terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Três Autores e uma Carta Perdida - Uma correspondência de H.P. Lovecraft endereçada a Jorge Borges


Originalmente publicado no blog Paulistando.

Uma carta encontrada em um livro...

10 Barnes St., Providence R.I.,
                       Outubro 2, 1928    

Caro Señor Jorge Luís Borges:–

Receber uma carta de Buenos Aires, da distante Argentina, elogiando ‘The Colour Out of Space’ me deixou surpreso e encantado. Não calculava que a Amazing Stories chegasse tão longe e alcançasse leitores tão variados e interessantes. Suas observações acerca do conto são instigantes. Destaca o paradoxo de tentar descrever uma cor que induz o próprio sentido da visão ao engodo; correlaciona a poeira cinzenta, que vento nenhum dissipa, com o fim dos tempos; e lembra que sete homens testemunharam a transubstanciação da cor num raio luminoso apontado para Deneb. Depois de tudo isso não me espantou saber que é escritor, a elegância e articulação da missiva não deixam dúvidas. Desconfio também que foi alfabetizado em inglês.

Procurei Buenos Aires no globo, constatei que fica na foz de um rio, como Providence – só que muito maior. Na verdade, cada vez que examino o mapa da América do Sul embarco numa viagem de divagações.

Aquela gigantesca cordilheira que desenha a costa oeste, mais os dois rios colossais – um no norte outro no sul – entre os maiores do mundo, que drenam todo o território, não parecem coisas naturais. O subcontinente inteiro já esteve no fundo do mar, foi um dos primeiros a emergir como terra firme. Não é despropositado imaginar que tenha estreitas ligações com as lendas de Atlântida. Quem sabe, em outras idades da Terra, como nos tempos de Cthulhu, foi manipulada por forças e poderes ciclópicos. Conhece minha série de noveletas sobre este tema? Se não, terei prazer em enviar algum material.

Diferente dos confins da Ásia e da África, conhecidos há milênios como prolongamentos elásticos do imaginário europeu, a América do Sul é a nova fronteira do assombro e da novidade. Lá a realidade é mais extravagante do que a fantasia. Acredita-se que tudo é possível naquela geografia – incerta e insondável – recentemente aflorada na mentalidade ocidental. Por exemplo, meu tio Franklin C. Clark falava de um velho missionário escocês, o Pastor David Brodie, que garantia ter visitado uma tribo primitiva, os Mlch, que viviam na fase da aquisição da linguagem e da fabricação dos conceitos. Estavam passando do urro à fala. Eram poucos, infelizmente devem ter sido dizimados pelo progresso.

Por causa da saga de Cthulhu acompanho atentamente as campanhas do Coronel Percy H. Fawcett pelo coração das selvas sul-americanas. De alguma maneira nossos interesses, apesar das diferenças, convergem. O arqueólogo inglês procura comprovar a realidade das lendas, eu me contento em engendra-las. Fawcett – um herói audaz – busca a cidade perdida de ‘Z’, para ele um posto avançado, ou uma colônia, das civilizações Atlântidas ou até mais velhas. Eu – nas silenciosas noites da Providence – invento histórias sobre ruinas e seres imemoriais. Gostaria que ‘Z’ fosse encontrada, seria uma maravilhosa corroboração para os mitos que estou desenvolvendo.

Entretanto, até o momento que escrevo, o Coronel Fawcett permanece perdido nas úmidas florestas brasileiras. Em 1925, junto com seu filho mais velho, Jack Fawcett, e o fotógrafo Raleigh Rimmell, partiu numa expedição ambiciosa e temerária. O grupo não manda notícias há mais de três anos. Pelos planos pretendia explorar a região da Serra do Roncador – belíssimo e sinistro nome – e retornar até 1927. A última comunicação, de maio de 1925, é otimista, garante que a cidade de ‘Z’ existe e brevemente será alcançada. O ponto intrigante da aventura é uma instrução oblíqua que deixou antes de partir: caso não voltasse, nenhuma força de busca deveria seguir seus passos.

Nos últimos meses os jornais e revistas começaram a especular sobre o trágico destino da jornada, sugerindo hipóteses aterrorizantes: atacados por doenças ou feras, devorados por tribos canibais ou afogados em rios traiçoeiros. Cada andarilho e garimpeiro sul-americano conta uma versão diferente do encontro com Fawcett. Ou virou cacique de um grupo de indígenas primitivos; ou, desmemoriado como o Rei Lear, vaga pelas selvas sonhando com a cidade de ‘Z’; ou, rejuvenescido, vive feliz integrado a uma tribo de homens loiros de olhos azuis. A família rejeita todas estas suposições desvairadas. Declara e reitera que Fawcett continua vivo e lúcido. Paciente, aguarda o retorno triunfal do Coronel.

Por uma dessas travessuras do destino – chamadas coincidências, enquanto estava respondendo sua carta, recebi um curioso relato de um antigo correspondente residente na Flórida. Nunca sei quanto devo acreditar em Isidoro Acevedo, é um fabulista de piratas e caças aos tesouros que gasta o tempo visitando bibliotecas pelo Caribe. Contudo seus argumentos para o desaparecimento de Fawcett são inusitados e consistentes.

De acordo com o flibusteiro Isidoro, faz uns dois anos, Fawcett vive clandestinamente na costa colombiana, na Ilha de Providence (outra coincidência?), reescrevendo suas memórias. O arqueólogo, depois de vagar treze meses pelas florestas sul-americanas, com a saúde debilitada e abalado pela morte do fotógrafo Raleigh Rimmell, resolveu abandonar definitivamente a busca pela cidade perdida de ‘Z’. O problema era passar pelo constrangimento de admitir a derrota. Para contornar o impasse se juntou com garimpeiros e viajou clandestinamente para a Bolívia. De lá contatou a família e juntos tramaram um plano de ação extraordinário. Camuflar o Coronel e construir uma rede de controvérsias para obscurecer o desaparecimento do herói.

O estratagema era simples e eficaz: divulgar periodicamente novidades e contrainformações sobre o desbravador e negar taxativamente a morte do patriarca. Com essas diretrizes poderiam preservar o aventureiro romântico e manter total controle sobre a versão mais conveniente de sua biografia. O arranjo tinha uma vantagem tática valiosa: um ícone desaparecido sempre pode produzir notícias espetaculares, mesmo conflitantes. Fora o sempre adiado clímax do personagem reaparecer, se e quando necessário. Apostavam que a Historia Oficial, algum dia, adotaria como verdade esta mitografia construída e romanceada.

Meu caro J.L.B., minha resposta à sua carta enveredou para o Coronel Fawcett. Foi premeditado, porque, como este homem singular era frequentador assíduo do Brasil e da Bolívia, pode ser que tenha desaguado no Rio da Prata noticias sobre suas andanças. Se souber alguma coisa, por favor, me informe. Também, gostaria de ler seus trabalhos, afinal parece que ambos somos parodistas involuntários de Poe. Caso tenha escrito contos fantásticos em inglês, quem sabe podemos publica-los na Weird Tales, se quiser sob pseudônimo.

Publicado originalmente no blog paulistando.

Yr most obt Servt

H.P.L.

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Comentário de Monteiro Lobato com lápis vermelho:
“Quem é Jorge Luís Borges?”
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Notas:

a) A carta foi encontrada (já traduzida, datilografada e com a anotação final) dentro do livro de Monteiro Lobato – 'O Presidente Negro ou O Choque das Raças: romance americano do ano 2228’ – São Paulo/Rio de Janeiro, Cia. Editora Nacional, 1926 (Primeira Edição). Carimbo na página três: “Célia Regina Lane / professora de inglês”. Comprado num sebo do Bixiga, bairro de S. Paulo.

b) Monteiro Lobato, entre Maio de 1927 e Março de 1931, residia em Nova York e servia ao Brasil como Adido Comercial, portanto é inexplicável como esta correspondência, se verdadeira, chegou às suas mãos.

c) Algumas hipóteses, entretanto, podem ser adiantadas. Talvez, durante a tentativa de publicar o livro‘Presidente Negro’ nos Estados Unidos, alguma cópia dos originais traduzidos foi enviada a H.P. Lovecraft. E o Cavalheiro de Providence, um missivista compulsivo, por um lapso, confundiu os dois escritores sul-americanos e trocou os endereços nos envelopes.

d) Nesta vertente, não seria perdulário imaginar a existência de outra carta extraviada, de H.P. Lovecraft. para Monteiro Lobato, despachada, quase na mesma data, para J.L. Borges por engano.

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Alguns humildes comentários da minha parte:

1) Sim, eu sei... essa carta deve ser uma invenção. Não creio que Lovecraft tenha se correspondido com Jorge Luiz Borges, muito embora os dois tenham sido autores do gênero fantástico e tenham vivido no mesmo período. Embora os dois até pudessem ter algum assunto em comum (e fico imaginando que bate papo surgiria desse encontro!) não acho que Lovecraft escreveria a um colega de outra nacionalidade, menos ainda da América Latina. Borges possivelmente conheceu a obra de Lovecraft, mas isso só deve ter acontecido muitos anos depois dele ter morrido, quando seus contos foram redescobertos e republicados.

2) A ligação com Monteiro Lobato é ainda menos provável, embora realmente Lobato tenha residido em Nova York na época que Lovecraft amaldiçoava viver na vizinhança de Red Hook. Acho bem pouco provável que Lobato tenha sabido quem era Lovecraft em vida; seus interesses quanto a literatura giravam em torno de romances clássicos, contos e novelas consagradas. Lobato comprava os direitos sobre a tradução de várias obras e as publicava no Brasil, mas raramente entre essas obras havia algo de horror ou ficção fantástica ("O Médico e o Monstro" era uma exceção louvável). Lembrando que Lovecraft era quase um desconhecido, exceto por um pequeno nicho de leitores, não me parece provável que um conhecesse a existência do outro.

3) Lobato e Borges nunca chegaram a se encontrar pessoalmente - ao menos eu não determinei isso em nenhuma pesquisa. Mas é possível que dada a proximidade entre Brasil e Argentina, os autores tenham ouvido falar ou lido as obras um do outro.

4) O trecho sobre o interesse de Lovecraft na mal fadada Expedição do Coronel Percy Fawcett é uma ótima sacada. Imagino que Lovecraft deve ter manifestado interesse quanto ao destino do Explorador perdido nas profundezas das selvas brasileiras. O paradeiro do famoso aventureiro constituiu um dos grandes enigmas da época e Lovecraft, como leitor compulsivo de jornais e revistas deve ter consumido avidamente as matérias publicadas exaustivamente sobre ele.

5) Se essa carta parece, soa e tem tudo para ser uma invenção, muitos podem perguntar: "Por que então, publicar esse HOAX no Blog"? Ora, a resposta é simples: Porque é uma história simplesmente deliciosa que eu adoraria que fosse verdade. A conexão entre Lovecraft, o prodigioso cavalheiro de Providence, Borges o autor mais importante do gênero fantástico na Argentina e nosso Monteiro Lobato - que muitos conhecem apenas como o criador do "Sítio do Pica Pau Amarelo", embora ele tenha feito muito, muito mais em sua longa carreira de escritor, seria algo notável.

6) Fico imaginando um mundo perfeito em que influenciado pela obra de Lovecraft, Borges e Lobato pudessem se juntar ao famoso Círculo Lovecraftiano e escrever contos de horror cósmico envolvendo os Mitos de Cthulhu. O que poderia surgir dessa mistura? De que forma, o inquieto autor paulistano (nascido em Taubaté) poderia inserir os horrores do Mitos no cenário tropical do Brasil? 

Imaginar tal coisa, já me faz salivar...

sábado, 6 de fevereiro de 2016

5000 Palavras - Carta assinada por H. P. Lovecraft descoberta em arquivo


James Machin é um estudante com PhD em Birkbeck, na Universidade de London, trabalhando em uma tese a respeito dos pioneiros do gênero ficção fantástica (weird fiction), em meados de 1880 até 1914. Ele também é o editor do jornal Faunus, dedicado a Arthur Machen. Suas pesquisas no Ransom Center foram patrocinadas por um Fundo da Universidade do Texas.

Ele escreve aqui a respeito de uma sensacional descoberta envolvendo H.P. Lovecraft:

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Uma das alegrias do trabalho como pesquisador de arquivos é seguir seus próprios instintos e satisfazer a curiosidade pesquisando o que bem entender. O tema central de minha tese são os pioneiros da Fantasia Fantástica, e embora a maior parte do meu tempo nas bibliotecas seja utilizado para investigar material relacionado a autores da década de 1890 como Arthur Machen, M. P. Shiel, e John Buchan, eu não consegui resistir a procurar material de H. P. Lovecraft no velho catálogo da biblioteca no Ranson Center. Curiosamente, em minha busca, encontrei um único item listado no cartão de referência: uma carta de Lovecraft endereçada a J. C. Henneberger. 

O nome era bastante familiar: Henneberger era o editor que fundou a revista Weird Tales em 1920, um dos principais títulos no gênero pulp que é lembrado atualmente por ter publicado vários trabalhos importantes, não apenas de H. P. Lovecraft mas de outros escritores muito populares nos dias atuais. 


A carta tinha várias páginas, escritas com uma máquina de escrever modesta e enviada em um papel de carta com a epígrafe constando o endereço do remetente: 598 Angell Street, Providence, Rhode Island. Para quem não sabe, esse era o endereço da casa para onde Lovecraft se mudou com a família em 1904 após a morte de seu avô Whiple Phillips. A data da correspondência, é 2 de fevereiro de 1924. Um ano significativo na vida de Lovecraft, já que ele estava prestes a deixar seu lar de quase duas décadas para se casar com sua noiva Sonia Haft Greene e se mudar para o Brooklyn, Nova York. Lovecraft lutou para encontrar trabalho, o casamento descambou e muitos apontam esse período como sendo o início de seus muitos problemas pessoais e frustrações profissionais.

Pouco depois de escrever essa carta, Henneberger ofereceu a Lovecraft um trabalho como editor na sede da Weird Tales em Chicago. Se Lovecraft tivesse agarrado essa oportunidade com unhas e dentes, a história de sua vida e de sua carreira poderia ter sido muito diferente. Ele poderia ter se estabelecido como autor, como o homem de letras que nasceu para ser, evitando assim a humilhação (ao menos na sua concepção) de ser "apenas" um escritor de ficção barata. Com certeza, esse trabalho teria ajudado a afastar a pobreza e a obscuridade na qual ele viveu seus últimos anos de vida.

O estudioso e biógrafo S. T. Joshi, especialista na carreira de Lovecraft, identificou algumas razões pelas quais ele tomou sua decisão. Na época Sonia Greene já estava estabelecida em Nova York, com um trabalho que lhe rendia um bom retorno financeiro, além disso, ela era uma designer de chapéus com algum sucesso já conquistado e sua carreira tinha a perspectiva de deslanchar. Sem dúvida, Sonia ganhava mais dinheiro que Lovecraft e aparentemente, o casal tinha um pensamento bastante progressista quanto a garantir o sustento da família, dando preferência para aquele que tinha um trabalho mais rentável.

Além disso, Lovecraft devia saber que a Weird Tales se encontrava nessa época em dificuldades financeiras com um débito na casa dos milhares de dólares. Ele tinha sérias dúvidas quanto a manutenção da revista e se ela conseguiria se equilibrar por muito tempo. Mas talvez o mais importante tenha sido o fato de Lovecraft achar que não haviam suficientes autores do gênero, ao menos não de qualidade, capazes de escrever regularmente para a revista. 

A carta encontrada menciona exatamente essa preocupação de Lovecraft e vai além, ao falar da sua preocupação com o interesse do grande público em ficção de qualidade. Lovecraft deixa claro seu ponto de vista ao descrever seu desgosto com "toda a atmosfera e temperamento do negócio de ficção na América". Para Lovecraft, o problema era a cultura contemporânea:


"Nós temos milhões de pessoas simplesmente destituídas de independência intelectual, coragem, e flexibilidade para atingir o nível artístico necessário para criar estórias com colorido e vivacidade de emoções. Ao invés disso, temos argumentos simples e artificiais de sobra, valores adocicados sem mistérios profundos, sendo apreciados pela frívola compreensão de leitores medíocres. Esse é o tipo do público que os editores tem que confrontar, e apenas um tolo ou um autor fracassado poderia culpar os editores pelas atuais condições, causadas não por eles, mas por toda essência da história tradicional de nossa civilização" .

A frustração de Lovecraft com a timidez com que os autores de sua época tratavam os leitores, não poderia ser expressa em termos mais diretos do que o trecho acima. 

Em outro ponto de sua carta (que tem mais de 5,000 palavras), Lovecraft menciona dois projetos para novelas Azathoth e The House of the Worm, nenhuma das quais se materializou. Ele reflete longamente a respeito dos elementos presentes em uma boa estória de ficção fantástica, e é generoso e entusiasta nas recomendações de autores que considera como boas aquisições para a Weird Tales. Ele também enuncia o que considera como sendo o melhor curso de ação para a Weird Tales obter sucesso: contratar jovens ghost-writers e aceitar trabalhos de iniciantes, não para serem publicados, mas para identificar aqueles com originalidade. 

É difícil não especular o que teria acontecido se Lovecraft tivesse aceitado o serviço em Chicago. Essa ideia de lidar com jovens autores e encontrar novos talentos inevitavelmente levaria a aumentar as fileiras do seu famoso "Círculo Lovecraftiano" (autores imersos nos Mythos de Cthulhu que se apropriavam de elementos por ele criados e que em contrapartida ajudavam a expandir a mitologia). Lovecraft com sua rara capacidade de reconhecer autores tão bons quanto ele próprio, poderia ter ajudado a impulsionar a carreira de outros talentos de sua época como aconteceu com Clark Ashton Smith, Robert E. Howard, e Robert Bloch.

Infelizmente, nunca saberemos...

Mas no final das contas, as coisas não foram tão ruins quanto Lovecraft previu: a despeito de seus problemas financeiros e a precariedade de seu primeiro ano, a Weird Tales sobreviveu e conseguiu se estabelecer. Quem pode dizer se com Lovecarft à frente da editora, mantendo seu ponto de vista purista e não-comercial o mesmo aconteceria? Talvez sua política terminasse por afundar a revista de uma vez por todas.

Talvez aqueles entre nós, que admiramos a literatura pulp do início do século XX e sua influência cultural duradoura, tenhamos de simplesmente ser gratos a Henneberger por ter criado a Weird Tales, por ter reconhecido o trabalho de Lovecraft (Henneberger se esforçava para que seu editor Edwin Baird aceitasse os trabalhos enviados por Lovercaft), e por ter fornecido uma plataforma para escritores de um gênero até então tido como sub-literatura. Se não fosse pelo entusiasmo e esforço de Henneberger, provavelmente muitas estórias de Lovecraft jamais tivessem visto a luz do dia, permanecendo esquecidas no fundo de uma gaveta.


A questão a respeito da proveniência da carta e como ela foi parar no arquivo do Centro Ransom continuam me surpreendendo. Ela era apenas um item esquecido na coleção. Rick Watson que trabalha no arquivo gentilmente investigou mais um pouco sobre sua origem e contou que a carta provavelmente era parte da coleção de Albert Davis ou Messmore Kendall, originalmente adquiridas pela Universidade do Texas entre 1956 e 1958. Quando eu fiquei sabendo que a coleção de Messmore Kendall (1872–195), um advogado e empresário teatral, incluía material pertencente a Harry Houdini, o mistério aparentemente se resolveu por conta própria. Na mesma época em que Lovecraft escreveu essa carta, Henneberger o havia contratado para ser ghost-writer de uma estória concebida por Houdini chamada "Imprisoned With the Pharoahs" (Aprisionado com os Faraós) publicada no ano seguinte pela Weird Tales. Parece ser uma suposição razoável que Henneberger tenha entregue a carta a Houdini pouco depois de recebê-la para demonstrar a capacidade de Lovecraft como escritor e sua perspicácia a respeito do futuro da ficção fantástica.

Graças ao Ranson Center, nós ainda podemos desfrutar de seu discernimento quase um século depois.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Arkham para The Strange - Criando uma Recursão baseada em Lovecraft


Arkham é uma recursão pequena. Em aparência ela se assemelha a uma cidadezinha de 50 mil habitantes, construída na região da Nova Inglaterra, no leste dos Estados Unidos. Tudo em Arkham remete ao período conhecido como Roaring Twenties, os anos de excesso, progresso e transformação na sociedade americana no período entre guerras.

Em Arkham o ano é sempre 1928, a estação é sempre outono e o tempo constantemente chuvoso.

Sendo uma típica cidade do interior da Nova Inglaterra no início do século XX, Arkham apresenta um panorama bastante pitoresco e até certo ponto idílico do período. As pessoas são educadas e tranquilas, embora um tanto desconfiadas de forasteiros, com um sotaque, típico do leste. As vias públicas possuem calçamento de pedra e estradas asfaltadas por onde transitam automóveis. As ruas e vielas conduzem para praças arborizadas com coretos e monumentos em homenagem a heróis locais. As construções são baixas com forte influência arquitetônica do período colonial, algumas casas ainda são originais prevalecendo as mansões georgianas, os sobrados de pedra e algumas construções vitorianas com cercas de ferro batido. Ainda que pequena, Arkham é uma cidade cosmopolita, com cinemas, restaurantes e teatros. O jazz anima as noites nos bares clandestinos abastecidos com bourbon e gin de banheira produzido por contrabandistas burlando a Lei Seca.

A cidade é antiga, contemporânea do período colonial, construída pelos primeiros colonos vindos da Grã-Bretanha no século XVI. Muitas das famílias mais antigas e influentes de Arkham conseguem traçar sua árvore genealógica até os dias da colonização. Alguns deles afirmam até que vieram para a América à bordo do Mayflower e é possível que não estejam apenas contando vantagem.

A cidade foi fundada em 1692, por colonos que deixaram a região da vizinha Salem, habitada majoritariamente por puritanos. Os primeiros moradores de Arkham desejavam uma comunidade mais aberta e tolerante, sobretudo após os acontecimentos da Caça às Bruxas. Eles se fixaram no Vale do Rio Miskatonic, uma região cercada de florestas densas e escuras, entrecortada pelo sinuoso Rio Miskatonic. A pedra de fundação foi colocada na margem oeste do rio, onde hoje se localiza o distrito de French Hill. A cidade perseverou, enfrentando ataques de tribos nativas que habitavam as cercanias, ocasionais enxentes, a ameaça de piratas e o flagelo de pestes. Durante a Guerra de Independência, Arkham cedeu vários de seus cidadãos que tiveram importante papel na luta pela liberdade diante da coroa britânica. Pela sua proximidade do mar, Arkham se tornou um porto através do qual os patriotas contrabandeavam armas, munições e suprimentos. A independência impulsionou o desenvolvimento da cidade e a construção do Porto. Isso permitiu o estabelecimento de pequenas indústrias, em especial de construção naval, transporte de mercadorias e têxteis. Durante a Guerra Civil americana, Arkham foi um porto importante onde soldados da União embarcavam à caminho do front.

Na virada do século, Arkham recebeu um grande fluxo de imigrantes vindos de todas as partes da Europa: espanhóis, irlandeses, italianos, alemães e poloneses. Esses povos com suas línguas e costumes diferentes se fixaram principalmente nas áreas marginais do Rio Miskatonic, frequentemente sujeitas a cheias. A explosão populacional e ocupação desordenada fez com que Arkham dobrasse sua população espremida em cortiços decadentes e casebres humildes. As condições de vida ali são insalubres, imperando doenças e vícios. Várias casas até então abandonadas foram ocupadas e outras tantas demolidas. A cidade experimentou uma expansão no setor de construção e infraestrutura. Os moradores mais antigos obviamente não aprovaram a vinda desses barulhentos estrangeiros que aos olhos dos mais tradicionais representam uma grave ruptura na sua serenidade

Características da Recursão Arkham:



Como todas as Recursões no Strange, a Recursão Arkham possui as suas próprias peculiaridades.

- Sendo uma Recursão de pequenas dimensões territoriais, Arkham não possui cidades vizinhas que possam ser acessadas. Embora existam ruas, estradas, portos e mesmo linhas férreas, estas ligam a cidade a lugar nenhum. Um explorador viajando através de uma dessas vias irá encontrar apenas uma estrada aparentemente sem fim, que depois de algum tempo conduz de volta ao centro de Arkham. Moradores não tem consciência da inexistência de fronteiras e quando tentam deixar a cidade simplesmente retornam para Arkham acreditando terem deixado o lugar por algum tempo e visitado outras localidades.

- A única exceção a essa regra concernente a localidades vizinhas é a Cidade/ Recursão Innsmouth, uma cidade costeira habitada por horrores anfíbios e híbridos meio humanos-meio peixes. Para mais detalhes ver o livro básico p. 253. A conexão é feita através de um veículo, no caso um ônibus que leva os exploradores da praça central de Arkham até o centro de Innsmouth.

- Arkham possui um nível de tecnologia semelhante ao da América nos anos 1920. As pessoas tem acesso a tecnologia condizente com o período, sabem ler e escrever e se comportam de modo racional. Ao mesmo tempo, a maioria dos habitantes inconscientemente encara Arkham como se ela fosse o centro do mundo: as notícias nos jornais se referem quase exclusivamente a acontecimentos locais, s maioria dos governantes nasceram na cidade ou em seus arredores e a vida em cidades grandes (como Boston ou Nova York) não atrai os locais a deixar a cidade. De fato, mesmo os "forasteiros" vivendo em Arkham sentem um desejo de ficar aqui e não abandonar a região mesmo aqueles que afirmam terem negócios, família ou assuntos pessoais em outras paragens.

- Magia existe nessa recursão, mas felizmente se manifesta de forma bastante discreta. Não espere explosões de bolas de fogo, raios de energia ou outros feitiços pirotécnicos. A Magia presente nessa Recursão tem origem ritualística e é extremamente complexa, sem falar de altamente instável. A exceção são as magias e rituais destinados a invocação e evocação de entidades e criaturas. Em Arkham seres bizarros podem ser trazidos dos recessos do espaço/ tempo, bem como de outras recursões.

- No que tange a magias, apenas indivíduos envolvidos com cultos, divindades malignas e entidades bizarras controlam tais energias arcanas. Todas as outras pessoas que tentam se envolver com magia experimentam uma acentuada deterioração mental culminando com insanidade. Mesmo exploradores envolvidos com magia podem ser vítimas de efeitos colaterais afetando seu juízo e percepção. De um modo geral, alucinações, fobias e terrores são mais insidiosos e encontram mais facilmente a mente das pessoas vivendo em Arkham.

-  Arkham também possui acesso a Ciência Louca. Diferente de Magia, os equipamentos e instrumentos de tecnologia avançada podem ser encarados simplesmente como objetos modernos criados por cientistas. Lembre-se, Arkham existe em um período de grandes mudanças e progresso científico - o avião, o automóvel, o telefone e a luz elétrica que possibilita a existência de inúmeros aparelhos, são inovações surgidas apenas nas últimas décadas. Neste contexto, uma arma de raios, um foguete ou mesmo um robô, podem ser encarados como meras novidades tecnológicas.

- Os exploradores que adentram a Recursão Arkham podem ser configurados como forasteiros (recém chegados à cidade) ou como moradores de longa data. Seja lá qual a identidade assumida, os exploradores são geralmente indivíduos cultos e com distintos traços da Nova Inglaterra onde se destacam o zelo pelo conhecimento e um inegável senso de curiosidade. Geralmente indivíduos surgem com acadêmicos, alunos, cientistas ou religiosos (para Paradox). Antiquários, Diletantes, Autores ou Artistas (Spinners). Veteranos da Grande Guerra, Investigadores, Exploradores, Aventureiros ou Detetives Particulares (Vectors).

- "Representantes do sexo feminino, via de regra, podem encontrar menos oportunidades na Recursão Arkham e muitos habitantes esperam que elas tenham um determinado comportamento social condizente com a postura dos anos 1920. Constituir família, contrair matrimônio e a manutenção de um lar, são preocupações comuns para a maioria das mulheres nesse período. Contudo, os anos 1920 se notabilizaram pelo surgimento de mulheres com comportamento tido "à frente de seu tempo" e que desafiam convenções. Nesses casos, mulheres com postura libertária e desafiadora podem causar choque e perplexidade nos arkhanitas mais tradicionais".

Lugares Importantes na Recursão:

Universidade Miskatonic



A cidade é conhecida por ser importante no cenário acadêmico e educacional. Arkham hospeda a mundialmente famosa Universidade Miskatonic. Fundada no final do século XVII, trata-se de uma das mais antigas e respeitadas instituições de ensino superior da América, que atrai estudiosos, pesquisadores e alunos vindos de todo o país e de diversos cantos do mundo.

Os Departamentos de História, Arqueologia e Antropologia são considerados como referenciais, mas a notável instituição hospeda mais de 30 outros cursos, incluindo Medicina (sendo a Escola, adjunta ao Hospital St. Mary) e de Línguas Antigas (considerada a mais conceituada escola sobre o assunto).

O Campus preenche todo um quarteirão do centro de Arkham e em suas dependências estão incluídos vários prédios administrativos, alojamentos de alunos e do corpo docente, salas de aula, o Salão de Convenções, um Museu, as Escola de Ciências Aplicadas e de Ciências Naturais, um parque e um Campo de Esportes. As dependências da Universidade são limpas, arborizadas e franqueadas a todos visitantes constituindo um passeio deveras agradável. Orgulho da cidade, a Universidade é um verdadeiro oásis de conhecimento e tranquilidade, isso quando não há alguma coisa estranha ou inexplicável espreitando.

A jóia da coroa da Instituição, por assim dizer, é o impressionante prédio pertencente a Biblioteca Orne. A estrutura de granito branco, talhada com detalhes austeros no estilo Gótico, é imponente e francamente intimidadora com seus três pavimentos e janelas em arco. Cerca de 400 mil livros compõem seu vasto acervo, tornando a Orne uma das maiores e mais completas bibliotecas do país. A riqueza das coleções e a raridade de certos exemplares fazem com que muitos pesquisadores peregrinem até a biblioteca como se ela fosse uma Meca do saber. Dentre os inúmeros títulos, chama a atenção a imensa coleção de tomos versando sobre as ditas Ciências Ocultas e Esotéricas. Entre as obras raras estão títulos cujo mero nome causa arrepios na espinha, como o Necronomicon, o Vermis Mysteriis e o Unausprachlichten Kulten.  Muitas desses livros permanecem incluídos no catálogo, embora o acesso a eles dependa da liberação expressa por parte do Chefe Bibliotecário e Reitor da Instituição, Dr. Henry Armitage. Um brilhante estudioso e PhD em idiomas antigos, Armitage tomou conhecimento da ameaça dos Mitos de Cthulhu e desde então se mostra reticente quanto ao empréstimo de obras contendo tal assunto, temendo que elas caiam em mãos erradas. Como homem do saber, comprometido com a causa humana, Armitage pode ser um valioso aliado para qualquer grupo explorando a Recursão Arkham.

Na Universidade Miskatonic há suficientes segredos e mistérios para preencher dias e dias de exploração. De fato, não há como quantificar e menos ainda qualificar todas as surpresas nesse local, nem todas agradáveis, mas com certeza todas surpreendentes.

Asilo Arkham



A instituição se localiza na saída da cidade, uma enorme mansão em um bosque, cercada por um muro alto, paredes grossas e janelas com grades. Ela é mantida pela Comarca de Arkham e se destaca como um dos mais respeitados manicômios da Nova Inglaterra, ou assim é dito pelos médicos e pelos cidadãos locais.

O Sanatório Arkham para mentalmente insanos dentro da Recursão opera secretamente como uma perigosa Casa de Loucos, controlada pelos próprios internos. Anos atrás, o diretor da Instituição Dr. se aposentou e em seu lugar, assumiu o conceituado Dr. Thomas Van Doreen que hoje é o responsável pelo Asilo. Van Doreen é considerado um progressista formado em Boston, interessado no bem estar de seus pacientes e na recuperação dos internos. O que a maioria das pessoas não suspeita é que ele é, na verdade, um maníaco chamado Victor Capshaw que dominou o médico e assumiu a sua identidade antes de chegar a Arkham. Capshaw é igualmente perigoso e brilhante, sua capacidade de dissimulação e habilidade para assumir diferentes personalidades permitiu a ele enganar toda comunidade e assumir o cargo de direção. Inteligente a ponto de aprender as noções básicas de psiquiatria e enganar até mesmo o staff ele implantou um regime de medo entre os internos se valendo de sua posição privilegiada para infligir nos pacientes as mais horrendas torturas mentais, jogos psicológicos e experiências bizarras. O Doutor nos últimos tempos vem realizando experiências tentando compreender a natureza das fobias, seu desenvolvimento e amplificação. Ele tem encontrado sucesso em atormentar suas vítimas e confrontá-las com seus maiores pesadelos.

Capshaw gradualmente removeu todos os enfermeiros e médicos verdadeiros, substituindo-os por internos de sua confiança, capazes de simular perfeitamente funções na instituição. Os internos passam passam por longas (e desnecessárias) sessões de eletro-choque, recebem drogas experimentais e enfrentam todo tipo de agrura e abuso nas mãos do "médico" e seus "assistentes". Aqueles que tentam reagir são presos em celas acolchoadas com camisas de força, recebem tranquilizantes pesados e em casos extremos sofrem lobotomia. Desde a chegada do Dr. Van Doreen o Arkham tem sido um "modelo" de sucesso, a despeito de ninguém se recordar de algum interno sendo reintegrado à sociedade. Para todos os efeitos, aqueles que são trancafiados no Asilo estão destinados a perder o que resta de sua sanidade e jamais deixar seus corredores.

A Casa da Bruxa



Uma casa notoriamente conhecida pelo seu passado fantasmagórico, a mansão na Rua Pickman foi dividida em cômodos e alugada para famílias de imigrantes e alunos com poucos recursos financeiros. A propriedade congrega um grande sobrado, com três andares e mais um porão, um pátio esquálido e mais uma cerca que o separa de outras casas igualmente decrépitas.

Com mais de dois séculos de idade, a casa é uma relíquia colonial, possivelmente uma das construções mais antigas de Arkham. No passado, ela foi o lar de uma terrível bruxa que atendia pelo nome de Keziah Mason e que foi acusada das mais atrozes blasfêmias. Segundo o folclore local, Mason assinou seu nome num livro diabólico como forma de compactuar com as trevas e ganhar seu favor. Depois de vender sua alma, ela se converteu na feiticeira mais poderosa da cidade, capaz de amaldiçoar seus desafetos, invocar demônios tenebrosos e recitar poderosos encantamentos. Sua maldade é legendária e seu nome proferido para aterrorizar crianças que se comportam mau. Acompanhada de um medonho rato com face humana, sua visão é digna de provocar pesadelos. Com o tempo ela se tornou uma figura folclórica e poucos acreditam na sua existência de fato, ainda que o temor que seu nome inspira, seja muito real.

Keziah Mason dominava as artes negras, era uma serva devotada de entidades blasfemas e aliada de criaturas realmente malignas com o poder de Deuses. Ela realizava sacrifícios (como comprovam as ossadas de crianças enterradas no porão) e invocava criaturas monstruosas para realizar suas tarefas vis. O conhecimento de Geometria não-euclidiana, ensinado pelos seus mestres, permitia que ela criasse portais dimensionais para outras realidades e esferas distantes no tempo e espaço. Algumas dessas passagens supostamente conectam a Recursão Arkham a outros planos e planetas que são o lar de entidades dos Mitos. Estudiosos da ciência do Strange podem descobrir uma cadeia infinita de portais para lugares normalmente inacessíveis.

Ao contrário do que se pensa, Keziah Mason realmente existiu e deixou sua marca na história maldita de Arkham. De fato, ela ainda habita uma de suas passagens dimensionais e quando alguém adentra sua antiga morada ela imediatamente fica sabendo. Terrível e implacável, essa bruxa é uma adversária notável que tem conhecimento pleno da matriz do Strange - embora suponha ser ele parte da matéria caótica do Deus Azathoth. Se atraída por indivíduos que manipulam o Strange ela pode se sentir compelida a capturá-los e extrair deles (mediante coerção e tortura) tudo aquilo que eles conhecem sobre a Matéria Negra. Se Mason conseguir romper a Recursão Arkham e adentrar o Mundo Real, quem sabe o tipo de horror que ela seria capaz de desencadear.

Tillinghast Livros e Mapas Raros



Uma pequena loja no centro de Arkham, a Tillinghast oferece antiguidades, livros raros, moedas, selos e mapas antigos para sua clientela, quase em sua maioria composta por viajantes e forasteiros. Alunos da Universidade Miskatonic por vezes visitam o lugar em busca de alguma curiosidade ou presente, mas em geral os artigos são caros demais para os locais.

Crawford Tillinghast é o proprietário, um senhor austero e culto que tende a julgar os visitantes rigorosamente e que só aceita fazer negócios se eles demonstrarem o mínimo de apreciação pelos itens em seu acervo. Tillinghast pode ser um bom contato na Recursão, sem dúvida, ele conhece muitos segredos da cidade e de seus habitantes.

Os objetos mais valiosos não estão em mostruário, mas guardados no cofre secreto da loja. Nesse acervo podem ser encontrados mapas raros do século XV e XVI feito por cartógrafos portugueses, holandeses e britânicos. Alguns desses mapas detalham lugares estranhos ou mesmo territórios alienígenas. O cofre guarda ainda alguns livros e artefatos extremamente raros, coleções completas e trabalhos difíceis de encontrar.

Obviamente entre estes objetos há tomos de magia com conhecimento potencialmente perigoso e artefatos de poder desconhecido. Embora Tillinghast não seja especialmente maldoso, ele não se importa de vender objetos amaldiçoados, especialmente para curiosos.

A Casa da Criatura sem Nome (The Unnamable)



Esta é uma das muitas casas abandonadas e tidas como assombradas em Arkham. Os cidadãos não lembram de quem foi o último a residir na casa, quando ele partiu ou o que aconteceu com ele. Presumem apenas que esse é um lugar fantasmagórico que deve ser evitado a todo custo, e de fato, poucos residentes aceitarão falar a respeito do lugar. Se forçados a falar, os mais velhos irão sussurrar apenas as enigmáticas palavras: "a cada da criatura sem nome".

A casa localizada no centro de Arkham é antiga até para os padrões da cidade, ela tem dois andares, com um pátio repleto de ervas daninhas, cercado por uma cerca baixa apodrecida. Uma procura entre o mato alto revela antigas lápides com nomes apagados. As paredes da construção estão em péssimo estado e ela parece prestes a desabar à qualquer momento. As janelas e portas foram vedadas com tábuas pregadas e ninguém entra há muito tempo. Tudo rescende com um fedor ocre de bolor e se encontra coberto de poeira. O assoalho range perigosamente e a podridão da madeira é evidente.

As pessoas tem uma boa razão para evitar essa casa. Ela é um local de bizarros acontecimentos e incidentes inexplicáveis. Objetos tendem a sumir nas proximidades, sons guturais e luzes diabólicas são ouvidos e vistas na calada da madrugada. No interior há pontos frios, áreas de atividade de poltergeist e manifestação psicocinética. De um modo geral, existe algo ruim nessa casa, uma presença que pode ser sentida observando e odiando aqueles que ousam invadir seus domínios e cruzar seus umbrais. A presença é mais forte no sótão, acessado por uma escada oculta em uma passagem secreta no corredor do segundo andar. Seja lá o que for, essa presença um dia habitou esse sótão escuro e aterrorizante, incapaz de deixar seu confinamento. Para alguns ela é o fantasma de uma mulher abusada pelo marido, um maníaco cruel que a fez prisioneira para toda vida (e além dela!). Outros acreditam que a força invisível pertence ao antigo dono da casa que se enforcou no sótão e cujo cadáver foi esquecido. Alguns sugerem ainda que a presença é uma manifestação demoníaca, invocada por algum ritual conduzido por feiticeiras séculos atrás. Seja lá o que for, essa presença é responsável por espalhar morte e loucura: por perseguir,  morder e possuir o corpo dos que a desafiam.

Colina do Enforcado (Hangman´s Hill)


Esse lugar sinistro se localiza nos arredores do velho cemitério e permite uma vista de toda cidade e dos arredores. Aquele que escala a tortuosa trilha que leva a colina, encontra em seu topo uma vegetação tristonha e uma única árvore podre sem folhas e com galhos retorcidos. Alguns habitantes mais antigos relatam que foi nessa árvore que uma terrível bruxa, responsável por atormentaram a cidade, foi enforcada em 1700.

Não por acaso, o lugar passou a ser tratado como assombrado e poucos aceitam errar por ali depois do cair da noite. Os poucos que o fizeram relataram acontecimentos inexplicáveis e visões aterrorizantes de missas negras e encontros satânicos. O lugar seria o palco para os mais profanos rituais de magia negra e invocação dos mortos. Ele parece atrair fantasmas, ghouls e bruxos como um verdadeiro imã de tudo o que é ruim e podre em Arkham.

A Colina é um local ermo e perigoso. À noite é difícil se guiar pelo ambiente e um denso nevoeiro cinzento impede que se ande com segurança. Formas mefíticas se formam nessa névoa indevassável e desaparecem instantes depois em redemoinhos turbulentos e miasmáticos. Há rumores que afirmam ser possível ver o futuro, o passado ou mesmo outros mundos alienígenas quando as névoas se abrem. Alguns que subiram a colina tiveram visões tão apavorantes que jamais conseguiram esquecer o ocorrido e foram encontrados vagando enlouquecidos. O lugar se tornou o palco de vários suicídios com indivíduos se lançando no vazio ou se enforcando na própria árvore maldita - onde pende para sempre uma corda atada em nó.

Há rumores de que uma ou mais congregações de feiticeiras marque seus encontros nesse lugar se aproveitando da sua inigualável aura de perversidade para conjurar magias.

O Velho Cemitério


O velho cemitério de Arkham é um lugar soturno, evitado pelos habitantes. A paisagem é dominada por tumbas, sepulturas e jazigos de todos os tipos e idades. Para o observador casual é inevitável se espantar com a notável quantidade de lápides e o tamanho do cemitério em uma cidade tão pequena.

A cemitério é formado por um padrão de ruas divididas em blocos, contendo uma infinidade de vielas e caminhos. Tudo parece incrivelmente abandonado, decrépito e esquecido, com um tênue odor de corrupção que emana do solo lamacento. Poucas plantas crescem no espaço entre as sepulturas rachadas, e estas tem uma aparência doentia e repulsiva. Os enormes mausoléus pertencentes às famílias mais antigas e abastadas em sua maioria permanecem trancafiados, mas certas noites é possível encontrá-los abertos. O coveiro um imigrante chamado Harry tende a fazer vista grossa para os acontecimentos bizarros no cemitério, mas se persuadido a falar, revela algumas estórias tão assustadoras quanto inacreditáveis. A maioria dos cidadãos o consideram um bêbado inconsequente dado a exageros, mas na falta de um substituto, ele permanece como o responsável pela indesejável tarefa de zelar pelo lugar. Harry mora em um casebre dentro do cemitério e por dinheiro algum no mundo abre a porta depois do anoitecer.

Além de eventuais fantasmas invisíveis e horrores descarnados, uma ameaça mais concreta habita o cemitério. As galerias subterrâneas são a morada de uma colônia de carniçais (ghouls) que vivem ali, nas profundezas escuras, há gerações. Essas criaturas inumanas desenvolveram uma predileção por consumir os corpos recém colocados no solo e protegidos pelo manto da noite vagam livremente pelo território que consideram seu domínio incontestável. Nas noites de lua cheia, eles se congregam no cruzeiro no centro do cemitério para uivar, deliberar e brigar uns com os outros pelos restos mais apetitosos de carne humana. Ninguém que visita o Cemitério à noite está livre da ameaça dessas criaturas que se esgueiram se ocultando até atacar e arrastar suas vítimas aos túneis. O que existe no subterrâneo é matéria de discussão, mas como ninguém que foi levado lá para baixo retornou, tudo o que se pode fazer é imaginar que segredos essas catacumbas escondem.

O Bosque Billington


Ao norte de Arkham existe um bosque fechado e escuro cujas árvores jamais viram machado e cuja vegetação continua intocada pela ação do homem. Esse trecho silvestre é notável e suscita sentimentos conflitantes naqueles que se aventuram por ele alternando pavor e fascínio a cada momento. Os moradores conhecem o local pelo nome Bosque de Billington e assim o chamam pois os últimos proprietários dessas terras eram os Billington, que não são vistos há muitas décadas. Os Arkhanitas mais antigos dizem que a mansão erguida numa clareira no final da Aylesbury Pike está vazia desde 1821 e que nesse meio tempo ninguém em sã consciência visitou a propriedade.

A mansão realmente se encontra deserta, ainda que não haja sinal de qualquer deterioração pela falta de manutenção ou uso. A propriedade se mantém de alguma forma preservada e intocada pela passagem dos anos. Nem mesmo o mato ousa crescer e perturbar a aparente perfeição do lugar. Por dentro, a casa parece muito maior do que o observador poderia supor, vista de fora: quartos, alas inteiras, balcões, corredores e escadarias se multiplicam. A casa é um verdadeiro labirinto de recintos e câmaras interconectadas e é fácil se perder no seu interior. No coração da mansão existe uma vasta biblioteca contendo uma infinidade de livros e tomos raros, dispostos em prateleiras e estantes à perder de vista. Alguns desses volumes são virtualmente impossíveis de serem encontrados em qualquer outro lugar do mundo e sua existência é desconhecida mesmo para os mais experientes bibliotecários. No teto dessa biblioteca de sonhos se destaca uma claraboia de vidro colorido através da qual a luz do sol penetra concedendo uma iluminação natural. Aqueles que contemplam por muito tempo o belíssimo vitral multifacetado tende a imaginar o surgimento de formas alucinantes e experimenta devaneios vívidos.

Mais além da mansão, em meio a um pântano ergue-se uma estrutura incomum em formato de torre, semelhante a um enorme cogumelo brotando num charco estagnado. Essa misteriosa torre medindo quase seis metros de altura possui apenas uma porta arqueada conduzindo para seu interior vazio. Um lance de escadas leva a uma plataforma interna e ao topo da estrutura. No piso estão gravados na pedra símbolos arcanos, além de diretrizes para a invocação de entidades dimensionais. Acredita-se que se um determinado Ritual de Invocação for conduzido no alto da Torre ele atrairá uma entidade de enorme poder que terminará por consumir toda a Recursão Arkham. Outras teorias afirmam que o mesmo ritual permitirá que a dita entidade atravesse um portal para o Mundo Real.

Chamado de Espreitador no Limiar (Lurker at the Threshold) essa entidade de tamanho e poder colossais parece estar ligada ao mito de Yog-Sothoth.      

A Clareira Arrasada


Localizada nos arredores de Arkham, a Clareira Arrasada está inserida numa fazenda abandonada.

O local permanece deserto, com indícios claros de ter sido abandonado às pressas pelos moradores de quem não se tem nenhum sinal. As portas estão abertas e não há ninguém para impedir uma inspeção dos cômodos. Uma investigação rápida revela que as pessoas simplesmente sumiram: as camas estão arrumadas, há pratos na mesa e jornais de uma semana atrás. HExiste entretanto, uma inegável aura de desolação e melancolia permeando toda propriedade, aura esta que incide sobre os visitantes de forma esmagadora. O lugar não é hospitaleiro e qualquer pessoa passando algumas horas aqui começa a sentir uma sensação de desânimo e incômodo.

Os arredores da fazenda só pioram esse panorama. A paisagem é bucólica, com campos verdes, árvores frondosas carregadas de grandes frutos e plantações extensas de milho e trigo. Tudo, no entanto, é desagradável e tem um sabor repulsivo. Há algo na paisagem que parece errado, mas é difícil de perceber do que se trata. À noite, os campos brilham com uma luminosidade esverdeada, os galhos balançam mesmo sem vento e um odor adocicado e enjoativo emana das frutas com gosto de cinza. A fazenda parece amaldiçoada e nada que decorre dela é satisfatório ou aprazível.    

No centro do milharal existe uma enorme cratera, resultado do choque e da queda de um asteroide que se precipitou dos céus e foi se enterrar nas profundezas. Essa rocha espacial carregava em seu interior uma forma de vida desconhecida que se entranhou no solo e alterou drasticamente todo o ecossistema. Nada é o que parece ser, e seu toque insalubre envenenou o solo de tal forma que toda a vida foi transformada em uma medonha caricatura de normalidade. Os habitantes da fazenda descobriram tarde demais que ficar no lugar atrai a atenção da misteriosa criatura que deixa seu covil subterrâneo para se alimentar da força vital das pessoas.

Essa "coisa" não é um ser físico/corpóreo, sua definição escapa a qualquer tentativa de contextualizar sua existência, para todos os efeitos ela é percebida apenas como uma "cor" impossível e indescritível. Algo absolutamente alienígena e extremamente perigoso com seu implacável apetite.  

RECURSÃO ARKHAM




ATRIBUTOS

Nível: 4

Era: Recursão Desenvolvida (90 anos de idade)

Leis: Física Corrente, com acesso a Magia (Discreta) e Louca Ciência (Discreta)

Raças jogáveis: Humanos

Foco: Novos focos disponíveis ao entrar pela primeira vez. Focos comuns semelhantes aos encontrados na Terra.

Idade e tamanho: Surgida na década de 1920, graças ao trabalho de H.P. Lovecraft. Possui apenas doze quilômetros quadrados que inclui a cidade e os arredores imediatos - as estradas não levam a lugar nenhum.

Conexões com The Strange: existente, considerada como uma passagem para o Caos Primordial de Azathoth.

Conexões com a Terra: Portal de Tradução (Translation Gate) na Antiga Casa de H.P. Lovecraft (em Providence, Rhode Island) e na Universidade de Princeton (aberta inadvertidamente por alunos do curso de Literatura Inglesa). Portal Inoposto (Innoposite Gate) no Asilo Heathrow Hall em Boston (em uma das celas de isolamento desativada)

É possível acessar Arkham através de Esferas de Portal (Portal Spheres) no formato de cartas escritas por Lovecraft descrevendo detalhes da cidade e representando mapas de Arkham.

Conexões com Outras Recursões: Recursão Innsmouth (ver The Strange p. 253) na forma de um ônibus de passageiros dirigido pelo híbrido abissal Joe Sargent.

Perícias: Mitos de Cthulhu

Spark: 25%

domingo, 31 de janeiro de 2016

Profecias de Baba Vanga - As Assustadoras Previsões de uma Vidente Cega


Ela já foi chamada de Nostradamus dos Balcãs pois segundo alguns, suas previsões tem 85% de acurácia. Entre muitos acontecimentos importantes, ela teria previsto o ataque terrorista da Al Qaeda às Torres Gêmeas de Nova York em 11 de setembro.

A previsão teria sido a seguinte:

"Horror, horror! Os irmãos americanos vão cair depois de serem atacados pelos pássaros de aço. Não apenas um, mas dois se chocando contra eles. E eles irão ruir. Os lobos uivarão sob um arbusto (uma alusão a Bush - o presidente americano?), pedindo vingança. Acontecerá em Setembro e para sempre será lembrado. Por causa disso, guerras serão travadas e sangue inocentes será derramado".

A previsão teria sido feita em 1989, muitos anos antes do maior ataque terrorista da história dos Estados Unidos mudar o mundo. A visão foi anotada em um caderno.

Verdade ou mentira? Outra previsão bem sucedida?

"Será uma tragédia que vai chocar  mundo. Morte na água, ondas imensas varrendo o oriente. Muitas, muitas mortes... as pessoas vão buscar lugares altos para se proteger, mas as ondas irão arrastar tudo em seu caminho. Destruição sem precedente em cidades e no interior. Será no extremo oriente, mas vai se espalhar por muitos países".

Novamente, previsto em 1992 e devidamente anotado em uma folha de caderno, a previsão parece se encaixar perfeitamente na Grande Tragédia do Tsunami que varreu a Ásia em dezembro de 2004.

Só para terminar, mais uma previsão que teria sido feita, dessa vez em 1995:

"O homem poderoso será diferente de todos os outros que já moraram no Palácio (Casa) Branco. Ele irá carregar grande esperança de mudanças após um período longo de incertezas e insatisfação. Muitos dirão que ele irá trazer mudanças e de fato ele o fará. O homem mais poderoso do mundo será negro e vai conquistar a confiança de todos ao seu redor".
Barack Obama na época nem sonhava em se tornar o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos o posto mais elevado da maior potência do mundo. No entanto, assim aconteceu.

Há outras previsões se referindo a acontecimentos igualmente importantes e incidentes menores. As previsões para o futuro próximo, acenam com tempos conturbados, guerras e muita instabilidade política. Haveria uma "Grande Guerra Islâmica" à caminho, cujas sementes já teriam sido plantadas e que brotariam ainda nesse ano de 2016, trazendo uma das maiores e mais terríveis crises do século. 

Devemos nos preocupar? Quem é essa vidente que se tornou uma personalidade famosa no seu país natal, a Bulgária?

A mulher que viria ser conhecida como Baba Vanga nasceu como Vangelia Pandeva Dimitrova em 31 de janeiro de 1911. Na noite em que ela veio ao mundo uma forte tempestade caiu sobre o país provocando mortes e destruição. No momento em que a menina nasceu, a tempestade cessou quase que imediatamente. A parteira acreditava que ela não sobreviveria pois nasceu muito frágil, entretanto, o bebê se recuperou e se tornou uma criança sadia. Ainda menina, ela realizava o que as pessoas na época acreditavam se tratar de legítimos milagres de cura. Aos seis anos, ela teria revivido um animal doméstico, um gato, que pertencia à família e fora morto acidentalmente. Aos oito anos, teria curado uma doença antiga que afligia sua avó e que a impedia de se locomover há mais de uma década. Aos 10 anos, a pequena Vangelia teria sido visitada por um homem rico que tendo ouvido falar de suas habilidades, levou até ela seu filho recém nascido, desenganado pelos médicos convencionais. A menina soprou no rosto do bebê e este imediatamente se recuperou. Aos doze anos, ela supostamente afastou um tornado que ameaçava destruir sua cidade natal.

Com 15 anos, ela previu que sofreria um acidente e que perderia a visão em decorrência deste. Conforme o previsto, ela sofreu um acidente grave e nunca mais foi capaz de enxergar o mundo ao seu redor. 


Baba Vanga, como passou a ser conhecida, dizia que seus poderes paranormais eram decorrentes de criaturas invisíveis para todas as outras pessoas, exceto para ela, que podia vê-los e ouvi-los claramente. Esses seres, segundo sua descrição, pareciam crianças feitas de pura luz branca. Elas voavam, flutuavam no ar, cantavam e brincavam ao seu redor. Eram seus amigos secretos quando ela era criança, mas a acompanharam ao longo de toda sua longa vida. As "crianças luminosas" tinham a capacidade de curar as pessoas, ajudar os enfermos e contar o que aconteceria no futuro distante. Eram elas, e não a pequena Vangelia, que haviam realizado todos os "milagres" testemunhados por seus pais, vizinhos e amigos. A menina não cansava de dizer que seus amigos às vezes faziam o que ela pedia, às vezes curavam as pessoas e às vezes, quando assim desejavam, contavam sobre o que estava por vir no mundo. Nem sempre ela compreendia sobre o que elas falavam, a noção de muitas daquelas coisas não faziam sentido.

Na Segunda Guerra, ela se tornou extremamente popular como fonte de informações para parentes de soldados que estavam lutando nos campos de batalha. Vangelia teria contado a uma mulher que recebera uma carta informando da morte de seu marido, que ele ainda estava vivo e que a carta havia sido um engano. A mulher acreditou na previsão e após a guerra empreendeu uma busca incessante pelo marido, descobrindo que ele havia sido feito prisioneiro em um campo russo. Ele retornou em 1950, após seis anos considerado como morto. O retorno do soldado foi previsto por Baba Vanga, que disse que ele ocorreria na primavera de 1950. Incrivelmente, foi exatamente o que aconteceu!

Anos antes, durante os dias mais brutais do Conflito, Baba Vanga previu que sua cidade natal seria bombardeada por aviões. Os habitantes, ouvindo seu alerta deixaram suas casas e se esconderam nos arredores. Na mesma noite, aviões lançaram bombas que devastaram as casas, mas ninguém foi morto. As crianças de luz também alertaram a vidente que ela deveria retirar sua família e empreender uma longa caminhada para além das fronteiras, pois o Exército Soviético se preparava para tomar a Bulgária de assalto. Aqueles que ouviram seu alerta e escaparam para a vizinha Romênia conseguiram escapar de um verdadeiro massacre empreendido pelo Exército Vermelho.


Baba Vanga contou que durante a ocupação nazista na Bulgária, homens da SS mandaram buscá-la e a embarcaram em um trem para a capital. Ela foi entrevistada por um oficial por horas: ele queria saber sobre o futuro da guerra. A vidente disse que não sabia o que aconteceria e foi devolvida à sua cidade natal. Anos depois ela revelou que na ocasião já sabia que os Aliados seriam os vitoriosos, mas que temendo a reação do oficial preferiu mentir. Como refugiada de guerra na Romênia, ela previu o fim da Guerra para 1945, a ocupação dos Soviéticos em seu país, a morte do Rei da Bulgária e uma série de outros acontecimentos.

Cega e iletrada, Baba Vanga relatava as previsões sussurradas pelas crianças de luz. Algumas dessas previsões eram anotadas pela sua irmã. Em uma previsão, ela viu a morte da mãe por tuberculose em um campo de refugiados e quando descreveu o ocorrido sua irmã a fez prometer jamais falar novamente do futuro. As pessoas temiam as capacidades de Vangelina, achavam que ela era uma espécie de bruxa ou feiticeira. Ainda na Romênia, ela foi ameaçada e salva do apedrejamento em duas ocasiões. Finalmente, ela conseguiu retornar para a Bulgária e para o pequeno vilarejo de onde nunca mais saiu.


Com o tempo, a fama de Baba Vanga se espalhou e muitas pessoas acreditavam na infalibilidade de suas previsões. Crentes viajavam muitos quilômetros para encontrá-la e ouvir o que ela tinha a dizer sobre o futuro ou para receber algum tipo de cura milagrosa.

Nem sempre os poderes dela funcionavam. Na década de 1950, algumas pessoas se esforçaram para desacreditar suas alegadas faculdades mediúnicas. Ela foi considerada uma charlatã e presa em uma cadeia por dois meses. Na ocasião ela previu a morte de Stalin, o que desagradou os comissários do partido. Depois disso, Baba Vanga teve de ser mais cuidadosa com suas previsões e falar apenas na presença de pessoas conhecidas e amigos de confiança.

Em 1960, uma sobrinha de Baba Vanga chamada Yelina começou a tomar nota de algumas das suas previsões. Elas eram escritas em um caderno guardado em segredo no colchão de uma cama para que ninguém o encontrasse. Baba Vanga também deixou de realizar curas milagrosas, embora ainda circulasse boatos a respeito de pessoas que haviam sido ajudadas pela intercessão das crianças de luz. Nas páginas amareladas do caderno de Yelina há anotações a respeito da Invasão e da influência cada vez mais forte da União Soviética na Bulgária. Constam vários nomes de pessoas que desapareceram, supostamente levadas pela polícia secreta. O nome e sobrenome de governantes eleitos ou indicados em um longo período. A data e as circunstâncias de uma severa enchente que atingiu o país em 1971 e informações a respeito de um trágico acidente de trem ocorrido em 1974. Ela também previu a vitória do búlgaro Vaselin Topolov no Torneio Internacional de xadrez.

Além dessas previsões locais, Baba Vanga previu o início da Guerra na Coréia, a Revolução na China, a Crise dos Mísseis de Cuba, a Morte de um homem importante na América (supostamente Kennedy, em  uma anotação de 1959) e uma guerra sangrenta no sudeste asiático. Há também previsões sobre a Queda da União Soviética (ainda que prevista para 1986, quatro anos antes do ocorrido), o desastre nuclear de Chernobyl e o naufrágio do submarino Kursk.

Baba Vanga morreu em 1996, tendo feito previsões até seus últimos dias de vida. Entre 1989 e 1995, várias de suas previsões foram registradas em documentos lacrados em envelopes com a  data reconhecida em cartório. Esses envelopes eram guardados em um cofre de banco com ordens para serem abertos ano a ano. Segundo os parentes mais próximos, Baba Vanga deixou cerca de 400 envelopes com previsões até o ano 2150.


É claro, nem todas as previsões se concretizaram conforme o esperado.

Embora tenha acertado a respeito da Destruição das Torres Gêmeas, ela errou ao afirmar que esse acontecimento em especial iria deflagrar a Terceira Guerra Mundial em 2010. Errou também ao dizer que a Rússia entraria em uma sangrenta guerra com a China na qual uma cidade seria completamente destruída em uma explosão com milhões de vítimas, coisa que deveria ter ocorrido em 2006. A China também sairia dessa Guerra como a maior superpotência do globo. Baba Vanga fez uma previsão em cadeia nacional que a Copa do Mundo de 1994 seria decidida entre Brasil e Bulgária e que a seleção do seu país iria se tornar campeã. Nós sabemos que a coisa não terminou assim, o Brasil venceu a Itália nos pênaltis e a Bulgária foi a quarta colocada naquele mundial, em um resultado até hoje controverso.


Recentemente, as previsões de Baba Vanga ganharam popularidade uma vez que certas encontraram eco nas manchetes de jornais. Em 1988 ela escreveu a respeito de uma Irmandade de Muçulmanos que se tornaria muito conhecida a partir de 2010. Esse grupo seria formado por homens de capuz, responsáveis por assassinatos e atos de terrorismo em vários países do mundo. Eles seriam responsáveis por uma Guerra que destruiria alguns países: o Egito, a Síria, o Líbano e a Líbia seriam os mais afetados.

As raízes da ISIS (para nós, Estado Islâmico) podem ser traçadas até o início do ano 2000, mas ele só ganhou as manchetes de jornais depois da primeira década do século XXI. Em 2010, a Primavera Árabe varreu os países citados por Baba Vanga, e embora a Guerra Civil não tenha sido declarada em todas nações citadas, cada uma delas enfrentou um período de crise e mudança política radical. Tanto o Egito quanto a Líbia tiveram seus governantes derrubados em revoltas com presença popular e de facções extremistas. A situação na Síria continua instável e existe a possibilidade da guerra atravessar fronteiras e se espalhar por outras nações do Mundo Árabe.

Baba Vanga alertou para esses acontecimentos em uma previsão escrita em 1993:

"Homens fanáticos irão lançar armas mortais sobre a Europa. Em 2016, o mundo ficará chocado pela ação de pessoas que não temem a própria morte. O continente europeu irá se tornar uma terra de morte e destruição. Lá, nada há de crescer por gerações e multidões de doentes terão de fugir em busca de asilo em outras partes do mundo".

A vidente cega foi mais além em suas terríveis previsões ao afirmar que os próximos anos serão de enorme sofrimento. "Morte em várias partes do mundo, execuções públicas e campos de concentração serão vistos novamente. Será como na Grande Guerra, mas ainda pior!"

Essa crise envolvendo a tal "Grande Guerra Islâmica" terminará por se espalhar por todo mundo e seus efeitos serão sentidos até 2043.

Ao menos, depois de todo esse sofrimento, o mundo entrará em um período de relativa tranquilidade. Ela previu a primeira viagem tripulada para Marte ocorrendo em 2028 (sendo que Baba Vanga quase acertou a data da chegada à Lua, prevista para 1971, mas por soviéticos!), a construção de uma cidade na Lua em 2041, de uma grande cidade no céu (seria uma estação orbital?) em 2055 e (pasmem!) o encontro com seres extraterrestres em 2125, ocorrendo em uma Floresta da Hungria.


Quando perguntada a respeito do fim do mundo, Baba Vanga sempre dizia que o homem estava fadado a existir para sempre. Mas segundo seus parentes próximos ela teria dito que a Terra seria destruída em 5079, ainda que a humanidade continuasse a habitar o universo. Infelizmente, nunca saberemos se essas previsões irão se concretizar...

Mas e quanto às previsões mais próximas de Baba Vanga, aquelas que estão prestes a acontecer? Muitas delas parecem vagas e incertas, enquanto outras possuem datas precisas de quando os incidentes irão ocorrer. Será que dentro em breve iremos testemunhar uma Grande Guerra baseada na religião? Um período de morte e destruição que remete às Grandes Guerras Mundiais está por vir? 

Pouco antes de sua morte em 1996, Baba Vanga disse que uma menina cega de 10 anos, vivendo na França iria herdar sua capacidade de se comunicar com as "crianças de luz". À princípio, as pessoas não iriam acreditar nela, mas por volta de 2018, ela será reconhecida, uma vez que acertaria suas predições. Talvez, ela já esteja fazendo suas projeções e nós nem sabemos...

De uma forma ou de outra, não teremos de esperar muito.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Recap de Arquivo X - "My Struggle" - episódio 1, temporada 10


Este é um Recap, é claro que ele contém SPOILERS, então esteja ciente antes de começar a ler.

Vamos começar pelo básico no que diz respeito ao primeiro episódio de Arquivo X depois de sua longa ausência de 14 anos.

Antes de qualquer coisa, eu admito! Eu estava extremamente ansioso pela estréia do primeiro episódio, ainda que pouco à vontade com esse formato de mini-série. Eu sou um daqueles fãs de longa data, que assistiram a série original inteira e que passaram várias horas discutindo e debatendo os episódios. Um daqueles que é capaz de discorrer sobre a mitologia dos Arquivos X e da natureza das Conspirações Governamentais. Arquivo X está entre as minhas séries favoritas em todos os tempos e por isso, me sinto à vontade para falar livremente e sem meias palavras à respeito dela.

 Desde o momento que o retorno de Arquivo X foi confirmado, contávamos os segundos para ele ir ao ar e saciar nossa curiosidade. Antes mesmo disso, ao longo de 14 anos, muitos de nós formulamos diferentes panoramas e criamos nossas próprias projeções, antecipando como poderia se dar o revival da série. O que teria acontecido com Mulder e Scully nesse tempo? Que caminhos suas vidas teriam tomado? Qual o destino dos Arquivos X? Quem seria o responsável por eles? Que outras conspirações teriam aflorado na última década e meia? Como elas poderiam ser frustradas?

Como fã hardcore eu estava ansioso por assistir o retorno de Mulder e Scully. Torcendo para que eles voltassem em grande estilo. Que logo de início eles esbarrassem em alguma pista deixada por algum informante misterioso, que a pista resultasse em uma série de indícios apontando para novas e empolgantes conspirações arquitetadas por pessoas poderosas. Eu ansiava para que logo os dois estivessem vasculhando depósitos abandonados, bases secretas e florestas ermas munidos de potentes lanternas iluminando a escuridão indevassável, claramente uma metáfora da verdade atravessando o desconhecido. Afinal, essa é a base de Arquivo X, é isso o que queremos ver...  


Para ser sincero, ao assistir os trailers e especiais a respeito da décima temporada, senti um certo desconforto. Não pelo fato de nossos heróis terem envelhecido. Longe disso! O ar de maturidade de Mulder e Scully, ao meu ver, apenas contribuem para cimentar a ligação entre eles e o comprometimento com sua causa. Anos se passam e eles continuam buscando a verdade, custe o que custar! Se não com a energia e vigor de antes, com a experiência e inteligência possuída pelos veteranos. O que me deixou com a pulga atrás da orelha é por que os produtores não aproveitaram a chance para reformular Arquivo X?

Minha esperança era que Arquivo X passasse por algum tipo de mudança conceitual. Quem sabe recriar o departamento a partir da necessidade pura e simples do FBI investigar casos que ninguém é capaz de resolver. Não seria muito complicado para um bom roterista recontextualizar os Arquivos X, focando em uma nova dupla ou equipe de agentes especialmente incumbidos de vasculhar a Caixa de Pandora que são esses casos.

Reparem que não estou em momento algum defendendo que Mulder e Scully fossem excluídos desse formato, muito pelo contrário! Eles estariam presentes, não como agentes, mas como Consultores experientes, Chefes de Departamento ou mesmo mentores cuja função seria guiar os recrutas em suas próprias buscas e descobertas. Ao meu ver essa seria a melhor maneira de apresentar Arquivo X a uma nova geração, agradando também aos antigos fãs. 

Ao invés disso, Chris Carter, o criador da série preferiu uma saída mais fácil... ele devolveu os Agentes Mulder e Scully ao FBI quase como se nada tivesse acontecido, como se a intempestiva saída deles no final da nona temporada tivesse sido esquecida e contemporizada. Os agentes estão de volta ao seu antigo trabalho e continuam à serviço do Bureau, investigando casos estranhos, sob a supervisão do bom e velho Diretor Assistente Skinner. Tudo como antes.


Olha, eu não sei se foi a melhor opção... é claro, eu pretendo acompanhar as novas e inéditas aventuras dos agentes, espero que eles ainda tenham muito o que mostrar, mas ao mesmo tempo me recordo que nas últimas temporadas a série havia dado sinais inequívocos de desgaste. A fórmula afinal não é à prova de falhas, e embora seja ótimo acompanhar essas novas estórias, fico preocupado com até que ponto eles vão conseguir sustentar o show depois que ele deixar de ser uma novidade e o estardalhaço da estréia for diminuindo. Perguntas e mais perguntas que só serão respondidas no futuro, quando (e se) Arquivo X for trazido de volta a grade de programação da FOX como seriado regular.

Mas toda essa longa introdução para falarmos sobre o primeiro episódio que foi ao ar nessa segunda feira, com o título "My Struggle" (algo como "Minha Luta").

O episódio tinha duas grandes responsabilidades:

1) mostrar o que é Arquivo X, quem são os personagens e qual a motivação deles para um novo público (gente que não viu ou sabe pouco sobre a série original)

e

2) Colocar os antigos fãs à par do que aconteceu nos últimos anos, desde que havíamos nos despedido de Mulder e Scully no "longínquo" ano de 2002.

"My Struggle" começa dedicando todo o seu prólogo a primeira tarefa. Nele, a inconfundível voz anasalada de Fox Mulder fornece vários detalhes sobre a série original. Não é fácil fazer um resumo completo de nove temporadas em menos de três minutos, mas o monólogo de Mulder, recheado de fotografias e imagens funciona bem e tem um efeito nostálgico. Vemos alguns momentos chave, quando Scully é escalada para se juntar a Mulder, sua abdução, as experiências genéticas que ela sofre e a busca incessante de Mulder pelo paradeiro de sua irmã. Vemos também a imagem de vilões como Eugene Tooms, os alienígenas sem face, os caçadores de recompensa e o inesquecível Canceroso.



Tudo parece promissor e eleva as espectativas até a estratosfera. O monólogo termina com Mulder perguntando em tom de dúvida se tudo que ele investigou realmente não passa de uma fraude, até que surge a imagem de um disco voador se acidentando no deserto do Novo México.

Roswell, 1947. A décima temporada começa com uma investigação envolvendo o mais emblemático caso de disco voador de todos os tempos. Acompanhamos em primeira mão um médico sendo levado até o local da queda do OVNI e o momento em que um "homem de preto" e militares fuzilam impiedosamente um alienígena que havia sobrevivido ao acidente. O cadáver é levado para uma autópsia a medida que o disco voador começa a ser desmantelado e suas peças recolhidas.


Fica claro, que esse incidente será extremamente importante ao longo dessa curta temporada, mas antes de ter mais detalhes deixamos o passado e avançamos para os dias atuais em busca do paradeiro de Mulder e Scully. Ficamos sabendo que a Dra. Sculy (linda como sempre na plenitude da maturidade) está trabalhando em um hospital, fazendo cirurgias reparadoras em crianças nascidas sem orelhas - é curioso como a imagem desfocada em segundo plano de uma das crianças lembra a face de um alienígena cinza. Apesar de seu trabalho importante, Scully vem sendo procurada pelo seu antigo chefe, o Diretor Skinner que pretende marcar uma reunião com ela e Mulder para discutir um assunto urgente.

Dana não parece muito satisfeita com a perspectiva de encontrar seu ex-parceiro - ainda é cedopara dizer como o relacionamento dos dois foi para o buraco, mas enfim ela acaba aceitando contatar Mulder. Ao que tudo indica, Mulder não mudou muito desde a última vez que o vimos. Ele não está com aquela aparência desleixada do filme "I Want to Believe", mas continua o mesmo sujeito disposto a acreditar e buscar incessantemente por acontecimentos paranormais e respostas. Ocorre que Skinner quer que Mulder se encontre com um tal Tad O´Malley, o controverso apresentador de um programa sobre conspirações governamentais. Tad seria um entusiasta do trabalho dos agentes no Arquivo X, e uma espécie de fã que acompanha a carreira de Mulder desde a publicação de um livro (???) sobre seu período no Bureau (Infelizmente, não há nenhuma informação adicional sobre que livro é esse ou seu conteúdo). Mulder acaba aceitando o convite de Tad e arrasta Scully para o tal encontro.


No encontro morno entre os dois ex-agentes, no qual eles trocam alguns cumprimentos meio sem jeito, percebemos que o fim do Arquivo X, aquilo que serviu para aproximá-los emum primeiro momento, terminou por afastá-los de uma vez por todas. Eles não são um casal, não são colegas, não são companheiros... parecem à princípio dois conhecidos que não se viam a algum tempo e que tentam colocar a conversa em dia, sem saber exatamente por onde começar. Com certeza ainda vamos saber o que houve entre eles, mas essas revelações virão gradualmente.

Nesse momento, eu faço um parenteses para falar dos dois protagonistas. Não é necessário muito tempo para perceber que David Duchovny e Gillian Anderson ainda possuem aquela química responsávelpor tornar Arquivo X um seriado tão interessante. O foco da série nunca foram apena sos casos, mas a relação dos personagens e a mística ao redor deles. Fazia tempo que nós não viamos Mulder e Scully juntos, e bastou alguns segundos para que a presença deles em cena ativasse nossa memória afetiva. E como é bom vê-los trabalhando juntos uma vez mais! Aquela faísca está lá, e foi ela a responsável pelos melhores momentos desse primeiro episódio. Ainda que o roteiro assinado por Chris Carter tenha sido um pouco engessado, sem espaço para piadas internas e referências aos antigos episódios, a parceria ainda se sustenta com folga.  

Mas vamos em frente. O tal Tad aparece com uma limosine e recolhe os dois ex-agentes mo lugar marcado para um passeio com direito a champagne e vidros à prova de balas. Ele dá mostras que é um teórico por conspiração tão engajado (e paranóico) quanto o próprio Mulder, interessado em provar o envolvimento de membros do governo em uma hiper-mega-super-ubber conspiração que segundo ele já está em curso e constitui uma ameaça global. Mais do que meramente propagar sua teoria, Tad afirma ter as provas necessárias para provar o que diz por A mais B. Mulder é claro, morde a isca, com anzol e linha. A limosine leva o grupo até uma casa afastada onde eles conhecem uma moça chamada Sveta que passou por recorrentes abduções desde a infância. Ela mostra algumas estranhas marcas pelo corpo, resultado de experiências que implantaram e extraíram de seu corpo fetos com DNA híbrido. Sveta diz que é capaz de ler mentes (embora não possa controlar essa faculdade) e afirma que seu código genético foi manipulado de tal forma que contém cadeias anômalas. Mas ao contrário do que os agentes suspeitam, Sveta afirma que não foram alienígenas que realizaram as experiências em seu corpo, mas cientistas humanos que tem acesso a tecnologia alienígena. Para provar o que diz, ela aceita passar por alguns testes laboratoriais realizados por Scully.


Enquanto Sveta segue para o hospital para fazer uma bateria de testes que comprovem suas alegações, Mulder fica na companhia de Tad ouvindo tudo o que ele tem a dizer. Para mostrar que está falando sério, Mulder concorda em visitar uma instalação secreta onde a organização de Tad - formada por cientistas, reconstruiu com base nos mesmos planos obtidos em Roswell um veículo voador super avançado. A nave (um ARV - Alien Replica Vehicle) não apenas funciona com "zero point energy" (energia limpa, gratuita que se vale de um elemento deconhecido, o composto 115), como possui um dispositivo de camuflagem de fazer inveja a klingons e romulanos juntos. A essa altura Mulder já está mais do que convencido de que Tad sabe das coisas e que tem em seu poder provas cabais de um complô para acobertar essa tecnologia roubada de uma civilização extraterrestre e oculta do público há mais de 70 anos.

Ainda abalado com as revelações, Mulder se encontra com um de seus informantes, um senhor de idade que vem lhe ajudando na última década a encaixar peças dessa mesma mega-conspiração. O sujeito não é outro senão o médico que realizou a autópsia alienígena em 1947 e que obviamente sabe de muitas informações sigilosas. Ele não queria morrer levando consigo os segredos da queda do OVNI em Roswell e por isso procurou Mulder e reacendeu sua sede pela verdade. Através de alguns flashbacks vemos o inconformismo do informante diante da ação de membros do governo que utilizam a tecnologia e os dados sobre a biologia extraterrestre em causa própria. "Roswell foi uma cortina de fumaça" ele diz antes de se despedir. Ah esses informantes de Arquivo X, NUNCA estão dispostos a contar tudo que sabem enquanto podem...

Reunido a Scully uma vez mais, Mulder revela todas as teorias de Tad e explica que a conspiração não envolve uma parceria entre alienígenas e humanos, na verdade ela foi concebida apenas por humanos, uma elite muito poderosa que influencia as decisões e na prática, comanda o mundo desde os anos 1950. Segundo ele, alienígenas foram atraídos para a Terra pelo uso de armas nucleares no final da Segunda Guerra. Esses extraterrestres estavam preocupados com o uso de armas tão poderosas e com a possibilidade de nossa raça ser destruída. Ao tomar conhecimento da existência desses emissários, membros da elite do governo e militares capturaram os alienígenas e apreenderam sua tecnologia para alimentar seus planos de dominação global. Mulder rumina a respeito de todas conspirações que pipocaram nas últimas décadas; desde manipulação de alimentos para engordar e adoecer a população, passando por testes de drogas em campos de prisioneiros sem razão aparente, aprovação de leis que permitem espionar o cidadão, coleta de dados sigilosos, escalada armamentista e fomentação de guerras e revoltas ao redor do mundo, manipulação climática, destruição do meio ambiente, repressão a meios de comunicação etc, etc... tudo estaria conectado em um único complô que redefine de uma vez por todas a mitologia central de Arquivo X e hiper-dimensiona a noção de que um único grupo está por trás de tudo.


Esse trecho é bem interessante e lembra em alguns momentos um documentário chamado Zeitgeist - com cenas reais coladas em ritmo frenético. O trecho é um pouco confuso e padece com a quantidade monstruosa de informações lançadas para o espectador. Mulder não para de falar e para assimilar todos os detalhes eu tive que assistir a cena várias vezes.  

Scully obviamente vacila em acreditar nessas teorias, ela continua a cientista racional que sempre foi. Isso não seria Arquivo X se Scully concordasse imediatamente com as maluquices endossadas por Mulder. Para embasar seu ceticismo, Scully diz que os testes em Sveta não resultaram em nada fora do convencional. A menina não tem nada de errado em seu DNA e ela se sente enganada por Tad e manipulada para acreditar em suas teorias conspiratórias. Sveta dá entrevistas em que acusa o âncora do programa de engana-la e desaparece logo em seguida.

A notícia é um tremendo banho de água fria. Mas o pior ainda está por vir! Os conspiradores não ficam de braços cruzados esperando Tad fazer as suas revelações e ameaçar os seus planos: em uma bem orquestrada queima de arquivo eles reagem de forma brutal atacando em todas as frentes. O programa de O'Malley é tirado do ar, seu site é destruído e o hangar onde o ARV estava escondido é bombardeado por comandos. A nave é destruída e os cientistas são assassinados. Para piorar, Sveta que estava fugindo de carro, é encontrada pelos conspiradores e seu veículo explodido por uma nave semelhante ao próprio ARV. Queima de arquivo total!


Enquanto acopanha os acontecimentos, Scully finalmente procura Mulder e conta que decidiu fazer um exame mais profundo em uma amostra de sangue coletado de Sveta. Ela faz um mapeamento completo no genoma da garota e constata que de fato há algo bizarro nela - algo por definição não-humano! Mais do que simplesmente constatar que o DNA de Sveta foi de alguma forma alterado, Scully faz os mesmos testes em seu sangue e o resultado é similar. Com isso, Scully acaba concordando que é hora de colocar um fim nessa conspiração de uma vez por todas: "Alguém tem que parar esses malditos filhos da mãe!"

Com isso, a dupla acaba finalmente respondendo aos apelos do Diretor Skinner que vinha procurando os dois com o objetivo de reabrir os Arquivos X, ainda que os arquivos em si tenham desaparecido - na sala de Mulder no porão do prédio do FBI tudo que restou foi seu emblemático poster "I Want to Believe". Essa parte me pareceu um bocado forçada: não acho possível que ex-agentes possam ter reativado seu status de investigador federal dessa forma, quanto mais depois das circunstâncias em que os dois se desligaram do Bureau, mas enfim... também não fica muito claro porque Skinner estava tão desesperado em reformar o Arquivo X e por que apenas Mulder e Scully podiam fazer esse trabalho. Tudo bem, eles eram os agentes veteranos, mas será que não há mais ninguém no Bureau interessado nessa área? Será que é tão difícil formar uma força tarefa especializada em casos extraordinários? Seja como for, Skinner parece ter sido alçado a um posto mais importante nessa décima temporada e deve ter um papel mais importante já que ele está inclusive na entrada.

E antes da conclusão, o primeiro episódio ainda lança mão de uma cartada final para fazer os fãs da série original dizerem "WHAT?!?" em uníssono. A notícia de que o Arquivo X foi reaberto tendo Fox Mulder e Dana Scully chega aos conspiradores e eles ponderam sobre as implicações disso. Ninguém menos que o maligno Canceroso - fumando por um buraco na garganta, afirma que algo precisa ser feito a esse respeito. SIM, o Canceroso está vivo, contrariando seu fatídico nome e o fato de ter sido atingido por um foguete de napalm no final da nona temporada. Será que algo que aconteceu no episódio ironicamente intitulado "A Verdade" (The Truth), realmente é verdade? Com certeza ainda sentiremos o cheiro de nicotina nessa temporada...

Mas qual o veredito? O que representou esse episódio para a série como um todo e o que podemos esperar nos próximos cinco que compõem essa temporada?


Eu realmente penso que cinco capítulos vai ser pouco para desenvolver à contento todos os elementos aludidos nesse primeiro episódio. Uma Conspiração desse tamanho (com "C" maiúsculo) teria material para uma temporada inteira de 20 e tantos episódios, mas qualquer desdobramento vai depender dos resultados de espectadores. O primeiro episódio, que foi ao ar domingo na tv americana bateu recordes de audiência, mas ainda é cedo para dizer se ele vai se sustentar. Tudo indica que sim, pois há interesse, mas as próximas semanas serão fundamentais para  definir o futuro de Arquivo X.

De acordo com Chris Carter, "My Struggle" e apenas a primeira parte de um episódio duplo, que terá sua conclusão no sexto e último capítulo da temporada, que tem o mesmo título. Ele adiantou em entrevistas que a segunda parte irá focar em Dana Scully, e na luta dela por seguir com o legado do Arquivo X. Entre o primeiro e sexto episódio teremos quatro semanas com episódios mais convencionais, inclusive "monstros da semana" para quebrar a tensão da mitologia central.

[UPDATE: O segundo episódio foi ao ar no emso dia aqui no Brasil e é claro vai receber um Recap aqui no Mundo Tentacular].

Nesse primeiro momento,a nova temporada tentou definir seu curso para vôos mais altos. Ela buscou ser fiel ao espírito original, o que implica em não introduzir mudanças significativas que ao meu ver seriam bem vindas.  Ainda assim, apesar de seu conservadorismo na maioria dos aspectos de estrutura, trouxe novidades para a mitologia.

É meio que uma bagunça, mas uma bagunça limpa que no final das contas faz algum sentido. E é claro, tem ainda o fator nostalgia no ar. No que diz respeito aos fãs, não era preciso fazer muito além de colocar Mulder e Scully juntos novamente e tocar o tema de entrada para produzir um arrepio de excitação.

Bem vindos de volta... sentimos saudades.