quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Livros Perigosos - Versões do Malleus Maleficarum com conhecimento dos Mythos


Em sua obra, H.P. Lovecraft nunca citou textualmente o Malleus Monstrorum, o infame Manual de caça às bruxas. Provavelmente ele considerava que o livro não tinha nenhuma utilidade prática no Universo dos Mythos. Um materialista convicto como Lovecraft não daria razão a crenças e práticas religiosas que na sua opinião não passavam de tolices anacrônicas de um tempo obscuro. Portanto, as coisas descritas pelos autores do Martelo das Feiticeiras seriam mera superstição e ignorância.

No entanto, uma das ideias centrais no universo dos Mythos é que na incapacidade de compreender a natureza alienígena dessas criaturas de poder cósmico, alguns as interpretariam à luz das crenças conhecidas. Tais seres poderiam ser encaixados em mitologias, sistemas de crenças particulares e religiões, quase sempre vistos como demônios a serem evitados, temidos e combatidos.

Parece perfeitamente razoável assumir que um livro importante como o Malleus Maleficarum tivesse recebido atenção não apenas de caçadores de bruxas, mas de pessoas que lidaram com a ameaça dos Mythos de Cthulhu. É provável que nesse contexto existissem obras apócrifas do tratado original redigido por Kramer e Sprenger, livros que abordariam aspectos específicos de um mal ainda mais pernicioso do que o da Feitiçaria e da bruxaria.

O Livro Básico de Chamado de Cthulhu menciona brevemente esse tomo abominável (pg 236 da Edição New Order), mas essa pode ser considerada a versão simples do livro que pode ser achada em livrarias, bibliotecas ou mesmo na internet. Horrível como pode ser, seus leitores não perdem parte de sua sanidade ao folhear suas páginas.

Contudo, quando as palavras dos caçadores de bruxas se misturam ao conhecimento ancestral, a coisa muda de figura.

A seguir, temos algumas versões deturpadas do Malleus Maleficarum que se referem ao Mythos e que podem ser interpretados como Tomos de Conhecimento Profano, se não de forma integral, ao menos em parte.

Para efeitos práticos, usei o padrão de estatísticas dos livros e tomos de Chamado de Cthulhu 7th.

MALLEUS MALEFICAR
em alemão e latim, autor desconhecido, c. 1499

Perda de Sanidade: 1D4
Myhos de Cthulhu: +2/ +4 por cento
Nível de Mythos: 6
Tempo de Estudo: 3 semanas
Feitiços Sugeridos: Contactar Divindade Nyarlathotep (na forma do Homem Negro)

Uma das primeiras adaptações revisionistas do manuscrito original, esse volume único possui cerca de 90 páginas adicionais que parecem ter sido encartadas em uma edição como uma espécie de acréscimo ao texto. O título foi alterado para "Malleus Maleficar" provavelmente como parte da revisão ou um erro de gramática.

A encadernação é provavelmente do final do século XV, um típico trabalho dos tipógrafos alemães da cidade de Speyer, na Alemanha central.

As páginas adicionais mencionam detalhes a respeito do Homem Negro, um poderoso avatar de Nyarlathotep (tratado no texto como Narlato). O texto menciona a existência de seitas de feiticeiras na Alemanha, dedicadas a adorar o Homem Negro, que em troca de favores carnais e sacrifícios de crianças não batizadas, concedia recompensas na forma de magia e poder. O livro descreve um extenso ritual que permite contatar o Homem Negro e um encantamento que supostamente serviria para prendê-lo em um círculo de magia. Uma vez capturada, a criatura atenderia os desejos de seus captores. É provável que o Ritual seja uma versão do Feitiço Contatar Nyarlathotep e que a parte sobre a captura da entidade seja uma grosseira deturpação.

O livro contém também anotações nas bordas das páginas do texto original, contendo apontamentos que tentam corrigir as observações dos autores. Infelizmente parte do livro foi danificado e algumas páginas se perderam com o passar do tempo. 

O volume foi incorporado ao acervo da Biblioteca Municipal da Cidade de Nuremberg. Antes ele fazia pare de uma coleção particular, tendo sido doado anonimamente em 2002.

Der eingelöste Vorschlaghammer
em alemão, autor desconhecido, c. 1600

Perda de Sanidade: 1D3
Myhos de Cthulhu: +0/ +1 por cento
Nível de Mythos: 3
Tempo de Estudo: 2 semanas
Feitiços Sugeridos: nenhum

O título dessa versão revista e largamente reescrita pode ser traduzido grosseiramente como "O Martelo Redimido". Ele foi escrito no fim do século XVI e é uma versão expurgada do Malleus escrita por autor desconhecido, possivelmente um alto membro do clero.

O autor afirma ter feito uso recorrente do livro em seu trabalho como Inquisidor e "caçador de bruxas" na Alemanha do período. Em tom de confissão ele diz que jamais acreditou realmente no livro ou em seus métodos e que se valeu dele apenas para granjear poder e influência entre o clero, às custas de acusações infundadas e processos viciados na maioria das vezes contra inocentes. O autor prossegue descrevendo inúmeros julgamentos manipulados e fraudes legais em que tomou parte ativamente.

Ele explica que sua compreensão a respeito de teologia mudou radicalmente após um episódio ocorrido na Baviera quando ele atesta ter encontrado uma feiticeira verdadeira, dedicada a servir forças nefastas que seriam muito mais tenebrosas que Satã e suas hostes infernais. O Inquisidor menciona entrevistas conduzidas com essa bruxa, com o uso de tortura na qual ela confessa seus muitos pecados e a existência de entidades que habitam "além do tempo, além do espaço". Ao fim do processo de interrogatório, o Inquisidor afirma que a acusada desapareceu de sua cela possivelmente recorrendo a algum prodígio mágico para fugir da sentença. Posteriormente ele menciona ter sofrido retalhação por parte da bruxa que havia torturado, sendo perseguido por ela e seus aliados demoníacos, tanto desperto quanto em seu sono.

Temendo pela sua vida e decidido a encontrar redenção, o autor se retira da vida clerical e se torna um eremita. Nesse período, escreve o livro no qual busca denunciar a falsidade do Malleus Maleficarum e a verdade sobre as forças ancestrais que habitam a Terra. 

O livro foi publicado em uma pequena tiragem em 1610 em Leipzig, e dado o seu conteúdo, denunciando o Malleus Maleficarum, acabou sendo incluído no Index Librorum Prohibitorum. A maioria dos exemplares foram recolhidos e queimados, restando apenas duas edições sobreviventes, ambas atualmente em coleções particulares na Europa. 

DER HEXEN HAMMER - Edição de Mogúncia
em alemão, autor desconhecido, c. 1620

Perda de Sanidade: 1D6
Myhos de Cthulhu: +3/ +6
Nível de Mythos: 12
Tempo de Estudo: 7 semanas
Feitiços Sugeridos: Maldição Pavorosa de Azathoth, Pó de Ibn-Ghazi e Invocar/ Vincular Serviçal dos Deuses Exteriores.

Uma das edições mais perfeitas e completas do Malleus Maleficarum, ela foi impressa em Mainz em dois volumes por uma gráfica especializada em bíblias e ligada ao próprio Johannes Gutemberg criados do processo.

O livro foi provavelmente presenteado ao Cardeal da Cidade de Colônia em 1624, constando no registro de sua biblioteca particular.

Diferente das demais edições, esta trazia um apêndice possivelmente censurado nas demais cópias do Malleus. Esse apêndice com cerca de 30 páginas incluía um trecho presente no Necronomicon, versando a respeito das Peregrinações de Al Hazred e de sua jornada à legendária Irem, Cidade dos Pilares. O trecho descreve entre outras coisas um Culto Canibal que existia nas ruínas decrépitas da cidade, rituais doentios praticados por seus habitantes e uma série de encantamentos visando ao realizador invocar os Serviçais dos Deuses Exteriores.

Ironicamente o conteúdo adicional da Edição da Mogúncia só foi descoberto em 1750 por um ambicioso bibliotecário chamado Dieter Stamph que trabalhava para a Cúria de Colônia. Percebendo essa diferença no livro Stamph fez uma cópia do apêndice e negociou sua publicação. Ele foi denunciado em 1754 e excomungado por heresia no mesmo ano. Não se sabe se a cópia de Stamph sobreviveu ou não, mas é sabido que o bibliotecário tentou negociar o material em Strassbourg em 1756, ocasião em que foi assassinado.

A Edição da Mogúncia, a primeira a ser identificada com o título alemão "Der Hexen Hammer" ficou em poder da Universidade de Colônia e por um curto período de tempo foi confiscada pelos agentes da Sociedade Thule e incorporada a coleção particular do Comandante SS Heinrich Himmler. O livro foi encontrado apenas em 2016, em meio a uma vasta coleção recuperada na Noruega (para saber mais a respeito leia a notícia no LINK).

Uma vez recuperado e devidamente identificada a Edição do Hexen Hammer retornou ao acervo da Cúria da Cidade de Colonia de onde havia sido removido em 1937.

MAZZA DA STREGA - Edizione del Nunzio Paolo di Genova
em Latim com anotações em italiano por Titus Pauli, c. 1552

Perda de Sanidade: 1D3
Myhos de Cthulhu: +1/ +3 por cento
Nível de Mythos: 9
Tempo de Estudo: 3 semanas
Feitiços Sugeridos: Convocar Divindade (Nyogtha)

Essa edição do Malleus Maleficarum foi produzida em uma gráfica de Gênova em uma tiragem de não mais do que 400 exemplares. Muitos deles ainda podem ser encontrados em coleções e acervos espalhados pela Itália.

A edição descrita aqui pertenceu ao Núncio de Gênova Titus Pauli (1532-1596) um importante mensageiro eclesiástico responsável por estabelecer relações diplomáticas da Santa Sé no Norte da Itália. A história apagou a maioria das realizações do clérigo, mas as anotações escritas nas bordas do livro atestam que ele tinha enorme interesse nos aspectos práticos da Caça às Bruxas e no combate à Feitiçaria. Mais do que isso, as observações de Pauli incluem notas sobre processos judiciais e comentários de próprio punho, no qual ele dispõe sobre feiticeiras que na sua opinião praticam "o que há de mais escuro, dentro da magia negra".

As anotações do Núncio mencionam um Culto devotado a um demônio identificado como Nyoghta, a Coisa que não Deveria Existir. As anotações incluem trechos de um interrogatório conduzido em Genova no qual uma mulher, acusada de bruxaria, dispõe sobre suas práticas sórdidas em conluio com essa terrível entidade. Ela relata sacrifícios de crianças e de fetos, a criação de familiares, o assassinato de pessoas inocentes e a glorificação de seres nefastos.

Após a morte do Núncio, o livro foi incorporado a Biblioteca da Abadia de la Cervara, na região de Santa Margherita de Liguria. O livro ficou em poder da Biblioteca até a propriedade da Abadia ser vendida na metade do século XX. O acervo foi comprado por um colecionador italiano em 1967 e segundo rumores arrematado recentemente por um colecionador chinês que permaneceu anônimo.

EL MARTILLO, con anotaciones del clérigo Ramiro de las Mercedes, querido hermano de la Orden de la Purificación.
em espanhol, autor Ramiro de las Mercedes, c. 1620

Perda de Sanidade: 1D6
Myhos de Cthulhu: +1/ +4
Nível de Mythos: 9
Tempo de Estudo: 10 semanas
Feitiços Sugeridos: Encantar Apito, Encantar Adaga Sacrificial e Chamar o Viajante do Vazio (Invocar Byakhee)

O Tribunal do Santo Ofício não funcionou apenas na Europa e nas colônias da America do Norte, ele esteve presente em outros cantos do mundo, em especial na América Espanhola. Quando os Conquistadores viajaram para a América do Sul em busca de todo ouro e prata que pudessem pilhar, levaram consigo padres interessados em catequizar aqueles povos. À força se necessário. Durante a colonização encontraram resistência para domar o julgavam ser um espírito pecaminoso. Montaram no Novo Mundo versões dos Tribunais da Inquisição, os temidos Autos de Fé. 

Em Lima, a mais rica colônia espanhola, ocorreu um desses atos públicos em 1639, comandado pelo Inquisidor mor Ramiro de las Mercedes. O religioso era membro da Orden de la Purificación, braço da Inquisição que tinha conhecimento do Mythos, ainda que os interpretasse como entidades demoníacas.

Ramiro afirmou ter encontrado no Novo Mundo, em especial em Lima indícios da presença de cultos e divindades nefastas que ainda eram veneradas pelos nativos que descendiam dos Incas. Embora existissem pequenos grupos devotados a Hastur e Yog-Sothoth, em seu zelo fanático, a Inquisição fez inúmeras vítimas inocentes. Durante os dois anos da campanha para "limpar" a Colônia, ocorreram muitas prisões, tortura e execuções. Os primeiros prisioneiros, membros do Culto de Hastur revelaram a Ramiro as bases para seus ritos mais sagrados. O Inquisidor mor, fez anotações de seus progressos e posteriormente redigiu um adendo ao Malleus Maleficarum que chamou El Martillo (O Malho), uma compilação de interrogatórios e investigações a respeito de cultos na colônia.

Em 1641, o Inquisidor escreveu uma carta a Santa Sé afirmando ter extirpado o germe da heresia na Colônia. Contudo, antes de deixar a colônia, de las Mercedes foi envenenado, vindo a falecer à bordo do navio que o levaria ao México, onde planejava realizar uma cruzada semelhante.

O livro foi recolhido por um seguidor próximo do Inquisidor que copilou os capítulos escritos por de las Mercedes que se referem especificamente a Hastur (chamado Xhastur) e a mitologia do Rei Amarelo, conforme os testemunhos obtidos. Ele cita ainda torturas, o uso de feitiços contra os cultistas e apresenta uma lista de hereges que foram executados. 

O trabalho de Ramiro de las Mercedes jamais foi publicado, embora o malho tenha sido copiado por membros da Ordem e preservados em Igrejas ou bibliotecas eclesiásticas simpáticas a obra da Organização.

domingo, 13 de outubro de 2019

Martelo das Feiticeiras - Um dos livros mais perigosos de todos os Tempos


O século XV foi um período especialmente obscuro na Europa, uma era em que Magia Negra, Bruxas, Feiticeiros e Espíritos Malignos eram considerados como ameaças reais espreitando nas sombras. Por toda Europa e depois na América, supostas bruxas eram caçadas e exterminadas sistematicamente. Tribunais Eclesiásticos eram investidos com o poder para destruir esse mal, cuja mera existência era uma anátema à Deus na Terra. Muitas vezes, não importava se o acusado era realmente culpado ou não, uma vez que a mera suspeita de que ele fosse um praticante de magia negra era suficiente para justificar a pena de morte. Milhares morreram direta ou indiretamente com a caça às bruxas.

Ainda assim, para aqueles que pensam ter se tratado de um movimento caótico e confuso de repressão, nada poderia estar mais longe da verdade. Havia todo um sistema norteador das ações da Igreja. Um sistema que estabelecia regras bastante rígidas a serem obedecidas pelos "caçadores de bruxas". 

É provável que o mais famoso e influente manual de regras sobre o tema tenha sido liberado no mundo no ano de 1487. Mas como esse estranho tratado sobre bruxaria, demonologia e métodos para combater a escuridão se tornou tão importante? Como esse medonho compêndio que ensinava desde interrogar e torturar acusados, até executar bruxas da maneira adequada, se tornou tão popular?

O célebre Malleus Maleficarum, comumente traduzido como "O Martelo das Feiticeiras", foi originalmente escrito na Alemanha em 1486 por um ex-sacerdote da Ordem Dominicana, feito Inquisidor chamado Heinrich Kramer. Quando colocou a pena sobre o pergaminho, para escrever seu clássico, Kramer já era um veterano no ofício de caçar bruxas e realizar exorcismos. Acredita-se que ele vagava pela parte central da Europa, uma das mais obscuras e supersticiosas, oferecendo seus serviços. Em 1484 ele teria caído em desgraça, sendo afastado da igreja após um escandaloso julgamento presidido no Tirol. Exilado sob acusação de ser "senil e louco", ele teve que reconstruir sua reputação novamente. Para isso, estava decidido a criar o Manual definitivo a respeito de demônios, exorcismo, bruxas e seres das trevas. Esse livro traria todas as informações necessárias para caçar, identificar, enfrentar, interrogar e processar aqueles em conluio com as trevas.

Outra função importante do livro seria provar definitivamente que bruxaria existia, já que na época, aos olhos da Igreja, magia negra nada mais era do que os devaneios de pessoas enganadas pelos demônios. Ou seja, bruxas eram pessoas supersticiosas que acreditavam ter poderes sobrenaturais, quando na verdade os únicos capazes de tal coisa eram os espíritos malignos e demônios que os tentavam. Essa noção seria contestada pelo trabalho de Kramer que se dedicava a provar, sem sombra de dúvida, que os mortais, em consórcio com o Inferno, recebiam dele terríveis dádivas.    


Para provar seu ponto de vista, Kramer procurou um conhecido teólogo chamado Jacob Sprenger, um dominicano reformista que de fato não acreditava em bruxas. Sprenger, no entanto, era Chefe Inquisidor nas Províncias de Mainz e Trier, personalidade de grande influência. Para que o livro tivesse as devidas credenciais, Kramer colocou o teólogo na posição de co-autor e se aproveitou de sua fama.

Escrito às pressas por Kramer, repleto de erros gramaticais e trechos incompletos, a primeira edição do Malleus Maleficarum foi submetida a Faculdade de Teologia da Universidade de Colônia com o intuito de ganhar seu endosso. Ele acabou sendo publicado em 1487 em uma pequena tiragem, ainda com os erros que marcavam seu rascunho inicial.

Não se sabe ao certo se a Universidade de Colônia estava realmente de acordo com as teorias contidas no livro. Embora o autor contasse com uma Carta de Aprovação assinada pela universidade, muitos historiadores acreditam que esta foi forjada. Mas isso pouco importava, já que o Malleus Maleficarum logo se tornou extremamente popular e difundido. Em 1490 o livro chegou a ser condenado pela Igreja Católica como antiético e contrário às doutrinas sobre demonologia. Eventualmente, ele entrou para a lista de livros banidos, o Index Librorum Prohibitorum, que versava sobre obras consideradas perigosas aos olhos da fé. Contudo, nada disso conseguiu deter a imensa popularidade do texto, que foi rapidamente traduzido em outros idiomas tornando-se o equivalente medieval de um best-seller. Inquisidores Medievais o adotaram quase de imediato como um manual de bolso para caçadores de bruxos que até então não tinham credibilidade para seu estranho ofício. De fato, muitos desses caçadores eram até então ridicularizados e tratados com desdém. O que o livro deu a eles foi uma aceitação tácita da qual eles jamais haviam gozado. 

Em poucos anos, as suspeitas a respeito da Bruxaria e do seu perigo deixaram de ser superstição e se tornaram uma dúvida. Mais algumas décadas e a dúvida se tornou certeza. Incontáveis edições e revisões ao longo dos anos, impulsionaram o livro além das fronteiras de uma Europa que era uma verdadeira colcha de retalhos de reinos e feudos. A invenção da Imprensa, creditada a Johannes Gutenberg deu o impulso final, permitindo sua expansão definitiva. Da Alemanha para a Suíça, de lá para Itália e França e depois Leste Europeu, Espanha, Portugal e finalmente Inglaterra. Da Europa, o Martelo foi carregado para a América colonial, terra que não estava livre da plaga das feiticeiras. Já assimilado pela Igreja de Roma, o próprio Papa emitiu uma bula na qual defendia o propósito e importância do livro.

O conteúdo do Malleus era por si só bombástico: escandaloso, excêntrico, chocante e em última análise sedutor aos olhos de uma sociedade fechada. O propósito dele não era redimir ou reeducar, mas destruir e condenar com unhas e dentes tudo aquilo que fosse considerado sacrilégio. As bruxas assumiam o posto de servas de Satã e discípulas do Grande inimigo de Deus. Elas eram uma força a ser temida e confrontada pelo fogo.


O tratado era dividido em três grandes partes, cada qual lidando com um diferente aspecto da caça às bruxas em detalhes. A primeira parte tinha o título "Das Três Condições Necessárias para a Bruxaria: O Diabo, a Bruxa e a Permissão de Deus Todo-Poderoso". Entre suas principais questões estavam os argumentos que validavam como certo o pecado de não se crer em bruxaria, criticavam a lascívia feminina e sua fácil corrupção, além de exaltar a permissão de Deus para combater as práticas das bruxas. O texto tratava de estabelecer que bruxaria era real e afirmava que ceticismo sobre a magia negra era um perigo extremo. 

Esse capítulo acompanhava vários relatos, supostamente verídicos envolvendo possessão e poderes sobrenaturais. Demônios continuavam sendo uma parte importante, tendo agora as bruxas como aliadas. Elas mantinham relações sexuais espúrias com esses seres gerando Incubus e Sucubus, entidades que se alimentavam da energia sexual e através dela disseminavam a corrupção dos inocentes. A versão original trazia descrições que podiam ser facilmente categorizadas como pervertidas, com uma fixação anormal pelo sexo entre mulheres e seres antropomórficos.  

A segunda parte tratava mais especificamente de demonologia e sua relação com magia negra. Examinava diferentes tipos de feitiçaria e explicava os poderes e habilidades sobrenaturais das bruxas. Também ensinava como reconhecer o trabalho da bruxa, o malefício, e a forma como este corrompia e pervertia a alma. As magias, maldições e maus agouros eram descritos nesse trecho, com uma quantidade de detalhes bizarros que passaram a povoar a mente das pessoas do período. Temas como infanticídio, canibalismo e outras atrocidades lançaram sobre as feiticeiras uma sombra cada vez mais escura. 

Com todo esse panorama atros pintado em cores dramáticas, a terceira parte versava sobre os aspectos legais e persecutórios do combate à bruxaria. Ele era voltado para juízes, advogados, escriturários e Inquisidores que povoavam as cortes legais. Os procedimentos eram dissecados na forma de métodos que deveriam ser adotados à risca. O livro chegava ao ponto de instruir sobre os procedimentos do tribunal, incluindo como deveria se comportar a acusação, como deveria ser realizado o interrogatório e conduzida a tortura das bruxas e testemunhas, bem como as punições às quais elas estariam sujeitas. 

A tortura era não apenas encorajada, mas endossada como uma necessidade para separar os acusados. O livro dizia textualmente que era mais provável uma mulher vir a ser corrompida pelas forças nefastas do que um homem, já que elas eram mais propensas a se entregar às relações carnais. O tratado também defendia que a fé das mulheres possuía uma falha que estava ligada ao pecado original de Eva. O livro inteiro, estava infectado com uma profunda misoginia e absurda discriminação contra as mulheres em geral. Kramer dizia várias vezes que as mulheres eram um dos motivos para a corrupção terrena e que a magia negra nascia de suas relações intempestivas.         


Não é de se surpreender que Kramer quisesse culpar as mulheres da maneira explicitada no Malleus Maleficarum. Ele foi, conforme todos os registros, um homem pequeno, desprezado e preterido em tudo que fez a não ser pelo seu livro. Jamais se casou ou teve filhos, se dizia um celibatário e tornou-se um sacerdote pela falta de opções. Como caçador de bruxas era implacável, sempre disposto a apontar uma mulher como pivô das tragédias ocorridas. Ele continuou a escrever manuais e tratados sobre bruxaria ganhando status de celebridade entre outros Inquisidores até sua morte em 1505. Seu legado foi perpetuado com sangue, perseguição e horror sem precedente na História da Igreja.

É importante salientar que até a publicação do Malleus, bruxaria raramente era punida com a pena de morte. Ela não era considerada sequer como heresia e portanto, não demandava uma punição particularmente séria por parte das autoridades. Tortura sequer era cogitada, sendo que a maioria das alegadas feiticeiras eram tratadas apenas como transgressoras menores. No máximo bruxas recebiam chibatadas ou eram banidas, ainda que tais penas fossem raras e cumpridas somente em comunidades isoladas. O Martelo das Feiticeiras cumpriu exatamente o que o título insinuava, ele golpeou com violência arrebatadora, colocando as bruxas e de fato, todas as mulheres numa posição de grave risco.

Quando cortes seculares abraçaram o livro com um entusiasmo jamais visto antes, decretaram uma nova e medonha era de paranoia, medo e brutalidade em toda Europa. Suas páginas eivadas de rancor fizeram emergir uma espécie de loucura religiosa e fervor doentio que continuaria presente na Igreja Católica pelos séculos seguintes, produzindo efeitos até o século XVIII. Bruxas se tornaram hereges que estavam além de qualquer redenção e precisavam ser esmagadas. O maior dos pecados era aderir a essas práticas nefastas e não importava se dizer inocente, pois a mera acusação já era capaz de produzir imenso dano.

No centro de toda essa horrenda tempestade de ódio figurava tão somente um livro. Um terrível livro que deflagrou tudo, um testemunho de como ideias podem ser perigosas.

Hoje, historiadores consideram que o Malleus Maleficarum está no mesmo nível de influência perniciosa que o Mein Kampf, que ecoava os pensamentos de Adolf Hitler. Em ambos, horríveis teorias foram capazes de contaminar a mente das pessoas e de se entranhar no tecido social, alterando a forma como as pessoas viviam. Não por acaso, ele é considerado como "um dos trabalhos mais sangrentos da história humana".


A caça às bruxas é tida como uma das piores atrocidades da história, mas se enganam os que pensam que ela é coisa do passado distante. Que esse livro contribuiu para instaurar um dos capítulos mais negros da história é inegável, assim como inegável é o fato de ainda haver perseguições em todo mundo. 

Ainda existem muitos aspectos misteriosos no papel do Malleus Maleficarum como catalizador da histeria que se seguiu a sua publicação. Ele permanece como um tema fascinante a ser discutido e estudado. Como um obscuro livro, escrito por um autor mentalmente instável, pode ter ganho tamanha importância? Como suas teorias foram aceitas tão rapidamente e onde estavam aqueles que poderiam ter falado contra ele? Essas perguntas talvez jamais poderão ser respondidas à contento.

O livro abominável, versando sobre um mundo estranho, foi capaz de motivar tragédias, e ainda hoje continua a alimentar uma fogueira que arde vigorosa com preconceito e paranoia. Cabe a nós, que acreditamos ser melhores que nossos antepassados, a eterna vigilância, para que tal horror jamais venha a ocorrer novamente.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Regras Opcionais: Perícias Secundárias - Novas e menores habilidades


Em Chamado de Cthulhu, ao criar a ficha de seu personagem você tem diante de si uma lista de Perícias. Essa lista contempla boa parte das habilidades do seu personagem e fornecem todas aquelas habilidades que poderão ser importantes em uma sessão de jogo.

Algumas delas serão de suma importância no decorrer da investigação, como Encontrar, Usar Biblioteca ou Psicologia. Outras serão úteis para refinar as buscas e aprofundar as descobertas como Arqueologia, História ou Avaliação. Finalmente, existem aquelas que serão vitais para manter seu personagem vivo ou que permitirão a ele sobreviver em situações de risco, como Saltar, Esquivar e Lutar.

Claro, todas as perícias são de suma importância e como jogador, você irá escolher aquelas que melhor retratarem seu personagem. Mas eis que surge a seguinte questão.

Um indivíduo é bem mais do que um agrupamento de habilidades e perícias gerais. Existe uma vasta gama de hobbies, passatempos, conhecimentos mais ou menos inúteis e habilidades inerentes que não estão incluídas na listagem da ficha. Os jogadores mais veteranos já devem ter percebido um espaço de duas linhas para preencher com habilidades específicas. Se por exemplo, seu personagem for um conhecedor de "Jazz e Blues" ele poderá colocar ali. Da mesma maneira, se ele se destacar por saber algo a respeito de "Consertar sapatos", "passear com cães", "pintar miniaturas" ou for um entusiasta de "Filatelia", esse espaço poderá ser usado.

Eu sempre adorei incluir habilidades que fornecem um colorido para os personagens, permitindo assim fugir um pouco daquele formato restritivo da ficha. Nada expressa melhor a individualidade humana do que pequenos interesses particulares.

Quem já leu algum módulo ou cenário pronto de Chamado sabe que esse tipo de perícia está presente entre os NPCs desde a primeira edição.

Mas aí a gente recai em um problema no que diz respeito aos pontos. 

Em Chamado de Cthulhu, os pontos para serem distribuídos nas perícias são limitados e se os atributos dos jogadores forem baixos não sobra muito no que gastar. Seria injusto forçar o jogador a distribuir pontos em habilidades "menos úteis" como as citadas acima em detrimento de outras realmente importantes. Quer dizer, seria muito legal que um personagem soubesse "cozinhar", "fazer tricô" ou conhecesse "história militar", mas sejamos francos, quantas vezes tais habilidades serão usadas?

Pensando nisso, criei uma regra caseira chamada Perícias Secundárias, que é totalmente opcional e permite aos investigadores escolher alguns hobbies e passatempos que fornecem um colorido todo especial aos seus personagens.


Ela funciona da seguinte maneira:
  •  O personagem recebe 200 pontos para usar gratuitamente na escolha de Perícias Secundárias que ajudem a compor o seu personagem.
  • Cada personagem pode ter no máximo 4 Perícias Secundárias.
  • As Perícias Secundárias só podem ser adquiridas com a concordância do Guardião, no momento da criação do Investigador ou no decorrer de campanhas com o aval do Guardião. Todas elas começam com 0%. 
  • Perícias Secundárias podem ser marcadas em caso de um teste bem sucedido e estão sujeitas a aumento conforme as regras. Contudo, as Perícias Secundárias não fornecem Recuperação de Sanidade ao atingir o grau de 90%.
  • O valor mínimo para as Perícias Secundárias é 50%. Elas representam algo que seu investigador realmente devotou tempo e interesse. O valor máximo na Perícia Secundária durante a criação de personagem é 80%. Quaisquer pontos restantes sao desperdiçados.
Perceba que uma boa parte dessas Perícias Secundárias pode ser listada sob a Perícia Arte e Ofício. Considere que um personagem que gasta pontos em perícias secundárias numa determinada arte se dedica a uma área muito específica e restrita ou o faz sem o intuito de ser profissional. Portanto é perfeitamente aceitável que uma personagem gaste pontos de Perícia Secundária em "Dança de Salão" ou "Canto Gregoriano", enquanto "Dança" e "Canto" em um sentido mais amplo, devem ser adquiridas da maneira convencional.

Para facilitar, a seguir temos uma lista de Perícias Secundárias.  

De modo algum essa lista é exaustiva, permitindo que muitas outras Perícias Secundárias sejam adotadas pelos seus personagens dependendo somente do aval do Guardião.

Lista de Perícias Secundárias:

Abaixo temos uma longa lista de sugestões para Habilidades Secundárias, levando em conta o período clássico de 1920.

O jogador pode rolar nas tabelas abaixo ou escolher as que achar mais interessante, sempre com a concordância do Guardião. Divirta-se.

Role 1d100

1 Sorrir falsamente

2 Dançar (escolha um estilo), Ex: valsa, dança de salão, salsa. (Não profissionalmente) *

3 Desenhar Caricaturas

4 Escrever Poesias

5 Escrever diário

6 Engraxar Sapatos

7 Lembrar velhas histórias

8 Cortar ou Pentear Cabelo

9 Risada exagerada

10 Ouvir Pacientemente

11 Dar gorjetas

12 Numismática (colecionar moedas)

13 Escrever/ler partituras

14 Caligrafia

15 Taquigrafia

16 História (escolha uma área específica de interesse), ex: medieval do século XIII, santos franceses, imigrantes judeus, dos Montes Cárpatos)

17 Apreciar (escolha algo), Ex: Cigarros, bebidas, mulheres, trabalhos bem feitos

18 Detestar (uma pessoa), escolha uma pessoa que seu personagem odeia (Ex: sua mãe, um juiz, um policial, um político)

19 Detestar (um grupo), escolha um grupo de pessoas que seu personagem odeia (Ex: Advogados, parentes, huguenotes, alemães)

20 Amar (uma pessoa), escolha uma pessoa que seu personagem adora (Ex: seu avô, um professor, um colega, um líder)

21 Amar (um grupo), escolha um grupo de pessoas que seu personagem adora (Ex: Compositores clássicos, Irlandeses, o time de rugby local, parentes)

22 Encadernar Livros

23 Escrever artigos

24 Vestir-se com elegância

25 Provocar

26 Misturar Bebidas

27 Datilografia

28 Preparar (escolha um prato), ex: Goulash, Strogonof, Lagosta ao termidor

29 Conhecer ditados

30 Citar (alguma pessoa que admira), ex: Winston Churchill, Shakespeare ou Júlio Cesar

31 Fumar compulsivamente

32 Sapatear (Não profissionalmente)

33 Declamar Poesias

34 Fazer Mímica

35 Falar de doenças

36 Taxidermia

37 Contar velhos casos

38 Remendar roupas

39 Grosseria

40 Tocar (Instrumento), ex: Gaita, Violão, piano (não profissionalmente)

41 Truques com cartas

42 Filatelia (colecionar selos)

43 Falar de negócios

44 Elogiar

45 Criticar

46 Pescar

47 Apostar (escolha um interesse), Ex: cavalos, lutas de boxe, jogos de azar, corridas de automóveis

48 Entreter Crianças

49 Fazer compras

50 Citar (um livro), ex: a Bíblia, o Corão, o Manifesto Comunista

51 Jogar (escolha um hobby) Ex: Dardos, xadrez, gamão, mah-jong

52 Gentileza

53 Bajulação

54 Pintar Miniaturas

55 Fazer Exercícios

56 Preparar (especificar um alimento), ex: café, refeição leve, sanduíche, sopa

57 Esnobar

58 Etiqueta

59 Ofender

60 Conhecer Vinhos

61 Tarot

62 Bom gosto

63 Cantar (uma música), Ex: Hino de seu país, uma balada, hino religioso

64 Organizar Festa/Evento

65 Jogar (esporte), ex: Futebol, Baseball, Golf (não profissionalmente)

66 Colecionar (algo de seu interesse), ex: borboletas, relógios de bolso, abotoaduras, canetas.

67 Organizar (definir um tipo de coleção), Ex: Livros, pinturas, mapas, ferramentas

68 Resolver Palavras Cruzadas

69 Imitar o som de pássaros

70 Costurar e Cerzir

71 Desenhar (tipo), ex: retrato, paisagens, natureza morta (não profissionalmente)

72 Ser fã de (uma pessoa ou grupo), ex: Pablo Picasso, Rodolfo Valentino, Mickey Mantle ou Pintores Flamencos.

73 Tecer (especificar), ex: tapetes, casacos, cachecol

74 Conhecer Uísque

75 Beber socialmente (ou em excesso)

76 Reclamar

77 Cuidar de cães

78 Ser fã de (estilo musical), ex: música clássica, Jazz, Blues, Música sacra

79 Esbanjar dinheiro

80 Decoração

81 Dar nó de gravata ou Laço decorativo

82 Astrologia

83 Acordar cedo

84 Misturar (especificar bebida), ex: martini, drink, hi-fi

85 Interromper pessoas

86 Floricultura

87 Jogar Cartas (Bridge/ Buraco/ Truco)

88 Contar Piadas

89 Poupar dinheiro

90 Flertar

91 Aparar Bigode ou Fazer maquiagem

92 Rezar

93 Estalar os dedos

94 Ser fã de (gênero literário), ex: Poesia medieval, Romantismo, Realismo, Pulp Fiction

95 Ser simpático

96 Limpar (definir algo em especial), ex: armas, cachimbo, gavetas, talheres

97 Canto (definir), ex: lírico, opera, gregoriano (não profissionalmente)

98 Obedecer ordens

99 Fazer caminhadas

00 OPCIONAL - Escolha ou sorteie uma Perícia qualquer da lista, nesta seu investigador poderá alocar até 99%. Isso o torna um conhecedor profundo, entusiasta devotado ou simplesmente alguém com muito tempo livre e com uma área de interesse muito particular.


* O termo "não profissionalmente", significa que o personagem conhece o básico a respeito de uma determinada atividade, mas não tem o conhecimento profundo ou mesmo, o treinamento e dedicação de alguém que vive daquela atividade.

A lista acima não é final, existe um número quase inesgotável de Perícias que cabem nessa lista e que podem ser incluídas pelo jogador, desde que ele tenha a concordância do Guardião.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O Sacrifício - Ossadas encontradas em caverna no Nepal evidenciam estranho ritual


"Havia ossos em todo canto", foi o que disse um assustado pastor de cabras chamado Kenui após fazer a descoberta mais apavorante de sua vida em 2017.

Kenui vivia na Região de Mustang, um dos territórios mais isolados e agrestes do Nepal, país conhecido pelo seu alto relevo escarpado que dão forma às majestosas Montanhas do Himalaia. O rapaz, na época com 16 anos, nativo do pequeno vilarejo de Samdzong, conduzia seu rebanho de cabras através de um vale até um povoado vizinho. Tendo feito esse caminho repetidas vezes, ele conhecia bem o percurso e sabia os melhores lugares para acampar em segurança. O vale oferecia várias cavernas e grutas naturais usadas por pastores como Kenui há séculos.

Enquanto se preparava para montar um acampamento, ele percebeu que um dos animais havia sumido. Como um bom pastor, colocou o rebanho em segurança e decidiu sair em busca do animal que havia se desgarrado e encontrá-lo antes do anoitecer. Seguindo as trilhas, ele acabou descobrindo uma estreita entrada para uma caverna onde o animal parecia ter se enfiado. Ouvindo com atenção ele conseguia distinguir os balidos do animal que parecia assustado e incapaz de achar o caminho de volta. O rapaz respirou fundo e começou a se arrastar para dentro da caverna penetrando cerca de 15 metros através de um túnel estreito, ouvindo sempre o ruído do animal lá no fundo.

Finalmente ele emergiu em uma câmara mais larga, onde conseguiu encontrar o assustado animal e algo mais. Na tênue luz de uma vela, o pastor se deparou com uma cena apavorante, o pequeno espaço onde o animal ficou preso estava tomado de ossadas humanas espalhadas pelas paredes em nichos ou dispostas de maneira organizada. Os crânios pareciam sorrir com seus dentes escancarados e espiar através das órbitas vazias.

Assustado, o rapaz agarrou o animal e saiu dali às pressas temendo alguma maldição. Ele então relatou a sua descoberta no vilarejo. Semanas mais tarde, Kenui levou um grupo de arqueólogos até a caverna onde fez sua fantástica descoberta. Não é totalmente incomum encontrar restos humanos nessa região, já que a ocupação de pessoas na área remonta a idade da pedra. Cemitérios antigos como aquele são uma descoberta frequente que normalmente não chamava muito a atenção, mas lá havia algo mais.


Ao explorar a caverna indicada, os arqueólogos descobriram que estavam diante de algo incomum e surpreendente. Primeiro a quantidade e a forma de dispor os corpos chamaram a atenção dos especialistas que contaram 27 ossadas completas de homens, mulheres e crianças em seu interior. Os restos haviam sido colocados cerimoniosamente em nichos escavados na rocha, enquanto outros foram dispostos em uma espécie de semi-círculo com as costas voltadas para a parede. O espaço de aproximadamente 8 metros quadrados estava tomado pelas ossadas. Ao examiná-las repararam que apresentavam marcas de cortes que indicavam algum tipo de ritual e uma cuidadosa preparação dos cadáveres. 

Análises posteriores determinaram que os restos tinham entre 1500 e 1800 anos e que todos pertenciam a um mesmo grupo étnico. Alguns também eram parentes próximos conforme demonstrou o DNA. Ao que tudo indica, eles foram colocados naquela caverna após serem cuidadosamente descarnados em um tipo de preparação ritualística. A maioria dos corpos teve a carne parcialmente removida antes do sepultamento, atividade que envolveu a realização de cortes com machado e posteriormente afiadas facas de metal. Os instrumentos deixaram marcas claras nos ossos encontrados. Após o processo de remoção da carne, o que restou foi acomodado em pequenas caixas de madeira, conforme especularam os pesquisadores. Infelizmente, apenas fragmentos dessas caixas restaram de modo que não é possível precisar sua forma ou se eles continham alguma identificação. 

Uma análise mais criteriosa levou também à descoberta de ossadas de animais em especial cavalos e cabras, o que aponta para um provável componente sacrificial para os mortos, contudo seu propósito permanece um mistério. Os resultados entretanto determinaram que todos os sacrifícios ocorreram em um pequeno espaço de tempo, possivelmente numa mesma ocasião. 


Um dos arqueólogos responsáveis pelos trabalhos, Peter Athans, um britânico que trabalha com a Universidade de Bagmati, comentou a respeito da descoberta.



 "Ainda estamos tentando determinar o propósito desse ritual e seu significado. Infelizmente, a caverna está situada em uma matriz de rocha frágil o que demanda extremo cuidado. É possível que outros túneis, que faziam parte do complexo e que eram usados com o mesmo propósito, tenham desabado no passado".


Athans é especialista em cultura nepalesa, em sua opinião, a remoção da carne aponta para um ritual bastante particular, provavelmente praticado por um pequeno grupo tribal. Ele não descartou a possibilidade do rito envolver canibalismo, embora alguns indícios deponham contra isso. 

"Quando você realiza esse procedimento para obter alimento, o processo de descarnar tende a ser diferente. No canibalismo ao redor do mundo, a base do crânio é geralmente esmagada (para acessar o cérebro) e os ossos são quebrados em busca do tutano. Não há nenhum sinal disso ter acontecido nos ossos recuperados. O ritual, seja ele qual for, foi muito cuidadoso, como se o realizador rendesse a eles respeito".

O pesquisador acredita que as pessoas possam ter passado por um elaborado sacrifício voluntariamente. É possível nesse caso, que a carne deles tenha sido removida e oferecida a alguma entidade da mitologia nepalesa. Athans acredita que para esse fim, as partes retiradas teriam sido queimadas em uma pira junto com madeira. A noção é que ao queimar a oferenda, esta se transformaria em fumaça que elevada aos céus encontraria a direção da morada celestial.

O folclore nepalês está repleto de entidades, deuses e demônios, que culturalmente aceitam sacrifícios, algumas vezes humanos, para garantir assim favores e intervir no mundo físico. Anteriormente, na mesma região foram encontradas evidências de rituais no qual vítimas foram enterradas vivas em cavernas, afogadas em lagos, lançadas de montanhas ou imoladas em piras. Em um ambiente com clima e condições naturais severas, sujeito a terremotos e estações de monções, os povos primitivos nepaleses frequentemente recorriam a sacrifícios como uma forma de contornar dificuldades e garantir o favor divino. 

A remoção da carne, no entanto, intriga os especialistas já que tal procedimento tende a ser raro em regiões tão ao norte. Casos semelhantes podem ser encontrados mais ao sul, entre praticantes de ramos do Zoroastrismo. Estes praticam o descarnamento como uma espécie de comunhão com a natureza, deixando, contudo, seus corpos para alimentar animais, não os lacrando em cavernas. Povos antigos no Alto Mustang adotaram algumas tradições funerárias similares a dos Zoroastristas que passaram por ali enquanto viajavam para o oeste. Mas o método usado por esse grupo em especial possui algumas diferenças marcantes.


Niles Turin, arqueólogo da Universidade de Cambridge, também especialista em cultura nepalesa aponta uma outra possibilidade. Ele acredita que o sacrifício possa ter atendido algum propósito muito sério. 

"Não se realiza um sacrifício desse tamanho, com tanta elaboração, sem que haja uma razão importante", defende o acadêmico. Ele acredita que as 27 vítimas do sacrifício possivelmente compunham uma mesma tribo ou grupo comunal que em algum momento decidiu se oferecer para um sacrifício essencial, que aos seus olhos salvaria uma região ou satisfaria as entidades por muito tempo. "Existem casos registrados de sacrifícios de clãs inteiros com o intuito de acalmar entidades responsáveis por tremores de terras ou avalanches. Os registros mencionam tal coisa, mas jamais havíamos encontrado nada semelhante".

Turin teoriza que a carne das vítimas do sacrifício tenha sido removida com o intuito de alimentar simbolicamente uma ou mais entidades sobrenaturais e assim saciar sua fome. O mais impressionante é que essas pessoas teriam concordado com essa provação, almejando com isso um bem maior. 

Na mitologia nepalesa os espíritos malignos são chamados Asuras, seres que se alimentam tanto da carne quanto do espírito de seres humanos. Os Asura são entidades malignas, podendo ser interpretados em termos ocidentais como demônios. Elas lutam constantemente com suas contrapartes benevolentes, os Deva que são seres iluminados. Presentes no hinduísmo, essas crenças sofreram diferentes interpretações e tiveram mudanças significativas ao serem assimiladas pela cultura do Nepal. Os nepaleses acreditavam que as Asuras não apenas batalhavam com os Deva em um plano espiritual, mas disputam os favores dos mortais, perambulando pela terra, trazendo caos e ruína em seus passos. Um terremoto, uma enchente, avalanche ou outro cataclismo natural poderia ser interpretado como a ação desses demônios. Nesse contexto, é possível que esse clã tenha testemunhado um acontecimento marcante e decidido pelo sacrifício para que este não voltasse a acontecer.

Ao ofertar sua própria carne a esses espíritos famintos, as pessoas que participaram do sacrifício acreditavam estar assim extinguindo a sede de sangue ou o próprio mal dos Asura, garantindo o futuro de sua terra e de seu povo. 

Na hipótese levantada por Turin, através de rituais e preparações específicas, o espírito dessas pessoas teria sido devidamente  preservado, ainda que seu corpo fosse simbolicamente oferecido para ser devorado. Um dos aspectos mais interessantes desse tipo de ritual diz respeito a escolha de um membro do clã, incumbido de realizar sozinho todo o ritual.


O procedimento envolveria dopar cada membros do clã - incluindo parentes e amigos, e depois cortar suas gargantas com uma lâmina, obedecendo a instrução de fazê-lo da direita para a esquerda. A seguir, essa pessoa seria responsável por realizar o descarnamento dos corpos e oferecimento do sacrifício aos Asura em uma pira flamejante montada com madeiras sagradas. Sua tarefa final teria sido levar os restos para a caverna e sepultá-los para que elas encontrassem o merecido descanso.

Curiosamente, o responsável por tal ritual após sua conclusão passa a ser considerado "amaldiçoado". Seus atos, embora necessários, não poderiam ser relevados e ele próprio estaria fadado s ser evitado por todos. Não por acaso, vigora a crença de que a pessoa incumbida dessa tarefa poderia se tornar um Asura.

Diante da descoberta, um conselho de anciãos do Vilarejo de Samdzong decidiu convidar monges budistas para purificar a região e livrar o lugar da influência de possíveis espíritos malignos. Mais de um milênio após o corajoso sacrifício, a descoberta do sepulcro ainda poderia enfurecer os Asura e por isso todo cuidado era pouco. Com seu canto sagrado, os monges esperam que o lugar tenha sido corretamente purificado. 

Ao que parece as crenças das pessoas que se ofereceram como sacrifício ainda estão presentes em seus descendentes, evidenciando que o respeito por essas tradições é algo muito forte no país. O Nepal, é um lugar de velhas tradições, mistérios e comprometimento.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Personagens de Luz Morta segunda parte

As fichas com estatísticas de mais dois personagens prontos para o Cenário Luz Morta (Dead Light).

Aqui temos o Detetive Particular Lester Manning e o Padre Michael Dorsett.

Lester Manning                                               

INVESTIGADOR DOS ANOS 1920
Nome: Lester Ezequiel Manning
Ocupação: Detetive Particular
Idade: 36 anos
Sexo: Masculino
Residência: Boston, Massachusetts
Local de Nascimento: Colton, North Carolina

ATRIBUTOS
FOR       70
DES        60
INT         70
CON      70
APA        60
POW       55
SIZ        80
EDU       60
Taxa de Mov.

PONTOS DE VIDA:
14
SANIDADE:
55
SORTE:
           60
PTos DE MAGIA:
11
BÔNUS DE DANO:
+1d4

PERÍCIAS DO INVESTIGADOR
Armas de Fogo:

Direito
35
Nível de Crédito
40
Pistola
50
Disfarce
25
Psicologia
50
Arte e Ofício:

Encontrar
55
Usar Biblioteca
40
Fotografia
20
Esquivar
40


Gaita de Boca
50
Furtividade
32


Avaliação
20
Lábia
65


Charme
40
Língua Nativa:



Chaveiro
15
Inglês
60


Contabilidade
15
Lutar (Briga)
50


A lista inclui as habilidades em que pontuação foi gasta para a criação do personagem.

ANTECEDENTES
Descrição Pessoal: Um sujeito negro, distinto, bem vestido, com um gosto impecável por gravatas e chapéus de feltro. Um bigode bem aparado e muito simpático. 1,87 m, 85 Kg

Pertences Queridos: Gaita de boca que pertenceu ao seu avô, Ezekiel Manning. Ele lhe deu de presente e você guarda como lembrança do grande homem que ele foi.
Ideologia/Crenças: Lute pelo que você acredita, nada cai do céu e a sorte favorece aos ousados.

Características: Não leva desaforo para casa. Trate com respeito para ser respeitado.
Pessoas Significativas: Mona Manning - Sua esposa e a mulher que você escolheu para viver a sua vida. Ex-cantora de Blues, ela é a razão de sua vida.

Fobias e Manias:
Locais Importantes: A Velha Casa do Absinto - Um bar em Nova Orleans onde a bebida é boa e o Jazz é quente.

Ferimentos e Cicatrizes:

EQUIPAMENTOS E PERTENCES
Paletó cinza
Gaita de boca


Chapéu panamá
Relógio de bolso


Cachecol de seda
Foto da esposa


Óculos escuros
Kit de toilet


Valise de viagem
Revista pulp barata


Duas mudas de roupa
Revolver .32 *


Bloco e lápis
Porte de arma


* Se o Guardião quiser evitar o uso de armas, ele pode remover esse item.

HISTÓRICO

Você nasceu na Carolina do Norte, mas seus pais se mudaram cedo para a Nova Inglaterra onde você se criou no sul de Boston. Por anos, trabalhou como agente de seguros, investigando fraudes para uma companhia conhecida na Costa Leste. Seu faropara encontrar irregularidades lhe valeu o apelido de "Perdigueiro". Por conta disso, você viajou bastante, de Nova York a Chicago. Apesar de ser bom em seu trabalho, você queria algo mais excitante, por isso se tornou Detetive Particular e abriu um escritório. Nem todos os seus casos são excitantes; a maioria envolve fraudes, desfalques em empresas e maridos infiéis, mas vez ou outra você é chamado para investigar algum desaparecimento. O trabalho de detetive o levou a vários lugares e em uma viagem a Nova Orleans você conheceu Mona, sua esposa. Você é tido como um pilar da comunidade em que vive e uma pessoa admirada, principalmente por não levar desaforo pra casa e ser justo.

Porque está no ônibus: Você foi contratado para investigar um desfalque numa empresa em Bolton. Você está à caminho para uma reunião.   


Padre Michael Dorsett                                    

INVESTIGADOR DOS ANOS 1920
Nome: Michael Dorsett
Ocupação: Padre Católico
Idade: 40 anos
Sexo: Masculino
Residência: Mayoteville, Massachusetts
Local de Nascimento: Boston, Massachusetts

ATRIBUTOS
FOR        55
DES        40
INT          85
CON       50 
APA        55
POW        65
SIZ          65
EDU       70
Taxa de Mov.

PONTOS DE VIDA:
11
SANIDADE:
65
SORTE:
60
PTos DE MAGIA:
13
BÔNUS DE DANO:
 0

PERÍCIAS DO INVESTIGADOR
 Antropologia
 15
 Escutar
 48
 Nível de Crédito
 30
 Arte e Ofício:

 Furtividade
 25
 Persuasão
 49
 Carpintaria
 20
 História
 52
 Primeiros Socorros
 58
 Charme
 20
 Língua Nativa:

 Psicologia
56
 Ciência:

 Inglês
 75
 Usar Biblioteca
 38
 Filosofia
 20
 Língua Outras:

 Ocultismo
 25
 Consertos Elétricos
 45
 Latim
 47


 Contabilidade
 28
 Italiano
 15


 Encontrar
 45
 Lutar (Briga)
 35


A lista inclui as habilidades em que pontuação foi gasta para a criação do personagem.

ANTECEDENTES
Descrição Pessoal: Bem vestido com batina e colarinho que lhe caem bem. Cabelos grisalhos nas têmporas e olhar gentil, um homem que passa uma imagem íntegra e confiável. 1,82 m, 78 Kg.

Pertences Queridos: Uma medalha de São Cristóvão dada pelo Arcebispo de Boston. Você sempre leva ela em torno do pescoço.
Ideologia/Crenças: Até pouco tempo atrás você acreditava em uma força superior que guiava seus passos, agora você não tem muita certeza e passa por uma crise de fé.

Características: Protetor: Ninguém fará mal a uma pessoa que você se propôs a proteger. 
Pessoas Significativas: Monsenhor John Wells, seu mentor e um dos homens mais sábios que você conheceu na sua vida.

Fobias e Manias:
Locais Importantes: O Orfanato de St, Marie Laboureux onde você se criou e onde passou a ajudar como voluntário quando adulto.

Ferimentos e Cicatrizes:

EQUIPAMENTOS E PERTENCES
 Batina de Padre
 Duas mudas de roupa


 Colarinho branco
 Kit de Toilet


 Sapatos pretos
 Bloco e lápis


 Medalha santa
 Foto do orfanato


 Bíblia sagrada
 Diário pessoal


 Livro de filosofia
 Crucifixo e rosário


 Valise de viagem




HISTÓRICO

Você nunca soube quem foram seus pais; sua mãe o abandonou na porta do Orfanato de St. Marie Laboureux no sul de Boston e lá você se criou. Sempre uma criança rebelde, tornou-se um adolescente problemático que roubava e cometia pequenos atos de vandalismo. Você terminou em um reformatório aos 13 anos. O que poderia ser sua entrada para uma vida de crime se tornou o caminho para a salvação. Você se sentiu atraído pela vida religiosa e em determinado momento ouviu o "chamado" para abraçar o sacerdócio. Depois de estudar filosofia e trabalhar por anos no Orfanato onde cresceu, você recebeu sua primeira paroquia no interior da Nova Inglaterra na cidade de Mayoteville. Após um trágico acidente em que vários de seus paroquianos morreram num incêndio, você começou a ter dúvidas sobre as suas crenças e desde então passa por uma profunda crise de fé.

Porque está no ônibus: Retornando de Boston para sua paróquia após conversar com seu mentor e discutir o que fazer no futuro. Você está considerando abandonar a vida religiosa.