quinta-feira, 23 de outubro de 2014

As Bestas Aladas de Hastur - A Anatomia dos Byakhee


"Foi então que ouvimos o som de asas. Um som diferente de tudo o que já tínhamos ouvido e que poderíamos considerar normal. Não era o rumor de uma revoada de pássaros, mas o bater vigoroso de um único par de asas. Grandes e coreáceas. Logo soubemos que nada no planeta fazia aquele som".

Vários Antigos possuem uma associação com raças de criaturas. Estas espécies, diversas demais para serem satisfatoriamente catalogadas agem como cultistas, como escravos ou ainda como serviçais. Há raças independentes que enfrentam o poder dos deuses (ou de entidades poderosas) e não se sujeitam a eles. Algumas dessas raças terminam sendo aniquiladas pelo poder esmagador das divindades do Mythos. Incapazes de fazer frente a eles acabam obliteradas, lançadas no esquecimento.

Por outro lado, há aquelas raças que escolhem por conta própria se converter em servos fiéis dos horrores do Mythos. Assim acontece com as criaturas das profundezas oceânicas, os Abissais, que estão intimamente vinculados a Cthulhu. As criaturas negras conhecidas como Proles Amorfas por sua vez devotam sua existência maldita ao Deus Sapo Tsathoggua, e apenas a ele devem obediência perpétua. Outro exemplo seriam os Vampiros de Fogo que dançam ao redor de Cthugha, a Chama Primordial, cumprindo sua vontades e desejos. 

Mas entre as raças servis, os Byakhee, talvez sejam aqueles que possuem o elo mais inquebrantável.

Servos de Hastur, a Entropia Viva e de seus avatares, sobretudo o Rei Amarelo, os Byakhees são tão vinculados a essa entidade que em suas aparições, é quase impossível não haver ao menos alguns deles presentes. Quando invocado em seus templos, Hastur é escoltado por hostes inteiras de byakhees que voam como uma falange frenética, rodopiando ao redor de seu mestre. Nas ocasiões em que o Rei Amarelo é chamado para assumir sua posição régia no trono, por vezes byakhees são igualmente convocados, postando-se ao lado do trono como dignatários, exercendo a função de defender seu amo. Mesmo quando agindo solitariamente, os byakhee estão de alguma forma associados a Hastur, seja descendo dos céus para proteger um templo da presença de profanadores ou para capturar sacrifícios como parte de algum ritual.

Muitos sectos devotados a Hastur consideram que os Byakhee são uma ferramenta que o deus empresta aos seus cultistas para fazer sua vontade ser cumprida. Um secto herético, surgido na Palestina no início da cristandade, consideravam os byakhee como o equivalente a anjos, que serviam ao designo de um Deus único. Essa associação dos byakhees com figura angelicais, não é exclusiva, na Rússia Imperial, um culto fundado em São Petersburgo (do qual segundo boatos o próprio monge louco Rasputin, fez parte) tratava essas criaturas como mensageiros divinos. 

O conceito, no entanto, não é compartilhado por todas as seitas dentro do círculo de adoradores de Hastur. Para muitas seitas, os byakhees não passam de servos, abaixo da posição dos sacerdotes e cultistas líderes. Na África Ocidental, um culto dedicado a Hastur, praticava um ritual específico no qual um byakhee, especialmente invocado, era sacrificado. De sua pele era confeccionado um manto, de suas asas uma capa, de seus dentes colares e de seus ossos, apitos usados para chamar outras criaturas. Os alto sacerdotes desse culto, ativo até meados do século XVIII, no atual Camarões, usavam essa indumentária com grande distinção. Os malignos Tcho-Tcho que veneram Hastur e habitam o Planalto de Tsang, no Nepal, também consideram os Byakhee com meras bestas; úteis em seus planos, mas não obstante, inferiores.

De fato, uma das principais funções dos Byakhee, ao longo das eras, foi servir de montaria para poderosos feiticeiros e magos. Dizem as lendas que Eibon, o feiticeiro da Hiperbórea cavalgava nas costas de um Byakhee que obedecia as suas ordens. O árabe louco, Abdul Al Hazred, também citava essa função, e possivelmente foi ele quem cunhou o termo "montaria estelar" para se referir aos byakhee. No Necronomicon ele diz textualmente que os byakhee são a montaria consagrada dos grandes feiticeiros e que cavalgar um deles é a prova cabal de que o bruxo atingiu sua maturidade mística. É possível que seja em face dessa associação do byakhee como montaria, que algumas ordens herméticas utilizam o título cavaleiro - para citar uma, os Cavaleiros do Crepúsculo Prateado (Knights of Silver Twilight).

Mas aqueles que pensam nos byakhee como meras bestas de carga, se enganam ao assumir que eles possuem inteligência inferior. Um byakhee pode ser tão inteligente quanto um ser humano, sendo capaz de entender idiomas, de formar uma linha de raciocínio e de realizar tarefas complexas que denotam poder cognitivo. Não é raro que eles também possuam conhecimento arcano, e que dominem a arte da feitiçaria.

Como ocorre muito frequentemente no universo enigmático do Mythos, não existe um consenso sobre a origem dos Byakhee. Há um consenso entretanto que seja uma raça interestelar, sendo que a maioria dos teóricos assumem que eles venham de Aldebaran. Uma corrente defende que os byakhee foram um dia a raça dominante de um planeta assimilado pelo Rei Amarelo e invadido por Carcosa, um acontecimento que resultou na loucura de toda espécie. Outros acreditam que a raça como um todo, firmou um pacto com Hastur que levou à destruição de seu planeta natal. Essa destruição os transformou em uma raça sem um lar, o que os forçou a adotar Carcosa e o espaço interestelar como sua casa. Há indícios de que os byakhee também estão presentes em outros mundos, em especial aqueles que giram ao redor de estrelas negras ou que são sujeitos a esmagadora atividade gravitacional.


Os byakhee são conhecidos por sua capacidade de se deslocar através do espaço. Eles são imunes ao frio e ao vácuo espacial e podem viajar naturalmente sem serem afetados por qualquer condição adversa. O que os torna tão resilientes a essas condições, normalmente insustentáveis para qualquer forma de vida, é um mistério completo. Essas criaturas são dotadas de um órgão, até onde se sabe, exclusivo da sua espécie, chamado hune. Ativando esse apêndice, localizado em seu abdômen, os byakhee conseguem afetar a realidade, dobrando as distâncias interestelares tão velozmente que para o observador eles parecem se teleportar de um ponto para o outro. A velocidade dessa viagem é tão alucinante, que supera a velocidade da própria luz, permitindo ao Byakhee singrar distâncias incríveis em meros segundos. Sabe-se de feiticeiros, que usaram esse método de viagem interestelar para chegar rapidamente em pontos normalmente inacessíveis do cosmos, tais como Celaeno, Aldebaran, Formalhaut e até o Trono de Azathoth que dizem, se localiza no centro do Universo. É claro, para empreender uma viagem dessa natureza, o feiticeiro precisa realizar preparativos e consumir ao menos uma dose do hidromel espacial (space mead). Apenas usando essa substância entorpecedora, o feiticeiro pode acompanhar o byakhee em sua jornada em segurança. Aqueles que não sabem desse detalhe, experimentam uma ruína completa, tendo seus átomos dispersos no espaço assim que o hune é acionado.

Metafísicos já tentaram explorar os mistérios da maneira única dos byakhee se deslocarem pelo espaço, mas até onde se sabe, ninguém teve sucesso em explicar o funcionamento do hune. Em 1965, no auge da corrida espacial, cientistas ligados ao Delta Green conjecturaram que os byakhee poderiam representar uma solução para a exploração espacial, excluindo de uma vez por todas qualquer limitador quanto a distância e velocidade. Há rumores de que engenheiros e cientistas tenham dissecado mais de um byakhee tentando compreender o funcionamento do hune ao longo dos anos 1970, mas isso pode ser mero boato. Extra oficialmente, o Delta Green colocou um fim ao projeto, com a eliminação de todos os cientistas envolvidos, inclusive alguns que tinham no passado associação com a Wunderwaffen nazista. Do outro lado da cortina de ferro, acredita-se ter existido um projeto análogo financiado pelos soviéticos na década de 1950. Mais recentemente, os chineses teriam tentado a mesma abordagem. O status atual desses projetos é desconhecido. 

Para invocar um byakhee, o feiticeiro deve proferir uma série de palavras cabalísticas e invocar o nome do próprio Hastur. Uma combinação de palavras usada pela Irmandade do Símbolo Amarelo envolve a seguinte invocação:

"Iä! Iä! Hastur! Hastur cf'ayak 'vulgtmm, vulgtmm, vulgtmm! Ai! Ai! Hastur!"

Se Aldebaran estiver acima do horizonte e se o feiticeiro utilizar um apito, especialmente um feito com o osso do fêmur de outro byakhee, as chances de sucesso são consideravelmente maiores. Nessas circunstâncias positivas, a criatura surge direto do espaço, com o corpo semicongelado pelo frio do vácuo através do qual viajou. Por vezes, um Símbolo Ancestral deve ser usado para fazer com que o byakhee se sujeite a acatar ordens. Mas que sirva de aviso que nem sempre, isso funciona! Muitos feiticeiros que acreditavam ser capazes de controlar um byakhee, acabaram retalhados pela criatura que eles próprios conjuraram.

A aparência física dos Byakhee é difícil de ser descrita. Muitos cronistas tentaram descrevê-los, mas nenhum foi bem sucedido em encontrar os adjetivos que melhor os definem. Na ânsia de tentar dizer o que eles são, as testemunhas buscam compará-los a animais com os quais eles guardam mínima semelhança. Na Grécia, os Byakhee foram comparados às míticas hárpias, e talvez como já sugeriu mais de um estudioso, eles sejam a base para a lenda desses e de outros seres alados como o grifo e a manticora. Certos tomos afirmam que nenhum Byakhee é igual a outro, podendo ter características únicas que diferenciam enormemente membros da mesma raça, ao ponto de por vezes ser difícil encará-las como parentes.

O Necronomicon se refere ao Byakhee como sendo uma quimera monstruosa com características que remetem a aves, répteis, mamíferos e até insetos. Há espécimes com bicos, chifres e escamas, coexistindo com pelos, olhos multifacetados e antenas. O mais provável é que as características análogas a animais de nosso planeta seja um mero acidente, pois os Byakhee são inegavelmente alienígenas. Quanto a coloração, os Byakhee são normalmente pálidos, predominando o branco, o bege e o marrom claro, mas sabe-se de criaturas com escamas amareladas, azuladas e até esverdeadas.  Não é impossível achar um Byakhee totalmente negro, capaz de se mesclar com a escuridão como uma sombra. A pele é no mínimo três vezes mais densa do que a dos seres humanos.

Uma característica está presente em todos espécimes: as poderosas asas que os impulsionam em seu voo. Todo Byakhee possui ao menos um par de asas, em geral semelhante às de morcego, em suas costas. Essas asas são vigorosas e podem bater com enorme rapidez permitindo a criatura se lançar no ar e imediatamente ganhar altura. A envergadura do Byakhee varia a cada espécime, os maiores, podendo facilmente atingir 6 metros de comprimento. Nunca se registrou a velocidade do vöo da criatura em nossa atmosfera, mas há motivos para crer que espécimes maiores poderiam se deslocar a mais de 200 quilômetros por hora.

O Byakhee geralmente possui membros superiores que lembram braços, com mãos, essas dotadas de cinco dedos terminando em garras curvadas como foices. As mesmas garras estão presentes nos pés, sendo principalmente usadas para escavar e agarrar, mas também para atacar seus inimigos. O ferimento causado por essas garras resulta num corte profundo e possivelmente letal. Com sua inteligência, os Byakhee parecem conhecer o suficiente da anatomia de outros seres para visar áreas delicadas como a garganta de alvos humanos.

Além de ter uma visão bem desenvolvida, os Byakhee possuem um faro apurado que lhes permite diferenciar o odor particular de cada pessoa. Quando enviados por feiticeiros em missões de assassinato, um Byakhee geralmente é suprido com alguma peça de roupa ou com sangue extraído de sua vítima para que assim possa encontrá-la e exterminá-la. Há relatos de Byakhees viajando vários quilômetros para cumprir suas missões depois de serem invocados. As criaturas são incapazes de se comunicar em qualquer idioma humano, mas elas parecem compreender ordens e instruções, especialmente quando seu interlocutor se vale de idiomas antigos, bem como línguas mortas.

Outra peculiaridade dessas criaturas é seu gosto por sangue. Um byakhee aparentemente não precisa se alimentar, mas o prazer que eles sentem drenando sangue fresco de uma presa recém abatida pode ser descrito como inebriante. Há casos de Byakhees que capturam suas presas e as carregam para lugares isolados onde cortam alguma veia e as penduram de cabeça para baixo, a fim de facilitar a extração do precioso líquido. Outros sugam diretamente do corpo de suas presas, usando para isso línguas longas e tubulares que agem como cânulas. Um byakhee é capaz de drenar litros de sangue em poucos minutos, deixando uma presa do tamanho de um humano adulto exangue. Não se sabe quais ao as outras fontes de nutrição dessas criaturas, se é que estas existem na prática.

Há controvérsia no que diz respeito a uma separação por gênero nessas criaturas. Se existe tal distinção, não é possível discernir características típicas de machos e fêmeas. Não se sabe virtualmente nada a respeito da reprodução da espécie, jamais tendo sido encontrados filhotes ou evidência de acasalamento.

Por fim, é preciso admitir que embora os Byakhee sejam conhecidos por feiticeiros e círculos de praticantes de magia há milênios, na prática, pouco se sabe a respeito de sua natureza.

E é provável que jamais venhamos a conhecer todos os mistérios dessa obscura raça alienígena.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

2,000,000 de visitas - Obrigado a todos (em especial a Brown Jenkin)


Vou contar um segredo que nunca revelei aqui no Blog: Brown Jenkin, a medonha criatura meio homem e meio rato, descrita no conto "Os Sonhos na Casa da Bruxa" (The Dreams in the Witch House) esta sempre vigiando o que eu escrevo.

Tenho certeza que ele está fazendo isso agora, espreitando de alguma fresta, lendo o que estou escrevendo no computador. Eu posso ouvi-lo caminhando atrás das paredes, espionando com seus pequenos olhos de rato o cursor se movendo e formando as palavras... tenho certeza que ele é muito crítico e sempre temo que, se não gostar de algo que escrevi, vai me atacar com seus dentes afiados. 

O leitor deve estar se perguntando o que Brown Jenkin tem a ver com esse artigo (ou se está na hora de eu buscar ajuda profissional). 

Vamos colocar da seguinte forma: Brown Jenkin é ao menos em parte responsável pela criação do MUNDO TENTACULAR.

Simples assim!

Voltemos a 2008, quando eu escrevia um Blog que tratava de temas mais genéricos. Ele falava do que convencionamos chamar de cultura pop: literatura, desenhos, quadrinhos, filmes, RPG, games, e uma série de outras coisas... o nome não importa. Era um blog pequeno que já não existe faz tempo e que nunca me empolgou. No "auge" contava com cinco seguidores que junto com alguns anônimos, foram responsáveis por talvez algumas centenas de visualizações no espaço de vários meses. Não era grande coisa, e francamente, o visual era de doer.

A cada semana eu cogitava se aquela não seria a postagem derradeira e se valia a pena escrever algo que provavelmente ninguém iria ler ou se importar. Achei melhor encerrar a existência do tal blog, mas antes, decidi que iria escrever sobre um tema que sempre me interessou e que eu sempre deixava para a semana seguinte: a Literatura Fantástica de H.P. Lovecraft.

Eu sempre gostei de Lovecraft, de seus contos e é claro, do RPG inspirado neles. Mas nunca tinha escrito à respeito. Num final de semana chuvoso, sentei na frente do computador e comecei a escrever. O tal artigo ficou extenso, e por isso, resolvi publicar em três partes. Seria meio que um "The End" do blog e cheguei a redigir a despedida que concluiria sua existência quando a última parte fosse ao ar.

Na semana seguinte, para minha surpresa, o blog estava com oito membros e um número maior de visitas. Fiquei animado e postei a segunda parte. O fenômeno se repetiu e apareceram mais dois seguidores e (pasmem!) comentários pedindo a continuação da matéria.

Um dos comentários dizia algo mais ou menos assim:
"Olá! Eu li com muita atenção os artigos a respeito de H.P. Lovecraft. É uma pena que um dos grandes autores de horror não seja muito conhecido aqui no Brasil, mas se esses artigos o apresentaram a novos leitores, então você deveria se orgulhar. Adoraria se existisse um Blog em português  sobre o tema, quem sabe você poderia escrever um pouco mais sobre os Mythos de Cthulhu em futuros artigos. O que acha?"
O comentário era assinado por "Brown Jenkin" e concluía da seguinte maneria:

"Faça isso, ou vou roer seu coração".


Conhecendo o personagem, e sabendo que "roer corações" é exatamente o que ele faz no conto, a ameaça soava ao mesmo tempo divertida e preocupante.

Na semana seguinte, publiquei a parte final e depois a despedida do Blog. Como era de se imaginar ninguém se manifestou positiva ou negativamente a respeito do fechamento do Blog - ninguém, a não ser "Brown Jenkin" que escreveu nos comentários:
"Quer dizer que não vai ter mais nenhum artigo sobre Lovecraft, Cthulhu e os Mythos?"
A pergunta ficou sem resposta por vários meses. Durante esse período eu fiquei com aquela ideia na cabeça; criar um Blog dedicado ao horror cósmico de Lovecraft e de seus colegas do Círculo lovecraftiano, que falaria de filmes, quadrinhos, séries e dos RPGs por eles inspirado. Falaria também de coisas estranhas, de mistérios insolúveis, enigmas do desconhecido e de coisas bizarras que parecem extraídas desses mesmos contos assustadores. Com isso sempre haveria assunto porque, nada é mais estranho do que o mundo em que vivemos.

A grande questão era saber se um blog assim atrairia o interesse de leitores. Quantas pessoas teriam vontade de ler sobre essas coisas e voltar na semana seguinte em busca demais? 

Quase desisti diante dessa questão. Mas aí pensei no Brown Jenkin e na sua promessa de "roer meu coração"... (melhor não arriscar!)

O Blog nasceu oficialmente em junho de 2009 e recebeu o nome MUNDO TENTACULAR.

De lá para cá, se passaram cinco anos e meio, e hoje após a postagem de 908 artigos, comemoramos uma expressiva marca que eu nunca cogitei um dia alcançar: 2.000.000 de visitas e mais de 400 seguidores registrados.

O que posso dizer é um sincero MUITO OBRIGADO a todos os nossos leitores recorrentes e ocasionais. Obrigado por virem aqui diariamente, semanalmente, vez ou outra ou apenas agora. É um privilégio, recebê-los como leitores e leitoras que reservam um pouco de seu tempo livre para explorar, comentar, debater, criticar ou elogiar nossos artigos.

Quanto ao Brown Jenkin, eu só tenho a agradecer pelo impulso inicial para a criação do Blog e por nunca ter cumprido sua ameaça, sinal de que ele está satisfeito - pelo menos, tão satisfeito quanto pode ficar um roedor com cara de gente.

O Mundo Tentacular continuará até o dia em que os poderes dos Mythos resolverem despertar, e então... bem, esperamos que eles sejam benevolentes com quem sempre se esforçou para falar bem deles. 

Até as estrelas se alinharem, fiquem conosco, e aproveitem para perder um pouco de sua preciosa sanidade.

Iä! Iä! Cthulhu Fhtagn! Iä! Iä!


Brown Jenkin, nosso incentivador  

sábado, 18 de outubro de 2014

Pântano de Sangue - Quando mil soldados japoneses foram massacrados por crocodilos


Nos anais das guerras, inúmeras atrocidades foram cometidas por seres humanos contra seus semelhantes. O teatro de Guerra do Pacífico Sul durante a Segunda Guerra Mundial foi especialmente brutal, com múltiplos massacres e selvageria como raramente visto na história. Ainda assim, um dos momentos mais sangrentos e assustadores não foi promovido por mãos humanas, mas pelas presas e garras do mundo animal. Nos últimos meses do conflito, um pelotão com mais de mil soldados japoneses, que estava em uma remota ilha, entrou em um pântano infestado por crocodilos e jamais retornou; um desaparecimento que pode ser considerado como a maior carnificina causada por animais na história humana.
Por seis semanas, durante janeiro e fevereiro de 1945, o pântano infestado de crocodilos da Ilha de Ramree, localizada na Baia de Bangala na costa de Burma, foi o palco de uma sangrenta batalha entre japoneses e as Forças Aliadas. A Batalha de Ramree foi parte vital da campanha de Burma e foi iniciada com o objetivo de desalojar as Forças Imperiais Japonesas que haviam se instalado na ilha em 1942. Em 26 de janeiro de 1945, a Marinha Real Britânica acompanhada da 36a. Brigada de Infantaria indiana empurrou os inimigos da costa para o interior da ilha, tencionando estabelecer ali uma pista de pouso e decolagem. Não foi fácil expulsar os japoneses, eles haviam se preparado para resistir espalhando minas, ninhos de metralhadora e arame farpado que tornavam uma tarefa complicada avançar poucos centímetros pelo terreno irregular. 

Após uma longa e sangrenta batalha, as tropas aliadas conseguiram ganhar um trunfo, flanqueando a fortaleza japonesa e expulsando seus ocupantes, aproximadamente 1000 soldados, com disparos de morteiro e artilharia. Os soldados japoneses em fuga abandonaram a base e constituíram uma linha de defesa na esperança de que um batalhão maior pudesse se reagrupar e ajudá-los. Essa ajuda nunca veio. Os britânicos conseguiram cercar todos os lados, e não sobrou outra alternativa aos japoneses senão continuar retrocedendo para o interior pantanoso de Ramree. As tropas penetraram cerca de 16 quilômetros através de um terreno lamacento e com atoleiros, repleto de mosquitos e outros insetos peçonhentos. Ignorando a promessa dos britânicos de que os prisioneiros seriam bem tratados, os oficiais mandaram fuzilar aqueles que cogitaram a rendição. Foi nesse ponto que teve início o terrível martírio das tropas.

Supõe-se que os oficiais nipônicos acreditavam que cruzando o pântano conseguiriam atingir uma área mais elevada, mas a jornada era por demais árdua. Os soldados logo se viram atrasados pela lama densa e pegajosa que detinha seu progresso. Dezenas sucumbiam a doenças tropicais e pelo ataque de cobras, aranhas e escorpiões que se escondiam nos arbustos. O calor era sufocante. Ao longo de vários dias, a fome e a sede se tornaram incômodas companheiras de viagem. Os homens caíam pelos cantos e não tinham forças para levantar. Quando eles descansavam um pouco, eram bombardeados por navios na costa e pelas tropas britânicas que haviam desembarcado grandes canhões posicionados nos limites do pântano.
Japanese forces retreating.
Forças japonesas em retirada.
Mas o pior ainda estava por vir. Uma noite, tropas britânicas que estavam patrulhando a periferia do pântano ouviram o som de disparos e os gritos de pânico dos soldados japoneses. Logo ficou evidente que alguma coisa estava acontecendo no coração do pântano e que os soldados pareciam estar enfrentando uma força maligna que os estava fazendo em pedaços. Os britânicos receberam ordens para ficar de prontidão e não adentrar o pântano. Os soldados de guarda ouviram os gritos a madrugada inteira e só podiam imaginar o que estava acontecendo. 

Os japoneses sabiam que a Ilha de Ramree era infestada por ferozes crocodilos de água salgada, uma espécie de réptil extremamente agressivo e que pode atingir até seis metros de comprimento e pesar quase uma tonelada. Quando os exaustos soldados entraram cambaleando no pântano, foi como se uma sineta avisasse aos crocodilos que o jantar estava servido. As roupas sujas de sangue dos feridos atiçaram os animais que vieram às centenas para atacar. Os soldados foram cruel e impiedosamente massacrados pelas bestas, e os sobreviventes contaram como os agressivos animais se lançavam às centenas contra os homens, arrastando-os em suas bocas para dentro da água onde os dilaceravam. Os soldados tentavam atirar para todo lado, mas os animais não se intimidavam com seus esforços de resistir. Alguns subiram em árvores e outros tentaram correr, mas quando um crocodilo fixava seus olhos em uma vítima avançava como uma máquina implacável de matar. Os relatos mencionam como os animais apareciam do nada, atacavam e arrastavam suas vítimas para as águas turvas que logo se tornavam vermelhas. Os homens se reuniam em grupos, uns de costas para os outros para vigiar, mas de nada adiantava. 

O naturalista Bruce Stanley Wright descreveu o cenário em seu livro "Wildlife Sketches Near and Far" de 1962:
Aquela noite foi horrível para as tropas que estavam posicionadas na borda do pântano e ouviram tudo. Alguns homens tiveram de ser dispensados da patrulha por não suportar os gritos que vinham lá de dentro. Os crocodilos atraídos pelo som da batalha e pelo cheiro de sangue convergiram aos milhares para o interior da ilha usando os mananciais rasos para se esconder e atacar de surpresa. O ataque do crocodilo de água salgada é rápido e certeiro, o animal se move com precisão, saindo da água apenas o suficiente para alcançar seu alvo e mordê-lo com presas afiadas capazes de triturar ossos como se fossem gravetos. Os crocodilos se concentraram nos feridos e naqueles muito extenuados ou aterrorizados para correr. O crocodilo de água salgada tem uma particularidade tenebrosa: ele continua atacando mesmo que tenha obtido carne suficiente para se fartar. Ele costuma afundar suas vítimas na água em tocas alagadas onde acumulam um estoque de carne. Os soldados que conseguiram correr foram perseguidos na escuridão, tendo que fugir através da lama que impedia sua retirada. Mesmo os que conseguiram subir em árvores não estavam à salvo. Os crocodilos aguardavam pacientemente até que a fome os obrigasse a descer e muitos preferiram acabar com o horror colocando uma bala na cabeça. O som dos disparos e gritos foram se tornando mais raros a medida que os homens morriam, mas por vezes era possível ouvir o som das mandíbulas se fechando e os urros de dor. O som de milhares de crocodilos massacrando mil homens é algo raramente ouvido na Terra e não deve ser algo agradável. Quando amanheceu, urubus e abutres sobrevoavam o pântano, ansiosos para limpar aquilo que os crocodilos haviam deixado. Dos cerca de 1000 soldados japoneses que entraram no pântano de Ramree, apenas 20 foram encontrados com vida.
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Alguns dos sobreviventes que conseguiram sair do pântano e se entregaram aos britânicos, estavam em estado de choque, feridos ou cobertos com o sangue de seus companheiros. Nunca se soube o número exato de soldados que encontraram seu fim no pântano, mas a despeito da confirmação do número exato, o Guiness Book of Records coroou essa tragédia como "O maior número de vítimas humanas num mesmo ataque de animais". 

O pavoroso incidente na Ilha de Ramree ganhou uma aura quase lendária entre os veteranos da Guerra no Pacífico, ao lado do relato similar do naufrágio do USS Indianápolis que custou a vida de centenas de marinheiros, vítimas do ataque furioso de tubarões. 

Hoje, a Ilha de Ramree continua muito semelhante como era em 1945. Um lugar selvagem e inóspito, cuja quietude costuma ser enganosa. Os crocodilos de água salgada continuam vivendo nesse pântano, e talvez, os fantasmas dos soldados feitos em pedaços ainda vaguem sem destino através de seus charcos lamacentos.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Cor do Horror - O Mito do Rei Amarelo, avatar de Hastur


"A coisa, eles sussurravam, vestia uma máscara de seda amarela que ocultava uma face que não era desse mundo..."

O Rei Amarelo, também chamado de "Máscara Pálida", "Peregrino Amarelo" e o "Rei em Farrapos" é sem dúvida o mais conhecido avatar de Hastur.

O Rei Amarelo é tão importante para o Mythos, que teóricos chegaram a cogitar a possibilidade de que essa manifestação do Grande Antigo fosse uma divindade à parte. No entanto, como base para compreender a real natureza do Rei Amarelo, é justo dar crédito ao seu séquito e compreendê-lo como um avatar da Entidade Cósmica conhecida como Hastur.

Curiosamente, o Rei Amarelo não é citado em tomos ou livros sagrados dedicados a Hastur, nem mesmo no evangelho canônico conhecido como "Verdades do Impronunciável". Sua própria existência parece ter sido apenas recentemente descoberta pela humanidade. O livro contendo a peça teatral que carrega seu nome - o legendário "Rei Amarelo", essencial para torná-lo conhecido entre os sectários só ganhou notoriedade nos últimos séculos. É possível que as rígidas leis que condenam o uso do nome sagrado de Hastur, tenham favorecido o surgimento de uma seita particular que venera uma figura mais acessível, no caso não apenas humanoide em aparência, mas que aceita ser nomeada e tratada com um título - Rei.

Pesquisadores determinaram que os primeiros escritos que mencionam o Rei Amarelo tiveram origem na Europa da Idade das Trevas, na China Dinástica e na Índia. Em comum o fato do Rei Amarelo ser tratado como uma figura de autoridade, que exige reverência e devoção dos seus servos. Estes "tremem, se lamentam e cortejam seu favor". O nauseante livro de capa amarelada com o brasão do Rei, circulou pela França apenas no final do século XIX, editado em 1895, mas é possível que outras obras muito mais antigas se refiram ao avatar em tempos fulgidos. 


Nesse sentido, acadêmicos ligados a Irmandade do Símbolo Amarelo suscitaram a hipótese de que alguns trechos do Tao Te-Sen e do Popol Vuh, livros sagrados na China e entre o povo asteca, se referem em algumas porções ao Rei Amarelo. Eles vão ainda mais longe, afirmando que a Bíblia Cristã e o Bhagavad Gita possuem obscuros livros apócrifos cuidadosamente censurados que citariam textualmente o Rei Amarelo. Se isso é verdade, então a existência do Rei já era conhecida na antiguidade e apenas foi redescoberta pelos cultistas contemporâneos.

Há outra controvérsia central no culto que diz respeito ao conceito divino do Rei Amarelo: se ele é uma entidade física concreta ou um conceito abstrato.

Os cultistas se dividem a respeito dessa questão e parece não haver um consenso majoritário; de fato diferentes sectos consideram crenças divergentes como blasfemas e passíveis de punição. Os Irmãos do Símbolo Amarelo acreditam que o Rei é uma entidade física passível de ser invocada em certos rituais. O Rei Amarelo oficiaria e daria legitimidade a ritos essenciais para a existência do culto - os cultistas clamam por ele para reconhecer seus sacerdotes, para compartilhar conhecimento e para que ele receba sacrifícios. Outros sectos, acreditam que o Rei é um símbolo, um conceito de soberania sobre a humanidade, representando uma faceta "humana" de Hastur. A seita fundada no subcontinente indiano, "Os Silenciosos" defende que o Rei Amarelo é uma entidade espiritual - insubstancial e invisível.  

Os Templos dedicados ao Rei Amarelo sempre possuem um assento majestoso disposto em uma posição elevada de destaque, sobre um promontório ou no topo de um lance de escadas. Mencionado como o Trono do Rei Amarelo, essa cadeira simboliza a presença do Rei, mesmo nas ocasiões em que o avatar não é invocado, como se apesar de não estar presente, sua presença fosse presumida. Diante do trono, os cultistas repetem louvores, dançam, evoluem em círculo e praticam sacrifícios. Por vezes, o assento é adornado com crânios humanos, jóias valiosas e farrapos de cor amarela estendidos como bandeiras tremeluzentes sobre ele. Estandartes com o maligno Símbolo Amarelo, o brasão real, que acompanha o Rei sempre estão presentes. Braseiros exalando fumaça amarelada, candeeiros e artefatos costumam ser dispostos próximo ao trono, representando os portentos compartilhados pelo Rei com seus súditos.

Para um templo ser consagrado, os cultistas realizam um ritual de grande importância que visa torná-lo parte de Carcosa.

A mítica cidade de Carcosa tem origem alienígena, localizada em um planeta obscuro que orbita a estrela de Aldebaran. Ela é descrita como uma metrópole com prédios altos e escuros, construções abobadadas em vários estilos arquitetônicos e sombras que parecem espreitar. Aqueles que visitaram esse lugar maldito, afirmam que a paisagem urbana tende a mudar quando não se está prestando atenção. Descrita como uma cidade fantasma destituída de população, ainda assim é possível ouvir sons nas ruas desertas. Aqueles que vagam por Carcosa experimentam visões alucinantes de beleza e horror sem igual.

A cidade fica às margens do Lago de Hali, com suas águas oleosas e plácidas refletindo as constelações das Hyades e Pleiades. Além do lago fica o Palácio de Ythill, onde segundo o mito, o avatar de Hastur fundou o seu reinado. A estória é contada em detalhes na peça "O Rei Amarelo".

Quando um templo é consagrado como parte de Carcosa, o Rei Amarelo pode se manifestar em nossa realidade, ainda que por curtos períodos de tempo. Essas ocasiões são marcadas por surtos criativos de artistas, por instabilidade social e por loucura que parece contaminar as pessoas que vivem nas cercanias. Indivíduos especialmente sensíveis são contemplados (ou amaldiçoados) por sonhos onde se vêem andando pelas ruas de Carcosa. Outros passam a conhecer os segredos nocivos do Símbolo Amarelo e o desenham em muros e fachadas de prédios, desencadeando a loucura que ele representa. Violência gratuita e surtos de suicídio se tornam recorrentes nos locais em que o Rei exerce sua influência nefasta.

O Rei Amarelo, quando invocado surge como uma figura muito alta, com mais de dois metros de altura. Ele traja um manto pesado e puído de coloração amarelada que recobre todo o seu corpo, inclusive a face, oculta por um capuz e as mãos escondidas por mangas esfarrapadas. Aqueles que conseguem enxergar o que está sob o capuz, vêem uma máscara de cor pálida com uma enigmática expressão humana. Quando o Rei se move ele parece flutuar no ar, não produz nenhum ruído audível nem som de passos ou rastro. Ele também não possui sombra. Ao seu redor rescende um perfume adocicado e enjoativo, que lembra o odor de frutas estragadas deixadas no sol.

O Rei é capaz de falar, conhecendo todo e qualquer idioma usado pela humanidade através das eras. Suas palavras são ouvidas diretamente na mente, causando uma sensação indescritível de insignificância diante de uma força cósmica. Algumas pessoas sentem um êxtase ou temor incontrolável quando ouvem o Rei. Não é raro que alguns desmaiem, caiam de joelhos, chorem copiosamente ou sofram ataques epiléticos. A voz do Rei é descrita como o sussurro de milhares de pessoas falando ao mesmo tempo. Ele jamais se dirige a uma pessoa olhando em sua direção, seus movimentos são furtivos, jamais óbvios. Aqueles que tentam falar com ele são sumariamente ignorados. Os que demonstram coragem para se aproximar e são tolos o bastante para tentar tocá-lo são duramente rechaçados pelas abas do manto que agem como extensões de seu corpo. Qualquer um que insista no erro recebe o lendário olhar do Rei, que ocasiona uma onda de incontrolável pânico e terror primitivo.


Nas ocasiões em que é invocado, o Rei Amarelo costuma assumir posição em seu Trono - na maioria das vezes ele surge diretamente no assento real se este estiver presente. Durante os rituais ele permanece indiferente a presença de seus cultistas e alheio a qualquer apelo. Se agraciado com algum sacrifício - não necessariamente de sangue, talvez de energia mística ou com um artefato, o Rei Amarelo oferece aos cultistas seu favor. Uma onda de sensações e emoções, muitas absolutamente inumanas, acomete aqueles que estão próximos, atingidos por uma confluência de estímulos arrebatadores. Muitos não suportam a experiência e simplesmente se desligam da realidade, às vezes para sempre. Outros se vêem perturbados para sempre, agraciados por visões e propensos a surtos. Há aqueles que ambicionam repetir a experiência e mergulham na eterna servitude. Após conceder sua benção, o Rei Amarelo simplesmente desaparece.

Quando insatisfeito, o Rei se mostra especialmente impiedoso e propenso a atos de crueldade. Muito se fala sobre a Dança do Rei Amarelo, uma espécie de transe hipnótico desencadeado por movimentos rítmicos executados pelo Deus. Aqueles afetados por essa visão sentem seus músculos paralisados e são incapazes de se mover. Os farrapos do manto então ganham vontade própria e se estendem como tentáculos com pontas afiadas como navalhas que rasgam e laceram as vítimas imobilizadas. A morte é lenta e dolorosa, ainda que marcada por um grave silêncio interrompido ocasionalmente pelo som de chibatas e cortes.

O aspecto mais misterioso sobre o Rei Amarelo talvez seja a verdadeira natureza do que se oculta sob seu manto. Aqueles que foram contemplados com a face do Rei sem a máscara, enlouqueceram por completo e jamais foram capazes de dizer o que há ali embaixo. Os mais simplistas cogitam que o manto esconde uma infinidade de filamentos e pseudópodes que uma vez liberados se espalham como raízes de coloração pálida agarrando e drenando o vigor de tudo que vive.


Outros afirmam que encarar a verdadeira face do Rei Amarelo é ficar frente a frente com o princípio original da entropia cósmica, a mesma força que um dia irá devastar toda a realidade no inevitável colapso do universo.

sábado, 11 de outubro de 2014

Hastur, o Impronunciável - O Mito daquele que não deve ser nomeado

Hastur é classificado pelos estudiosos do Mythos de Cthulhu como um dos mais poderosos Grandes Antigos

Assim como os outras divindades ancestrais, Hastur é suscetível ao poder cósmico que o mantém aprisionado no coração de uma estrela negra próxima ao Sistema de Aldebaran, na constelação de Touro. Há controvérsia a respeito de sua origem. Alguns o consideram uma entidade cósmica, gerada através de um dos movimentos cíclicos de Azathoth no centro do Universo. Para outros a origem de Hastur poderia ser traçada até alguma realidade paralela ou dimensão pouco conhecida, da qual ele escapou ou foi ejetado incontáveis milênios atrás.

Hastur se relaciona a várias simbologias e lugares, nomes como Carcosa, o críptico Símbolo Amarelo, o Lago de Hali, e o Rei Amarelo são repetidos exaustivamente dentro de sua mitologia e fazem parte de um bem definido conjunto de ethos e princípios dogmáticos. De todas as entidades do Mythos, Hastur talvez seja o que mais se aproxime de constituir uma religião organizada. O Deus está ligado a princípios como niilismo, decadência e estagnação.

No passado, ele foi venerado por humanos na Samaria, Attluma e Hyboria. Seus cultistas se reuniam para ouvir as palavras de sacerdotes que professavam uma espécie de evangelho conhecido como "Verdades do Impronunciável". Ironicamente, Hastur atendia também pelo nome de Kaiwan, o deus patrono dos pastores, peregrinos e viajantes que era considerado benigno. O culto existiu na Atlântida Antediluviana e chegou até a Hyperborea, embora não tenha conseguido penetrar nesses lugares e garantir um grande número de adeptos. 


Muitos povos consideravam o culto de Hastur particularmente abominável, mesmo quando comparado ao de outros Antigos. Seus rituais mais importantes envolviam complexos sacrifícios humanos utilizados para contatar ou mesmo invocar o deus fisicamente a um de seus templos. Decapitações, desmembramento e a castração estavam entre os ritos praticados pelos sacerdotes.

Os seguidores costumam se reunir para os ritos mais importantes quando Aldebaran está nos céus (entre Outubro até Janeiro, desaparecendo por vezes em fevereiro). Os templos de Hastur, possuem uma configuração semelhante, em geral são a céu aberto e contam com nove monólitos de pedra cortados em forma de V e entalhados com runas ligadas a princípios celestiais. Os monólitos são dispostos em arco e quando um ritual é realizado diante deles, normalmente acende-se uma grande fogueira, onde os cultistas queimam incenso. Fogo, fumaça e luz parecem desempenhar um importante papel nas celebrações. O uso de poeiras alquímicas faz com que esses elementos assumam uma coloração amarela doentia vital para a identidade simbológica do culto. A música também é essencial: cítaras, címbalos, flautas e até trombetas fazem parte dos ritos. No passado artistas eram trazidos para o seio do culto, bem como dançarinos, derviches e acrobatas.

Na Mesopotâmia e na Babilônia, o culto de Hastur (conhecido como Xastur) se enraizou tornando-se popular entre a nobreza decadente até ser expurgado. Os Fenícios também cortejaram Hastur sob o nome Assatur, Deus dos viajantes, mas seus seguidores foram perseguidos e banidos. Dentre as raças não humanas, os Tcho-Tchos e o povo de K'n-yan são os principais seguidores da entidade. Eles o veneram como o Peregrino Branco e a Máscara Amarela, respectivamente.

No que diz respeito a humanidade, o culto de Hastur perdeu considerável espaço para outras divindades como Cthulhu, Nyarlathotep e Shub-Niggurath ao longo das eras. De fato, após a Idade Antiga, o culto de Hastur mergulhou em frequentes períodos de estagnação chegando quase a desaparecer por completo.


Mas de alguma forma, o Olho de Hastur por vezes se volta para  terra e ganha foco, sua influência então multiplica-se em seguidores. O maior e mais importante culto dedicado a ele é a Irmandade do Símbolo Amarelo que congrega cultistas em várias regiões do planeta: China, Tibet, Afeganistão e India são os maiores centros de adoração, mas sabe-se da existência de grupos dedicados agindo na Rússia, no Sudeste Asiático, no México e no Peru. Por algum tempo, a França também foi uma sede importante, sobretudo devido a proliferação do tomo "The King on Yellow" (O Rei Amarelo) editado naquela nação.

Em adição aos cultos humanos, Hastur é servido por raças alienígenas, em especial a espécie interestelar conhecida como Byakhee. Essas monstruosidades aladas servem fielmente ao Deus, mas não são eles próprios cultistas ou devotos. Estudiosos supõem que os byakhees são servos de Hastur, talvez escravos condicionados a servidão por algum pacto firmado.

Alguns entendem que outro Grande Antigo, Itaqua também é um servo de Hastur. As relações de Hastur e de seus seguidores diante de outras raças é tumultuada, para dizer o mínimo. Os Mi-Go possuem uma longa e tempestuosa relação com cultistas de Hastur, sendo atacados de tempos em tempos, torturados e coagidos. O mesmo ocorre com membros e agentes da Grande Raça de Yith, muitas vezes capturados para revelar seus segredos. Os Habitantes da Areia, uma raça não humana, também seguiu os preceitos de Hastur em algum momento de sua existência, mas aparentemente esta devoção foi abandonada. Há um vínculo existente entre Hastur e Shub-Niggurath. Alguns tomos afirmam textualmente que essas duas entidades em algum momento cruzaram gerando a terrível semente dos Milhares de Jovens, as crias que servem a Cabra Negra. Cthulhu por sua vez possui uma relação conturbada com Hastur, nas ocasiões em que seus servos se encontraram várias vezes o resultado foram lutas e destruição. Essa relação conflituosa se transferiu também para disputas entre os cultos de Hastur e Cthulhu que se enfrentaram em várias ocasiões. É possível até que o Culto de Hastur jamais tenha se estabelecido na África por resistência das várias facções de Cthulhu nesse continente.


O nome de Hastur é considerado sagrado e constitui um tabu repeti-lo em voz alta. Nos tempos antigos, indivíduos incautos foram assassinados simplesmente por proferir o nome, criando o mito de que o próprio Deus era invocado e eliminava aquele que o fazia. Entre muitos seguidores existe a crença de que proferir o nome de Hastur pode atrair a fúria do Deus ou até causar a ruína daquele que incorre nessa transgressão. No secto indiano, conhecido como "Os Silenciosos" os seguidores tem a língua ou as cordas vocais removidas logo depois de clamar uma única vez por Hastur como se implorassem uma sua benção. No culto estabelecido no Afeganistão, aqueles que mencionam o nome de Hastur são vítimas de assassinos cuja função é purificar o mundo daqueles que proferiram o nome sagrado. Em virtude desse tabu, Hastur atende pelos epítetos de "O Impronunciável" e "Aquele que não deve ser nomeado".

Existem, no entanto, certos rituais, sobretudo de invocação, em que o nome blasfemo de Hastur é clamado em voz alta para abençoar, amaldiçoar ou ativar magias especialmente poderosas. Esses ritos são executados raramente e apenas os cultistas no topo da hierarquia ousam fazê-lo. 

Vigora uma grande confusão a respeito da aparência física de Hastur.

Nas ocasiões em que ele é invocado materialmente, manifesta-se como uma enorme massa de carne amarelada e pustulenta, destituída de ossos ou uma estrutura corpórea fixa. Essa massa é maleável, assumindo diferentes aspectos que logo em seguida se desmancham como se fossem feitos de argila ou lama. O ser amorfo tem mais de 100 metros de comprimento e gera um brilho próprio de coloração amarelada fosforescente. Hastur costuma gerar membros e apêndices, mais ou menos humanoides que se formam e desfazem conforme sua necessidade premente. Em alguns casos, Hastur também pode criar uma cabeça dotada de inúmeros olhos, bocas e ouvidos, usados para sondar seus arredores.


Mas nem sempre essa é a forma escolhida por Hastur. Ele também pode assumir a forma de um imenso monstro reptiliano bípede, com mais de trinta metros de altura. Essa abominação de cor verde-amarelada possui uma cabeça oculta por centenas de tentáculos serpenteantes. A entidade costuma assumir essa forma quando planeja destruir ou punir alguma transgressão grave. Nessa forma, ele é frequentemente tomado por uma fúria assassina que resulta em grande devastação.
Há também ocasiões em que Hastur assume a forma de um imenso olho amarelo (o Olho de Hastur) que surge em meio a uma nuvem multi-cromática. Essa forma de Hastur tende a surgir quando a divindade recebe sacrifícios ou quando Aldebaran está em seu ápice.

Além dessas formas específicas, Hastur possui uma dezena de avatares sendo inegavelmente o mais conhecido o Rei Amarelo - sobre o qual falaremos depois. Para alguns teóricos do Mythos, o Rei Amarelo é tão importante que muitos o tem como uma forma diversa de Hastur, quase uma divindade à parte.        

De acordo com algumas fontes, Hastur não seria uma entidade consciente e sim uma força de entropia pura, um princípio cósmico que se contrapõe à ordem e a normalidade e que se alia a destruição cósmica pura e simplesmente. Essa "Destruição da Ordem" se manifestaria em todos os níveis do sub-atômico até o cósmico, com uma influência se estendendo a todos os níveis da realidade. O Deus representaria a completa anátema à criação, seria uma força caótica contrária ao princípio germinador cósmico. Ele é a destruição inominável, aquela que devasta as coisas de dentro para fora, agindo de modo sutil, como um câncer dedicado apenas a corroer a matéria constitutiva da criação. Em sua presença nada poderia existir, perante suas trevas abissais, tudo seria deterioração e corrupção sem retorno. 


Se essa noção é verdadeira, Hastur teria poder sobre os próprios princípios constitutivos do universo, o que o alçaria ao posto de uma das entidades mais poderosas do cosmos. Nesse contexto, ele poderia ser um Deus Exterior com poder equivalente a Nyarlathotep ou mesmo Azathoth. Aliás, uma corrente de pensamento teoriza que Hastur poderia ser um avatar do próprio Azathoth, assumindo de alguma maneira uma forma senciente. 

Contudo, não são todos os tomos que defendem essa visão extremamente aterrorizante.

Para todos os efeitos, Hastur é uma entidade imprevisível cuja potência e amplitude não podem ser sequer contextualizadas pelas frágeis mentes humanas. Não obstante, há aqueles que rastejam diante dele buscando seus favores e que se sujeitam a ele, encontrando somente a obliteração.

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