sábado, 18 de outubro de 2014

Pântano de Sangue - Quando mil soldados japoneses foram massacrados por crocodilos


Nos anais das guerras, inúmeras atrocidades foram cometidas por seres humanos contra seus semelhantes. O teatro de Guerra do Pacífico Sul durante a Segunda Guerra Mundial foi especialmente brutal, com múltiplos massacres e selvageria como raramente visto na história. Ainda assim, um dos momentos mais sangrentos e assustadores não foi promovido por mãos humanas, mas pelas presas e garras do mundo animal. Nos últimos meses do conflito, um pelotão com mais de mil soldados japoneses, que estava em uma remota ilha, entrou em um pântano infestado por crocodilos e jamais retornou; um desaparecimento que pode ser considerado como a maior carnificina causada por animais na história humana.
Por seis semanas, durante janeiro e fevereiro de 1945, o pântano infestado de crocodilos da Ilha de Ramree, localizada na Baia de Bangala na costa de Burma, foi o palco de uma sangrenta batalha entre japoneses e as Forças Aliadas. A Batalha de Ramree foi parte vital da campanha de Burma e foi iniciada com o objetivo de desalojar as Forças Imperiais Japonesas que haviam se instalado na ilha em 1942. Em 26 de janeiro de 1945, a Marinha Real Britânica acompanhada da 36a. Brigada de Infantaria indiana empurrou os inimigos da costa para o interior da ilha, tencionando estabelecer ali uma pista de pouso e decolagem. Não foi fácil expulsar os japoneses, eles haviam se preparado para resistir espalhando minas, ninhos de metralhadora e arame farpado que tornavam uma tarefa complicada avançar poucos centímetros pelo terreno irregular. 

Após uma longa e sangrenta batalha, as tropas aliadas conseguiram ganhar um trunfo, flanqueando a fortaleza japonesa e expulsando seus ocupantes, aproximadamente 1000 soldados, com disparos de morteiro e artilharia. Os soldados japoneses em fuga abandonaram a base e constituíram uma linha de defesa na esperança de que um batalhão maior pudesse se reagrupar e ajudá-los. Essa ajuda nunca veio. Os britânicos conseguiram cercar todos os lados, e não sobrou outra alternativa aos japoneses senão continuar retrocedendo para o interior pantanoso de Ramree. As tropas penetraram cerca de 16 quilômetros através de um terreno lamacento e com atoleiros, repleto de mosquitos e outros insetos peçonhentos. Ignorando a promessa dos britânicos de que os prisioneiros seriam bem tratados, os oficiais mandaram fuzilar aqueles que cogitaram a rendição. Foi nesse ponto que teve início o terrível martírio das tropas.

Supõe-se que os oficiais nipônicos acreditavam que cruzando o pântano conseguiriam atingir uma área mais elevada, mas a jornada era por demais árdua. Os soldados logo se viram atrasados pela lama densa e pegajosa que detinha seu progresso. Dezenas sucumbiam a doenças tropicais e pelo ataque de cobras, aranhas e escorpiões que se escondiam nos arbustos. O calor era sufocante. Ao longo de vários dias, a fome e a sede se tornaram incômodas companheiras de viagem. Os homens caíam pelos cantos e não tinham forças para levantar. Quando eles descansavam um pouco, eram bombardeados por navios na costa e pelas tropas britânicas que haviam desembarcado grandes canhões posicionados nos limites do pântano.
Japanese forces retreating.
Forças japonesas em retirada.
Mas o pior ainda estava por vir. Uma noite, tropas britânicas que estavam patrulhando a periferia do pântano ouviram o som de disparos e os gritos de pânico dos soldados japoneses. Logo ficou evidente que alguma coisa estava acontecendo no coração do pântano e que os soldados pareciam estar enfrentando uma força maligna que os estava fazendo em pedaços. Os britânicos receberam ordens para ficar de prontidão e não adentrar o pântano. Os soldados de guarda ouviram os gritos a madrugada inteira e só podiam imaginar o que estava acontecendo. 

Os japoneses sabiam que a Ilha de Ramree era infestada por ferozes crocodilos de água salgada, uma espécie de réptil extremamente agressivo e que pode atingir até seis metros de comprimento e pesar quase uma tonelada. Quando os exaustos soldados entraram cambaleando no pântano, foi como se uma sineta avisasse aos crocodilos que o jantar estava servido. As roupas sujas de sangue dos feridos atiçaram os animais que vieram às centenas para atacar. Os soldados foram cruel e impiedosamente massacrados pelas bestas, e os sobreviventes contaram como os agressivos animais se lançavam às centenas contra os homens, arrastando-os em suas bocas para dentro da água onde os dilaceravam. Os soldados tentavam atirar para todo lado, mas os animais não se intimidavam com seus esforços de resistir. Alguns subiram em árvores e outros tentaram correr, mas quando um crocodilo fixava seus olhos em uma vítima avançava como uma máquina implacável de matar. Os relatos mencionam como os animais apareciam do nada, atacavam e arrastavam suas vítimas para as águas turvas que logo se tornavam vermelhas. Os homens se reuniam em grupos, uns de costas para os outros para vigiar, mas de nada adiantava. 

O naturalista Bruce Stanley Wright descreveu o cenário em seu livro "Wildlife Sketches Near and Far" de 1962:
Aquela noite foi horrível para as tropas que estavam posicionadas na borda do pântano e ouviram tudo. Alguns homens tiveram de ser dispensados da patrulha por não suportar os gritos que vinham lá de dentro. Os crocodilos atraídos pelo som da batalha e pelo cheiro de sangue convergiram aos milhares para o interior da ilha usando os mananciais rasos para se esconder e atacar de surpresa. O ataque do crocodilo de água salgada é rápido e certeiro, o animal se move com precisão, saindo da água apenas o suficiente para alcançar seu alvo e mordê-lo com presas afiadas capazes de triturar ossos como se fossem gravetos. Os crocodilos se concentraram nos feridos e naqueles muito extenuados ou aterrorizados para correr. O crocodilo de água salgada tem uma particularidade tenebrosa: ele continua atacando mesmo que tenha obtido carne suficiente para se fartar. Ele costuma afundar suas vítimas na água em tocas alagadas onde acumulam um estoque de carne. Os soldados que conseguiram correr foram perseguidos na escuridão, tendo que fugir através da lama que impedia sua retirada. Mesmo os que conseguiram subir em árvores não estavam à salvo. Os crocodilos aguardavam pacientemente até que a fome os obrigasse a descer e muitos preferiram acabar com o horror colocando uma bala na cabeça. O som dos disparos e gritos foram se tornando mais raros a medida que os homens morriam, mas por vezes era possível ouvir o som das mandíbulas se fechando e os urros de dor. O som de milhares de crocodilos massacrando mil homens é algo raramente ouvido na Terra e não deve ser algo agradável. Quando amanheceu, urubus e abutres sobrevoavam o pântano, ansiosos para limpar aquilo que os crocodilos haviam deixado. Dos cerca de 1000 soldados japoneses que entraram no pântano de Ramree, apenas 20 foram encontrados com vida.
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Alguns dos sobreviventes que conseguiram sair do pântano e se entregaram aos britânicos, estavam em estado de choque, feridos ou cobertos com o sangue de seus companheiros. Nunca se soube o número exato de soldados que encontraram seu fim no pântano, mas a despeito da confirmação do número exato, o Guiness Book of Records coroou essa tragédia como "O maior número de vítimas humanas num mesmo ataque de animais". 

O pavoroso incidente na Ilha de Ramree ganhou uma aura quase lendária entre os veteranos da Guerra no Pacífico, ao lado do relato similar do naufrágio do USS Indianápolis que custou a vida de centenas de marinheiros, vítimas do ataque furioso de tubarões. 

Hoje, a Ilha de Ramree continua muito semelhante como era em 1945. Um lugar selvagem e inóspito, cuja quietude costuma ser enganosa. Os crocodilos de água salgada continuam vivendo nesse pântano, e talvez, os fantasmas dos soldados feitos em pedaços ainda vaguem sem destino através de seus charcos lamacentos.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Cor do Horror - O Mito do Rei Amarelo, avatar de Hastur


"A coisa, eles sussurravam, vestia uma máscara de seda amarela que ocultava uma face que não era desse mundo..."

O Rei Amarelo, também chamado de "Máscara Pálida", "Peregrino Amarelo" e o "Rei em Farrapos" é sem dúvida o mais conhecido avatar de Hastur.

O Rei Amarelo é tão importante para o Mythos, que teóricos chegaram a cogitar a possibilidade de que essa manifestação do Grande Antigo fosse uma divindade à parte. No entanto, como base para compreender a real natureza do Rei Amarelo, é justo dar crédito ao seu séquito e compreendê-lo como um avatar da Entidade Cósmica conhecida como Hastur.

Curiosamente, o Rei Amarelo não é citado em tomos ou livros sagrados dedicados a Hastur, nem mesmo no evangelho canônico conhecido como "Verdades do Impronunciável". Sua própria existência parece ter sido apenas recentemente descoberta pela humanidade. O livro contendo a peça teatral que carrega seu nome - o legendário "Rei Amarelo", essencial para torná-lo conhecido entre os sectários só ganhou notoriedade nos últimos séculos. É possível que as rígidas leis que condenam o uso do nome sagrado de Hastur, tenham favorecido o surgimento de uma seita particular que venera uma figura mais acessível, no caso não apenas humanoide em aparência, mas que aceita ser nomeada e tratada com um título - Rei.

Pesquisadores determinaram que os primeiros escritos que mencionam o Rei Amarelo tiveram origem na Europa da Idade das Trevas, na China Dinástica e na Índia. Em comum o fato do Rei Amarelo ser tratado como uma figura de autoridade, que exige reverência e devoção dos seus servos. Estes "tremem, se lamentam e cortejam seu favor". O nauseante livro de capa amarelada com o brasão do Rei, circulou pela França apenas no final do século XIX, editado em 1895, mas é possível que outras obras muito mais antigas se refiram ao avatar em tempos fulgidos. 


Nesse sentido, acadêmicos ligados a Irmandade do Símbolo Amarelo suscitaram a hipótese de que alguns trechos do Tao Te-Sen e do Popol Vuh, livros sagrados na China e entre o povo asteca, se referem em algumas porções ao Rei Amarelo. Eles vão ainda mais longe, afirmando que a Bíblia Cristã e o Bhagavad Gita possuem obscuros livros apócrifos cuidadosamente censurados que citariam textualmente o Rei Amarelo. Se isso é verdade, então a existência do Rei já era conhecida na antiguidade e apenas foi redescoberta pelos cultistas contemporâneos.

Há outra controvérsia central no culto que diz respeito ao conceito divino do Rei Amarelo: se ele é uma entidade física concreta ou um conceito abstrato.

Os cultistas se dividem a respeito dessa questão e parece não haver um consenso majoritário; de fato diferentes sectos consideram crenças divergentes como blasfemas e passíveis de punição. Os Irmãos do Símbolo Amarelo acreditam que o Rei é uma entidade física passível de ser invocada em certos rituais. O Rei Amarelo oficiaria e daria legitimidade a ritos essenciais para a existência do culto - os cultistas clamam por ele para reconhecer seus sacerdotes, para compartilhar conhecimento e para que ele receba sacrifícios. Outros sectos, acreditam que o Rei é um símbolo, um conceito de soberania sobre a humanidade, representando uma faceta "humana" de Hastur. A seita fundada no subcontinente indiano, "Os Silenciosos" defende que o Rei Amarelo é uma entidade espiritual - insubstancial e invisível.  

Os Templos dedicados ao Rei Amarelo sempre possuem um assento majestoso disposto em uma posição elevada de destaque, sobre um promontório ou no topo de um lance de escadas. Mencionado como o Trono do Rei Amarelo, essa cadeira simboliza a presença do Rei, mesmo nas ocasiões em que o avatar não é invocado, como se apesar de não estar presente, sua presença fosse presumida. Diante do trono, os cultistas repetem louvores, dançam, evoluem em círculo e praticam sacrifícios. Por vezes, o assento é adornado com crânios humanos, jóias valiosas e farrapos de cor amarela estendidos como bandeiras tremeluzentes sobre ele. Estandartes com o maligno Símbolo Amarelo, o brasão real, que acompanha o Rei sempre estão presentes. Braseiros exalando fumaça amarelada, candeeiros e artefatos costumam ser dispostos próximo ao trono, representando os portentos compartilhados pelo Rei com seus súditos.

Para um templo ser consagrado, os cultistas realizam um ritual de grande importância que visa torná-lo parte de Carcosa.

A mítica cidade de Carcosa tem origem alienígena, localizada em um planeta obscuro que orbita a estrela de Aldebaran. Ela é descrita como uma metrópole com prédios altos e escuros, construções abobadadas em vários estilos arquitetônicos e sombras que parecem espreitar. Aqueles que visitaram esse lugar maldito, afirmam que a paisagem urbana tende a mudar quando não se está prestando atenção. Descrita como uma cidade fantasma destituída de população, ainda assim é possível ouvir sons nas ruas desertas. Aqueles que vagam por Carcosa experimentam visões alucinantes de beleza e horror sem igual.

A cidade fica às margens do Lago de Hali, com suas águas oleosas e plácidas refletindo as constelações das Hyades e Pleiades. Além do lago fica o Palácio de Ythill, onde segundo o mito, o avatar de Hastur fundou o seu reinado. A estória é contada em detalhes na peça "O Rei Amarelo".

Quando um templo é consagrado como parte de Carcosa, o Rei Amarelo pode se manifestar em nossa realidade, ainda que por curtos períodos de tempo. Essas ocasiões são marcadas por surtos criativos de artistas, por instabilidade social e por loucura que parece contaminar as pessoas que vivem nas cercanias. Indivíduos especialmente sensíveis são contemplados (ou amaldiçoados) por sonhos onde se vêem andando pelas ruas de Carcosa. Outros passam a conhecer os segredos nocivos do Símbolo Amarelo e o desenham em muros e fachadas de prédios, desencadeando a loucura que ele representa. Violência gratuita e surtos de suicídio se tornam recorrentes nos locais em que o Rei exerce sua influência nefasta.

O Rei Amarelo, quando invocado surge como uma figura muito alta, com mais de dois metros de altura. Ele traja um manto pesado e puído de coloração amarelada que recobre todo o seu corpo, inclusive a face, oculta por um capuz e as mãos escondidas por mangas esfarrapadas. Aqueles que conseguem enxergar o que está sob o capuz, vêem uma máscara de cor pálida com uma enigmática expressão humana. Quando o Rei se move ele parece flutuar no ar, não produz nenhum ruído audível nem som de passos ou rastro. Ele também não possui sombra. Ao seu redor rescende um perfume adocicado e enjoativo, que lembra o odor de frutas estragadas deixadas no sol.

O Rei é capaz de falar, conhecendo todo e qualquer idioma usado pela humanidade através das eras. Suas palavras são ouvidas diretamente na mente, causando uma sensação indescritível de insignificância diante de uma força cósmica. Algumas pessoas sentem um êxtase ou temor incontrolável quando ouvem o Rei. Não é raro que alguns desmaiem, caiam de joelhos, chorem copiosamente ou sofram ataques epiléticos. A voz do Rei é descrita como o sussurro de milhares de pessoas falando ao mesmo tempo. Ele jamais se dirige a uma pessoa olhando em sua direção, seus movimentos são furtivos, jamais óbvios. Aqueles que tentam falar com ele são sumariamente ignorados. Os que demonstram coragem para se aproximar e são tolos o bastante para tentar tocá-lo são duramente rechaçados pelas abas do manto que agem como extensões de seu corpo. Qualquer um que insista no erro recebe o lendário olhar do Rei, que ocasiona uma onda de incontrolável pânico e terror primitivo.


Nas ocasiões em que é invocado, o Rei Amarelo costuma assumir posição em seu Trono - na maioria das vezes ele surge diretamente no assento real se este estiver presente. Durante os rituais ele permanece indiferente a presença de seus cultistas e alheio a qualquer apelo. Se agraciado com algum sacrifício - não necessariamente de sangue, talvez de energia mística ou com um artefato, o Rei Amarelo oferece aos cultistas seu favor. Uma onda de sensações e emoções, muitas absolutamente inumanas, acomete aqueles que estão próximos, atingidos por uma confluência de estímulos arrebatadores. Muitos não suportam a experiência e simplesmente se desligam da realidade, às vezes para sempre. Outros se vêem perturbados para sempre, agraciados por visões e propensos a surtos. Há aqueles que ambicionam repetir a experiência e mergulham na eterna servitude. Após conceder sua benção, o Rei Amarelo simplesmente desaparece.

Quando insatisfeito, o Rei se mostra especialmente impiedoso e propenso a atos de crueldade. Muito se fala sobre a Dança do Rei Amarelo, uma espécie de transe hipnótico desencadeado por movimentos rítmicos executados pelo Deus. Aqueles afetados por essa visão sentem seus músculos paralisados e são incapazes de se mover. Os farrapos do manto então ganham vontade própria e se estendem como tentáculos com pontas afiadas como navalhas que rasgam e laceram as vítimas imobilizadas. A morte é lenta e dolorosa, ainda que marcada por um grave silêncio interrompido ocasionalmente pelo som de chibatas e cortes.

O aspecto mais misterioso sobre o Rei Amarelo talvez seja a verdadeira natureza do que se oculta sob seu manto. Aqueles que foram contemplados com a face do Rei sem a máscara, enlouqueceram por completo e jamais foram capazes de dizer o que há ali embaixo. Os mais simplistas cogitam que o manto esconde uma infinidade de filamentos e pseudópodes que uma vez liberados se espalham como raízes de coloração pálida agarrando e drenando o vigor de tudo que vive.


Outros afirmam que encarar a verdadeira face do Rei Amarelo é ficar frente a frente com o princípio original da entropia cósmica, a mesma força que um dia irá devastar toda a realidade no inevitável colapso do universo.

sábado, 11 de outubro de 2014

Hastur, o Impronunciável - O Mito daquele que não deve ser nomeado

Hastur é classificado pelos estudiosos do Mythos de Cthulhu como um dos mais poderosos Grandes Antigos

Assim como os outras divindades ancestrais, Hastur é suscetível ao poder cósmico que o mantém aprisionado no coração de uma estrela negra próxima ao Sistema de Aldebaran, na constelação de Touro. Há controvérsia a respeito de sua origem. Alguns o consideram uma entidade cósmica, gerada através de um dos movimentos cíclicos de Azathoth no centro do Universo. Para outros a origem de Hastur poderia ser traçada até alguma realidade paralela ou dimensão pouco conhecida, da qual ele escapou ou foi ejetado incontáveis milênios atrás.

Hastur se relaciona a várias simbologias e lugares, nomes como Carcosa, o críptico Símbolo Amarelo, o Lago de Hali, e o Rei Amarelo são repetidos exaustivamente dentro de sua mitologia e fazem parte de um bem definido conjunto de ethos e princípios dogmáticos. De todas as entidades do Mythos, Hastur talvez seja o que mais se aproxime de constituir uma religião organizada. O Deus está ligado a princípios como niilismo, decadência e estagnação.

No passado, ele foi venerado por humanos na Samaria, Attluma e Hyboria. Seus cultistas se reuniam para ouvir as palavras de sacerdotes que professavam uma espécie de evangelho conhecido como "Verdades do Impronunciável". Ironicamente, Hastur atendia também pelo nome de Kaiwan, o deus patrono dos pastores, peregrinos e viajantes que era considerado benigno. O culto existiu na Atlântida Antediluviana e chegou até a Hyperborea, embora não tenha conseguido penetrar nesses lugares e garantir um grande número de adeptos. 


Muitos povos consideravam o culto de Hastur particularmente abominável, mesmo quando comparado ao de outros Antigos. Seus rituais mais importantes envolviam complexos sacrifícios humanos utilizados para contatar ou mesmo invocar o deus fisicamente a um de seus templos. Decapitações, desmembramento e a castração estavam entre os ritos praticados pelos sacerdotes.

Os seguidores costumam se reunir para os ritos mais importantes quando Aldebaran está nos céus (entre Outubro até Janeiro, desaparecendo por vezes em fevereiro). Os templos de Hastur, possuem uma configuração semelhante, em geral são a céu aberto e contam com nove monólitos de pedra cortados em forma de V e entalhados com runas ligadas a princípios celestiais. Os monólitos são dispostos em arco e quando um ritual é realizado diante deles, normalmente acende-se uma grande fogueira, onde os cultistas queimam incenso. Fogo, fumaça e luz parecem desempenhar um importante papel nas celebrações. O uso de poeiras alquímicas faz com que esses elementos assumam uma coloração amarela doentia vital para a identidade simbológica do culto. A música também é essencial: cítaras, címbalos, flautas e até trombetas fazem parte dos ritos. No passado artistas eram trazidos para o seio do culto, bem como dançarinos, derviches e acrobatas.

Na Mesopotâmia e na Babilônia, o culto de Hastur (conhecido como Xastur) se enraizou tornando-se popular entre a nobreza decadente até ser expurgado. Os Fenícios também cortejaram Hastur sob o nome Assatur, Deus dos viajantes, mas seus seguidores foram perseguidos e banidos. Dentre as raças não humanas, os Tcho-Tchos e o povo de K'n-yan são os principais seguidores da entidade. Eles o veneram como o Peregrino Branco e a Máscara Amarela, respectivamente.

No que diz respeito a humanidade, o culto de Hastur perdeu considerável espaço para outras divindades como Cthulhu, Nyarlathotep e Shub-Niggurath ao longo das eras. De fato, após a Idade Antiga, o culto de Hastur mergulhou em frequentes períodos de estagnação chegando quase a desaparecer por completo.


Mas de alguma forma, o Olho de Hastur por vezes se volta para  terra e ganha foco, sua influência então multiplica-se em seguidores. O maior e mais importante culto dedicado a ele é a Irmandade do Símbolo Amarelo que congrega cultistas em várias regiões do planeta: China, Tibet, Afeganistão e India são os maiores centros de adoração, mas sabe-se da existência de grupos dedicados agindo na Rússia, no Sudeste Asiático, no México e no Peru. Por algum tempo, a França também foi uma sede importante, sobretudo devido a proliferação do tomo "The King on Yellow" (O Rei Amarelo) editado naquela nação.

Em adição aos cultos humanos, Hastur é servido por raças alienígenas, em especial a espécie interestelar conhecida como Byakhee. Essas monstruosidades aladas servem fielmente ao Deus, mas não são eles próprios cultistas ou devotos. Estudiosos supõem que os byakhees são servos de Hastur, talvez escravos condicionados a servidão por algum pacto firmado.

Alguns entendem que outro Grande Antigo, Itaqua também é um servo de Hastur. As relações de Hastur e de seus seguidores diante de outras raças é tumultuada, para dizer o mínimo. Os Mi-Go possuem uma longa e tempestuosa relação com cultistas de Hastur, sendo atacados de tempos em tempos, torturados e coagidos. O mesmo ocorre com membros e agentes da Grande Raça de Yith, muitas vezes capturados para revelar seus segredos. Os Habitantes da Areia, uma raça não humana, também seguiu os preceitos de Hastur em algum momento de sua existência, mas aparentemente esta devoção foi abandonada. Há um vínculo existente entre Hastur e Shub-Niggurath. Alguns tomos afirmam textualmente que essas duas entidades em algum momento cruzaram gerando a terrível semente dos Milhares de Jovens, as crias que servem a Cabra Negra. Cthulhu por sua vez possui uma relação conturbada com Hastur, nas ocasiões em que seus servos se encontraram várias vezes o resultado foram lutas e destruição. Essa relação conflituosa se transferiu também para disputas entre os cultos de Hastur e Cthulhu que se enfrentaram em várias ocasiões. É possível até que o Culto de Hastur jamais tenha se estabelecido na África por resistência das várias facções de Cthulhu nesse continente.


O nome de Hastur é considerado sagrado e constitui um tabu repeti-lo em voz alta. Nos tempos antigos, indivíduos incautos foram assassinados simplesmente por proferir o nome, criando o mito de que o próprio Deus era invocado e eliminava aquele que o fazia. Entre muitos seguidores existe a crença de que proferir o nome de Hastur pode atrair a fúria do Deus ou até causar a ruína daquele que incorre nessa transgressão. No secto indiano, conhecido como "Os Silenciosos" os seguidores tem a língua ou as cordas vocais removidas logo depois de clamar uma única vez por Hastur como se implorassem uma sua benção. No culto estabelecido no Afeganistão, aqueles que mencionam o nome de Hastur são vítimas de assassinos cuja função é purificar o mundo daqueles que proferiram o nome sagrado. Em virtude desse tabu, Hastur atende pelos epítetos de "O Impronunciável" e "Aquele que não deve ser nomeado".

Existem, no entanto, certos rituais, sobretudo de invocação, em que o nome blasfemo de Hastur é clamado em voz alta para abençoar, amaldiçoar ou ativar magias especialmente poderosas. Esses ritos são executados raramente e apenas os cultistas no topo da hierarquia ousam fazê-lo. 

Vigora uma grande confusão a respeito da aparência física de Hastur.

Nas ocasiões em que ele é invocado materialmente, manifesta-se como uma enorme massa de carne amarelada e pustulenta, destituída de ossos ou uma estrutura corpórea fixa. Essa massa é maleável, assumindo diferentes aspectos que logo em seguida se desmancham como se fossem feitos de argila ou lama. O ser amorfo tem mais de 100 metros de comprimento e gera um brilho próprio de coloração amarelada fosforescente. Hastur costuma gerar membros e apêndices, mais ou menos humanoides que se formam e desfazem conforme sua necessidade premente. Em alguns casos, Hastur também pode criar uma cabeça dotada de inúmeros olhos, bocas e ouvidos, usados para sondar seus arredores.


Mas nem sempre essa é a forma escolhida por Hastur. Ele também pode assumir a forma de um imenso monstro reptiliano bípede, com mais de trinta metros de altura. Essa abominação de cor verde-amarelada possui uma cabeça oculta por centenas de tentáculos serpenteantes. A entidade costuma assumir essa forma quando planeja destruir ou punir alguma transgressão grave. Nessa forma, ele é frequentemente tomado por uma fúria assassina que resulta em grande devastação.
Há também ocasiões em que Hastur assume a forma de um imenso olho amarelo (o Olho de Hastur) que surge em meio a uma nuvem multi-cromática. Essa forma de Hastur tende a surgir quando a divindade recebe sacrifícios ou quando Aldebaran está em seu ápice.

Além dessas formas específicas, Hastur possui uma dezena de avatares sendo inegavelmente o mais conhecido o Rei Amarelo - sobre o qual falaremos depois. Para alguns teóricos do Mythos, o Rei Amarelo é tão importante que muitos o tem como uma forma diversa de Hastur, quase uma divindade à parte.        

De acordo com algumas fontes, Hastur não seria uma entidade consciente e sim uma força de entropia pura, um princípio cósmico que se contrapõe à ordem e a normalidade e que se alia a destruição cósmica pura e simplesmente. Essa "Destruição da Ordem" se manifestaria em todos os níveis do sub-atômico até o cósmico, com uma influência se estendendo a todos os níveis da realidade. O Deus representaria a completa anátema à criação, seria uma força caótica contrária ao princípio germinador cósmico. Ele é a destruição inominável, aquela que devasta as coisas de dentro para fora, agindo de modo sutil, como um câncer dedicado apenas a corroer a matéria constitutiva da criação. Em sua presença nada poderia existir, perante suas trevas abissais, tudo seria deterioração e corrupção sem retorno. 


Se essa noção é verdadeira, Hastur teria poder sobre os próprios princípios constitutivos do universo, o que o alçaria ao posto de uma das entidades mais poderosas do cosmos. Nesse contexto, ele poderia ser um Deus Exterior com poder equivalente a Nyarlathotep ou mesmo Azathoth. Aliás, uma corrente de pensamento teoriza que Hastur poderia ser um avatar do próprio Azathoth, assumindo de alguma maneira uma forma senciente. 

Contudo, não são todos os tomos que defendem essa visão extremamente aterrorizante.

Para todos os efeitos, Hastur é uma entidade imprevisível cuja potência e amplitude não podem ser sequer contextualizadas pelas frágeis mentes humanas. Não obstante, há aqueles que rastejam diante dele buscando seus favores e que se sujeitam a ele, encontrando somente a obliteração.

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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Terríveis Invasores - "O Horror que veio do Ouvido" e que retornou dois anos depois.


Originalmente publicado em 10/10/2012

O Mundo Tentacular é um Blog dedicado ao Horror e nós tentamos encontrar notícias, matérias e artigos que causam um misto de apreensão, arrepio e com um pouco de sorte, uma pitada de saudável incômodo.

Por vezes, notícias que misturam esses três elementos se combinam de tal forma que é impossível não publicá-las por se tratar de algo, francamente, "Too Fucked up and plainly bizarre" para não ser publicado!

Bem, é o caso desse artigo...

A noção de aranhas escalando em nossos corpos e explorando nossos orifícios, enquanto dormimos pode soar como uma daquelas típicas lendas urbanas criadas com o intuito de assustar as pessoas. Não parece, afinal de contas, ser algo provável, não é?

Infelizmente, a resposta é que essas coisas podem acontecer... ao menos aconteceu com uma certa Sra. Lee que visitou o Hospital Central de Changsha na China, queixando-se de incômodas dores no ouvido.

Segundo a pobre senhora, ela vinha acordando toda madrugada com um desconforto no ouvido, como se sentisse um tipo de coceira. Os médicos a examinaram e depois de alguns testes constataram que havia um corpo estranho habitando seu ouvido interno. O inacreditável invasor foi então fotografado para posteridade. Sim, senhoras e senhores o inquilino na cabeça da mulher está registrado na fotografia no alto do artigo!

Os médicos conseguiram expulsar a aranha usando uma injeção de solução salina, pois temiam que o animal deixasse farpas se cutucado por uma pinça. A aranha medindo aproximadamente 2 centímetros foi retirada e depositada em um frasco onde - esperamos - não poderá entrar nos ouvidos alheios.

Esse, é claro, não é o primeiro e nem será o último caso registrado da difícil convivência entre humanos e aranhas.

Apenas para aumentar o nível de preocupação do caro leitor, inúmeros casos de ataques de aranhas são registrados anualmente. É muito raro que picadas de aranhas domésticas sejam fatais, mas a toxina de algumas espécies é suficiente para causar horríveis ferimentos, paralisia temporária e severas reações alérgicas. Recentemente um vilarejo na India foi atacado por milhares de aranhas rendendo arrepios em todo mundo. Mas isso... isso é ainda mais pessoal. 

Eu posso falar com conhecimento de causa, quando tinha sete anos, fui picado no lábio inferior por uma aranha de parede enquanto dormia na casa dos meus avós no Rio Grande do Sul. Fiquei com o lábio inchado por pelo menos duas semanas... e o inchaço só passou quando uma senhora receitou passar clara de ovo na área afetada e ficar ao sol por alguns minutos. Acreditem ou não, esse tratamento caseiro foi mais eficiente do que o prescrito pelo médico e resolveu rapidamente o problema.

De qualquer forma, aos aracnofóbicos de plantão... bons sonhos!


*     *     *

Mas vamos falar de bizarrice!

Esse artigo foi originalmente publicado em 10 de outubro de 2012, casualmente EXATOS dois anos atrás.

[Sério, que mundo bizarro é esse em que acontece uma coincidência assim? De dois em dois anos insetos entrando no ouvido de pessoas se tornam notícia mundo à fora?]

Quem leu, viu que ele trata de uma aranha instalada confortavelmente no ouvido de um sujeito, uma coisa que não apenas é perturbadora, mas que causa uma agonia incontrolável.

Mas nesses dois anos as coisas parecem ter evoluído e essa evolução, caros amigos não foi para melhor... Não, mesmo!

O vídeo à seguir (que eu rezo para ser fake e desde já aviso é muitíssimo desagradável) circulou na internet nos últimos dias causando um misto de nojo, horror e fascínio mórbido em todos que o assistiram.

[Sério, eu assisti de manhã, quando cheguei no trabalho uns colegas estavam comentando a respeito, apenas para voltar para casa à noite e dar de cara com ele na minha timeline várias vezes.]

Não tem como explicar o quão horrível é esse pequeno vídeo feito por um médico, mas ele é um upgrade do artigo original. A diferença é o tamanho do bicharoco extraído do ouvido do pobre sujeito. 

Ah, o horror...


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

"Eu vejo o que está por vir" - As revelações de um Viajante do Tempo, Homem Santo ou Profeta em 1914


Tudo aconteceu em agosto de 1914.

Andreas Rill, um carpinteiro nascido na Bavária, Alemanha, servia como soldado na região da Alsácia, fronteira nordeste com a França. A Grande Guerra já estava sendo travada, mas ele ainda não havia testemunhado ação nas temidas trincheiras do Front Ocidental.

Rill e um colega eram apenas recrutas que haviam recebido ordem de vigiar um posto numa estrada nos arredores do vilarejo de Colmar. As ordens eram simples; parar qualquer pessoa que passasse por ali após o toque de recolher e verificar seus documentos. A noite estava tranquila e sem grandes novidades. 

Por volta da uma hora da manhã, os soldados ouviram o som de alguém se aproximando à pé pela estrada  e se colocaram de prontidão. Um homem velho e vestido como um camponês vinha descendo a estrada, parecia confuso e parou apenas quando eles apontaram suas armas e ordenaram que ele respondesse de onde vinha e para onde ia.

O homem não foi capaz de responder as questões, e embora entendesse o idioma dos soldados, afirmava que não se recordava como havia chegado ali ou o que fazia sozinho ali, àquela hora.  

Em sua famosa carta, Andreas Rill escreveu aos seus pais a respeito do homem:

"Ele falava francês, mas entendia alemão. Nós verificamos que ele não representava perigo, mas decidimos escoltá-lo até o posto a fim de interrogá-lo. Lá ele disse algo que me deixou estarrecido: disse que via o que estava por vir"

No final das contas, aquele homem se revelou o mais enigmático dos prisioneiros.

Durante o interrogatório que durou várias horas, o velho de origem desconhecida avisou que não se importava de falar, mas que faria revelações a respeito do futuro da guerra e da Alemanha. 

"Ele era estranho, e falava coisas sem sentido, mas ainda assim era impossível não dar ouvidos ao que dizia" escreveu o soldado na carta. 

Ele contou que o velho parecia uma espécie de "Homem Santo" com grande simplicidade em seus modos e sabedoria nas suas palavras. Seu testemunho foi anotado e segundo o soldado, o relatório foi enviado para seu superior direto. O que aconteceu com esse relatório, provavelmente jamais venhamos a saber, mas dado o seu teor alarmista ele provavelmente foi destruído. Contudo, a narrativa descrita nas cartas pessoais remetidas por Andreas Rill aos seus parentes é nada menos do que espetacular: 

"Se o alto comando soubesse das previsões que o francês fez a respeito dos próximos anos", confidenciou o soldado, "eles ordenariam que largássemos nossas armas e voltássemos para nossas casas imediatamente".


Segundo o prisioneiro, a Guerra iria durar exatamente cinco anos e seria marcada por batalhas e horrores nunca antes presenciados na Europa. A Alemanha no fim seria derrotada (disso o profeta estava certo), e essa derrota seria muito dura, impondo enorme humilhação. A Itália que havia iniciado a Grande Guerra como um aliado da Alemanha, mudaria de lado e a combateria no final do confronto (o que de fato aconteceu). 

"Anos mais tarde, a Itália, sob o comando de um tirano irá se aliar a Alemanha em outra aventura militar e ficará ao seu lado até o amargo fim, caindo primeiro", escreveu Rill na carta, conforme aquilo que o profeta narrou.

Ele foi além em seus prognósticos:

"Após a derrota na Grande Guerra, um novo país será criado... e todos se tornarão milionários da noite para o dia, mas seu dinheiro não servirá para nada. Será mais fácil queimar o dinheiro do que acumulá-lo, pois com ele nada poderá ser comprado".

O profeta se referia a fundação da República de Weimar e a terrível recessão econômica que varreu a Alemanha no curso da década de 1920-1930, quando o valor do marco era desvalorizado diariamente e eram necessários milhões de marcos para comprar um pão.

Mas a narrativa continuava:

"Por volta de 1932, um anticristo chegará ao poder, e todo o povo o seguirá como se ele fosse um messias ungido pelo todo poderoso. Seu governo será elogiado e muitos darão a vida por ele, mas seu Império de mil anos, não irá passar de nove. Em 1936, os preparativos para uma nova Guerra se iniciarão na Alemanha e o tirano irá clamar pela unidade das nações germânicas".

Andreas Rill
As predições do profeta iam ainda mais longe e afirmavam que a Alemanha obteria muitas vitórias e a princípio nenhum exército faria frente ao seu poderio bélico. Ela se tornaria uma nação orgulhosa marchando pela Europa com vitórias sucessivas - soberana e triunfante. Mas com o tempo, a maré iria virar, e logo, a Alemanha se veria combatendo em duas frentes contra muitos inimigos. Por fim, ela seria derrotada mais uma vez e todos os seus líderes seriam levados à justiça por atrocidades e horrores perpetrados. 

"Isso acontecerá em um ano em que os números 4 e 5 estiverem juntos, quando a capital da Alemanha será devastada, invadia e conquistada por estrangeiros". Os soviéticos tomaram Berlim em 1945.

Em uma segunda carta remetida por Andreas em setembro de 1914, cerca de um mês depois do interrogatório do profeta misterioso ele escreveu:

"Eu não consigo esquecer das profecias daquele homem. Elas continuam na minha cabeça e no meu íntimo sei que ele estava falando a verdade. Não posso atestar a veracidade de suas palavras, mas tomei nota e transcrevo essas informações para que vocês saibam o que ele disse e no que ponho fé".

A segunda carta de Andreas endereçada à sua família menciona o período do pós-guerra, quando a Alemanha se tornaria o centro da nova disputa de ideologias antagônicas que marcaria a segunda metade do século XX - a Guerra Fria. "Nações estrangeiras ião ocupar a Alemanha, e dividir a nação em diferentes bandeiras".

Felizmente, o profeta errou na previsão seguinte ao afirmar que a Terceira Guerra, seria travada no rastro da Segunda. A Alemanha seria o palco dessa nova disputa que duraria mais quatro anos e que terminaria apenas em 1952. Sobre essa guerra devastadora ele disse:

"As montanhas serão pulverizadas com fogo, e entre os rios Danúbio e Inn (na região da Suíça, Áustria e Alemanha), tudo será devastado por uma força capaz de destruir toda vida. Os rios serão secos e pontes serão desnecessárias para atravessá-los visto que não passarão de riachos. No fim, os governantes da Rússia serão mortos e haverá tantos cadáveres no oriente que ninguém será capaz de enterrá-los por décadas".

As duas cartas escritas por Andreas Rill são nada menos do que notáveis. 

Os detalhes contidos na transcrição são tão acurados que chegam a possuir datas. Ao longo das décadas, os documentos despertaram suspeitas por parte de pesquisadores que duvidavam de sua autenticidade.  

Especialistas em criminologia da Universidade de Freiburg foram os primeiros a analisar as duas cartas escritas por Andreas Rill. Em 1922, poucos anos depois da Grande Guerra, elas foram examinadas por peritos. Eles constataram que os documentos, em poder dos pais do soldado, eram autênticos e que os carimbos postais datando de 1914 não haviam sido alterados ou adulterados. Os documentos foram devolvidos para a Família Rill que se mudou para a Suíça em meados de 1926. As cartas contendo a transcrição do interrogatório foram mantidas como um tesouro familiar, sobretudo depois que constataram os acertos contidos nelas.

Na década de 1950, as previsões do misterioso prisioneiro francês se tornaram extremamente populares e até os dias atuais atraem a atenção de pesquisadores que as consideram uma prova incontestável das faculdades precognitivas de certas pessoas.


Mas quem seria o profeta por detrás das incríveis profecias? Seria possível determinar a identidade dessa fascinante figura que supostamente foi capaz de predizer o futuro de maneira tão acertada?

Alguns sugerem que o profeta foi um homem muito rico que viveu na vila de Colmar na Alsácia, na virada do século XIX. Seu nome seria Gerrard Albiers, e ele fazia parte da tradicional Maçonaria Alsaciana. Pouco se sabe a respeito de Albiers, mas há rumores de que ele tenha nascido com o dom para visões e que de fato teria feito inúmeras previsões que acabaram se concretizando. No fim de sua vida, ele teria doado todos os seus bens materiais aos pobres e se juntado a um mosteiro de capuchinhos.

Realmente existe um monastério capuchinho em Sigolsheim, fundado em 1600, na fronteira entre França e Alemanha a pouco menos de dez quilômetros de Colmar. Não há, entretanto, nenhum registro da passagem de Albiers pela ordem na época em questão. 

Pesquisadores acenam com outra possibilidade para a identidade do misterioso profeta. Um homem conhecido como Padre Laicus Tertiarius, foi recebido como convidado no mesmo monatério em meados de 1913 e lá morreu no final de 1918. Tertiarius era um sujeito obscuro, sua idade é desconhecida, segundo alguns teria 40 anos, enquanto outros afirmam que ele tinha mais de 80 quando veio a falecer. Ele trabalhou como jardineiro no monastério e parecia ter um dom para cuidar das plantas. Era tido como um homem tranquilo que se deleitava com a vida no campo e longas caminhadas. Aqueles que apostam no Padre Tertiarius como sendo o misterioso profeta afirmam que ele tinha períodos de confusão mental e que durante esses episódios falava sobre o futuro e coisas que ainda não haviam acontecido.

Infelizmente não existe nenhum documento a respeito do Padre Tertiarius ou a localização de sua sepultura. Sua própria existência é contestada por muitos céticos.   

Seja lá quem foi o prisioneiro interrogado por Andreas Rill, sua identidade permanece um mistério. 

Rill mencionou que o alegado "profeta" embora fosse de nacionalidade francesa, falava bem alemão - o que não é totalmente estranho já que a região da Alsácia fica exatamente na fronteira entre as duas nações. O soldado jamais descreveu o homem, mas se referiu a ele em pelo menos duas oportunidades como "um velho" ou "ancião". Não há nenhuma outra menção a aparência ou ocupação do indivíduo, e nem seu nome. Rill escreveu que o homem estava tão confuso que não foi capaz de dizer o próprio nome.

Há uma hipótese ainda mais fantástica para essa estória.

Será que o profeta interrogado pelos alemães poderia ser um viajante do tempo, ainda confuso pelo deslocamento temporal? Seria ele alguém do futuro que acabou experimentando um fenômeno de viagem temporal involuntária, tendo ido parar na Alsácia de agosto de 1914?

Alguns estudiosos da parapsicologia chamam a atenção para esse tipo de fenômeno no qual algumas pessoas simplesmente desaparecem de uma época e surgem em outra, ocupando o mesmo espaço, mas em outro tempo.

A cartas de Andreas Rill continuam em poder de seus descendentes que atualmente vivem na cidade de Basel, na Suíça. Os documentos foram apresentados pela última vez em 1988 em um programa sobre fenômenos inexplicáveis apresentado pela BBC.

Andreas Rill morreu em setembro de 1915 no fronte ocidental. Ele tinha 26 anos.

O paradeiro atual do prisioneiro é desconhecido.

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