quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Drácula - A História real de Vlad III, o Empalador


Lenda e Ficção se misturaram para construir o Mito de Drácula, um ser sobrenatural com sede de sangue, o mais conhecido dos Vampiros. Mas antes dele, existiu o Drácula real: o Príncipe Voivode da Valáquia, o Guerreiro implacável, o Político Cruel e acima de tudo, o homem. Mas quem foi esse sujeito? O que ele fez? E quais foram as grandes façanhas que garantiram sua aparente imortalidade?

No caso de Drácula, há muitas histórias que carecem de confirmação e lendas que parecem absurdas ou exageradas além da conta. Teria sido o homem um genocida sanguinário dedicado a torturar e matar? Ou a história se esforçou em transformar um simples governante em um monstro que parece ser a personificação do próprio demônio? Quem pode saber ao certo?

Há, no entanto, fatos que não podem ser desconsiderados, sobretudo no que diz respeito ao caráter e perversidade dessa figura histórica. Trata-se de uma história de morte e sangue. 

Vlad III, chamado de Drácula (o Pequeno Dragão), provinha de uma Dinastia Principesca de Besarab, família fundadora do Estado da Valáquia. Nascido durante o exílio de seu pai, Vlad II na Transilvânia - região que então pertencia a Hungria, ele passou sua infância na Valáquia, onde o pai reinou intermitentemente entre 1436 e 1447. 

Sua época foi marcada por extrema violência e brutalidade entre opositores religiosos que seguiam o Cristianismo e o Islã. Guerras eram comuns e cidades eram frequentemente pilhadas ou incendiadas por soldados que lutavam tanto sob o estandarte da cruz quanto da crescente. O jovem Drácula testemunhou uma quantidade significativa de assassinatos políticos e massacres, que o deixaram calejado a respeito das vicissitudes da guerra.


Ainda criança, Vlad foi envolvido em um acordo político. Ele foi enviado pelo próprio pai para servir de refém na Corte do Sultão Murad II, onde permaneceu por quatro anos e onde desenvolveu um ódio mortal pelos costumes dos povos islâmicos. Com a morte do pai, foi libertado e ocupou por um curto período de tempo o Trono da Valáquia, sendo obrigado a abdicar após ameaças de opositores. 

Nos anos seguintes, o jovem Vlad III, então com 18 anos, se exilou, experimentando uma existência inconstante, viajando entre os reinos da Hungria e Moldávia, refinando suas habilidades como político e guerreiro, treinando e aprendendo os ofícios da batalha. Finalmente, aos 25 anos, conseguiu recuperar o trono após arquitetar um golpe de estado.

Vlad havia passado mais da metade de sua vida no exílio ou como refém de inimigos que detestava, mas que não obstante lhe ensinaram muito sobre liderança. A experiência o convenceu que a melhor maneira de governar a Valáquia seria adotar alguns princípios de seus odiados inimigos os Otomanos. Ao invés de favorecer uma aristocracia local, ele deu poder a grupos de seguidores fiéis, exilando nobres que poderiam questionar sua posição. Aqueles que se negaram a jurar a ele fidelidade, acabaram sendo banidos, tiveram suas terras confiscadas ou pior, acabaram executados. Vlad pouco se importava em agradar seus súditos, os boiardos, que mantinha sob controle com mão de ferro. O menor sinal de traição era suficiente para que ele realizasse um expurgo, executando qualquer suspeito.

Embora governasse a Valáquia, ele próprio estava sujeito ao poderoso Rei da Hungria, a quem devia tributos e obediência. A Valáquia era uma região estratégica, ocupando a fronteira entre o Leste Europeu e o Império Turco, de suma importância para a manutenção do comércio em toda a região. Vlad se reuniu com o Rei da Hungria e firmou com ele um acordo no qual permitia o acesso de soldados e comerciantes da Transilvânia, proibindo o acesso de mercadores otomanos. É claro, isso enfureceu os turcos e fez com que um embaixador enviasse um ultimato exigindo que as fronteiras fossem abertas imediatamente. Se a Valáquia não abrisse o acesso aos Cárpatos, o Exército do Sultão invadiria a região.

A ameaça era bem clara, os Turcos mantinham numerosas tropas além da fronteira e esperavam apenas um pretexto para anexar a Valáquia e assim garantir sua entrada pelo Leste Europeu. Vlad enviou cartas para seus aliados pedindo que reunissem o quanto antes tropas para fortalecer a fronteira e conter os turcos que já estavam se mobilizando. Mas nada foi feito!


Vlad foi obrigado a aceitar à contra gosto o ultimato e abriu as fronteiras para seus odiados inimigos. Estes passaram a cobrar pesados tributos para não invadir a Valáquia e exigiam que ele impusesse muitas leis otomanas. Vlad detestava tudo aquilo, mas sabia que era suicídio se rebelar contra os poderosos otomanos. A situação se manteve por dois anos, quando uma sangrenta Guerra Civil irrompeu entre Hungria e Transilvânia e Dracula se viu em uma posição vantajosa para oferecer sua aliança a qualquer lado.

Pendendo para o lado da Transilvânia que demandava independência, Vlad viu os Húngaros firmarem um acordo com os Otomanos para que estes viessem em seu socorro, enviando tropas que abafassem a rebelião. Dracula antecipou uma oportunidade de se levantar contra seus inimigos. Em 1458 ele permitiu que um exército otomano entrasse na Valáquia a caminho da Hungria, mas então, de surpresa, ordenou um ataque implacável que resultou em um verdadeiro massacre. Os turcos sem esperar essa traição foram varridos e pouquíssimos conseguiram escapar.

Foi o início de um árduo período de lutas entre a Valáquia e o Império Otomano, que estava determinado a atravessar o território para ajudar os Húngaros. A pequena Valáquia, no entanto, se mostrou um terreno difícil de contornar. Recorrendo a ataques rápidos e táticas de guerrilha, os homens do Príncipe atacavam e fugiam, causando enormes danos aos otomanos. Eles também visavam os Comandantes e Oficiais turcos, transformados em alvos prioritários que acabavam assassinados por agentes do Príncipe enviados especificamente para essas missões. Logo, os Otomanos começaram a temer a região, ocupada por homens selvagens liderados por um Príncipe cuja ferocidade em batalha parecia inigualável.

Não demorou para que os otomanos abandonassem seus aliados húngaros à própria sorte. A rebelião da Transilvânia terminou com a independência e surgimento de um novo reino. Mas nenhum reino saiu tão fortalecido da situação quanto a pequena Valáquia de Vlad Dracula, que havia conquistado a fama de inconquistável.


A nível interno, Vlad se esforçou para moralizar sua sociedade e castigar todos aqueles que o desagradavam: mendigos, monges católicos, ciganos e criminosos eram as principais vítimas. Nos dias mais sangrentos da guerra civil contra os otomanos, Vlad havia aprendido uma técnica sinistra de execução pública, o Empalamento. O princípio era levar terror ao coração de qualquer pessoa que ousasse desagradar o Príncipe. Ele pretendia extirpar todos elementos indesejáveis ou afastá-los através do terror. Seus homens vagavam pelas cidades conduzindo carroças com estacas de madeira usadas nas horríveis execuções e quando eles se aproximavam de um povoado, isso era o bastante para as pessoas fugirem em desespero.

Não existe uma estimativa de quantas pessoas o governo de Vlad III executou dessa maneira medonha, mas historiadores acreditam que algo entre 4% e 7% tenham sido mortos em seus expurgos. Considerando a palavra dos cronistas do período, é possível assumir que as mortes aconteciam regularmente e atingiam todas as classes sociais, grupos étnicos e religiosos. Dracula não parecia interessado em atacar um grupo em especial, mas todos que o desagradassem.

Há relatos de que ele teria ordenado o empalamento de uma família de ciganos, apenas por encontrá-los em terras que usava para caçar. Nessa ocasião, teria ordenado enfurecido a morte de homens, mulheres, velhos e até mesmo crianças. Em outra narrativa ele teria comandado seus homens a cortar as mãos e os pés de um indivíduo acusado de roubo. Uma outra narrativa conta que ele ordenou que um povoado inteiro fosse incendiado e mais de 20 pessoas foram enterradas vivas em uma cova que elas próprias foram obrigadas a cavar.

O Príncipe era irascível, cruel, perverso e parecia saborear atos de absoluto sadismo. Dizem que mantinha um séquito de torturadores que viajavam ao seu lado, assim como uma entourage de colegas soldados que, assim como ele, se deliciavam com a dor e sofrimento alheio. Há relatos de que o Príncipe e seus amigos mais próximos se divertiam lançando bebês para serem dilacerados por cães ferozes. Também aperfeiçoaram um método de tortura otomano que lhes permitia costurar pessoas ainda vivas, usando corda grossas e agulhas em brasa. Tal tortura era muito popular para punir mães e filhos.


Mas apesar de atacar muitos grupos, foram os Boiardos, os aristocratas da Valáquia, aqueles que se converteram nos maiores desafetos do Príncipe. Os Boiardos ainda tinham ambições políticas e desejavam fazer valer antigas leis que lhes seriam vantajosas. Aos olhos de Dracula estes nobres eram agitadores que conspiravam às suas costas e que precisavam ser removidos.

A oportunidade de lidar com essa classe surgiu na Páscoa de 1458, quando Dracula convidou os líderes das principais famílias de Boiardos para um Grande Banquete em seu Palácio em Tergoviste. Pouco antes ele espalhou o boato que apoiaria a criação de novos títulos nobres que seriam distribuídos aos boiardos mais próximos. Mas nada disso era verdade!

No jantar, muitos nobres foram envenenados e outros tantos executados friamente por assassinos que se faziam passar por servos do banquete. Uma fonte histórica afirma que mais de 200 homens e mulheres teriam sido mortos nessa ocasião, todos nobres membros da oligarquia local. Aqueles que conseguiram escapar de seu expurgo foram perseguidos e empalados. Dracula ameaçou todos que fugiram, dizendo que eles teriam o sangue de seus filhos e netos nas mãos, pois todos que se escondiam teriam os familiares executados com o empalamento. Alguns se entregaram para evitar mais derramamento de sangue, outros fugiram mesmo assim.

Apesar de todos os massacres, os opositores de Dracula continuaram agindo, em especial os exilados que haviam escapado para as Terras da Hungria e o Reino da Transilvânia. Um pretendente ao trono chamado Vladislav Dan ousou propor que o Príncipe fosse deposto por rebeldes. Nos meses seguintes, assassinos foram enviados para capturá-lo na Hungria e levá-lo até Tergoviste. Dan foi capturado com vida e conduzido até a Valáquia. Lá, Dracula o forçou a assistir um ritual funerário dedicado a ele mesmo e uma cerimônia na qual o homem foi excomungado e destituído de seus títulos. Em seguida Dan foi decapitado e esquartejado, tendo pedaços de seu corpo enviados para amigos e parentes que viviam em outros Reinos.

Em janeiro de 1462 o Sultão Mehmed II decidiu que a presença de Vlad III era inconveniente e que era necessário colocar um fim aos seus desmandos. Dracula acabou sabendo dos planos do Sultão graças a informantes e espiões na corte otomana. Para desafiar o Sultão, ele ordenou a captura de um pasha que fazia parte da família do Sultão. O homem foi sequestrado durante uma viagem e levado até a Valáquia. Dracula ordenou que todo o séquito e o pasha fossem empalados em um jardim interno do castelo, onde segundo fontes o Príncipe costumava passear e sentar-se para comer à sombra de cadáveres empalados que apodreciam.


A vingança de Dracula não parou aí. Em pleno inverno, ele cruzou o Danúbio congelado e invadiu a Província de Chilia, controlada pelos otomanos. Devastaram tudo que encontrava em seu caminho, avançando por mais de 800 quilômetros no território que atualmente pertence à Bulgária. Os homens não perdoaram nenhuma cidade ou vilarejo, queimaram, mataram e destruíram tudo que acharam, chegando a salgar plantações e envenenar alimentos para que nada restasse. Dracula mandou seus homens contabilizarem todas as vítimas feitas e anunciou orgulhoso ao fim da campanha que havia matado 23 883 pessoas, um verdadeiro genocídio para a época. Os otomanos jamais haviam sofrido tamanha perda humana.

Em julho de 1462, Mehmed II cumpriu suas ameaças e se apresentou pessoalmente diante de um poderoso exército com a intenção de atacar a Valáquia. Dracula ainda conseguiu realizar ataques de guerrilha e incursões noturnas contra os acampamentos do sultão. Mas Dracula foi deposto e seu irmão mais novo colocado em seu lugar. O Principe conseguiu escapar dos seus perseguidores e se exilou na Hungria, tentando se juntar à Cruzada para ganhar perdão. Mas acabou sendo trancafiado em uma Torre em Visegrado, a antiga capital do reino da Hungria. Lá ele passou muitos anos em cativeiro, proibido de ver qualquer pessoa. 

O Principe, no entanto, conseguiria um perdão real em 1475 e logo a seguir foi agraciado com um posto de comando no Exército Húngaro para tomar parte em uma Campanha Militar contra os Otomanos - na qual cometeria horríveis atrocidades. Graças a essa campanha ele conseguiu invadir a Valáquia e reconquistar o Trono em 1476.

Mas seu triunfo foi transitório: apenas um mês mais tarde, ele foi assassinado após uma escaramuça contra os turcos. Vlad teria sido apunhalado pelas costas por um serviçal que vingava a morte de sua família nas mãos do Principe. Os cabelos de Dracula foram raspados e a pele de sua cabeça esfolada para que fosse levada até o Sultão como prova da sua morte. O troféu foi exposto diante do Palácio em Constantinopla por meses.

Seguindo a tradição local, o corpo de Dracula foi enterrado em uma igreja do Convento de Snagov, em uma Ilha ao Norte de Bucareste. Lá esperava-se que ele obtivesse perdão pelos seus pecados e expiação pelos seus desmandos. No ano de 1935 a tumba de Vlad III foi descoberta e os restos de um cadáver foram exumados de seu interior, mas àquela altura, ele havia se deteriorado de tal maneira que acabou virando poeira diante dos olhos dos Arqueólogos.


Após a sua morte, os filhos de Dracula dividiram o Reino da Valáquia. Mircea el Radu (o Maligno) reinou durante dois anos, entre 1508 e 1510, deixando um rastro de deplorável maldade e libertinagem. 

A memória de Vlad Dracula foi preservada na forma de um livreto publicado na Alemanha apenas dois anos depois de sua morte, na qual as suas atrocidades eram descritas em detalhes. Nesse documento ele era comparado a Herodes, Nero e Diocleciano, tiranos que perseguiram inocentes. Impresso em 14 edições nas principais cidades da Alemanha, o folheto circulou por toda Europa e garantiu a ele certa celebridade. Em 1498, na Rússia, o Czar traduziu a história para o idioma eslavo que ajudou a difundir as façanhas de Dracula em todo o Leste Europeu. 

Desde então o nome Dracula se tornou parte do inconsciente coletivo como símbolo de tirania e crueldade. Entretanto seus feitos foram se apagando da memória, a não nos Cárpatos onde ele continuou notório. No século XIX, um diplomata britânico que viajava por Bucareste tomou conhecimento da história do Príncipe da Valáquia e decidiu transcreve-la em um livro de memórias sobre a história dos lugares que visitou na sua carreira. Em 1896, quando passava férias no mar, o irlandês Bram Stoker encontrou um exemplar desse livro e o utilizou como inspiração para criar o personagem principal de sua novela Dracula, um Vampiro com sonhos de poder e conquista, mesmo depois de morto.

Nascia ali o Mito de Dracula que até hoje permanece vivo.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Resenha de Drácula - A Obra Prima em uma Edição inesquecível.


"Bem vindo à minha casa! Venha em paz. Vá em segurança! E deixe alguma coisa da felicidade que o acompanha!"

Com essas palavras, o célebre Conde Drácula tem dado as boas vindas a leitores e fãs em seus domínios no decrépito Castelo Dracula, na Transilvânia por mais de 100 anos. E ele não parece ter envelhecido um único dia desde então.

É difícil dimensionar o tamanho da importância e influência que Dracula teve, continua tendo e provavelmente ainda terá por muito tempo. Drácula não é tido apenas como um clássico imortal da literatura, ele é uma espécie de marco. Com sua obra, que críticos na época de seu lançamento consideraram pretensiosa, Bran Stoker redefiniu o gênero gótico, reacendeu o fascínio pelo bizarro e incendiou nossa imaginação, povoando-a com a imagem de criaturas da noite.

O Conde Dracula não foi o primeiro vampiro na literatura (como muitos pensam), mas ele é facilmente o mais importante. O Conde voou das páginas do romance e aterrizou no imaginário popular. Os vampiros de hoje, que estão presentes em todo canto, da literatura ao cinema, do teatro aos games, de séries de TV a desenhos animados, devem a ele sua existência. Não fosse por ele, provável que os vampiros não passassem de uma lenda menor varrida para baixo do tapete da história. Uma nota de rodapé...



Bran Stoker, esse irlandês do século XIX, deu a eles longevidade e capturou nosso interesse de tal maneira que as criaturas se converteram em um ícone. E tudo se iniciou com esse livro publicado em 1897.

Vou ser sincero, eu estava um bocado reticente em começar a ler Dracula. Claro que eu já conhecia a história, assim como todos que não vivem em uma caverna devem conhecer. Assim como a maioria, eu já assisti filmes, li ensaios, resenhas e tudo mais a respeito do personagem e sua história, mas nunca tinha lido o romance na íntegra. Eu estava ao mesmo tempo curioso e temeroso de fazer isso. E se por acaso eu não viesse a gostar do estilo ou da narrativa? E se a história não for tudo aquilo que dizem? E se ele tiver envelhecido mal? E se...

Em face de todas essas dúvidas eu sempre adiei a leitura desse clássico. Mas quando recentemente a Darkside Books anunciou que seu próximo lançamento da Coleção Grandes Clássicos seria justamente Dracula, eu coloquei na cabeça que o momento havia chegado. E quando comecei a ler, devorei o livro sem parar! Ele é tudo o que dizem e muito mais!



É incrível que mais de século depois de ter sido lançado, Dracula ainda resplandece com frescor, tal qual um filete de sangue escorrendo por um pescoço. O romance é marcante, é insinuante, é poderoso. Sua longevidade se deve a fatores que vão muito além de ser uma boa história, narrada de forma empolgante, capaz de bagunçar os sentidos.

A estrutura do livro é a primeira coisa que chama a atenção, a história é relatada através de anotações de diário, cartas escritas pelos personagens, artigos de jornal e relatórios médicos. Ele começa com as anotações de um jovem e promissor advogado, Jonathan Harker que viaja para as isoladas Montanhas dos Carpathos da Transilvânia a pedido do misterioso Conde Dracula. O nobre tem interesse em adquirir uma propriedade em Londres e se mudar para a civilização onde poderá desfrutar das maravilhas da idade moderna. É claro, Harker não imagina quem (ou o que) o espera e mesmo sabendo que seu predecessor, Rensfield, sofreu um colapso após um encontro com Dracula, ele acredita que o conde não passa de um velho excêntrico. Esse início prepara o leitor para o que está por vir, transferindo Dracula de seu mundo estagnado para uma Londres majestosa e ansiosa pelo novo século.

É interessante conhecer a concepção do vampiro idealizado por Bran Stoker. A cultura pop tratou de contextualizar a figura do vampiro, e de Dracula em especial, como um personagem trágico e romântico. Mesmo o filme de 1992, Dracula de Bran Stoker investe em um conde cego pela paixão e saudoso da vida que lhe foi arrancada. O Dracula que conhecemos no livro está muito distante de ser um herói romântico, ele está mais para um monstro no pior sentido da palavra. Suas ações são guiadas pela sede de sangue e pela lascívia de tomar aquilo que deseja.



Um elemento interessante na trama é que Dracula aparece bem pouco na história. Ainda assim, ele é o foco de todos acontecimentos, servindo como uma presença onipresente de medo e puro mal que permeia toda história. Ainda que seu nome esteja no título, o infame conde faz poucas aparições e lentamente ele se torna uma espécie de sombra. Dracula é um mistério a ser resolvido, terrível, insondável e assustador. Ele se converte no alvo de um grupo de heróis que buscam frustrar seus planos. Ainda que apareça relativamente pouco, a presença magnética de Dracula continua pautando todas as ações e impulsionando os acontecimentos da trama muito bem amarrada.

Com Dracula devidamente instalado em Londres, nas Terras da Abadia de Carfax, vítimas começam a se multiplicar, entre as quais a jovem Lucy Westenra, melhor amiga da noiva de Harker que miraculosamente consegue escapar dos horrores do Castelo onde o Conde o abandonou. O retorno de Harker mobiliza um grupo de distintos pilares da sociedade britânica a se erguer contra a ameaça e escorraça-lo de seu meio.

Há momentos de terror realmente inesquecíveis nas páginas de Drácula e é fácil compreender porque esse romance chocou a sensibilidade dos leitores victorianos. Em cada parágrafo há uma aura de estranheza, um sentimento de grave ameaça e urgência, ainda que o sangue e a contagem de corpos seja relativamente baixa. Um dos meus momentos favoritos envolve a trágica viagem de Dracula de mudança para Londres. Durante a jornada, membros da tripulação e passageiros começam a desaparecer e é possível sentir o medo crescente e desespero de quem está à bordo nas anotações do capitão. Outro momento de gelar o sangue é a interação entre Reinsfield e o psiquiatra, Dr. Seward que tenta compreender o que se passou com o sujeito que parece compelido a se alimentar de pequenas formas de vida para saciar uma sede insaciável. Os coadjuvantes da história aliás são outro ponto alto do romance: o Dr. Abraham Van Helsing, distinto cientista e conhecedor de vampiros se destaca como o arqui-nêmesis do Conde, talvez tão excêntrico quanto o próprio, empregando métodos perturbadores para derrotar o morto vivo, métodos estes que seriam incorporados a mitologia dos vampiros e que evidencia a pesquisa do autor ao escrever sua obra.



É preciso ter em mente, entretanto, que Dracula é um produto de sua época e que possui todo arcabouço da tradição literária romântica com donzelas em perigo, discursos passionais sobre amor eterno, cavalheirismo desmedido e outros elementos típicos que rescendem à final do século XIX. Mas a despeito disso, a prosa se mantém atraente e o leitor logo se vê imerso na narrativa, sem conseguir abandonar suas páginas. É bem possível que, com Dracula, eu tenha quebrado o meu record de leitura ininterrupta de um livro, pegando ele, sem conseguir largar por horas e horas.

As intrépidas aventuras dos caçadores de vampiros e sua perseguição ao Conde que foge rumo ao oriente, cada vez mais longe da civilização, mergulhando em uma Europa cada vez mais misteriosa e selvagem, é empolgante. Não é à toa que o personagem título acabou se tornando um dos maiores vilões de todos os tempos.

Não vou esconder que uma das coisas que mais me motivaram a ler Dracula foi ele ser publicado pela Editora Darkside. Pode parecer repetição, já que frequentemente faço a resenha de livros lançados por essa editora e constantemente elogio seu trabalho primoroso, mas acredito que é preciso aplaudir todo o cuidado e dedicação deles. A edição de Drácula é simplesmente maravilhosa!

A Darkside lançou o livro em duas versões luxuosas, permitindo aos leitores escolher aquela que mais o agrada. A primeira é um com a capa preta imitando couro e tendo um morcego vampiro em destaque, a segunda remete a primeira edição original, lançada na Inglaterra, com a capa amarela. A margem das páginas também se diferem, na primeira com a cor dourada e na segunda em vermelho. Ambas são incríveis e na dúvida, acabei cedendo aos meus delírios consumidores e adquiri as duas, que ficam lindas lado a lado na estante. Se eu tivesse de optar por uma delas, diria que a Capa Original amarela me fez balançar, contudo, ambas são deslumbrantes.



Apesar da apresentação ser diferente, o material interno é rigorosamente o mesmo e mais uma vez atesta o respeito, carinho e comprometimento da editora em levar ao seu público um "algo mais" do que "apenas" o título que consta na capa. Essa edição de Dracula oferece uma rica coleção de detalhes e curiosidades sobre o romance com direito ao conto "O Hóspede do Vampiro" escrito pelo próprio Bran Stoker, resenhas, entrevistas e cartas, o posfácio "Decifrando Drácula", um artigo com o título "A Sombra do Vampiro", O Vampiro na Enciclopedia Britânica, uma galeria com fotos dos documentos originais e um ensaio assinado por Charles Baudelaire, "O Vampiro", a respeito dos mortos vivos. A edição extremamente caprichada conta ainda com belíssima arte em estilo gótico que divide os capítulos e seções do livro e concede a ele uma aparência de antiguidade que casa muito bem com seu tema.    

Para os fãs, esse material é uma celebração estupenda a respeito de um romance imortal, ajudando a construir uma rica e envolvente tapeçaria de elementos valiosos, tanto para os que já conhecem à obra, quanto para os que a leem pela primeira vez. Tudo ali se completa perfeitamente e faz o coração bibliófilo pulsar mais forte.

Com tudo isso, eu não poderia indicar de forma mais entusiástica esse livro. Não é por acaso que Dracula se tornou um clássico e atestar a grandiosidade dessa obra prima, quanto mais nessa edição, foi fantástico.

Leia, devore e tenha sempre ao seu lado!




segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Dracula - Entre a verdade e a ficção, o homem e o vampiro


"Não era particularmente alto, mas compensava a estatura com força e vigor, exalando um ar de ferocidade e crueldade. Seu nariz era grande e aquilino, com as fossas nasais largas e uma boca retorcida em um sorriso perverso. Suas sobrancelhas longas e largas envolviam olhos verdes faiscantes. O rosto e o corpo carregavam cicatrizes de batalhas, escondidas sobre a barba e bigode escuros que lhe conferiam um aspecto austero e rude. Sobre os ombros largos, envolvidos pela armadura de ferro, escorriam os cabelos compridos e encaracolados. Era um Príncipe, mas também um selvagem embrutecido pelo fogo e sangue derramados. Sua ferocidade seria conhecida em todo Leste Europeu e seu nome temido por onde passasse".

Nicolas de Modrusa - Descrição do Príncipe da Valáquia. 

Reza o provérbio que a realidade supera e muito a ficção. Entre uma e outra cavalga a figura mítica de Vlad Tepes, mais conhecido como Drácula (O Pequeno Dragão da Valáquia). A lenda consagrada pelo célebre romance de Bram Stoker converteu a figura histórica em uma terrível criatura das trevas, um vampiro com sede de sangue. Mas a sinistra e espetacular vida desse personagem real consegue ser tão fascinante e notável quanto da sua contraparte fictícia.

O verdadeiro Dracula governou o pequeno principado da Valáquia (na atual Romênia) em meados do século XV quando esta constituía a primeira linha de defesa da Cristandade contra o Império muçulmano dos Turcos Otomanos. Era um cenário apocalíptico de violência desenfreada no qual os horrores se multiplicavam e para sobreviver os homens estavam dispostos a ir além das convenções da guerra e abraçar a completa barbárie. Nesse contexto de extrema brutalidade cresceu e governou Vlad que se converteu em uma espécie de Davi enfrentando um poderoso Golias. As vitórias militares do pequeno principado, contra um oponente infinitamente mais poderoso, valeram ao Príncipe a fama de Senhor da Guerra. Mas também lhe conferiram a alcunha de demônio pela sua crueldade sem limites. O chamavam de Tepes (empalador) pelo seu método espantoso de execução contra os inimigos. Boyardos revoltosos, comunidades vizinhas hostis ao seu poder, inimigos estrangeiros derrotados no campo de batalha, elementos marginalizados da sociedade... todos eles sucumbiram cruelmente a noção particular de justiça de Vlad.

Os cronistas do período mencionavam os horrendos bosques nos quais o soberano pendurava seus inimigos em estacas para morrerem lentamente. Cadáveres e moribundos sofriam um lento martírio em suas mãos. 

As notícias de suas expressivas vitórias alimentaram uma percepção diabólica de que o Príncipe da Valáquia era o próprio filho do demônio, um favorito do Inferno que lhe concedia os meios para vencer. Panfletos e propaganda de seus desafetos o pintavam como um monstro, e embora, muitos exageros tenham sido cometidos, mesmo estes eram baseados em fatos reais. 

Através dessas histórias se assentou no ocidente as bases de um mito que com o tempo alcançaria a categoria de arquétipo, assumindo elementos sobrenaturais pelo caminho: o vampiro, como simbologia e um repertório iconográfico com um poder de sugestão impressionantes.    

Nessa série de artigos do Mundo Tentacular, falaremos a respeito de uma das personagens mais fascinantes da história medieval, focando nas raízes de sua conturbada biografia e no contexto histórico de sua época de instabilidade e conflito. 

E é claro, falaremos de terror, muito terror...

Venham conosco, e conheceremos o Mito de Drácula.  

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Iluminando a Escuridão - O Simbolismo Oculto no filme "O Farol"


Muito como aconteceu na sua estréia como diretor, em "A Bruxa", Robert Eggers fornece imagens com diferentes interpretações em seu filme mais recente "O Farol". Dependendo de como o filme é visto, existem diferentes interpretações.

Simbolismo tem um peso considerável em "O Farol", a história de dois homens travando uma luta contra noções de tempo e identidade numa ilha isolada e distante da civilização. Existe uma explicação para todas as questões levantadas pelo filme? Existe uma resposta ao alcance daqueles banhados pela luz da revelação? Esse artigo tenta oferecer as chaves para algumas portas cuidadosamente trancadas, mas o que se encontra atrás pode ou não ser a verdade... de fato, se há alguma verdade absoluta, é que o roteiro de "O Farol" constrói uma história incomum, nem sempre agradável, mas com certeza bastante provocativa.

Mas antes de seguir adiante é preciso avisar aos que não viramo filme que o artigo a seguir está REPLETO DE SPOILERS. Não há como discutir elementos do roteiro sem citar textualmente trechos e sequências inteiras. Portanto, aqueles que desejam preservar a experiência de assistir o filme sem o parecer prévio, aconselho parara de ler nesse ponto (e retornar ais tarde).

Daqui em diante teremos spoilers.


Primeiro de tudo, é interessante fazer uma recapitulação da trama:

Dois guardas de farol, Ephraim Winslow (Robert Pattinson) e Thomas Wake (Willem Dafoe) chegam a uma tempestuosa ilha isolada no litoral da Nova Inglaterra para um trabalho de quatro semanas. A tarefa deles é manter o farol em funcionamento e fazer a manutenção regular do maquinário. Thomas é um velho marujo veterano com uma perna de pau. Ephraim é escalado para substituir o faroleiro anterior que ficou maluco. Thomas incumbe seu subalterno com trabalhos braçais, carregando pedras e esfregando o chão, decretando que apenas ele pode cuidar da luz no alto da torre. Ephraim mata secretamente uma gaivota, um crime terrível aos olhos do supersticioso Thomas, que acredita que os pássaros são responsáveis por carregar a alma de marinheiros perdidos em alto mar. 

A tensão entre os dois homens aumenta e só é aliviada pelos períodos em que eles bebem até o estupor. Ephraim encontra no primeiro dia no serviço uma pequena estatueta de uma sereia que começa a afetar seus sonhos com visões e alucinações reais sobre uma sereia. Ele se masturba furiosamente sob influência dos sonhos. Depois de matar a gaivota o clima muda drasticamente e uma violenta tempestade começa a cair sobre a ilha colocando a segurança dos homens em risco. Thomas acredita que um barco será enviado para evacuá-los, mas ninguém vem e eles ficam sozinhos e por conta própria.

Durante uma noite de bebedeira, Winslow confessa ao colega que seu verdadeiro nome também é Thomas. Ele assumiu a identidade de um capataz no Canadá, vítima de um acidente que ele falhou em evitar. A revelação faz com que a relação dos homens se torne ainda mais abrasiva, com discussões e troca de acusações. Aos poucos, Ephraim/Thomas começa a ser atormentado por alucinações, enquanto se pergunta a razão pela qual seu colega o impede de acessar  topo do Farol de onde emana a luz.

Irritado, Ephaim acaba tendo acesso ao diário mantido por Wake, repleto de críticas e recomendações para não pagar ao rapaz o que lhe é devido ao fim do trabalho. Winslow confronta o faroleiro sênior a repeito e uma nova discussão irrompe, na qual o rapaz decide deixar a ilha e abandonar seu posto. Antes porém o único bote acaba avariado por Wake que o ataca furioso com um machado. Winslow acaba dominando o colega e o leva para fora com o intuito de enterrá-lo vivo, contudo a briga só é decidida quando o machado é plantado no crânio de Wake.

Com o parceiro morto, Ephraim encontra a chave da sala onde fica escondida a lâmpada que cria a luz do farol. Uma vez banhado pela luz branca, ele grita em desespero e seja lá o que ele tenha visto acaba por afetá-lo de tal maneira que o faz rolar até a base da escadaria. 

A última imagem do filme é a do jovem Thomas/Ephraim caído nas pedras com as gaivotas se alimentando de suas entranhas enquanto ele ainda está vivo.     

E é isso...

Há muito o que ser digerido no filme e muitas lacunas que não foram preenchidas. Eu confesso que quando terminei de assistir o filme fiquei sem entender muita coisa e o que passava pela minha cabeça era o pensamento: "Que diabo foi isso que eu acabei de assistir"? Apenas buscando na internet algumas das minhas suposições começaram a fazer sentido. 

A chave para entender "O Farol" é compreender a relação entre o roteiro e uma série de mitos, fábulas e folclore que tomam emprestados conceitos da mitologia grega, das teorias de Jung, do horror de H.P. Lovecraft e superstições de marinheiros.

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Dois Thomas ou apenas um?



Uma das teorias mais controversas a respeito do filme é que desde o início não são dois personagens no Farol, mas apenas um. Ocorre que os dois Guardiões do Farol seriam rigorosamente a mesma pessoa em uma crise de identidade. A confusão se daria pelo fato de que eles seriam o mesmo indivíduo em momentos diferentes, rememorando fatos de seu passado e confrontando elementos de seu presente e futuro.

O fato de coincidentemente os dois personagens terem o mesmo nome, Thomas, poderia indicar algo nesse sentido.

Se essa teoria for levada em consideração, os acontecimentos mostrados no Farol seriam uma reflexão do personagem tentando se reconciliar consigo mesmo e compreender quem ele foi quando jovem (Winslow) e no que ele se transformou depois de velho (Wake). Ele estaria tentando completar uma espécie de ciclo, confrontando seus erros e enganos.

Para corroborar ainda mais essa teoria, existem pessoas que apontam para o som de uma perna se quebrando na cena em que Ephraim rola as escadas da torre - e sabendo que o Wake é definido pela perna ausente seria uma forma de mostrar como tal coisa teria acontecido.

Além disso, temos ainda a questão do tempo que é abordada por Wake quando este pergunta ao colega quanto tempo eles já estão no Farol pois manter o tempo ali parece impossível. "Três semanas? Dois dias?" ele questiona e Iphraim é incapaz de responde ao certo pois os dias e noites parecem sempre iguais. Seria a ilha um tipo de Limbo ou um Purgatório onde o personagem tem que buscar a expiação de seus pecados? Sendo que o primeiro passo é reconhecê-los... exatamente o que Iphraim faz ao reconhecer seu verdadeiro nome e história. Dali em diante matar o seu "outro eu" poderia ser uma forma de apagar quem ele viria a se tornar.

E se Thomas Wake jamais existiu?



Há muitas teorias de fãs e análises a respeito de elementos ocultos do filme. 

Embora o roteiro de Eggers explique a razão para que a estação seja operada por dois homens, no mundo real, muitos faróis eram atendidos por um único operador que ficava na estação por períodos de até 20 dias. Isso não era exatamente seguro, mas isso acontecia com enorme frequência. Apenas faróis mais importantes e em localidades cruciais recebiam dois ou até quatro operadores.

Em referência a Ephraim, ele poderia ter sido enviado para a estação depois que o operador anterior morreu em um acidente. Se esse é o caso, então o personagem de Thomas Wake nunca existiu. Ele ão passaria de uma alucinação na mente fraturada de Ephraim.

Se isso soa muito estranho, leia até o fim...

Os defensores dessa teoria dizem que as discussões entre os dois faroleiros são completamente infrutíferas. Em muitas ocasiões, Ephraim se comporta como se as palavras de Thomas fossem uma voz em sua cabeça, ecoando, reverberando e repetindo. Na cena em que os dois repetem "O que?" um para o outro de modo incansável isso fica bem claro. 

As superstições de marinheiros, as explosões de raiva e a forma como Thomas o diminui poderiam ser sinal de uma doença mental. Além disso, considere a troca do nome e o desejo de começar do zero, em um lugar afastado, isolado, sem pessoas que o acusem. Talvez ele consiga fugir de todos, mas de uma pessoa ele não consegue escapar: de si mesmo!

Ao criar um companheiro falso, Ephraim tenta permanecer são, mas a solidão acaba o levando à loucura.

Mas isso não é tudo!

A cena com a sereia demonstra que ele é capaz de imaginar presenças ao seu redor. Ao passo em que, quando ele "assassina" Wake, ele o faz depois de tentar restabelecer sua identidade verdadeira, momento em que teoricamente ele não precisava mais de uma presença fantasiosa. 

As Gaivotas como símbolo de maus agouros 



Thomas Wake afirma ser um ex-marinheiro e portanto ele conhece todo tipo de superstição e respeita os costumes dos homens do mar. Não é raro que marujos tenham suas crenças sobre coisas que trazem azar ou atraem maus agouros. Em um trabalho perigoso como o deles, qualquer coisa fora do comum pode ser interpretado como um sinal.

Uma das crenças dos marinheiros mais tradicionais está relacionada às gaivotas. Esses pássaros brancos com tons de cinza nas asas são companheiros frequentes dos homens do mar, sinalizando a existência de terra e sendo atraídos por barcos de pesca. O som agudo produzido por eles é sinal de que a terra está próxima, e por isso os marinheiros tendem a evitar machucá-los.

Algumas fontes afirmam que gaivotas trazem má sorte, especialmente se elas tem características que as diferenciam das demais. Uma gaivota com uma pena preta, um sinal peculiar ou um olho ausente, pode ser reconhecida e se uma gaivota em especial é vista repetidas vezes, pode ser sinal que ela está seguindo o marinheiro por algum motivo. Uma lenda recorrente é que as gaivotas sabem e vêem tudo que acontece em alto mar, para esses pássaros, portanto, não existem segredos. Uma gaivota, albatroz ou outra ave marinha é uma lembrança constante de que sempre há testemunhas para transgressões cometidas. Não importa o quanto se tene esconder alguma coisa, alguém sempre saberá.

Além disso, os pássaros são associados com sobrevivência e muitas vezes eles procuram comida nas praias. Não é raro quando um homem morre em alto mar, que seu corpo seja arrastado para uma praia e é menos raro ainda que os pássaros sejam os primeiros a encontrá-lo. Aves marinhas se alimentam de restos e isso inclui seres humanos. Eles buscam as partes macias do corpo e são atraídos pelos olhos, em geral a primeira parte a ser bicada e devorada. Muitas pessoas consideram os olhos a "janela da alma" e daí decorre a crença de que as aves extraem a alma dos mortos dessa forma. Elas passam então a reter a alma do morto.

Por esse motivo, muito marinheiros acreditam que é mau agouro matar um pássaro que está transportando a alma de um marinheiro morto.

Quando Thomas alerta Ephraim para não ferir os pássaros, a sua principal preocupação é não mexer com a alma dos mortos pois estes podem se vingar. Depois de matar uma gaivota que o atormentava repetidas vezes, as coisas saem de controle na ilha. 

No filme, a maldição é bem real. O ato de matar um pássaro em um acesso de raiva é compreendido como o início da queda de Ephraim rumo à loucura e perdição. Eggers brinca com esse conceito no roteiro, logo depois do pássaro ser morto, os ventos mudam de direção, como se um acontecimento estivesse ligado ao outro numa espécie de causa-efeito.

A Conexão Lovecraftiana



Em uma entrevista concedida ao Los Angeles Times, Eggers deixa claro que ele se inspirou nos contos de H.P. Lovecraft para criar o roteiro de seu filme.

O termo "lovecraftiano" tem ganhado força mais e mais frequentemente para descrever isolamento, impotência e insanidade. A mitologia de Lovecraft está repleta de "deuses ancestrais" e horrores cujo mero vislumbre invoca ruína e danação.

Resta então a pergunta: "O Farol" é Lovecraftiano?

E a resposta: Sim, muito.

Não no sentido de trazer monstros e horrores cósmicos, mas ao apresentar uma história em que a loucura está espreitando e desejosa, tenta se apoderar de um homem, levando-o às raias da insanidade através do isolamento completo e da esmagadora impotência.

O Farol em si pode ser interpretado como um abominável e enigmático Deus Ancestral. Ele é a coisa mais estranha do filme, e domina a cena. Quando os personagens não estão caminhando à sua sombra, estão olhando para cima e observando sua luz ou pior, estão dentro dele. A fonte de seu poder é a luz, alimentada pelo seu serviçal mais fiel, Thomas Wake, que a deseja apenas para si. Em indisfarçável êxtase ele se banha sob o seu brilho purificador como um devoto fanático.

Como um Deus Ancestral, o Farol ecoa uma buzina de nevoeiro que oprime os habitantes da ilha durante todo o filme. Suas demandas precisam ser satisfeitas, diariamente, sem nenhuma falha. Thomas age como um feitor, ordenando a Winslow que trabalhe e faça conforme ele manda. Os dois homens são como escravos do Farol, fazendo tudo por ele, entregando-se de corpo e alma a mantê-lo em funcionamento.

E como ocorre com os cultos devotados aos Deuses Ancestrais, existem regras quanto ao que é considerado proibido. Apenas Wake (que tem o nome sugestivamente significando "despertar") poderia ser compreendido como o detentor dos segredos do Deus. Ele experimentou a luz do farol e obteve à partir dela um tipo de conhecimento exclusivo sobre o mundo. É claro, essa revelação lhe custou a sanidade (alguém tem dúvida que o homem é louco?), fez dele um supersticioso (que se rende a crenças) e que deseja guardar apenas para si a experiência (ele se nega a compartilhar com Winslow acesso ao topo).

Eggers comentou a respeito do "mistério da luz" e em uma entrevista falou da influência de Lovecraft em seu filme: 

"Eu sei bem que existe um mistério a respeito das luzes, e compreendo que ele está aberto a teorias. Existem claras influências lovecraftianas no filme, mas se ele é realmente lovecraftiano cabe a cada um dizer. Claro, quando o personagem de Robert acha o diário de Willen, ele poderia estar repleto de devaneios e loucuras místicas a respeito de Dagon, o que explicaria que Dafoe é um tipo de cultista e parte de um Culto devotado a seres das profundezas. Nesse contexto, os tentáculos seriam a influência do Deus agindo sobre a sua mente. E quando eles surgem para Robert, ele também se vê afetado. Nós poderíamos fazer isso, mas preferimos deixar em aberto para especulação". 

O simbolismo do Farol



É fácil subestimar a forma como o principal prédio no filme de Eggers fortalece a narrativa do filme.

Em seu sentido mais simples, o Farol é um símbolo que guia e ajuda as pessoas a encontrar a rota correta em meio a escuridão. Como um navio levado a uma costa em segurança, esse conceito pode ser visto de várias maneiras, inclusive como uma metáfora religiosa. No sentido bíblico, Deus pode ser descrito como uma espécie de Farol para seus seguidores, que seguem a sua luz sem se desviar do caminho. Isso pode estendido ao judaísmo onde Deus lançava uma luz que guiava o povo prometido durante a escuridão no Egito. Cavando ainda mais fundo, uma luz em meio a escuridão pode ser interpretado como uma visão do maniqueísmo - uma luta sem fim entre a luz e as trevas.

Eggers no entanto navega para longe de conceitos religiosos e encara o farol como uma espécie de representação de privilégios. Os níveis do farol são representados de forma que o topo seja o local mais desejado, mais perto da luz. Na base dele, está o nível mais baixo onde depois de uma bebedeira homérica os faroleiros se entregam a todo tipo de comportamento desagradável. Como os mais baixos homens eles elevam a cabeça e tentam ver a luz e desejam se deixar envolver por ela.

Pense no que existe fora do farol. Corpos em decomposição, gaivotas barulhentas e a desagradável cabana ocupada pelos dois. Eggers faz um tremendo uso de luz e sombras para enfatizar o simbolismo de cada pavimento. O topo é luminoso e imaculado e os interiores são escuros e claustrofóbicos. Não por acaso, o personagem de Pattison termina aos pés do farol, após rolar as escadas do nível mais alto e chegar até a base. Como um herói grego, a revelação e a conquista é transitória e logo ele se vê na pior das situações: abandonado aos pés do farol sendo devorado por pássaros.

E por falar em gregos...

Thomas é a representação de Proteus



Em uma entrevista Eggers revelou que uma das principais inspirações para compor os personagens e a trama do filme. Ele recorreu aos antigos mitos gregos para dar personalidade aos seus protagonistas.

Prometeu e Proteu jamais participaram da mesma história na mitologia grega, mas nesse filme eles parecem encarnar respectivamente em Winslow e Wake. Teriam os deuses encarnado em seres humanos e estariam Eles destinados a repetir Seus papéis em uma escala menor?

Em uma das cenas no ato final Winslow insulta as habilidades de Wake em preparar uma lagosta e recebe como resposta uma espécie de maldição que conclama a fúria dos sete-mares e do próprio Poseidon.

Essa maldição é lançada depois de uma bebedeira alimentada por querosene misturada com mel. Wake e Winslow estão prestes a se enfrentar em uma briga, depois que o rapaz descobre que seu oficial sênior escreveu em seu diário palavras ofensivas que o colocam com um incapaz que sequer merece receber seu salário. 

Proteus no mito grego é uma representação do próprio "velho do mar", uma figura taciturna, estranha e colérica. Detentor de enorme conhecimento, mas que prefere manter tudo para si mesmo, sem compartilhar com os outros a sabedoria acumulada ao longo de seus muitos anos. Wake parece saber tudo o que acontece no Farol, ele parece ciente de todos os acontecimentos, desde a morte da gaivota até o fato de que ninguém os virá buscar.

Quando Winslow fica furioso e parte para cima de Thomas, socando sua face, vemos que ele se transforma e por um segundo temos um vislumbre da sua forma real: ensopado pela água do mar, com tentáculos no lugar das pernas, seu corpo cheio de craca e algas. Um único chifre de coral servindo de coroa em sua cabeça. Ele é Proteus desmascarado, o Velho Homem do Mar, Filho do poderoso Poseidon. Proteus representa a mudança do mar e seu caráter imprevisível. 

E se Thomas é Proteus, então...

Ephraim é a representação de Prometeus


Após atacar e matar Thomas Wake, na forma de Proteus, Winslow considera a si mesmo valoroso para obter o conhecimento oculto no Farol. Disposto a ganhar o saber proibido ele ascende as escadas em espiral que conduzem ao topo, ansioso pela derradeira revelação.

O farol e a luz cativam Winslow e o atraem desde o início. Quando chega até lá, ele e envolvido pela luz e em êxtase grita. Mas o peso desse conhecimento proibido se prova grande demais para ser suportado. A intensidade desse brilho representa o peso de um conhecimento arrebatador. E Winslow reage à altura. Em um grito gutural ele demonstra que sua realidade se foi para sempre. Ele rola as escadas, quebrando ao mesmo corpo, mente e espírito.

Quando vemos Winslow novamente ele está praticamente irreconhecível. Destruído! Tombado na base do farol, ele está cercado de gaivotas que se aproximam para devorar suas entranhas. Ele está fadado a viver com pássaros bicando seu corpo, em uma alusão clara ao Mito Grego de Prometeu.

Na mitologia grega, Prometeu é o Titã que roubou o Fogo dos Deuses que ardia no Monte Olimpo e o deu à humanidade. O fogo representa a centelha do conhecimento e a busca pelo saber secreto que apenas os deuses deveriam ter acesso. Como punição pelo seu crime, Zeus ordena que Prometeu seja acorrentado em uma pedra e forçado a suportar o fardo de ter uma águia devorando seu fígado. O órgão se regenera apenas para ser comido novamente, condenando o titã a uma agonia eterna.

A alusão ao Mito de Prometeu parece muito clara e Eggers não esconde que ela foi inspiração para o apocalíptico final do filme.   

O que existe afinal na Luz do Farol?


Todo simbolismo de "O Farol" ainda deixa uma imensa pergunta em aberto na derradeira cena. A pergunta que não quer calar é o que significa a Luz do Farol?

O final enigmático, quando Ephraim abre a porta para o topo da torre é ambíguo. O roteiro não menciona o que existe dentro da lâmpada, nem explica de onde vem o seu poder. Portanto, existem várias formas de compreender o significado dessa luz.

O Farol pode ser interpretado como um Templo, devotado a alguma entidade sobrenatural, ou mesmo um semi-deus que tem em Thomas a figura de um Guardião (ou sacerdote). A teoria explicaria os tentáculos no início do filme sempre que a luz do farol banha alguém ou exerce sobre ela influência. Nesse caso, a luz seria a forma como a entidade se comunica ou transmite seu saber. "Saber esse extremamente perigoso". Essa teoria se encontra em perfeita sintonia com o Horror lovecraftiano, fonte da qual, como vimos, o filme bebe.

Mas isso não explica o que o jovem Winslow vê na luz.

Assim como o fogo que Prometeu roubou do Olimpo, a luz no topo da torre pode representar tudo: todo o conhecimento existente. Infelizmente, o rapaz não é capaz de lidar com esse poder tão intenso e acaba sofrendo as consequências.

*     *     *

Bem é isso...

Talvez esse artigo tenha ajudado ou elucidado alguns pontos, mas é possível também que ele tenha tornado tudo ainda mais confuso.

"O Farol" é um filme complexo e para ser honesto - o interessante a respeito dele é justamente ser aberto a interpretações. Enquanto algumas dessas teorias não passam de bobagem, outras parecem tocar em aspectos essenciais do roteiro. Uma coisa é certa, o filme fornece material para ampa discussão e análise.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O Farol Deserto - O que aconteceu nas Ilhas Flannan em 1900?



Originalmente publicado em Fevereiro de 2017

“Embora três homens fossem responsáveis pela Ilha Flannan
e por manter o farol aceso,
A medida que nos aproximamos da costa,
nenhuma luz brilhou na escuridão da noite…”

W.W. Gibson - “Flannan Isle”

*   *   *

A oeste da Escócia, a cerca de 18 milhas da Ilha de Lewis, existe um grupo de ilhotas conhecidas como Flannans. A maior das Ilhas Flannan, Eilean Mor (Ilha Grande no idioma Gaélico), tem apenas 39 acres de extensão, erguendo-se a 288 pés acima do tempestuoso Mar do Norte.

Esse trecho era traiçoeiro para os navegadores, especialmente quando as tormentas deixavam o mar agitado e nevoeiros comprometiam a visibilidade. Várias embarcações acabaram perdendo seu referencial se chocando com as rochas negras ou com a costa acidentada. Para auxiliar os marinheiros, foi decidida a construção de um farol de 74 pés (22,5 metros) na Ilha de Eilean Mor.

O ano era 1899. O farol deveria lançar um feixe de luz a cada 30 segundos emanando um raio luminoso com a potência de 140,000 velas a uma distância de 24 milhas, para guiar embarcações contornando Cape Wrath e a caminho de Pentland Firth. A construção foi difícil, mas um ano depois, o farol foi concluído e já estava em operação na ilha.

Uma equipe de três guardiões foi contratada para operar e realizar a manutenção do equipamento. Era um trabalho simples, marcado pelo isolamento e longos períodos de solidão. Os homens contratados para o serviço eram experientes e cumpriram seu trabalho a corretamente. Eles tinham uma casa, suprimentos e passavam as noites jogando cartas enquanto mantinham a vigília.

Em 15 de dezembro de 1900, apenas alguns dias depois de completar o primeiro aniversário de operação do farol, o Capitão Holman do vapor Archtor, a caminho de Leith, Escócia, percebeu que a luz estava apagada. O mar estava forte, e furioso com o desleixo, Holman enviou uma mensagem para o quartel general da Cosmopolitan Line Steamers, empresa responsável pelo serviço.

A central tentou entrar em contato com um grupamento marítimo em Galen Rock, para que este averiguasse o que havia acontecido, mas uma forte tempestade havia cortado as comunicações. Nas noites seguintes, as embarcações que passaram pela área perceberam que a luz permanecia apagada.

O relevo acidentado da Ilha de Eilean Mor na Costa da Escócia
Um grupo foi organizado para seguir até o farol em 20 de dezembro, mas as incessantes tempestades dificultavam a saída do porto. Um dos botes que levava o grupo quase virou e eles resolveram desistir até que as condições do tempo melhorassem. Em 21 de dezembro, algumas pessoas disseram ter visto o farol se acender, mas por um curto espaço de tempo. Aparentemente, a equipe estava enfrentando algum problema com o funcionamento do equipamento.

No dia 26, logo após o Natal, a tripulação de um mercante passando perto da ilha, soou uma buzina saudando o farol e em seguida disparou um sinalizador. Nenhuma das duas tentativas de contato obteve resposta - embora um dos marinheiros que observava a ilha com binóculos tenha dito que viu movimento na praia rochosa. Ao chegar ao seu destino, o capitão pediu que uma equipe fosse enviada para investigar.

O mar ainda estava bravio, mas permitia a aproximação de um bote a remo. Atracando na costa, o faroleiro Joseph Moore, que fazia parte da equipe mas estava de folga, encontrou a porta da casa que servia de abrigo trancada por dentro. Ele chamou e bateu palmas, mas não obteve resposta de ninguém no interior. Preocupado, ele arrombou a porta com certa dificuldade, pois havia uma barricada improvisada barrando o acesso. Na cozinha, Moore descobriu que o fogo da lareira havia queimado sem parar. Na sala, percebeu que o relógio da parede havia parado às 2 horas. Nos quartos não havia sinal de seus companheiros e as lareiras estavam apagadas a tempo. Os vigias James Ducat, Thomas Marshall e Donald McArthur haviam simplesmente desaparecido.

Assustado, Moore chamou pelos seus colegas uma vez mais, mas não "teve nervos" para caminhar até o farol e ver se eles estariam lá dentro. Ele preferiu voltar para o barco a remo e retornar mais tarde acompanhado. Uma equipe de resgate composta de quatro homens e mais um capitão foi rapidamente organizada em Galen Rock e seguiu para investigar.

A equipe escreveu o seguinte relatório, sobre o que encontrou:

Foto de 1899 logo após a inauguração do Farol
"... as lâmpadas estão limpas e o equipamento em perfeito estado de funcionamento. Há combustível para a acionamento do farol e ele parece estar preparado para utilização. Na sala de operações, encontramos uma cadeira caída perto da mesa. Havia um baralho espalhado pelo chão e uma garrafa quebrada.

No alojamento abrimos os armários onde encontramos roupas pertencentes aos guardiões. Duas capas de chuva e um par de galochas estão faltando.  

O telhado da casa parece ter sido atingido com força pela tempestade e apresenta goteiras em vários pontos. Móveis foram movidos fora da posição original, segundo Moore que esteve aqui na véspera do dia 13 de dezembro. A pistola de sinalização não foi encontrada, nem os apitos de sinal.

A casa de barcos, foi seriamente avariada pela tempestade. O bote foi danificado, boias estavam espalhadas para todo lado e o equipamento que era mantido ali foi revirado. Não há nenhum sinal dos empregados do farol. Apesar da bagunça, não há nenhum indício de luta ou desentendimento".  

Imediatamente um telegrama foi enviado para William Murdoch, Secretário responsável pelo funcionamento dos faróis na área – “Um terrível acidente aconteceu em Flannans. Os três vigias do farol: Ducat, Marshall e o temporário (McArthur) desapareceram. Nós vasculhamos a ilha toda e não encontramos sinal deles. Sumiram da face da Terra!

A notícia rapidamente se espalhou e a tragédia apareceu no Highland News com a manchete:  DESASTRE NAS ILHAS FLANNAN: MAIS UM MISTÉRIO SEM SOLUÇÃO. Os jornais foram rápidos em conectar o estranho acontecimento a duas tragédias que haviam ocorrido recentemente. Em abril um vigia havia escorregado nas escadas perto da casa de barcos e sofreu uma queda em que quebrou o pescoço. Em agosto um barco a remos que se aproximava de Eilean Mor virou e quatro homens se afogaram na água gelada.  

Mas aquela tragédia era ainda mais bizarra, sobretudo porque ninguém sabia o que realmente havia acontecido.

Segundo Moore, o último a ver seus companheiros com vida, pouco antes de deixar o farol para sua folga, tudo estava tranquilo. Ele disse que seus companheiros estavam agindo da forma normal e que o estado de ânimo era bom. Nenhum deles parecia incomodado ou infeliz.

Especulou-se que James Ducat em sua última visita a costa, pouco menos de um mês antes do desaparecimento, havia reclamado de seu trabalho. Ele resmungou que não gostava de ficar em Eilean Mor e afirmava que o lugar não era "bom para seus nervos". Para muitos, ele havia tido uma espécie de premonição sobre o que estava para acontecer. Ducat havia enviado um pedido a Robert Muirhead, supervisor de faróis, para ser transferido para outra função. Muirhead insistiu entretanto para que o empregado continuasse na função, ao menos até o próximo ano, até um substituto seria providenciado.

Para um vigia de farol, a vida tende a ser solitária e pacífica, mas para a equipe na Ilha de Flannan as coisas nunca foram muito tranquilas. Para sobreviver eles tinham que lidar com um clima constantemente furioso, tempestades de vento cortante e o frio absoluto eram seus companheiro habituais. Os homens tinham suprimentos, mas precisavam pescar e cuidar de sua própria horta. Eles precisavam também realizar diariamente o mesmo trabalho maçante e repetitivo. Além disso, o espaço comum que habitavam era pequeno e confinado.  

Após o desaparecimento, uma nova equipe foi enviada para cuidar do farol enquanto a investigação era conduzida. Os indícios apontavam que uma última pessoa havia ficado na casa e que havia se refugiado na cozinha depois de trancar as portas e dispor barricadas. Porque ele teria se escondido nesse lugar e o que ele queria manter do lado de fora?

No caderno de anotações de Ducat, a última informação é do dia 15 de dezembro. Não há nada de estranho: a leitura da velocidade do vento e temperatura foram realizadas como manda o manual. Ele comenta que a luz foi apagada às 9 da manhã do dia 15 pois havia luz suficiente para navegação.

Cartão postal comemorativo da inauguração do Farol em 1899

O inquérito concluiu o seguinte: 

... todos as tarefas rotineiras foram realizadas. As grandes lâmpadas na torre de vigília estavam limpas e abastecidas para a próxima noite. O mecanismo estava em perfeito estado e o mecanismo havia sido limpo após a luz ter sido apagada pela última vez, o que demonstra que o trabalho estava sendo conduzido perfeitamente. Isso leva a crer que o que quer que tenha acontecido, teve lugar durante a manhã ou até o meio da tarde.

Dois vigias ouvidos durante o inquérito concluíram a seguinte sucessão de acontecimentos: provavelmente McArthur havia sido o último a ficar na casa, pois estava em seu turno de guarda à tarde. Ducat e Marshall teriam saído para verificar o equipamento na Casa de Barcos avariado pela tempestade na noite anterior. De seu posto de observação McArthur teria visto uma série de ondas se formando e correu para avisar seus colegas do perigo. Quando eles não ouviram seu alerta, ele resolveu ir até o lado de fora e avisá-los. Infelizmente ele não calculou bem o tempo que teria para chegar até eles e retornar antes da chegada das ondas. Os três acabaram alcançados e carregados para o mar onde provavelmente se afogaram.


O relatório não mencionava em momento algum o fato de Moore ter encontrado a porta trancada e uma barreira montada no interior da casa. Não mencionava também o relógio parado ou o fato da lareira da cozinha ter ficado acesa enquanto a da sala e dos quartos parecia não ter sido usadas a dias. O testemunho de Moore foi considerado exagerado e até a integridade do funcionário foi colocada em cheque durante o inquérito.

De fato, na tarde de 14 de dezembro houve uma forte tempestade com ondas muito altas, mas no dia 15, data da última anotação no diário, não é mencionado nenhum sério. Além disso, existe a questão de que os três vigias tinham certa experiência. Eles não cometeriam o erro grosseiro de abandonar o farol durante uma tempestade com ondas fortes a ponto de varrer a ilha.

Mas existem outras teorias. Segundo alguns, um dos três vigias teria ficado louco e assassinado os outros dois enquanto estes dormiam. Ele teria arrastado os corpos até o mar e os amarrado a pedras para que afundassem. Finalmente, descontrolado e arrependido de seu ato, o assassino teria saltado para as águas revoltas onde também morreu. Alguns chegam a dizer que houve algum tipo de luta na qual a porta foi trancada e barrada, mas que mesmo assim, a violência irrompeu de tal maneira que todos acabaram mortos. Suspeitas a respeito de Donald MacArthur foram levantadas, e alguns chegaram a dizer que ele tinha problemas mentais e que havia passado alguns anos sob a tutela de um manicômio. Nada disso, entretanto foi comprovado.

Ilha Flannan hoje - o Farol continua lá. 
E há rumores ainda mais estranhos que mencionam discos voadores, serpentes marinhas e até mesmo um lendário pássaro gigante do folclore escocês que teria atacado o farol e levado seus ocupantes para alimentar os seus filhotes. 

Historicamente as Ilhas Flannan sempre foram famosas por superstições que remetem a época anterior a ela ter recebido seu nome em homenagem a Saint Flan. Dizem que todos os que colocavam os pés na ilha tinham de repetir uma oração para o santo a fim de poder deixar o lugar, do contrário, uma morte terrível os aguardava. Há também estórias sinistras sobre fantasmas que atraíam homens para os penhascos e ventos repentinos que os lançam nas águas cinzentas e frias.

Seja como for, 70 anos se passaram sem mais nenhum incidente até que em 1971, o farol foi modernizado e automatizado, dispensando a necessidade de vigias permanentes na ilha. 

Hoje, o solitário farol de Eilean Mor continua a lançar sua luz sobre o oceano, possivelmente buscando sinal dos vigias desaparecidos cujo paradeiro jamais foi descoberto.

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