sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Elmo do Diabo - A medonha máscara do Rei Henrique VIII


Henrique VIII entrou para a história como um dos mais polêmicos monarcas da Inglaterra.

Em seu reinado, ocorreram algumas das mais profundas transformações de um período por si só conturbado. Foi Henrique que em sua sede de produzir um herdeiro masculino para o trono, casou com várias mulheres, descartando-as a medida que "elas" não eram capazes de cumprir sua vontade. Mais do que isso, para ter o que queria, o Rei ousou fazer aquilo que até então seria impensável: rompeu com a toda poderosa Igreja Católica Romana e deu início a sua própria Igreja.

Quando olhamos para as imagens de Henrique VIII vemos um sujeito rotundo e bonachão. A história conta que ele morreu de um quadro avançado de diabetes, causado por uma vida de excessos monumentais. A rotina do Rei incluía uma dieta maciça de açúcar, um profundo ócio e uma vida desregrada. Alguns estudos, apontam inclusive para uma degeneração mental, o que explica suas mudanças constantes de humor e o comportamento excêntrico. É claro, tudo isso cobrou seu preço. Ao morrer em 1547, com apenas 55 anos de idade, ele pesava mais de 140 quilos e sua cintura tinha 150 cm de diâmetro. Há relatos de que seu corpo teve de ser lavado com essências aromáticas inúmeras vezes antes do funeral em face do cheiro nauseante que dele exalava.    

Diante de tudo isso, é difícil imaginar alguém como Henrique VIII como um sujeito atletico. 


Entretanto, é fato que na sua juventude, pelo menos até os 30 anos, o Rei era um esportista dado a caminhadas, montaria e disputas de remo. Em uma justa ele se feriu gravemente e obteve uma ferida que jamais curou por completo e que foi motivo de angústia até o fim de sua vida

Uma outra faceta pouco comentada a respeito da personalidade de Henrique VIII dizia respeito ao seu gosto pelo estranho e inusitado. Tanto que ele recebia muitos presentes e agrados vindos de todos os cantos do mundo e é justo um de seus presentes mais peculiares o foco desse artigo.

O Elmo do Diabo é realmente uma peça... incomum.

Criado pelo ferreiro e ourives austríaco Konrad Seusehofer, considerado um mestre em seu ofício, o estranho elmo fazia parte de uma armadura completa. O traje mais leve e com detalhes em bronze e aço, além de filigranas em ouro e prata, foi um presente oferecido pelo Imperador do Sacro Império Romano Germânico Maximiliano I em 1514. Ele foi entregue ao embaixador em uma caixa lacrada sem que mencionassem o que havia dentro. Dizem que o embaixador cedeu a curiosidade e decidiu abrir a caixa se deparando com o estranho presente. Temendo a reação do Rei diante do regalo ofertado pelo seu senhor, o embaixador deixou a corte para que nem estivesse próximo quando um assistente entregasse a peça. Henrique, no entanto, ficou deslumbrado com o presente, tanto que escreveu ao Imperador agradecendo-lhe, coisa que raramente fazia.


A armadura jamais foi projetada para o combate, ela era consideravelmente mais leve, porém, oferecia pouca proteção em batalha. Sua função era puramente cerimonial. O poder de intimidação dela, entretanto era incrível, as pessoas tinham medo dela, e não era para menos. A armadura era toda trabalhada, com um peitoral de bronze emoldurado por uma capa esvoaçante, semelhante a asas e gravets - peças de braços e pernas, simulando escamas. As luvas de aço tinham garras e nos braços despontavam barbatanas dorsais e espinhos. Em resumo, era um traje aterrorizante. 

O elmo, entretanto, era a parte que mais chamava a atenção na armadura. 

A peça tecnicamente era conhecida como armet, uma proteção justa para o crânio, com peças para desviar ataques visando o queixo e a face. O Armet se tornou popular no século XV, sendo mais comum na Itália, França e nos Países Baixos. Era uma peça cara, que demandava grande quantidade de material e um molde da cabeça do indivíduo que o utilizaria para se ajustar. Este armet em especial tinha painéis para os olhos feitos de prata e interior em veludo. Ele foi esculpido por Seusehofer na forma de uma carranca medonha, com um sorriso diabólico, nariz adunco e expressão sardônica. Enormes chifres recurvos semelhantes aos de carneiro encimavam a peça. Para muitos ela era de gosto duvidoso, para o Rei, era perfeito! 


Henrique VIII gostou tanto do presente que imediatamente ordenou que o armeiro real fosse chamado para fazer os ajustes para que ele pudesse vestir o traje. O elmo serviu-lhe perfeitamente e ele passou a usar, mesmo em Reuniões da Corte tamanha sua satisfação. Posteriormente, Henrique mandou construir óculos para auxiliá-lo a enxergar melhor e ler os documentos entregues a ele. Os óculos foram forjados no elmo dando a ele uma aparência ainda mais estranha.

Quando finalmente a armadura ficou pronta, Henrique a usou em alguns eventos como torneios e paradas militares. A armadura, no entanto, não era nada confortável, ainda mais na medida que o Rei ganhava peso. Por fim, ele deixou de usá-la, e ela acabou sendo descartada como sucata provavelmente depois da Guerra Civil. O elmo contudo foi mantido, uma peça que o monarca adorava vestir para assustar as pessoas e que dada sua aparência acabou sobrevivendo a passagem do tempo.


Como não poderia deixar de ser, uma peça tão bizarra quanto aquela, despertava rumores. Algumas pessoas na corte diziam que o humor do Rei variava quando ele vestia a peça ou meramente a tinha por perto. Não demorou ate ela ganhar o apelido Elmo do Diabo. Acreditava-se que o elmo refletia o estado de ânimo do Rei. Quando a vestia se tornava taciturno e até cruel, decretava medidas austeras e impopulares. Mais de uma ordem capital teria sido decretada enquanto ele vestia o Elmo do Diabo. Dizem que a voz do Rei se tornava também soturna quando ele falava através dos buracos da mascara metálica, sua respiração acelerava e soava ameaçadora. Era como se o diabo estivesse ali dentro, e o Rei se divertia com aquilo.

Haviam boatos ainda mais alarmantes. Para alguns o elmo seria mágico e protegeria o Rei de qualquer tentativa de assassinato. Veneno ou lâmina não poderiam lhe causar mal, pois o elmo o defendia de todos os males. Para outros, quando o Rei vestia a peça, o Demônio podia olhar através de seus olhos e nesse ínterim, a Inglaterra ficava sob a influência do Senhor do Inferno. Catarina de Aragão, primeira esposa de Henrique e uma cristã devota, detestava a peça e temia até mesmo olhar para ela. As más línguas da corte diziam que o Rei em uma ocasião, para brincar com a esposa vestiu a peça e foi visitá-la em seus aposentos. O susto teria sido tão grande que por conta disso ela teria perdido uma criança que esperava (provavelmente um exagero que historicamente não pode ser comprovado).


Com o tempo, Henrique acabou perdendo o interesse pela peça e ela foi relegada a Royal Armourie (o Arsenal Real) lá permanecendo por décadas.

A peça foi redescoberta pelo Bobo da Corte Will Somers que tinha grande influência com o próprio Henrique VIII, sendo seu cômico favorito. O bobo usou o elmo em algumas apresentações na corte e após a morte do Rei recebeu a permissão de manter a peça em seu poder. Posteriormente ele se aposentou na regência de Elizabeth I. Algumas pessoas diziam que Somers havia "perdido a graça" depois de receber o elmo de presente, outros afirmavam que ele simplesmente havia perdido seu patrono e por isso ninguém mais dava atenção a ele. Somers foi enterrado na paróquia de St Leonard, morrendo na obscuridade. Antes ele deixou instruções para que o Elmo do Diabo fosse devolvido à Coroa, alguns acreditam que sobre ele pesava uma maldição.

Seja como for, o Elmo foi enviado para Leeds onde repousa até os dias atuais como uma das peças mais populares em uma exposição permanente de armas e armaduras medievais. Uma armadura de desenho similar a feita por Seusenhofer, presenteada a Charles V, ainda existe em Viena.

É natural imaginar que uma pessoa levada diante de um Rei se sentiria intimidada. O que dizer se esse mesmo Rei vestisse uma peça desse tipo. Como é se sentir observado pelo Diabo? Melhor não saber...

2 comentários:

  1. Impressionante. Dá boas ideias para campanhas e contos... a realidade superando qualquer ficção mais uma vez.

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