terça-feira, 18 de março de 2014

Os Garotos da "Casa Branca" - Descoberta macabra em antigo reformatório expõe horror


Quase um século de horror está vindo à tona no Sul dos Estados Unidos

Uma escavação na Escola Arthur G. Dozier para Menores Infratores no estado da Flórida resultou na descoberta de 55 corpos depositados em covas não identificadas em vários pontos do terreno. A instituição que funcionava como reformatório para rapazes hospedou cerca de 1,400 internos no seu período mais ativo. A investigação inicial, conduzida pelo Departamento de Justiça do estado da Flórida buscava originalmente determinar se no cemitério haviam cadáveres não identificados.

Os esforços na recuperação dos cadáveres vem sendo conduzidos pela Dra. Erin Kimmerle, professora do Departamento de Antropologia Forense na Universidade do Sul da Flórida, e envolve atualmente mais de cinquenta pesquisadores de nove diferentes agências. O objetivo deles é identificar crianças desaparecidas, determinar a causa da morte e proporcionar a elas um enterro decente.

Durante a coletiva de imprensa, a Dra. Kimmerle expressou a motivação de todos os envolvidos nessa missão: “Nós pretendemos conceder às famílias uma solução, uma espécie de fechamento para que os pais finalmente saibam o que aconteceu aos filhos. Com isso eles poderão saber em que circunstâncias seus filhos morreram e providenciar o descanso que merecem”.

O cemitério da escola, ironicamente registrava apenas 13 sepulturas assinaladas por cruzes feitas de canos de PVC. Nem todas estavam marcadas, o que levou as autoridades a pedirem o auxílio dos técnicos. A equipe enviada para o local, utilizou um radar de penetração no solo e as primeiras sondagens evidenciaram leituras de que haviam outros cadáveres sepultados fora do cemitério. "Descobrimos que estávamos diante de algo muito maior e assustador. Havia covas improvisadas em todo terreno".   

Além das ossadas, a equipe encontrou milhares de artefatos, que irão ajudar a datar mais acuradamente quando cada criança morreu e com um pouco de sorte, a sua identidade. Alguns dos artefatos incluem restos de roupas, fivelas de cintos, botões, restos de caixões e em alguns casos brinquedos, como bolas de gude que ainda estavam no bolso de um dos garotos.

Também chamada de Florida School for Boys (Escola da Flórida para Garotos) e Florida State Reform School (Escola do Reformatório do Estado da Flórida), o centro de detenção juvenil foi fundado na virada do século XX, e esteve em funcionamento de 1900 a 2011. Muito antes das escavações se iniciarem, a escola já tinha notoriedade pelas dezenas de acusações de agressão física e de natureza sexual perpetrada contra os internos ali encarcerados. Por volta de 1903 - uma época em que o sistema penal era no mínimo brutal - inspetores já recebiam denúncias chocantes de maus tratos. "Internos" eram despidos de seus nomes e identidade, passando a ser tratados apenas como números. Punição física era algo trivial, e até 1930 vigorou um conjunto de regras internas que incluía chibatadas.

Vários Estudantes, como estes vistos acima, que morreram na Escola Dozier para Garotos em Mariana, FL, foram assassinados à tiros.
Um garoto sentenciado a Escola Dozier não podia esperar tratamento decente. A comida era pouca e de procedência ignorada, muitas vezes chegava aos pratos deteriorada. Os alojamentos não tinham vasos sanitários - que só foram instalados em 1955, e até então os internos usavam potes e bacias para suas necessidades. No verão, o calor e umidade eram insuportáveis.

Um dos internos, chamado Richard Newest, que viveu na Escola quando tinha 12 anos escreveu um testemunho de sua estadia e chegou a publicar a matéria em um jornal no ano de 1964:

“Logo que cheguei a Escola, eles tiraram de mim o meu nome e eu me tornei apenas um número. Eu fui o interno R 297 por oito longos meses. No primeiro dia fui levado para um prédio, mandaram que eu vestisse um uniforme cinza, me deram um cobertor, um copo e um prato de alumínio. Eu fiquei em um alojamento com outros 40 meninos, sem separação nenhuma de idade. Os mais jovens choravam de medo durante o dia e a noite tentavam ficar em completo silêncio. Todos queriam ser invisíveis e não atrair a atenção de veteranos ou de um guarda.  Todos sabiam o que podia acontecer se um deles o pegasse sozinho. Eu comia uma vez ao dia e recebia uma ração que não passava de uma sopa rala de cascas de batata e um pedaço de pão seco. Comíamos com as mãos, rápido para que ninguém tomasse nossa comida. Mesmo hoje, passados tantos anos, por vezes ainda acordo sem ar, achando que estou na Escola Dozier".

Embora as punições físicas tenham sido abolidas nas escolas em 1968, até os anos 1980 inspeções revelaram que estudantes da Escola Dozier eram disciplinados com palmatórias, cordas molhadas e porretes. Uma investigação conduzida pelo Departamento de Justiça, com base nas acusações, levaram ao fechamento da instituição em maio de 2011. Apesar das investigações, a razão oficial para o fechamento do reformatório foi a falta de fundos para mantê-lo em funcionamento.
A escola foi criada para alojar crianças e adolescentes que cometeram crimes como roubo e assassinato. Uma alteração na legislação estadual, incluiu crimes de menor potencial ofensivo, baixando os requerimentos para internação. Isso levou a um considerável aumento da quantidade de detentos e uma mistura de elementos violentos, com várias passagens por reformatórios, com indivíduos sem histórico de violência.

Rapazes que eram enviados para a escola, se referiam a si mesmos como "The White House Boys" (Garotos da Casa Branca). O apelido se refere ao prédio principal da escola, pintado com uma cor branca imaculada. Crianças com idade variando entre cinco e dezoito anos eram enviados para a escola. Muitos deles eram submetidos a agressão, humilhações, surras e estupro, praticada por internos mais velhos ou pelos próprios funcionários. Quando foi fundada a "Casa Branca" também ganhou fama por utilizar correntes com bolas de ferro presas ao calcanhar dos jovens e por confiná-los em cubículos subterrâneos escavados no próprio pátio. Internos eram mantidos por períodos de até dois meses em isolamento nessas celas. 


Com a rotina de maus tratos sendo a regra e não a exceção, muitos internos morriam em decorrência de ferimentos ou de doenças agravadas pelas condições deploráveis. Os mortos eram enterrados clandestinamente em diferentes lugares da escola, no pátio, nos jardins ou em valas. Desde a fundação da Instituição os registros definiam a maioria dos óbitos como "causa desconhecida", isso quando as mortes não eram sequer comunicadas. Funcionários em várias ocasiões sequer informavam as famílias dos internos, e não forneciam certidão de óbito ou conduziam procedimento administrativo para identificar a causa. Há suspeitas de que muitos cadáveres tenham sido queimados no incinerador da escola, tornando impossível a identificação dessas vítimas.

Como resultado da extensiva pesquisa conduzida pela equipe da Dra. Kimmerle, já foram encontrados 98 rapazes que morreram no reformatório entre os anos de 1914 e 1973. A maioria dessas vítimas são jovens negros, com idades que variam entre 6 e 18 anos. Durante as exumações, o time de antropólogos descobriu que pelo menos sete deles morreram violentamente na mesma época. Há indícios de que eles tenham sido mortos em uma tentativa de fuga ocorrida nos anos 1960. Quatro deles tinham ferimentos a bala e marcas condizentes com uma agressão brutal. Os sete haviam sido enterrados em uma mesma vala, próxima ao portão principal.

Outro grupo composto por cerca de 25 internos também foram sepultados em uma vala comunitária em meados de 1914 quando um incêndio destruiu um dos alojamentos. Na ocasião, as portas trancadas impediram a fuga dos internos que morreram queimados. Uma epidemia de gripe também foi responsável por 13 mortes nos primeiros anos da década de 1920.

Não é exagero, dada a quantidade de cadáveres descobertos e as inúmeras estórias contadas por indivíduos que habitaram a "Casa Branca" e sobreviveram à experiência, assumir que a grande maioria das mortes não sejam resultado de causas naturais. De fato, os antropólogos determinaram que inúmeras ossadas apresentam sinais de violência e outros atos bárbaros. Mais de 25% dos internos identificados morreram nos primeiros três meses de cumprimento de pena, o que demonstra claramente o grau de mortalidade das instalações.


Pesquisadores sugerem que muitas das crianças e adolescentes enterrados podem ter sido assassinados. Apenas o exame detalhado de cada um pode estabelecer a causa de suas mortes. Cinco conjuntos de mostras de DNA foram enviadas para a Universidade do Norte do Texas e para o Centro de Ciências para identificação dos corpos. Antropólogos também utilizarão programas de computador para reconstrução facial a fim de aumentar as chances de reconhecimento. 

A Universidade do Sul da Florida começou a efetuar as escavações no terreno da Escola em Agosto de 2013. A Secretaria do Estado tentou impedir o início dos trabalhos, inclusive recusando a autoridade dos envolvidos na investigação. A equipe foi forçada a recorrer a várias entidades e até ao Governador da Florida Rick Scott, que finalmente permitiu o início dos trabalhos. 

As primeiras semanas de trabalho expuseram a horrível verdade a respeito da Escola Dozier, quando os pátios começaram a ser sistematicamente escavados após denúncias de ex-internos que apontavam onde corpos poderiam estar enterrados. Desde 2008, quando as autoridades deram início às investigações, mais de 500 pessoas se apresentaram voluntariamente para dar seu testemunho sobre a horrível rotina de morte na "Casa Branca".

Em 2009, uma comissão que acompanhou os procedimentos levou as autoridades a expedir mandatos de prisão para funcionários que trabalharam na Escola Dozier entre 1950 e 2010, inclusive três ex-diretores. Segundo os investigadores, ex-funcionários confessaram que o regime de horror imposto para os internos incluía agressões e intimidação constante. A ausência de registros se mostrou uma dificuldade adicional em determinar o grau de envolvimento de cada funcionário. Acusações de que muitos rapazes sofreram abusos físicos e sexuais também vem sendo examinadas, mas essas alegações são muito difíceis de corroborar mediante análise dos restos humanos. Até o momento, não foram oferecidas acusações para essas denúncias, mas a quantidade de testemunhos pode enfim ajudar a condenar guardas e funcionários envolvidos em tais crimes, alguns praticados há mais de 40 anos.

O Departamento de Justiça decretou o fechamento da Escola Dozier em dezembro de 2011, mediante pressão da população e de entidades de direitos humanos. O decreto assinado pelo governador da Florida atestou que a Escola falhava em oferecer proteção e dignidade aos internos, em fornecer reabilitação, que violava direitos básicos do processo legal, além de implementar métodos disciplinares e de confinamento inconstitucionais.


Enquanto o processo segue em frente, a Dra Kimmerle planeja a abertura de uma nova frente de escavação com o apoio de mais 30 pesquisadores. A área a ser escavada corresponde a um terreno junto de dois alojamentos que foram desativados na metade da década de 70 e que muitos ex-internos apontam como uma área onde aconteceram muitos enterros. Ela espera localizar um cemitério clandestino dessa vez de internos em sua maioria de ascendência caucasianaSegundo a Dra. Kimmerle, até a década de 1960, haviam cemitérios separados para internos de diferentes grupos étnicos. "Não sabemos o que vamos encontrar, mas com certeza, ainda há muitos corpos esperando serem encontrados".

Os horrores que estão sendo resgatados do solo escuro da Escola Dozier cobrem quase um século de injustiça e vergonha na História americana, incluindo a tentativa das autoridades de esconder os fatos. Ela mostra que mesmo na mais poderosa e rica nação do planeta, crianças e adolescentes estão sujeitas a condições aterradoras e ao descaso da sociedade.

13 comentários:

  1. Nossa que interessante! Parece roteiro de filme, que não duvido que seja feito, caso a história comece a ficar conhecida.

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    1. Acabei de assistir no investigação Discovery e com pesquisar aqii

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  2. ...é...os " de menor " de hoje em dia aqui do Brasil mereciam conhecer essa instituição...minha opinião...

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    1. ...quando um " de menor " estuprar ou assassinar alguém que você ama...e não ir preso...você não achara desumano...que jamais aconteça com você ou com quem você ama para sua opinião não mudar...a minha mudou...e faz tempo...os " de menor " do Brasil ( uma grande maioria ) mereciam sim estar em uma " instituição " dessa...e como eu disse...minha opinião...

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    2. Minha opinião coincide com a sua

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    3. Mas como no programa disseram, nem todos faziam por merecer. Alguns iam por que suas famílias não tinha condições de cria-los. Concordo sim, que alguns deveriam sentir o mesmo mal que causou. Só os que tipo, mataram, abusaram.. etc.. Coisas "menores" tipo, furto, deveria haver prisão. É o que acho.

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    4. Mas como no programa disseram, nem todos faziam por merecer. Alguns iam por que suas famílias não tinha condições de cria-los. Concordo sim, que alguns deveriam sentir o mesmo mal que causou. Só os que tipo, mataram, abusaram.. etc.. Coisas "menores" tipo, furto, deveria haver prisão. É o que acho.

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  3. Acabei de assistir sobre este caso no canal ID! No programa, que era de 2014, disse que os resultados da pesquisa seriam publicados em 2015! Bom, estamos em 2016 e vim para a internet saber mais sobre!
    Quanto aos "de menor", digo, claro, ninguém gostaria que um parente ou alguém querido fosse estuprado, assassinado por um menor, e esse não fosse punido! Ok! Mas e se fosse o contrário? Se fosse o seu filho, parente ou alguém querido sofrendo violência?! Outra coisa, infelizmente esses jovens são, em sua grande maioria, pobres, carentes, sem grandes oportunidades na vida. Em sua grande maioria são jovens que convivem com a marginalidade desde cedo! Então o problema é mais embaixo! Violência nunca é, e nunca será meio de ressocialização, tampouco será motivo que se justifique!

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    1. concordo com você, fis a mesma coisa mas não achei nada a respeito ,disseram que resultado sairia 2015

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