quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Vingança Sangrenta - Mulher se vinga de marido de maneira aterradora em St. Louis



Diz um trecho da obra de William Congreve que se tornou um ditado na língua inglesa "Hell hath no fury, as a woman scorned". Isso pode ser traduzido como "O inferno não conhece fúria maior do que a de uma mulher contrariada".

Se o ditado é válido ou não, eu não sei...

Mas esse caso, ocorrido em Saint Louis, mostra que loucura e vingança às vezes caminham juntos, lado a lado, e quando unidos, dão a luz a coisas realmente horrendas e assustadoras.

Eu aviso de antemão que os detalhes desse ocorrido são deveras chocantes, então, leiam por sua própria conta e risco. As informações foram colhidas em diferentes fontes, sobretudo jornais e páginas de notícias que anunciaram o ocorrido. 

Uma mulher da cidade de St. Louis, nos Estados Unidos foi presa ontem após acusações de ter gravemente mutilado seu marido.

Christina Palmer Anderson de 44 anos foi capturada depois que a polícia recebeu informações a respeito de seu paradeiro. Ela vinha sendo procurada desde o início da semana, suspeita de ter causado severos ferimentos em seu marido Gerald Anderson de 47 anos de idade, um conhecido traficante de drogas com várias passagens pela polícia. 

A acusada foi encontrada em uma passagem desativada de esgoto e vinha se escondendo nesse local desde o ocorrido. Ela foi reconhecida por populares que viram a notícia sobre o ocorrido na televisão. Durante a captura, Christina tentou escapar pelos túneis, mas foi detida por três policiais que a imobilizaram depois que ela ofereceu resistência. Segundo os oficiais envolvidos na prisão, a acusada tentou mordê-los e depois feri-los com um estilete afiado usado para cortar tapetes.

Após ser sedada, a mulher respondeu algumas perguntas a respeito do crime do qual é acusada.

Ela confessou como havia planejado sua vingança em detalhes. Seu marido, Gerald Anderson, foi preso em outubro após negociar a compra de drogas. Christina contou que o marido a acusou de envolvimento na compra de drogas e de ter dado o dinheiro para adquirir as substâncias. Segundo a acusada, o marido a incriminou com o intuito de se livrar das acusações. 

Gerald Anderson foi preso em 21 de outubro de 2018 com cerca de 300 gramas de metanfetaminas. Ele foi liberado após pagamento de fiança e estava solto desde a segunda feira, aguardando julgamento em liberdade condicional. 

O que chama a atenção no caso é a maneira como Christina planejou sua vingança.

Ela contou aos policiais durante o interrogatório que passou dias se preparando para agir. 

A mulher reservou um quarto em um apartamento semi-abandonado do centro de St. Louis, vedou as janelas, comprou trancas para a porta e algemas. Contudo, o mais chocante foi ela ter afiado os próprios dentes com uma lixa de metal até eles se tornarem afiados. Anderson que possui formação como enfermeira antes de se tornar uma usuária de drogas, também tratou dos detalhes cruciais para seu plano, como adquirir soro intra-venoso e antibióticos.


No dia em que Gerald foi liberado da cadeia, ela o convenceu a visitá-la no apartamento para que pudessem comemorar a ocasião. Christina foi quem pagou a fiança, afirmando que havia juntado o dinheiro cobrando velhas dívidas e penhorando alguns itens pessoais.

Em determinado momento, Christina usou um tranquilizante de uso veterinário para deixar o marido inconsciente e o amarrou nu a uma cama, usando cordas e um par de algemas.

Quando finalmente ele despertou, a mulher o atacou a mordidas. Ela arrancou o pênis e testículos da vítima com os próprios dentes e o deixou sangrando em profusão enquanto foi para o quarto ao lado usar drogas.


Christina posteriormente tratou dos ferimentos, os suturou e ministrou soro e antibiótico para conter infecção e diminuir a dor.

Ela teria ainda sedado a vítima novamente e obrigado ele a compartilhar de um jantar onde os genitais foram servidos. Ela também o feriu com mordidas no ombro e barriga provocando ferimentos feios. Gerald Anderson passou cerca de 48 horas preso no apartamento.

Eventualmente, a vítima conseguiu recuperar suficientemente os sentidos e se desamarrou da cama. Ele ligou para emergência de um celular e pediu socorro quando Christina havia se ausentado do local. Polícia e paramédicos chegaram rapidamente e transportaram a vítima para o Hospital da Universidade de Saint Louis.    

Quando entrevistado a respeito do caso o Chefe de Polícia Jon Belmar contou aos repórteres:

"Quando os oficiais chegaram ao local, encontraram a vítima inconsciente, nu e coberto de sangue. Ele foi transportado às pressas para o hospital, recebendo socorro imediato. A acusada percebeu a comoção e se evadiu do local, vindo a ser presa ontem depois de uma busca nas mediações. A mulher foi localizada em uma galeria de esgoto desativada e capturada após tentar resistir à prisão".

Horas mais tarde, ela confessou em interrogatório ter castrado o marido enquanto gritava "Eu mordi seu *$# e arranquei ele fora à dentadas", várias vezes se gabando de sua façanha. Ela também revelou os planos de sua vingança e como ela foi levada à cabo em detalhes.


Christina Anderson irá enfrentar acusações de agressão, tortura e cárcere privado, bem como posse de drogas (que foram encontradas com ela na ocasião da captura).

Ela deve passar por uma avaliação psiquiátrica completa para saber se está apta a ir à julgamento. O plano de Christina era manter Gerald vivo pelo maior tempo possível e fazer com que ele sofresse e "comesse" a si mesmo. Não está claro se ela participou da "ceia macabra", pois quando questionada a respeito, tudo que ela fez foi gargalhar.

Gerald Anderson foi colocado em coma induzido e permanece em "condições críticas", mas os médicos que o atendem acreditam que ele não corre risco de vida. Os danos causados a ele nos genitais são permanentes e irão demandar cirurgias de reconstrução. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

True Detective - Recap do Episódio 4: "A Hora e o Dia"


Mahershala Ali segue fazendo um trabalho primoroso na terceira temporada de True Detective, que chegou ao quarto episódio, exatamente a metade, sem que o mistério das crianças Purcell pareça sequer perto de ser resolvido. A impressão é que nem arranhamos a superfície do que realmente aconteceu.

Parece haver muitas pontas soltas ainda e muito a ser investigado nas três linhas narrativas cronológicas da história. Talvez algumas destas pontas acabem ficando soltas, algumas perguntas podem ser respondidas, mas a única certeza é que a verdade não irá deixar um gosto bom na boca de quem terminar de ver a série por inteiro.

Mas, hei... estamos falando de True Detective! O objetivo não é ser bom, justo ou correto, e sim mostrar que esse é um mundo inclemente, de maldade e perversidade. Que o bem está em uma luta constante contra uma maldade muito humana, disposta a sufocar tudo em sua volta. E que, mesmo os bons, ou ao menos os que tentam fazer o que é certo, possuem sombras e fantasmas pessoais que os atormentam.

O episódio quatro da série foi centrado nessas sombras e mostrou que o Detetive Hays possui mais de um segredo sinistro e que o notório Caso Purcell apenas ajudou que esse lado negro viesse à tona.


Mas vamos falar do que aconteceu de importante no episódio em nossa recapitulação:

Os detetives na sua trilha nos anos 80, seguem fazendo perguntas a um padre que foi responsável pela iniciação espiritual de Will e que conduziu a sua primeira comunhão. A foto do menino - com as mãos juntas em oração, parece ser o padrão de fotografias tiradas pelo próprio padre para um tipo de anuário das crianças que receberam a eucaristia na igreja. Estranho? Com certeza, mas aparentemente nada fora do normal. Às vezes, mesmo as coisas mais macabras tem uma explicação natural.

Entretanto, o assassino pode ter visto a foto e colocado o menino na mesma posição seguindo algum tipo de remorso ou arrependimento. Talvez ele não tenha querido matar Will, mas acabou fazendo isso em um acesso de fúria ou para cobrir seu rastro. Há suposições de que o assassino quisesse apenas Julie. Talvez seu irmão tenha tentado lutar para soltá-la e isso custou a sua vida. Arrependido, o assassino então levou Will para um lugar onde ele poderia ficar protegido e o colocou em uma posição tranquila. É algo muito comum que assassinos arrependidos, passada a ira, coloquem a vítima em uma posição confortável e respeitosa. Wayne seguiu a trilha que o levou até o menino, e comentou que parecia que o assassino queria que o garoto fosse encontrado. Acho que é esse o caso.


Outro detalhe curioso é que Julie, segundo o padre estava animada pela visita de uma tia. Curioso que as crianças não tinham nenhuma "tia", o que reforça a teoria de que as pessoas que sequestraram a menina e mataram o menino, tentavam se aproximar deles de maneira amigável, com presentes e simpatia antes de levá-los. 

O padre também levanta algumas suspeitas - talvez a mera sugestão de um padre com uma máquina fotográfica e crianças ao redor seja suficiente para criar uma aura de suspeita. Veremos como isso vai transcorrer... Roland, no entanto deixa claro que não gosta do Padre. Sua criação como batista faz com que ele desconfie do sacerdote, em parte por ele não confiar em ninguém que possa optar por uma vida celibatária. "Não é natural passar a vida sem transar" na opinião do detetive. Já Wayne revela ter sido um coroinha e que em algum momento acabou se afastando da vida religiosa, provavelmente sua vida dura o levou para longe da fé.

Seguindo uma dica do padre, Wayne e Roland conseguem encontrar Patty Faber, uma "amável senhora" que faz as bonecas de palha (se ouvi corretamente Chaff Dolls, algo como "bonecas baratas" ou "de feno"). Ela se recorda de ter vendido uma quantidade dessas bonecas em uma feira de igreja para um homem negro, cego de um olho. O racismo velado da senhora, que não lembra se o homem era"bonito" ou "feio" chega a incomodar. "Como eu disse, ele era negro, como você", o que é uma descrição mais do que suficiente para a "amável senhora".


Wayne fuzila a velha com os olhos antes de sair da casa. Parece ser outro beco sem saída, já que a mulher não se recorda de detalhes a respeito da venda e as bonecas não são realmente tão sinistras quanto pensávamos no início. A ligação da velha com o caso parece ser meramente circunstancial, ela apenas vendeu as bonecas para o homem. Possivelmente o mesmo homem negro com cicatriz que andava por aí em um sedã marrom elegante, na companhia de uma mulher branca. 

A pista leva os investigadores até uma área pobre habitada em sua maioria por negros. Lá eles encontram um sujeito chamado Whitehead, que corresponde à descrição genérica dada: "negro e com um olho morto". Mas o que era para ser um simples interrogatório acaba se tornando uma situação perigosa e que expõe mais uma boa dose de preconceito e racismo. Por pouco a coisa não descarrilha e se transforma num banho de sangue, já que Roland chega a sacar a arma para afastar os moradores incomodados pela presença dos detetives fazendo perguntas a um vizinho aparentemente bem quisto.

É provável que seja mais um beco sem saída, já que o sujeito reage inconformado, como apenas os inocentes acusados de algo brutal conseguem fazer. Ademais, segundo o sujeito, entre eles, trabalhadores de uma companhia de abate de animais (a mesma em que a mãe das crianças trabalhou) é comum que se tenha perdido um dedo ou um olho no ofício. Vamos ficar atentos para o homem negro e de um olho só. Mas ao que tudo indica, esse sujeito não vai ser encontrado em 1980 ou 1990.

 
E por falar em 1990.

Acompanhamos a formação da força tarefa liderada pelo então Tenente Roland e seu colega Detetive Hays que é temporariamente trazido de uma função menor e burocrática para o Major Crimes (espécie de primeira divisão do Departamento de Homicídios). A maneira como o Promotor e Chefe dos Policiais tratam Wayne dá a entender que seus erros (ou possíveis faltas) ainda não foram esquecidas e menos ainda perdoadas. Seja lá o que Hays tenha feito, ou ao menos, tenha sido acusado, é algo muito sério para que dez anos depois, ainda pese sobre ele uma aura de ressentimento por parte de seus colegas. Curiosamente Roland não parece ressentido ou incomodado a respeito. De fato, o promotor até salienta que foi graças a ele que Hays foi trazido de volta para o caso na qualidade de consultor, e que se não fosse pela pressão do tenente, continuaria no segundo escalão.

Na esfera pessoa, Wayne e a esposa, Amelia, não conseguem parar de brigar. A animação dele em retornar ao Caso Purcell não parece ser compartilhada por ela. O caso continua fresco na memória dos dois, é algo que não pode ser afastado, mesmo em seu dia a dia. O conflito do casal parece ser motivado principalmente pelo crime que os uniu, algo que azedou a relação deles de tal maneira que nada resta senão ficar remoendo o assunto. É interessante acompanhar como surgiu a relação entre os dois, do ponto A (em 1980), com os dois se apaixonando em meio a investigação preliminar logo após o crime, até o ponto B (nos anos 90), quando a paixão já esfriou assim como o próprio crime. A metáfora é clara, o casamento existe apenas por conta do Caso Purcell, mais uma demonstração de como ele influenciou a vida e a existência de todos que tentaram desvendar o mistério. 


Uma das cenas mais estranhas e assustadoras do episódio no entanto envolve o Wayne já aposentado e tentando colocar os pingos nos "is" em 2015. Mergulhando cada vez mais fundo em suas lembranças e indícios, o ex-detetive começa a buscar qualquer fiapo de informação que possa lhe ser útil, mas a memória, requisito essencial para um investigador criminal, começa a dar sinais de falha. O velho Wayne não consegue mais recordar datas, acontecimentos e entrevistas da mesma maneira que sua mente aguçada um dia processava. Pior ainda... em meio a suas divagações sobre o caso, na qual ele pateticamente murmura em voz alta, ele começa a experimentar um tipo de alucinação bizarra. Nela, ele está cercado de pessoas, a maioria trajando uniforme de combate Vietcong refletindo seus dias na Guerra do Vietnã, mas com a exceção de uma figura misteriosa trajando terno (!!!). Parece claro que sejam pessoas que ele matou ao longo da vida (uma boa dúzia de pessoas) que no fim da vida vem assombrá-lo como espectros agourentos. Wayne já recebeu a visita de Amelia em forma de fantasma, agora desses homens... o que virá à seguir?

Ainda em 2015, Wayne está em busca da trilha que possa devolvê-lo ao Caso. Ele questiona o filho, que agora sabemos, também é policial a respeito de alguns dados, sobretudo a respeito de Roland de que "ele precisa das memórias". Ao que tudo indica, os dois perderam contato a ponto de Hays afirmar não saber sequer se seu ex-parceiro está vivo ou morto. Se estiver vivo ele poderá contribuir para a investigação, se é que, a essa altura ele não tenha feito as pazes com seus próprios fantasmas.


Outro fato interessante em 2015 é que Wayne confronta a entrevistadora do documentário a respeito do que ela sabe, pedindo que ela mostre as cartas que tem em suas mãos. O que ela diz é bem pouco: o tio das crianças, Dan O'Brien, suspeito de fazer o buraco no armário para espiar a sobrinha, morreu em meados dos anos 1990 e seus restos foram achados no fundo de um reservatório. Nada que surpreenda muito o Detetive... mas há algo mais, embora a entrevistadora não revele. Alguém está pagando pela investigação, usando detetives particulares para revirar o caso. Quem seria? E por que?

De volta a 1980 e ao curso da investigação, temos dois acontecimentos dignos de nota:

O primeiro envolve uma visita de Amelia a casa dos Purcell, o lar doce lar de uma das piores famílias de caipiras (rednecks) desajustados. Amelia aparece com o pretexto de entregar aos pais alguns trabalhos de arte feitos pelas crianças. Ela acaba encontrando justamente Lucy, a mãe, desolada e aparentemente já calibrada de manhã cedo. Em um momento de rara fragilidade ela acaba baixando a guarda e expondo um tsunami de amargura e arrependimento no qual reconhece ter "alma de prostituta" e ser uma pessoa egoísta que coloca suas próprias vontades acima da felicidade dos filhos. Em um instante revelador ela comenta que "Crianças deveriam poder rir" em uma alusão clara à carta que o sequestrador de Julie enviou para os pais e que pode revelar que a mãe sabe quem pode ter escrito a carta. Amelia aparentemente não sabe desse pormenor da investigação e não faz a correlação que pode muito bem incriminar a mãe na coisa toda.


Antes porém de conseguir extrair algo mais profundo, Lucy acaba voltando ao estado natural de megera indomada e a expulsa de casa acusando-a de ser uma bisbilhoteira que quer contar ao detetive o teor da conversa particular que as duas tiveram. Aparentemente, insultada por essa suspeita, Amelia acaba não revelando esse detalhe para a polícia que poderia ser bastante importante. Sabemos que Lucy morreu de overdose em 1988 então o envolvimento dela, se ocorreu, ficará sem a devida punição.

O segundo acontecimento envolve Freddy Burns e seus amigos, É o líder dos adolescentes suspeitos que foram vistos espiando as crianças no dia de seus desaparecimento. Freddy e seus amigos estão se complicando, foram pegos na mentira, depois de dizer que não haviam visto Will e Julie em Devil´s Den. As digitais de Freddy estavam na bicicleta de Will, o que coloca o sujeito na incômoda posição de último a ter visto o menino com vida. O interrogatório dos policiais, no qual o rapaz literalmente cozinha em fogo brando se assemelha a uma tortura. A expressão de Hays, cuidadosamente calculada para expressar uma perversidade prazerosa é incrível. A ameaça de que o rapaz vai acabar virado do avesso por negros na cadeia é pura maldade.

O pior é que Freddy e seus coleguinhas parecem ser apenas bullies inconsequentes. Não devem ser os verdadeiros culpados do crime, mas tudo indica, terão participação nos acontecimentos que amarram a investigação nos anos 80. Freddy revela que foi responsável por roubar a bicicleta de Will e fazer com que ele fugisse para o bosque... o menino estava procurando pela irmã e foi pedir ajuda aos adolescentes, acabou sendo expulso, perdeu a bicicleta e mais tarde acabou morto. Pobre Will!


Tudo reforça a teoria de que o(s) assassino(s) não queriam o menino. Seu alvo desde o início era Julie e quando eles se depararam com Will acabaram matando-o para que ele não revelasse detalhes. Talvez a morte tenha sido acidental, como pressupõe o detetive, mas a essa altura não há como saber.

Seja como for, Freddy confessa ser um tremendo imbecil: roubou a bicicleta e perseguiu um menino até a floresta, mas nega que tenha sido o responsável pela morte e sequestro que se seguiram. Há ecos claros do caso real dos Três de Memphis, preenchendo o ar - três adolescentes do Tennensee que foram acusados de terem matado crianças, apenas pela sua conduta suspeita (heavy metal e ocultismo nos anos 80 eram um perigo!). Me parece que eles vão acabar sendo acusados pelo crime, mas que assim como ocorreu no mundo real, eles também são inocentes. Me parece também que o destino dos adolescentes está selado... eu me pergunto se não seria por conta de uma tragédia envolvendo essa acusação injusta que Tom, o pai das crianças não teria ido parar na cadeia. Talvez ele tenha feito justiça com as próprias mãos para vingar seus filhos e executado um ou mais dos acusados. Trata-se de True Detective, as coisas sempre podem ficar piores.

E por falar em escalada para o pior, a subtrama envolvendo Brett Woodard, o "índio catador de lixo" está para se transformar em um banho de sangue. O comitê formado pela "gente de bem" da cidade se juntou para dar um corretivo no ex-veterano por ele ter conversado com crianças mais uma vez. Só que Woodard não está disposto a aceitar tanto desaforo em sua própria casa. Por isso prepara o cenário para o massacre que está por vir: minas e fuzis de assalto AK-47 que devem ser lembranças do Vietnã.


O subplot de Woodard não parece ter ligação direta com o caso, já que é baseado exclusivamente na paranoia dos habitantes locais. Entretanto, violência e matança em determinado momento da trama parece ser parte de True Detective, algo que já vimos nas duas temporadas anteriores. É provável que o desenrolar dos acontecimentos levem a repreensão de Hays (que pode ser responsabilizado pelo tiroteio) e para o fato de Roland aparecer mancando nos anos 1990. Aconteça o que acontecer, a coisa ali vai ficar feia, como evidencia a cena final que termina em um cliffhanging daqueles que nos força a assistir o que está por vir.

Pistas e Indícios:

• A Mina Claymore conectada na porta foi um toque genial. "Aponte para o Inimigo" poderia ser o título do episódio.


• A maneira como Roland dá em cima de uma bela paroquiana chamada Lori na cena da Igreja deixa a gente com um sentimento dúbio a respeito do detetive. O cara é um cara de pau, mas as tiradas dele, a maioria impublicável e altamente reprovável, estão se tornando cada vez mais divertidas. O cara é o tipo do detetive durão dos anos 80, aquele esteriótipo que a gente não tinha vergonha de torcer. Por sinal, a atriz que faz Lori (Jodi Balfour) está creditada com aparições regulares no decorrer dos episódios, ou seja, ela deve surgir novamente e ter alguma importância na trama.

• Na cena em que Hays repassa horas e horas de vídeos de vigilância na farmácia, podemos ver claramente a imagem de Julie Purcell. Parece que realmente é a pessoa certa no lugar errado. O que ela estaria fazendo de volta às redondezas de onde sumiu dez anos antes? E no que deu essa investigação nos anos 90?


• O encontro de Wayne e de Amelia no restaurante, mostra que o caso é o fato condutor do relacionamento dos dois. A cena em que Wayne comenta a respeito de como ele se sente a respeito da investigação faz todo sentido no contexto do período em que se passa a história. De modo semelhante a Mindhunters (outra série sensacional) essa temporada de True Detective foca naquilo que aprendemos a respeito de assassinos em série e predadores, mas mostra como esse aprendizado foi lento e gradual. Os policiais pareciam não entender com o que estavam lidando na maioria dos casos.

• Digno de nota é a "aparição" dos detetives Rust Cohle e Marty Hart que pode passar até desapercebida se você não ficar atento. Na cena em que Hays procura a entrevistadora no hotel, é possível ver no laptop um artigo de jornal a respeito da investigação conduzida na primeira temporada de True Detective. Se os personagens habitam o mesmo universo será que um dia poderemos vê-los em uma mesma investigação? Difícil, mas quem sabe...


• Quem será o "fantasma de terno" que Hays vê em 2015? Parece óbvio que esses "fantasmas" são pessoas que ele matou, o que explica a quantidade de vietnamitas o cercando. Mas e esse cara de terno? Acho que veremos uma face ainda mais sombria de Hays em algum momento. A face de um assassino...

• "Eu peguei a bicicleta. Ele era um nerd"! A prisão é boa demais para um bully desgraçado como Freddy Burns.

Bem é isso...

Nos vemos na semana que vem! 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

N. - Resenha da Adaptação em quadrinhos do conto de Stephen King


Quando a adaptação do conto "N" de Stephen King foi lançada na internet alguns anos trás ela foi recebida com muita curiosidade pelos fãs do horror.

A ideia original era criar uma série de episódios curtos baseado na história, com roteiro de Marc Guggenheim e ilustrada por Alex Maleev. O estranho é que o lançamento da série, dividida em 25 segmentos de um minuto e meio de duração, saiu antes mesmo da publicação do conto que a inspirou, na antologia "Just After Sunset". Como praticamente tudo que leva o nome de Stephen King, ela chamou a atenção dos fãs e obteve reconhecimento da crítica. 

E não era para menos, "N" é uma história impressionante de loucura e paranoia escrita por um King muito inspirado. É um daqueles contos perversos em que você se coloca na pele do narrador e vai lentamente escorregando em um pesadelo cada vez mais aterrador a medida que revelações bombásticas se seguem.

A adaptação foi tão elogiada e aplaudida que a Marvel Comics decidiu produzir uma mini-série em quadrinhos com base na série e na história original. O resultado é o encadernado "Stephen King - N." que a Editora Darkside está lançando aqui no Brasil em uma edição super caprichada.


"N" é um trabalho acima da média assinado por Stephen King, do tipo que vai fazer você ficar pensando a respeito dele por um bom tempo. Eu li N de uma sentada só, saboreando as páginas, o texto e a arte magnífica de Alex Maleev. E vou te dizer, que história sensacional!

A trama se desenvolve através do estudo de um psiquiatra chamado John Bonsaint que é especialista em tratar de pacientes com transtornos obsessivos compulsivos (toc) e que sofrem de insônia crônica. O médico tem um paciente identificado apenas como N que parece sofrer de todos os sintomas associados a esses transtornos, com um agravante: ele acredita que alguém, ou alguma coisa, está tentando matá-lo.

Ele conta ao psiquiatra sobre o dia em que sua sanidade desmoronou de vez, mas não sem alertá-lo que ouvir sua narrativa pode ser perigoso. Nas palavras de N, apenas ouvir o que ele tem a dizer pode conduzi-lo ao mesmo destino - a loucura. É claro, o médico acha que tudo isso não passa de exagero do paciente e que é parte dos seus devaneios. Mas daí em diante passamos a conhecer a profundidade dos temores de N e a ameaça de algo que pode trazer graves repercussões para toda a nossa realidade.


Uma das questões centrais na trama é como ela trata a insanidade de N. Não fica claro se o sujeito é simplesmente louco ou se há alguma verdade em suas palavras. Ele revela ao médico como foi vencido pela curiosidade e acabou explorando um lugar considerado assombrado chamado "Campo de Ackerman" onde uma terrível tragédia teve lugar no início do século passado. Tragédia essa que parece reverberar nas estranhas pedras negras dispostas pelo terreno. Essas pedras são a conexão entre o nosso mundo e um outro lugar terrível e aterrorizante. Quando N fotografa os estranhos monumentos ele tem a impressão de capturar sete monólitos, mas quando revela as fotos percebe que são oito. Um deles é invisível a olho nu e sua existência começa a afetar N através de pesadelos e horríveis alucinações.

Vou parar por aqui para não estragar a leitura!        

N é frequentemente comparado ao Horror Cósmico de H.P. Lovecraft e ao Mythos de Cthulhu, muitos de seus elementos parecem intimamente se relacionar ao gênero. Sem dúvida, é uma fábula de obsessão e compulsão costurada de maneira perversa e excitante, tendo como pano de fundo "coisas que não deveriam existir em um universo de ordem e sanidade". Uma das grandes inspirações para N, segundo o próprio King, é o clássico "O Grande Deus Pã" de Arthur Machen, não por acaso, um dos autores favoritos de Lovecraft. De fato, há muita coisa na narrativa de N que remete a Machen, o senso de isolamento, a impotência diante de uma força irresistível e o medo do desconhecido.

Também é preciso falar do trabalho magistral de Guggenheim e Maleev que conseguiram adaptar essa história para o formato de quadrinhos, concedendo a ela uma dinâmica incrível. Por vezes, adaptar um conto para HQ é uma tarefa inglória, já que frequentemente algo parece escapar, mas aqui o resultado é muito bom. A história não apenas consegue traduzir em texto e imagens toda a agonia e paranoia da trama, como até supera o original.


Para aqueles que não leram o conto N, é bom saber que boa pare da história é contada através de recortes de jornais, prontuários médicos e relatórios que vão sendo recolhidos elo Dr. Bonsaint durante sua investigação. A versão dos quadrinhos mantém esse material intacto apresentando páginas de texto em meio aos quadrinhos que são absolutamente fiéis ao original. Os leitores, portanto, estarão lendo exatamente o mesmo texto escrito por King o que garante a fidelidade total à trama original.

No que diz respeito à arte, é até difícil começar a elogiar o talento do búlgaro Alex Maleev, pois há o risco de você não saber quando parar. O cara é fenomenal! Quem conhece quadrinhos e já apreciou o trabalho do sujeito nas histórias do Homem Aranha e Demolidor, sabe do que estou falando. Quem não conhece, basta dar uma olhada nas imagens que ilustram essa resenha para ter uma ideia do que ele é capaz de criar. O sujeito tem um estilo elegante e macabro que casa perfeitamente com a proposta dessa história. Cada painel com os personagens parece ganhar vida e respirar. A capa é por si só uma obra de arte que a Darkside teve o cuidado de preservar limpa, sem colocar nela letras que pudessem poluir a imagem e desviar a atenção. Aliás, a edição nacional acompanha um poster dessa arte que implora para ser enquadrado e pendurado na parede.


A edição da Darkside é parte da coleção Graphic Novel da editora voltada para os quadrinhos, como sempre muito caprichada e que não fica devendo nada à versão americana. O livro possui capa dura, vem numa luva de papel brilhante reforçado que o protege. O projeto gráfico é lindo com páginas grossas e acabamento de alto luxo, com introdução de Marc Guggenheim, um caderno de esboços do artista e galeria de capas.

Não se assuste se depois de ler essa história você retornar a ela várias vezes para folhear e encontrar detalhes ocultos. Ela é uma perfeita transposição de uma história assinada por um grande autor, adaptada de maneira magistral para outra mídia.

N é uma viagem pela mente de um homem muito doente e assustado e de seu médico tentando encontrar explicações racionais para algo que simplesmente não deveria existir. Entre um e outro, o horror transborda...   

Absolutamente obrigatório para os fãs! 


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

O Mundo Tentacular está de volta!


Caros amigos, investigadores e Cultistas,

Espero que tenham sentido nossa falta, tanto quanto sentimos de vocês.

Após um longo, porém merecido período de férias, o Blog está de volta, aberto para os negócios!

E retornamos com força total para comemorar os 10 anos do MUNDO TENTACULAR.

Nas próximas semanas vamos apresentar algumas novidades que prometem incrementar nossa página e trazer o Horror dos Mythos para essa que já pode ser considerada uma embaixada de Cthulhu na Terra.

Fiquem conosco e aproveitem nossa viagem pelo fantástico Universo de Lovecraft, através dos segredos  ancestrais, explorando o bizarro e inacreditável, o inesperado e perturbador. Acompanhando Cthulhu na literatura, nas mesas de jogos, nos cinemas, séries, quadrinhos ou games. 

Estamos de volta! Felizes por carregar essa bandeira!

Fiquem conosco!


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

True Detective - Resenha do episódio 3 - "The Big Never"


Três episódios e aparentemente a terceira temporada de True Detective vai nos contar duas linhas de história entrelaçadas. A primeira envolve o mistério central, que diz respeito ao Caso Purcell e ao desaparecimento das crianças Will e Julie, ocorrido em novembro de 1980. O mistério segue ao longo de três linhas temporais simultâneamente em 1980, 1990 e 2015. A segunda linha se refere a obsessão em três diferentes momentos da vida de um detetive incumbido de investigar o caso e como sua vida é alterada por essa tarefa.

O caso Purcell que inclui assassinato e sequestro começa como qualquer outro caso para Wayne Hays em 1980. Por volta de 1990 ele já causou um verdadeiro descarrilhamento em sua vida e azedou tanto as suas relações profissionais como policial e quanto pessoais, enquanto pai e marido. O caso parece se recusar a morrer. Não bastasse ele ter dado o ponta-pé inicial na carreira da esposa Amelia como escritora, ele volta à superfície com as evidências de que Julie Purcell está viva - graças à descoberta de suas digitais numa cena de assalto. "Eu me sinto cansado dessa coisa sendo parte de nossas vidas", Wayne comenta com Amelia no lado de fora da farmácia onde as digitais apareceram. Mesmo que os dois estejam em um encontro de sexta à noite, o caso continua sendo o tópico central deles. Wayne parece aqueles veteranos de guerra, que após 50 anos continuam falando sobre o desembarque da Normandia, pois foi a coisa mais interessante de sua vida. Em 2015, o caso persiste em assombrá-lo, mesmo com ele já aposentado. Sonhos e alucinações começam a se misturar e ele parece ser afetado pelas lembranças. Esse caso é como uma infecção que corrói tudo que toca, não importa quanto tempo tenha passado.

Tempo aliás parece ser algo importante nessa temporada.


Como acontecia na primeira temporada, quando Rust Cohle explicava como o Tempo era como um círculo que estava fadado a se repetir uma e outra vez, na terceira temos menções sucessivas a respeito de Tempo e Repetição. Em 1990, Wayne se ressente com o trabalho investigativo de Amelia que remexe no lodo do caso levantando a sujeira que ele gostaria, ficasse para sempre enterrada. Quando sua filha some por alguns minutos em um supermercado, a reação de Wayne é desproporcional. Quando ele coloca a filha no mesmo papel de vítima da menina desaparecida, a sensação é quase esmagadora. Tudo parece estar se repetindo, ainda que por alguns instantes. Tempo e Repetição atormentam o detetive e parecem que vão ser uma tônica na temporada.

Mahershala Ali e Carmen Ejogo se empenham em vender essa noção ao conversar a respeito de Tempo em duas cenas. A primeira enquanto auxiliam  grupo de resgate no parque que busca por indícios das crianças em 1980. A segunda quando, o velho Hays tem uma espécie de visão na qual Olívia (que faleceu anos atrás!) aparece para ele e fala a respeito da necessidade de continuar investigando. Ela menciona ainda Einstein e dimensões paralelas. Hmmm....


Não vou ficar surpreso se a qualquer momento o detetive começar a interagir com ele mesmo em diferente linhas temporais, o que já foi sugerido em alguns momentos quando ele parece ouvir vozes e completar palavras em diferentes épocas como se estivesse lembrando de momentos específicos. Semana passada eu mencionei que seria ótimo ver algo semelhante a From Hell, no qual o tempo se comporta de maneira estranha para o personagem de Sir William Gull. Quem sabe isso ainda pode acontecer em True Detective.

A trama mais pé no chão continua atada em 1980 e permanece bem intrigante. Buscando por mais pistas no quarto das crianças, Wayne e Roland descobrem uma série de indícios, incluindo um mapa, uma bolsa com o logotipo de uma empresa processadora de alimentos e sinais de que Will gostava de jogar RPG. Não há menção nenhuma a D&D, mas os dados e manuais estão ali. Nos anos 1980, a paranoia com satanismo atingiu também os jogos de interpretação, como Wayne comenta em dado momento a respeito de um jogo que os pais temiam podia afetar os filhos se estes o jogassem. Assim como aconteceu no episódio da semana passada, quando se mencionou desconfiança quanto a bandas de heavy metal, temos um novo aceno para a paranoia de satanismo do período. Vamos ver como isso se desenvolve.

A pista da empresa de alimentos Hoyt é curiosa. Será que a pessoa que sequestrou Julie e matou Will trabalhava na empresa? E por que eles estariam pagando por informações a respeito do caso? Um dos empregados diz que se trata de mera filantropia, ainda mais que as crianças são filhos de uma ex-funcionária. Mas será que é apenas isso? Ou há alguma coisa mais sinistra? Veremos...


A pista de que as crianças tinham um amigo secreto com quem brincavam em um lugar isolado e afastado também alimenta teorias interessantes. No lugar, Wayne encontra dados, alguns brinquedos que os Purcell não reconhecem ter comprado e mais daquelas estranhas bonecas de palha. Uma testemunha que mora numa fazenda ali perto diz ter visto as crianças repetidas vezes brincando na companhia de duas pessoas, um homem negro e uma mulher branca que dirigem um bonito carro marrom. Em 2015, a repórter que faz a entrevista com Wayne menciona que pode ter havido algumas falhas na investigação e que alguns aspectos parecem ter sido negligenciados. Um destes é justamente um testemunho que cita um homem negro bem vestido na companhia de uma mulher, vistos num sedan luxuoso de cor marrom que se destacava naquela região de gente simples. Quem são esses? O que eles querem com as crianças? E será que eles tem alguma ligação com a pista acima da Indústria alimentícia?

Na linha temporal de 1990, nós passamos algum tempo na companhia de Roland que descobrimos ter se tornado um Tenente na Polícia de Arkansas. Ele ajudou Tom Purcell, o pai a se reerguer e se manter sóbrio, e parece ansioso em reabrir o caso quando a promotoria oferece a ele a chefia de uma Força Tarefa. Wayne e Roland não se vêem faz tempo, o fim da investigação em 1980 parece ter colocado os dois em lados opostos, na medida que Wayne sofreu algumas sanções e Roland ganhou uma promoção. Wayne atribui isso a uma questão racial (a "cor da pele" teria influenciado), o que acabou falando mais alto para determinar quem era punido e quem ganhava um tapinha nas costas. De qualquer maneira, Roland parece disposto a envolver Wayne mais uma vez no caso, oferecendo a ele uma participação na tal Força Tarefa que ele vai liderar. A investigação em 1990 vai se tornar oficial, afinal de contas.


Pistas Intrigantes e Suspeitas:

- O que teria acontecido com Roland em 2015? Será que o detetive simplesmente se aposentou ou algo mais sério teria ocorrido quando a Força Tarefa reabriu o caso em 1990? Será que Roland recebeu sua promoção para ficar de bico fechado, diferente de Hays? Se ele foi colocado como Chefe da Força Tarefa, seria mais fácil acobertar possíveis descobertas, mas se for assim, por que envolver Hays novamente? Vamos ficar de olho.

- Parece que há alguma coisa oculta nessa relação entre pai e filha, no caso do detetive Hays e Rebeca. Na primeira temporada Marty tinha uma relação tumultuada com a filha mais velha, supostamente a ação do Rei Amarelo (ou do caso) azedando as relações familiares. Aqui há indícios de algo semelhante. A cena do supermercado com a menina sumindo e Hays agindo em um frenesi paranoico parece uma preparação para o que está por vir. Algo que culminou com um rompimento de pai e filha e a mudança dela para a Califórnia.

- A descoberta de um álbum de fotos, com uma fotografia em especial, de Will na primeira comunhão, causou alguns arrepios no episódio de ontem. O menino parece ter sido colocado exatamente na mesma posição quando morreu. As mãos juntas como se estivesse rezando. Esquisito! Será que o assassino teve acesso a essas fotografias? Ou ele esteve na primeira comunhão do menino e quis encenar isso? De qualquer maneira um componente religioso é tudo que True Detective precisa para ficar mais sinistro.


- As coisas ficaram feias para nosso amigo Woodward, também conhecido como o o índio catador de lixo. O sujeito passa por maus bocados nas mãos dos habitantes de West Finger que mandam um aviso de que ele não é bem vindo, sobretudo se for visto na companhia de crianças. O fato de Woodward voltar para sua cabana e apanhar um embrulho misterioso leva a crer que a coisa vai render repercussões e que o veterano de guerra deve reagir em algum momento. Provável que isso ainda vá render alguma tragédia, sobretudo porque aquele embrulho parecia muito com um souvenir de guerra, tipo um rifle de assalto M16. Será que foi isso que acabou manchando a credibilidade de Hays e custou sua carreira? Um massacre desse tipo parece aparecer sempre em True Detective, ao menos ocorreu nas duas temporadas anteriores.

- O título do livro de Amelia continua me intrigando: "Harvest of the Moon", algo como "Colheita da Lua" (ou "ao luar"). O que diabos isso significa? Eu ainda acho que mais coisas estranhas vão aparecer nesse caso e que vão justificar porque um documentário está sendo feito sobre ele 35 anos depois. Sem dúvida, o caso se tornou muito mais do que um "corriqueiro" assassinato e desaparecimento, alguma coisa muito séria deve ter acontecido em algum momento, algo que vai muito além do que foi mostrado até agora.

Vamos esperar...

semana que vem tem mais!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

True Detective: Resenha dos primeiros dois episódios da Terceira Temporada


Quando a segunda temporada de True Detective terminou abaixo do esperado em Agosto de 2015, parecia que havíamos visto o episódio final dessa fantástica série. A primeira temporada, que foi ao ar em 2014, se beneficiou com uma série de elementos: o fato de que produções de televisão terem atingido um padrão elevado de qualidade, um refinamento no público que desejava algo inteligente e provocativo, um roteiro muito bem escrito e dirigido e atores inspirados, quase em estado de graça. O fato de ter misturado uma história envolvente e pinceladas de sobrenatural também contribuíram para o surgimento de algo que não poderia ser visto de outra maneira, além de ser considerado um clássico instantâneo. 

A segunda temporada não foi exatamente ruim, mas ficou abaixo do esperado. Misturando uma história de sexo, corrupção, violência e repressão, com gangsters introspectivos da Califórnia e policiais problemáticos, ela teve seus méritos. Alguns altos e baixos infelizmente impediram dela igualar o brilhantismo anterior. Como dizem, lidar com expectativa sempre será complicado.

Apenas duas temporadas e True Detective parecia ter chegado ao fim da linha.

Entretanto, como qualquer um que tenha visto as temporadas prévias sabe muito bem, o passado nunca morre. Ele está lá para ser rememorado, remoído, reexaminado. Agora, três longos anos depois do encerramento, True Detective está de volta, tentando se reinventar, mas buscando nas raízes da primeira temporada a base para seu ressurgimento.


A terceira temporada de True Detective (doravante TD3), parece e soa como a temporada inaugural, mudando a quente e úmida Louisiana pelo duro e seco Arkansas, contudo, com um mistério que segue a mesma premissa de segredos perturbadores capazes de mudar o curso de vidas e corromper tudo que toca. A melhor comparação é que TD3 parece uma banda que lançou um primeiro disco arrebatador e que no segundo saiu um pouco do prumo, agora, com o terceiro, busca voltar ao trabalho original, lembrando aos fãs por que se apaixonaram por ele, em primeiro ligar.

Baseado apenas nos dois primeiros episódios que foram ao ar consecutivamente, em uma estratégia que ao meu ver funcionou bem, TD3 soa promissor. Não atrapalha em nada contar com um baita ator de presença magnética como Mahershala Ali no papel de protagonista e um roteiro bem amarrado e intrigante.

O primeiro episódio da terceira temporada "The Great War and Modern Memory," (A Grande Guerra e a Memória moderna) introduz o personagem de Ali, o detetive Wayne Hays em três diferentes momentos da sua vida: como um detetive aposentado da polícia de Arkansas dando uma entrevista a uma equipe de documentário em 2015; como um policial sendo interrogado sobre o caso mais importante de sua vida em 1990; e como um jovem detetive em 1980, investigando o referido caso, usando habilidades desenvolveu como rastreador nas selvas do Vietnã.


Logo fica claro que Wayne vai ser o centro da trama, e será através de seus olhos que iremos apreciar os desdobramentos da investigação mais importante de sua carreira. Assim como Rust Cohle, ele também tem um grau de sensibilidade sobre o mundo à sua volta, de sua sordidez e de sua inerente perversidade. Em uma das primeiras cenas em que aparece ao de seu parceiro, um típico policial durão da época chamado Roland West (Stephen Dorf), os dois estão bebendo e atirando em ratos num lixão. Wayne impede o colega de matar uma raposa, como se dissesse que o mundo não se beneficiaria caso o animal inocente fosse eliminado. Wayne é daqueles detetives que só precisa levantar uma sobrancelha ou subir o tom da voz para ter o que quer, e se não for obedecido, coitada da pessoa que está do outro lado dos seus punhos. Como vimos acontecer com um suspeito de praticar pedofilia que é interrogado de maneira nada carinhosa. É interessante o contraste da conduta do personagem nos três momentos distintos de sua vida de impulsivo para introspectivo e finalmente temeroso na velhice. As transformações faciais do personagem, com direito a uma maquiagem impressionante também chamam a atenção: que caracterização e que show de interpretação!

Assim como aconteceu com os personagens da primeira temporada, Wayne também parece incomodado pelas lembranças da sua investigação. Ele responde ao interrogatório e aceita fazer a entrevista, com a disposição de alguém prestes a fazer seu primeiro exame de próstata. Nós não sabemos ao certo o que aconteceu durante o caso e os fatos vão sendo apresentados lentamente, como em um conta gotas que jamais entrega além do suficiente mantendo um clima de suspense que aparentemente vai durar uns bons episódios. A única certeza é que o mistério é daqueles cabeludos, com direito a reviravoltas que tornaram um sujeito como o detetive durão dos anos 80, um cara cauteloso nos 90 e um homem assombrado em 2015.

Um ponto interessante é que o caso teve influência em sua vida: muitas das coisas que aconteceram em sua vivência passaram a ter uma relação direta com ele. Ficamos sabendo que Wayne se casou com uma mulher que esteve ligada ao caso e o ajudou a sondar alguns detalhes dele, que a filha do casal pode ter brigado feio com o pai em decorrência de lembranças do caso e que parte de seu padrão de vida se deve a um livro escrito pela esposa a respeito do tal caso. Mesmo depois de envelhecer e abandonar a força policial, o caso continua ecoando em sua existência. Em determinado momento ele diz "Eu costumava dividir a minha vida em antes do Vietnã e depois do Vietnã, mas isso acabou mudando para antes e depois do caso Purcell".


Mas o que exatamente foi o Caso Purcell?

Tudo começa de maneira bastante simples, mas que sabemos, por ser True Detective, irá se converter em um mistério indevassável. Em 7 de novembro de 1980, Tom Purcell, um sujeito meio grosso, típico caipira de um lugarejo do Arkansas, instrui os filhos Will e Julie a voltar para casa antes do anoitecer. As crianças se despedem e saem de bicicleta acenando para vizinhos e amigos enquanto seguem para o parque local. Os dois acabam sumindo e os detetives Wayne e Roland são mandados até a casa dos Purcell para avaliar a situação. Eles rapidamente deduzem que o ninho de amor "red neck/ white trash" está passando por maus bocados, que Tom e a mulher, Lucy não estão dormindo juntos e que ela costuma sair para a balada deixando o marido com as crianças. O primo de Lucy, outro traste estava morando sob o mesmo teto e possivelmente fez um buraco num armário para espiar o quarto da sobrinha. Há ainda uma forte suspeita sobre um índio que vive como catador de lixo e que teria cruzado com as crianças em determinado momento.

A investigação começa dessa maneira, meio atrapalhada e sem grandes pretensões. Parece ser um caso simples de desaparecimento, como muitos que acabam rapidamente com o retorno das crianças, muito choro e lágrimas. Mas quando vemos trechos da entrevista de Wayne em 2015 sabemos que a coisa vai ficar muito pior e que o caso não vai ter nada de convencional. Nesse primeiro episódio, como não poderia deixar de ser, a maior parte da trama se desenrola em 1980, quando Wayne e Roland recolhem testemunhos, interrogam suspeitos e andam com seu carro - um monstro bebedor de gasolina, para cima e para baixo das estradas do Arkansas, fazendo trabalho investigativo.


Uma das principais pistas obtidas diz respeito a um lugar chamado Devil´s Den, local de encontro de crianças e adolescentes que se reúnem ao redor de uma torre de observação. Supostamente é ali que as crianças foram vistas pela última vez por um grupo de adolescentes que parecem claramente estar escondendo alguma coisa. É na torre que Wayne, um rastreador treinado nas selvas da Indochina, encontra uma pista central - uma estranha boneca feita de palha. Seguindo um rastro quase invisível, ele vai encontrando outras dessas bonecas que parecem conduzi-lo para uma caverna. Lá, deitado com se estivesse em repouso, ele acha o cadáver de Will Purcell, mãos unidas sobre o peito como se estivesse rezando. 

Dali em diante não tem mais volta! O caso aparentemente simples de desaparecimento acaba de se converter em um homicídio e a vida do detetive acaba de sofrer uma mudança que irá redefinir a sua existência e reescrever seu destino.

Com a isca devidamente lançada, o episódio dois "Kiss Tomorow Goodbye" (Dê adeus ao amanhã) se inicia com mais perguntas e dúvidas a respeito dos acontecimentos transcorridos na década de 80. Wayne e Roland passam a dedicar atenção total ao caso, investigando pequenas pistas aqui e ali, enquanto que os segmentos centrados nos anos 1990 e 2015 oferecem pequenos indícios do que está para acontecer, sugerindo as razões pelas quais Wayne permanece em estado de alerta ao remexer suas memórias do caso.
        
Os detetives começam a investigação interrogando o catador de lixo, um sujeito chamado Woodward que também lutou no Vietnã e trouxe na bagagem lembranças e traumas de guerra. Ele parece ser um suspeito óbvio, já que foi visto nas imediações, se desloca pelas estradas e foi abandonado pela mulher que carregou os filhos. Óbvio demais, como fica claro depois de um interrogatório rápido no qual os detetives parecem descartar seu envolvimento no caso. Há um eco de niilismo na entrevista, bem ao gosto de Rust Cohle quando o veterano pondera com tristeza que sente saudades da época em que a maior preocupação dele era não saber se iria ficar vivo ou não no final do dia.


A cidadezinha de West Finger através de seus habitantes acrescenta um pouco mais de paranoia à narrativa. No episódio anterior os detetives interrogaram um adolescente que esteve no parque Devil´s Den e comentam a respeito de sua camisa da banda Black Sabbath. Rolland pergunta o que significa aquilo, e Wayne responde pelo rapaz dizendo se tratar de "Um tipo de Missa Negra". Parece claro que o roteiro irá buscar inspiração no surto de paranoia que varreu os EUA nos anos 1980, a preocupação exagerada a respeito de cultos e seitas demoníacas que supostamente estaria entranhada na sociedade americana. De fato, no auge da paranoia a respeito da ameaça de satanismo, que parecia inquestionável, muitas pessoas acabaram sendo acusadas e investigadas por suspeitas infundadas. Adolescentes no estado vizinho do Missouri acabaram sendo presos e acusados de terem tramado e executado duas crianças, encenando o que os investigadores na época acreditavam ser uma missa negra e adoração ao demônio. O caso ficou famoso como "Os Três do Missouri" e ainda hoje causa comoção, sobretudo porque os rapazes acusados eram totalmente inocentes e não fizeram nada além de ouvir Heavy Metal.

Pode parecer absurdo hoje, mas na época, tudo aquilo era sério, tanto que a primeira dama Nancy Reagan deu sua opinião a respeito do crescimento de seitas e cultos na América. Ela alertou aos pais que mantivessem suas crianças em segurança, proibindo que elas ficassem na rua depois do anoitecer, quando supostamente maníacos poderiam raptá-las. O mais irônico é que todo esse temor, jamais se mostrou justificado! O FBI, instruído a investigar os tais cultos satânicos e suas ações não encontrou absolutamente nenhum indício de que crianças estariam desaparecendo e sendo sacrificadas em altares profanos. Nada!

Isso, contudo, não impediu que pessoas fossem processadas, acusadas de participar de seitas e de sequestrar crianças. A mídia, jornais e televisão, se aproveitou desse temor crescente e como não poderia deixar de ser, fizeram a festa com manchetes sensacionalistas e especulações infundadas. A onda de paranoia atravessou fronteiras... até aqui no Brasil houve um caso escandaloso de uma creche e escola infantil em São Paulo que supostamente realizava sacrifícios e abusava de crianças. Nada foi provado, mas o dano foi enorme e duradouro.


Voltando ao caso, além dos rapazes, temos ainda as misteriosas bonecas de palha que aparentemente foram distribuídas na véspera do Halloween, algumas semanas antes do sequestro por uma pessoa desconhecida. Julie Purcell teria aceito uma dessas bonecas, lançando base para a suspeita de que o assassino teria se aproximado da menina dessa maneira, oferecendo a ela um presente e assim ganhando a sua confiança. O que poderiam ser as tais bonecas de palha? É impossível não lembrar das espirais feitas pelo assassino na primeira temporada e deixadas na cena do crime e nos lugares usados por ele para venerar o Rei Amarelo. Será que teremos alguma ligação aqui ou é apenas um aceno inocente? 

O envolvimento do FBI no caso sinaliza para o rumo que a investigação irá tomar, envolvendo o Promotor local e figurões da política que querem obviamente ganhar fama com a solução do caso. Investigações desse tipo, com grande cobertura da mídia não raramente se converte em um espetáculo para o público. Isso só reforça a minha suspeita de que teremos uma forte inspiração a respeito da paranoia do período quanto a satanismo.


Enquanto isso, Wayne e Roland seguem outras pistas, uma delas que os leva até um pervertido fichado por ter abusado de crianças e que vive nos arredores. O interrogatório segue a cartilha da época, com o suspeito amarrado e os policiais amaciando o sujeito com socos e pontapés. No fim, tudo indica que o sujeito não tem envolvimento com o caso, mas por uma "questão de princípios" ele apanha e recebe uma advertência dos detetives. A ameaça de Wayne de que o suspeito irá "bleed black cock" na cadeia não assusta apenas seu parceiro, mas qualquer pessoa que ouça tal coisa. Isso que é intimidação!

As reviravoltas começam a surgir quando no trecho de 1990 ficamos sabendo que impressões digitais pertencentes a Julie teriam sido encontradas na cena de um roubo numa farmácia. As digitais da menina estariam no banco de dados do FBI e o fato delas ressurgirem depois de tanto tempo causa um rebuliço na investigação. Wayne, dez anos após o fechamento do caso, parece surpreso e balançado pela notícia, tanto que a família percebe como o caso ainda está fresco na sua mente. É possível que algo sinistro tenha acontecido no curso final da investigação nos anos 1980, já que aparentemente algo estranho transcorreu com o pai das crianças, que "ainda tenta um recurso para sair da cadeira". O caso parece se tornar cada vez mais estranho e misterioso... veremos até onde isso leva.


O episódio termina com sinais de que as lembranças do caso em 2015 começam a cobrar um preço alto da própria estabilidade de Wayne. Em uma mesa, na companhia do filho mais velho e do restante da família, o detetive dá mostras de que está sendo afetado pela entrevista ao repetir que eles deveriam convidar sua outra filha para esse tipo de reunião - e ser informado que ela se mudou há alguns meses. O que teria acontecido entre Wayne e a filha? Por que os dois teriam se distanciado? Será que ele teria de alguma forma projetado o caso em sua família, como aconteceu com Marty Hart na primeira temporada? Provável que sim... True Detective não é um programa convencional apenas a respeito de investigação e procedimento criminal, mas um drama sobre a forma como crimes barra pesada acabam devastando a vida das pessoas incumbidas de solucioná-los.

Quando no final do episódio dois Wayne acorda no meio da rua, sem saber como chegou ali e se perguntando o que está acontecendo em sua vida, o final soa amargo e leva a crer que as coisas ficarão ainda mais complicadas, antes de chegarmos a uma solução desse mistério.

(se é que uma solução virá).

Pistas Intrigantes e Suspeitas:

• A entrada da terceira temporada mantém o mesmo estilo das outras duas, oferecendo vislumbres do elenco de maneira estilizada que parecem se misturar a imagens do ambiente. A canção de abertura nessa temporada é um cover de "Death Letter," também conhecidas como "Death Letter Blues," gravada por Cassandra Wilson. Ela é uma adaptação de um músico do Delta do mississipi que gravou a primeira versão em 1930. A canção foi redescoberta na década de 1960. Ela é uma música sobre más notícias, tristeza e moralidade. Uma entrada bem interessante para um show como True Detective. 


• A narrativa é aberta com a data de 7 de novembro de 1980, o dia em que o lendário ator Steve McQueen, um ícone conhecido como King of Cool, morreu, vítima de um mesotelioma aos 50 anos de idade. A morte de um ícone da masculinidade em uma série como TD3, também faz sentido. Digno de nota é que a data remete a três dias após a eleição de Ronald Reagan (outro ator conhecido pelos papéis rudes). Além disso, 1979 foi o último ano em que os famosos Volkswagen (nosso Fusca) foi produzido nos Estados Unidos. Um fusca roxo aparece no primeiro episódio e parece ser importante na trama. São tempos de mudança significativa.

• O personagem do detetive Wayne era originalmente branca, até que Mahershala Ali convenceu o produtor Nic Pizzolato a fazer mudanças para que ele fosse negro. A questão racial é mencionada no primeiro episódio, em uma conversa entre o detetive e a professora, ambos negros em uma comunidade majoritariamente branca. Ela é mencionada novamente no segundo episódio quando Wayne reclama com seu parceiro por não apoiá-lo sabendo que as autoridades poderiam ouvi-lo com mais facilidade. Aparentemente, a questão racial não parece ser um tema central na série, mas ela não será ignorada.

• Quem tinha saudades daquelas cenas de True Detective com detetives conversando enquanto seguem em suas viaturas pelas estradas, deve estar feliz com o retorno delas. Em alguns momentos, as cenas são muito parecidas.


• No quarto de Will é possível ver alguns livros, entre os quais um manual de escoteiros e uma edição do Advanced Dungeons & Dragons primeira edição. Só lembrando que a paranoia com satanismo na época atacou com força em várias frentes, sendo uma delas, os RPG. Tem um outro livro chamado "Land of Leng" que eu não consegui identificar ainda, mas que parece um aceno ao horror cósmico (ou eu estou vendo demais?) 

• Wayne diz que sofreu de dislexia quando criança e que levou tempo para aprender a ler e interpretar textos. Ela comenta que é fã de quadrinhos especialmente de Batman e Surfista Prateado, um deles um vigilante amargurado e obsessivo com o combate ao crime, outro um exilado galático que não encontra seu lugar num mundo estranho e hostil. Se predileção por personagens diz muito a respeito de personalidade, então Wayne vai ser um personagem interessante.

• Nesse primeiro momento, não há como dizer se TD3 vai se inclinar sobre qualquer aspecto claro ou dissimulado do Horror Cósmico ou se a aura de niilismo voltará, contudo fica óbvio a tentativa de manter as coisas estranhas. Minha opinião: não veremos o Rei Amarelo, mas teremos uma boa dose de estranheza que já mostraram a sua face com as macabras bonecas de palha e com a estranha mensagem enviada pelo assassino, que pede que as crianças possam "rir". What a fuck?


• Outra coisa que eu consideraria interessante demais se fosse explorado: uma espécie de ligação na cronologia de 1980, 1990 e 2015, na qual o detetive mais jovem tivesse insights do que ele mesmo, mais velho, estaria sentindo no futuro. Algo no estilo que o velho Dr. Gull, o estripador experimentava em From Hell de Alan Moore. Seria incrível explorar essa questão de tempo e espaço na série.

Vamos ficar atentos, True Detective está apenas no início e muita coisa ainda está por vir. 

De qualquer maneira é ótimo perceber o esforço para atrair o público órfão da primeira temporada.

Trailers:



sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

True Detective - Lembrando e esperando


Com base no artigo de Kyle Andersom do site Nerdist

Faz cinco anos desde o final da primeira temporada de True Detective, que parece muito tempo, mas que simultâneamente, parece ter sido ontem. Tempo, conforme foi dito, é um Círculo Fechado, no qual o final encontra o início. Apesar de ter sido incrível, a lacuna de quatro anos entre a primeira e a terceira temporada, pode ter apagado, ao menos em parte alguns detalhes de True Detective.

É claro, os fãs devem lembrar de algumas cenas icônicas e das divagações niilistas de Rust Cohle, personagem de Matthew McConaughey. Outra coisa que provavelmente todos devem se recordar, é do terrível vilão da temporada, o Rei Amarelo e de sua cidade cosmicamente bizarra, "Carcosa".

O que separa a primeira temporada de True Detective de todos os outros programas sobre investigação policial é a maneira como o mistério envolveu temas metafísicos. O já mencionado círculo fechado do tempo é um exemplo, mas mesmo os assassinatos em série que estavam no centro da história eram apenas uma pequena parte da trama. Mulheres deixadas mortas, amarradas, nuas e adornadas com chifres davam a impressão de algum mal escuro e profundo, muito mais cerimonial e ritualístico do que simples assassinatos. Ao longo da investigação, Cohle e seu parceiro Marty Hart (Woody Harrelson), começaram a descobrir corrupção, mentiras e acobertamentos que permitiram o Culto ao Rei Amarelo prosperar. Os poderosos sempre protegerão os poderosos.


Há uma bela dose de Horror Cósmico em tudo que envolve o Rei Amarelo na série, e isso remete aos Mythos de Cthulhu e seu criador H.P. Lovecraft. Errol Childress, a verdadeira identidade do Rei Amarelo, o assassino cultista, é marcado na face por distintas cicatrizes em uma alusão às cicatrizes que corrompem sua alma. Assim como os cultistas lovecraftianos, ele também esconde sua natureza perversa. Em histórias como "O Chamado de Cthulhu", o apocalipse é desejado por bandos de maníacos que veneram algo não humano, algo que não deveria existir e que poderia acabar com toda a vida como a conhecemos. Childress não chega a ser ruim a esse ponto, mas os temas ainda estão lá.

Childress - quando revela ser mais do que um simples zelador, faz menção de que sua família sempre esteve naquela área, vivendo ali "há muito, muito tempo". Sua família estabeleceu algum tipo de vínculo com outros clãs do condado. Isso encontra similaridade, já que ele representa o mal cósmico, com a maneira como esse mal espreita desde tempos imemoriais. Uma das marcas dos Mythos de Cthulhu é que as entidades são antigas e eternas, elas nunca deixam de existir, nunca desaparecem por completo, permanecem meramente adormecidas.


O próprio Rei Amarelo e sua cidade decrépita, Carcosa são parte dos Mythos de Cthulhu e foram absorvidos por Lovecraft e posteriormente por True Detective. Foi o escritor americano Robert W. Chambers que escreveu a antologia de contos publicado pela primeira vez em 1895, com o título de "O Rei Amarelo" (The King in Yellow). O livro é composto de dez histórias, sendo as quatro primeiras as mais estranhas e macabras, relacionando-se a uma  peça fictícia também chamada "The King in Yellow", que faz com que qualquer um que tenha lido sobre ela ou assistido uma apresentação, caia em profundo desespero e loucura.

As quatro primeiras histórias que integram a antologia tratam diretamente da Mitologia do Rei Amarelo e seu maldito emblema, o Símbolo Amarelo, cujo vislumbre suscita loucura, corrupção e paranoia. 

A primeira história da antologia, "O Reparador de Reputações", se passa em uma versão distópica da Nova York dos anos 20, embora seja possível - e até provável - que o personagem principal e narrador não seja de todo confiável, primeiro por ser ser insano e também por ter uma ligação com a peça amaldiçoada.


A segunda história é apenas minimamente conectada, mas a terceira narrativa, "Na Corte do Dragão", fala de um homem que visita uma igreja em Paris e é repentinamente tomado por um medo insuportável. Ele logo é tranquilizado pelo organista da igreja que toca uma música relaxante, mas esta vai cedendo lugar a uma melodia estranha; alta e dissonante que o deixa ainda mais apavorado. O organista se levanta e encara o narrador com um olhar de ódio incontido. O homem foge, mas passa a ver o organista em todos os lugares que vai, até que ele finalmente surge diante dele. A seguir ele desperta de volta na igreja e percebe que foi capturado pelo Rei Amarelo; a Igreja se revela como a majestosa e terrível cidade de Carcosa onde a partir de então ele será prisioneiro. 

A quarta história tem o título "O Símbolo Amarelo", e nela temos um artista aterrorizado por um vigia de igreja que nas suas palavras se assemelha a "um verme de caixão". Esta figura sinistra certo dia explica a origem do Símbolo que tanto aterroriza o narrador e de como seu criador não é humano. 

Lovecraft e outros escritores como August Derleth, que acompanharam a obra de Chambers, se apropriaram de Carcosa e do Rei Amarelo, incorporando-os às suas narrativas e desde então eles se tornaram parte indelével do Mythos de Cthulhu. O próprio Rei Amarelo se converteu no Avatar de um Deus chamado Hastur, entidade na mesma categoria de Cthulhu, peças chave para os mitos ancestrais.


Mas como tudo isso se relaciona com True Detective?

A visão negativa e profundamente niilista de True Detective encontra uma conexão com os contos de Chambers. Os temas são muito similares, relacionando loucura, perturbação e dúvidas sobre a própria condição humana. Será que Childress é verdadeiramente o Rei Amarelo, ou meramente um lunático? As mortes tem um propósito ritualístico ou não passam das ações de um homem profundamente doente? Em True Detective, Rust Cohle, que parece ter uma sensibilidade latente e compreensão semelhante aos personagens das histórias de Chambers, também não sabe ao certo. Ele experimenta alucinações - de aves voando em espirais até coisas mais bizarras, percebe os sinais, mas não sabe como interpretar o que está vendo. Exatamente como acontece com os protagonistas de Chambers.

No episódio final, quando Rust e Marty finalmente confrontam Childress, este foge para uma enorme ruína em forma de labirinto, uma representação de Carcosa na Terra. É um lugar tão assustador e surreal que não sabemos se realmente ele existe ou é mera imaginação. As fronteiras entre o mundo real e o surreal se confundem, assim como ocorre nas histórias de Chambers. Rust persegue o maníaco até uma grande antecâmara onde encontra restos de esqueletos em uma árvore e farrapos amarelados pendendo em seus galhos. O horror do Rei Amarelo, sua decadência e glória, estão ali manifestados! Antes de ser atacado e ferido por Childress, ele vê um vórtice rodopiante que pode ou não estar ali.


A primeira temporada de True Detetive, jamais explica totalmente essas ocorrências estranhas e deixa em aberto muitos de seus segredos. Mas longe disso ser uma falha no roteiro ou um demérito na trama, ele cria um resultado perturbador e arrepiante. Muitas séries sobre crimes e investigação terão um assassino ligado à adoração demoníaca ou demonologia, mas apenas True Detective conseguiu amarrar um serial killer ao Horror Cósmico niilista e apocalíptico de Lovecraft e seus seguidores. 

Se o tempo é de fato um círculo fechado, que sempre encontra seu começo no fim, então quem sabe tenha chegado o momento de começar tudo de novo.

A Terceira Temporada de True Detective está chegando.

Veremos o que nos espera.