sábado, 30 de agosto de 2014

Continentes Míticos - Mu, Lemúria e a Erupção do Krakatoa


Um acontecimento de tamanha magnitude como a erupção do Krakatoa, naturalmente atraiu a atenção de inúmeros pesquisadores esotéricos, ocultistas e excêntricos de todo o mundo. Na Alemanha, o célebre biólogo Ernst Haeckel, que viajou pela região de Sumatra após a tragédia do Krakatau, converteu-se em um dos maiores defensores da teoria do mítico "Continente de Lemúria". Mas nenhum ocultista conseguiu maior destaque e usou a catástrofe para advogar suas teorias do que a célebre Madame Helena Petrovska Blavatsky. Conhecida como pesquisadora do paranormal, viajante, escritora e médium auto-didata Blavatsky foi uma mulher notável que teve uma vida igualmente surpreendente.

Em 1888, influenciada por teorias sobre continentes perdidos - e também pelo que aconteceu em Krakatoa, Blavatsky publicou sua obra principal: "A Doutrina Secreta". No tratado, ela menciona a Lemúria, um continente ancestral extremamente avançado que teria sido destruído por violentas erupções vulcânicas e cujos sobreviventes teriam se espalhado pelo mundo disseminando seu conhecimento entre povos mais atrasados que por sua vez originaram as principais civilizações da antiguidade.

Segundo a teoria de Blavatsky, os continentes ancestrais (Lemúria e Hiperbórea) se caracterizavam pela instabilidade geológica causada por terremotos frequentes e erupções colossais. Um desses tremores mais fortes teria sido o causador da completa destruição do Continente e seu afundamento. Obviamente Blavatsky usou a catástrofe no Mar de Java para defender seu argumento afirmando que a destruição do Krakatau foi comparativamente uma parcela perto da que causou a destruição da Lemúria.

Madame Blavatsky
Outros estudiosos embarcaram nessas teorias controversas sem se preocupar em apresentar provas para suas teorias. O ocultista Frederick Spencer Oliver escreveu um livro intitulado "Um Habitante de Dois a Planetas" publicado em 1894. Segundo Oliver, uma colônia de lemurianos havia se instalado no Norte da Califórnia e lá ainda vivia, habitando um vasto complexo de túneis abaixo do Monte Shasta. Esses lemurianos haviam compartilhado seu conhecimento com alguns nativos americanos que posteriormente haviam caído em desgraça sendo expulsos desse mundo subterrâneo (em uma alusão semelhante a queda de Adão e Eva do Paraíso).

Na década de 1930, Guy Warren Ballard herdeiro das teorias de Oliver fundou a Foundation Society, cujo propósito era compartilhar o conhecimento dos lemurianos com alguns poucos escolhidos. Ballard conseguiu atrair algumas pessoas influentes para sua Sociedade californiana com a promessa de ensinar noções de magia e poderes psíquicos. A seu modo, Ballard foi um dos precursores de seitas que se tornariam comuns na Costa Oeste dos Estados Unidos entre as quais, a Cientologia é a mais conhecida na atualidade.

O Continente de Mu, como pesquisadores e ocultistas o chamaram, foi mencionado pela primeira vez nos trabalhos do fotógrafo, antiquário e arqueólogo amador Augustus Le Plongeon (1826-1908). Le Plongeon foi um viajante e autor de renome, que realizou suas próprias pesquisas em ruínas maias na Península de Yucatán. Ele fez a tradução de antigos hieroglifos maias e relacionou os caracteres descobertos nesses sítios maias com os de civilizações mais antigas. Uma de suas teorias controversas afirmava que os maias descendiam do povo original de Atlântida que se espalhou pelo mundo após a destruição de sua pátria. Para reforçar suas teorias, ele traduziu uma série de caracteres pré-colombianos onde supostamente era contada a história de uma terra muito avançado que havia sido engolida pelas águas do mar. O nome desse Continente era Mu.

A concepção de Mu como continente no Pacífico.
Le Plongeon via por trás desse nome uma outra designação da Atlântida, ainda que em sua concepção o famoso continente perdido se localizasse no Oceano Pacífico. Hoje, pesquisadores concordam de forma unânime que as traduções feitas por Le Plongeon eram fruto de sua imaginação. O próprio nome "Mu" não aparece em nenhum lugar dos hieróglifos que ele afirmava ter traduzido. A ideia de uma massa terrestre de tamanho similar a África, ocupando o espaço entre a Ásia e a América, lembra as teorias de naturalistas do século XIX sobre a Lemúria (outro "continente perdido").  Esta ficaria em algum ponto entre a África e a Indonésia e teria permitido a propagação de animais entre um Continente e outro.

A Mu dos ocultistas teria sido um dos berços da humanidade, responsável pelo surgimento de raças humanoides antediluvianas que iriam evoluir dando origem ao homem moderno. O conceito chegou a ser abraçado por alguns cientistas tendenciosos que motivados por teorias raciais, preferiam situar o berço da humanidade bem longe da África.

A forma como Le Plongeon tentou provar que uma massa continental afundou no mar, foi influenciada por vários mitos e histórias. Segundo ele, várias civilizações teriam se desenvolvido a partir de uma civilização central mais antiga e avançada, que desapareceu após uma catástrofe. Contudo, antes de sumir, este povo se espalhou carregando consigo seu conhecimento, oferecido para outros povos. Hoje em dia sabemos que um continente ter existido nessa região geográfica seria algo muito improvável, sobretudo pela ação de placas tectônicas, contudo, na época, as teorias de Le Plongeon foram aceitas por muitos na comunidade científica.

O Êxodo de Mu
Um contemporâneo de Le Plongeon, o arqueólogo e autor de textos esotéricos James Churchward (1852-1936) continuou a pesquisar a existência de Mu. Ele escreveu várias dissertações sobre o tema e defendeu sua existência em palestras e seminários. Em 1926 ele publicou suas teorias no trabalho "O Continente Perdido de Mu" (título original "The Lost Continent of Mu"). Neste livro e nos seguintes, ele afirmava ser capaz de provar a existência factual de Mu. Segundo as teorias de Churchward, Mu se estendia desde o ponto ao Norte do Havaí até o sul dos arquipélagos de Fiji e da Ilha de Páscoa.

Churchward descrevia Mu como um verdadeiro Jardim do Éden e a residência de aproximadamente 64 milhões de habitantes, que ele batizou de Naacals. Essa civilização teve seu apogeu a sessenta mil anos no passado, quando atingiu um estágio de avanço tecnológico superior a da humanidade contemporânea. Segundo o arqueólogo eles foram os responsáveis por colonizar regiões distantes que hoje correspondem a territórios na Índia, Pérsia, Babilônia, Egito e Peru, onde deixaram vestígios de sua passagem. O continente, segundo os escritos de Churchward teria desaparecido após um maremoto devastador (ou um tsunami) que o mandou para as profundezas marinhas. O Havaí e a Ilha da Páscoa seriam os últimos resquícios de terra, correspondente a áreas mais elevadas, que originalmente pertenceriam a Mu e que teriam escapado da catástrofe.


Churchward afirmava que suas controversas teorias decorriam de uma série de tábuas de pedra e placas de argila cozida que ele havia desenterrado em templos na Índia e no Tibet. Esses artefatos estariam cobertos de hieroglifos desconhecidos, extremamente complexos. O arqueólogo teria conseguido decifrá-los usando como base vários outros idiomas pertencentes a povos antigos, em especial os caracteres maias. Ele batizou os primeiros artefatos que encontrou com o nome "Tabletes de Naacal". A maioria dos pesquisadores duvidam que Churchward, mesmo com seu profundo conhecimento do idioma Maia, seria capaz de relacioná-lo com outro idioma desconhecido.

As Ruínas do velho continente perdido ainda se espalham pelo mundo.
Mais questionável ainda foi o destino desses misteriosos artefatos repletos de hieroglifos. Segundo o arqueólogo eles teriam sido confiscados por sábios hindus que consideravam o conhecimento descrito neles, sagrado e proibido para ocidentais. Churchward afirmou até o fim de sua vida que o local onde as placas estavam guardadas, foi pilhado por uma multidão à serviço de líderes locais que ordenaram que eles se apossassem dos objetos. Esse episódio, impediu que outros estudiosos analisassem as placas e levantou sérias dúvidas a respeito de sua existência.

A despeito da descrença de seus colegas, Churchward apresentou o resultado de sua tradução dos Tabletes de Naacal com grande estardalhaço. Uma série de palestras foram agendadas em grandes universidades e sociedades dedicadas ao estudo da arqueologia.

Em sua exposição Churchward apresentava a história da Terra de Mu, descrevia sua rica cultura e tradições, destacando a importância e a influência que ela teve para as civilizações posteriores. Ele tratava a religião do deus solar egípcio, como um vestígio da religião original de Mu. Rá, sob outro nome, seria a divindade principal do Povo de Mu, por definição o Sol seria a morada dos deuses.


Apesar da maioria das teorias de Churchward e De Plangeon serem refutadas pela comunidade científica internacional, elas tiveram grande influência no nascimento do que se convencionou chamar de Ciência Esotérica, um ramo científico especulatório que encontrou um lugar de destaque entre teosofistas no final do século XIX.

A fuga de Mu para diferentes regiões do planeta explicaria semelhanças culturais?
Um dos fatos mais inusitados a respeito de Mu diz respeito ao inesperado interesse de Ataturk, fundador da Moderna República da Turquia em buscar o continente perdido. Ele considerava Mu como uma possível terra natal de seu povo e se esforçou em tentar encontrar vestígios dela. Os turcos teriam em meados da década de 1930 patrocinado ao menos duas expedições arqueológicas em busca de Mu visando provar sua relação com a moderna Turquia. Contudo, nenhuma expedição teve sucesso na empreitada.

Os rumores recorrentes a respeito da descoberta de pirâmides e até cidades inteiras no fundo do mar acabaram fornecendo aos teóricos de Mu um novo fôlego. Eles começaram a relacionar algumas estruturas submersas como as da Costa de Pohnpei no Mar do Norte e Yanaguni no sul do Japão, com ruínas da mítica Mu, considerando que estes seriam postos avançados ou colônias da antiga civilização. Eles defendiam que os navegadores de Mu, teriam se lançado ao mar e conquistado terras distantes, usando rotas de comércio com cidades portuárias fundadas na Ásia e América.

Quanto ao continente em si, suas ruínas deveriam estar inacessíveis e dificilmente seriam um dia encontradas já que alguns pontos do Pacífico tem mais de 11 quilômetros de profundidade. Além disso, toda a região, onde Mu supostamente estaria localizada, era instável, sofrendo com frequentes abalos sísmicos. Violentos terremotos e maremotos poderiam ter causado a destruição de estruturas inteiras, transformando templos e palácios em nada além de escombros que em nada lembravam sua antiga glória.

Sem provas físicas para amparar suas teorias, os pesquisadores tentavam comparar os costumes de diferentes civilizações que eles acreditavam, descendiam do povo de Mu. Um dos métodos envolvia estudar as religiões das civilizações costeiras. Algumas semelhanças foram descobertas, como por exemplo, a arquitetura similar dos templos erguidos pelos antigos habitantes de Okinawa e o povo que um dia viveu na Polinésia. Também havia semelhanças nos rituais fúnebres praticados pelo povo pré-histórico de Pachacamac, que viveu no atual Peru, com o de tribos que habitaram as ilhas do Havaí. A maneira como eles preparavam o sepultamento de seus mortos era incrivelmente parecida, o que levou alguns teóricos a ponderar que as duas religiões tiveram a mesma base.

E ainda hoje, ruínas são encontradas remetendo a mítica Mu.
Atualmente, a ciência é capaz de contradizer todas teorias sobre a existência factual de Mu. 

A geologia descartou a possibilidade de um dia ter existido um continente neste trecho do Pacífico. De acordo com a teoria das placas tectônicas, que foi extensivamente comprovada nos últimos 40 anos, não seria possível que uma massa de proporções continentais simplesmente afundasse no mar. Seria possível que uma extensa massa de terra se quebrasse ou dividisse, mas isso ocorreria em um longo período de tempo, compreendendo centenas de milhões de anos, ou seja muito antes de que vida humana pudesse se estabelecer nesse lugar. Também inexiste nos registros geológicos algo que pudesse ter "destruído" um continente. Se tal hecatombe tivesse ocorrido, haveriam destroços evidenciando esse acontecimento significativo. Missões submarinas que exploraram as trincheiras oceânicas não localizaram nenhum traço de construções submersas. Finalmente, também foi provado que as Ilhas do Pacífico não são parte de uma grande massa de terra, mas formações decorrentes de atividade vulcânica.

Mas se as provas que excluem a existência de Mu são conclusivas, porque teorias sobre o continente perdido continuam encontrando fiéis defensores? Haveria alguma verdade sobre Mu ainda esperando vir à tona?

Isso apenas o futuro, ou talvez nem mesmo ele, poderá um dia dizer...

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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Nas Montanhas dos Pinguins - Cientistas descobrem indícios de uma espécie extinta de pinguim gigante


Ossos de dimensões colossais pertencentes a uma espécie extinta de pinguins, a Palaeeudyptes klekowskii foram descobertos em uma ilha na Península Antártida. De acordo com um novo estudo publicado na revista científica Comptes Rendus Palevol na semana passada, esses ossos recém encontrados pertenciam a uma espécie de pinguim que podia atingir dois metros de altura, sendo o maior e mais pesado pinguim jamais visto. 
O biólogo Thomas Huxley descobriu o genus de um pinguim gigante chamado Palaeeudyptes em meados de 1859, e desde então, quatro subespécies foram identificadas. O Palaeeudyptes klekowskii, descrito em 1990, é o maior do genus, e viveu entre 37 e 40 milhões de anos atrás. Aquela foi "uma época perfeita para os pinguins, quando algo entre 10 e 14 espécies diferentes viviam juntas na costa Antártida", disse Carolina Acosta Hospitaleche do Museu de La Plata na Argentina.
Pinguins azuis atualmente não ultrapassam os 40 centímetros de altura, enquanto o maior da espécie conhecido como Pinguim Imperador, atinge no máximo 116 centímetros. Contudo, incluindo os pinguins extintos, a média de altura das aves é ainda mais heterogênea. O menor pinguim é o Eretiscus tonni da Patagônia, que mede apenas 35 centímetros e pesa 0.94 quilos. Até então, o maior pinguim primitivo era o extinto Anthropornis nordenskjoeldi, com 166.3 centímetros de altura e que pesava 82 quilos e 800 gramas.  
Em sua nova tese, Hospitaleche descreve os ossos da espécie Palaeeudyptes klekowskii como “de tamanho assombroso.” O tarso e metatarso (ossos longos da perna que se formam a partir da fusão de duas estruturas) e fragmentos do úmero (a parte da asa) são reminiscentes do Período final do Eoceneoe foram desenterrados na Ilha de Seymour.
De acordo com as estimativas, o metatarso - que mede  9.13 centímetros de comprimento - pertence ao "maior e mais impressionante pinguim" descrito até o momento. O animal teria aproximadamente 2 metros de altura, pesando mais de 115 quilos. Mesmo que o úmero não possa ser usado como referencial apropriado para determinar o tamanho do animal, é lógico através da mera observação que ele pertence a uma ave de grandes proporções. Na imagem acima é possível ver a localização dos ossos encontrados. 
Esta enorme ave era provavelmente um pinguim piscívoro (se alimentando de peixes), com uma grande capacidade respiratória e capacidade de mergulho para caçar suas presas. Ele poderia ficar de baixo da água por mais de 40 minutos.  
A Ilha de Seymour já revelou outros fósseis de pinguins e se mostra um ambiente propício para a descoberta de outras ossadas uma vez que é habitado por pinguins há milhões de anos. 

*     *     *

Baseado na descoberta desse animal, é impossível não lembrar dos Pinguins Albinos de "Nas Montanhas da Loucura" de H.P. Lovecraft. 












"De repente, uma bojuda forma branca se destacou à nossa frente e lançamos a luz da segunda lanterna sobre ela... a coisa branca, bamboleante, tinha seis pés de altura (dois metros), mas logo nos pareceu que não era um daqueles outros. Veio então um instante de relaxamento quando a forma se moveu em direção a uma arcada lateral à nossa esquerda  para se reunir a outras duas da mesma espécie que a chamavam em tons roucos, pois tratava-se mesmo de um pinguim, ainda que de uma espécie enorme, desconhecida, maior do que o maior dos pinguins reais conhecidos, e monstruosa na sua combinação de albinismo e virtual ausência de olhos".

Segundo a Lovecraft wikia:
Os Pinguins Albinos (Aptenodytes albus) encontrados pela Expedição Miskatonic são uma espécie fictícia criada por H.P. Lovecraft em sua novela de 1936. O narrador William Dyer, os descreve como animais estranhos e massivos medindo quase dois metros de altura.

Segundo Dyer, o pinguim por eles encontrado é descendente de uma espécie mais arcaica vista em esculturas e entalhes de baixo relevo feitos pela Raça Ancestral (Elder Things). Quando a temperatura na Antártida tornou-se glacial, os animais retrocederam para o interior dos túneis subterrâneos do abismo que levava à Cidade da Grande Raça. Milênios na escuridão perene desse abismo "destruiu a pigmentação e atrofiou os seus olhos até quase desaparecerem".



Eu me pergunto se a visão de tais pinguins gigantes e estranhos poderia motivar algum custo de sanidade. Mas acho que aqui, o que incomoda é a percepção de que essas aves sofreram mudanças graça ao seu confinamento abissal que as fez brancas e tornou seus olhos inúteis na eterna escuridão. É a prova d eque a natureza, diferente do Mythos é capaz de se adaptar e se conformar com o ambiente. Já as criaturas ancestrais, passados milhões de anos continuavam fundamentalmente iguais pois o tempo nada significa para esses seres.

É uma sacada interessante que eu só me dei conta após concluir esse artigo. 

domingo, 24 de agosto de 2014

Explorando os Mythos mais Obscuros: Ghatanathoa - O Abominável Senhor do Vulcão


Ghatanathoa é uma força ancestral, um Grande Antigo reverenciado quase que exclusivamente no passado remoto da humanidade. A razão para essa entidade ser mais temida do que venerada é o horror que recai sobre qualquer mortal que tem um vislumbre de sua forma detestável.

Existem muitas lendas a respeito de Ghatanathoa e hoje não se pode dizer ao certo quais são verdadeiros e quais são o resultado dos murmúrios de videntes insanos.

Há rumores de que Ghatanathoa foi trazido para a Terra por intermédio dos Fungos de Yugoth para ser usado como arma contra o Grande Cthulhu e suas crias da distante Xoth numa das várias guerras ocorridas na pré-história do nosso planeta. 

Sobre a origem dele, pouco se sabe, alguns acreditam que a criatura pode ter sido construída artificialmente nos laboratórios dos Mi-Go ou ter sido capturada pelos implacáveis fungos em um dos inúmeros mundos que eles colonizaram. Subjugado e trazido para a Terra, Ghatanathoa se rebelou quando os Mi-Go não conseguiram forçá-lo em seus planos de conquista. Outros especulam que Ghatanathoa possa ser um dos três irmãos - os outros sendo Zoth-Ommog e Ithogtha, gerados pelo próprio Cthulhu. Tais rumores não podem ser corroborados e sem dúvida seriam considerados heréticos pelos sacerdotes que um dia se prostraram perante esse horror blasfemo.


A mais antiga morada conhecida de Ghatanathoa se localiza nas cavernas insondáveis sob o Monte Yaddith-Gho, na agora submersa Terra de Mu. O Povo de Mu realizava sacrifícios em homenagem ao Deus e seus sacerdotes, afirmavam que se sua vontade não fosse obedecida, ele viria à superfície e destruiria a humanidade, tamanha sua cólera. A congregação devotada ao Deus das Profundezas selecionava os sacrifícios entre os habitantes mais belos e saudáveis de suas cidades, preferencialmente mulheres e crianças que eram colocadas em liteiras e carregadas por escravos eunucos, cobertas em seda e ouro para às profundezas de onde jamais retornavam. Nessas câmaras abismais, vítimas paralisadas como estátuas repousavam com as faces tomadas pelo mais absoluto terror. Alguns poucos sátrapas se devotavam a tarefa de servir o Senhor das Profundezas em sua morada profana. Esses "homens santos", perfuravam os próprios olhos para que cegos ficassem imunes a forma malévola de seu Deus. Eles vestiam máscaras de ouro sobre o rosto, com esmeraldas enfiadas nas órbitas vazias.

Dizem que o culto se tornou demasiado ambicioso e decadente. Nas profundas cavernas os sacerdotes comungaram com horrores incorpóreos e malignos, os legendários Lloigor. Estes teriam pervertido cada aspecto da religião de Ghatanathoa transformando-a numa crença ainda mais impiedosa, baseada exclusivamente na submissão. Os Lloigor desejavam conquistar a Terra de Mu e para isso se infiltraram no culto, assumindo a forma de répteis para lançar o terror no coração dos homens. Com efeito, o culto passou a ser temido em toda Mu.

Uma lenda muito antiga, relatada nas páginas do Unaussprechlichen Kulten, cita um herói de nome T'yog que ousou desafiar o Culto de Ghatanathoa. T'yog era um protegido da Deusa Mãe Shub-Niggurath, nutrido desde a infância com o leite negro que o tornou um poderoso guerreiro. Ele teria escrito um manuscrito místico no couro de um pássaro Shantak que o protegeria dos efeitos danosos da presença do Deus. O herói resolveu se aventurar nas cavernas de Yaddith-Gho a fim de enfrentar o deus face a face. Diz a lenda que os Lloigor descobriram o plano e conseguiram roubar o manuscrito, trocando-o por outro que seria inútil. T'yog jamais retornou de sua jornada e seu destino permanece um mistério.


Após esse acontecimento, o Culto de Ghatanathoa se tornou ainda mais influente em Mu. Seus seguidores fanáticos desafiaram as outras seitas e derrubaram as paredes dos templos rivais. O tabernáculo de Zoth-Ommog, o Santuário de Ythogtha e até mesmo o sacrário dedicado ao Grande Cthulhu foram invadidos e pilhados. Mas o pior estava reservado ao templo de Shub-Niggurath que foi queimado até o chão. Antes de aniquilar o lugar, os fanáticos humilharam as prostitutas consagradas e assassinaram as crianças nutridas com leite negro. A ação foi tão atroz que incontáveis seguidores dessas seitas cometeram suicídio, imolando seus corpos em chamas como forma de implorar aos seus deuses que ouvissem seu apelo e fizessem cair sobre o Culto de Ghatanathoa uma vingança implacável.

Um dos alto-sacerdotes de Mu, o poderoso feiticeiro Zanthu que servia a Ythogtha tomou para si a missão de retribuir a afronta sofrida. Usando uma fórmula descoberta na biblioteca da cidade-estado, ele provocou o despertar de Ythogtha que habitava uma fissura submarina abaixo de Mu. O resultado foi um terremoto marítimo e consequentemente uma onda colossal que varreu o continente e decretou a sua aniquilação. Zanthu e alguns poucos aprendizes, deixaram a nação em carruagens voadoras que os carregaram até o Plateau de Leng sãos e salvos.

A hecatombe fez com que Mu fosse totalmente submersa sob as ondas e quase que inteiramente esquecida. Ghatanathoa, no entanto escapou ileso da fúria marinha, ele se abrigou na parte mais profunda do Yaddith-Gho onde entrou em hibernação voluntária.

Apesar de Mu ter desaparecido para sempre, alguns seguidores de Ghatanathoa sobreviveram e foram estimulados a viajar para longe e se estabelecer em terras distantes. Com eles, viajaram alguns Lloigor que mantiveram vivo seu ministério e o desejo de um dia governar a raça humana. De acordo com Von Junz, traços do culto podem ser encontrados em K'n-yan, na Pérsia, Babilônia, África Ocidental, no México e Peru. Certos costumes, sobretudo aqueles que evocam a realização de sacrifícios humanos, praticados extensivamente por esses povos, podem ter sido influenciado pelos seguidores de Ghatanathoa. A maioria dessas crenças, entretanto, acabaram sendo absorvidas, sofrendo mudanças e transformações que apagaram quase que inteiramente seu caráter original.


O único lugar da Terra em que o Culto de Ghatanathoa preserva alguns costumes remanescentes é em algumas ilhotas do Oceano Pacífico. A presença do Grande Antigo, sepultado nas profundezas, no interior de Yaddith-Gho parece de alguma maneira afetar seus cultistas de uma maneira semelhante ao "Chamado de Cthulhu", mas com uma amplitude bem menor. Enquanto Cthulhu é capaz de tocar a mente de indivíduos em todo globo, o alcance de Ghatanathoa se limita a alguns quilômetros.

Os cultos devotados a Ghatanathoa são selvagens e primitivos, tão violentos que o primeiro contato com navegadores e exploradores invariavelmente resultou em massacre. Algumas tribos de ilhéus degenerados, vivendo nos arredores de Palau, Kiribati e Tuvalu praticavam até meados do século XVIII rituais ensinados pelos seus ancestrais que remontavam a Mu.

Fisicamente esse povo tinha olhos azuis, cabelos lisos e pele escura sendo totalmente estranhos à luz da antropologia. A maioria desses aborígenes foram extintos em guerras intertribais ou por colonizadores europeus ofendidos pelos seus costumes degradantes. Na Polinésia Francesa (no Pacífico Sul) as autoridades extinguiram os últimos nativos no início do século XX, após rebeliões e assassinatos que aterrorizaram os colonos residentes. Na década de 1920, os poucos representantes desse povo se embrenhou no coração de selvas inóspitas e ilhas desconhecidas desaparecendo quase que por completo. Mas é provável que eles ainda estejam em algum lugar ermo, conduzindo rituais abomináveis para seu Deus Abominável.

Ghatanathoa é conhecido por ser especialmente pavoroso. 


Descrito como uma criatura de proporções colossais, com uma miríade de tentáculos branquicentos e compridos, que se expandem e retraem de uma imensa massa disforme. Nessa superfície esponjosa, recoberta de um lodo esverdeado brotam órgãos sensoriais; globos oculares, fossas auriculares e verdadeiras crateras bucais que na mesma medida que surgem são sistematicamente consumidas, desaparecendo em dobras de material repelente em constante mutação. Essa massa em parte rugosa, em parte escamosa goteja constantemente uma substância insalubre que vaza como bile a partir da sua base para facilitar seu movimento de arrasto.

O Deus primevo é uma monstruosidade tão aviltante para a humanidade que o mais simples vislumbre de sua forma é capaz de fulminar todos que o encaram. A condição é conhecida pelos estudiosos do Mythos como Maldição de Ghatanathoa e incide sobre qualquer um próximo o suficiente para enxergar sua majestosa glória. Os músculos do corpo endurecem por completo, resultando numa paralisia total. Em poucos segundos, carne e tendões se tornam rijos na consistência de couro batido. A vítima se transforma numa estátua medonhamente contorcida, com uma expressão de terror indescritível em sua face transfigurada pela visão apocalíptica.


Mais inquietante é que a "maldição" afeta apenas o lado exterior. O cérebro e os órgãos internos permanecem incólumes: frescos e vivos dentro da casca petrificada, perfeitamente consciente de seu insuportável aprisionamento. Apenas a destruição do cérebro pode por um fim a esse sofrimento. De outra forma, a vítima pode permanecer nesse estado pela eternidade, sem se deteriorar ou realmente morrer ao longo de eras vindouras. Alguns lamas tibetanos conjecturam que essa condição é a mais propícia para um tipo de meditação transcendental que supostamente permitiria comungar com o universo. Uma teoria arriscada de se por à prova já que não se sabe de nenhuma forma de reverter a Maldição de Ghatanathoa. É possível que o lendário manuscrito de T'yog fosse capaz de prevenir seu portador de sofrer dessas mazelas, mas seu paradeiro é desconhecido ainda que alguns sugiram ele estar em algum lugar das Grutas de Postúmia, na Itália.

Dentre os horrores conhecidos ligados aos Mythos de Cthulhu, talvez a Maldição do Vislumbre de Ghatanathoa seja a mais aterradora. O próprio árabe louco, Abdul Alhazred escreveu no Necronomicon seu parecer a respeito dessa condição:

"Morte em vida! Vida sem morte! Para os Antigos a longa existência pode ser algo trivial, mas, para o homem comum, da longevidade não natural, só pode advir a loucura. Ainda mais quando forçado a uma condição petrificada irreversível, tal qual as vítimas da lendária górgona helênica. Não há horror maior do que os eons passando por órbitas vítreas, incapazes de registrar o significado dos séculos e diferenciá-los das horas do dia. Quebrai tais estátuas, pois assim estará demonstrando piedade e misericórdia.".

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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Krakatoa - Fogo e Fumaça com o rugido da maior erupção registrada em todos os tempos



Os vulcões da pequena ilha haviam desenvolvido atividade sísmica preocupante pouco menos de seis meses antes do desastre ocorrer no final do verão. Apesar da devastação quase apocalíptica, a erupção não seria a mais importante na história da Terra, contudo, quando a Ilha de Krakatau, também conhecida como Krakatoa, explodiu em 27 de agosto de 1883, no Estreito de Sunda entre Java e Sumatra, o evento poderia justificar sua inclusão no Livro Guinness dos Recordes.

Foi a erupção vulcânica mais violenta na história da humanidade.

Ao todo, cerca de 18 quilômetros cúbicos de cinzas e pedras foram lançados para a atmosfera durante a titânica erupção e o ​​impacto da explosão foi ouvido não apenas na Austrália, a cerca de dois mil quilômetros de distância, mas também na remota Ilha de Rodrigues a 4.700 km a leste de Krakatoa. Para se ter uma ideia do que essa distância representa, basta dizer que seria o mesmo que uma bomba explodir no Oiapoque (limite mais ao norte do Brasil) e o ruído ser ouvido em Mar del Plata, uma cidade ao sul de Buenos Aires, na Argentina (!!!).

A onda de tsunami, resultante atingiu uma altura de mais de 40 metros, devorou ilhas, consumiu a costa e o litoral criando um novo recorte nos mapas, apagou da existência centenas de aldeias deixando um rastro de destruição tão colossal que as estimativas de 36.000 mortos parecem ridículas.  Isso porque não apenas uma onda gigantesca se formou, mas uma sucessão contínua delas, uma após a outra causando uma turbulência inacreditável.

Finalmente, a energia desencadeada pela explosão foi estimada em um volume entre 900 e 2000 megatons de TNT. Não há como precisar o tamanho, por isso a variação considerável, mas de qualquer maneira, o número que for, torna comparativamente irrelevantes os 13 megatons da bomba atômica que devastou Hiroshima. A natureza é capaz de encolher a mais destruidora das armas criadas pelo homem, tornando-a... nada.

Uma fotografia de poucos meses antes da erupção atingir massa crítica.
O mais notável, é que essa erupção provavelmente não foi a primeira, a única e nem será a última. Documentos, desde a antiguidade até meados do século XVII mencionam atividade vulcânica nas ilhas do Estreito de Sunda, alguns até mais impressionantes do que esse. Não é absurdo afirmar que a história do mundo muda seu curso quando o vulcão Krakatau cospe fogo e fumaça. É bem capaz que as próximas mudanças climáticas na Terra sejam ocasionadas em decorrência do rugido desse vulcão indomável.

O terrível cenário da catástrofe deixou um vácuo silencioso de horror onde antes havia uma ilha. Tudo o que restou do epicentro da tragédia, foram detritos, lama e o mar agitado. O odor de enxofre era tão forte que seria impossível a aproximação da ilha por semanas sem o risco de intoxicação.

Até o século XIX, a Ilha de Krakatoa constituía a principal porta de entrada de embarcações que seguiam para a Índia. Elas cruzavam o Estreito de Sunda que separa as ilhas mais extensas de Java e Sumatra. Os assentamentos humanos mais importantes eram as pequenas cidades de Anyer em Java e Ketimbang no Sumatra. Atualmente parte da Indonésia, esta região integrou até a Segunda Guerra Mundial o Império Colonial Holandês no Sudeste da Ásia, as chamadas Índias Holandesas. A quase mística Batávia, conhecida como a Joia do Oriente, capital da colônia e centro do Governo Geral. Ela se situava não muito distante da atual capital de Java, Jakarta. Seus habitantes foram os primeiros a reagir diante da atividade vulcânica do Krakatau em maio 1883.

O London News noticia a colossal explosão do Krakatoa e mostra o antes e o depois.
A princípio ninguém achou que aqueles tremores de terra eram particularmente preocupantes. Os habitantes locais já estavam acostumados com os "resmungos do vulcão". A tranquilidade era tal que a primeira expedição para investigar a perturbação só foi realizada, por volta de 26 de maio, sob o comando de um engenheiro e oficial colonial chamado Schuurman. O grupo encontrou quase toda a vegetação da ilha queimada ou transformada em cinzas pelo Krakatau. Pelo menos dois dos três vulcões da ilha apresentavam atividade, o Perboewatan que ficava ao norte e o Danan ao centro pareciam ser os responsáveis diretos pela emissão de gases. Ainda restava um pouco de verde no topo do maior dos picos, o Rakata ao sul. Depois que tremores de terra em meados do mês de julho se tornaram mais intensos, o capitão e cartógrafo Ferzenaar se aventurou com seu barco em 11 de agosto, a fim de observar a atividade e medir os danos. As três crateras apresentavam rachaduras e cuspiam cinzas e fumaça de forma anormal há dias. As observações de Ferzenaar de pouco adiantariam, uma vez que semanas depois, as forças geológicas modificariam profundamente a geografia da ilha.

A cólera do Krakatau se iniciou com uma explosão inicial ouvida em Batávia no dia 26 de agosto, um domingo, e se intensificou ao longo do dia com a expulsão de cinzas e basalto incandescente, terminando com quatro colossais explosões na segunda feira por volta das 5:30 (que destruiu igualmente as vilas de Anyer e Ketimbang). Ao todo, a erupção durou 21 horas ininterruptas.

As câmaras de lava, ou caldeiras, praticamente se esvaziaram com as explosões, e expeliram milhares de toneladas de material, causando o desmoronamento do cume sobre si mesmo. A enorme quantidade de matéria magmática em contato com o mar formou um imenso tsunami que foi responsável pela maioria das mortes na catástrofe. Os vilarejos de pescadores foram engolidos pelas ondas e barcos arrastados por quilômetros para o interior das ilhas. A força da onda foi tão poderosa que derrubou um farol de 30 metros de altura e arrancou pedras pesando toneladas, atirando tudo isso contra o litoral em uma destruição sem precedente. Em termos de comparação o tsunami resultante da explosão do Krakatau foi dezesseis vezes mais poderoso que o registrado na Indonésia em 2004.

A colossal muralha de água erguida pela explosão engoliu a terra e redesenhou o litoral da maioria das ilhas
Contudo não apenas a torrente de água foi responsável por mortes: as cinzas, a poeira e o gás tóxico também fizeram a sua quota de vítimas. Os nativos que viviam a até 10 quilômetros do epicentro foram os primeiros a morrer, atingidos por um fluxo piroplásmico (vapor super-aquecido) que os cozinhou vivos em questão de segundos. Seria o mesmo que ser atingido por uma emissão de micro-ondas com 1200 graus célsius.

As cinzas e a poeira que atingiram a superfície das ilhas e o continente após a erupção, tornaram a vida dos sobreviventes um verdadeiro suplício. A mistura desses elementos, uma vez aspirada para os pulmões se solidificava de forma semelhante a cimento e não podia ser eliminada. A exposição das rochas aos vários gases alterava sua densidade fazendo com que eles flutuassem transformadas em "pedra pome". Meses após a erupção, verdadeiras jangadas flutuantes chegavam à costa oriental da África, transportando uma carga horrível; os corpos das vítimas do Krakatau aprisionadas em seu interior, como insetos capturados em âmbar.

Mesmo aqueles que apenas leram nos jornais sobre a explosão do Krakatau foram atingidos por ele diretamente. Os barógrafos para medir a pressão atmosférica e prever o tempo, impulsionados pelo movimento de relógios e muito comuns nas casas, marcavam variações gigantescas de pressão como resultado da erupção cuja nuvem, segundo determinaram os cientistas da Royal Society, se espalhou sobre 70% do planeta. A grande maioria das pessoas percebeu nos meses ou mesmo nos anos seguintes que a enorme quantidade de poeira lançada na estratosfera, criou uma série de fenômenos, às vezes magníficos, às vezes assustadores com cores incríveis. O por do sol no hemisfério norte se tornou um espetáculo fantástico: com rajadas púrpuras, alaranjadas, róseas e até mesmo esverdeadas nos céus. Os corpos celestes, luziam com uma coloração diferente em face da deformação na luminosidade de suas auréolas pelas partículas. O sol adquiriu uma coloração vermelho sangue que incidia sobre as nuvens fazendo com que elas também tomassem um tom escarlate. A noite essas mesmas nuvens escuras, pareciam fumaça de incêndios deixando bombeiros em estado de alerta constante. A partir de 1883 (e por alguns anos) a expressão "lua azul", foi mais do que um nome metafórico, já que a lua apresentava uma coloração azul-esverdeada.


Naturalmente, tais efeitos fascinavam as pessoas, sobretudo os artistas mais sensíveis a essas mudanças, especialmente pintores. É quase certo que o céu assumindo uma coloração estranha foi retratado por mestres, como Munch que em sua obra mais conhecida, "O Grito", pintou um céu alaranjado. Outros pintores da época retrataram céus com cores incomuns, influenciados não pela sua sensibilidade artística, mas justamente pelo que viam ao contemplar o firmamento. As aquarelas do inglês William Ashcroft, mostram paisagens com céus avermelhados ou de coloração violeta.

Mesmo o homem moderno não está livre da influência da catastrófica erupção do Krakatau. Os gases dispersos pelo Krakatau em 1883 causaram danos à camada de ozônio, ocasionando um resfriamento na temperatura dos oceanos até uma profundidade de 10 quilômetros. O Krakatau agravou o efeito estufa causado pela a humanidade. O nível do mar subiu 1,7 centímetros desde então. Sem a erupção, muitas ilhas tropicais talvez fossem poupada de serem submersas num futuro próximo.

Mas não apenas os efeitos naturais dramáticos, mudaram a vida dos habitantes da região. Muito mais veio no rastro da explosão do Vulcão

Os habitantes do Arquipélado de Sunda são uma mistura extraordinária de etnias. Cada povo, javaneses, malaios, sundeses possui sua própria cultura e sua própria mitologia. Embora a Indonésia na atualidade seja um país predominantemente islâmico, o mundo das lendas aborígenes está profundamente impregnado no cotidiano nessa região do pacífico e do subcontinente indiano.

Entre os habitantes de Java e Sumatra, aqueles que vivem em Sunda são considerados extremamente espiritualizados. De acordo com sua mitologia, existe uma entidade superior, ou espírito elevado que rege as montanhas, o Orang Alijeh. Ele comanda o fogo, a fumaça e seu vasto reino se encontra nas profundezas, sendo acessado apenas pelas crateras dos grandes vulcões. O Krakatau era considerado um dos portões de entrada para seu reino de chamas vivas. Naturalmente essas crenças eram tratadas pelos colonizadores holandeses como mera superstição. A partir da primeira erupção, ocorrida em 1883, os nativos começaram a culpar a presença dos povos brancos, como o motivo para a fúria repentina de Orang Alijeh. Uma redescoberta das antigas tradições se seguiu a partir de então, com nativos abandonando quaisquer costumes introduzidos pelos colonizadores e abraçando as velhas tradições de seus ancestrais. Os vulcões representavam um tipo de ligação entre a terra e as esferas celestes, e quando o vulcão lançava fumaça e cinzas nos céus, os nativos interpretavam como um sinal de que os deuses estavam profundamente insatisfeitos.

Uma rocha de coral arrancada do fundo do mar e lançada a quilômetros da costa.
Do ponto de vista cultural, a erupção de agosto de 1883 foi muito mais do que um fenômeno natural.

Os nativos interpretaram a fúria do Krakatau como um alerta de suas entidades divinas, conclamando todos a repudiar os invasores estrangeiros e se rebelar contra sua presença. Contudo, o caminho para a independência ainda seria longo, e no percurso os clamores do povo seriam reunidos em um mesmo brado sob a voz do Islã, que canalizou a resistência contra o rígido sistema colonial. Em 9 de julho de 1888, um sanguinário grupo de fanáticos religiosos fez 24 vítimas na vila de Sanedja. Todos colonos brancos arrancados de suas casas e assassinados em plena luz do dia. Uma oferenda tardia para aplacar a fúria de Orang Alijeh?

A reação das autoridades coloniais foi ainda mais violenta. Trinta e seis pessoas foram mortas nas ruas quando se recusaram a obedecer um toque de recolher. Tumultos, desordem e resistência marcou as décadas seguintes. Foi o início do declínio da colonização holandesa no Pacífico após um duradouro período de tempo.

Quando os três grandes vulcões entraram em erupção, causaram efeitos no clima e atmosfera tão dramáticos quanto os produzidos no meio-ambiente. As incríveis nuvens de cinzas foram sopradas ao redor do mundo chegando às calotas polares e florestas na Amazônia. Partículas lançadas na atmosfera contribuíram para uma queda gradual na temperatura em todo o planeta. O estudo de oceanógrafos, indica que a enorme quantidade de lava endurecida que espirrou do Krakatau elevou o nível dos mares.

Equipe de remoção na década de 1940, ainda encontravam corpos de vítimas petrificadas do Krakatau 
Em 1680, quando a capital colonial de Batavia foi fundada, os colonos recém chegados se admiravam por encontrar uma população tão pequena no interior das ilhas, a razão era simples: uma erupção há pouco menos de meio século havia reduzido os habitantes e causado uma enorme migração para outras ilhas mais afastadas. Os holandeses ouviram relatos sobre essas tragédias e consideraram que elas não passavam de lendas exageradas. Após 1883 eles tiveram de revisar suas crenças e ponderar sobre o risco de manter a colônia. Ainda que ela fosse extremamente lucrativa, fazendo a fortuna da Companhia das Indias Orientais, os relatos sobre a erupção deixaram as autoridades e a população local igualmente assustadas. O fluxo de colonos foi direcionado para a América enquanto uma quantidade cada vez maior de colonos já estabelecidos retornava. Por coincidência, na mesma época, a Companhia das Indias Orientais estava em uma luta franca contra um rival que acabaria por substituir a presença holandesa naquela região: o Império Britânico.

Mas enganam-se aqueles que pensam que o Krakatoa deu seu último rugido.

Após a destruição, o cenário não permaneceria inalterado por muito tempo. Desde 1927, um novo vulcão cresce na exata localização onde ocorreu a erupção de 1893: o Anak Krakatoa, ou o Filho do Krakatau continua crescendo. Surgido da poderosa explosão de seu predecessor ele rompeu a superfície da água em 11 de agosto de 1930, tendo sido filmado do ar. Desde então, ele cresce continuamente 50 centímetros por mês, ou seis metros por ano. Colunas de fumaça acima da cratera podem ser vistas e constituem um alerta constante de que o que aconteceu uma vez pode acontecer de novo.




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Mesa Tentacular: Cenário "The Hopeful" para Call of Cthulhu no Dungeon Carioca de Julho


E aí pessoal,

É com grande prazer que escrevo o registro de mais uma Mesa Tentacular narrada no tradicional Encontro do Dungeon Carioca, edição de Julho. O DC acontece mensalmente na Zona Oeste do Rio de Janeiro. ntes que alguém pergunte, sim essa postagem está muito atrasada.

Aproveitei a ocasião para dar o ponta-pé inicial em uma nova mini-campanha que batizei como "Horrores da Nova Inglaterra".

A ideia é conduzir uma série de investigações com uma pegada mais introspectiva de horror, utilizando as sombras e a imaginação dos jogadores de maneira mais discreta e menos evidente. O objetivo é fazer com que os personagens realmente não tenham certeza do que estão presenciando ou do pesadelo em que estão se metendo. Algo bem dentro da proposta purista de horror inominável, indescritível, impronunciável... 

Uma vez que eu sou fã de cenários mais inclinados para o gênero pulp - onde os investigadores lutam com unhas e dentes, disparando rajadas de tommy-guns e chumbo de espingardas contra hordas de cultistas ensandecidos ou aberrações tentaculares babonas e gigantescas. Esse estilo mais purista, tem sido, portanto, um desafio considerável. Na primeira aventura por exemplo, o máximo que o grupo viu foram olhos brilhando na escuridão e indivíduos bizarros que ainda assim podiam ser encarados como humanos (bem pouco, mas enfim).

A segunda proposta dessa campanha é revisitar as principais localidades que compõem a Lovecraftian Country, todas as pequenas cidades assombradas e lugarejos isolados clássicos criados por H.P. Lovecraft como pano de fundo para suas estórias mais famosas. Eu me dei conta que fazia tempo que eu não usava a Lovecraftian Country nas minhas estórias (com exceção de Arkham!). Em parte, é complicado, porque os jogadores geralmente conhecem as estórias e facilmente antecipam o que está por vir em cada uma delas. Mas longe de atrapalhar, isso acaba sendo mais um desafio; fazer com que o grupo se surpreenda com reviravoltas inesperadas em lugares notórios.

Programei a campanha para ter quatro capítulos, cada um deles situado em alguma das cidades amaldiçoadas da Nova Inglaterra - Arkham, Innsmouth, Dunwich e Kingsport.

Diferente do que acontece nos encontros, os jogadores puderam criar seus próprios personagens e estes terão a chance de progredir ao longo das aventuras, a medida que decifram alguns dos segredos mais escabrosos da Nova Inglaterra.

O primeiro cenário escolhido foi "The Hopeful" escrita por Oscar Rios e publicada no suplemento "More Adventures in Arkham Country" da Editora Miskatonic River Press.


Nesse primeiro capítulo, os investigadores, orgulhosos moradores de Arkham, são contratados por um jovem estudante da Universidade Miskatonic que teme pelo seu promissor futuro como atleta do time de natação. O grupo inicia a investigação que parece ser algo bastante convencional, banal até, mas a medida que eles começam a se aprofundar na trama, escavando segredos do passado, descobrem que nem tudo é tão simples e logo o clima de paranoia vai crescendo até descambar para a violência.

Em "The Hopeful" o grupo eventualmente é levado até a sombria cidade costeira de Innsmouth, lar da decrépita família Marsh, um clã que esconde segredos ancestrais e que há muitos séculos firmou um pacto diabólico com seres do Mythos.


O mais legal é que o desfecho do cenário poderia ser usado como desculpa perfeita para desencadear o infame Raid of Innsmouth, quando o Governo Federal e Militares do Exército Norte-Americano reclamaram a cidade das garras de criaturas das profundezas.

Eu sempre quis narrar essa aventura clássica, quem sabe dessa vez acaba rolando essa aventura contida no livro Escape from Innsmouth.


Para acompanhar o cenário preparei vários handouts para a sessão. Originalmente a aventura trazia alguns poucos documentos, mas como havia a chance de incluir mais algumas pistas caprichei nas fotografias, documentos, cartões e mensagens a serem descobertas no curso da investigação.


No fim das contas, a aventura foi bem divertida e como se trata de uma mini-campanha não quero "aniquilar" física e mentalmente os personagens, como acontece nos cenários one-shot que costumo narrar nos encontros regulares.

Vejamos até onde os intrépidos investigadores conseguirão chegar explorando as cidades que compõem a terra de Lovecraft e até onde eles conseguirão suportar as revelações que cada uma delas tem a oferecer.


Placar da primeira rodada: nenhuma baixa entre os investigadores - mas sabem como é, sempre há um dia da caça e um do caçador.

Nos veremos no próximo capítulo da campanha.