sexta-feira, 28 de agosto de 2015

TOP 5: As cinco máscaras menos conhecidas (e incomuns) de Nyarlathotep


Nyarlathotep.

O Caos Rastejante.

O Mensageiro de Azathoth.

A Alma e o Espírito dos Deuses Exteriores.

O Grande Trapaceiro.

Nyarlathotep talvez seja uma das mais fascinantes criações da obra de H.P. Lovecraft. Pergunte aos fãs hardcore dos Mitos de Cthulhu e do RPG Chamado de Cthulhu e você descobrirá que Nyarlathotep figura na lista dos favoritos, talvez no topo dela. Tudo bem, o "Grande Cthulhu" está no título e pode ocupar a parte mais alta do pódium dos grandes horrores cósmicos, mas cabe a Nyarlathotep um lugar de destaque.

Não é por acaso que algumas das mais importantes campanhas envolvam justamente os planos malévolos do bom e velho Caos Rastejante. O sujeito é tão influente na mitologia lovecraftiana que suas manifestações (ou avatares) aparecem em inúmeras estórias. E talvez seja justamente isso o que torna Nyarlathotep tão especial: o fato dele possuir inúmeras formas.

Chamadas de Máscaras pelos cultistas fanáticos, essas faces de Nyarlathotep variam enormemente e em certos momentos se confundem com o folclore de diferentes povos e lugares. Os avatares de Nyarlathotep, diferente dos horrores mais convencionais dos Mitos estão quase sempre próximos da humanidade: tentando, cobiçando, provocando... eles interagem com os homens, diferente daqueles que sequer percebem a presença dos seres humanos - tratados como formigas ou meras bactérias.

Mas Nyarlathotep não... ele se importa em corromper, espalhar a maldade, a vilania e semear o caos por onde quer que passe. O grande trapaceiro é inegavelmente um humanista. 

Ele estava com a humanidade no momento em que ela surgiu e provavelmente estará junto dela no momento em que ela deixar de existir (possivelmente quando Ele cansar de brincar). 

Nós estamos acostumados a temer e respeitar alguns avatares de Nyarlathotep que se tornaram extremamente populares ao longo dos anos: O Homem Negro (The Black Man), a Mulher Inchada (The Bloated Woman), O Errante das Trevas (The Dweller in Darkness), o Deus da Língua Sangrenta (The God of the Bloody Tongue), o Assombro nas Trevas (The Haunter in the Dark), o Faraó Negro (The Black Pharaoh), o Lamuriante Contorcido (The Wailing Writher)... apenas para citar alguns que foram detalhados no artigo a respeito das cinco máscaras mais populares de Nyarlathotep.

[Leia aqui sobre As Cinco mais terríveis Máscaras de Nyarlathotep.]

Neste artigo, fazemos o caminho inverso e buscamos relacionar as cinco máscaras menos conhecidas e mais incomuns do Caos Rastejante. 

Sem mais delongas, vamos a elas:

5 - O PORTADOR DAS PRAGAS (The Bringer of Pests)



Essa máscara de Nyarlathotep não é exatamente desconhecida, afinal, ela é citada diretamente em um dos livros mais importantes e influentes de todos os tempos. O Portador das Pragas figura no Livro do Exodus, na Bíblia. Ele é uma força devastadora libertada pela fúria do Deus de Israel, impingida sobre as terras e o povo do Egito. Ela é a própria essência das lendárias dez pragas que devastaram a outrora orgulhosa Nação do Nilo.

Segundo o livro do Antigo Testamento, as pragas foram lançadas sobre o Egito como uma forma de validar o poder do Deus único e verdadeiro sobre os Deuses falsos do Egito Antigo. E como uma forma de persuadir o Faraó a libertar o povo de Israel que era mantido em regime de escravidão.

A grande questão é: se o Portador das Pestes é na verdade um avatar de Nyarlathotep, o que teria motivado o Caos Rastejante a desencadear sobre o Egito tamanha vingança? Não é o próprio Egito a nação no mundo mais alinhavada aos preceitos de Nyarlathotep? Pelo amor de Cthulhu, olhe o nome dele... quer coisa mais egípcia do que Ny-A-lar-Ho-Tep?

Bem, ao que tudo indica, o povo do Egito durante a Décima Segunda Dinastia parecia incomodar o velho Nyarly. Talvez ele estivesse cansado de se ver associado a Terra dos Faraós e escolheu varrer a nação do mapa submetendo todos a um verdadeiro festival de calamidades (Calamity Palooza). Quem sabe, ele estivesse tentando sedimentar o surgimento de uma nova fé que se espalharia por todo o mundo e nos séculos seguintes serviria como a espinha dorsal da religião ocidental. Entretanto, o mais provável é que Nyarlathotep estivesse entendiado... e assim, assumindo a forma de uma praga viva, deu início a um dos capítulos mais sangrentos da Bíblia.

Nyarlathotep estava... #chateado.

Segundo a Enciclopédia Cthulhiana, essa máscara em particular não possui um culto nos dias atuais (Ufa!). Ela não é exatamente popular, visto que não concede qualquer benefício ou favor aos cultistas, além de doses cavalares de miséria e sofrimento. Não é à toa que Nyarlathotep não a utilize frequentemente, pois quando o faz o circo literalmente pega fogo... para se ter uma idéia, a última vez que essa coisa andou livremente pela terra, escreveu-se um livro inteiro a respeito que ainda é popular milênios mais tarde. 

Descrito como uma monumental nuvem de gafanhotos cuspidores (uma das espécies mais devastadoras desses insetos), o Portador das Pragas faz juz ao seu nome pouco agradável. Grande o bastante para engolir uma cidade, os gafanhotos parecem intermináveis, eles cobrem os céus e obscurecem o próprio sol, transformando o dia em uma noite barulhenta com o ressoar de milhões de asas e quelíceras famintas. Capaz de devastação sem igual, no rastro do Portador da Praga não resta nada a não ser campos desertos, árvores depredadas, animais semi-devorados e ossos humanos limpos de toda carne.

Alternativamente, o Portador das Pragas é capaz de assumir uma forma humanóide gigante, utilizando para isso a massa de milhões de gafanhotos reunidos. A forma se assemelha a um gigante que marcha pelo lugar escolhido devastando tudo em seu caminho. Ele fala com o som produzido pelo canto dos gafanhotos e sua voz é como um trovão zunindo à distância. Não bastasse a devastação dos gafanhotos, supõe-se que a entidade pode deflagrar as demais pragas bíblicas, que para os amigos que faltaram ou não lembram da Escola Dominical são as seguintes: água em sangue, praga de sapos, praga de piolhos, praga de moscas, morte dos rebanhos, furúnculos, tempestade de raios, (os já citados) gafanhotos, escuridão e a morte dos primogênitos.

Uma sacada fantástica é a associação do Portador das Pragas a esse trecho do filme A Múmia (The Mummy) onde os intrépidos heróis conseguem a façanha de invocar a entidade lendo um trecho do Livro dos Mortos. Esses investigadores...


4 - O HOMEM VERDE (The Green Man)



Mas calma... Nyarlathotep nem sempre está de tão mau humor.

Por vezes, ele pode assumir a forma de uma entidade pertencente ao Folclore Celta, uma figura reverenciada pelos povos pagãos e que até hoje inspira algumas meninas wiccan a rodopiar em torno de fogueiras crepitando.

Estamos falando é claro, do Homem Verde. Não, não se trata de um figurante da trilogia Senhor dos Anéis, ou de um Ente de Dungeons and Dragons. A lenda do Homem Verde é muito antiga e associada intimamente aos povos celtas, sendo também comum entre as tribos saxãs. 

O mito do "Jack in the Green" provavelmente nasceu nas Ilhas Britânicas, sendo assimilado por vários povos que vieram a ocupar o lugar. Essa era uma entidade que simbolizava o poder da natureza, a energia da floresta, a capaciadde curativa e renovadora do solo...

Com todos esses atributos aparentemente benignos, é difícil imaginar Nyarlathotep usando esse avatar. Mas ao que tudo indica, essa Máscara não é especialmente maligna ou destrutiva. Para ser absolutamente sincero, o Homem Verde talvez seja o avatar de Nyarlathotep mais inofensivo. Ele não busca a aniquilação da humanidade, seu sofrimento ou sua agonia, tudo que, via de regra, desperta sua alegria. Pelo contrário, o Homem Verde é uma força invocada em rituais antigos com o propósito de renovar os laços entre o homem e a natureza. Sim, é isso mesmo, além de tudo, ele é ecologicamente correto!

Talvez esse seja o grande truque desse avatar: mover a humanidade em uma nova era de paz e amor, e relacionamento íntimo com a natureza... fazer o homem abandonar o lampejo de brilhantismo que gera indústria, modernidade e progresso. Se isso é verdade, o Homem Verde ainda não conseguiu atingir a sua meta e talvez por isso, o culto tenha ficado esquecido por tanto tempo. Redescoberto no último século por indivíduos dispostos a retomar os preceitos pagãos, quem pode dizer se ele não terá sucesso na sua empreitada.

O Homem Verde é descrito como uma enorme criatura humanóide composta de folhas, vinhas e plantas que lhe dão forma. A criatura só é vista em "bosques sagrados" onde surge diante de Grandes Carvalhos, Pedras milenares e arcos de plantas. Com seu surgimento, os devotos cantam e dançam, tentando agradá-lo e assim obter seu favor. Se satisfeito com as homenagens, o Homem Verde oferece a renovação do solo, uma boa safra ou quem sabe uma comunhão com a natureza. O Homem Verde pode aceitar sacrifícios, mas estes não carregam a carga negativa associada a palavra "sacrifício". As "vítimas" são voluntárias e segundo os ritos, se submetem em troca do bem estar de toda comunidade. A morte não é produzida com sofrimento, mas de forma rápida e o menos traumática possível. Em tempos antigos era uma honra se tornar o sacrifício do Homem Verde.

Sabe-se que Nyarlathotep ao assumir essa máscara pode assumir outras formas, mas nenhuma delas é especialmente assustadora. Animais feitos de plantas, enormes árvores com faces humanas e grandes frutas com feições humanas são algumas das opções disponíveis.

3 - A CABRA COM MUITAS PERNAS (Many-Legged Goat)




Próxima máscara. A Cabra com muitas pernas!

What a hell dude...

Quando a gente fala de cabra, em geral, pensamos em Shub-Niggurath e nas suas crianças, mas parece que Nyarlathotep estava interessado em invadir o pedaço da cabra negra.

Essa entidade obscura também não possui um culto conhecido, embora possa ter havido um culto em sua homenagem em algum momento da história humana. Alguns estudiosos tentam relacionar a Cabra com Muitas Pernas com o mito do Carneiro Dourado, acreditando ter havido alguma corruptela ou erro de tradução. Mas essas suposições não podem ser examinadas, a não ser que documentos nesse sentido sejam encontrados.

Enquanto isso não acontece, ficamos com a pergunta: o que diabos é esse avatar? Para que ele existe? O que ele simboliza?

Perguntas obviamente pertinentes, mas as respostas não são tão fáceis. 

A Cabra com Muitas Pernas só é conhecida através de passagens contidas em alguns livros esotéricos e mesmo assim sua existência é bastante contestada. Uma das fontes cita que esse ser é uma divindade rural, que se manifesta muito raramente, nascendo de uma cabra que gera uma cria com multiplicidade de membros. Um texto sugere que o animal em questão possui um balido que se assemelha ao choro de uma criança, de uma mulher jovem ou de uma viúva (variando de acordo com a fonte consultada), capaz de induzir as pessoas a sofrer alucinações e experimentar visões apocalípticas. Uma vez nascida dessa maneira, a Cabra não vive por muito tempo, ela acaba morrendo, mas antes profere um balido longo e aterrorizante que ocasiona surtos de paranóia, terror e melancolia. Um documento existente na Biblioteca de Dusseldorf, na Alemanha, menciona um suposto caso ocorrido no século XV, no qual o nascimento de uma Cabra com Muitas Pernas, desencadeou uma epidemia de loucura em um pequeno vilarejo no Vale do Reno.

Outra lenda a respeito da Cabra, menciona que tal criatura nasceria de uma mulher e teria as feições de uma cabra com o corpo mais ou menos humanóide, nos moldes das entidades capricornianas da Grécia Antiga. Essa criatura seria um avatar de Nyarlathotep, ainda que mortal e não especificamente maligno. A função do avatar nessa forma seria acumular conhecimento e compartilhar magias e conhecimento místico entre aqueles que decidissem se tornar seus seguidores. Não se sabe de nenhum incidente desse tipo já registrado, e para alguns essa versão da lenda não passa uma fantasia sem qualquer fundamento.

Mas quem pode dizer ao certo...      

2 - TICK TOC MAN (Tick Tock Man) 


Esse é outro avatar bizarro de Nyarlathotep, de certa fora o extremo oposto do Homem Verde.

Para muitos, essa manifestação só começou a aparecer nos últimos dois séculos, de modo que ainda se sabe muito pouco a respeito dela. É possível que ela seja uma das máscaras mais contemporâneas de Nyarlathotep, surgida a partir do advento da indústria, da automoção e do desenvolvimento mecânico. Alguns teóricos no entanto, defendem que o Tick Tock Man é bem mais antigo, sendo conhecido na Arábia do século XV e na Europa do século XVII quando ele aparecia diante de construtores de relógios que funcionavam por dispositivos de mola e engrenagens intrincadas.

Um documento existente na Universidade de Berna, na Suiça alude para a estória de um relojoeiro no século XVII responsável por construir pequenas maravilhas mecânicas extremamente precisas em sua oficina. Ele teria construído um autômato em tamanho humano que deslumbrava todos que testemunhavam seu funcionamento. Denunciado publicamente por práticas de feitiçaria, o relojoeiro foi preso e o autômato destruído. Rumores mencionando que o autômato fora visto andando sozinho se espalharam pelos cantões suíços. Alguns supunham que o autômato teria adquirido vida própria e consciência tamanha sua perfeição. Outros no entanto, defendem que Nyarlathotep teria simplesmente dominado o autômato e o transformado em uma de suas máscaras - o obscuro Tick Tock Man.

Não se deixe enganar peolo nome simpático... o Tick Tock Man é algo bastante bizarro.


Para começar ele não é uma criatura viva, no sentido literal. O Avatar assume a forma de um ser artificial, composto de molas, roldanas, engrenagens e mais atualmente fiação, transistores e servo-motores. Seu corpo é uma síntese perfeita de homem e máquina. Hastes de metal servem como ossos, placas metálicas são sua carne, fios fazem as vezes de veias e capilares, enquanto fluídos oleosos são o equivalente ao seu sangue. Essa casca metálica é habitada por uma inteligência artificial extremamente avançada. O Tick Tock Man em suas primeiras aparições parecia funcionar apenas mecanicamente, mas há indícios de que mais recentemente ele possa funcionar com carvão, vapor ou mais comumente eletricidade. Em algumas descrições, a entidade pode utilizar um polímero de borracha moldada que imita a pele humana, se disfarçando dessa forma para assim andar entre os homens sem chamar tanta atenção.


O Tick Tock Men, assim como a maioria das formas de Nyarlathotep existe com o único propósito de semar o Caos e a Loucura. Ele costuma se aproximar de cientistas e concede a eles através de sonhos a inspiração necessária para a construção de um corpo mecânico para onde ele transfere sua essência. Essa forma pode variar muito de acordo com a época e os recursos disponíveis: um cientista vitoriano pode inventar um autômato movido a vapor, enquanto um engenheiro na Tóquio dos dias atuais pode construir um computador extremamente avançado. Uma vez assumindo essa forma, o Tick Tock Man fornece ao seu "criador" ideias e ajuda na realização de cálculos complexos que eventualmente levam a saltos de lógica notáveis. 

Um dos objetivos principais dele é fornecer a cientistas planos para armas devastadoras e outras tecnologias perigosas. Acredita-se que tenha sido uma manifestação do Tick Tock Men quem concedeu a inspiração para a criação de armas ao longo das eras, desde as armas de cerco, até a metralhadora, passando pelos caças até o míssil inter-continental. Teóricos dos Mythos imaginam qual será a próxima inovação tecnológica patrocinada por esse avatar de Nyarlathotep. Alguns apostam na criação de máquinas inteligentes que eventualmente acabarão por sobrepujar a própria raça humana.  

1 - A EQUAÇÃO KRUSCHTYA (Kruschtya Equation)




E chegamos ao Top da lista de avatares realmente estranhos de Nyarlathotep.

Nem precisei ir muito longe para escolher a mais estranha e incomum Máscara utilizada pelo Caos Rastejante. Sem dúvida, ninguém tira o posto da Equação Kruschtya.

A Equação não é apenas um complexo teorema de matemática quântica que quando solucionado serve para invocar Nyarlathotep. Ele é muito mais do que isso. A própria equação é um avatar por si só. O teorema incrivelmente sofisticado está muito além da compreensão da maioria das mentes mortais ainda que seja conhecido por raças alienígenas como os Sham, os Mi-Go e os Yithians. Mesmo aqueles dotados de extrema genialidade e brilhantismo matemático levam centenas de horas de trabalho árduo para decifrar as fórmulas e chegar a uma conclusão. Aqueles que mergulham nessa complexa tarefa muitas vezes acabam adquirindo uma obseção compulsiva e são consumidos pelo seu próprio trabalho, perdendo gradualmente a razão. Matemáticos brilhantes se deixaram contaminar pela Equação Kruschtya e acabaram enlouquecendo por completo em suas tentativas de obter uma solução.

Conhecida apenas por alguns pequenos círculos fechados, a Equação é uma espécie de lenda urbana, discutida por acadêmicos e por estudantes de matemática pura em busca de um desafio monumental. Na década de 1960, a Academia de Matemática de Moscou possuía um time especializado em tentar desvendar os mistérios da Equação Kruschtya. Há boatos que Dmitri Russalkin, um brilhante matemático soviético tenha conseguido chegar ao fim da Equação. Contudo, não se sabe ao certo pois Russalkin desapareceu depois que a Academia foi destruída em um bizarro terremoto que estranhamente afetou apenas as fundações desse prédio. No auge da Guerra Fria, espiões norte-americanos se apoderaram de um microfilme contendo parte da solução para a Equação, supostamente resultado do trabalho de um cientista húngaro à serviço dos nazistas na Segunda Guerra. Um grupo de matemáticos foi reunido para a tarefa de desvendar a equação, mas os resultados não foram os esperados. Três cientistas desapareceram do complexo, localizado em Los Alamos e os registros da pesquisas foram destruídos.

As pessoas que se envolvem com a Equação Kruschtya acabam atraindo a atenção de Nyarlathotep, coisa que nunca é agradável. O Caos Rastejante preenche a mente dos pesquisadores com noções bizarras e conhecimento alienígenas que não pertencem a ele. O indivíduo passa a falar em idiomas estranhos e desconhecidos, tem estranhas inspirações e menciona acontecimentos ou fatos que não aconteceram (ou que ainda estão para acontecer). Sua linguagem se torna cada vez menos coerente a medida que seu cérebro processa cada vez mais rápido as informações. O indivíduo não consegue parar de trabalhar, sua mente se volta inteiramente para a resolução, enquanto seu corpo se deteriora lentamente pela falta de descanso, exercício e mesmo alimento.


Por fim, a Equação Kruschtya cobra o alto preço pela sua resolução. No instante que a solução é contemplada, a mente do pesquisador se torna uma com Nyarlathotep e ele passa a compreender os segredos mais profundos do Universo. Tamanho acúmulo de informações é devastador e o indivíduo acaba por se tornar, ele mesmo, um avatar do Caos Rastejante.

Pouca coisa pode ser feita para salvar alguém que decifra a Equação Kruschtya. Tais indivíduos continuam vivos, mas sua mente se perde, cooptada por um saber absoluto dos segredos cósmicos, algo que nenhum ser humano é capaz de absorver e ao mesmo tempo preservar a sanidade. Alguém com tamanho conhecimento se torna um perigo em potencial pois suas revelações são devastadoras. Matar o indivíduo libera Nyarlathotep que parte de maneira dramática, assumindo alguma forma monstruosa no processo. Não há nenhuma forma conhecida de apagar esse conhecimento ou restaurar a mente de quem resolve a  Equação Kruschtya. Tetsuo Susiato, um brilhante matemático japonês, que segundo alguns foi o último pesquisador a resolver a Equação (em meados de 2005), vive atualmente em um sanatório para doentes mentais em Nagoya.

Há rumores que o físico Stephen Hawkins chegou muito perto de resolver a Equação, o que desencadeou a sua condição física confundida com um caso incomum de Esclerose Lateral Amiotrópica (ELA). Acredita-se que Hawkins esteja envolvido em um programa que busca compartimentalizar o estudo da Equação afim de não destruir a mente dos pesquisadores no processo. Pelo programa, cada grupo estuda apenas uma parte do teorema. Até o momento, o programa não teve sucesso, mas os trabalhos prosseguem desde meados dos anos 1980.

Bem é isso...

Cinco Máscaras que nos fazem pensar a respeito da natureza de Nyarlathotep.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Dagon - Conto original de Lovecraft narrado em português



Olá cultistas,

Nosso colega Juliano Barbosa Alves (do blog Criador de Mundos) fez esse vídeo com o conto Dagon de H.P. Lovecraft.

Com uma montagem perfeita integrando som e imagem, música muito bem escolhida e uma narrativa firme, o vídeo ficou excelente. 

Vale muito a pena assistir esse trabalho, nas palavras do autor "um tributo a obra de H.P. Lovecraft".

Dagon é um dos contos seminais de Lovecraft, escrito em 1919. Nele, um protagonista não identificado narra a jornada de horror e loucura que se seguiu ao naufrágio de seu navio durante a Grande Guerra e como ele escapou dos inimigos apenas para encontrar uma bizarra ilha de sargaços na qual coisas que o homem não deveria conhecer espreitavam.

Dagon é considerado um dos grandes contos de Lovecraft, um trabalho que celebra o horror e a ficção no seu estado mais puro.

Então, diminua as luzes, ajuste o som e deixe-se levar pela narrativa hipnótica de um dos grandes contos do Cavalheiro de Providence.

   

domingo, 23 de agosto de 2015

A Ciência do Abismo II - Analisando os Abissais de um ponto de vista Biológico


Com o mencionado anteriormente, a metamorfose de humanos em abissais apresenta um considerável grau de variação dentre a população. As alterações são diferentes de um indivíduo para o outro: na medida que algumas pessoas apresentam mudanças graduais que podem levar anos para serem sequer percebidas, outras no curso de poucos meses já apresentam mudanças profundas e impossíveis de serem escondidas.

Além disso, o tipo de transformação também varia. Algumas das filhas da decadente Família Marsh tinham uma aparência reptiliana, enquanto outros possuíam aspectos típicos de batráquios (sapos). Lovecraft cita em seu conto, outras possíveis variações no processo de metamorfose dos híbridos, mas estes não aparecem diretamente na estória.

No filme Dagon, de Stuart Gordon (inspirado no conto de Lovecraft) temos uma grande quantidade de híbridos com óbvias variações:   

Algumas curiosas variações incluem a ausência completa de cabelos e pelos, a pele macilenta e sempre úmida, a ausência de orelhas e a presença de dentes afiados. Os olhos não são necessariamente grandes ou incomuns. Seria esse um estágio da transformação ou uma variação na população de híbridos?
O gerente da Pousada Gilman. Os olhos não são particularmente arregalados, mas durante a sequência em que aparece esse indivíduo não pisca. Trata-se de um homem com cerca de 50 anos, mas as mudanças físicas são sutis evidenciando que o processo de transformação pode agir de maneira mais lenta em alguns indivíduos. É possível que alguns híbridos simplesmente não passem pela metamorfose no final da puberdade e que as mudanças significativas só comecem muito mais tarde. 
Na cena acima, vemos uma fêmea híbrida que aparenta ter poucas alterações físicas. À primeira vista ela sequer parece ser uma híbrida abissal...

...contudo, os genes claramente manifestam um fenotipo octopode, não de répteis ou batráquios como usual. Seriam esses os "outros residentes" aludidos por Lovecraft em The Shadow Over Innsmouth? Haveriam outros exemplos de híbridos detentores de variações ainda mais bizarra? Seria possível que abissais pudessem se reproduzir com outras formas de vida encontradas em alto mar? Se aceitarmos isso, porque há poucos menções a abissais com característicasde tubarões, golfinhos ou baleias?

Além da variação fenotípica demonstrada nos híbridos, existirua uma variação na hibridação durante o cruzamento com humanos? Por que alguns indivíduos passam pela metamorfose completa e outros não? O que causa o início da metamorfose? Existem alguns grupos humanos mais facilmente hibridizados com Abissais do que outros? Por exemplo, as populações da Polinésia e da região costeira da Nova Inglaterra seriam mais aptos a receber hibridização? Outros povos, digamos, da América Central, América do Sul ou da África Ocidental teriam o mesmo resultado? São questões intrigantes abertas a exame e investigação.

Para solucionar essas questões se faz essencial definir qual a origem dos abissais. Infelizmente, Lovecraft jamais foi tão longe... ele nunca disse de onde vieram os abissais, apenas que eles estavam entre nós.  

Para traçar as possíveis origens dos abissais é interessante analisar as hipóteses de surgimento de vida no planeta conforme o cânon de Lovecraft. Todas essas hipóteses assumem que a Raça Anciã (Elder Things) são os criadores de todas as formas de vida complexas em nosso planeta (de acordo com At the Mountains of Madness).

Vejamos então as possíveis origens dos abissais:

1. Os Abissais são membros menores das Crias de Cthulhu – Sob essa hipótese os abissais não são nativos do planeta Terra, eles teriam vindo para cá junto com as Crias de Cthulhu em sua migração da distante Xoth. Enquanto as terríveis Crias de Cthulhu podem ser consideradas como membros da aristocrática "Corte de R’lyeh”, os Abissais sempre foram considerados "seguidores" de Cthulhu. Sob essa hipótese, os abissais seriam, tão somente, alienígenas, assim como as demais entidades ligadas a Cthulhu, e é claro, o próprio Grande Cthulhu. Eu não creio que essa é uma hipótese válida, uma vez que humanos e abissias são capazes de cruzar entre si. Novamente, se abissais e humanos fazem parte do mesmo genus é por que são compatíveis e tem uma origem semelhante. Eles precisam ter um nível genético bastante similar para permitir a reprodução. Além disso, tal grau de ligação existe na Terra, e não há qualquer base para acreditar que formas de vida alienígena teriam condições de procriar com seres humanos.


É interessante comparar essa noção com o que vemos na concepção de Lavinia Whateley, dando a luz a seus filhos Wilbur e o "gêmeo monstruoso" no conto "The Dunwich Horror". O ato sexual, nascimento e procriação nessa estória são muitíssio diferentes e em nada similares aos mecanismos biológicos terrestres. Portanto, ainda que Yog-Sothoth possa ter gerado um "híbrido” com uma fêmea humana esse é um evento extremamente raro. O cruzamento entre seres inter-dimensionais, não obedece a qualquer padrão ou regras biológicas da Terra. 

Sendo assim, me parece adequado desconsiderar essa hipótese e assumir que os abissais são de origem terrestre e não alienígenas. Isso exclui também a origem deles proveniente de outras dimensões ou realidades.

2 - Os Abissais foram resultado de engenharia genética (possivelmente pelas Crias de Cthulhu) - Não se sabe ao certo qual o grau de desenvolvimento científico das Crias de Cthulhu, mas há razões para se acreditar que eles possuem domínio sobre avançada ciência.

Se esse é o caso, poderiam as criaturas de Cthulhu utilizar seus conhecimentos para construir toda uma raça de seres aquáticos? Seria possível que os abissais foram construídos pelos seres de Xoth para serem "seus serviçais"? Se esse é o caso, haveria uma explicação razoável para os abissais venerarem o Grande Cthulhu como um Deus. Ele, afinal de contas, os teria criado e se o criador equivale ao "todo poderoso", tudo se encaixa. Lembre-se também de que os abissais habitam as cidades submersas que um dia foram o lar das Crias de Cthulhu.

No entanto, essa hipótese esbarra no fato dos humanos serem uma raça que sabidamente foi geneticamente criada, por acidente pela Raça Anciã. As Crias de Cthulhu eram inimigos naturais da Raça Anciã, então com que motivo eles criariam uma raça que poderia procriar com uma espécie por sua vez construída pelos seus inimigos?

Além disso, humanos e abissais fazem parte do mesmo genus. As Crias jamais demonstraram qualquer vocação para criar algo, nem remotamente humano. Seu desprezo para com as formas de vida terrestre é muito conhecido, eles são demasiadamente alienígenas para criar qualquer coisa remotamente terrestre.

3. Os Abissais foram resultado de Engenharia Genética da Raça Anciã – A Raça Anciã é responsável pelo surgimento das formas de vida na Terra. Seus "experimentos falhos" se arrastaram para fora de seus avançados laboratórios e evoluíram, tornando-se aquilo que chamamos de "seres vivos da Terra". 

O "ápice" das criações terrestres, ao menos do ponto de vista da Raça Anciã, são os Shoggoths, que podem ser compreendidos como organismos capazes de se adaptar a qualquer ambiente e sobreviver em qualquer condição não importa o quão adversas. Por mais alienígenas que sejam os Shoggoth, eles são criaturas similares aos seres vivos da Terra.

Novamente, eu não fico satisfeito com essa hipótese em face do fato que humanos e abissais serem capazes de reproduzir. Se a Raça Ancestral criou os abissais em um experimento completamente diferente, eles não seriam capazes de cruzar com humanos. Shoggoths e seres humanos não reproduzem (ao menos até onde sabemos), bem como abissais e Shoggoths.
4. Os Abissais e os Humanos compartilham de um mesmo ancestral, assim como ocorre entre os Humanos e os Grandes Macacos - Eu encaro essa hipótese como mais plausível, já que humanos e abissais podem se reproduzir entre si. Na natureza, temos animais como as éguas e os jumentos que podem se reproduzir, e cuja diferença genética não é tão distante. 

No esquema abaixo, vemos como os humanos estão próximos dos Grandes Macacos em se tratando de compatibilidade genética. Apenas duas substituições críticas no código genético nos separa dos chimpanzés por exemplo, nosso "parente" mais próximo. 

A figura mostra como a taxonomia entre humanos e macacos é aproximada. Se os abissais compartilham da mesma herança genética, eles estariam ainda mais próximos da humanidade do que os macacos já que humanos e macacos não podem se reproduzir, já abissais e humanos podem. 

Isso significaria dizer que nosso parentesco com os abissais seria incrivelmente próximo. 

4. Humanos são parte do Ciclo de Vida dos Abissais - Ainda que essa hipótese possa parecer muito estranha, ela poderia explicar a facilidade como ocorre a reprodução entre humanos e abissais. Isso também poderia explicar, porque não há qualquer registro de reprodução entre abissais. Não há nenhum caso documentado de fêmeas abissais prenhas. Da mesma maneira, não se sabe de filhotes de abissais com características e peculiaridades totalmente desenvolvidas. 

Se levarmos em consideração essa hipótese, os abissais realizam uma bizarra forma de metamorfose na qual eles precisam ir para a terra a fim de acasalar e então voltar para o mar (de forma inversa ao que ocorre com os anfíbios). 

Se essa hipótese é válida, e não há por que não ser, os humanos não seriam mais do que um estágio do ciclo de vida dos abissais. Nesse caso expresso, todos humanos são Abissais e todos abissais são humanos. Não há híbridos – os humanos que iniciam a metamorfose simplesmente retornam para o mar para completar o seu ciclo de vida.
 
Humanos, abissais, híbridos...

Talvez o próprio Lovecraft não tenha contemplado todas as implicações genéticas de sua criação, mas é inegável que o gênio do autor dá margem para inúmeras interpretações.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Armas Lendárias - Cinco espadas famosas do passado

Eu sei que não tem nada de Lovecraftiano, mas achei a descrição dessas espadas, verdadeiros artefatos, tão interessante que valia a postagem aqui no Blog.

Espadas não são apenas armas, elas são símbolos de poder, usadas ao longo dos séculos como oferendas, em cerimônias para investir pessoas com títulos, para coroações reais, e como preciosos objetos de troca. Ao longo dos anos, certas espadas foram encontradas ou desenterradas, trazendo com elas séculos de lendas e histórias incríveis. Elas são a ligação entre figuras famosas que realmente existiram e as lendas que se formaram ao redor desses personagens.

Aqui estão dez espadas do mundo antigo e algumas lendas a respeito delas.

Joyeuse: A Legendária Espada de Carlos Magno
Joyeuse: The Legendary Sword of Charlemagne
A Espada de Joyeuse, que atualmente se encontra no Museu do Louvre em Paris, é uma das mais famosas espadas de todos os tempos. 
Registros históricos relacionam a espada com o reinado de Charlemagne (Carlos Magno), o Grande, Rei dos Francos. Se ela realmente pertenceu ao famoso Rei que governou a França há cerca de 1200 anos atrás não é possível precisar, mas sem dúvida é uma arma digna de um monarca. A Espada de Joyeuse teria sido usada em incontáveis cerimônias de coroação, sua lâmina tocando o ombro e a testa de monarcas franceses, como uma forma de trasmitir o direito de governar com o aval de Deus. A espada é cercada por mitos e lendas ancestrais que atestam ser ela dotada de muitos poderes mágicos.
A mais antiga menção a Joyeuse data do ano de 802. Segundo a lenda a espada, cujo nome significa "Rejubilante" em francês, foi forjada pelo famoso ferreiro Galas, que levou três anos para completar seu trabalho. Durante a construção, Galas teria recebido em sua oficina indivíduos que supostamente infundiram no metal propriedades místicas que tornaram a arma mágica. As lendas sobre essas propriedades mágicas são muitas. Uma das mais antigas estórias afirma que a lâmina quando erguida por um rei valoroso resplandece com um brilho tão forte que é capaz de cegar os inimigos em batalha. "O brilho de uma dúzia de sóis", escreveu um cronista medieval. Há também a crença que a espada protege seu portador contra venenos e doenças tanto naturais quanto mágicas. A espada seria capaz de romper maldições e malefícios e apontar na direção de qualquer um que conspira contra o rei. 
O Imperador Charlemagne, teria recebido a espada como presente quando retornava da Espanha. Ele foi procurado por Galas e outros três homens misteriosos que desejavam uma reunião particular com o rei. Os homens teriam feito algumas perguntas para avaliar a honra e a lealdade do monarca e uma vez satisfeitos com as respostas, lhe entregaram a espada como presente. 
Charlemagne (742-814), também chamado de Carlos Magno, foi o governante dos Francos e um dos mais influentes Imperadores Cristãos do Ocidente. Ele foi uma das principais personalidades de sua época, ajudando a definir o formato da Europa Medieval ao presidir o período que ficou conhecido como Renascimento Carolíngeo. Após a queda do Império Romano, ele foi o primeiro a reunir a Europa Ocidental sob um mesmo Império. Carlos Magno governou um vasto reino que incluía terras nas atuais França, Alemanha, Itália, Austria e os Países Baixos, foi ele quem consolidou o cristianismo ao longo de seu império, empreendendo para isso conversões forçadas. Suas realizações no campo militar frequentemente envolviam extrema brutalidade, como por exemplo a ordem de decapitar mais de 2,500 chefes tribais francos e saxões. 
Uma balada do século XI, escrita por Roland, narra a épica Batalha de Roncevaux em 778, e descreve o Rei cavalgando para o combate com Joyeuse:
"(Charlemagne) vestia uma armadura brilhante e uma tabarda branca imaculada com seu símbolo de armas no peito. Na cabeça um elmo com pedras incrustadas e filigramas de ouro; na cintura pendia Joyeuse, a espada inigualável. Quando tirada da bainha, sua lâmina mudava de cor. Os homens bradavam confiantes quando ele passava à caminho da guerra". 
Certo dia, durante uma grande batalha, Charlemagne alegadamente perdeu Joyeuse e prometeu uma recompensa para quem a encontrasse. Após várias buscas infrutíferas, empreendidas por nobres e cavaleiros, um humilde soldado descobriu a arma caída no campo coalhado de mortos. Ele a trouxe para o Rei e prostado de joelhos a entregou. Na ocasião, o Imperador teria feito um juramento solene: "Neste local será construída uma cidade da qual você será o lorde e senhor, e seus descendentes receberão o nome de minha magnífica espada". Em seguida, Charlemagne teria ordenado a construção de uma cidade naquele ponto. De acordo com as lendas, essa é a origem da cidade francesa de Joyeuse in Ardéche, nomeada dessa forma por decreto do rei. 
|Não existem registros históricos que atestem o que aconteceu com a Espada Joyeuse após a morte de Charlemagne. Entretanto em 1270, uma espada identificada como a verdadeira Joyeuse foi usada na cerimônia de coroação do Rei francês Phillip, o ousado, que foi sagrado na Catedral de Reims. A espada teria ficado sob a proteção do Monastério de Saint-Denis, que possui um famoso cemitério que recebe os restos mosrtais dos Monarcas Franceses. Lá ela teria permanecido sob a proteção dos monges até 1505.
Joyeuse foi levada para o Louvre em 1793, após a Revolução Francesa. Ela teria sido encontrada nas câmaras do tesouro do Palácio Real e reclamada pelas autoridades revolucionárias com um símbolo. Rumores atestam que ela por pouco não foi destruída, visto que representava um símbolo da monarquia recém derrubada, mas ao invés disso ela foi posta em exposição. Ela foi usada novamente em 1824 na coroação de Carlos X e é a única espada utilizada oficialmente para a coroação de Reis da França desde os tempos medievais.  
Atualmente, a arma que acredita-se ser Joyeuse está em exposição no Louvre atrás de uma parede de vidro à prova de balas. Ela é uma típica espada de lâmina larga, condizente com as armas que eram forjadas no século XII. Há no entanto algumas partes que datam de outros períodos: a empunhadura por exemplo é do século X ou XI, a bainha de veludo é do século XII e a cruz dourada usada como guarda mão é reminiscente do século XIII. É provável que a espada tenha recebido o acréscimo de partes de outras espadas ao longo dos séculos, uma prática relativamente comum. As pedras e jóias cravejadas que adornam a espada e sua bainha foram inseridas por diferentes governantes.
A espada de Joyeuse talvez seja uma das armas mais famosas do mundo, um artefato excepcional ligado intimamente a história da França. Visualmente deslumbrante, a espada se tornou o modelo padrão de espada que se imagina, quando se fala de espadas medievais.  
A Espada das Sete Ramificações: A Mítica Espada Cerimonial do Japão 
The Seven-Branched Sword: The Mystical Ceremonial Sword of Japan

Acredita-se que o Templo Shinto de Isonokami foi construído no século IV da Era Cristã. Localizado no sopé da Montanha Tenri no distrito de Nara, no Japão, este templo possui um importante significado cultural já que guarda vários tesouros nacionais. Dentre estes tesouros inestimáveis encontra-se uma lendária espada que é tratada como uma regalia imperial do Japão. Ela é chamada de Nanatsusaya no Tachi, ou "Espada das Sete Ramificações".
A espada é assim chamada porque sua lâmina possui ramificações, semelhantes a protusões que se projetam de seu corpo principal. Juntas com a ponta da lâmina principal, elas totalizam sete ramificações. A espada mede 74.9 cm de comprimento, e é feita totalmente de ferro. Uma vez que as ramificações parecem ser muito delicadas, e sua funcionalidade em combate parece duvidosa, é pouco provável que a Espada das Sete Ramificações tenha sido forjada com fins militares. Ao invés disso, ela provavelmente tinha função cerimonial. Uma inscrição gravada em ouro na lâmina central também depõe a favor dessa suposição.
De um lado está escrito:
"Em 16 de maio, no quarto ano de Tae-hwa, no final da tarde do dia de Byeong-O, esta espada de sete ramificações foi forjada com ferro revestido uma centena de vezes. Uma vez que a espada possui poderes mágicos, capazes de indicar a presença de inimigos, ela foi presenteada a um rei por um vassalo”.

Do outro lado, lê-se o seguinte:

"Nunca uma espada como essa foi forjada. Para que haja paz e prosperidade entre os Reinos de Baekje e Wa".
Esta é a grande polêmica. A inscrição não deixa claro qual é o estado suserano e qual o estado dominado.
Baekje é um antigo nome de um reino localizado na Península da Coréia, quanto a Wa, é uma antiga designação do Império do Japão. O artefato é bastante importante pois atesta o contato entre Baekje e o Japão em tempos antigos. Isso não é exatamente uma novidade, já que é consenso para muitos historiadores que estudiosos de Baekje levaram o budismo, confucionismo e o sistema de escrita chinês para o Japão. Mais importante, entretanto é que a inscrição lança uma luz sobre a natureza da relação estabelecida entre os reinos. 
De acordo com alguns estudiosos (japoneses em sua maioria), a espada teria sido ofertada como uma espécie de tributo, uma vez que Baekje seria um reino vassalo do Império do Japão. Outros pesquisadores (coreanos obviamente), afirmam que o sentido da inscrição é inverso e que o Japão seria o reino vassalo de Baekje. Uma vez que os dois reinos alternaram momentos de poder e sujeição um sobre o outro, não há como dizer ao certo qual dos dois está certo em suas suposições.
De acordo com o Nihon Shoki, tido como o segundo livro mais antigo escrito no Japão, a espada de sete ramificações, bem como vários outros tesouros teria sido presenteada ao Imperador como tributo de Baekje no quinquagésimo segundo ano de reinado de Jingu. Após essa oferta, Baekje teria acertado entregar um tributo anual. Os historiadores coreanos no enatnto contestam essa afirmação e dizem que a espada foi feita pelos japoneses e entregue como presente ao seu rei, um monarca de direito que extendia seu poder além do Mar até o Japão.
Essa discussão vigora há séculos e foi motivo de muita polêmica tanto no Japão, quanto na Coréia e um motivo de discórdia entre os dois países que vigorou até o século XX. 
Ao longo da história Japão e Coréia tiveram períodos conturbados e guerras ocasionais. Durante esses enfrentamentos, a espada era sempre o pomo da discórdia com soldados de ambos os lados afirmando que a história da espada os favorecia. 
Quando o Japão invadiu a Península da Coréia pouco antes do início oficial da Segunda Guerra Mundial, uma de suas motivações de seus generais era provar de uma vez por todas que o Império do Japão era o suserano do antigo reino de Baekje. Muitos militares japoneses, movidos pelo patriotismo alardeavam que era questão de honra provar que o Japão era o verdadeiro Senhor da Coréia. Incontáveis jovens se alistaram no exército imperial apenas com o intuito de invadir a Coréia e provar seu ponto. A maneira brutal como o Japão invadiu a Coréia na década de 1930, se deve, em parte, a essa longa disputa. As tensões entre Coréia e Japão perduraram por muito tempo e a dúvida sobre a espada veio à tona inúmeras vezes. Mesmo hoje, a Coréia do Norte, não considera o Japão uma nação amiga.
Em tempo, a espada alegadamente encontra-se em poder do Japão desde o século V. Os japoneses afirmam que a espada pertence a eles uma vez que foi ofertada por Baekje. Já os historiadores coreanos continuam afirmando que a espada foi roubada pelos japoneses em uma guerra e levada como espólio. Essa disputa aparentemente, jamais terá fim...
A lendária espada na Pedra de San Galgano
The Legendary Sword in the Stone of San Galgano
Uma das mais famosas lendas britânicas diz que o jovem Arthur Pendragon sagrou-se Rei ao remover uma espada presa em uma pedra. De acordo com várias versões da estória, a espada só poderia ser removida da rocha pelo único e verdadeiro rei da Inglaterra. Uma estória similar, mas muito menos conhecida, pode ser encontrada na Itália, mais especificamente na região da Toscana, e para alguns estudiosos poderia até mesmo ser a fonte de inspiração para a lenda inglesa. Esta é história da Espada de San Galgano.
San Galgano ficou conhecido por ter sido o primeiro santo cuja canonização se deu através do processo formal realizado pela Igreja Católica até os dias atuais. Muito da vida de San Galgano é sabido através de documentos sobre seus milagres que teriam ocorrido em meados de 1185, apenas alguns anos após a sua morte. Alguns historiadores escreveram a respeito de sua história e de suas realizações. 

San Galgano nasceu em 1148 na cidade de Chiusdino, na moderna província italiana de Siena. Sua mãe Dionisia e seu pai Guidotti pertenciam a nobresa de Siena e tinham uma vida confortável. Na juventude, San Galgano se preocupava apenas com os prazeres da vida. Na qualidade de nobre, ele recebeu treinamento de guerra e se tornou cavaleiro, ele era descrito como um rapaz arrogante e violento. Tudo isso mudou quando ele experimentou uma visão que mudaria sua vida para sempre.
A conversao se deu quando Galgano foi derrubado de seu cavalo em uma disputa e desmaiou. Ele alegava que enquanto estava ferido foi protegido pelo Arcanjo Miguel - que incidentalmente é um padroeiro dos guerreiros. O arcanjo disse que ele deveria mudar sua vida dramaticamente, abandonar os exageros e se tornar um eremita em busca de iluminação. Recobrado de seus ferimentos, San Galgano abandonou suas armas e passou a viver em uma caverna isolada. Como seria de se esperar, Galgano foi ridicularizado pelos seus amigos e família, que acreditavam que ele havia simplesmente enlouquecido. Sua mãe Dionísia chegou a visitar o filho e tentou convencê-lo a retornar para casa e por um curto período ele acabou cedendo aos pedidos da família.
Meses depois, Galgano passava pelo vale de Montesiepi, que fica próximo de Chiusdino. Ele teve uma nova visão na qual ouviu uma voz dizer que ele deveria escalar a montanha e chegar ao topo. Lá, experimentou uma visão com uma Grande Igreja e os Santos Apóstolos. A misteriosa voz o comandou a abandonar a vida frívola e se tornar um eremita cuja existência seria devotada a religião. Galgano respondeu que não tinha forças para tanto e que mudar dessa maneira era virtualmente impossível, tanto quanto partir uma rocha com um golpe de espada. A voz o comandou então a sacar sua espada e desferir um ataque na rocha mais próxima. Atendendo a ordem, Galgano investiu contra um pedregulho e para sua surpresa, a lâmina não se partiu, mas penetrou na rocha enterrando-se em seu interior mantendo-se entretanto intacta. Caindo de joelhos diante do milagre, Galgano se dedicou a construir uma igreja naquele exato local.
Por séculos, a espada na pedra permaneceu no alto de Montesiepi como uma atração para a Igreja que posteriormente foi erguida. Ela era considerada uma farsa moderna bem engendrada. Contudo, uma pesquisa recente atestou que a espada realmente é do século XII, baseada em sua composição de metal e estilo da lâmina. Os pesquisadores também descobriram com o auxílio de um radar de profundidade, que existe um nicho a aproximadamente dois metros de profundidade e um metro abaixo da espada, onde alegadamente foi depositado o corpo de San Galgano. Por fim, um exame de radio-carbono descobriu outra curiosidade na Igreja - um par de mãos mumificadas, também do século XII, guardadas em um nicho da parede da igreja. De acordo com uma lenda muito difundida, o diabo enviou um assassino disfarçado de monge até Montesiepi com o intuito de roubar a espada e incendiar a Igreja quando esta estava sendo construída. San Galgano teria sido avisado pelo Anjo Miguel, e para se defender do criminoso recebeu a permissão de remover a espada presa na rocha. De posse da arma, cujo fio ainda estava perfeito, ele deu cabo do assassino cujas mãos foram decepadas e expostas na Igreja ao longo dos anos.
Após a morte de San Galgano, a obra da Igreja foi concluída por alguns seguidores que criaram uma Ordem de Cavalaria devotada a ajudar os pobres e necessitados. No século XIII, um dos descendentes de Galgano teria sido investido pelo Arcanjo Miguel a remover a espada da pedra e usá-la na Cruzada para libertar a Terra Santa. A espada teria sido retornada após a jornada e conquista de Jerusalém.
Hoje em dia, a espada permanece na igreja construída por Galgano atraindo inúmeros fieis. Diferente de outras relíquias sacras, até pouco tempo atrás, indivíduos que aformavam terem experimentado visões com o Arcanjo tinham permissão para tentar remover a espada da rocha. Até onde se sabe, ninguém conseguiu repetir a façanha.
Goujian: A Espada Chinesa que desafia o tempo
Goujian: The Ancient Chinese Sword that Defied Time

Cinquenta anos atrás, uma rara e misteriosa espada foi encontrada em uma tumba na China. A despeito de ter mais de dois mil anos de idade, a lâmina, conhecida como Goujian, não apresentava qualquer traço de ferrugem. A lâmina estava em tão boas condições que o arqueólogo que a testou produziu um corte no próprio dedo ao testar o fio. Ela estava em perfeito estado, a despeito de tanto tempo ter passado. A qualidade da arma era tão superior a qualquer outra criada na mesma época, que os pesquisadores cogitaram que ela havia sido coocada na tumba como uma espécie de farsa. Tratada como um tesouro nacional, a espada é tão lendária para o povo da China quanto a Excalibur para os ocidentais.

Goujian foi encontrada em um complexo subterrâneo de ruínas Jinan, próximo da cidade de Chu, junto com ela foram desenterrados mais de dois mil outros itens de grande valor arqueológico. A espada estava em uma cripta, guardada em um estojo de madeira laqueado no colo de um esqueleto trajando roupas nobres e uma armadura. Os arqueólogos ficaram sem palavras ao se deperar com a arma, cuja lâmina de bronze estava intacta, preservada em uma bainha de pele. Um teste conduzido pelos pesquisadores constatou que a espada era reminiscente dos demais itens descobertos na tumba. 

A Espada de Goujian é a mais antiga Espada Jian encontrada até hoje. Esse estilo de lâmina reta com fio duplo foi largamente usada na China há pelo menos 2500 anos. As espadas Jian estão entre as mais antigas utilizadas e são intimamente associadas ao folclore nacional. Segundo as lendas, a espada é tratada como "a arma preferida dos heróis", considerada como a ferramenta dos grandes guerreiros junto com o cajado, a lança e o sabre leve.

Relativamente mais curta quando comparada a outras peças do mesmo período, Goujian possui uma alta concentração de cobre na sua liga, fazendo com que ela seja muito mais resistente. Os fios da lâmina são revestidos com uma camada de latão que a torna mais dura e permite manter sua borda muito mais afiada. Há também uma pequena concentração de ferro, chumbo e enxofre na espada, e uma análise mais elaborada conclui que havia Sulfito de Cobre, responsável por garantir as propriedades anti-oxidação. Na empunhadura, Goujian possui uma turquesa engastada e um fio de metal para não escorregar. A espada mede 55 centímetros de comprimento e tem uma lâmina com 4,5 centímetros de largura. Ela pesa apenas 875 gramas.

Ao longo da lâmina, há uma inscrição em caracteres chineses arcaicos que foram traduzidos como "O Rei de Yue ordenou a criação dessa espada para seu uso pessoal" e a abaixo o nome do ferreiro responsável pela magnífica obra. Desde seu surgimento em 510 aC, até sua destruição pelo Império Chu em 334 dC, nove reis governaram Yue, incluindo um que era chamado Goujian e que foi apontado como o dono original da espada.

Goujian foi um famoso imperador conhecido pelas suas expedições militares nas quais ele próprio tomava parte. Conhecido com um governante audacioso, Goujian travava as suas próprias lutas, cavalgava, disparava arco e flecha, dominava as artes da esgrima e outras perícias marciais. Incorporado ao folclore chinês, Goujian se tornou um personagem recorrente em várias estórias admirado pelo seu heroísmo, representado como um guerreiro poderoso e implacável. Apesar de ter sido derrotado pela Dinastia Zhou, Goujian retornou dez anos mais tarde a frente de um exército para retomar o seu trono e matar seus inimigos. Segundo as lendas, a mítica espada do Imperador tinha propriedades sobrenaturais: ela não podia ser retirada da bainha a não ser pelo Imperador ou por alguém de sua confiança, além disso a arma era tão afiada que podia cortar através de metal como se fosse seda, finalmente, a arma depois de provar o sangue de um inimigo adquiria vida própria, controlando o braço de seu portador desempenhando uma dança fatal.

Não à toa, a descoberta de uma lendária espada que pode muito bem ter pertencido a um herói igualmente lendário, é tida como uma das maiores descobertas arqueológicas da China. A espada é o mais importante item do Museu da Província de Hubei, atraindo milhares de visitantes anualmente. 

Nesse caso, é possível ver com os próprios olhos uma arma que faz parte das lendas. 

A Maldição das Espadas Muramasa
The Curse of the Samurai Muramasa Blades
Bushido, o famoso livro escrito por Nitobe Inazo em 1899 explora o mito dos samurais. Em um dos capítulos ele diz que a espada é a "alma do samurai", a ferramenta através da qual o guerreiro comunga com espíritos superiores. Com tamanha importância dispensada a essas magníficas armas, não é de se estranhar que o ofício de construtor de espadas gozasse de enorme influência. Mestres armeiros, em especial, aqueles que se dedicavam a criação de espadas para samurais eram tidos como verdadeiros artistas.

No Capítulo XII, Nitobe escreve: 

"O construtor de espadas não é um mero artesão, mas um artista; sua oficina é seu santuário. O mestre inicia seu dia de trabalho com uma oração e um ritual de purificação, neste compromete sua alma e seu espírito na tarefa árdua de temperar o aço e forjar uma arma mortal nas mãos de um guerreiro. Cada golpe de martelo, cada mergulho na água, cada fricção na mesa de afiar não é um ato gratuito, está mais para uma atividade religiosa".

Alguns construtores de espadas se tornaram tão famosos quanto os próprios samurais. Seus nomes sendo compartilhados com um misto de admiração e reverência. Um dos maiores construtores foi Muramasa Sengo, que em importância no seu ramo de trabalho só era comparado a Muramasa Goro

Muramasa Sengo viveu durante o período Muramachi (entre os séculos XIV e XVI). Em algumas lendas, Muramasa é descrito como um discípulo do lendário armeiro Masamune, ainda que historicamente seja impossível, já que o segundo viveu muitos séculos antes de seu alegado aluno. Segundo as lendas, Muramasa era um verdadeiro gênio no ramo, responsável por criar espadas quase perfeitas. Infelizmente, como muitos virtuosos, Muramasa tinha um gênio difícil... na verdade ele é retratado como um louco varrido, capaz de atos de violência extrema. Muramasa teria matado vários de seus ajudantes que falharam em atingir seu elevado grau de perfeição. Mais do que isso, ele exigia completa dedicação de cada aprendiz, chegando ao extremo de assassinar a noiva de um de seus empregados para que o rapaz não dividisse sua atenção entre o trabalho e a vida pessoal.

Muramasa era um verdadeiro maníaco: trabalhava de sol a sol, não dormia, comia pouco e passava os dias e noites na oficina em sua busca insana pela espada perfeita. Suas qualidades destrutivas, segundo as lendas, eram transmitidas para as espadas que ele temperava exaustivamente. As lâminas acabavam contaminadas pela loucura de Muramasa, embora fossem magníficas. Os samurais que as empunhavam terminavam se tornando desnecessariamente violentos, sanguinários, vingativos... para alguns as lâminas de Muramasa eram malditas, transmitiam parte de sua loucura para quem ousava empregá-las. 

A despeito da má reputação e da superstição, mais e mais lâminas foram forjadas, tornando-as extremamente populares no Japão. Foi apenas durante o reinado da Dinastia Togugawa Ieyashu, o primeiro Shogun do período Edo, que as espadas Muramasa começaram a perder a sua influência. O pai do shogun, Matsudaira Hirotada, e seu avô, Matsudaira Kiyoyasu, foram mortos por assassinos portando lâminas Muramasa. O próprio shogun foi ferido (supostamente) por uma espada criada por Muramasa enquanto inspecionava o yari (lança japonesa) de um dos seus generais.

Essa série de coincidências envolvendo espadas Muramasa fez com que surgisse o rumor de que uma espada Muramasa estava destinada a matar o shogun e toda sua família. Convencido dessa estória, o shogun ordenou que todo samurai detentor de espadas Muramasa entregassem suas armas. Muitos guerreiros se negaram a entregar suas espadas e enfrentaram o édito imperial. O caso mais famoso de um samurai que se negou a entregar as armas foi o de Takanak Ume, o Magistrado de Nagasaki. Em 1634, foram encontradas nada menos do que 24 espadas Muramasa em sua casa. Como castigo Takanak foi obrigado a cometer seppuku (ritual de suicídio). A despeito das sérias punições, alguns samurais continuaram usando as espadas proibidas.

Quanto a Muramasa, ele acabou sendo preso depois de escorraçar os emissários do Shogun da sua oficina. Negando-se a encerrar seus trabalhos, o shogun ordenou que ele fosse preso e jogado na masmorra. Ainda assim, o armeiro disse que não deixaria seu trabalho de lado e como retribuição, o shogun ordenou que seus olhos fossem furados para ele não poder construir mais nenhuma espada. Supostamente, Muramasa ainda conseguiu criar outras espadas clandestinamente, algumas tão, ou até mais perfeitas, do que as forjadas quando ele enxergava.

Hoje em dia, as espadas criadas por Muramasa Sengo estão entre as mais raras e valiosas podendo atingir enormes somas em casas de leilão especializadas. Durante a Segunda Guerra mais de cinquenta dessas espadas lendárias foram recolhidas como espólio de guerra por soldados americanos, algumas delas foram compradas pelo governo do Japão em uma tentativa de reaver esse importante tesouro nacional.

domingo, 16 de agosto de 2015

"Nós temos o mundo que merecemos" - Uma breve resenha da segunda Temporada de True Detective


Então foi assim que uma das mais comentadas, examinadas e debatidas séries  terminou - com balas, corações partidos e sobrevivência.

A Segunda Temporada de True Detective chegou ao fim.

Imagino que muitos devem ter ficado satisfeitos com a maneira como as coisas seguiram, do início conturbado até a amarga conclusão, com os detetives sendo esmagados pelo tamanho do caso, tentando sobreviver a perseguição implacável de seus inimigos. Suponho que muitos devem ter ficado um tanto frustrados com o final que exterminou personagens de modo impiedoso. Mas já havíamos previsto que um final feliz para os protagonistas parecia altamente improvável. Partindo do pressuposto que essa segunda temporada de True Detective manteve um estilo noir, um final feliz parecia fora de cogitação. 

Eu particularmente gostei muito da temporada e da conclusão dada a ela. 

True Detective conquistou um lugar permanente na minha grade de programação e é provável que eu volte a assistir a segunda temporada em sequência para prestar atenção nos detalhes sutis costurados na trama destilada pelo seu autor, Nic Pizzolatto. Tenho certeza que vou achar muita coisa que passou batida, ainda que eu tenha tentado pescar todas referências possíveis para escrever os recaps. Aliás, essa é uma das coisas que me atraíram em True Detective, a forma como o próprio espectador se torna um "detetive" ao esquadrinhar as cenas em busca de pequenos detalhes, dissecar os testemunhos a procura de indícios e encontrar referências ocultas. True Detective me lembra muito Twin Peaks, no qual por vezes era necessário anotar a relação entre os personagens para entender os elos existente entre eles. Assim como acontecia em Twin Peaks, a série era muito mais sobre os personagens da cidadezinha do que sobre o crime que os reunia e os tornava suspeitos. Os segredos pessoais e os esqueletos escondidos nos armários eram muito mais interessantes do que solucionar as clássicas questões: "Quem matou?" e "Por que matou?" 

Nesse pormenor, é bom abrir um parenteses e falar da trama.


Muitos reclamaram da ausência do tal "componente sobrenatural" que foi a marca registrada da primeira temporada de True Detective (doravante TD1). Tivemos a caçada a um mítico Rei Amarelo e ao Culto formado por "homens poderosos" e "caipiras místicos" nas profundezas do Sul, gente metida com feitiçaria, rituais e sacrifícios. Alguns (eu inclusive) esperavam que a segunda temporada (daqui pra frente TD2) seguisse uma premissa semelhante, com algum envolvimento de ocultismo na trama. Eu adoraria que tivesse sido feita essa conexão. Mas é preciso lembrar que esse não é o foco da série. True Detective se concentra em analisar como casos complicados e diligências policiais intrincadas afetam os detetives envolvidos em uma investigação. Como detetives calejados mudam seu ponto de vista e se deixam corromper pelo sistema em que estão inseridos na busca pela solução de um mistério que altera o curso de suas carreiras para sempre. 

O elemento sobrenatural em TD1, ao meu ver foi uma feliz coincidência, mas dificilmente será a regra para a série. Talvez no futuro até possamos ver algo nesse sentido, mas a série é em essência um programa policial com os pés no chão. Ele se esmera em examinar a maldade e a perversidade humana de uma maneira muito particular, até incômoda. Os vilões de True Detective são especialmente amorais, cruéis em suas motivações, detestáveis em seus atos. Eles são monstros no pior sentido da palavra, mas mesmo assim, a série não os julga, apenas mostra do que eles são capazes. Assim aconteceu com os caipiras homicidas da Louisiana, assim ocorreu com os corruptos da sombria Califórnia. Em TD1 a motivação dos vilões era a loucura consanguínea e o desejo de exercer controle por intermédio de tradições antigas, em TD2 a coisa era menos esotérica, ambição e sede de poder alimentavam o grupo de Vinci.

Mas essas diferenças não impediram que a segunda temporada apresentasse elementos que poderiam facilmente ser inseridos em um mundo contaminado por ocultismo - máscaras de animais, o caráter ritualístico da morte de Caspere, as festas regadas a sexo, os encontros de homens poderosos sem ética em uma mansão na lua cheia... tudo apontava na direção do sobrenatural, mas não seguiu nesse caminho. Até o último episódio parecia que algo sobrenatural iria acabar saltando aos nossos olhos. Talvez Nic Pizzolatto tenha flertado com essa possibilidade, possivelmente ele até escreveu o roteiro dessa maneira para deixar o público com a pulga atrás da orelha.


Muitos dos que criticaram a segunda temporada reclamaram da complexidade da trama. E dou a mão à palmatória, concordando que não havia necessidade de tantas idas e vindas no roteiro. Profusão de personagens, sequências sem um propósito aparente e elementos estranhos se multiplicavam. A intrincada relação dos poderosos com o Corredor Ferroviário, a morte do capanga de Frank, Stan, as maracutaias da organização criminosa... Até o quarto episódio tinhamos uma sucessão de acontecimentos que não se encaixavam de forma nenhuma. Eram muitas pontas soltas e lacunas a serem preenchidas. Mas a partir do quinto episódio - que marcou o início da segunda metade da trama, as coisas começaram a entrar nos trilhos. O violento tiroteio em Vinci serviu para colocar a estória novamente em ordem e forneceu as peças para montar o quebra-cabeças.   

Mas apesar de dar muitas voltas para contar uma estória desnecessariamente confusa, é inegável que a segunda temporada de True Detective atingiu seu objetivo: ela foi envolvente, densa e instigante. Se o mistério não foi tão excitante quanto na primeira temporada, a segunda se esmerou em apresentar personagens com inúmeras facetas e que ganharam a simpatia dos espectadores (apesar, ou mais provavelmente, por causa de seus muitos defeitos).
 
Muitos vão ponderar que o trio de detetives protagonistas de TD2 (e mais o gangster Frank Semyon) não se comparam a dupla Hart e Cohle, que ganharam a devoção dos fãs. Eu acho que comparações nesse sentido são um tanto injustas, Matthew McConaughey e Woody Harrelson estavam em estado de graça, e se os astros da última temporada não conseguiram igualar esse nível, eles certamente não decepcionaram. Muito pelo contrário! 

Colin Farrel (Ray Velcoro), Rachel McAdams (Ani Bezzerides) e Taylor Kitch (Paul Woodruff) brilharam intensamente com seus personagens. Colin Farrel talvez tenha obtido o melhor trabalho de sua carreira com as muitas faces do detetive Velcoro. McAdams e Kitch também foram perfeitos. E não se pode esquecer de Vince Vaugn (egresso de comédias boçais) que mostrou ser um excelente ator dramático e desmontou os muitos questionamentos sobre sua escalação para o papel.


Os personagens de True Detective sem dúvida foram o ponto alto da série. Eles sustentaram ao longo 
de oito episódios uma trama complexa que poderia não funcionar com outra escalação de atores. Nic Pizzolatto por sua vez deu uma mostra de sua habilidade inquestionável de contar estórias sórdidas, mas é possível que ele tenha de fazer alguns ajustes. Uma comedimento na hora de escrever a trama e uma economia em reviravoltas talvez fosse o ideal. A audiência se manteve alta e é praticamente certo que teremos uma terceira temporada.     

No fim, a série cumpriu a proposta de ser diferente, e mesmo aqueles que não gostaram da pegada, acabaram assistindo - nem que fosse para reclamar das loucuras e bizarrices. Mesmo os detratores da segunda temporada, tem que admitir que a série teve um crescimento na sua segunda metade e que o episódio final amarrou as pontas soltas de uma maneira satisfatória. 

Como será a terceira temporada? 

Que comecem as especulações.