sexta-feira, 27 de março de 2015

Props Oficiais - Documentos de Identificação da República da Espanha para Chamado de Cthulhu



Apenas a título de curiosidade, já que estávamos falando dos cenários se passando na Guerra Civil da Espanha, há algum tempo eu tencionava narrar o cenário "No Pasarán!" do livro Shadows of War.

Esse cenário, se passa no auge da Guerra Civil e nele os jogadores são membros das Brigadas Internacionais, as milícias formadas por estrangeiros voluntários que lutaram ao lado das Tropas Legalistas.

Tive a ideia de utilizar um modelo semelhante ao documento de identificação concedido pelo Governo da República da Espanha aos voluntários como ficha dos personagens. Procurei uma fotografia desse documento que funcionava como um passaporte e coloquei em seu interior as informações e estatísticas de cada personagem.

Esse foi o resultado:

Eu fiz sete passaportes de uma vez. Para o interior utilizei um caderninho de notas baratinho que comprei em uma papelaria. Encapei ele com um papel pardo para fazer a capa. Usei então uma fita com as cores vermelho e dourado, as cores da Espanha para a lateral. O toque final foi o brasão da Espanha. Deu um pouco de trabalho, mas o efeito valeu a pena. 

Parece realmente um passaporte. 

Esses da foto abaixo, são modelos dos passaportes usados no período de 1936 a 1939, expedidos pela República da Espanha:


Eu me espelhei neles para fazer o meu próprio passaporte. Segundo a pesquisa que fiz, haviam diferentes modelos de passaporte nessa época e a escassez de papel forçava o governo a utilizar o que estivesse à disposição ou reaproveitar. Sendo assim fiquei à vontade para criar a minha própria versão. 

 Essa é a primeira página do passaporte com o texto traduzido do original utilizado no documento entregue aos voluntários das Brigadas Internacionais. É claro, no lugar do nome eu coloquei os nomes dos investigadores.

Para as fotografias e identificação, busquei fotos de pessoas que participaram das Brigadas Internacionais. O carimbo da República da Espanha deu um toque interessante de autenticidade, embora eu planejasse colocar um brasão no centro do carimbo.

 Nas páginas do documento/passaporte, estão as informações essenciais de cada personagem, seus atributos, pontos de sanidade, pontos de vida, habilidades e tudo mais... 

Uma vez que os personagens são combatentes voluntários, coloquei também uma foto das armas por eles utilizadas. Faltou apenas incluir os dados de cada arma.

Ah sim, um dos personagens era um observador da União Soviética. Uma vez que os soviéticos podiam utilizar seus próprios passaportes e estes eram reconhecidos pelo comando da Brigadas Internacionais, nada mais justo que o personagem ter um documento exclusivo de seu país. Não é o mesmo modelo expedido pelo comissariado soviético, mas usando o mesmo modelo ficaria mais interessante para o grupo.

O mais curioso é que apesar de tudo isso eu nunca consegui narrar "No Passarán!", de qualquer maneira guardei os props para uma próxima oportunidade. 

Como pretendo fazer "Soldiers of Ink and Pen" em breve, é possível que eu reaproveite as fichas e inclua uma versão para Rastro de Cthulhu no documento.

E se bem me lembro, o cenário tinha até uma entrada, pinçada dos créditos do filme "Balada Triste de Trompeta" de Alex de La Iglesia.

Cara que entrada é essa, que imagens são essas que música é essa!




quarta-feira, 25 de março de 2015

Soldiers of Pen and Ink - Resenha do Cenário de Rastro de Cthulhu

Com todo o interesse recente a respeito de cenários Lovecraftianos se passando na Segunda Guerra Mundial - apenas para citar dois World War Cthulhu e Achtung! Cthulhu, é curioso que muitas vezes as pessoas esqueçam que houve um conflito anterior que serviu como laboratório para muitos horrores que aconteceriam na década seguinte.

A Guerra Civil travada na Espanha, entre 1936 e 1939, colocou em lados opostos os Republicanos que apoiavam o governo eleito da República e os Nacionalistas, um grupo de fascistas liderado pelo General Francisco Franco. Mais do que uma guerra entre espanhóis, o conflito se tornou o ponto focal entre políticas radicais, apoiadas por nações estrangeiras. De um lado Alemanha e Itália apoiavam os Nacionalistas, do outro os Soviéticos ajudavam os Republicanos. Foi portanto, o primeiro embate de ideologias totalitárias fora do campo das ideias, e como tal, contou com a presença de milhares de voluntários que convergiram para a Espanha afim de lutar por um lado ou por outro.

O devastador conflito na Espanha já havia servido como pano de fundo para um cenário de investigação lovecraftiana chamado "No Pasaran!", lançado no formato de Monografia integrando a antologia Shadows of War, da Chaosium. Esse cenário acompanhava um grupo de investigadores, membros das Brigadas Internacionais, em uma jornada infernal pelo interior da Espanha enfrentando não apenas inimigos humanos, mas um culto demoníaco e as criaturas negras a quem estes serviam. Inspirado pelo clássico "No Coração das Trevas" de Joseph Conrad (que por sua vez foi a base para o filme Apocalipse Now), esse cenário vale a pena ser conhecido.

Recentemente, a Pelgrane Press, editora responsável pelo excelente Trail of Cthulhu (aqui conhecido como Rastro de Cthulhu) lançou um novo cenário escrito por Adam Gauntlett, que se passa justamente em Madri, nos dias que antecederam a vitória das forças de Franco. O cenário intitulado Soldiers of Pen and Ink (Soldados de Papel e Tinta) é ideal para uma aventura one-shot. Nele os personagens dos jogadores integram uma equipe de documentaristas estrangeiros que está filmando os acontecimentos, quando um de seus colaboradores desaparece misteriosamente. Teria ele sido preso por agentes soviéticos infiltrados no exército? Será que simpatizantes fascistas o capturaram? O que teria acontecido com o jovem guia, Ramon?

No início do cenário, a equipe registra as manobras do que se tornaria o Cerco de Madri quando a capital é isolada pelas tropas de Franco. O clima na cidade é de total paranoia, com a população desesperada pelos rumores de que haverá um massacre. O governo Republicano e os conselheiros soviéticos preparam as defesas e alistam voluntários para as barricadas. Diferentes ideologias, no entanto, ameaçam desmoronar a esperança da capital, mesmo antes da chegada do inimigo. Há boatos sobre traidores operando abertamente, líderes ordenando fuzilamentos de civis e desaparecimentos de suspeitos. E não bastasse o clima de medo que varre as ruas de Madri, há algo mais espreitando das sombras, algo terrível que ninguém é capaz de compreender, algo que se alimenta do horror e dele extrai seu poder.

A busca por Ramon leva os investigadores a se embrenhar no submundo de Madri, interagindo com pessoas famosas, como Ernest Hemingway, descobrindo que a ameaça oculta é muito mais terrível do que eles poderiam supor. A busca por pistas do paradeiro de Ramon, coloca o grupo numa rota de colisão com uma conspiração de cultistas que aguardam o momento propício para destruir a Espanha. Caberá ao grupo descobrir uma forma de frustrar seus planos e evitar o pior, mas não será nada fácil.

Embora seja um típico cenário de horror Lovecraftiano, a atmosfera e o tom de Soldiers of Pen and Ink talvez seja mais sinistro que o normal. Grande parte do horror decorre das ações de pessoas normais levadas ao limite e transformadas em verdadeiros monstros pelas vicissitudes da Guerra. Os Mythos estão presentes, é claro, mas eles são uma força insidiosa que se alimenta da selvageria e da barbárie. O mal é realmente desencadeado pela humanidade de forma grotesca, em contrapartida as entidades jamais agem de maneira explícita.




Para amparar o narrador, Soldiers of Pen and Ink inclui cerca de dez páginas com um valioso background. Esse material detalha Madri e a Espanha, focando em acontecimentos importantes, apresentando as armas e equipamento usados pelos dois lados, mostrando como era o trabalho de documentaristas na época, e trazendo vários arquétipos para personagens - Extremista, Voluntário, Espião, Contrabandista do Mercado Negro, caso os jogadores queiram construir seus próprios personagens. Um apêndice fornece seis personagens prontos para jogar que podem ser dados para os jogadores para acelerar as coisas.

Embora tudo isso seja muito útil, infelizmente nós acabamos esbarrando em alguns problemas, sendo que o principal é nossa falta de familiaridade com muitos fatos narrados na aventura. Para que o cenário seja inteiramente compreendido, os jogadores tem de assimilar uma enorme quantidade de informações antes mesmo de iniciar a aventura. É claro, nada impede que os jogadores participem desse cenário sem conhecer detalhes históricos, mas se assim for, muito se perde. Por exemplo, a presença de alguns NPCs - pessoas que realmente existiram e foram importantes no Cerco de Madri, acabam se perdendo, caso os jogadores não saibam de quem se trata. O livro poderia fornecer alguns Handouts (recursos) com informações vitais a respeito do período o que ajudaria muito a tarefa do Guardião de criar o palco para o cenário.

Outro pequeno problema de Soldiers of Pen and Ink é o seu formato, um tanto desapontador para quem está acostumado com o alto padrão dos livros da Pelgrane Press. O livro carecia de uma pequena revisão e a arte não é tão evocativa, não dá para entender porque as fichas dos personagens não acompanhem uma imagem deles. Mas a grande falha do livro é não trazer um mapa de Madri para auxiliar o Guardião. Com certeza um mapa da Capital Espanhola tornaria a vida do Guardião muito mais fácil, sobretudo porque há vários lugares para se visitar na estória.




Apesar desses pequenos problemas, que o narrador pode ajustar com algum trabalho, Soldiers of Pen and Paper tem muitos méritos. A estória consegue ser envolvente e misteriosa na medida certa e nas mãos de um bom narrador e de um grupo de jogadores interessados, ela deve render muito. A criatura central também é muito bem explorada e utilizada de uma maneira inovadora que a torna extremamente interessante.

Desenhada para ser um one-shot, ainda é possível fazer alguns ajustes e transformar o roteiro em uma mini-campanha se passando nos dias negros da Guerra Civil. Uma possibilidade é usar a estória como um prelúdio para o futuro livro que a Pellgrane planeja lançar, a respeito de Guerras e conflitos ao redor do mundo.

sábado, 21 de março de 2015

Pesadelo Ibérico - Falando da Guerra Civil que devastou a Espanha



Entre os anos de 1936 e 1939 cerca de 500,000 pessoas foram mortas no Conflito que ficou conhecido como a Guerra Civil Espanhola.

Talvez não tenha sido a guerra mais importante de um século marcado por horríveis e sangrentos confrontos, mas o conflito que dividiu o País Ibérico e custou tantas vidas, não pode ser considerado como uma "pequena guerra" restrita a uma única nação. A Guerra Civil que devastou a Espanha foi o primeiro conflito em larga escala, onde correntes políticas antagônicas, fascistas e comunistas, se enfrentaram no campo de batalha, não apenas no das idéias. Ela também serviu como uma espécie de laboratório para a Segunda Guerra Mundial, com atrocidades cometidas de ambos os lados, envolvimento direto da população civil e emprego de máquinas de guerra modernas com dramáticas consequências.

No início do século passado, a antiga influência do império espanhol, que havia governado meio-mundo nos séculos anteriores, perdera seu brilho. Suas vastas e ricas colônias na América haviam conquistado a liberdade e o envolvimento em uma fracassada Guerra contra os Estados Unidos (A Guerra Hispano-Americana de 1896) tinha custado suas últimas possessões em Cuba e no Pacífico. O país era atrasado economicamente, uma nação basicamente agrária com latifundiários governando os campos e uma indústria incapaz de competir com seus vizinhos que realizaram a Revolução Industrial.


O clima político era de total instabilidade, com pressões de vários setores populares para substituir a monarquia e instituir a República. Haviam radicais socialistas que planejavam atos públicos e agitadores anarquistas infiltrados nas cidades dispostos a reunir as massas e lutar. O medo de uma Revolução Comunista semelhante a que varrera a Rússia menos de uma década antes, crescia entre a população. Nessa época, a Espanha era regida pelo Rei Alfonso XIII em um regime de Monarquia Constitucional, um governo considerado ineficiente e corrupto.

Para piorar as coisas, em 1921 um contingente militar espanhol foi enviado aMarrocos, uma das últimas colônias africanas ainda sob o controle da Espanha. Sua missão era acabar com uma rebelião popular. A força expedicionária, apesar de melhor aparelhada e treinada, foi massacrada pelos rebeldes de tal forma que a humilhação sofrida fomentou um sentimento de revolta contra o governo. Dois anos depois, Alfonso XIII foi forçado a abdicar em favor do General Miguel Primo de Rivera favorecido pelas classes trabalhadoras e militares.

O golpe de Estado sem derramamento de sangue, permitiu a realização de algumas mudanças que visavam modernizar o país. A Guerra na Europa permitiu que a Espanha se recuperasse no cenário econômico explorando sobretudo as suas riquezas minerais. Mas as tensões entre as autoridades civis e militares se provaram insuportáveis. Muitos grupos ameaçavam dividir a Espanha: Revolucionários socialistas que haviam ganhado força entre o operariado, movimentos separatistas regionais - bascos e catalãos sobretudo, grupos anti-clericais, e anarquistas estavam por toda parte. 


Em 1931, o General Rivera deixou o poder apresentando problemas de saúde e um governo republicano foi promulgado tendo Manuel Azaña como líder. Mudanças foram realizadas no sentido de separar a Igreja do Estado, de reformar o exército e conceder algum poder a regiões que clamavam por autonomia como a Cataluña. Partidos políticos antes clandestinos, como os comunistas e socialistas foram legalizados, seguidos do Partido Fascista criado nos mesmos moldes que na Itália e Alemanha. A tensão continuava aumentando e incidentes violentos se tornaram frequentes: fascistas e comunistas se enfrentavam nas ruas, separatistas realizavam atentados à bomba enquanto greves (convocadas por anarquistas) paralisavam o país. O ressentimento contra a Igreja e seu poder político resultou na destruição de templos e no assassinato de clérigos. A situação saiu de controle quando um movimento comandado por mineiros da província de Astúrias tentou se separar do restante do país e foi esmagado por tropas da Legião Estrangeira que havia lutado no Marrocos. 

A Lei Marcial foi decretada e centenas de milhares foram presos sob acusação de conspiração política. Mas o caos continuava: milícias se formavam desafiando a lei, grupos de homens armados cuja devoção à causa que serviam beirava o fanatismo marchavam em público paramentados e frequentemente trocavam tiros nas ruas com seus oponentes. Finalmente, uma eleição de emergência foi conclamada em 1936 e a Frente Popular, uma coalizão de esquerda formada por socialistas e comunistas moderados assumiu o governo.

Imediatamente após a vitória nas urnas, o exército sob o comando do General Francisco Franco e Emilio Mola decidiu dar início a um golpe de estado contra o governo. Os insurgentes, chamados de Nacionalistas, congregando principalmente militares que haviam lutado no Norte da África, em pouco mais de três meses assumiram controle sobre um terço do país. Contudo mesmo com essa ação, os Nacionalistas não conseguiram tomar as grandes cidades que continuavam sob poder dos Republicanos, como passaram a chamar os governistas.


A Guerra Civil que tudo indicava seria rápida, começou a se arrastar. Por três longos e sangrentos anos o país mergulhou no Pesadelo Espanhol. As tropas mal aparelhadas de ambos os lados no início do conflito se voltaram para as nações estrangeiras esperando apoio. A Guerra Civil na Espanha havia deixado de ser um conflito entre espanhóis; tornara-se uma disputa filosófica que atraia os olhos do mundo.

Franco recebeu a abundante ajuda de Itália e Alemanha, cujos regimes fascistas eram bastante semelhantes ao seu projeto de governo. A Itália enviou 70.000 homens e equipamento, a Alemanha cedeu armamento, munições e consultores militares. A famosa Legião Condor, a base da futura Lufftwaffe, também foi enviada para obter experiência prática de combate para a próxima guerra que Hitler estava planejando. O governo Republicano voltou-se primeiro para a França, que na época era liderada pelo Premier Socialista Léon Blum, mas quando eles não ofereceram mais do que sua simpatia, foi a vez de negociar com a União Soviética. Os russos enviaram armas e munições para ajudar a República, mas ao mesmo tempo seguiam uma agenda própria que visava estabelecer um governo Comunista após a vitória.

A opinião pública na Inglaterra pendia para a República, embora o governo inglês desejasse claramente a vitória de Franco. Os britânicos supervisionaram a formação de um Comitê de não-Intervenção na Liga das Nações cujo propósito era não participar da Guerra Civil e ao mesmo tempo evitar que o conflito se espalhasse além das fronteiras para o restante da Europa. A Alemanha e a Itália concordaram em participar do Comitê, assinaram documentos, mas na prática continuaram a fornecer material de ajuda aos Republicanos. Os Estados Unidos oficialmente se mantiveram fora do conflito, embora empresas petrolíferas tenham lucrado muito, vendendo combustível para abastecer as tropas de Franco.


Nenhum escritor de ficção de horror poderia conceber uma imagem mais terrível do caos fanático e da brutal violência que tomou conta da Espanha naqueles dias.


Nas áreas controladas pela República, grupos socialistas tentaram implementar o embrião de uma revolução social. Na prática, contudo, facções de socialistas, comunistas, anarquistas, camponeses, separatistas e outros grupos brigavam uns com os outros tentando colocar seus modelos políticos acima dos demais. Alguns grupos se acusavam abertamente de trair o ideal da República ou de "não ser socialista o bastante". Donos de terras e pequenos comerciantes eram obrigados a repartir o que tinham e qualquer um que tentasse conservar seus bens podia ser taxado de inimigo, denunciado, preso, ou pior. Em cidades controladas por milícias, lojas e empresas foram saqueadas e aproveitadores usavam a revolução como pretexto para criar confusão. A Igreja Católica era acusada de compactuar com os Nacionalistas - o que muitas vezes era verdade, e por conseguinte inúmeros religiosos foram atacados e igrejas incendiadas. Padres foram fuzilados e freiras violentadas, o ódio era tamanho que os cadáveres dos religiosos eram pendurados nas torres das igrejas para apodrecer. O radicalismo chegava a tal ponto que execuções simbólicas de santos eram realizadas, um show bizarro em que estátuas eram fuziladas ou profanadas. Os comunistas russos tentaram impor algum controle, mas sua chegada introduziu na Espanha a típica paranoia de Stalin com uma crescente rede de denúncias e expurgos. Militares que perdiam uma batalha ou que retrocediam eram considerados ineptos e podiam ser destituídos sumariamente, isso quando não eram acusados de traição e fuzilados.

Nas regiões sob o controle dos Nacionalistas a situação não era muito melhor. As tropas de Franco iniciaram uma brutal contra-revolução. Tudo o que podia ser considerado como apologia ao socialismo era atacado, milhares eram presos, torturados ou simplesmente desapareciam na calada da noite. A Lei Marcial foi declarada e os oficiais do exército receberam carta branca para manter a ordem, o que na prática concedia o direito de eliminar suspeitos. Líderes locais governamentais e intelectuais eram rotineiramente executados. Os militares decidiram anistiar presos, muitos dos quais homens de índole violenta, para que se juntassem ao exército. Concederam treinamento e deram armas a criminosos cuja motivação única era matar os inimigos. As cadeias foram esvaziadas para abrir vagas aos presos políticos. Nas tropas nacionalistas, os mais temidos eram os membros da Legião Colonial, homens embrutecidos pelos anos servindo na colônia africana e acostumados a violência.

Entre os dois lados, milícias formadas por bandidos vagavam à esmo pela zona rural instituindo uma justiça própria que vitimava os pobres camponeses pegos entre dois fogos. Ladrões, desertores e facínoras cobravam proteção de vilarejos e ao seu modo faziam uma revolução particular. 


As atrocidades se tornaram lugar comum durante a Guerra Civil. Ódio e ressentimento se converteram em moeda de troca entre os lados opostos: se um lado fuzilava os prisioneiros, o outro reagia decapitando os seus. Se uma vila aliada era aniquilada por um lado, o outro imediatamente promovia um massacre ainda maior. A escalada de selvageria, encontrava eco nas aterrorizantes telas de Francisco Goya que um século antes havia retratado cenas igualmente trágicas durante a guerra entre França e Espanha.

Em uma demonstração de absoluto terror ensandecido, implementos de tortura usados pela Inquisição deixaram os museus para serem usados uma vez mais em um horrível renascimento de uma das piores épocas da história. O garrote, o ferro em brasa e outros instrumentos odiosos voltaram a ter uso nas mãos de carrascos e sádicos.  

Não demorou para que os Insurgentes de Franco se mostrassem mais preparados para a Guerra e começassem a vencer as principais batalhas. Além de contar com armas e equipamento superiores, os Nacionalistas tinham a seu favor uma quantidade maior de soldados profissionais, enquanto os Republicanos contavam com muitos voluntários cheios de vontade de lutar, mas com pouca experiência de combate.

Em novembro de 1936, as tropas Nacionalistas realizaram um assalto a capital, Madri. Largo Caballero, então primeiro-ministro da República, achou que a derrota era questão de tempo e providenciou a evacuação do governo para Valência. Ele deixou um leal, general chamado José Miaja, encarregado da defesa da cidade, provavelmente mais para supervisionar o processo de rendição. Para grande surpresa de todos, Miaja conseguiu coordenar os esforços de seu exército com a população civil e as forças voluntárias. Ele teria dito às suas tropas que havia apenas uma ordem: "resistir". E quando lhe perguntaram para onde as tropas deveriam se retirar se necessário, ele respondeu: "para o cemitério." 


Quando o ataque de Franco contra Madri começou em 8 de novembro Miaja e suas forças estavam prontas. Eles foram auxiliados por membros da recém-formada Brigada Internacional, voluntários de todo o mundo que acreditaram na causa anti-fascista: muitos destes veteranos da Grande Guerra foram fundamentais na batalha. A primeira investida contra Madri durou dez dias, sem pausa. Os insurgentes despejaram milhares de bombas sobre a cidade, que naturalmente não tinha abrigos e quase nenhuma arma anti-aérea. O combate corpo-a-corpo se alastrou pelos arredores da cidade, pelas ruas, pelas praças e prédios arruinados. 

Mas os republicanos mantiveram suas posições, e depois de 18 de novembro forçaram os insurgentes a desistir, concentrando suas atenções em outros cenários. Madrid tornou-se uma cidade sitiada, e permaneceria assim até o final da guerra, em 1939.

A luta se deslocou para o fronte ao norte, onde um dos massacres mais infames da Guerra Civil ocorreu em 1937. A Legião Condor, aparentemente com o intuito de realizar um teste de calibragem de bombas, devastou a pequena cidade indefesa de Guernica. Um total de 1600 civis foram mortos pela esquadrilha.

Em 1938, com o rumo da guerra já decidido e cada vez menos resistência por parte dos Republicanos, Franco formou um secretariado de transição que passou a ser considerado o governo legítimo. Naquela altura, Hitler já tinha tomado a Áustria e fazia seus primeiros movimentos na Tchecoslováquia atraindo a atenção do mundo. O impasse na Espanha foi se tornando uma preocupação cada vez menor para os líderes europeus. Com as fileiras de voluntários das Brigadas Internacionais se esvaziando, a República estava com seus dias contados. A fuga para a França e o exílio passou a ser a única meta de um contingente cada vez maior de soldados. 

Em fevereiro de 1939 a Grã-Bretanha e a França reconheceram o governo de Franco. A União Soviética, por muito tempo a maior aliada da República terminou por cortar relações com ela e suspender seu apoio quando Stalin e Hitler assinaram um acordo bilateral de não-agressão. Após algumas últimas batalhas, no final de março o comando republicano se rendeu, e Francisco Franco se tornou o governante incontestável da Espanha.

A Guerra Civil Espanhola foi o campo de provas para a maior parte do armamento e estratégia militar que seriam largamente usados na Guerra Mundial. Ela demonstrou a vantagem que o poderio aéreo representava e a capacidade destrutiva de armas modernas. Após a Guerra Civil, nações de todo o mundo iniciaram o processo de modernização de aeronaves para utilização militar: caças e bombardeiros se tornaram ferramentas chave para as ambições bélicas. Os Estados Unidos por exemplo, modernizou suas esquadrilhas após receber informações sobre a destruição de Guernica, bombardeada pela Legião Condor. A Grã-Bretanha começou a se preparar para um cenário semelhante desenvolvendo abrigos anti-bombas nas suas maiores cidades. 


O Conflito também demonstrou com amargor que a Europa não estava pronta para uma paz duradoura como almejava a geração que havia lutado na Grande Guerra (1914-1918). É provável que a Guerra em si não tivesse durado tanto tempo, e nem tivesse deixado um saldo tão elevado de vítimas, se não fosse a interferência estrangeira. O golpe de Franco teria possivelmente falhado, não fosse o auxílio dos aliados fascistas, e a República não teria resistido em Madri se não fossem as Brigadas Internacionais.

Por um lado, as potências ocidentais democráticas haviam apenas observado e permitido que um governo democraticamente eleito fosse esmagado por fascistas. Por outro lado, esse mesmo governo democraticamente eleito acabou por se tornar tão brutal e cruel quanto qualquer fascista poderia ser.

Era difícil saber para quem torcer nesse trágico conflito.

quarta-feira, 18 de março de 2015

La Piel de Toro - Livro de Call of Cthulhu explora a Espanha dos anos 1920

Meu conhecimento do idioma espanhol não é lá grandes coisas, mas ao menos é o suficiente para entender o básico de um texto com a providencial ajuda de um dicionário.

O que não deixa de ser uma boa, pois os espanhóis publicam material de RPG de primeira.

Uma dos livros mais legais que encontrei recentemente perambulando pela internet é um guia completo a respeito da Espanha em 1920. O livro intitulado "La Piel de Toro" (A Pele do Touro) é simplesmente sensacional dentro de sua proposta. Trata-se de um manual com tudo que se precisa saber à respeito da vida na Espanha dessa época com direito a história nacional, a importância do país no cenário mundial, os acontecimentos que levaram à sangrenta Guerra Civil e uma infinidade de detalhes e curiosidades sobre os costumes e práticas locais que facilitam (e muito) a tarefa de conduzir um cenário nesse ambiente riquíssimo.

Além disso, trata-se de um livro específico para Call of Cthulhu, portanto há uma profunda análise das principais lendas, das criaturas fantásticas que fazem parte do folclore ibérico e de seres mitológicos que habitariam essa região. Há uma boa quantidade de novos monstros e horrores, acompanhados, é claro, pelas entidades, cultos e aberrações aos quais já estamos acostumados. É uma ótima pedida para quem quer variar um pouco o local de suas avenuras, dando um merecido descanso para os EUA e Inglaterra, os dois países que tradicionalmente hospedam os horrores lovecraftianos.

Escrito por um respeitado autor espanhol chamado Ricard Ibañez, "La Piel de Toro" é dividido em sete grandes capítulos, cada um cobrindo um aspecto específico sobre a ambientação ou sobre a sociedade espanhola. Faz realmente muita diferença ter em mãos um trabalho assinado por um autor que nasceu e foi criado no país. Fica claro ao leitor que Ibañez sabe sobre o que está escrevendo e esse grau de conhecimento ajuda a afastar qualquer visão estereotipada ou preconceituosa que um autor estrangeiro poderia ter.


O livro começa com uma detalhada descrição da sociedade espanhola, focalizando nas velhas oligarquias que detém as riquezas e influência, passando para as classes trabalhadoras das grandes cidades e finalmente os camponeses. A diferença entre a vida nos grandes centros urbanos industrializados e o interior agrícola, recebe um grande destaque. Há várias ocupações que são devidamente adaptadas a realidade da Espanha da década de 20, enquanto outras como anarquista, cigano, camponês e Guarda Civil (uma das várias facetas da polícia local) são apresentadas em detalhes. Estas opções servem para conceder a ambientação um sabor diferente. Mesmo as ocupações tradicionais descritas no livro básico são adaptadas para se encaixar aos investigadores espanhóis.

Os movimentos intelectuais e as correntes ideológicas mais importantes, além da conturbada atmosfera política e religiosa são discutidas à seguir ajudando a compreender o panorama em um país prestes a ser varrido por uma das mais terríveis guerras do início do século XX. Ibañez consegue se aprofundar nesses temas sem tornar a leitura exaustiva, muito pelo contrário, sua narrativa ajuda a compor um panorama histórico para a ambientação com toneladas de fatos, biografias de figuras ilustres, eventos importantes e lugares essenciais. Numa boa, eu aprendi muito mais a respeito da história recente da Espanha lendo esse livro do que através de qualquer outro.

Mas Piel de Toro vai além e mergulha na moda, culinária, artes, recreação, música e cinema do país apresentando uma nação com duas facetas distintas: uma disposta a abraçar a modernidade e outra arraigada nas velhas tradições. A Espanha de Piel del Toro é um caldeirão borbulhante de disputas internas, onde os Mythos encontram espaço para florescer.

Uma vez que se trata de um livro de Call of Cthulhu, um capítulo inteiro é dedicado aos aspectos mais profundos da sanidade e loucura na Espanha. O que significa ser legalmente insano no país? Quais as implicações legais? Onde é possível buscar tratamento, quais as instituições e quais os tratamentos disponíveis?

Madri, Barcelona, Sevilha e San Sebastian são as quatro cidades que recebem um maior enfoque. Lendo esses capítulos, o Guardião encontrará recursos mais do que suficientes para lançar os jogadores nas ruas, distritos e praças dessas cidades. Uma sacada genial foi inserir entre as páginas notícias de jornal (verdadeiras e fabricadas) que ajudam a formar um compreensivo painel sobre a época, sem falar que permitem a criação de ótimos recursos.

O autor não esqueceu também de falar das colônias que estavam sob domínio do Império Espanhol em vias de se esfacelar. Digno de nota é o tópico à respeito da brutal guerra entre Espanha e Marrocos em que os militares espanhóis ganharam valiosa experiência em batalha massacrando rebeldes no Norte da África. Experiência essa que seria crucial no decorrer da Guerra Civil.

Não bastasse todo esse vasto material de referência, La Piel del Toro ainda tráz seis cenários prontos. A qualidade dos cenários varia, mas de um modo geral, fazendo algumas alterações na estrutura é possível integrá-los em uma mini-campanha, ainda que nem todos sejam dedicados ao Mythos. A última aventura especialmente, "La Penúltima Verdad" é uma excelente estória que leva os investigadores da Espanha até o Norte da África em uma narrativa cheia de reviravoltas e pistas.

Grande material!

La Piel de Toro é um excelente exemplo de como um manual de referência pode ser completo sem ser exaustivo. Uma boa pedida para aqueles que gostam da série "Secrets of" que a Chaosium editou por algum tempo. A Chaosium aliás, deu o seu aval a "La Piel", sendo que o prólogo é assinado pelo próprio Sandy Petersen (criador do sistema BRP) que calorosamente proclamou: "Cthulhu, por fin, había llegado a España".

Para aqueles que procuram novos ares ou desejam situar seu jogo em um local diferente, a Espanha dos anos 20 é um terreno fértil para horrores e afins. Uma vez que estou planejando conduzir um cenário que se passa nos dias negros da Guerra Civil Espanhola, esse livro será de suma importância.

Ah sim, em tempo:

Fiquei curioso à respeito do título incomum: "La Piel de Toro". Resolvi fazer uma pesquisa sobre as origens desse termo. Ao que parece, a expressão se refere ao formato do território da Espanha que se assemelha a silhueta de um touro. Não tenho tanta certeza, mas com a importância que os espanhóis dedicam a esses animais, nada mais justo que ele seja de alguma forma incorporado a um símbolo nacional.

domingo, 15 de março de 2015

O Triângulo dos Desaparecidos - O mais intrigante dos Mistérios da Irlanda





É muito mais fácil ser sensível em cidades do que em outros lugares, disso eu tenho certeza. Quando alguém anda por estradas cinzentas no fim da tarde, através de jardins com antigos arbustos entre as cabanas brancas, observando as montanhas ao longe ou com as nuvens pesadas sobre suas cabeças... é impossível se libertar de uma vasta teia de sensações enervantes. E a percepção de criaturas, goblins, vagando pelas praças escuras no portão Norte ou nas vielas ao Sul.” 

William Butler Yeats
Kidnappers

As mulheres eram todas jovens, e apesar dos esforços concentrados da polícia em encontrar pistas sobre seus desaparecimentos, não houve resultado. 

Oficialmente, foram oito mulheres - doze segundos algumas contagens, muitas mais de acordo com outros - que desapareceram entre 1993 e 1998. Recompensas, algumas de mais de 10 mil euros, foram oferecidas para qualquer um capaz de fornecer informações substanciais a respeito dos desaparecimentos, mas de nada adiantou. No fim das contas, a região onde os desaparecimentos ocorreram - todos eles ainda, inexplicáveis - ficou conhecida por um nome que reflete a aura perturbadora de mistério e estranheza que parece impregnar o ar.

O "Triângulo do Desaparecimento", assim a região ao leste de Dublin, na Irlanda ainda é chamada.

"Ela estava sempre próxima, tentando ajudar os outros", recorda John McCarrick,  pai de Annie MacCarrick, a primeira das garotas a desaparecer. "Ela jamais ficava um dia sem falar conosco pelo telefone. Nós ficamos muito preocupados quando as ligações pararam", Annie não retornou para a casa que alugava no centro de Dublin. Ela era uma estudante de intercâmbio, cuja família vivia em Nova York. A polícia foi chamada e investigou, mas o paradeiro de Annie jamais foi determinado. 

De acordo com testemunhas, Annie foi vista em um pequeno pub chamado Johnny Fox, nos arredores de Enniskerry, no Condado de Dublin. De acordo com seus amigos mais próximos, Annie não tinha namorado na época, mas aqueles que estavam no pub juram que ela estava na companhia de um homem misterioso... aquela seria a última vez que Annie seria vista.

No mesmo ano que Annie desapareceu sem deixar pistas, Eva Brennan, de 40 anos também sumiu enquanto voltava da casa dos seus pais a noite. Ela estava apressada e foi vista andando pela Tremond Street antes de sumir a poucas quadras de sua casa. Em janeiro, Imelda Keenan, a mais jovem das mulheres, com apenas 15 anos, sumiu perto de Lomarard Street. Ela voltava de uma visita a uma amiga e disse que iria direto para casa, pois estava cansada. Depois de Keenan, Josephine Dollard, de 21 anos desapareceu sob circunstâncias misteriosas em 1995, após ser vista andando pela estrada em Kilkenny. Algumas pessoas, a viram usando um telefone público, a ligação feita para uma colega de trabalho, foi interrompida bruscamente.

Continuando a série de mulheres que sumiram sem deixar rastro, duas vítima, ambas de 18 anos, Ciara Breen e Deirdre Jacob, desapareceram em 1998. O desaparecimento da Srta. Jacob, na época, uma estudante de psicologia, permanece como um dos casos mais enigmáticos do Triângulo dos Desaparecimentos, uma vez que várias testemunhas alegam ter visto a moça bem perto da casa onde ela morava, no final de semana em que ela sumiu. Câmeras de segurança instaladas pela polícia metropolitana documentaram sua passagem por várias ruas, até que em um determinado ponto, ela simplesmente desaparece e não é mais vista em nenhuma filmagem.
Temple Bar

"Vizinhos a viram quando ela estava a pouco mais de 50 metros do portão de sua casa", de acordo com a escritora Geraldine Niland, autora de um livro sobre o notório Triângulo dos Desaparecimentos. "Faltava muito pouco para ela chegar em casa, bastava contornar uma esquina e andar mais alguns metros. Mas nesse espaço, ela simplesmente some, e nenhum sinal dela pode ser percebido. Nenhum automóvel ou pessoa estranha que pudesse tê-la interceptado é vista. Nada! Em um momento ela estava lá, no momento seguinte, ela se foi".

O desaparecimento de Jacobs ocorreu em plena luz do dia. Num dia movimentado e ninguém percebeu nada.
As últimas duas mulheres, ambas chamadas Fiona, desapareceram em 1996 e 1998, a Sra. Fiona Pender, 25 anos, estava grávida de sete meses quando não retornou para sua casa, depois de sair por alguns instantes para visitar uma vizinha. "Ela estava animada, conversou um pouco e saiu, dizendo que ia telefonar mais tarde. Não sei o que aconteceu", contou a vizinha.
Fiona Sinnot, de 19 anos, foi vista em um pub que costumava frequentar, ela estava sozinha e parecia agir normalmente. A atendente do bar, Lydia Godard, lembra dela chegar e fazer um pedido, quando retornou com a bebida, Fiona não estava mais lá. "O saleiro na mesa estava caído e nenhum sinal de Fiona", contou a garçonete. Ninguém lembra dela ter saído e o sistema de câmera do bar, instalado naquele mesmo final de semana sobre a porta, não registrou em momento algum a mulher deixando o estabelecimento. O único outro acesso, nos fundos, passa através da cozinha e estava trancado. Para todos os efeitos, Fionna Sinnot não deixou o bar, mesmo assim, ninguém mais a viu.

Inúmeras teorias surgiram relacionando os desaparecimentos. A mais popular envolve a presença de um assassino em série que perseguiria suas vítimas e seria discreto o bastante para sequestrar as mulheres sem chamar a atenção. Mas como esse assassino poderia agir sem ser visto? Como poderia ludibriar as mulheres e fazer com que elas o seguissem? Como poderia escapar do monitoramento constante de câmeras?
A teoria sobre um assassino em série, capaz de se livrar dos corpos de suas vítimas soa estranha, quando lembramos que a área do Triângulo, é bastante movimentada e vigiada por patrulhas, há comércio, escolas e trânsito diariamente. Por muito tempo, policiais à paisana circularam pelas ruas parando e interrogando suspeitos. Eles nunca conseguiram capturar algum suspeito.

Em 1996, uma dupla de policiais tentou interrogar um homem que havia abordado uma mulher. Eles chamaram por ele, mas antes que pudessem se aproximar, o sujeito correu em fuga desabalada pelas ruas. Ele foi perseguido por dois quarteirões, mas simplesmente desapareceu em um beco. A polícia tentou fazer um retrato falado do homem, mas as testemunhas - mesmo a moça que falou com o suspeito, não conseguiu lembrar de sua fisionomia, e o desenho final ficou muito diferente da representação obtida pela descrição dos guardas. Mesmo assim, cartazes foram espalhados advertindo as mulheres do perigo de circular sozinha pelas ruas daquela área de Dublin. 
Casas noturnas e pubs começaram a esvaziar, o medo e a desconfiança se instalaram. Em 1997, um homem chamado Brian Talmos, foi capturado - e quase linchado, por populares. Ele estava conversando com uma moça, bem perto de onde Eva Brennan morava. A polícia interrogou Talmos, e concluiu que ele não poderia ser o responsável pelos desaparecimentos, já que até 1996 estava vivendo em Londres.
Tão misteriosamente quanto começaram, os desaparecimentos no Triângulo de Dublin, que se estende por quase doze quilômetros, cessaram. Os dois desaparecimentos de 1998 foram os derradeiros e encerraram os cinco anos de medo. Embora tenham havido muitos boatos, oficialmente, nenhuma outra mulher desapareceu sem deixar vestígios na área.
Para alguns, o assassino em série teria simplesmente morrido ou deixado a região em busca de um ambiente mais propício para sua caçada. Os corpos de suas vítimas teriam sido abandonados em algum lugar ignorado e lá aguardariam sua inevitável descoberta. Em 2006, restos humanos foram achados em um porão nos limites do Triângulo. A notícia atraiu a atenção de todos, sobretudo das famílias das mulheres desaparecidas. Infelizmente, as ossadas - três delas, eram muito mais antigas, datando do início do século XX. Seriam os restos deixados por algum outro criminoso desconhecido? Ninguém foi capaz de dizer. 
A Irlanda tem uma longa história a respeito de desaparecimentos misteriosos, alguns destes tão estranhos que desafiam nossa concepção de normalidade.  
O célebre poeta e escritor irlandês William Butler Yeats (não apenas um vencedor do prêmio Nobel de Literatura, mas um membro ativo da mítica Ordem ocultista Golden Dawn), documentou no ano de 1893 uma série de fabulosos sequestros de mulheres atribuídos por ele a "fadas" (em gaélico, fey ou faeries) e outros "povos míticos" (fey people) do passado. De acordo com essas lendas, criaturas de fábulas, à saber, fadas, goblins e duendes, raptavam mulheres e as carregavam para seu reino subterrâneo, onde elas eram submetidas a escravidão. As lendas, é claro, mencionavam que essas criaturas da floresta viviam em regiões isoladas e com densa vegetação silvestre, contudo, já naquela época, Yeats defendia que o homem em sua inabalável sede de progresso havia invadido as fronteiras do reino das fadas (fey wild) e que uma altercação com elas, seria provável.
"Segundo as lendas, algumas vezes, aqueles que são levados pelas fadas, podem retornar após um determinado tempo - sete anos na maioria das narrativas, para um breve vislumbre de suas famílias e amigos". conta Nathalie Gruman, especialista em folclore gaélico da Universidade de Dublin. A srta. Gruman, no entanto, não crê na presença de fadas: "É preciso diferenciar as lendas da realidade. As "fadas" das lendas originais eram usadas como explicação mais plausível para acontecimentos inexplicáveis ocorridos no dia a dia. Era mais fácil atribuir a falha de uma colheita ou um incêndio inexplicável a maldição de fadas".
Apesar disso, em 2007, os pais de Ciara Breen afirmaram ter visto a filha, ou alguém muito parecida com ela, numa região próxima ao local onde ela desaparecera anos antes. Eles não foram capazes de falar com a filha, que estava sentada em um banco numa parada de ônibus. No momento em que estacionaram o carro e correram para o lugar, ela havia sumido, mas os dois juram ter visto Ciara, ainda que brevemente.
As lendas sobre essas "fadas" sequestrando pessoas, são uma parte importante do folclore da Irlanda. A lenda sobre os Changeling - bebês trocados por duendes que assumem a forma humana, talvez sejam as mais famosas.
Yeats relacionou diversas narrativas de crianças e mulheres que desapareciam misteriosamente no século XIX no livro Celtic Twilight, "Não há um povoado na Irlanda, localizado em um vale ou na encosta de uma montanha, onde não se conte ao menos uma estória de desaparecimento inexplicável", escreveu ele.
A mitologia presente na prosa de Yeats talvez não deva ser levada à sério como uma explicação para os misteriosos desaparecimentos em Dublin, mas que outra explicação poderia ajudar a compreender o sumiço dessas mulheres? 
Por vezes, a ausência de uma explicação razoável desperta as memórias de tempos antigos em que os homens eram incapazes de compreender  mundo que os cercava. Um tempo em que buscávamos no mundo sobrenatural a explicação para os nossos temores e frustrações.
O mistério do Triângulo do Desaparecimento de Dublin permanece desafiando nossas convicções e a força de uma comunidade que ainda tenta explicar o que aconteceu com oito mulheres inocentes. Hoje, existe um monumento próximo ao Castelo de Kilkenny em homenagem às mulheres que desapareceram nas ruas da capital da Irlanda, na placa de bronze se lê os seguintes dizeres:
"Em honra às Filhas de Dublin, estejam onde estiverem, sua memória permanece conosco".