quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Canibais, zumbis e Maldições contra Hitler - A vida no limite de William Seabrook


Em 22 de Janeiro de 1941, um grupo de pessoas se trancou em uma cabana nas florestas do estado norte-americano de Maryland com uma importante missão: eles tentariam matar Adolf Hitler.

Seu método e a escolha das armas era no mínimo curiosa. Um manequim, um uniforme nazista, alguns machados, uma caixa de pregos, bebida alcoólica suficiente para embriagar um exército e uma forte crença nos poderes da Magia Negra. 

Hoje em dia, a história continua sendo das mais estranhas, e entre os participantes desse peculiar ritual estava uma das figuras mais estranhas da História dos Estados Unidos. Hoje pode parecer apenas uma excentricidade, mas para os indivíduos que tomaram parte do experimento, não foi nenhuma brincadeira. Eles realmente acreditavam que os poderes envolvidos da magia negra invocada conseguiriam amaldiçoar Hitler e enviar sua alma gritando para o inferno. E para mostrar que falavam sério, eles convidaram um fotógrafo e repórter da Revista LIFE para documentar todos os acontecimentos. 

Quem conduziu o experimento ritualístico de magia negra foi ninguém menos do que William Seabrook um dos mais polêmicos e influentes jornalistas do período. Isso talvez explique a credibilidade de uma loucura desse tamanho ganhar as páginas da mais importante publicação da época.

Atualmente poucas pessoas sabem quem era ele, mas Seabrook foi muitas coisas durante sua vida: Autor, pesquisador, viajante, explorador, ocultista e membro de uma Geração Perdida. Um homem estranho mesmo entre os estranhos, capaz de testar os limites da civilização e quebrar tabus que a maioria das pessoas viraria o rosto nauseadas. Ah, sim, Seabrook foi entre outras coisas, ao menos uma vez, um canibal.


Foi durante uma viagem pelo continente africano em 1935, onde Seabrook trabalhava como correspondente internacional, que ele conseguiu fazer contato com a perigosa Tribo Guéré. Os nativos habitavam uma região selvagem na então colônia francesa da Costa do Marfim. Eles eram hostis e atacavam qualquer um que ousasse adentrar seu território. Meses de negociação permitiram ao repórter e um pequeno grupo, não apenas encontrar o líder Guéré, mas negociar com ele. Dizem que Seabrook presenteou o Chefe Tribal com uma caixa de rifles e munição para ganhar sua atenção. Ainda assim, o presente não garantia que ele, ou seus companheiros, conseguiriam sair de lá com vida.

O objetivo da expedição, era ainda mais ousado. Seabrook queria encontrar verdadeiros canibais e registrar sua sociedade para um livro que ele planejava escrever, "Jungle Ways" (Costumes da Selva). Mas como sempre, ele esperava ir além, desejava comungar com os nativos e experimentar sua cultura ao máximo para assim compreender seu comportamento. Queria ser um deles, e para isso teria de se alimentar como eles... de carne humana. Os Guéré, no entanto, o enganaram e embora tenham lhe oferecido uma refeição afirmando se tratar de carne humana, na verdade lhe entregaram carne de gorila. Furioso o repórter partiu da aldeia por pouco não causando a morte de toda expedição. De lá seguiu para o Sudão onde conheceu um feiticeiro tribal que também era cozinheiro, um homem que prometeu saciar sua obsessão pelo canibalismo. O feiticeiro cumpriu sua parte no acordo e como resultado, o explorador escreveu um parágrafo sobre a bizarra experiência culinária:

"A carne humana crua, em aparência, era firme, um tanto quanto densa quando comparada a outras carnes de animais próprias para o abate. A textura dela, crua, tanto aos olhos quanto ao toque, lembra um bife normal. Na cor, entretanto, ela era um pouco menos vermelha do que carne de gado. Ainda assim tinha um vermelho sangrento. Ela não era cinzenta ou rosada como a carne de carneiro ou porco".

De acordo com o livro de Seabrook, publicado no ano seguinte, carne humana tinha gosto "de um bom pedaço de vitela" e de fato "nenhuma pessoa com um paladar além do ordinário, e dos sentidos normais, seria capaz de distinguir essa carne em especial, da vitela que pode ser comprada em qualquer açougue no mundo civilizado". Embora apenas uma pequena parte de "Jungle Ways" tratasse do mergulho do repórter em um dos maiores tabus da humanidade, seu livro ficou conhecido como uma obra medonha, proibida em vários países. O livro talvez não definisse a carreira do jornalista, mas dizia muito a respeito dele.

Em vida, William Seabrook era ao mesmo tempo um homem notável e uma caricatura do ridículo. O Rei das Viagens Impossíveis e dos livros sobre povos e civilizações perdidas. Desde sua morte, a obra de Seabrook desapareceu e se tornou obscura. Recentemente, um de seus livros, Asylum foi republicado, lançando uma luz sobre a vida e obra desse cronista do absurdo.



Nascido em Maryland em 1884, Seabrook iniciou sua vida como um homem de respeito. Ele cursou a universidade e recebeu um cargo importante no semanário August Chronicle, que lhe garantiu uma vida de viagens pela Europa. Ele casou com a filha de um importante executivo da Coca-Cola e fundou uma agência de propaganda. Mas essa vida convencional logo se tornou uma espécie de inferno particular para Seabrook. Ele desejava algo mais em sua existência, embora a essa altura não 
soubesse exatamente o que.

A resposta veio em 1916, quando a Europa já mergulhava no segundo ano de uma catastrófica Guerra em que milhares de homens morriam diariamente. Seabrook deixou uma carta para esposa e colegas de trabalho alegando que precisava tomar parte no acontecimento que nas suas palavras "iriam moldar o século XX". Ele não esperou pelos Estados Unidos e antes desse se juntar ao esforço de Guerra, alistou-se como voluntário na França e recebeu a incumbência de dirigir uma ambulância no fronte. A adrenalina e o caos fizeram seu sangue fluir mais rápido do que ele poderia imaginar, dali em diante ele estava contaminado pela excitação da vida no limite.


Depois da Guerra, Seabrook fez uma séria tentativa de entrar no mundo da Literatura e passou a conviver com os círculos de boêmios do Greenwich Village. Um desses boêmios era Tony Sarg, que apresentou o jornalista a Deborah Luris a mulher que por sua vez introduziu Seabrook ao mundo proibido do sado-masoquismo. Mas para a maioria dos críticos literários, ele não passava de um repórter marginal que atraia um nicho muito específico de pessoas com histórias sobre crimes, ocultismo e sobrenatural. Ele era um jornalista que pertencia a Imprensa Marrom, um grupo que não era levado à sério.

Embora seu tempo no Greenwich Village não tenha trazido grandes benefícios para sua carreira literária, Seabrook conheceu pessoas interessantes como o estudante libanês Daoud Izzedin que encantava seus colegas da Universidade de Columbia com narrativas do Mundo Árabe. Izzedin e Seabrook se tornaram bons amigos e quando o primeiro o chamou para uma viagem até Beirute, este aceitou de pronto. Alguns meses depois, Seabrook estava vivendo entre os beduínos do Deserto da Arábia, participando de cerimônias envolvendo dervishes turcos e vagando pelo deserto no norte do Iraque sob a influência de drogas exóticas, ópio e coisas piores.

Ele retornou de suas peregrinações com histórias empolgantes a respeito de terras exóticas onde homens brancos raramente eram vistos ou apreciados. Trabalhando como correspondente, Seabrook não tinha ideia do quanto suas narrativas eram populares. Nem mesmo sabia que elas estavam sendo publicadas em várias revistas. Ele era tratado então como uma espécie de celebridade, um herói que explorava os mundos proibidos da África do Norte e do Oriente Médio trazendo para a "civilização ocidental suas experiências pessoais com os povos mais estranhos do globo" - ou assim prometiam as revistas que publicavam suas aventuras.  


Com o passar dos anos, a fama de Seabrook crescia e quando finalmente ele retornou a América encontrou um público que queria ouvir ainda mais a respeito de suas jornadas. Ele foi convidado para presidir palestras em grandes universidades. Em uma dessas palestras ouviu falar pela primeira vez das religiões africanas praticadas no Haiti e se surpreendeu com o Vodu.

Não demorou até que o obstinado jornalista conseguisse patrocínio para sua próxima aventura. Ele havia ouvido falar de um curioso mito envolvendo o folclore caribenho e que havia se firmado durante o comércio colonial de escravos. Zumbis ainda eram pouco conhecidos na época e Seabrook foi um dos primeiros americanos a se interessar pelos rumores de mortos que caminhavam. O zombi cadavre imediatamente atraiu a sua atenção e ele partiu para Port au Prince disposto a explorar a origem da lenda.

Através de um coletor de impostos mulato chamado Constant Polynice, Seabrook ouviu falar de um feiticeiro vodu (um bokor) que trabalhava para uma companhia açucareira americana. O sujeito supostamente criava zumbis para servir de mão de obra barata para a plantação. O jornalista viajou até a região e entrevistou o feiticeiro, na verdade, ele e sua esposa, que eram os responsáveis por criar os zumbis e negociar com os empresários estrangeiros. Seabrook conseguiu convencer o casal a mostrar como eles criavam os zumbis. Ele os acompanhou até uma visita a um cemitério e assistiu um cadáver ser exumado e preparado para o ritual. O morto recebeu uma pitada de sal sob a língua e foi "batizado" com um novo nome a fim de esquecer quem ele era anteriormente. Segundo a narrativa de Seabrook ele ficou na companhia dos feiticeiros por alguns dias, mas teve de fugir às pressas quando um grupo de aldeões furiosos invadiu a casa onde os bokor viviam e os massacraram.

Ainda no Haiti ele visitou o vilarejo de La Gonave, onde esteve cara a cara com outro bokor que controlava zumbis e os "alugava para trabalho escravo". Seabrook participou de um "ritual de criação de zumbis"  no qual descreveu o uso de substâncias entorpecentes cujo propósito era deixar a pobre vítima dócil e suscetível a comandos. As explorações do jornalista pelo Haiti se tornaram um livro lançado em 1929 e intitulado "In the Magic Island" (Na Ilha Mágica) que se tornou um bestseller. É possível que esse tenha sido um dos primeiros trabalhos a respeito do mito dos zumbis e vodu publicados nos Estados Unidos. É provável ainda que o livro tenha sido usado como base para a utilização de zumbis em filmes e histórias de horror ao longo da década de 1930.


O livro tornou Seabrook ainda mais popular e permitiu a ele participar de novas aventuras. Em 1933, ele esteve no Norte da África na companhia da recém criada Força Aérea Francesa em uma campanha cartográfica para mapear essa parte do continente. Foi nessa época que ele participou de sua famosa jornada pela Costa do Marfim que o tornou persona non grata e lhe valeu a fama de canibal e o apelido "Abominável Seabrook". A vida intensa de viagens e empolgação cobrou um preço alto do jornalista. Adepto de drogas experimentais e quantidades devastadoras de álcool, Seabrook mergulhou em um acentuado declínio antes de chegar aos 50 anos. 

Para combater sua dependência química e psíquica ele aceitou se internar em um asilo e enfrentar uma longa terapia que durou mais de sete meses. Ao fim do tratamento ele já tinha um novo livro pronto, "Asylum" (Asilo) que tratava de seu período sob "tutela de médicos psiquiatras e na companhia de notórios insanos". O livro foi visto com curiosidade e se mostrou um de seus últimos trabalhos que alcançou o público. Mas algumas críticas negativas tiveram um efeito devastador e ele voltou a beber. Ainda assim ele continuava a pesquisar e escrever cada vez mais interessado em temas incomuns e bizarros: Percepção extra-sensorial, reencarnação, bruxaria, satanismo e viagens astrais se tornaram parte de sua literatura especulativa e renderam mais quatro livros. 

Em 1941, Seabrook voltou a ganhar exposição ao tentar seu ritual para assassinar Hitler utilizando o Vodu. Estranho como possa parecer, ele ainda tinha seus fãs, entre eles, um grupo de jovens que vivia em Washington D.C e que havia lido o livro "Witchcraft: It's power in the World Today" (Bruxaria: Seu poder no mundo atual) e estavam interessados em aprender com ele métodos de encantamento e magia negra. O grupo contatou Seabrook e pediu a ele que os liderasse em uma tentativa de matar o líder nazista através de feitiços. Sabendo que aquilo traria alguma atenção da mídia, ele aceitou.

"Feitiços Vodu", ele explicou na entrevista publicada na revista LIFE, "funcionam apenas quando a vítima do malefício sabe que está sendo atacada pelo feiticeiro". Por essa razão, ele convidou a Revista para documentar todo o experimento.

Seguindo as instruções de Seabrook, um manequim foi vestido com um uniforme nazista. Um ajudante usou um chocalho sobre a cabeça do manequim, enquanto o grupo repetia as palavras em uníssono: "Você é Hitler! Hitler é você!"


O grupo então começou a martelar pregos em uma foto de Hitler colocada sobre o peito do manequim ao mesmo tempo que repetia as palavras: "Nós estamos enfiando pregos e agulhas no coração de Adolf Hitler". Para terminar o ritual, um grupo recebeu machados e fez o boneco representando o ditador nazista em pedaços. 

"Istam!" gritou Seabrook afirmando que a palavra invocava uma entidade pagã, "Envie 99 gatos pretos para arranhar seu coração e 99 cães negros para comer o coração de Adolf Hitler".

Quando o ritual terminou, Seabrook e seus colegas enterraram o manequim em uma vala. Ali os vermes deveriam devorá-lo, até que o homem amaldiçoado encontrasse seu fim. Os fotógrafos fizeram a festa e detalharam todo o processo. A reportagem foi publicada na Revista LIFE com o título "Feitiço para Amaldiçoar Hitler e terminar com a Guerra". No artigo Seabrook garantia que até o final do ano o líder alemão estaria morto e o conflito terminado.

Hitler é claro não morreu em 1941. Ele viveria por mais três anos antes de morrer em um bunker de Berlin em 30 de abril de 1945.

William Seabrook morreria um ano depois de Hitler, também pelas suas próprias mãos ingerindo uma dose maciça de pílulas para dormir. Ele deixou para trás, uma das vidas mais bizarras e incomuns que um homem poderia desejar.

Um comentário:

  1. Livro de Seabrook sobre vodu:

    https://archive.org/details/magicislandbywbs00seab

    ResponderExcluir