quarta-feira, 5 de junho de 2013

Explorando os Mitos mais Obscuros - Quachil Uttaus, o Andarilho do Pó


No universo do Mythos de Cthulhu, a mera existência de certas entidades representa perigo incalculável. Criaturas de incrível poder e torpeza, cujo mais breve contato é suficiente para desencadear uma reação irrefreável de loucura, morte e danação.

Dentre a extensa lista de horrores impronunciáveis que podem ser invocados pelos audazes exploradores do Mythos, aquelas almas ávidas por desvendar os mistérios ancestrais, o Grande Antigo que atende pelo nome Quachil Uttaus talvez seja um dos que oferece maior risco.

Não é de se estranhar que ele seja uma entidade obscura até para os padrões do Mythos de Cthulhu. Descrito apenas no incrivelmente raro tomo intitulado "Testamento de Carnamagos", Quachil Uttaus está ligado a noções entrópicas de tempo, morte e corrupção. Ele é uma força que age fisicamente sobre seus arredores, operando traiçoeiras alterações no ambiente para o qual é invocado.

No passado distante, ele foi venerado por feiticeiros da legendária Era Hiboriana, entre os quais o próprio Carnamagos. Informações sobre a pérfida barganha firmada entre o mago e a criatura constam em algumas versões do Testamento, copiadas por monges greco-bactrianos no século IX. Esses manuscritos contém orações e mantras que podem ser utilizados para acessar um estado de percepção sensorial elevada que permite o contato com Quachil Uttaus. A razão para buscar o Grande Antigo se explica pelo rumor de que ele pode conceder a imortalidade, uma vez que ele dita o processo de corrupção de todas a matéria do universo. Ocultistas de renome tentaram ao longo das eras ganhar sua atenção e pleitear sua benção.

Até onde se sabe, poucos foram bem sucedidos em seu intento e mesmo estes, não tiveram aquilo que aspiravam, tendo obtido a almejada imortalidade, mas gozando dela em corpos envelhecidos e doentes.

Sabe-se que o extraordinário feiticeiro Eibon escreveu em seu tomo uma sábia advertência: "Invocar Quachil Uttaus é em última análise, cortejar a perdição, a obliteração e o esquecimento. E mesmo os frutos de um aparente sucesso, tendem a ser amargos como a poeira em que vaga o Andarilho". Este trecho por sinal concedeu a Quachil Uttaus o seu epíteto: "O Andarilho do Pó".

Desenho do Livro de Eibon
A aparência desse Grande Antigo é bizarra e incomum. Ele não é um horror abominável, gigantesco ou tentacular, pelo contrário. Sua aparência remonta a certa humanidade, ainda que aniquilada e destituída de vigor. Descrito como uma espécie de múmia do tamanho de uma criança humana, ele não mede mais do que um metro e vinte de altura. A forma se apresenta encolhida, murcha e seca, com os membros atrofiados terminando em cotos imóveis acometidos por um perene rigor-mortis. A pele seca e cinerícia se estica sobre os ossos a ponto de quase se romper como um tecido coreáceo. Há uma camada fina de poeira com eras de idade sobre todo seu corpo desnudo.

A face enigmática não possui feições, é apenas uma massa sombria na qual não se identificam olhos, nariz, boca ou orelhas. Não obstante, ele parece ser capaz de perceber os seus arredores. Em sua condição de eterna imobilidade, Quachil Uttaus flutua delicadamente no ar como se fosse uma sombra cinzenta, planando em meio a uma luminosidade empalidecida vinda do alto sempre que ele se manifesta. Essa luz é descrita pelos poucos que a vislumbraram como um brilho mortiço, a anátema de tudo aquilo que vive. "As Luzes Mortas" escreveu um ocultista do século XVIII, e continuou: "Um brilho que não é luminosidade e nem calor, que pelo contrário, se mostra frio e angustiante. Algo cujo mero vislumbre transmite ondas de repulsão e é capaz de aniquilar a vida em poucos segundos".

Em alguns casos, credita-se a existência de uma espécie de halo metálico que flutua sobre a entidade, e deste provém o tal brilho. Para alguns essa é uma espécie de "janela" ou "portal" para uma dimensão de completa entropia que permite a passagem mínima da luz. Há conjecturas de que, se essa passagem fosse maior, a luz poderia se alastrar e afetar todo o planeta.    

O Andarilho possui certo grau de controle sobre o tempo, e pode ao seu bel-prazer influenciar anomalias temporais. Para isso ele faz incidir sobre uma determinada área ou especificamente sobre um indivíduo a luz que o acompanha. O efeito é imediato e tudo que é banhado por essa luminosidade encanecida começa a envelhecer de modo acelerado. Anos passam em segundos, e qualquer material exposto apresenta sinais óbvios e permanentes de desgaste e corrupção. Se a luz incide sobre uma pessoa, por um mero segundo que seja, ela é capaz de produzir alterações significativas em sua constituição física. Jovens se tornam adultos em um lampejo e indivíduos maduros se vêem como anciões alquebrados de um momento para o outro. Os cabelos ficam grisalhos, os ossos enfraquecem, uma compleição pálida e fantasmagórica se espalha, bem como rugas e manchas senis que denotam uma venerável decrepitude. Se a luz incidir por tempo suficiente sobre uma pessoal, seu corpo irá continuar envelhecendo cada vez mais rápido, até que após alguns instantes tudo o que reste sejam ossos amarelados e descarnados. Se ela persistir, mesmo estes irão seguir deteriorando, até se partirem e se esfacelar em uma fina poeira. E é justo dessa medonha qualidade que o Andarilho do Pó, deixa impressas suas pegadas.
Representação de Quachil Utaus em um papiro chinês

Em face desse risco colossal, não é de se surpreender que muitos feiticeiros optam se abster de qualquer contato com esse Grande Antigo. O nome Quachil Uttaus é até evitado em certos círculos místicos tamanha a sua reputação. 

Isso não quer dizer que alguns não tenham tido êxito em estabelecer um acordo com ele.    

Quachil é capaz de se comunicar telepaticamente com aquele que o invocou fisicamente. O Testamento de Carnamagos cita algumas palavras místicas que o feiticeiro interessado em realizar uma barganha deve repetir em voz alta na sua presença: "Exclopios Quachil Uttaus!".

Uma espécie de saudação, aparentemente reconhecida pela entidade. Se o Grande Antigo julgar o pleiteante digno, ele simplesmente não o destruirá com sua luz pálida. Há rumores que aqueles dispostos a se sujeitar em servitude eterna, por vezes recebem como recompensa conhecimento esotérico e em alguns casos até mesmo poderosas magias. Contudo, Quachil Uttaus não é conhecido pela sua paciência ou clemência, qualquer ato que o desagrade é punido com severidade resultando na destruição do feiticeiro. 

Isso talvez explique porque jamais existiu um culto devotado ao Andarilho do Pó e porque ao longo das eras ele foi quase esquecido. Hoje, mesmo entre exploradores calejados pelo contato com o Mythos, Quachil Uttaus é um nome sussurrado com medidas iguais de medo e respeito.

Achou interessante? Que tal outros artigos da série "Explorando os Mitos mais obscuros"?

Nyogtha

Y´Golonac

Eihort

Shub-Niggurath

Mi-Go

Star-Vampire

4 comentários:

  1. Um Grande antigo bem diferente do padrão HPL. Ele possui uma natureza incompreensível como todos os outros mas este parece ter uma natureza ainda mais nefasta: é o fim manifestado!

    ResponderExcluir
  2. De fato, uma abordagem que ainda não tinha visto com outras criaturas dos Mithos.

    Não sei se havera regras para contatos com ele, mas seu poder de envelhecer e trazer decadencia pode torna-lo um dos mais perigosos para os Investigadores.

    ResponderExcluir
  3. Texto fenomenal! Só uma coisa, ele se parece mais com um deus exterior não? Por ser a manifestação de uma grandeza...

    ResponderExcluir
  4. Texto fantástico! Mas ele não seria um deus exterior, por ser a manifestação de uma força da natureza?

    ResponderExcluir