domingo, 16 de junho de 2019

Aqueles que observam das trevas - O Círculo de Vampiros do Zimbabue


Ao longo da história surgiram inúmeras lendas a respeito de vampiros, caçadores de vampiros e criaturas espreitando nas sombras e atacando vítimas inocentes para satisfazer sua sede de sangue. Tal fenômeno, curiosamente encontra eco em várias partes do mundo.

Um dos lugares onde vampiros são considerados muito mais do que lendas e tidos como ameaça real fica na África. Na nação soberana do Zimbábue, vigora uma profunda crença, entranhada nas tradições e costumes tribais a respeito de vampiros. Nesse lugar, as pessoas temem aquilo que se esconde na escuridão e que habita um lugar muito além de nossa compreensão. Lá, os horrores sobrenaturais são parte do dia a dia, e a população faz o que for preciso para se manter segura desse horror.

Recentemente uma série de crimes ocorridos no Zimbábue lançou medo entre a população local criando uma onda de paranoia sem precedentes. As pessoas acreditavam que uma misteriosa figura que estuprava, matava e bebia o sangue de mulheres, não podia ser outra coisa, além de um vampiro. Os jornais e meios de comunicação intensificaram ainda mais o medo, relatando histórias colhidas com testemunhas que falavam desse monstro. Os ataques tiveram início em 2015, mas eventualmente o culpado foi capturado. O acusado era Alois Tapiwa Nduma, um homem de 26 anos, preso pela polícia enquanto perseguia uma mulher. Os policiais relataram terem ficado horrorizados quando detiveram Nduna e este quando recebeu ordem de prisão, vomitou um jato de sangue. Em seguida, o vampiro se ajoelhou no chão e começou a lamber a massa sangrenta que havia regurgitado.

Sob interrogatório, Nduna confessou ser um vampiro e satanista. Ele revelou fazer parte de um culto de vampiros que existiria no país vizinho, Zambia. O alegado vampiro relatou seus crimes para os investigadores atônitos: ele calmamente revelou ter estrangulado e matado 11 mulheres para em seguida beber seu sangue. O vampiro costumava atacar na cidade de Mvuma, acossando mulheres que estivessem sozinhas nas ruas. Ele contou o seguinte:

"Eu seguia as mulheres e esperava que ficassem sozinhas em um lugar onde ninguém as ajudaria. Eu as agarrava por trás e mordia o pescoço com força. Meus dentes afundavam na garganta e eu segurava com força, movendo a cabeça de um lado para o outro, até rasgar a garganta. O sangue então jorrava e eu bebia enquanto elas perdiam a consciência. Eu bebia até me fartar e depois abandonava o corpo. Em geral elas sangravam até morrer".


O julgamento de Mduna ocorreu em 2016 e ele foi condenado a 27 anos de cadeia pelo assassinato de suas vítimas. Durante seu confinamento na Prisão de Khami, houve grande apreensão a respeito do alegado "vampiro assassino". O homem ganhou notoriedade e passou a aterrorizar não apenas os seus colegas de prisão, mas os guardas. Ele arranhou o número 666 em sua própria testa e andava pelos corredores e pavilhões da prisão como uma presença maligna sendo evitado por todos. O homem também rosnava como uma fera, falava em uma língua gutural e virava os olhos como se estivesse possuído.  

Um dos guardas da prisão contou a respeito de Nduna:

"Os guardas sabiam a respeito desse prisioneiro que estava preso em Khami. Ele tinha o hábito de vomitar e depois lamber o sangue. Certo dia, ele foi detido na solitária e suas mãos presas com algemas, mas na manhã seguinte os guardas perceberam que ele tinha um pentagrama arranhado nas costas. Não sabemos como aquilo apareceu,  já que ninguém entrou a cela e ele próprio não seria capaz de alcançar o local onde o símbolo surgiu. O homem ficava sozinho em sua cela o tempo todo, ninguém aceitava dividir o local com ele. Quando alguns homens foram obrigados a entrar, se revoltaram. Tinham muito medo! As paredes estavam cobertas de sangue, que ele usava para escrever e desenhar. Ele escrevia coisas estranhas, trechos da bíblia e outros mais estranhos. Rabiscava símbolos bizarros e números. Dizia que aquela era a escrita do inferno e que estava escrevendo uma espécie de evangelho satânico". 

Nduna alegava que ao ingerir sangue humano, ganhava força, resistência e o dom de visões. Ele foi detido depois de atacar dois outros prisioneiros e mordê-los no pescoço. O vampiro era temido e evitado por todos na prisão e a maioria dos internos acreditava que ele tinha poderes sobrenaturais. Havia o rumor de que ele podia se transformar em fumaça e que assim deixava a cela para beber o sangue de outras pessoas. Alguns acreditavam que ele podia enviar pesadelos à distância e afetar o sono das pessoas deixando-as loucas. Além disso, haviam as ocasiões em que ele vomitava sangue que depois ingeria de volta num espetáculo macabro.

Os guardas temiam o vampiro, e com razão. Em certa ocasião, ele aproveitou o descuido de um carcereiro que cometeu o erro de dar-lhe as costas. Nduna agarrou o guarda e o mordeu na face repetidas vezes. Como resultado, o homem ficou permanentemente desfigurado.


Depois desse incidente, uma petição de justiça pediu que Nduna fosse considerado insano e transferido para uma instituição especial para tratamento e isolamento. A legislação do Zimbabue é bastante ampla no que tange a tratamentos para criminosos com doenças mentais, que inclui em casos extremos - como o do vampiro, procedimentos similares a lobotomia pré-frontal. Segundo os registros da instituição o vampiro teria sido sujeito a uma intervenção cirúrgica como essa, continuando posteriormente a ser um interno da Colônia Psiquiátrica em Mocha

Mas o que dizer das bizarras alegações do Nduna de que ele era apenas um dos membros de um grande Culto de Vampiros? Obviamente, as autoridades não estavam muito propensas a acreditar nas loucuras relatadas por Nduna , contudo em 2017 um outro caso envolvendo vampirismo levantou o questionamento de que os relatos do vampiro poderiam ter algum fundamento. Em fevereiro de 2017 houve um trágico caso de atropelamento na pequena vila de Neta, no Distrito de Mberengwa. O acidente vitimou nada menos do que quatro crianças. Enquanto os cadáveres permaneciam caídos na margem da estrada, houve relatos de que quatro pessoas vestindo roupas pretas surgiram repentinamente. Esses estranhos, que jamais haviam sido vistos naquela região, agiam de forma suspeita e em determinado momento se aproximaram dos cadáveres e começaram a lamber os ferimentos produzidos. As testemunhas que assistiram a cena foram incapazes de reagir e muitos horrorizados demais com o que presenciaram simplesmente fugiram. Outros, apanharam pedras e jogaram nos vampiros até que estes cessassem aquela violação. Uma testemunha contou a seguinte história a respeito do incidente:

"A morte dessas quatro crianças deixou os camponeses sem saber o que fazer. Muitos choravam e se desesperavam.  E quando aqueles quatro desceram sobre os corpos como abutres as pessoas ficaram apavoradas. Felizmente eles foram escorraçados por alguns moradores revoltados com aquilo. Após o funeral, o Chefe Bvute pediu uma reunião e disse que era necessário chamar um Caçador de Vampiros (Tsukamutanda) que poderia identificar quem eram aquelas pessoas que beberam o sangue das crianças.  O povo de Neta concordou e um tsukamutanda chamado Banda chegou ao vilarejo para cuidar do situação". 

"O caçador era muito experiente, continuou uma testemunha, "ele conseguiu rastrear o covil dos vampiros, e onde eles estavam escondidos. Segundo a polícia que foi chamada para auxiliar na captura do bando, o esconderijo ficava em uma casa abandonada onde encontraram uma coleção macabra de imagens satânicas, objetos de aparência estranha e outras estranhezas". 

As pessoas detidas estavam de posse de objetos usados em rituais de magia negra e feitiçaria: Cabeças de babuínos, patas de hienas, garras de animais selvagens e  línguas de leopardos. Eles também estocavam sangue em garrafas de refrigerante e supostamente esse estoque era usado para saciar sua sede obscena. Eles foram presos pela polícia e conduzidos para uma delegacia onde se descobriu que todos eram estrangeiros provenientes de Zambia. Os indivíduos foram presos e posteriormente deportados para Zambia. Mas seriam eles membros do mesmo culto bizarro do qual Nduna afirmava fazer parte?


No mesmo ano, dois cidadãos do Congo também foram presos em Zimbabue acusados de fazer parte de um círculo satânico e de praticar atos horrendos que incluíam beber sangue humano. George Rene Longange, de 41 anos e Ngezi Ngendo Bragston de 37, afirmavam ainda ser parte de um Culto de Vampiros sediados em Zambia. Diferente dos demais acusados, os congoleses afirmavam que jamais haviam matado ninguém e que o sangue colhido era ofertado por membros do culto ou pessoas simpáticas a ele. Ironicamente, os dois acabaram se tornando refugiados políticos e foram aceitos legalmente no país.

Ano passado, outro caso chocou o país, dessa vez envolvendo um homem de 34 anos chamado Christopher Sibanda, que foi capturado enquanto bebia o sangue de uma mulher que ele havia assassinado. Sibanda alegou ter atacado a vítima, Subusisiwe Sigauke, com um porrete e depois cortado seu pescoço com uma faca para em seguida beber seu sangue. Ele foi detido por populares que o pegaram em flagrante, com o rosto e a boca cobertos de sangue. Interrogado por policiais chamados para prendê-lo, ele contou ser um vampiro que ganhava poderes ao beber sangue humano, embora ele não tenha dito nada a respeito de fazer parte de um culto.

Haveria uma conexão entre os casos ou apenas um tipo de alucinação coletiva atingindo essas pessoas? A despeito de todas as suspeitas e alegações a respeito de uma confraria de vampiros em Zambia, ironicamente nenhum caso de vampirismo foi reportado naquele país. As autoridade negam veementemente que poderia haver um culto atuando no submundo. Será possível que esses casos não passem de incidentes isolados alimentados pelas superstições locais? Ou haveria algum tipo de conspiração oculta tão bem urdida que ninguém encontrou sua presença?

É difícil saber ao certo o que motivou essas pessoas a insistir em relatos tão bizarros e abraçar a noção de que eles mesmos seriam seres sobrenaturais. Entretanto, em uma terra exótica, onde as superstições ainda reinam supremas, as crenças produzam monstros com sede de sangue.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Cinema Tentacular - Cemitério Maldito - "Morto às vezes é melhor"


Stephen King e Hollywood não são exatamente parceiros estranhos. 

Um dos mais famosos e lidos autores da atualidade e a indústria do cinema fizeram repetidas parcerias ao longo dos anos. Algumas com resultados interessantes, a maioria de qualidade mediana, algumas dignas de esquecimento. Enquanto muitas obras interessantes de King permaneçam ainda não adaptadas (The Girl Who Loved Tom Gordon, Revival, e Buick 8, para citar apenas três), é curioso que uma já anteriormente filmada ganhe um remake.

Cemitério Maldito (Pet Sematary) é, sem dúvida uma das mais pesadas, sinistras e macabras novelas de Stephen King. O que em se tratando do autor de Iluminado, It e Carrie, não é pouca coisa. O próprio King disse em entrevistas que de todos seus trabalhos, Cemitério é aquele que mais o assustou e que realmente lhe causou pesadelos. Não é para menos: o romance, lançado em 1983, é uma análise profunda da perda, da tragédia e da loucura, com pinceladas fortes de drama e horror. A história toca em um horror que nenhum pai gostaria de enfrentar, a perda de um filho, e pergunta até onde eles estariam dispostos a ir para apagar tudo e voltar tudo, como era antes.


Para muitos, Cemitério é um dos melhores livros do autor, com certeza ele figura na lista dos fãs como um dos preferidos. Uma história ao mesmo tempo abrasiva e difícil, mas escrita de uma forma tão instigante que não tem como evitar de virar página atrás de página. Eu escrevi uma resenha a respeito do romance aqui no Mundo Tentacular, que está à um click de distância, bastando clicar AQUI

Em 1989, Cemitério Maldito foi adaptado para o cinema, com direção de Mary Lambert e dividiu opiniões. O roteiro cortou alguns detalhes cruciais da trama, para investir pesado na carga dramática. O envolvimento do Wendigo, a criatura do folclore nativo-americano, que no livro é responsável pelo Cemitério, foi suplantada pela tragédia familiar que dá o tom na história. O sobrenatural é apenas uma circunstância para realçar o luto e as repercussões dele. 

Não é ruim! Cemitério Maldito continua sendo um filme macabro e uma bela adaptação e os fãs do horror tendem geralmente a elogiá-lo. Então, por que uma nova adaptação?


Trinta anos se passaram entre o Cemitério original e o novo. Recentemente IT (A Coisa), outra obra quintessencial de King, foi adaptada para o cinema e se tornou um sucesso de público e crítica, um dos filmes de horror com maior bilheteria na história. King continua vendendo como sempre e sua obra não perdeu fôlego. A base de fãs continua grande e o nome "Stephen King" atrai público. Então parecia uma jogada inteligente revisitar o Cemitério Maldito e tentar adaptá-lo para uma nova geração.

Parecia, poderia, seria... mas como dizem, de boas intenções o inferno está cheio.

Dirigido por Kevin Kölsch e Dennis Widmyer, o Cemitério Maldito versão 2019, acaba sendo um filme um tanto anêmico.


Não me entendam mal, a história continua interessante e o roteiro se esforça para construir uma empatia entre o público e os personagens, mas no fim, essa conexão não se concretiza. Em essência, a história continua bastante fiel a novela em que ele se baseia, mas o roteiro toma algumas liberdades, alterando detalhes para quem sabe soar inovador e atrair quem viu o primeiro filme ou leu a novela. Sem estragar a diversão alheia com spoilers, uma das mudanças é considerável, mas no fim acaba não causando o mesmo impacto que as versões anteriores. O filme tem o mérito de ser mais sério do que o anterior e busca preencher lacunas com um sentimento sinistro que permeia boa parte da duração do filme. Funciona em alguns momentos, mas em outros, parece que ficou solto demais.

Um dos problemas ao meu ver é que o filme ficou corrido demais. As coisas vão acontecendo em um ritmo rápido, como se os diretores tivessem pressa de chegar logo na parte do sangue e arrepios. Construção e desenvolvimento são coisas essenciais em qualquer boa história (vide Hereditário e A Bruxa), e o roteiro do filme poderia se beneficiar com um ritmo mais lento, que ajudasse a conectar a história e apresentar os personagens.

Para quem não conhece nada a respeito de Cemitério Maldito, a trama acompanha os Creeds, uma família que se muda para uma área rural do Maine (sempre o Maine!) na esperança de encontrar seu cantinho no paraíso. Infelizmente acabam achando um pesadelo aterrador. Louis (Jason Clarke) e Rachel (Amy Seimetz), tentam se estabelecer na comunidade com seus filhos Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Hugo Lavoie), de 8 e 3 anos respectivamente. A família rapidamente fica amiga de Jud Crandall (John Lithgow), o vizinho que sempre viveu na cidadezinha e conhece não apenas o modo de vida local, mas os  seus segredos mais profundos. Quando o gato de Ellie morre em um acidente na perigosa estrada onde trafegam caminhões em alta velocidade, Jud compartilha com Louis o segredo a respeito de um lugar sagrado, localizado além do Cemitério de Animais. Trata-se de um terreno místico usado no passado pelos nativos e que possui poderes sobrenaturais. Contudo, esse lugar acabará trazendo graves repercussões para a família quando uma nova e mais terrível tragédia se abater sobre eles. 


As atuações são muito boas e a escolha do elenco parece ter sido muito acertada. O veterano ator John Lithgow é perfeito para o papel do vizinho e atua com solenidade e sabedoria, mas é Jeté Laurence quem brilha como a filha, Ellie. Nessa versão, ela tem muito mais importância que seu irmãozinho e aproveita a oportunidade para produzir os melhores momentos do filme. O casal de protagonistas dá conta do recado, mas a pressa em acelerar acontecimentos faz com que o mergulho na loucura dos personagens soe um tantinho forçado. O filme poderia ser bem mais interessante se tudo ocorresse de forma gradual, mas ele perde um pouco a mão na ânsia de ir direto para a parte dos sustos. A amizade entre Louis e Jud, que é um dos pontos centrais do livro, mal é explorada no filme. Também ficam de fora os pais de Rachel, os piores sogros da história. 

Assim como aconteceu no filme da década de 1980, o roteiro da nova versão diminui o envolvimento do Wendigo como causador dos infortúnios pelos quais a família passa. Embora ele seja citado brevemente, a trama assume que a força macabra que habita o terreno além do Cemitério é algo sem nome e que não pode ser explicada de forma racional. Não é ruim, mas deixa em aberto algumas questões que poderiam ser relevantes.

Além do excelente trabalho do elenco, o filme se esforça para criar uma atmosfera macabra. A cena em que crianças seguem em procissão para o cemitério de animais, vestindo máscaras é triste e sinistra na medida perfeita, mas logo essa aura de estranheza se dissipa. As aparições do espírito que tenta avisar Louis de que a desgraça acompanha aqueles que tentam alterar o inevitável, também poderia ser melhor explorada. Há alguns sustos, que felizmente não são gratuitos e o sangue não é exagerado. O final do filme, é diferente da versão original e conclui a trama de uma maneira que se não é sensacional, ao menos acaba sendo satisfatória.


De um forma geral, o filme é pouco mais do que um entretenimento rápido com alguns arrepios ocasionais. Poderia ser muito mais intenso, já que o material no qual ele se baseia é literalmente combustível para pesadelos. Em mãos mais capazes, Cemitério Maldito tinha tudo para se tornar um filme memorável, mas a sensação é que desperdiçaram essa chance uma segunda vez para apostar no "certo, ao invés do duvidoso".  

O novo Pet Sematary pode ser mais sólido e contar com melhores atuações, mas infelizmente falha justamente em causar choque e perturbação, um pecado grave em filmes de terror que se propõem a ir além do convencional. No fim das contas, fica a frase que é dita em um momento chave "Morto às vezes é melhor".

Trailer:



Poster:


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Armas dos Antigos III - O Cajado de Moisés ou o Poderoso Cetro de Deus


Continuando com o tema biblico e grandes artefatos encontramos o legendário "Cajado de Moisés", também chamado de "Cetro de Deus" ou "Cajado de Jeová". Essa relíquia foi mencionada pela primeira vez no Livro do Exodus, um dos mais importantes tratados da crença hebraica. Segundo a crença o cajado foi imbuído com o poder divino e além da imaginação mortal. Deus teria entregue o cajado à Moisés quando se manifestou como um arbusto em chamas no alto do Monte Horeb.

Para demonstrar os poderes sobrenaturais do cajado, Deus teria transformado o objeto em uma serpente e depois novamente em um cajado de madeira. Mais tarde, o Patriarca repetiria essa mesma transformação diante do Faraó e de seus sumo-sacerdotes perguntando se eles poderiam repetir o feito, o que eles obviamente não foram capazes de fazer. O Faraó furioso pela "incompetência" dos seus conselheiros os exilou.

Moisés teria carregado o cajado durante todas as suas jornadas como se ele fosse um simples bastão de peregrino. De fato, o cajado se tornou uma ferramenta intimamente associada a Moisés e na maioria das vezes em que ele é retratado aparece com o cajado em suas mãos.

Outra façanha realizada com a ajuda do cajado envolve produzir água de uma pedra - provavelmente de onde vem o conhecido ditado. Para saciar a sede de seu povo durante a travessia do deserto, Moisés bateu com força com o cajado em uma pedra e esta começou a verter água pura para saciar a necessidade de seus companheiros de jornada.


Durante a famosa Batalha de Rephidim, na qual os israelitas enfrentaram os amalequitas, Moisés também recorreu ao cajado divino. Em determinado momento do confronto, Moisés teria subido em um monte onde podia ser visto por suas tropas e ergueu o objeto sobre a sua cabeça proclamando que a vitória estaria ao lado dos hebreus e que por vontade de Deus eles iriam prevalecer. Como por intercessão divina, a batalha que até então pendia claramente para o lado dos amalequitas começou a mudar de lado. De acordo com a história, sempre que Moisés fraquejava os braços e baixava o Cajado, as tropas inimigas reagiam e voltavam a vencer. Perseverante, Moisés ergueu uma vez mais o Cajado Divino e os israelitas encontraram a vitória final.

Segundo trechos da Bíblia, um dos irmãos de Moisés, Aarão, também possuía um Cajado Mágico, possivelmente o mesmo cajado, que ele usou para deflagrar a praga que transformou o Nilo em sangue. Conforme as escrituras sagradas, Aarão teria tocado a ponta do cajado em um curso de água e imediatamente ele começou a verter um líquido vermelho que se misturou ao Nilo que em pouco tempo se converteu em sangue. Alguns textos apócrifos afirmam que o Cajado de Deus também teria tido papel importante para liberar a peste das Moscas e dos Gafanhotos, uma vez que teria sido o objeto que comandou os animais a atacar os egípcios.

Contudo, nenhum feito realizado por Moisés ou Aarão usando o cajado maravilhoso se iguala ao colossal milagre de dividir as águas do Mar Vermelho para permitir a travessia do seu povo que era perseguido pelos egípcios.


A Bíblia diz que Moisés tomou a frente de seu povo, carregando o Cajado e com ele tocou a água. Em seguida, erguendo o Cajado fez com que as águas do Mar Vermelho se afastassem como se uma parede invisível a empurrasse. Com isso, formou-se um corredor através do qual as pessoas puderam passar em segurança. A façanha se manteve por várias horas (ou mesmo dias em algumas versões), permitindo que a travessia fosse feita pelo povo escolhido por Deus. A seguir, quando todos já haviam atravessado a massa de água, Moisés simplesmente baixou o cajado e as águas retornaram ao seu lugar com grandes ondas se formando. O exército do Faraó que seguia os israelitas foi então colhido pelas águas e completamente aniquilado por ela. 

É claro com histórias tão detalhadas a respeito de um artefato tão poderoso, dúvidas a respeito de seu paradeiro e existência sempre estiveram presentes. A principal teoria é que o Cajado teria sido passado de geração em geração pelos Reis da Judéia, até que o Primeiro Templo foi destruído por Nabucodonosor II após o cerco de Jerusalém em 587 a.C. 

Nessa versão dos eventos, os líderes hebreus teriam brigado entre si para decidir se o artefato deveria ou não ser usado, e por quem. Após uma acalorada discussão, as duas correntes não chegaram a uma conclusão. Há duas hipóteses do que se passou então, na primeira, o cajado teria sido destruído por ser considerado indigno a qualquer homem usá-lo. Ele teria sido quebrado no meio, fazendo com que o poder contido em seu interior se esvaísse. A segunda hipótese é que pouco antes da queda da cidade, um grupo de judeus exilados conseguiu transportá-lo para fora dos muros do templo em uma insuspeita caixa de marfim. Ele teria ficado em poder de famílias nobres que se espalharam pelo Oriente Médio, terminando na Turquia. 


Há registros de que uma peça com a aparência e descrição aproximada do Cajado esteve no tesouro mantido no Palácio de Topkapi, em Istambul no século XI. A peça teria sido adquirida junto com outras relíquias religiosas por governantes muçulmanos que as sequestraram em um ataque a uma importante sinagoga. No decorrer da Primeira Cruzada, um dos objetos que as tropas de Cristãos Europeus demandavam a devolução, era justamente o Cajado de Moisés, que muitos imaginavam, estaria em poder dos sultões.

Uma campanha militar dos Cruzados alardeou ter recuperado o Cajado Divino em uma fortaleza sarracena em Antióquia. Após dias de cerco e brutal combate, a fortaleza foi tomada e na sala do tesouro padres encontraram e reconheceram o artefato divino. Ele estava em uma caixa de marfim, envolto com um pano de tecido brocado. A relíquia uma vez recuperada foi sauidada pelas tropas, causando uma crise de prantos e louvores dos soldados. Ela seguiu então de navio para Veneza onde seria ofertado aos Doges, mas a embarcação terminou por afundar no Mar Mediterrâneo, ou assim dizem os rumores. Há no entanto outras histórias, uma muito interessante afirmando que o Navio de fato afundou, mas que o naufrágio foi proposital para que a preciosa carga fosse subtraída por pessoas interessadas em vendê-la.

Há suposições de que posteriormente o Cajado de Moisés tenha acabado nas mãos de Frederico I, chamado de Barba Rossa, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Tido como um dos mais bem sucedidos e carismáticos líderes de seu tempo, ele jamais teria usado o Cetro de Deus em causa própria. No fim de sua vida, teria entregue a relíquia a uma ordem de monges que ficaram responsáveis por mantê-lo em segurança. 

No fim das contas, como ocorre com a maioria dos objetos sagrados ninguém realmente tem ideia do que pode ter ocorrido com essa potente ferramenta dos antigos ou mesmo se ela de fato existiu.

sábado, 8 de junho de 2019

Desencaixotamento de L'Appel de Cthulhu - Abrindo a Edição Prestige da Sans Detour


Olá Cultistas e Investigadores,

Estamos de volta com mais um DESENCAIXOTAMENTO de material de RPG. 

Nesse artigo, algo muito especial: abrimos a Edition Prestige de L'Appel de Cthulhu da Editora Sans Detour, ou em bom português "Chamado de Cthulhu Edição Prestígio".

E que coisa bonita!

Quando abrimos a caixa (de quase 5 quilos), não parava de sair coisas bacanas de dentro dela: livros, material de suporte, mapas, cartas...

A Sans Detour infelizmente saiu de cena, não irá mais editar material de Chamado de Cthulhu na França, mas já deixa saudades pela qualidade gráfica e material de excelência.

Por quase dez anos eles foram uma verdadeira referência, graças a produtos como essa edição especial. Mas dizem que a editora que assumirá seu lugar promete manter o mesmo padrão, com livros e suplementos exclusivos. 

Essa Prestige Edition foi comprada no apagar das luzes, quando a Sans Detour estava limpando os seus estoques e liquidando os produtos antes da data final de encerramento de suas atividades com essa linha. Eu já conhecia, e admirava, o trabalho deles, mas essa edição especial é realmente fantástica. 





Para quem quiser, tem um artigo escrito há alguns anos a respeito desse mesmo material aqui no Mundo Tentacular: Unbox

Sem mais rodeios, vamos ao que interessa, com a abertura da caixa.

Comentários, críticas e sugestões, é claro, são muito bem vindas.

Nos vemos em um próximo desencaixotamento.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Imagens Sinistras #6 - "O Lobo em pele de cordeiro"


As regras são simples:

1) Leia o texto, deixe-se levar pelo que está escrito;
2) Imagine o ocorrido;
3) Olhe a foto;
4) E se sentir um arrepio... de nada!

A História:

A Família Geffen, residente de Albany, interior de Nova York administrava uma pequena pensão familiar na qual costumava receber viajantes de passagem a caminho da Cidade de Nova York. Muitas pessoas passavam por ali, e a família tratava todos de forma simpática. O ambiente era totalmente familiar e eles criavam suas crianças no mesmo local. Os Geffen tinham três filhos: os dois mais jovens eram Milton e Charles (que tinham 3 e 1 ano, respectivamente), a mais velha, era uma linda menina de 5 anos chamada Theresa.

Todos se encantavam por Theresa. A criança era simplesmente linda, com olhos azuis em um tom claro, bochechas rosadas e cabelos loiros. Muitos diziam que ela parecia uma boneca. Além disso, viver em uma pensão, conhecendo tantas pessoas diferentes, tornou a menina simpática e agradável com todos, mesmo estranhos.

Em ocasiões extraordinárias, a Família Geffen precisava se ausentar e por vezes, hóspedes conhecidos não se importavam de ficar de olho nas crianças. Um destes hóspedes habituais era um senhor distinto de meia idade que todos chamavam de Hamilton. Ele passava pela pensão pelo menos quatro vezes por ano, ficava uma semana antes de seguir viagem.

O Sr. Hamilton sempre foi o hóspede ideal. Tranquilo, quieto, pagava suas contas e não dava trabalho. Como vinha regularmente, os Geffen o tinham em alta estima, ele chegou a tomar conta da pequena Theresa mais de uma vez.

Hamilton deixou a pensão no dia em que essa foto foi tirada, ele pode ser visto passando atrás. Isso foi em janeiro de 1932. Como sempre, ele estava de passagem a caminho de Nova York, disse que voltaria uma semana depois e fez reserva de seu quarto habitual. Entretanto, ele não apareceu. E não apareceu mais...

Os Geffen lamentaram não ver mais seu hóspede habitual. Mas não por muito tempo.

Em Novembro de 1934, os jornais deram destaque para a prisão de um homem chamado Albert Fish em Nova York. Ele foi acusado de crimes tão brutais e perturbadores que deixaram o país inteiro chocado. Quando viram a foto que estampava os jornais com a face do monstro, os Geffen não tiveram dúvida. Albert Fish não era outro senão o Sr. Hamilton.

Aterrorizados eles conversaram com Theresa e perguntaram a ela se algum dia o Sr. Hamilton havia feito alguma coisa com ela. A menina respondeu que não, mas disse que o sempre amável Sr. Hamilton repetia a mesma coisa quando estava com ela: "Você tem muita sorte, menininha... sorte que o bicho papão não vem te pegar".

A lista hedionda de crimes de Albert Fish - que lhe valeram o apelido de "bicho papão", incluía o rapto, estupro, assassinato e consequente desmembramento e canibalismo de uma menina de 8 anos chamada Grace Budd, uma criança muito parecida com a pequena Theresa.

Os Geffen apenas podiam reconhecer: Sua filha, teve muita sorte!