quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Cruz na Selva - Nazistas exploram a Amazônia brasileira em 1935-1937


Há uma enorme cruz de madeira com três metros de altura fincada em um humilde cemitério numa ilhota no Rio Jari, entre os estados do Pará e o Amapá.

Não seria nada de incomum, exceto pelo fato da cruz ser adornada por uma suástica - o símbolo nazista - e ter palavras escritas em alemão gravadas. Para os que são capazes de ler o idioma, ali está escrito:

"Joseph Greiner faleceu aqui em 2/1/1936, de febre, em serviço de exploração para a Alemanha"

Poucas pessoas sabem quem foi esse homem de nome incomum e o que ele veio fazer naquele fim de mundo. Menos gente ainda sabe que esse marco é um dos únicos símbolos que restaram da passagem de uma expedição patrocinada pelo Terceiro Reich em território brasileiro em plena década de 30.

É isso mesmo. Entre os anos 1935 e 1937, uma expedição nazista permaneceu no Rio Jari, na foz do Amazonas, realizando pesquisas, mapeando caminhos e explorando um dos pontos mais estratégicos, senão o mais importante local de acesso à região amazônica. Identificando-se como uma expedição de caráter científico os homens mapearam o que seria a porta de entrada para uma invasão aos últimos enclaves sul-americanos, dominados por seus inimigos ingleses, franceses e holandeses, as Guianas.

Contudo, momentos dramáticos envolvendo desafios intransponíveis e perigos inimagináveis se seguiram, apresentando aos nazistas todas as nuances do Inferno Verde amazônico. A expedição, idêntica à Alemanha nazista - ambiciosa, confiante de que dominaria o mundo e levada pelo sentimento de superioridade racial - terminou afogada em delírios de poder.

A expedição era patrocinada por Hermann Göering e chegou ao Brasil em meados de 1935, desembarcando em Belém do Pará. Os alemães diziam estar em missão especial do governo do Reich, e que tencionavam fazer um levantamento da geografia, da fauna e dos povos da região amazônica. Tudo em caráter inteiramente científico e com dados a serem compartilhados com o governo brasileiro.

Os jornais do Rio de Janeiro, noticiavam a chegada com reservas, contestando o fato de que os objetivos fossem pacíficos. Poucos acreditavam que aqueles aviadores tão jovens e com notável carreira militar pudessem também ser cientistas. Diante disso, o líder da expedição, Otto Schulz-Kampfhenkel, teve que viajar para a Capital e pedir uma permissão especial do governo brasileiro, comandado por Getúlio Vargas. Em poucas conversas, o governo mostrou-se disposto a ajudar no que fosse necessário.

O Brasil vivia uma verdadeira lua de mel com a ideologia nazista. Vargas, e uma parcela significativa das forças armadas, não escondiam a simpatia pela Alemanha de Hitler. O país, ora adulava a Alemanha, ora os Estados Unidos. E assim caminhava no fio da navalha, às vésperas da 2ª Guerra Mundial sem decidir para que lado pender. A Alemanha de Hitler – tudo sinalizava – era a bola da vez para dominar o mundo, era uma das mais poderosas nações do planeta. Fazia sentido manter boas relações com aqueles caras.

Sem mais delongas, os estrangeiros deram início à viagem, agora na companhia de um quarto integrante: Joseph Greiner, um alemão radicado no Brasil que serviria de capataz na expedição.

A expedição era robusta e nada modesta. Ela contava com um hidroavião adaptado aos rios amazônicos e cedido pela Luftwaffe, o Ministério da Aeronáutica Nazista que seria largamente utilizado para testes de técnicas de mapeamento aéreo, posteriormente usadas para fins militares. Um acordo entre os ministérios das Relações Exteriores e da Guerra de Brasil e Alemanha assegurou a isenção de impostos para mais de 30 toneladas de material trazido da Europa. O equipamento incluía modernos aparelhos fotográficos e de filmagem, material agrimensor para mapeamento, além de armamento pesado e 5000 cartuchos de munição.

Foram contratados 30 mateiros, caboclos conhecedores da selva, desbravadores de rios, e que circulavam com naturalidade num meio hostil, dominado por cobras, malária, piranhas, mosquitos e predadores. Índios que conheciam os segredos da mata e dominavam remédios naturais também faziam parte da expedição. Os Aparaí, uma das mais selvagens tribos da região, cedeu guerreiros para escoltar aqueles estranhos de pele clara e cabelo amarelo, pelo interior da floresta.

Os alemães ficaram impressionados com os nativos que descreviam como "construídos como atletas olímpicos (...) parecendo estátuas de bronze modeladas por um artista". Trataram logo de fazer amizade com os índios, oferecendo a eles presentes em troca de informações sobre a região. A integração foi imediata. Os alemães foram adotados pela tribo Aparaí, que chamavam o visitantes de papa e onkel, ou seja, "papai" e "tio" em alemão.

O roteiro já estava minuciosamente planejado e provavelmente fora definido anos antes em algum quartel na Alemanha. Subiriam o Rio Jari, até alcançar a Guiana Francesa demarcando minuciosamente todo o trajeto pela mata aberta a golpes de facão. O hidroavião, batizado de “Água Marítima” faria o mapeamento aéreo e daria suporte a expedição em terra.

Mas as coisas começaram a dar errado logo no início, a aeronave - peça essencial nos planos - perdia-se constantemente já que não haviam referenciais para o piloto se guiar com precisão - tudo era floresta a se perder de vista. O veículo encontrava dificuldades para pousar e decolar. O leito do Rio Jari guardava surpresas sob a superfície, pedras e madeira. Após uma tentativa de pouso o avião foi seriamente avariado no meio de toras. Usado exclusivamente para transportar mantimentos, teve ainda o trem de pouso destruído. Totalmente inútil no meio da selva, foi desmontado e enviado de volta à Alemanha.

Dali em diante, a expedição seguiria a bordo de canoas, devidamente conduzidas pelos guias da região. O transporte não era dos mais rápidos, mas era mais adequado para a observação da fauna. Decididos a levar espécimes como troféus, os alemães disparavam em qualquer alvo que se movesse, praticavam tiro ao alvo com papagaios e araras, abatendo tatus e preguiças aos montes, derrubavam macacos das árvores com tiros de espingarda. Quando não estavam atirando, estavam ensinando os índios a atirar usando lentes telescópicas. Em troca aprendiam a usar zarabatanas e tacapes. No campo da troca de informações, as técnicas mais letais eram o principal assunto compartilhado.

Apesar disso, o azar continuava; a floresta parecia repudiar a expedição como se fosse uma infecção combatida por anticorpos.

Uma das canoas que levava a maior parte do material de precisão necessário para a cartografia afundou durante uma violenta enchente. Para piorar, parte das provisões estragaram, forçando a equipe a caçar e tirar sustento do que pudesse extrair da floresta. Os indios e mateiros podiam suportar isso, os estrangeiros não. Foi nessa ocasião que Joseph Greiner foi incumbido de seguir para o povoado de Santo Antonio para comprar suprimentos. No meio do caminho, contraiu malária e morreu fulminado pela doença poucos dias depois. Foi enterrado ali mesmo, numa ilha do Rio Jari.

Os outros também enfrentavam perigos. Otto Kampfhenkel quase morreu ao tentar subir as violentas corredeiras do Jari. Dois de seus colegas tiveram apendicite e outro pegou malária, mas sobreviveu. Para os índios, os alemães estavam sendo punidos pelo desrespeito a natureza e principalmente por matar uma sucuri de 7 metros, um animal sagrado.

Apesar dos infortúnios e do temor dos indígenas, os alemães estavam decididos a seguir rio acima. Queriam chegar à Guiana Francesa de qualquer maneira e fariam uma última tentativa nesse sentido. No esforço, vários guias morreram afogados, as chuvas de janeiro estavam fortes demais e criavam corredeiras selvagens contra as quais não havia como lutar. Diante de um quadro de deserção cada vez mais óbvio, decidiram interromper a viagem ali mesmo sem atingir o objetivo.

A Amazônia havia se mostrado um desafio grande demais até para o Terceiro Reich.

Em fevereiro de 1937, a equipe desceu o rio Jari para atingir um povoado onde reabasteceram as provisões e iniciaram o caminho de volta. Mas a expedição não saiu de mãos vazias, havia coletado valiosas informações sobre a região. Mais de 500 peles de mamíferos, 2500 fotografias e 2700 metros de filme. Receberam congratulações do ministro de Propaganda do Reich, Josef Goebbels, que o considerou "politicamente valioso e de grande valor educativo para o povo".

Tudo, ou quase tudo, nessa incursão beira o bizarro. Apesar de toda a propaganda alardeada sobre pureza racial, Otto Kampfhenkel, membro do Partido Nazista, terminou vivendo uma tórrida paixão, pela filha de um cacique Aparaí, disso resultando um cruzamento da “superior” raça alemã com uma selvagem. A carne é fraca, ainda mais nos doces trópicos. A caboclinha batizada Cessé, de olhos estonteantemente azuis, passou a ser chamada, pelos seus contemporâneos, de “alemoa”.

A tranqüilidade do convívio entre alemães e índios era notável. Havia respeito e simpatia entre os povos, o que é surpreendente se pensarmos na doutrina nazista que contemplava uma suposta superioridade racial. À noite, os membros da expedição se juntavam ao redor da fogueira para ouvir valsas e marchas militares que saíam do gramofone trazido de Berlim. Antes de ir dormir, os índios davam seu boa-noite conforme haviam sido ensinados: "Gute nacht" diziam.

A documentação sobre a expedição foi analisada e o alto-comando nazista considerou a possibilidade futura de uma incursão militar na região. As jazidas minerais e riquezas do Brasil, eram um prêmio pelo qual valia a pena lutar, mas nessa altura a guerra prometida já ocupava toda atenção dos alemães e eles não ousariam dispensar tropas em uma missão que podia esperar a resolução do conflito. Não há dúvidas de que no caso de um cenário positivo ao fim da guerra, os alemães seguiriam com seus planos para ocupar o norte da América do Sul.

Em carta para Hitler, em 3 de abril de 1940, o oficial da SS Heinrich Peskoller, que analisou a logística da operação afirmou categoricamente que os metais preciosos da região – ouro e diamantes – seriam o bastante para acabar com a dificuldade financeira da Alemanha contraídas durante o esforço de guerra. Além do interesse financeiro, Peskoller manifestou que a região seria um bom lugar para a raça ariana viver: “O empenho e a técnica alemã poderiam domar as inúmeras cachoeiras na forma de usinas hidrelétricas colossais, podendo fazer uma rede elétrica em todo o país" escreveu Peskoller em seu memorando.

Apesar de todo planejamento, uma segunda expedição jamais saiu do planejamento. A decisão de não prosseguir com o plano foi do líder da SS, Himmler, que ponderou que a guerra havia ganhado proporções maiores e seria mais inteligente focar as forças alemãs no front europeu.

De qualquer forma, é assustador imaginar o interesse dos nazistas em nossas riquezas e que se a guerra tivesse pendido para o lado do Eixo, as coisas teriam sido bem diferentes para nós também. Ao menos, a única suástica em território nacional foi aquela gravada em uma cruz nos arredores do Rio Jari. Um marco silencioso para uma expedição sobre a qual ainda se sabe muito pouco.

4 comentários:

  1. Ótimo artigo, e interessante também, legal também o chefão se apaixonar pela Índia, tipo, mostrando que todo totalitarismo besta pode ser ultrapassado pelo amor (fui profundo xD) Daria um ótimo livro ou filme! E estas histórias de Expedições de Nazistas são muito boas para dar base para uma história ao tipo Indiana Jones e a Arca Perdida.
    Parabéns pelo blog!

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  2. Uma coisa mais interessante é a visão que eles tiveram de utilizar as aguas do rio enquanto atualmente ninguem se mobiliza para tal.

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  3. ótima... não sabia mesmo! Tem muito material bom para explorado.

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  4. PARABENS PELO ARTIGO!!ESSA PARTE DA GUERRA EU NAO CONHECIA!!

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