéias lovecraftianas e as usaram em velhas fórmulas de filme B (com direito a nudez gratuita e sangue), Call of Cthulhu era um exemplo de atmosfera. Acima de tudo, uma prova que filmes inspirados pela literatura de horror podem ser bem interessantes se roteiro e diretor respeitarem a fonte original. Call of Cthulhu foi filmado no estilo dos anos 1920, preto e branco e mudo, com música do período e cartões com os diálogos dos personagens. Era uma clara homenagem também aos filmes expressinistas alemães como Nosferatu e o Gabinete do Dr. Caligari, com suas sombras profundas e imagens surreais de rara e perturbadora beleza. O resultado foi simplesmente arrebatador, a mais fiel transição das palavras de Lovecraft para o cinema até então.

Whisperer in Darkness é um filme ainda mais ambicioso. Um salto de qualidade sensacional em relação ao seu antecessor que era claramente uma produção experimental. Ao contrário de Call, esse novo filme tem duração maior (103 minutos) e som (o Mythoscope). Filmado em um glorioso preto e branco, Whisperer homenageia os filmes do gênero noir da década de 1940 com suas sombras escuras e contraste acentuado.

Ele se baseia na novela de Lovecraft - e um de seus contos mais populares - publicado originalmente em 1931. Na trama, Henry Akeley (Barry Lynch), um fazendeiro que vive em uma região isolada nas florestas de Vermont descobre estranhas pegadas deixadas por criaturas alienígenas nas cercanias de sua casa e começa a suspeitar que uma raça de seres vindos dos abismos do espaço está conduzindo uma silenciosa invasão ao nosso planeta. Pessoas estão desaparecendo e coisas estranhas vem acontecendo na calada da noite. Ele entra em contato com Albert Wilmarth (Matt Foyer) um cético professor de folclore da Universidade Miskatonic, que decide visitá-lo e descobrir se existe alguma verdade por trás das cartas e fotografias enviadas. A partir de então acompanhamos a jornada de Wilmarth e suas descobertas aterrorizantes.

O filme é muito fiel ao texto original, com direito a trechos inteiros retirados do conto palavra por palavra. No entanto, o roteiro fez algumas concessões para que a estória se tornasse mais cinematográfica e pudesse ser adaptada para esse formato. O que para alguns puristas poderia significar uma heresia, na verdade possibilita contar a estória com mais suspense e clima. É preciso lembrar que Lovecraft tinha um estilo narrativo seco, que investia em descrições e economizava em diálogos. Seria virtualmente impossível adaptar a estória em seu formato original sem efetuar alguns acréscimos à trama. Em minha opinião, e eu posso me considerar um desses puristas chatos, o roteiro consegue explorar a atmosfera original e todos os adendos são plenamente justificáveis, mesmo as mudanças no final e a inserção de novas situações e personagens.

O roteiro inclui alguns trechos que são apenas sugeridos no conto como por exemplo o debate transmitido por rádio que motiva a primeira carta enviada por Akeley a Wilmarth. Esse trecho inclui a aparição de Charles Fort, uma personalidade dos anos 30 que se dedicava ao estudo de fenômenos sobrenaturais e um personagem muito bem vindo à trama. A troca de correspondência entre os personagens também é romanceada para que não ficasse excessivamente cansativa. As cenas que se passam na Universidade Miskatonic também são excelentes elas direcionam a narrativa e ajudam a conduzir a trama. Sem dúvida provocarão um sorriso durador no rosto dos fãs.

A mudança mais drástica ocorre com cerca de uma hora de filme, a partir do momento em que o conto originalmente se encerra, quando Wilmarth descobre o segredo de Akeley. Os autores optaram por inserir uma sequência de eventos mais longa que inclui muito mais suspense, perseguição e uma desesperada fuga pelos céus de Vermont em um bimotor. Essa adição também permite que as criaturas sejam vistas perseguindo o pequeno avião em uma cena aérea muito bem realizada. As criaturas foram geradas por CGI e são a única concessão de efeitos visuais modernos ao filme. A aparência dos terríveis seres alienígenas condiz perfeitamente com a descrição de Lovecraft e é um dos pontos altos do filme.

Do ponto de vista técnico, Whisperer in Darkness é muito bem realizado. A produção foi extremamente cuidadosa, com uma atenção meticulosa aos detalhes que beira o apuro artesanal. Para driblar as limitações impostas pelo orçamento reduzido os produtores investiram em um figurino condizente, objetos de cena perfeitos e cenários que evocam o clima da época. A atenção aos detalhes do período é notável e muitos dos itens usados pelos personagens são os mesmos produzidos pela HPLHS. O gravador com cartucho de cera e o bimotor também são originais o que concede um alto grau de credibilidade.

O elenco composto por atores de teatro recrutados para o projeto dá conta do recado e consegue criar empatia com os espectadores. Matt Foyer, que também trabalhou em The Call of Cthulhu, passa simpatia ao cético professor envolvido em uma trama macabra. Barry Lynch tem uma atuação sinistra como Henry Akeley com direito a uma risada tétrica. O primeiro encontro entre Wilmarth e Akeley quando os dois discutem as estranhas manifestações na floresta é de dar arrepios. Autunm Wendel que faz o papel de Hannah Masterson também se destaca, conseguindo transmitir para o público apreensão através de suas expressões de terror. Lembrando que nenhum deles tem muita intimidade com cinema, há de se louvar o desempenho de todos os envolvidos.

Os produtores conseguiram provar que não são necessários 150 milhões de dólares, efeitos especiais mirabolantes e nomes estelares para fazer uma grande adaptação de um conto de HPL. Com pouco mais de 350 mil eles conseguiram fazer um filme fiel e instigante que vai fazer (e que já vem fazendo) a alegria dos fãs ao redor do mundo nos festivais onde está sendo apresentado.

Que venham outros, muitos outros!



14 comentários:

  1. Excelente! Só faltou dizer como consigo essa raridade! Thanks!

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  2. Estava pensando o mesmo que Doug!

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  3. para quem for de porto alegre, recomendo assistir durante o fantaspoa.

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  4. e quando sai a versão legendada em brasileiro?

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  5. Sou outro a indagar: onde assistir a essa joia?!?! Digam-me, please!!!

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  6. O filme fará parte do RioFan 2011 agora em Julho e aparentemente também será exibido no Fantapoa em Porto Alegre.

    Imagino que possam haver outras exibições pelo país. Fora isso, o jeito é esperar um pouco.

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  7. assisti hoje no Fantaspoa. Execelente! Produção super bem cuidada e com climão. Gostei muito, e espero ver mais coisas da HPLHS. O Del Toro devia dar uma assistida pra se inspirar e fazer um bom Montanhas da Loucura (se é que ainda vai ser feito).

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  8. Como consigo esse filme legendado? quero exibi-lo em um evento de horror lovecraftiano aqui em Belém.

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  9. Opa John,

    Também gostaria de saber, esse filme é muito difícil de conseguir.

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  10. Pois é, bem difícil, procurei bastante e nada, talvez no máximo sem legenda... se alguém conseguir com legenda avisa rsrs

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  11. Por enquanto, só achei legenda em espanhol: http://pt.podnapisi.net/static/podnapisi/f/6/0/f60f49139aabf29d7eddbf13cffa326775deeffa.zip

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  12. Não gostei do filme. O final é ridículo comparado ao conto. Prefiro o anterior (The Call of Cthulhu), que foi mil vezes mais fiel à obra original.

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  13. Traduzi a legenda em espanhol para o português, prá quem se interessar, já postei no Legendas TV. Bom proveito.

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  14. Acabei de assistir esse filme, cinco anos após o lançamento. Para mim, acho que o final estragou o que estava sendo uma boa adaptação. O clima aventuresco destoou do resto do filme.

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