sexta-feira, 3 de abril de 2020

Medicina Cadavérica - A bizarra história dos Devoradores de Múmias


Dizem que quase todas as descobertas tem início com alguma necessidade.

No século XVII, pintores precisavam de um elemento escuro que se combinasse com as cores de suas tintas, em especial o marrom, para gerar diferentes matizes. O marrom escuro, o marrom sombreado, o marrom cobreado, todos pareciam ter o mesmo tom castanho que não se encaixava no que os artistas desejavam colocar na tela. Para solucionar o problema decidiram recorrer a uma fonte inusitada: a sepultura!

Uma mistura de tinta com pequenos pedaços de cadáveres, em especial de múmia foi a solução para chegar à cor desejada. Do século XVI ao XIX, muitos pintores recorriam a essa bizarra fonte, que continuou disponível até o o início do século XX. Em 1915, um vendedor de tintas londrino comentava que uma múmia poderia produzir material suficiente para durar 20 anos. E de todas as múmias existentes, as egípcias eram as que ofereciam melhores resultados.

Pintores renomados do século XVII como Eugène Delacroix, Sir Lawrence Alma-Tadema, e Edward Burne-Jones eram apenas alguns que usavam esse pigmento extraído de múmias para realçar o marrom. Em alguns lugares chamavam a cor de "mummy brown" (marrom múmia).

Mas não eram apenas os artistas que estavam recorrendo às propriedades especiais de cadáveres antigos reduzidos à pó. Desde o século XII, europeus estavam consumindo múmias egípcias como remédio. Nessa época, muitas múmias eram trazidas do Norte da África reduzidas à poeira, combinadas com outros ingredientes para criar valiosíssimas misturas, vendidas à peso de ouro. Mas é claro, nem toda matéria prima vinha de múmias. Muitas pessoas inescrupulosas usavam o que tinham ao seu alcance, oferecendo os restos de qualquer cadáver às suas misturas.


Pode parecer errado, estranho ou simplesmente bizarro, mas a prática de ingerir pedaços de cadáver - quanto mais antigos melhor, era tão corriqueira que ninguém parecia se importar com ela. Quando o objetivo é garantir uma vida mais longa, quem se importa em comer um morto?

A prática de comer múmias alcançou seu auge na Europa do século XVI. Múmias podiam ser encontradas nas prateleiras dos apotecários - os farmacêuticos da época, em várias formas desde pedaços inteiros até já reduzidas a pó e guardadas em frascos. Os apotecários mais conceituados podiam inclusive moer o pedaço desejado - um dedo, uma orelha, um nariz, diante do consumidor para atestar a pureza e demonstrar que não haveria qualquer mistura. Uma vez moída, a poeira era pesada cuidadosamente e vendida a um preço exorbitante - quanto mais pura, mais cara. Dali seria misturada a outros ingredientes e receitada como remédio para as mais variadas aflições.

Mas de onde vinha a crença de que múmias podiam ser usadas como remédio?  Por que os europeus achavam que consumir os restos de um cadáver milenar poderia restaurar sua saúde? A resposta, provavelmente vem de uma série de mal entendidos.  

Hoje em dia quando pensamos em Betume, a maioria das pessoas imediatamente associam ao asfalto usado nas ruas e estradas modernas. No mundo antigo, essa substância escura e pegajosa podia ser encontrada em fontes e poços, sendo comum no Oriente Médio (o livro do Gênesis o destaca como um dos materiais usados na construção da Torre de Babel). Os antigos usavam o betume para proteger objetos de madeira contra a ação de insetos, criar uma coloração e produzir um efeito de brilho fosco, como uma espécie de verniz natural. Eles também usavam o betume na medicina. Quando aquecido, o betume se tornava viscoso, mas ao secar endurecia, fazendo que fosse útil para estabilizar ossos quebrados, criando talas. Ele também podia ser aplicado sobre ferimentos, servido como um tipo de resina que prevenia hemorragias.

Mas os usos para o betume não se limitavam a isso. No século primeiro, um naturalista romano chamado Plínio, o Velho recomendou que as pessoas ingerissem betume com vinho para curar tosses crônicas e disenteria ou que o combinassem com vinagre para dissolver coágulos do sangue. Outros médicos romanos receitavam o betume no tratamento de cataratas, dor de dente e doenças de pele.


Betume em estado natural era muito comum no Oriente Médio. Ele se formava em bacias geológicas a partir dos restos de plantas e animais. No século I a.C, o filósofo grego Dioscorides escreveu que o betume do Mar Morto era o mais puro para uso medicinal. Ele não estava errado: a substância tinha propriedades anti-microbiais e cicatrizantes.

Diferentes culturas atribuíam ao betume os mais variados nomes. Médicos persas se referiam a ele por um termo que podia ser traduzido como "grude", mum. No século XI, o famoso médico Avicenna usava a palavra "mumia" (grudento) para se referir ao betume medicinal.

Os antigos egípcios, dentre todos os povos antigos, foram os que encontraram maior uso para o betume medicinal. Eles o usavam como um dos ingredientes mais importantes no processo de embalsamar seus mortos. Estes eram pintados com betume para conter a deterioração e garantir assim sua preservação. Quando os europeus viram pela primeira vez os cadáveres escurecidos removidos das tumbas do Egito, concluíram que tinham aquela coloração e ficavam preservados por conta do betume - ou mumia. Passaram então a chamar esses cadáveres de "múmias".

Muitos médicos do período cogitavam que os cadáveres eram tão bem preservados por conta do fato dos antigos consumirem grande quantidade de betume em vida. Isso ajudou a criar a ilusão de que o betume era um tipo de Panacea Universal, capaz de curar praticamente tudo.

A procura pelo betume medicinal levou, é claro, à uma escassez da substância. Não haviam mais fontes naturais a serem exploradas e o preço atingiu cifras altíssimas. A solução? Que tal recorrer ao betume que foi usado para embalsamar os cadáveres egípcios? Foi assim que surgiu a prática pouco ética, absurdamente imoral e francamente bizarra de raspar o betume da pele dos corpos.


Comer múmias pelas reservas de betume medicinal em seus corpos parece algo extremo, mas esse comportamento tinha um outro motivo. As pessoas acreditavam que além do betume, as múmias guardavam em seus restos ressecados uma reserva de energia mística benéfica, algo que não se esvaía mesmo após a morte. Aquelas pessoas eram tidas como uma espécie de depositário de conhecimento e sabedoria ancestral. O ato de consumir partes de uma múmia, transferia essa "energia" para os vivos, e os fortalecia, garantindo assim uma vida longa e saudável.

Os europeus conheciam o Egito e consideravam a nação um lugar exótico que um dia havia abrigado um povo avançado em várias áreas de entendimento. A exploração da região por europeus se intensificou no século XII e XIII, e seu interesse continuou crescendo ao longo dos séculos.

O interesse pelas múmias e suas propriedades medicinais se intensificou da mesma maneira. Os ricos e prósperos do período desejavam ter acesso às fórmulas criadas à partir das múmias. Não faltavam então pessoas especializadas em obter a matéria prima para os apotecários trabalharem. O intrépido comerciante britânico John Sanderson se tornou notório por trabalhar com esse tipo de mercadoria. Seu nome era sinônimo de material de qualidade, já que ele operava navios na rota do Mediterrâneo incumbidos de trazer do Egito os melhores espécimes. Em 1586 ele contrabandeou de uma tumba egípcia nada menos de 300 quilos em pedaços de múmia, todas "antigas e cobertas de betume negro". Não há dúvida que esse carregamento fez a fortuna de Sanderson.

 Mas nem todos os comerciantes tinham sua credibilidade.

A medida que a medicina extraída de múmias se tornou popular no oeste, mercadores precisaram encontrar novas maneiras de suprir a demanda. Tomé Pires, um apotecário português do século XVI, em viagem para o Egito escreveu que mercadores "algumas vezes tentam passar carne de camelo curtida e queimada como múmias humanas". Guy de la Fontaine, um médico do Rei de Navarra, em uma visita ao Egito em 1564 perguntou a um comerciante de Alexandria se os cadáveres que ele vendia haviam sido encontrados em alguma tumba antiga. O mercador riu e disse que ele próprio comprava os cadáveres e os embalsamava. Fontaine descrevia a seguinte cena em seu diário de viagem: "Os corpos pertenciam a escravos, jovens e velhos, homens e mulheres, que haviam sido indiscriminadamente coletados. O mercador não se importava com a doença que os havia matado e os embalsamava após cobrir com óleo escuro de palmeira. Para quem os visse, pareceriam múmias".


Pior ainda eram os comerciantes cínicos que simplesmente escavavam cemitérios antigos na Europa em busca de ossos e restos humanos. Ofereciam esses restos, devidamente pintados com tintura preta, como autênticas múmias egípcias, encontradas em túmulos com mais de mil anos. Ganhavam verdadeiras fortunas enganando os crentes, oferecendo a eles cadáveres de pessoas mortas há poucas décadas.

Mas nem todos os médicos e apotecários eram favoráveis à medicina cadavérica. Aloysius Mundella, um filósofo do século XVI chamava a prática de "abominável e detestável". Leonhard Fuchs, um médico alemão, aceitava o uso de múmias estrangeiras, mas rejeitava a substituição por espécimes locais. Ele questionava: "Quem pode aceitar tal coisa e se mostrar chocado com o canibalismo praticado pelos povos selvagens"? Defensores da prática, como o médico do Rei Charles II, se esforçavam por diferenciar comida e medicina. Charles supostamente consumia um extrato extraído de múmias egípcias como uma espécie de tônico ao longo de toda sua vida adulta.

As dúvidas a respeito da procedência das múmias e origem dos restos fez com que o comércio de múmias egípcias aos poucos declinasse na Europa. Ele, no entanto, não chegou a desaparecer por completo, já que os mais ricos podiam encomendar exemplares autênticos e despachar emissários para adquirir as peças pessoalmente. Aqueles que não tinham a mesma comodidade tiveram de improvisar. Aos poucos um mercado que usava partes de pessoas mortas recentemente começou a florescer. Um tipo de medicina que aproveitava pele, ossos, cabelos, secreções e até mesmo excreções era praticada clandestinamente. Os apotecários que defendiam essa medicina cadavérica compravam entre outras coisas gordura, cérebros frescos, placenta, sangue menstrual, cera de ouvido, urina, pedras dos rins e mesmo fezes, para usar como ingredientes em suas poções medicinais. Em 1643, Oswald Croll, escreveu em um tratado muito popular que crânios de três crianças mortas recentemente poderiam ser moídos e combinados para criar um pó que servia como remédio para epilepsia.

A Igreja Católica como seria de se supor condenou veementemente a prática da medicina cadavérica e ameaçou excomungar aqueles que a praticassem. Contudo, uma vez que a maioria dessas pessoas tinha posses e muitas vezes faziam parte da nobreza, a condenação foi muito mais simbólica do que prática. Além disso, alguns alegavam que o princípio do consumo dos restos humanos remetia ao dogma cristão da eucaristia, na qual simbolicamente os crentes consomem a carne e o sangue do Cristo transubstanciado na sagrada hóstia.


Felizmente, aos poucos, a prática de devorar múmias foi perdendo adeptos.

Os avanços da medicina, sobretudo à partir do século XVIII ajudaram a remover a suposta aura de cura existente ao redor das múmias e das substâncias usadas para sua criação. Poucos médicos modernos estavam inclinados em indicar a ingestão de múmias como uma forma de tratamento contra os males do corpo. Isso não significa dizer que a prática foi totalmente esquecida nos séculos seguintes, pelo contrário, ela experimentou uma revitalização no final do século XIX, quando a Egiptologia ganhou enorme popularidade. Na ocasião, múmias foram novamente removidas de suas tumbas e contrabandeadas para a Europa com o intuito de serem moídas e transformadas em remédios - provavelmente, os mais caros e exóticos placebos do período vitoriano.

Estranho, imoral e bizarro como pode nos parecer, a Medicina Cadavérica apenas demonstra até onde as pessoas, não importa o tempo, não importa o momento, estão disposta a ir para obter curas milagrosas.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Nas Profundezas: Descoberta surpreendente de Ruínas Submarinas no Pacífico Sul


Em meio a toda repercussão a respeito da Pandemia do Corona Virus, uma notícia surpreendente e sensacional quase passou desapercebida.

Confesso que eu mesmo não tinha visto, mas fui alertado por leitores aqui do Blog que enviaram o link. É realmente algo incrível!  

A notícia oficial foi veiculada hoje pela manhã e desde já, sinaliza como uma das maiores descobertas arqueológicas das últimas décadas, capaz de mudar a história.

Traduzi a notícia na íntegra a partir da original no site do New York Times.

*     *     *

RUÍNAS SUBMARINAS DESCOBERTAS
Arqueólogos discutem origem incerta

REUTERS – Uma expedição conjunta de pesquisadores russos e americanos anunciou oficialmente a descoberta de Ruínas Submersas no Pacífico Sul.

A expedição coordenada pela mesma equipe que ficou famosa por realizar mergulhos de alta profundidade como na busca pelo Titanic, realizava pesquisas na área nos últimos nove meses em busca dos restos do cargueiro inglês Gammell, desaparecido na década de 30. Os sonares do navio Lynx, que buscava os restos do naufrágio detectaram acidentalmente as ruínas submersas.

“Trata-se de uma incrível descoberta” disse o comandante da missão George Johansen. “As primeiras imagens feitas pelos submarinos são impressionantes, elas mostram ruínas de pedra e construções cuja arquitetura não parece com nada que já tenhamos visto”.

São grandes blocos de pedra, pilares e arcos cobertos de algas, mas em excelente estado. Não há um consenso ainda sobre qual o povo responsável pela construção, mas a arquitetura incomum vem chamando a atenção por ser caráter peculiar. 


Não se tem registros de grandes civilizações que tenham povoado essa área em especial, menos ainda capazes de façanhas de arquitetura tão impressionantes. Por isso a descoberta se apresenta desde já como algo de extrema importância para a arqueologia e história.

Uma equipe de especialistas está sendo reunida em Wellington, na Nova Zelândia, e seguirá para o local em breve. Espera-se que eles possam lançar uma luz sobre a fantástica descoberta. Infelizmente, os preparativos para a expedição sofreram um atraso em virtude da Pandemia do Corona Virus. Por alguns dias a equipe cogitou reter o anúncio da descoberta para que ela tivesse todo o destaque que merece, mas no último momento decidiram divulgar a notícia.

“Se esta descoberta apresentar um novo povo até dentão desconhecido, estamos diante de algo grandioso. Algo que pode explicar os Mitos de Atlântida e de cidades submersas que povoam nossa imaginação desde o começo dos tempos", afirmou o professor Martin Wilcox, uma das mais respeitadas autoridades em arqueologia submarina. Ele também estará se juntando a equipe na Nova Zelândia.

Segundo os pesquisadores, as ruínas estão localizadas em alto do mar, nas coordenadas 47 graus 9' S, 126 graus 43' W a uma profundidade de aproximadamente 3800 metros. Dois submarinos não tripulados fizeram o mapeamento preliminar das ruínas em busca de imagens mais claras, contudo o mar agitado tem dificultado as operações.

Se as condições permitirem, um novo submarino será enviado na sexta-feira para fazer mais observações, trazendo novas fotografias. Rumores a respeito de inscrições, estatuário e curiosos símbolos entalhados nas ruínas não foram confirmados pelos pesquisadores que disseram ainda ser cedo para especulações dessa natureza.

A seguir, algumas das fotografias liberadas:





domingo, 29 de março de 2020

Artefato Maldito - A Maldição da Cabeça da Múmia


O bis-avô de Clodia havia lutado ao lado de Napoleão Bonaparte nas Campanhas do Egito entre 1798-1801. Como muitos homens que serviram ao Imperador na Arme de Orient o bis-avô de Clodia vandalizou e pilhou monumentos egípcios à procura de tesouros e artefatos. Como outros guerreiros ao longo dos séculos, os soldados de Napoleão que visitaram o país das pirâmides queriam lembranças de sua passagem pelo exótico país.

O artefato mais desejado era sem sombra de dúvida, as Múmias. A maioria destes cadáveres mumificados pertenciam a camponeses e operários que trabalharam na construção daqueles magníficos monumentos e que haviam naturalmente sido preservadas pelo clima favorável. A prática de buscar múmias era tão comum que a Europa foi inundada por milhares delas. Em pleno século XIX havia uma estranha prática enraizada no seio das sociedades europeias, a de que ingerir pedaços dessas múmias era um remédio para as mais variadas doenças e um afrodisíaco eficaz. O bis-avô de Clodia, sendo um simples soldado não podia carregar muito, portanto o único artefato que ele pode contrabandear para o país foi uma pequena cabeça de múmia. Por anos ele orgulhosamente apresentou o objeto como um troféu de guerra. Seus filhos e netos se reuniam ao redor da lareira onde repousava a cabeça para ouvir as histórias sobre a campanha e grandes batalhas. Por vezes, contou o pai de Clodia, a cabeça parecia olhar com atenção, apreciando a narrativa como se conseguisse entender o que estava sendo dito.   

Os anos se passaram, e o velho soldado acabou falecendo. A cabeça da múmia foi empacotada e colocada em um depósito onde acabou esquecida, lembrada apenas em ocasionais reuniões de família onde as velhas histórias eram rememoradas. Ao menos até o fatídico ano de 1922 quando Howard Carter descobriu a tumba do menino-rei, o Faraó Tutankamon. A atenção pública pela descoberta desencadeou um efeito de interesse sem precedente por tudo a respeito do Antigo Egito e algo que passou a ser chamado Egiptologia ganhou força. Com efeito, todos objetos decorativos pertencentes ao Egito se tornaram populares. Era uma questão de estilo decorar a casa com objetos do Egito, artefatos reais ou falsos. Foi nessa época que Clodia lembrou das histórias do seu bis-avô e suas aventuras na Campanha do Egito. E ela lembrou da lendária Cabeça da Múmia. 

Clodia levou um final de semana inteiro vasculhando o velho sótão da casa de sua avó, um lugar repleto de artefatos colecionados pela sua família ao longo de séculos. O fruto de seu trabalho enfim se pagou quando ela encontrou numa mala cheia de roupas velhas, uma caixa de madeira. Dentro dessa estavam várias fotografias e uma lata com símbolos egípcios entalhados. E no interior, embalado em um pano de veludo a Cabeça da Múmia.

Era bem menor do que ela esperava, do tamanho aproximado de uma grande laranja. Embora ainda existissem alguns fragmentos de tecido presos ao crânio, a maior parte da face estava descoberta. Com as órbitas dos olhos vazios e sem o nariz, a cabeça do cadáver era grotesca, mas sabendo que ela havia vindo da Terra dos Faraós Clodia deixou de lado os temores e asco, substituídos por enorme interesse. Com a concordância de sua avó, ela levou o objeto para sua casa em Montoire e colocou sobre uma prateleira na sala. Naquele dia ela estudou o artefato, impressionada pelos detalhes. Sua mente ponderava a respeito da identidade daquela pessoa e o mundo que ela conheceu milênios atrás. Aquilo a deixava de alguma forma fascinada.

Foi então que os sonhos perturbadores tiveram início. 

Clodia sonhava que estava em uma sala escura, que cheirava a incenso, coisas velhas e corrupção. Ela estava amarrada pelos pulsos e presa no que parecia ser um pilar. Uma porta se abria e três homens entravam nesse aposento. Dois deles eram grandes e musculosos, carregavam um tipo de estandarte com símbolos que ela supôs serem egípcios. O terceiro homem vestia uma espécie de robe adornado. Trazia jóias nos pulsos e em volta do pescoço enquanto na cabeça tinha uma espécie de mitra cravejada. Foi esse homem pequeno quem falou, e imediatamente os dois outros homens apanharam porretes e começaram a espancá-la. Em uma mistura de pânico e desespero ela conseguiu acordar aos gritos, coberta de suor.

Ao longo de uma semana ela teve o mesmo pesadelo noite após noite. A cena se tornando cada vez mais detalhada e violenta. Para piorar, ela não acordava mais quando a surra se iniciava, ela passava por aquilo tudo sem despertar. Cada noite ela via aquele sujeito e sentia o ódio dele transbordando. Certa noite, após a surra, Clodia viu a si mesma ser amarrada em uma espécie de mesa onde estavam colocados jarros e estranhos instrumentos. O homem, que a essa altura ela já havia compreendido, tratava-se de uma espécie de sacerdote apanhava uma faca incrustada de jóias e abria o seu abdomen. 

Ela então acordava gritando, sentindo o metal frio perfurando o seu estômago rasgando a sua pele e se enterrando na carne. Ela verificava imediatamente se estava ferida e embora não existisse sinal de corte, seu horror era indescritível. Ela sentia um arrepio na espinha ao perceber que a realidade estava de alguma forma se fundindo com seus sonhos. Sua histeria apenas aumentou quando certa noite, ela despertou com escoriações nos braços e arranhões onde os homens do pesadelo haviam lhe segurado.

Se aquilo não fosse por si só horrível, outro detalhe aterrador se somou à narrativa. Certa noite, ao despertar subitamente, Clodia descobriu que a cabeça da múmia estava na sua cama, pousada sobre um travesseiro. Foi a primeira coisa que ela viu ao abrir os olhos. Aquela coisa medonha a encarava. E o mais aterrorizante e impossível para Clodia é que a face parecia estranhamente diferente, como se nela se desenhasse um sorriso que jamais havia estado ali antes.

Ela ficou tão perturbada com o incidente que resolveu apanhar a relíquia e trancá-la no porão onde não seria obrigada a vê-la. Decidiria mais tarde o que fazer com ela.

Mas o alívio esperado não veio e os pesadelos continuaram. Eles pareciam cada vez mais violentos. As surras se intensificavam e a sensação de ser estripada era real demais. O homem de olhar cruel arrancava seus órgãos e os colocava em pequenos jarros como se estivesse realizando algum tipo de ritual sangrento. Ela podia apenas assistir aquilo.

Certa noite, Clodia teve o mais violento dos pesadelos, um no qual o homem usava um instrumento em forma de gancho que era inserido em seu nariz. Em seguida ele o enfiava cada vez mais fundo com o intuito de remover seu cérebro. Clodia acordou com o gosto de sangue que escorria em profusão de seu nariz. Ela correu para o banheiro para conter a hemorragia. Ainda confusa e trêmula, voltou até a sala e lá viu algo que fez a sua sanidade quase se despedaçar por inteiro: A Cabeça da Múmia estava sobre a mesa novamente. A coisa a observava, com olhos vazios e o sorriso ainda mais largo.

Clodia ficou sem ação e perdeu os sentidos.

Quando finalmente acordou, descobriu que estava sentada diante da coisa mumificada que repousava na mesa. Ela a encarava como se hipnotizada, sentia o corpo leve, a têmpora pulsando e a na boca um gosto enjoativo de sangue. Tinha na mão uma faca que pegou na cozinha e sentia a determinação de dar cabo da própria vida. E o teria feito, pois algo parecia comandá-la nesse sentido. No último instante, entretanto conseguiu romper o transe e horrorizada se colocou de pé e fugiu do apartamento sem olhar para trás.

Foi buscar o socorro de sua família pois acreditava ter enlouquecido por completo. Depois de contar o que estava acontecendo, o pai e um irmão foram até o apartamento para destruir a cabeça. Eles acharam a coisa amaldiçoada onde Clodia havia dito que estaria, a apanharam e atearam fogo. Enquanto a Cabeça da Múmia era reduzida à cinzas, exalando um cheiro nauseante, os cães da vizinhança ladravam enlouquecidos. Clodia decidiu deixar o apartamento e nunca mais voltar. Era impossível continuar lá depois de vivenciar tamanho horror.

Clodia decidiu nunca mais mencionar a história da Cabeça da Múmia ou os pesadelos. Ela tinha medo que as pessoas pensassem que ela havia enlouquecido. Ao menos depois de destruir a cabeça os pesadelos terminaram e sua vida voltou ao normal.

Nos anos 1950, a egiptologia ganhou destaque novamente e Clodia visitou uma exposição que estava em Paris. Entre as várias peças, esculturas e tabuletas que faziam parte dos objetos trazidos, ela se sentiu atraída por uma em especial, uma pequena estatueta que representava um sacerdote vestindo trajes idênticos ao do homem em seus pesadelos. Ela mal podia acreditar...

A estatueta representava um sacerdote que servia diretamente ao Faraó. Sua atribuição era preparar os serviçais que iriam acompanhar o Monarca em sua jornada rumo ao além. Segundo a tradição, quando o Faraó morria, alguns serviçais, os que eram seus favoritos, eram mumificados enquanto ainda estavam vivos. O objetivo era fazer com que eles acompanhassem o Faraó e o servissem na eternidade.

A cabeça mumificada pertencia a um sacerdote que tinha prazer em mumificar as pessoas e fazê-las sofrer aquele terrível destino. Por intermédio de algum elo estabelecido através do tempo, Clodia vivenciou o horror dos serviçais do Faraó submetidos à mumificação nas mãos daquele homem perverso. E ela sabia que se tivesse continuado sujeita àqueles pesadelos também se tornaria sua vítima.

A história de Clodia foi relatada pela primeira vez nos anos 1950 e causou grande repercussão e interesse na França. Ela se tornou uma das mais conhecidas narrativas a respeito de Maldição envolvendo um artefato egípcio naquele país.

quinta-feira, 26 de março de 2020

A Misteriosa Reencarnação de Omm Sety

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O que acontece conosco após a morte? Desde o início dos tempos, a humanidade tenta encontrar a resposta para essa questão. Existem muitas ideias e filosofias que tentam explicar o que acontece conosco depois do fim, assim como inúmeras crenças e doutrinas. Haveria um outro reino esperando por nós na pós-vida? Nós encontraremos entes queridos que faleceram antes? Não há nada além de escuridão e esquecimento? Ou será que existe algo? 

Um conceito que é abraçado por muitas religiões é a Reincarnação, a noção de que nossa alma é imortal  e capaz de renascer após a morte em um novo corpo destinado a viver uma vez mais. Não faltam histórias de pessoas que alegam ser a reencarnação de pessoas que já morreram, habitando novos corpos em outras épocas, por vezes expressando memórias de suas vidas passadas.

Um caso em particular se destaca e nos faz ponderar a respeito dessas possibilidades. Trata-se de um caso estranho que mistura reencarnação e terras exóticas, tesouros esquecidos e eras perdidas de um passado muito distante.    

Nascida em 1904 no subúrbio londrino de Blackheath, Dorothy Louise Eady teve uma infância bastante convencional até o dia que mudaria sua vida para sempre. Aos 3 anos de idade, Dorothy escorregou e rolou por uma escadaria. Não foi uma simples queda: a menina foi encontrada desacordada e sem respirar. Seus pais chamaram imediatamente um médico e quando este chegou realizou exames e constatou que a menina estava morta. O médico telefonou então para uma enfermeira para ajudá-lo na remoção do corpo. Em muitos casos, este deveria ser o fim da história, mas quando o médico retornou com a enfermeira, Dorothy foi encontrada miraculosamente sentada na cama, desperta e brincando como se nada extraordinário tivesse acontecido.      

Não muito tempo depois desse horrível episódio, a pequena Dorothy começou a exibir um comportamento incomum. Ela se tornou excessivamente assustada, nervosa e arredia. Ela costumava se esconder de baixo da cama ou em armários depois de se assustar com coisas simples. Ela também começou a falar coisas cada vez mais bizarras. Em mais de uma ocasião pediu que seus pais a levassem "de volta para casa", mesmo quando ela já estava em casa. Ela demonstrava uma estranha expressão de surpresa diante de objetos e coisas do dia a dia, algo que nunca havia feito até então. A menina também havia se tornado mais quieta e até certo ponto introspectiva.

Dorothy também tinha sonhos recorrentes com grandes prédios e colunas de sustentação. Certo dia, quando estava lendo um livro infantil com desenhos, ela se deparou com uma imagem representando o Antigo Egito e ficou transfixada por ela, olhando por muito tempo. Por fim disse que aquela imagem era a da "sua verdadeira casa", algo que deixou seus pais sem palavras.   


O mais estranho dos incidentes envolvendo a mudança de comportamento de Dorothy ocorreu quando seus pais a levaram para uma visita ao famoso British Museum em Londres. Enquanto apreciava o museu, eles chegaram até a exposição dedicada ao Egito Antigo, que estava cheia de todo tipo de artefato, múmias e majestosas estatuas de Deuses e Deusas Egípcias. Os olhos de Dorothy brilharam quando ela entrou na exposição, e quando se deparou com as estátuas, ela correu e se jogou no chão, beijando seus pés em sinal de respeito. Ao olhar para fotografias das ruínas do templo de Seti I, pai de Ramses, o Grande, ela proclamou que aquele lugar era sua casa, embora faltassem jardins e árvores. Ela também disse que conhecia pessoalmente Seti I, que ela chamava de "um homem velho, mas muito bondoso". Dorothy ficou fascinada pela exposição e parecia compreender a natureza de cada item exposto, mesmo os que não deveriam ser óbvios para uma criança da sua idade.

Em determinado momento ela soltou um grito e começou a recitar palavras que pareciam pertencer a algum idioma que ninguém conseguia entender. Quando seus pais decidiram dar um basta naquele comportamento, eles não conseguiram levá-la para fora sem praticamente arrastá-la aos berros. Dorothy continuava falando aquele idioma confuso e alternava dizendo que queria "ficar com o seu povo".

Essa estranha visita ao museu não seria a última estranheza da menina, de fato as coisas ficariam ainda mais esquisitas. A professora de catequese de Dorothy afirmou que a criança não queria mais estudar religião, pois não estava disposta a aceitar aquela crença. O Sol era seu Deus e ela não aceitaria nenhum outro. Ela também intercalava palavras em inglês com outras que ninguém entendia o significado. 


Nos anos que se seguiram, Dorothy fez mais visitas ao Museu para explorar a exibição dedicada ao Antigo Egito. Entre os 10 e 12 anos, ela fez várias visitas ao museu, de fato passando a maior parte de seu tempo por lá. Eventualmente ela conheceu um homem chamado E. A. Wallis Budge, curador da mostra de Antiguidades Egípcias do Museu Britânico. Ele ficou impressionado com o entusiasmo e conhecimento a respeito do Egito e encorajou a menina a estudar os hieroglifos. Ela começou a ter aulas sobre a linguagem e seus professores ficaram surpresos com seu rápido progresso em um tema que normalmente demanda anos para ser dominado. Quando perguntada como ela conseguia discernir símbolos complexos tão rápido, Dorothy deu a estranha resposta que havia aprendido aquele idioma em algum momento, mas que achava que havia esquecido.

Ao longo de sua adolescência, Dorothy estudou tudo que conseguiu encontrar a respeito do antigo Egito na biblioteca local, demonstrando um profundo interesse e saber intuitivo sobre o assunto. Nos anos da Grande Guerra, ela se mudou para  casa de um tio em Sussex após um bombardeio. Lá encontrou uma enorme biblioteca onde pode prosseguir em seus estudos. Foi mais ou menos nessa época que, aos 15 anos, começou a experimentar estranhos sonhos onde era visitada por um espírito chamado Hor-Ra. Este contou que ela era a reencarnação de uma mulher chamada Bentreshyt, que foi milênios antes uma sacerdotisa no Templo de Seti I em Abidos, no Alto Egito. Hor-Ra visitaria a garota em sonhos várias outras vezes, revelando a história de sua prévia vida. Ela foi informada que era uma sacerdotisa consagrada ao templo, mas que havia quebrado seus votos envolvendo-se romanticamente com Seti. Ao invés de enfrentar uma severa punição nas mãos do sumo-sacerdote ela decidiu cometer suicídio. Dorothy escreveu um diário usando hieroglifos, no qual relatava todas as suas lembranças dos sonhos e da sua prévia existência. Quando terminou, o caderno já tinha mais de 100 páginas a respeito de sua vida como Bentreshty. Seus sonhos também a levaram a sofrer com pesadelos e sonambulismo, o que lhe valeu ser enviada para exames mentais ocasionalmente. 


Dorothy largou a escola aos 16 anos, quando decidiu viajar pela Grã-Bretanha visitando antigas ruínas e sítios ancestrais como Stonehenge, na companhia de seu pai. Ela acabaria se mudando para Plymouth onde se tornou estudante na Escola de Arte de Plymouth, onde deu início a uma coleção de peças egípcias e participando de apresentações teatrais onde assumia o papel da Deusa Isis. Ela também se envolveu em questões políticas trabalhando em um comitê para a independência do Egito. Também se tornou escritora em uma revista, redigindo artigos e desenhando charges. Foi nessa época que ela conheceu um estudante egípcio chamado Eman Abdel Meguid, que havia acabado de se divorciar. Foi na companhia de Meguid, seu futuro marido que ela finalmente conheceu a terra sobre a qual tanto sonhara. Em 1931, ela se mudou para o Cairo e a primeira coisa que fez foi se colocar de joelhos e beijar o solo, proclamando que pela primeira vez estava em sua verdadeira casa. Ela teria um filho com Eman, que chamou de Seti, e de onde veio o apelido pelo qual ela ficaria conhecida "Omm Seti" (que significa "mãe de Seti")  

O casamento de Dorothy infelizmente não iria durar muito, e ela se separou em 1935, quando Eman conseguiu um emprego no Iraque e ela se recusou a deixar seu amado Egito. Ela se mudou sim, indo morar perto das Pirâmides de Gize, onde acabou conhecendo o arqueólogo Selim Hassan, que ficou muito interessado no conhecimento de Dorothy a respeito da história local. Ele então a convidou para trabalhar no Departamento de Antiguidades do Egito, a primeira mulher a ser aceita na instituição, tornando-se com o tempo professora e então, conselheira. Seu talento artístico foi empregado na criação de uma série de 10 volumes com ilustrações retratando as escavações em Gizé. A especialização de Dorothy em História Antiga, Hieroglifos e Antiguidades, fez com que ela se tornasse respeitada entre acadêmicos e egiptólogos famosos no período entre os quais o renomado arqueólogo Ahmed Fakhry que a contratou para auxiliar no projeto de escavação da Pirâmide de Dashur.


Durante esses anos, Dorothy mostrou várias idiossincrasias que causaram olhares suspeitos de seus colegas. Por vezes, ela passava a noite na Grande Pirâmide de Gizé, e era conhecida or se aventurar sozinha pela região para realizar estranhos rituais, recitar orações, e fazer ofertas à Horus diante da Grande Esfinge. À despeito dessas excentricidades, ela era tão respeitada pelo seu trabalho e conhecimento sobre o Antigo Egito que seus colegas nada diziam. Mas foi somente quando ela empreendeu uma longa viagem até Abydos, o local onde foi erguido o templo que ela via em seus sonhos, onde ela estava convencida, havia vivido em sua vida passada. Lá as coisas se tornariam ainda mais estranhas e bizarras. 

A viagem de Dorothy até Abydos ocorreu depois do fim do Projeto de Darshur em 1956, quando ela se viu desempregada e aceitou uma oferta de emprego como desenhista, algo que o Rei Seti I salientou em sonhos que era a decisão correta. Ela decidiu morar em um humilde vilarejo próximo do templo, onde ela passou a ser chamada exclusivamente de "Omm Sety". Seu trabalho em Abydos era desenhar os blocos em ruínas completar os símbolos ausentes que o tempo havia se encarregado de fazer sumir das pedras. De forma intuitiva, Omm Sety era capaz de preencher as lacunas e completar as partes ausentes de forma perfeitamente coerente. Ela era conhecida por remover os sapatos antes de entrar no templo e fazer sinais que afirmava serem sagrados. Ela reverenciava os deuses antigos que acreditava ainda viverem naquelas ruínas milenares. Ela passava tanto tempo dentro do templo que chegou a transformar uma das salas em seu escritório.   

Omm Sety se tornou uma das principais pesquisadoras sobre o Egito Antigo enquanto estava em Abydos, e se tornou uma espécie de referência para acadêmicos e estudiosos. Seu conhecimento da escrita e dos símbolos egípcios era notável, ao ponto dela conseguir ler textos de forma corrente apenas olhando para eles, sem necessidade de recorrer a livros. Ainda que jamais tenha recebido qualquer treinamento nessa área, ela se tornou uma autoridade reconhecida em linguagem ancestral, uma das únicas pessoas do mundo fluente em um idioma morto há milênios.

Além de suas habilidades em tradução, Omm Sety dispunha de um profundo conhecimento da história do Egito Antigo, seus costumes e tradições, bem como um fenomenal entendimento sobre medicina e práticas religiosas obscuras. Tudo isso, fazia com que ela fosse consultada frequentemente a respeito de tais temas. Ela chegou a escrever uma série de livros e artigos sobre os costumes do Egito para o Centro Americano de Pesquisa em 1960. O que mais impressionava à todos é que Omm Sety demonstrava um conhecimento inato de tais coisas que parecia ir muito além do teórico - ela parecia conhecer tudo aquilo por vivência.


Omm Sety demonstrava um amplo conhecimento a respeito da Arquitetura e engenharia responsável por erguer o Templo de Seti I em Abydos. Em livros e artigos escritos sobre o local, ela mencionava a função de vários aposentos e como eles eram utilizados no dia a dia. Chegava ao ponto de afirmar quem foram os dignatários que ocuparam determinados quartos e em que período. Em certa ocasião, o diretor do Departamento de Antiguidades decidiu testar as habilidades de Omm Sety. Ela foi conduzida para o interior do templo vendada e convidada a encontrar o caminho até a saída recorrendo apenas à sua memória. Ela conseguiu atravessar o templo, passando de sala em sala descrevendo o que existia em cada uma delas, mesmo incapaz de enxergar.     

Sua sensacional habilidade incluía ainda uma espécie de sexto sentido para localizar objetos e passagens secretas. Para isso, ela se concentrava por alguns minutos como se estivesse buscando nos recessos de sua mente pela informação desejada. Em uma determinada ocasião, ela disse aos arqueólogos onde eles deveriam cavar para localizar uma passagem enterrada que permitiria adentrar uma cripta até então desconhecida. Quando escavaram o local, acharam uma escadaria exatamente como ela havia descrito. Essa habilidade também permitiu que ela encontrasse importantes artefatos, como se tivesse simplesmente "lembrado" onde eles estavam. Para tanto, ela precisava apenas se concentrar e entrar numa espécie de transe no qual descrevia a sala como ela havia sido no tempo dos Faraós. Mais de um arqueólogo se disse atordoado pela habilidade dela de relatar detalhes sobre objetos e mais tarde a localização dos mesmos. Esse dom era tão impressionante que um importante estudioso teria dito: "Se Omm Sety fosse encarregada de localizar artefatos, nosso trabalho seria muito mais fácil. Não seria necessário derrubar paredes e as escavações seriam mínimas, já que ela parece saber onde procurar"

Não por acaso, ela se tornou uma espécie de consultora em vários sítios arqueológicos, tendo carta branca para escolher o lugar mais indicado para iniciar uma escavação.  


Em certa ocasião, em 1970, Omm Sety afirmou ter descoberto através de uma visão a localização secreta da tumba de Nefertiti, que vinha sendo procurada pelos arqueólogos há décadas. Ela descreveu a localização como "o mais inesperado local" no Vale dos Reis, próximo da Tumba de Tutankamon. Essa noção ia contra o consenso geral na época, já que os arqueólogos acreditavam que não havia mais nenhuma tumba a ser encontrada na área já muito escavada. Entretanto em 1976 duas leituras anômalas feitas com sonar revelaram que parecia haver um complexo intocado próximo da Tumba de Tutankamon. 

Apenas em 1998, o arqueólogo Nicholas Reeves começou a escavar a área descobrindo vários selos intactos pertencentes à XX Dinastia. Em 2000 outra leitura de radar produziu evidências da existência de duas câmaras subterrâneas. Infelizmente a investigação foi interrompida após suspeitas de que antiguidades inestimáveis haviam sido removidas do sítio. Em 2006, outra expedição penetrou em uma dessas câmaras e encontrou equipamento bem preservado, nem como curiosos objetos que sem dúvida seriam usados no processo de mumificação de dignatários. A suspeita era que a câmara teria servido para preparar os restos de indivíduos ilustres, talvez até de Reis e Rainhas no passado distante. As escavações na área foram novamente interrompidas em 2011, com as tensões políticas despertadas no Egito.    

Além do impressionante conhecimento a respeito do mundo egípcio, outra habilidade de Omm Sety causava sensação. As pessoas no vilarejo onde ela decidiu viver contavam que ela não tinha medo de nenhuma serpentes venenosa que infestava aquela região desértica. Mais do que não temer os répteis ela parecia ser capaz de hipnotizá-los. Omm Sety conseguia apanhar as mortais áspides e najas com as próprias mãos sem jamais ter sido picada. Ela também teria poderosas habilidades medicinais. Omm Sety era capaz de eliminar doenças e neutralizar venenos apenas pousando suas mãos sobre as pessoas afetadas. Muitos relataram que ela abençoava a Sagrada Piscina de Osireion dentro do Templo e que suas águas tinham a faculdade de curar artrite, apendicite e outras aflições. Ao banhar uma pessoa com o intuito de curá-la, ela recitava antigas orações de uma maneira similar ao que sacerdotes faziam no passado.  


Embora muitos arqueólogos e egiptólogos se mostrassem reticentes a respeito das histórias sobre reencarnação e suas habilidades mágicas, eles não podiam negar a impressionante contribuição de Omm Sety em inúmeras escavações. A maioria dos especialistas preferiam considerá-la meramente excêntrica. As pessoas que a conheceram em pessoa, a descreviam como uma mulher fascinante e absolutamente lúcida, à despeito de suas alegações. Ela claramente acreditava ser capaz de recorrer às suas memórias de vidas passadas e usá-las em seu trabalho, mas não exigia que seus colegas reconhecessem isso.

Não importa o que Omm Sety dissesse, os resultados que ela produziu, falavam por si só. Ela foi muito respeitada durante sua carreira e seus colegas eram unânimes ao elogiar seu conhecimento, seriedade e meticulosidade ao tratar de todos os assuntos relacionados ao Egito Antigo. Ela foi consultora e autora em inúmeros trabalhos de campo assinados por arqueólogos de renome. Uma façanha impressionante para uma mulher que jamais entrou numa sala de aula para estudar arqueologia. O famoso Egiptólogo alemão Klaus Baer disse a respeito de Omm Sety: 

"Ela afirmava ter visões do passado e venerar os antigos deuses do Egito. Eu não posso afirmar se ela falava a verdade ou não. Mas eu posso dizer, sem sombra de dúvida, que seu conhecimento e seus métodos eram impressionantes. Omm Sety me deixou mais de uma vez sem palavras, fazendo com que eu tivesse de rever meus conceitos e preconceitos diante da pura realização de que não haveria como ela ter tal conhecimento, a não ser que realmente tivesse vivido tudo aquilo". 


Omm Sety se aposentou oficialmente em 1964 por conta da idade, mas ela continuou trabalhando como conselheira no Departamento de Antiguidades até meados de 1979. Ela também gostava de conduzir turistas e visitantes pelo Templo de Seti, mostrando o local e relatando histórias até falecer em 21 de abril de 1981. Sua morte deixou um vazio difícil de ser preenchido no campo da Egiptologia e ela recebeu a devida reverência de seus colegas.

Será que Dorothy Eady realmente era a reencarnação de uma Sacerdotisa Egípcia de Bentreshyt? Especulações ao longo dos anos se concentraram nas suas incríveis habilidades e conhecimentos, mas o debate está bem longe do fim. Como explicar que uma mulher sem nenhum treinamento acadêmico soubesse tanto sobre um tempo ancestral e fosse capaz de se referir a ele com a familiaridade de alguém que viveu aquelas experiências?  

O que acontece conosco após a nossa morte física? É possível que passemos de um corpo para outro carregando conosco o potencial para lembrar de uma vida pregressa? Não importa no que as pessoas acreditem, mas o caso de Dorothy - ou melhor de Omm Sety, certamente nos confronta com noções incríveis que nos fazem ponderar a respeito daquilo que julgamos ser simplesmente inexplicável. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

13 conselhos para os Cultistas nesses tempos de Crise de Saúde


Nesses tempos de incerteza, a única coisa que não pode faltar é bom senso e informação.

Em tempos de Crise, precisamos manter a calma e seguir o Conselho dos Grandes Antigos para a Prevenção de Contaminações e infecções indesejáveis como esse Vírus Cthulhiano que nos aflige. 

Com certeza, aqueles que desrespeitarem estas normas claras, serão os primeiros a serem devorados por Cthulhu e suas hostes malignas. E ninguém quer isso, quer?

Tentemos então manter a nossa Sanidade e seguir as normas abaixo.

CADA CULTISTA DEVE FAZER A SUA PARTE:

1 - Lave suas mãos (e tentáculos, conforme for o caso) cuidadosamente várias vezes ao dia. A contaminação é facilmente eliminada pela ação mística da espuma do sabão comum, sem a necessidade de magias, rituais ou feitiços de alto círculo.

2 - Mesmo que você não disponha do raríssimo artefato purificador conhecido como Álcool Gel de Yuggoth, não é motivo para perder sua sanidade. O vírus é facilmente obliterado lavando as mãos com sabonete. O sabonete é seu amigo, trate-o como um Familiar. 


3 - LEMBRE-SE gripes, resfriados e outras maldições mundanas continuam existindo, mantenha a calma pois provavelmente, se você estiver apresentando sintomas, estes são causados por alguma moléstia corriqueira. 

4 - Preste atenção se você tiver febre alta, dor de garganta, dor no corpo, tosse e PRINCIPALMENTE falta de ar. Nesse caso busque ajuda de profissionais.

(O crescimento de múltiplos apêndices, olhos ou bocas em lugares indesejados ou a incômoda Aparência de Innsmouth, fazem arte de outras doenças e não são importantes nesse momento).


5 - EVITE cumprimentar apertando as mãos e dentro do possível evite tocar em objetos.

(Prefira a saudação de Cthulhu - colocando a mão espalmada sob o queixo, agitando os dedos como se fosse uma barba de tentáculos)

6 - EVITE se deslocar até Hospitais, Postos de Saúde e Manicômios. Abra mão de explorar Templos Malignos e vagar por Ruínas Ancestrais, pois se você não estiver contaminado poderá ter contato com portadores do vírus que infestam esses lugares insalubres.


7 - FIQUE NA SEGURANÇA DE SEU SANTUÁRIO! 


8 - Se tiver de se aventurar numa jornada além dos limites de seu Santuário, seja para obter víveres, realizar rituais ou cuidar de membros de sua congregação que residem em outras localidades, tome todas precauções possíveis. Mantenha ao menos 1 metro de distância das pessoas e evite falar próximo para não ter contato com emanações espúrias indesejáveis.


9 - Deixe Crianças, Pessoas de Idade, Asseclas e Shoggoths em casa quando for obter ingredientes para suprir seu santuário. Lugares públicos podem ser uma área de contaminação e expor seus minions a esses ambientes é muita burrice. 

10 - Ao retornar da rua, lave criteriosamente as mãos (e tentáculos também). Se possível faça suas abluções sob água corrente e troque seu manto. 


11 - Crianças, Idosos, Asseclas e Shoggoths muitas vezes tem dificuldade em entender o risco a que estão expostos. Explique a eles o perigo, seja claro, mas evite alarmismo ou revelações apocalípticas que custem sanidade. 

12 - CONVERSE com seus minions uma, duas, três, dez vezes ao dia. O isolamento face a face é necessário, mas existem várias maneiras de manter o contato (telefone, internet, tábuas ouija, magias de contato etc.) para que saibam que não estão sozinhos ou foram abandonados em calabouços escuros.


13 - Tente se manter ocupado em casa lendo tomos profanos, informado dos acontecimentos através de divinações e positivo de que a crise irá passar em breve e você terá acesso a toda ajuda psicológica para restaurar sua Sanidade a níveis aceitáveis. 

É questão de tempo e de comprometimento.

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Pessoal, brincadeiras à parte, vamos ter consciência e fazer o que é certo! Não é fácil, mas vamos superar isso!

Desejamos a todos amigos leitores do Mundo Tentacular boa sorte e muita saúde. Esperamos de coração que essa pandemia passe o mais rápido possível.