quinta-feira, 18 de abril de 2019

O Presidente Doppelganger - Suspeitas de que o governante da Nigéria foi trocado por uma criatura


Política é algo complicado. 

Por vezes, reviravoltas muito estranhas tendem a acontecer na arena das deliberações, debates e disputas políticas. Mas na nação africana da Nigeria, por vezes, as coisas podem ficar... bizarras.

Desde o final de 2018 há rumores circulando entre a população e os salões do poder em Abuja, capital do país. Estes levantam suspeita a respeito do Presidente Muhammadu Buhari, que segundo os boatos seria um impostor. De acordo com os defensores dessas teorias que se tornaram muito populares, o verdadeiro Buhari, alvo de um atentado coordenado por inimigos políticos em 2017, não escapou do ataque. Na versão oficial, agentes de segurança conseguiram impedir que o presidente fosse ferido após uma explosão, mas alguns não estão tão certos disso. 

Uma parcela significativa da população acredita que o presidente de fato morreu e que ele foi substituído. Mas não por um simples sósia, e sim por uma criatura do folclore africano, o Jubril, basicamente o equivalente ao doppelgänger. A criatura mítica teria a capacidade de assumir a aparência de qualquer pessoa, bastando para isso tocá-la ou consumir umas gotas de seu sangue.


A suspeita começou depois que Buhari, de 76 anos se recuperou rapidamente do atentado - no qual, segundo o porta voz da presidência ele sofreu apenas ferimentos leves. A saúde do presidente se tornou um assunto contestado, já que algumas testemunhas logo após o atentado relataram ter visto o presidente gravemente ferido. Por algumas horas, circulou inclusive a informação de que ele teria morrido. Buhari ficou hospitalizado por apenas 48 horas e foi liberado logo a seguir, apresentando o que foi descrito como uma melhora rápida.

Após o seu retorno ao cargo, as teorias da conspiração tiveram início.

Pessoas próximas ao presidente começaram a reparar que sua personalidade parece ter sofrido uma mudança profunda. Normalmente calmo e gentil, Buhari começou a demonstrar explosões de destempero. Ele teria brigado com três ministros até então muito próximos de sua base aliada, e todos foram afastados. Também se separou da esposa e parentes que desempenhavam cargos de confiança. Algumas de suas políticas mudaram inteiramente de sentido e ele passou a evitar discursos e aparições públicas.

Mais do que isso, observadores alegam ter percebido alguns pequenos detalhes no comportamento do líder nigeriano. Para começar ele estaria usando a mão esquerda, sendo que até então era destro. Em uma rara aparição pública, Buhari não teria cantado o hino do país, algo que ele sempre fazia. Finalmente, algumas pessoas próximas ao presidente manifestaram preocupação pelo fato dele ter perdido muito peso e parecer extremamente frágil.


É claro, todos esses estranhos comportamentos podem ser explicados facilmente, o fato dele estar usando mais a mão esquerda se deve a um ferimento sofrido na mão direita. Ainda assim, isso não serviu para convencer muitos compatriotas de Buhari.

Uma das teorias mais frequentes (e estranhas) afirma que o impostor colocado no lugar do presidente para assumir o seu lugar foi plantado lá por agentes sudaneses. O Sudão e a Nigéria vem experimentando uma crescente disputa e problemas diplomáticos nos últimos anos. A substituição teria acontecido para que acordos vantajosos para o Sudão fossem assinados. De fato, o discurso de Buhari para com seus vizinhos assumiu um tom mais conciliador após o atentado, o que, segundo os defensores só reforça a suspeita de uma conspiração.

O Jubril é uma criatura do folclore africano, presente no norte da África, muito conhecido na Nigéria e também no Sudão. Segundo o folclore local, ele é um ser capaz de copiar a aparência física de outras pessoas com as quais estabelece contato íntimo. Em algumas lendas ele precisa dormir ao lado da pessoa que deseja copiar, fazer sexo ou então beber algumas gotas de seu sangue. A aparência é copiada nos mínimos detalhes, inclusive a voz e maneirismos, contudo, o Jubril não é capaz de ler a mente da pessoa e de saber o que o original sabia. Ele precisa então ser esperto para não despertar a suspeita dos parentes e amigos mais próximos que podem perceber algum comportamento estranho. O Jubril não é necessariamente perverso, mas algumas lendas se referem a eles como diabretes e demônios com interesse em pegar peças e fazer pequenas maldades. 


A teoria do Doppelgänger ganhou muita força e Buhari se viu obrigado a responder questões a respeito dela. Seus opositores passaram a exigir que ele realizasse um exame completo com médicos indicados por eles.

Recentemente ele compareceu a Assembléia em Abuja para uma conferência onde se defendeu: "Eu asseguro que sou realmente eu. Completei 76 anos de idade e ainda sou o mesmo, forte e saudável". Buhari afirmou que as pessoas espalhando tais rumores não passam de indivíduos "ignorantes e crédulos, que não tem respeito pela religião". Ele também se dirigiu aos seus oponentes dizendo que eles estão tentando tumultuar o processo eleitoral com ideias absurdas.

Apesar do discurso ter tranquilizado boa parte do povo, pesquisas realizadas ainda mostravam que perto de 45% da população tinha dúvidas a respeito da identidade do presidente. Nas áreas rurais, longe da capital, esse número aumenta consideravelmente. Alguns acreditam que seria necessário obrigar o presidente a realizar os exames que atestariam a verdade sobre a sua forma. 

O mais provável é que se trata tão somente de uma tentativa de descreditar um político antes das eleições ou anular seus esforços para concluir o mandato tranquilamente. Mas poderia haver algo mais estranho nessa história bizarra? Mesmo que pareça altamente improvável que Muhammadu Buhari tenha sido substituído por um doppelgänger, este incidente mostra como rumores e boatos - não importa o quão infundados, podem ser transmitidos e contagiar uma população, criando uma verdade bizarra. 

Esse mundo em que vivemos é realmente muito, muito estranho...

terça-feira, 16 de abril de 2019

A Verdade sobre Valak - Lendas e histórias medievais sobre forças diabólicas


Dentre os filmes recentes de horror, um se destaca ao apresentar uma criatura especialmente assustadora e sinistra. A entidade conhecida como Valak aparece em Conjuração do Mal 2, Annabelle e mais recentemente A Freira, filmes de sucesso, com bilheterias consideráveis mundo à fora.  

Com sua aparência ameaçadora e aura absurdamente macabra, escondendo sua face atrás do hábito de freira, Valak imediatamente se tornou popular entre os fãs do gênero. É uma presença demoníaca a ser lembrada (e temida). Parece bem provável que ele apareça em outras produções, consolidando sua presença como um dos novos monstros do terror.

Mas, será que existe alguma base de verdade nesse personagem? Será que Valak é citado em algum tomo de conhecimento místico ou não passa de uma construção inteiramente Hollywoodiana? A resposta para essa pergunta, pode surpreender os leitores.

Por estranho que possa parecer, a força maligna dos filmes conhecida como "Valak" é de fato baseado na mitologia demoníaca, embora os produtores tenham tomado uma série de liberdades com a fonte que decidiram adaptar. O ser demoníaco Valak, chamado em algumas versões de Valac, Ualac, Valu, Volac, Volach, e Coolor ou ainda Doolas, foi descrito em vários Grimórios de Magia através dos séculos.

Pesquisadores acreditam que ele foi mencionado pela primeira vez em um famoso manuscrito de magia chamado "The Clavicule of Solomon" ou A Chave Menor de Salomão. Esse texto se dedica quase que inteiramente a arte de invocar e controlar espíritos, tanto os benignos quanto os maldosos. Dentre as páginas desse grimório estão listados os nomes de 72 entidades malignas, ou demônios, que foram derrotados pelo lendário Rei Salomão do Antigo Testamento, bem como os rituais e feitiços que descrevem como conjurá-los e bani-los. Na lista, o demônio de número 62 é nenhum outro senão, Valak. 


Ele é descrito como um dos grandes governantes do Inferno, líder de legiões e comandante de forças nefastas. Possuidor de enorme poder, astúcia e a capacidade de localizar tesouros ocultos. Em alguns textos mais contemporâneos, Valak possui a capacidade de controlar serpentes e animais peçonhentos de toda ordem, e segundo certos documentos, estende esse mesmo poder àqueles que invocam seu nome, fornecendo a eles imunidade a venenos mortais. A aparência física de Valak não é a de uma freira velha e aterrorizante, mas de um tipo de querubim - um anjo em forma de menino, com asinhas pequenas nas costas e uma aparência delicada, que é totalmente enganadora. Valak controla uma serpente ou dragão de duas cabeças que sempre surge ao seu lado, ou com ele a cavalgá-lo. Curiosamente, em nenhum livro ou manuscrito do mundo real, ele é descrito como uma freira vingativa. 

A Chave Menor de Salomão diz a respeito de Valak:

"O sexagésimo segundo espírito é Volac, ou Valak, ou Valu. Ele é o poderoso governante de uma parte do inferno e possui a aparência de uma criança com asas de anjo, cavalgando um dragão de duas cabeças. Ele concede respostas verdadeiras sobre tesouros ocultos e avisa da presença de serpentes que se submetem à sua vontade. Ele governa a 38a Legião de Espíritos profanos".

O sinistro e diabólico Valak também é mencionado em vários outros tratados de magia medievais tais como o Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, o Liber Officium Spirituum, o Manual de Magia Demoníaca de Munich e o Fasciculus Rerum Geomanticarum. Cada livro apresneta maneiras de negociar e barganhar com Valak, algo que francamente não parece uma boa ideia.

O já citado Chave de Salomão, contudo, sempre foi a fonte mais importante a respeito dele. O livro era considerado tão ofensivo e herético pela Igreja Medieval que até hoje figura no Índice dos títulos proibidos, desde 1599. 


Um elemento curioso é que o livro apesar de proibido, tornou-se extremamente popular justamente entre sacerdotes no período medieval. Várias bibliotecas no mundo cristão medieval mantinham cópias de livros proibidos, à despeito das ordens do Vaticano de destruir os volumes que constavam no Índice. Para burlar os agentes da Inquisição, responsáveis por incinerar os livros perigosos, os bibliotecários geralmente encadernavam os tomos com uma capa falsa. Também inseriam páginas no meio de outro trabalho ou simplesmente disfarçavam as páginas com iluminuras inofensivas. Assim, uma consulta casual não revelaria o teor diabólico dos textos e eles poderiam sobreviver. Na melhor tradição de segredos e mistérios monásticos, alguns livros traziam códigos secretos e legendas para localizar os livros proibidos convenientemente escondidos.

Estima-se que mais de uma dúzia de monastérios medievais franceses possuíssem em seus acervos uma cópia desse livro profano, o que é suficiente para apontá-lo como um livro muito popular em termos medievais. Estar de posse de um livro como esse podia ser perigoso, não apenas para o bibliotecário mas para a ordem inteira. Em 1546, agentes da inquisição descobriram em um Monastério nos arredores de Turim uma vasta coleção de livros proibidos, entre os quais a Chave Menor de Salomão. O bibliotecário e três de seus assistentes foram presos e julgados por heresia, os livros recolhidos e enviados para Roma.

Mas voltemos a Valak.

Na vida real, Ed e Lorraine Warren, o celebrado casal de os investigadores do paranormal retratados nos filmes da franquia Conjuração do Mal, jamais mencionaram o nome de Valak. Em momento algum de suas investigações transcorridas em Amityville e Enfield, eles apontam Valak como causador dos incidentes paranormais. Tudo isso é uma criação dos roteiristas.


Outro detalhe curioso abordado no filme "A Freira" diz respeito a sinistra abadia localizada na Romênia. Na produção, ela é assombrada por uma presença demoníaca que elimina os monges um a um e pretende escapar de seu confinamento. Por bizarro que possa parecer, essa história parece inspirada em um incidente real, embora Valak não seja citado em momento algum.  

A Abadia em questão chamava-se Cârța ou Monastério de Cârța, e se localiza no Sul da Romênia, na região mundialmente conhecida como Transylvania. O lugar era tão isolado, sombrio e assustador quanto o prédio em estilo gótico que aparece no filme. O monastério pertencia a Ordem Beneditina, mas ele foi originalmente construído por monges cistercienses por volta de 1200 como uma igreja. Em algum momento do século XIII, o prédio se incendiou misteriosamente, várias pessoas ficaram presas no seu interior e morreram queimadas. Isso é claro, contribuiu para que alguns passassem a considerar o lugar assombrado.

Os monges decidiram transferir o que havia restado e que foi reduzido a ruínas para os beneditinos. Estes reconstruíram a estrutura e erigiram ali o seu Monastério. Dizia-se que os monges viviam em total isolamento e jejuavam ao longo de todo ano. O abade era um homem severo que obrigava a todos seguirem suas ordens sob pena de serem duramente disciplinados. Havia rumores que os irmãos dormiam sobre palha seca, eram proibidos de falar e que tinham permissão de trocar seus hábitos apenas uma vez a cada 3 meses. Os dias transcorriam em orações e trabalho pesado, o único alimento vinha de uma pequena horta e não era suficiente para todos. A vida deles era de extrema austeridade, em completa observância às regras de São Benedito que previa uma existência frugal, trabalho constante e humildade. 

Segundo as lendas, em algum momento os monges se rebelaram contra a tirania do abade. O sujeito teria sido assassinado e seu corpo colocado nas fundações do prédio principal, escondido atrás de uma parede erguida rapidamente para sepultá-lo. Acontece que o abade era parente do Rei da Hungria Matthias Corvinus que não ficou nada satisfeito com o acontecido. Em 1474 Corvinus mandou prender e torturar os monges até que revelassem quem havia participado da conspiração. Doze monges foram julgados, oito acabaram condenados e executados. O complexo foi então abandonado, ainda mais depois que muitos acreditavam que o lugar era assombrado pelo espectro do abade. Apenas no século XVII, o lugar foi renovado e transformado em uma igreja pela paróquia local.     


Os monges enterravam seus mortos em um pátio na frente do monastério que recebeu o nome de Jardim dos Sepulcros, onde supostamente a vegetação não crescia uma vez que a única coisa plantada ali eram cadáveres. Posteriormente o lugar recebeu os cadáveres de soldados mortos na Grande Guerra. Estranhamente uma escavação realizada em 1920 para remover os restos de militares e transferi-los para Bucareste, revelou duas ossadas de homens medindo dois metros de altura, uma estatura incomum tanto para a época quanto para os habitantes da região. Alguns passaram a acreditar que os dois eram vampiros ou homens vindos de terras distantes, ninguém jamais soube.

O estilo gótico da construção e as muitas histórias contadas ajudaram a construir uma reputação sinistra do local. O que não faltava eram incidentes inexplicáveis reportados pelos religiosos que habitavam as instalações. Tremores misteriosos, sombras espectrais que atravessam paredes e vozes gritando eram os fenômenos mais frequentes. Contudo havia ainda lamentos, cheiro de queimado e uma estranha presença fantasmagórica; um homem de aspecto maligno que teria sufocado mais de um sacerdote que se aventurava sozinho pelos corredores à noite. O rumor mais persistente é que esse seria o fantasma do abade, mas ninguém sabe ao certo.

Em meados de 2000, parte do monastério foi desativado e acabou se deteriorando rapidamente. Já em 2008 um campanário ruiu e o sino colocado ali em 1495 veio ao chão. Posteriormente a igreja foi restaurada e se tornou um destino procurado por turistas. É claro, o demônio Valak não parece ter qualquer relação com a história local, mas isso não impediu os roteiristas de criar uma conexão para escrever um filme.


Embora filmes assumam uma espécie de licença poética e criativa para mudar certos elementos da história e mitologia, alguns deles ainda possuem raízes no mundo real, com lugares que de fato existem e que são tão assustadores no mundo real, quanto no mundo de faz de contas. É curioso como alguns elementos aterrorizantes acabam se tornado material para entretenimento, como é o caso de Valak e do monastério romeno.

Na próxima vez que você assistir um filme de horror, talvez caiba se perguntar o quanto de sua história é baseada em lendas e quanto é focado no mundo real.

sábado, 13 de abril de 2019

Resenha de "Imperiais de Gran Abuelo" de M.R. Terci - O Inferno na Maldita Guerra


Não é de hoje, o Mundo Tentacular fala da obra de M.R. Terci. No quesito horror gótico brasileiro, esse autor e poeta paulista se destaca como expoente máximo, criando um terror extraído e destilado, diretamente da nossa história.

Ok, eu sei o que alguns vão pensar... para muitos a história do Brasil soa um tanto monótona. Não tem o mesmo frescor e empolgação da história de outras nações, forjadas a ferro e fogo e com personagens famosos. Ledo engano! Talvez, a nossa insatisfação com a história nacional se deva a aulas sem graça e ao decoreba de datas e acontecimentos. Sem um contexto e sem emoção, história acaba sendo tão interessante quanto leitura de bula de remédio. Por isso, talvez as histórias narradas nos livros de Terci conseguem nos atingir em cheio! Ele pega aquilo que é monótono e imprime emoção, sentimento e angústia como poucos. Apelando para palavras rebuscadas e incomuns, termos do vernáculo dos séculos passados e descrições das mais elaboradas, temos um panorama empolgante e visceral da nossa história. 

Eu já havia acompanhado os trabalhos anteriores dele, a trilogia do Bairro da Cripta, na qual ele nos apresentou a cidadezinha de Tebraria, o mais assombrado dos lugarejos brasileiros, local onde, segundo dizem, sempre é treva. Seu livro seguinte, Caídos, transporta a ação para o período colonial, acompanhando as peregrinações de um jovem aprendiz de feitiçaria português, que faz uma jornada infernal até dar em nosso quintal sinistro.


Mas é o quinto livro do Terci, "Imperiais de Gran Abuelo" (lançado pela Pandorga) que mais despertou minha atenção. Sou um fã do tema abordado, e estava muito curioso para saber como o autor lidaria com um dos capítulos mais sangrentos e obscuros da nossa história, a Guerra do Paraguai.

É curioso (e ao mesmo tempo lamentável) que o mais dramático dos conflitos do qual o Brasil tomou parte, seja sumariamente ignorado pelo seu povo. A Guerra do Paraguai, no entender da maioria, parece ter acontecido há tanto tempo que não faz sentido saber quando, e tão longe, que não interessa saber onde. Chocaria a muitos saber que não faz tanto tempo assim, e que a Guerra, embora tenha sido travada majoritariamente além de nossas fronteiras, esteve mais próxima do que se pode imaginar. Mais importante que tudo isso: brasileiros comuns foram para a luta, pegaram em armas, derramaram seu sangue, mataram e morreram. É triste que esse conflito seja uma mera nota de rodapé na maioria dos livros de história.

A despeito da imagem que se tem, a Guerra do Paraguai, chamada assim por ter ocorrido dentro e nos arredores dessa nação, foi monumental. Foi o maior conflito do continente, com envolvimento de participantes e baixas. Também transformou a história dos envolvidos: teve alto custo, acarretou perdas monumentais e reduziu ao menos um dos países à ruínas fumegantes. Não por acaso, ela é chamada pelos demais participantes de "Guerra Grande" ou ainda, "Maldita Guerra".

Ao se debruçar sobre a Guerra do Paraguai, o autor, mergulha nas entranhas do confronto. Relata com a costumeira competência acontecimentos fictícios, costurando sua trama ao tecido histórico. Como não poderia deixar de ser, mantém os dois pés fincados no horror, contando as idas e vindas de uma tropa, os Imperiais; veteranos de combates, familiarizados com massacres e atrocidades da guerra encarniçada. Os Imperiais não são apenas um bando de soldados, são verdadeiros guerreiros que respiram fumaça, tomam banho de sangue e pedem mais. 

Na história, cuja cronologia salta de trás pra frente e de frente pra trás, vamos sendo apresentados aos integrantes dessa Legião de Malditos. O personagem do título, o Gran Abuelo (ou vovôzão) é ninguém menos que Manuel Luis Osório, patrono do Exército brasileiro, comandante responsável por treinar os homens e levá-los à vitória. Uma vez morto e (à muito custo) sepultado, assume o comando o narrador da história, apelidado de Papá. É ele quem faz a ligação do comando com a soldadesca, e vai contando as experiências macabras vividas durante o desenrolar do conflito. 

Além desses dois personagens centrais, aos quais vamos conhecendo mais a fundo através dos flashbacks, temos vários coadjuvantes interessantes, identificados através de apelidos - doido, medroso, covarde, cicatriz, maluco... Cada qual com suas particularidades e um colorido que os tornam bastante reais. Cabe contudo, um alerta, não se apegue em demasia a nenhum deles...  

Acreditem em mim, eu adoraria descrever as aventuras medonhas e os percalços sinistros pelos quais a tropa passa em maiores detalhes, mas receio estragar a diversão alheia. Entrar de olhos vendados nessa trama é essencial para desfrutar de suas muitas surpresas e de seu panorama devastador. Posso adiantar entretanto, que embora seja um livro curto, com pouco mais de 200 páginas, o conteúdo é explosivo. Não falta ação, tiroteios, descrições de batalha sendo travadas entre homens e coisas piores, bruxaria, superstição, sangue e pólvora. O terror está em todo canto e espreita os Imperiais em sua descida por um Hades Negro além da fronteira Guarani. Mas há espaço para acidez e humor. Em mais de um momento, me surpreendi rindo com alguma peripécia inusitada. A leitura corre fácil e virar as páginas é ato contínuo, coisa que sempre considerei virtude de bons romances. 

Para os conhecedores do Bairro da Cripta, existem menções diretas e indiretas a velhos conhecidos, e o leitor atento pescará referências a personagens e lugares. Mas aqueles que ainda não exploraram os mistérios de Tebraria (o que esperam?), não precisam se preocupar, trata-se de uma história à parte, a primeira de uma trilogia já planejada. 

Pouco antes do lançamento, o autor me convidou para escrever o Prefácio e ler em primeira mão o livro. Confesso que fiquei preocupado com a tarefa, sobre o que iria escrever e se estava à altura. Mas depois de concluir a última página, as palavras fluíram facilmente. Espero ter conseguido transmitir em alguns parágrafos a sensação que tive ao ler o livro, e seguindo a cartilha do que é escrever um Prefácio, ter convidado à contento o leitor a avançar nas páginas seguintes.

Com tudo isso, recomendo a leitura de "Imperiais de Gran Abuelo" a todos os amantes de horror e aos órfãos da nossa história nacional. Aqui temos a rara chance de, através de entretenimento de altíssimo nível, vislumbrar um momento delicado de nosso passado. 

Aproveitem a viagem, sintam o aroma da pólvora seca, pois ele tem cheiro de história.

Adendo:
E fiquei sabendo que O Bairro da Cripta em breve ganhará uma nova edição com alguns novos contos e roupagem. Para quem não conhece, prepare-se...


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Desencaixotamento da Monte Cook Games - Abrimos uma caixa com 15 Kg de material de Numenera e The Strange

Olá cultistas,

Vocês sabem o que é um unbox, né?

Pois é, aqueles vídeos de gente abrindo pacotes e mostrando o que tem dentro de uma caixa?


Pois é... aqui no blog a gente chama de DESENCAIXOTAMENTO mesmo. Porque aqui é Brasil, e Brasil não é para principiantes.

Agora, MEGA-DESENCAIXOTAMENTO vocês já ouviram falar?

Se querem saber o que é, assistam a esse vídeo em que os investigadores do Mundo Tentacular, Luciano Giehl e Thiago Queiroz, exploram os tesouros contidos em uma caixa reforçada, super, mega, ubber recheada com livros, suplementos, mapas e material de Numenera e The Strange.


E acreditem, é MUITA COISA!

Sem brincadeira, a caixa devia ter mais de quinze quilos. Ela foi enviada pela Monte Cook Games contendo os últimos lançamentos de suas duas maiores ambientações. Só coisa de primeira, material incrível de dois RPGs que são TOP e que podem ser encontrados em terras brasileiras através da New Order.

Assistam o vídeo abaixo e participem do Canal do Mundo Tentacular Streaming.

Assistam aqui!



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quarta-feira, 10 de abril de 2019

O Arsenal da Quadrilha Barrow - As armas de Bonnie e Clyde


Era um tempo em que criminosos eram glorificados e a população torcia por eles. Assassinos, ladrões e sociopatas violentos eram os heróis do público. Escapar da lei e da ordem era uma façanha que apenas os rebeldes e loucos conseguiam. Suas histórias e feitos se tornaram lendários, mas não resistiam a uma análise criteriosa que os identificava como bandidos sanguinários.

Ainda assim, bandidos se tornaram parte importante da história americana. Frank e Jesse James são um bom exemplo da devoção dos americanos pelos bandidos. A dupla de criminosos que aterrorizou o Missouri após a Guerra Civil se tornou famosa mundialmente. A Gangue do Colt, chefiada pelos irmãos James deixou um rastro de sangue, mortes e vingança, mas também fascinação e interesse duradouros. Há outros como Machine Gun Kelly, Frank Dillinger, a Quadrilha Dalton...

Mas talvez, os mais célebres sejam Bonnie Parker e Clyde Barrow, os míticos amantes nascidos na época mais injusta e dura da história americana. Os dois acumularam uma legião de fãs que torcia por eles e que mal conseguia acreditar quando eles foram abatidos em 1934. Os bancos que a dupla assaltava eram a representação daquilo que o povo mais pobre detestava - os grandes vilões da história. Quando alguém se ergueu contra essas instituições, as pessoas imediatamente se identificaram com eles.

As fotografias, poesias e as manchetes sensacionalistas ajudaram a catapultar o nome dos dois para a história, transformando-os do dia para a noite em celebridades. Havia mulheres cortando os cabelos na moda Bonnie Parker, homens vestindo roupas e chapéu no estilo Clyde e as vendas do Ford V8 duplicaram depois dos elogios feitos à Henry Ford, projetista da máquina. Mais do que os indivíduos, suas armas se tornaram um sinônimo de rebeldia. A Metralhadora BAR (Browning Auto-Gun) e a espingarda Remington se tornaram as armas favoritas dos fãs de Bonnie e Clyde e passaram a ser identificadas com eles.


A Quadrilha Barrow se envolveu em pelo menos cinco grandes tiroteios com as forças da lei e da ordem, estando sempre em menor número. Mas eles compensavam isso com muitos disparos. Em um dos cercos dos quais eles conseguiram escapar, um jornal estampou na manchete "Mais de mil disparos feitos", o que era verdade. Bonnie e Clyde podiam não ser grandes atiradores, mas sabiam que disparando centenas de tiros, alguns deles encontrariam o endereço certo.

Na ocasião de sua morte, o casal transportava dentro de seu automóvel a seguinte lista de armamento:

• Três .30-06 Browning Automatic Rifles (BARs)

• Uma espingarda Winchester de Cano curto 10 gauge com alavanca de recarga

• Uma espingarda de cano curto 10 gauge Remington Modelo 11

• Sete pistolas automáticas calibre .45 Colt 1911

• Uma pistola automática calibre .32 Colt

• Uma pistola automática calibre .380 Colt

• Um revólver Double Action Colt

Eles tinham ainda 3000 balas de vários calibres, além de 100 pentes completos de munição para a BAR cada um com 20 projéteis.

A maioria das armas de Parker e Barrow, e aquelas usadas pelos agentes da lei e da ordem que os capturaram, ainda existem e permanecem em exposição no Texas Ranger Hall of Fame e no Museu de Waco, Texas - uma exposição interessante para os fãs de História americana, ou qualquer um que ame história ou tenha interesse em armas de fogo.

O que se segue é um olhar mais próximo dessas armas.

BAR M 1918 .30-06 Browning Automatic Rifle



Clyde Barrow chamava esse rifle automático (o seu favorito) de "arma de espalhar". Em geral o termo scattergun se refere a espingardas que disparam cartuchos de chumbo em uma nuvem mortal que se "espalha", mas Clyde se referia ao fato de que quando atirava com a BAR, as pessoas se espalhavam e corriam em todas as direções. Não é para menos! O BAR é uma arma assustadora e uma rajada dela é suficiente para fazer qualquer um se atirar o chão. Perfeito para alguém que quer manter civis afastados e homens da lei acuados. 

Uma das ações mais ousadas da Barrow Gang foi atacar a prisão agrícola de Eastham, onde Clyde ficou preso. A peça chave do plano era o poder de fogo da BAR, que os criminosos haviam obtido assaltando um quartel da Guarda Nacional em Enid, Oklahoma. Para dar cobertura aos seus comparsas e permitir a fuga de prisioneiros, eles dispararam contra a copa de árvores criando uma distração perfeita.

Clyde aprendeu a remover o supressor de ruído de seu BAR e assim fazia ele rugir como um trompete. O som era seco e muito alto, realmente assustador.

Em 13 de abril de 1933, um grupo de cinco homens da polícia de Joplin, Missouri, cercou a cabana em que a Barrow Gang estava reunida. Eles acreditavam que se tratava de uma quadrilha de contrabandistas de bebida e não faziam ideia que haviam descoberto o covil dos ladrões mais famosos da época. Ao se aproximar da janela, acabaram sendo vistos e Clyde rapidamente disparou uma rajada de sua BAR. A arma automática cuspiu mais de 200 projéteis fazendo buracos na parede e acertando os agentes em cheio. Dois deles morreram na hora.

Três meses depois, em 18 de julho, um bando de 13 oficiais de polícia armados com metralhadoras Thompson e viajando em um carro reforçado com placas de metal, cercaram a quadrilha no hotel Red Crown Tourist, próximo de Kansas City, Missouri. Apesar de contar com armas automáticas, eles se viram em desvantagem contra o poder de fogo superior dos criminosos. Clyde mantinha pelo menos três metralhadoras limpas e carregadas, prontas para disparar. E não poupava munição quando pressionava o gatilho!

O tiroteio em Kansas City entrou para a história como um dos mais violentos da época. As Thompson disparavam projéteis calibre .45, enquanto a BAR lançava uma barragem de munição .30-06 capaz de atravessar madeira, paredes e até metal a uma distância de 100 jardas. A quantidade de disparos foi tão grande que três dias depois, os jornalistas enviados para cobrir a cena ainda sentiam cheiro de pólvora no ar. Nenhuma janela foi poupada e as paredes da cabana tinham tantos buracos que o dono da pensão preferiu colocar a cabana abaixo ao invés de remendar os danos.


Quatro dias depois, Bonnie, Clyde e W.D. Jones conseguiram, ainda que feridos afugentar 50 homens armados que tentavam capturá-los perto de Dexter, Iowa. Novamente, o que falou mais alto foi o poder de fogo das BAR que impediram o avanço da polícia. Clyde distribuiu suas armas para os comparsas e com os três fazendo uma barragem de tiros foi impossível se aproximar. Logo depois desse tiroteio, eles perderam duas BAR, mas Clyde foi rápido em roubar uma loja de munições e outras três armas para repor o arsenal perdido.

Quando o casal enfim foi morto em uma emboscada, as autoridades encontraram dentro do automóvel três BAR prontas para a ação. Os pentes de munição estavam colocados em uma maleta especial de transporte de munição e deixadas à mão para recarregar e disparar. Estima-se que um atirador treinado consiga descarregar um pente com 20 disparos em 6 segundos e recarregar outro em mais 6 segundos. Clyde se orgulhava de fazer tudo em 7 segundos. 

Carregada com o poderoso cartucho de rifle .30-06, a BAR foi criada pelo projetista de armamento John Browning em 1917 e usada pela Força Expedicionária Americana na Grande Guerra Mundial. O conceito da BAR era simples: permitir ao soldado distribuir uma barragem de projéteis enquanto se movimentava. Até então, as metralhadoras necessitavam ser instaladas em tripés. Com a BAR, um soldado podia atirar e empreender perseguição contra seus alvos e atirar na direção que quisesse. Ela valia por uma coluna inteira de atiradores.

A chave de seleção permitia fogo simples ou automático, disparos para cada ocasião. Alguns soldados se empolgavam tanto com o uso da BAR que afirmavam ser um enfeite a tal "chave seletora", mantendo ela sempre no modo de full auto fire. A BAR rapidamente substituiu as enormes metralhadoras Lewis e Chauchat, que além de pesadas ainda tinham uma manutenção complicada e engasgavam. A BAR pesava aproximadamente 7 quilos e podia ser municiada com um pente de 20 projéteis ou um de 40. Clyde adaptou novamente a sua arma para que ela pudesse comportar um carregador de 60 projéteis. Com isso, ele poderia sustentar uma cadência de tiro de 550 a 600 disparos por minuto.  

A BAR viu pouca ação nos campos de batalha da Europa já que o primeiro carregamento delas foi entregue nos dias finais da Guerra em 1918. Ainda assim, ela foi incorporada ao exército e se tornou uma peça chave de infantaria nas décadas seguintes, usada até meados dos anos 1950. Eventualmente ela foi substituída pela metralhadora M 60 que usava uma cinta de munição e tinha manutenção mais fácil. 

.38 Colt Army “Fitz Special”


O .38 Colt Army Special nessas fotos foi achado no automóvel dirigido por Bonnie e Clyde na emboscada em que eles morreram. O revólver foi fabricado em 1924, e tem uma história curiosa - alguém o roubou de um Texas Ranger chamado M.T. "Lone Wolf" Gonzaullas enquanto ele estava trabalhando na limpeza das cidades durante a criação dos oleodutos no Leste do Texas nos anos 1920. Gonzaullas modificou seu revólver em um modelo que era conhecido na época como Fitzgerald Special, ou "Fitz Specials". A modificação consistia em reduzir  o tamanho do tambor em duas polegadas, removendo a frente do gatilho e sua guarda. A arma podia então ser pega com uma luva grossa e se ajustava melhor à empunhadura de pessoas com as mãos grandes.

Não se sabe como ou quando a arma entrou para o arsenal da Barrow Gang, mas é no mínimo curioso que ela estivesse em poder deles. Mais ainda se consideramos que foram os próprios Texas Rangers os responsáveis pela emboscada que os matou. O revólver estava guardado no porta luvas do V-8 e foi reconhecido semanas mais tarde pelo próprio Gonzaullas que afirmou ser o trabalho de modificação obra sua. 

O Colt Army Special foi produzido pela primeira vez em 1908. Nessa época, polícia e exército estavam trocando seu equipamento do anêmico calibre .32 para o mais robusto .38. O Colt Army se tornou a arma de confiança dos militares e passou a ser usado em um coldre ajustado na cintura e coxa. Contudo, logo depois, a própria Colt lançou em 1911 a pistola semi-automática .45 que se tornaria a arma mais desejada pelos militares e que até hoje é usada. Com isso, os Colt Army já comprados pelo exército, foram cedidos para as forças policiais em quase todo o país sendo renomeados Colt Official Police em 1927. Eles se tornaram a arma básica dos agentes da lei e da ordem na América. Cerca de 400,000 deles estavam em circulação até 1969, quando a Colt decidiu parar de fabricá-los.

.30-06 Colt Monitor Machine Gun


O Colt Monitor mostrado acima foi usado na emboscada fatal de Bonnie e Clyde pelos Texas Ranger. Ele está em exposição no Museu dos Rangers e pertenceu ao policial Joaquin Jackson, cujo livro "One Ranger" dá uma ideia honesta do trabalho e das dificuldades desses policiais. 

Ela não era portanto uma arma que compunha o arsenal de Bonnie e Clyde, mas foi usada para abatê-los. O agente dos Texas Ranger Frank Hamer se armou com uma dessas metralhadoras sabendo que precisaria de poder de fogo para competir com os BAR da Barrow Gang. Alguns policiais temiam que o uso da Monitor em uma área urbana poderia ser desastroso já que a arma tinha uma cadência de tiro semelhante a do BAR e poderia facilmente acertar civis já que os seus projéteis atravessavam paredes. Hamer defendia que a polícia precisava de armas potentes e quando seu pedido por elas não foi aceito, ele próprio foi até uma loja de armas e comprou dois Colt Monitor e munição. 

A arma não havia sido adotada ainda pelo exército americano e provavelmente por essa razão, a Gang Barrow não conseguiu colocar as suas mãos em uma delas. Ao comparar o BAR com a Monitor, Hamer concluiu que a segunda levava vantagem e pediu que outras quatro fossem providenciadas para a emboscada. O Monitor usava cartuchos .30-06 e ao contrário da munição .45 das Thompson conseguia varar a lataria de um automóvel Ford V8. 

O Colt Monitor ganhou enorme fama como a arma que matou Bonnie e Clyde e depois disso foi adotado por forças policiais como uma versão civil do BAR. Ele foi usado por esquadrões especialmente criados para perseguir os gangsters dos anos 1930. O então diretor do FBI, J. Edgar Hoover a apelidou de "arma portátil de destruição em massa". O Monitor tinha o cano mais curto que o BAR e não se valia de um tripé, sendo usado com duas mãos. O pente de munição comportava entre 20 e 30 projéteis e podia manter uma cadência de tiro de 550 projéteis por minuto. 

O famoso Cutts Compensator na ponta da arma era vital para seu funcionamento, ele evitava que durante uma rajada prolongada a arma voasse das mãos do atirador. Alguns gangsters que usaram o Monitor removiam o compensador para que a arma fizesse um ruído assustador. Sem o apetrecho ela também produzia uma labareda amarela ao disparar.

.32 Colt Pocket Hammerless Model M Pistol


O Colt Hammerless Model M era, junto com a Metralhadora Thompson, uma das armas favoritas de Hollywood durante a Era da Depressão. Praticamente todos os filmes de gangsters do período, ou que tivessem detetives ou femme fatale, mostravam personagens equipados com uma delas. As linhas dessa pistola eram tão modernas e icônicas que ela passou a ser chamada de "Pistola Art Deco". Dessa vez, Hollywood estava refletindo a realidade: O Colt Hammerless, Model M, era uma das armas mais usadas pelos bandidos do período que caíram de amores por ela, assim como alguns agentes da lei que a consideravam especial.

Entre 1903 e 1945, cerca de meio milhão dessas pistolas semi-automáticas foram produzidas e vendidas, encontrando um público fiel entre militares e agentes da lei. Ela também se tornou uma favorita de vendedores e pessoas que tinham que viajar frequentemente pelas estradas do interior da América. Fácil de guardar e transportar, podia ser facilmente colocada no porta luvas do carro ou no bolso do casaco. 

O Colt Hammerless, na verdade tinha um cão (a peça que deflagra o disparo), mas este ficava escondido e protegido na lateral da arma o que evitava dele ficar preso em tecido ou no coldre ionde a arma era transportada. O design foi criado por John Browning e ele desenhou um pente de munição pequeno no calibre .32. O pente tinha carga para 8 projéteis, oferecendo um impressionante e rápido poder de fogo para uma pistola tão compacta.

Alem disso, era uma arma discreta que caiu no gosto também de donas de casa como Gladys Hamer, esposa do Texas Ranger Frank Hamer, que em 1934 se tornou o homem que terminou com o reinado de crime e assassinato de Bonnie e Clyde. Bonnie por sinal tinha uma dessas e a usou em pelo menos meia dúzia de assaltos. A arma acabou se perdendo em algum momento da jornada deles pelas estradas. 

12-Gauge Stevens Sawed-Off Double Barrel Shotgun


A Companhia S J. Stevens de armas e ferramentas lançou uma versão da espingarda 12 com o cano curto copiando algo que já se fazia há anos, serrar o cano das armas para deixá-las mais manuais e compactas. A ideia de Stevens era facilitar a portabilidade da .12, mas isso é claro acabou atraindo algumas críticas, afinal encurtar o cano de uma espingarda era algo típico de bandidos e foras da lei.

Não por acaso, essa espingarda ganhou o apelido de "robber's shotgun" (Espingarda de ladrão). Apesar disso e da má fama que a acompanhava, ela vendeu bem se convertendo em um dos principais produtos da Stevens Arms até seu fechamento em 1965.  

Chama a atenção o fato de que a espingarda possui uma coronha de pistola e tambor de uma calibre 12 modificado. A munição era colocada "quebrando" o cano e encaixando o projétil em seu interior. A Shotgun Stevens era barata, forte e com um poder de fogo impressionante para uma arma tão pequena. Ela ganhou reconhecimento entre vigias, leões de chácara e motoristas de carros forte, por ser fácil de esconder. Alguns a usavam em um coldre adaptado, como se fosse uma pistola. Também ficou famosa como a espingarda ideal para se ter em baixo do balcão de um bar. 

A arma na fotografia foi encontrada no carro de Bonnie e Clyde abandonado após uma tentativa de roubo à banco em Hillsboro, Texas em 1932. A arma parece ter sido usada também em uma série de assaltos a postos de gasolina e lojas de conveniência. 

Remington Model 11 20-Gauge Semiautomatic Shotgun



A arma favorita da senhorita Bonnie Parker, exatamente a mesma que ela usou nas famosas fotografias em que "ameaça" seu amante (a foto no alto desse artigo). 

Clyde serrou o cano da espingarda, deixando-a mais compacta para alguém da estatura de Bonnie, que não media mais do que 1,50 m. Com a espingarda mais curta ela podia segurar com as duas mãos e minimizar o coice violento da Remington. Clyde apelidou essa arma de "chicote" pois o recuo dela era tão forte que podia voar longe se não estivesse sendo segura corretamente. Não devia ser fácil para uma moça franzina como Bonnie manejá-la, mas ela o fazia bem o bastante.

A Remington modelo 11 foi a primeira espingarda americana com carregamento automático. Seu mecanismo interno permitia que seis cartuchos fossem municiados pela culatra, após cada acionamento um cartucho novo era empurrado para a câmara e ela ficava pronta para disparar. O mecanismo patenteado por John Browning foi oferecido para a Winchester que não se interessou por ele, aparentemente acreditando que os usuários não abririam mão do mecanismo clássico de alavanca (pump). A arma começou a ser vendida em 1905 e continuou até 1947.

A arma na foto acima estava em poder de Bonnie e Clyde no dia em que eles foram mortos. Um dos Texas Rangers que participou da emboscada disse que a mão de Bonnie chegou a se mover para a esquerda procurando a arma quando ela percebeu a armadilha. De fato, a arma era mantida ao alcance das mãos em uma correia presa na porta do automóvel.

Winchester Model 1901 10-Gauge Lever-Action with Shortened Barrel


A Winchester Modelo 1901 .10 com alavanca, era a espingarda de estimação de Clyde Barrow e foi recuperada no carro da morte no dia da emboscada fatal. Após o ataque, ela foi entregue a Frank Hamer como uma espécie de prêmio por ter matado os foras da lei.

Desenhada por John Browning a arma representava um avanço em poder de fogo e intimidação. A companhia Winchester contratou o famoso armeiro para desenvolver uma espingarda para a companhia que já dominava o ramo de rifles. Browning incluiu no desenho um tubo que acondicionava até cinco cartuchos de munição e uma alavanca que impulsionava uma nova munição após cada disparo. Na prática era uma fusão entre o rifle Winchester de repetição e a espingarda convencional.

Apesar de seu design inovador a arma não teve grande apelo ao público já que foi vendida apenas na versão .10 que não era tão potente quanto a .12. A espingarda ganhou fama como a arma favorita de fazendeiros, mineradores e homens do campo - e o apelido "Elmer Gun" (por conta do inimigo mortal do coelho Pernalonga, que usava um modelo parecido).

É possível que muitos gostassem da arma pelo fato de seus disparos serem barulhentos e capazes de afugentar ladrões. Muitas pessoas defendiam que um disparo da Winchester .10 para o alto era suficiente para fazer qualquer bandido correr sem olhar para trás.  Exemplares dela podem ser vistos em filmes como Roy Bean e Terminator 2.