quarta-feira, 1 de outubro de 2014

The Knick - Série mostra como era o dia a dia em um Hospital na virada do século XIX.


Vou ser sincero. Eu nunca gostei de séries médicas, porque tenho aflição daquelas cenas longas e assustadoras em que uma doença é debatida e depois tratada sem economia de sangue.

Comecei a mudar um pouco essa opinião depois de assistir todas as temporadas de House, uma série onde a doença era tratada como um enigma a ser descoberto e vencido. Espelhado em Sherlock Holmes, o médico genial nem queria olhar o paciente, apenas revelar a face oculta da doença. Mesmo assim, alguns episódios não nos poupavam de sangue, vísceras, olhos estourando e órgãos supurando. Nesses casos eu virava o rosto.

Mas não tem como olhar para o outro lado quando se trata de "The Knick" a nova e elogiada série do Canal Cinemax. Em The Knick, se você "ficar com medinho do sangue", corre o risco de perder um episódio inteiro, porque as imagens da sala de cirurgia não poupam ninguém.

Vou dar uma ideia do que acontece no primeiro episódio, e que sirva de aviso para os que assim como eu tem restrições quanto a banhos de sangue e órgãos extirpados.

Na Nova York de 1900, na virada do século, um sujeito acorda em um antro sórdido de ópio em Chinatown. Em meio ao seus devaneios ele é avisado que está atrasado e sai às pressas tropeçando nas próprias pernas, carregando um par de sapatos brancos imaculados para pegar um táxi (na verdade, um coche) que o leve até o Hospital Knickbocker. A gente pensa em um primeiro momento que se trata de um paciente, que talvez tenha consumido algum opiáceo envenenado, mas não... o sujeito é o conceituado Dr. John Thackery (Clive Owen) à caminho de mais uma jornada de trabalho no hospital apelidado como "The Knick".


Mas ainda não acabou, logo ficamos sabendo que Thackery é considerado um gênio, um desses médicos com Síndrome de Deus, caráter duvidoso e uma inclinação preocupante para se auto-destruir. O primeiro trabalho do dia envolve um complicado procedimento cirúrgico, o parto de uma mulher que está com placenta descolada. Diante de uma platéia de médicos dispostos em três fileiras de camarote, a maca é trazida com a assustada mulher grávida que implora que seu filho seja salvo. Tudo é incrivelmente teatral e coordenado. Sem grande perda de tempo, a cesariana improvisada se inicia.

O procedimento, explica o chefe da cirurgia, envolverá cortar a barriga da mulher, sugar o sangue rapidamente com bombas manuais, extrair o feto e suturar o mais rápido possível para assim evitar perder a paciente. Não é a primeira vez que eles tentam o procedimento, todos os anteriores acabaram em óbito. Quando a cena se inicia vemos um ambiente branco imaculado, os médicos esterilizados e tudo parece remeter a uma operação controlada. Mas não... nos primeiros dois minutos fica claro que os médicos não tem a mais remota ideia do que está acontecendo ou de como proceder, o sangue espirra para todo o canto, pedaços da mulher são extirpados com bisturis, as bombas sugadoras vão sifonando sangue sem parar, deixando a pobre coitada pálida. De repente, um movimento rápido de câmera, e vemos o feto sendo arrancado de dentro da mulher e colocado nos braços de uma enfermeira que corre para tentar reanimá-lo. A pressão vai caindo, o silêncio toma conta da sala de cirurgia, coberta de fluidos gotejantes. A mãe morre, a criança nem chega a respirar. 

A cirurgia falhou, mais um dia como qualquer outro no Knick. Os médicos lavam as mãos como Pilatos e com a consciência de que fizeram o humanamente possível analisam como será a próxima cirurgia.

Não se preocupem, nada disso, é spoiler. Haverão muitas outras cenas igualmente chocantes de cirurgias ao longo do primeiro episódio e é claro, ao longo de toda a série. 

Mas "The Knick" vai muito além das cenas grotescas de cirurgias, realizadas com uma crueza de detalhes perturbadores. A série se concentra numa época em que a medicina moderna estava apenas se formando, quando métodos eram testados e quando experimentos rudimentares serviam como base para procedimentos que usamos até hoje. Mas como fica claro na série, foi um longo e tortuoso caminho até se estabelecer os métodos mais seguros para salvar os pacientes, e no processo muitos, muitos mesmo perderam as suas vidas.


Em um momento da série, o brilhante Dr. Thackery comenta que em cinco anos, a ciência médica avançou mais do que nos 500 anos anteriores. O início do século XX, viu um desenvolvimento inacreditável, mas ainda assim, para os padrões atuais, uma cirurgia desse período se assemelha a um abate de gado. O mais curioso é que, no ritmo das inovações e descobertas, daqui a 100 anos, as pessoas provavelmente olharão com o mesmo horror para os métodos que usamos hoje em dia. Felizmente a ciência está em constante progresso.

O médico interpretado por Clive Owen, que à princípio parece ter um ranço de Dr. House, consegue ser o fiel da balança nesse período. Ele é um mal necessário para uma classe que ainda engatinha, que desconhece a penicilina, que utiliza o extrato de cocaína loucamente e que prefere ignorar as noções de ética e moral mais básicas. O Dr. Thackery não acha que é Deus, ele se sente o próprio. Em sua sala de cirurgia ele tem em suas mãos os instrumentos necessários para desafiar a própria criação divina e confrontar o Criador determinando por conta própria "quando" seu paciente tem autorização para morrer.

Esse é fácil o melhor papel da carreira de Clive Owen que de uns tempos para cá, vinha rateando nas suas escolhas profissionais, mas acabou achando um espaço onde seu talento pode finalmente brilhar com a intensidade adequada. O seu Dr. Thackery para outros atores talvez soasse forçado e desnecessariamente maldoso, mas nas mãos de um ator competente, o médico, com seu bigodinho de malandro é a imagem do cinismo personificado. Nós não sabemos até que ponto o Doutor se importa com seus pacientes ou se tudo que ele faz é uma maneira de ganhar em excitação, um barato que nem as drogas que ele aplica em suas veias (e no canal uretral, sim você leu isso!), conseguem produzir.


Além é claro dos dramas do médico brilhante e desafiador, a série contempla vários outros aspectos do funcionamento de um hospital no início do século. Como retrato de época, "The Knick" é tão complexo e oferece tantas facetas quanto sua concorrente no gênero drama de época "Downton Abbey". Se na série britânica, o foco são os dramas e transformações da sociedade inglesa, aqui a coisa se volta para a luta de classes e pela própria sobrevivência num período no qual a América ainda tentava se firmar.

"The Knick" conta com um vasto elenco de apoio, com os membros da equipe e o pessoal que orbita a instituição hospitalar.

Temos o administrador Barrow (Jeremy Bobb), um burocrata corrupto que tem que se desdobrar para obter verba para a instalação de luz elétrica e para saldar dívidas com criminosos e Cornelia Robinson (Juliet Rylance), a filha de um milionário que é alçada ao posto de diretora do hospital, cargo para o qual, uma mulher jamais seria cogitada. É claro, temos também a inevitável personagem da Enfermeira Elkins (Eve Hewson) que quer ajudar os doentes, mas precisa conquistar o respeito dos médicos e a experiência para lidar com os limites da profissão. Ela é o contraponto para a Irmã Herriet (Cara Seymour), uma freira que se entregou ao cinismo e desalento, que oferece abortos para as desesperadas pacientes que batem sua porta na calada da noite.


Dentre a fauna variada que transita pelo Knickebocker meu favorito, é Tom Cleary (Chris Sullivan), o motorista irlandês briguento e beberrão que comanda a ambulância emergencial. É curioso saber como as coisas nessa época funcionavam. Quando uma pessoa chamava a ambulância ou precisava de socorro, os vários hospitais da cidade disputavam na base da ignorância quem fica com o paciente. E não estou exagerando, o socorrista Cleary se arma para disputar o paciente ainda no chão, todo quebrado. Isso porque a demanda por pacientes - ou melhor espécimes, era enorme e os socorristas ganhavam por vítima deixada na porta do hospital. Numa das cenas mais surreais, um socorrista, se prepara para brigar com os punhos pelo direito de recolher uma vítima de atropelamento, quando Cleary desce da carroça com um taco de baseball e ameaça: "Ou eu levo esse sujeito para meu hospital, ou levo vocês dois. É sua escolha!"

Outra figura curiosa do elenco de apoio é o Inspetor de Saúde Speight (David Fierro) incumbido de fiscalizar os cortiços apinhados de imigrantes no caldeirão multi-cultural que era Nova York. Com poder de polícia garantido pelo governo, faro para detectar doentes e uma cobiça transcendental, ele enche os bolsos escolhendo para onde enviar os moribundos. Em uma cena de doer na alma, uma menininha imigrante explica à mãe que não fala uma palavra de inglês que ela tem uma doença fatal e que, o máximo que se pode fazer, é providenciar uma morte sem tanta dor usando drogas. A mulher, absolutamente ciente de seu quadro crítico, apenas lembra à criança de que ela não pode perder o horário na fábrica onde trabalha. Realismo total de uma época aterrorizante!

"The Knick" corta fundo em vários temas. 

Além do dia a dia tresloucado do Hospital sobra espaço para mergulhar nos problemas da época: racismo, machismo, ética, corrupção... tudo que condenamos hoje em dia, grassa pelos corredores como um pequeno microcosmos absurdo e horripilante.

No primeiro episódio, a chegada de um médico formado no exterior, o Dr. Algernon Edwards (André Holland) reconhecidamente brilhante e capaz, acaba repercutindo na equipe. O médico, afinal de contas, é negro e sua incorporação a equipe se torna um desafio nos tempos em que "igualdade" era uma palavra ausente do dicionário. A maneira como ele é tratado pelos seus colegas, pela equipe e até pelos pacientes que ele pretende ajudar, causa indignação.


A produção da série, sob a responsabilidade do diretor ganhador do Oscar, Steven Sodembergh (de Traffic) é sensacional. A reconstituição de época, que transformou uma cidadezinha no Canadá (onde ocorrem as gravações) numa versão perfeita da Nova York do início do século é irretocável. Das ruas cheias de pessoas, os distritos abarrotados de imigrantes, famílias morando em cortiços, às propagandas em cada parede, a cidade ganha vida como um ente vibrante e pulsante. Para quem gosta de história, "The Knick" oferece um retrato detalhado de uma sociedade em transformação. É interessante assistir para conhecer o dia a dia das pessoas que construíram a maior metrópole do mundo e ter uma ideia de como a vida era dura naquele tempo. 

Embalado em um roteiro afiado e um elenco equilibrado, The Knick tem tudo para conquistar seu espaço e se tornar uma sensação na temporada. Descrito como um "Plantão Médico" nos tempos de "Gangues de Nova York" a série já teve a sua segunda temporada confirmada com mais episódios e um orçamento ainda maior.  

Mas não adianta falar sobre os vários méritos da série. É inegável que a grande atração de The Knick acabam sendo os procedimentos cirúrgicos da época. O requinte da produção é tamanho que os atores que fazem o papel de médicos tiveram aulas de anatomia e com médicos para compreender o funcionamento do corpo humano, o que  torna sua interpretação muito mais convincente. Além de se comportarem como médicos do início do século XX, os personagens manipulam ferramentas e instrumentos reais, usados por profissionais do período. Boa parte dos instrumentos vieram de coleções particulares ou de museus de hospitais. Os atores tiveram de se familiarizar com eles e saber como usá-los. Além disso, testaram seus conhecimentos recém adquiridos diante de seus professores. Só quando todos eram capazes de convencer os médicos do que estavam fazendo, eles puderam iniciar as filmagens. Os astros também tiveram de se acostumar com o sangue e vísceras onde praticamente mergulham a cada episódio. Alguns membros da produção comenta-se, chegaram a passar mal durante as filmagens e acabaram afastados por não tolerar a rotina de baldes de sangue e órgãos prostéticos.


Como o mote da série é o hiper-realismo, aqueles suscetíveis a imagens podem se preparar. Entre closes indecorosos e sequências longas e claustrofóbicas, vemos estômagos sendo destrinchados, tripas sendo puxadas e pedaços sanguinolentos serem cortados a todo momento. Não há beleza na "divina máquina humana projetada por Deus".

O choque inicial das cenas sanguinolentas, no entanto, compensa, à medida que você mergulha nos meandros da Estória fictícia e nos detalhes da História real. Uma combinação imbatível para uma série que consegue ser informativa e erudita, sem em momento algum perder em empolgação e drama.

Trailer legendado:

domingo, 28 de setembro de 2014

Soldados Híbridos - A URSS realizou experiências para criar uma raça de super soldados?


Seria o sonho do Ditador Josef Stalin: Um exército de Soldados incapazes de sentir medo, com força e resistência sobre-humanas, que seguiriam todas as ordens sem pestanejar, que comeriam qualquer coisa, e que ignorariam dor e sofrimento. 

Também poderiam ser operários que fariam o trabalho de dez homens sem reclamar, sem nenhum pensamento individual ou desejo de serem pagos. Com força para carregar a União Soviética ao longo do Plano de Cinco Anos e tornar a Mãe Rússia imbatível nos campos de batalha. 

Pode parecer ficção científica, mas o plano de Stalin, de acordo com certas teorias conspiratórias, era desenvolver uma raça subserviente de escravos híbridos, meio humanos e meio macacos, cientificamente construídos; uma raça que se esperava fosse capaz de combinar enorme capacidade física, lealdade cega e genialidade humana para realizar tarefas complexas. 

Mas quanto dessas estórias é verdade, e quanto não passa de invenção de escritores modernos e roteiristas de cinema em busca de uma estória sensacional?

Não é segredo que o renomado biólogo russo, Ilya Ivanovich Ivanov, passou grande parte de sua carreira trabalhando exatamente nesse projeto. Por volta de 1900 Ivanov ganhou fama e aclamação nacional por seu trabalho inseminando artificialmente cavalos, aumentando o número de animais reprodutores em vinte vezes. Em uma época de pré-industrialização, este era um imenso triunfo econômico já que animais eram usados como força motriz. 

Ilya Ivanovich e um dos macacos de sua estação científica
Trabalhando no Departamento Veterinário do Ministério do Interior da Rússia, Ivanov apresentou seu método em simpósios. Sua próxima experiência contemplava a criação de animais híbridos especializados para a realização de tarefas nos campos da agricultura e indústria, bem como para pesquisas científicas. Seus experimentos no campo da inseminação artificial foram bem sucedidos ao juntar espécies de animais semelhantes: burros e zebras, camundongos e ratos, várias espécies de pássaros e roedores, além de diferentes raças de gado.

Em meados de 1910, Ivanov presidiu uma palestra em Moscou na qual expôs a possibilidade de misturar humanos e macacos, aplicando métodos de inseminação artificial criados por ele. Em face da reação geral dos outros cientistas, que questionavam a ética desses experimentos, Ivanov foi impedido de levar adiante suas polêmicas teorias. O que se pode dizer? Em 1910, a comunidade científica não estava preparada para aceitar experimentos que podiam resultar em humanos híbridos.

Ivanov caiu no ostracismo e passou a ser ridicularizado pelos seus colegas cientistas que o viam como uma espécie de "cientista maluco". Entretanto, a Revolução Russa de 1917 daria uma nova oportunidade a "gênios incompreendidos" como Ivanov. Com a instalação do novo regime, todos os programas sancionados pelo governo anterior foram dissolvidos e descontinuados, abrindo espaço para outros cientistas. Sob o comando do Departamento Científico da União Soviética, projetos inovadores, como a hibridização humana, foram resgatados.

Durante toda sua carreira, Ivanov procurou financiadores para seus projetos, alguém que aceitasse suas teorias e estivesse disposto a custear equipamento, laboratórios e obter espécimes para as pesquisas. Recursos para o projeto sempre foram escassos, principalmente porque a maioria das pessoas não levava as teorias de Ivanov à sério. Seria muita sorte ele poder contar com apoio governamental para levar à cabo suas pesquisas.

Curiosamente, muitos dos artigos modernos sobre Ivanov o retratam mais como um filósofo do que como um cientista. Costuma-se supor que o governo soviético investiu no projeto de Ivanov não por acreditar em seu sucesso prático, mas por considerá-lo capaz de contradizer as crenças criacionistas e desafiar dogmas religiosos.

Em virtude dos imensos problemas nacionais da União Soviético em suas primeiras décadas de formação, envolvendo a fome e desenvolvimento agrário, era estranho o governo despejar recursos em projetos como os de Ivanov. Apesar disso, os comissários pareciam satisfeitos em garantir total apoio a ele. 

Em 1924 um alto-comissário do Ministério da Agricultura escreveu um memorando onde se lia:       
"...O trabalho realizado pelo Professor Ivanov constitui um golpe decisivo nos ensinamentos religiosos, e pode ser usado como propaganda em nossa luta constante para libertar os trabalhadores dos ensinamentos da Igreja."
Parece plausível que os projetos de Ivanov servissem como material de contestação, mas será que eles foram mais do que isso?

Aparentemente, o projeto mais audacioso de Ivanov foi levado adiante. Ele recebeu o comando de uma estação de pesquisas construída na Guiné, África Oriental. As instalações eram abastecidas com várias espécies de símios capturados por caçadores: centenas de chimpanzés, orangotangos, babuínos e gorilas, adquiridos por agentes soviéticos e enviados em jaulas para o laboratório de Ivanov. Usando esperma de voluntários, Ivanov realizou tentativas sucessivas de inseminar artificialmente as fêmeas de símios. Ele também testou o processo inverso, tentando inseminar mulheres em um hospital financiado pelo governo soviético na África. É claro, suas cobaias humanas não tinham ciência ou davam consentimento para os testes de que participavam.   

Três anos se passaram, e o projeto não obteve qualquer avanço significativo. 


Ivanov recebeu ordens de fechar a estação na Guiné e retornar à União Soviética com o que restava de seus símios. Apesar de seus fracassos, o governo ainda estava disposto a patrocinar o projeto. O pesquisador recebeu uma nova e mais moderna Estação Científica, montada às margens do Mar Negro, em Sukhum (atualmente Sukhumi). 

O complicado transporte dos símios no porão dos navios foi um desastre e apenas um orangotango, apelidado de Tarzã sobreviveu a viagem. Em 1929, o plano era inseminar artificialmente cinco mulheres especialmente escolhidas entre dissidentes políticas e previamente examinadas por ginecologistas a serviço do governo. As primeiras tentativas não tiveram resultado positivo e o progresso das pesquisas sofreu um novo revés quando o orangotango morreu. 

Ivanov encomendou a compra de cinco chimpanzés, mas antes que os animais pudessem ser entregues o prestígio de Ivanov foi colocado em cheque. Ivanov passou a ser contestado e acusado de administrar de maneira imprópria os recursos que lhe eram fornecidos, um grave crime no estado soviético. De um momento para o outro, ele caiu em desgraça e foi acusado de traição, sendo preso meses depois. Mandado para um gulag na Sibéria, ele morreu dois anos mais tarde.     

A estação de pesquisas de Ivanov sobreviveu e se tornou seu único legado. Em 1960 ela era usada como centro de pesquisas científicas chegando a  ter uma população de mais de 2 mil primatas usados extensivamente no programa espacial soviético. Até onde se sabe, com a morte de Ivanov, nenhum cientista assumiu as suas pesquisas de hibridização humana, embora processos convencionais de inseminação artificial tenham sido usados nos símios mantidos na estação.

Então, afinal de contas, essa estória reforça ou contradiz o rumor de que Stalin desejava criar uma raça de super soldados híbridos? 

Aparentemente, a despeito das teorias conspiratórias, Stalin jamais teve qualquer ligação com o trabalho ou com o projeto comandado pelo camarada Ivanov. É provável que ele sequer tenha ouvido falar dele. Não há evidências de que o governo soviético planejasse criar soldados ou operários híbridos, embora avaliando a proposta original do projeto de Ivanov possamos extrapolar que essa era uma das possíveis aplicações em caso de sucesso.

Soldados macacos? Onde será que ouvimos falar disso?
As experiências bizarras de Ilya Ivanov por fim, não resultaram em híbridos. Elas foram um colossal fracasso. Contudo, na primeira metade do século XX, o tema de hibridização era recorrente entre cientistas. O pesquisador norte-americano Desmond Morris, chegou a afirmar que o governo americano manteve na década de 1930 uma estação de pesquisas onde se tentava realizar hibridização com espécimes humanos e símios. A estação teria existido na Flórida, até ser fechada em 1950. Na China, rumores de estações semelhantes foram muito difundidos até o final da década de 60. A mítica estação na Ilha Ghenzu teria um surtimento assustador de híbridos humanos, quase uma Ilha do Dr. Moreau, mas de verdade. Nenhum desses boatos, contudo foi confirmado.

Mas a hibridização é possível? Biólogos que se dedicaram a questão se dividem, mas a grande maioria acredita que não é possível cruzar duas espécies diferentes, ao menos empregando métodos de inseminação artificial conhecidos atualmente. A possibilidade de empregar engenharia genética para esses propósitos, contudo, é assunto controverso na comunidade científica internacional.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

In Strange Aeons - Unindo os Mythos de Cthulhu a Numenéra

por Alex Lucard
Die Hard Game FAN

In Strange Aeons (Em Estranhas Eras) mistura um dos meus jogos contemporâneos favoritos, Numenera, com meu jogo favorito em todos os tempos, Call of Cthulhu

É claro, em se tratando dos Mythos de Cthulhu e da maneira que você está narrando Numenéra tal combinação nem parece tão improvável. Afinal de contas, os dois jogos são em essência a respeito de descoberta e mistério, não combate. Ambos os jogos também possuem personagens continuamente desvendando segredos, desenterrando relíquias de um passado ancestral ou entrando em contato com coisas impossíveis e surpreendentes. No caso de Numenéra, nós temos os cyphers – relíquias tecnológicas dos Oito Mundos anteriores. Em Call of Cthulhu, existem magias, rituais e tecnologia de raças não-humanas, artefatos que permitem viajar mentalmente para outras eras ou invocar seres de imenso poder. Nos dois jogos, os personagens encontram criaturas estranhas, muitas delas difíceis de serem descritas em palavras, porque elas são completamente alienígenas. Em Numenera essas criaturas são formas de vida que surgiram ao longo de milhões de anos ou vieram de lugares distantes. Já em Call of Cthulhu, elas são medonhas monstruosidades de um passado remoto, nascidas quando a humanidade apenas engatinhava.

Quem poderia imaginar que algumas das estranhas criaturas do Mythos, que habitaram a Terra há tantas eras poderiam ainda estar ativas no distante futuro do Nono Mundo. Algumas delas continuam idênticas ao que eram, outras mudaram, sofreram alterações substanciais e mutações que as tornaram ainda mais bizarras e absurdas. Talvez o retorno da humanidade para a Terra seja apenas um experimento dos Fungos de Yuggoth ou as maquinações dos Deuses Antigos. Numenera afinal de contas permite um crossover com praticamente qualquer coisa, inclusive o horror cósmico que por sua vez pode ser acrescentado onde quer que seja ("Just Add Cthulhu", dizia o próprio Monte Cook). Sob esse prisma nem soa tão estranho contemplar a possibilidade de lançar horrores tentaculares em cima dos aventureiros.

In Strange Aeons é um pequeno suplemento com meras dez páginas que conecta as criaturas lovecraftianas e seus temas à ambientação de Numenera. Embora a embalagem seja econômica, ela consegue ser rica em detalhes e vale a leitura.

As primeiras quatro páginas discutem como adicionar os elementos do Mythos ao contexto de Numenéra. Na verdade, nem é tão difícil fazer essa ponte. O Nono Mundo já é rico em coisas incrivelmente estranhas, tecnologia inconcebível, criaturas e lugares igualmente inacessíveis para a compreensão humana. Portanto, não parece que você está misturando as coisas, ao invés disso tudo se encaixa como uma luva. A grande diferença é a maneira como as forças do Mythos afetam os habitantes do Nono Mundo. O Mythos continua absurdo, maligno e corrupto. Mesmo em um mundo de estranhezas ele se destaca como algo radioativo, proibido e perigoso.


Um cypher pode abrir um portão que teleporta os personagens para outras localidades, um artefato do Mythos ao invés disso, abrirá uma passagem através do qual surgirá uma abominação tentacular faminta dos recessos do espaço-tempo. Em Numenéra, um prédio ancestral pode ter sido uma espécie de hospital que guarda uma cura milagrosa para salvar um vilarejo, mas se ele for algo do Mythos é provável que a mesma construção seja um templo cheio de doença e horror. O mais curioso, é que embora o Nono Mundo continue sendo inesperado e algumas vezes assustador, nada nele se compara ao horror do Mythos.

O suplemento dá dicas úteis sobre como narrar estórias em Numenéra com esse twist. Tudo é descrito com uma narrativa reminiscente de um texto lovecraftiano. As coisas são misteriosas e assustadoras na medida certa. Por exemplo, como confiar nos estranhos habitantes de um vilarejo à beira mar que apresentam inquietantes mutações? Como encarar os bizarros ângulos não-euclidianos nas ruínas de uma cidadela abandonada? Uma das coisas mais divertidas é mexer com a paranoia dos jogadores, inserir o Mythos sob um disfarce - como algo tipico de Numenéra, cuja verdadeira natureza só será revelada quando for tarde demais.    

Na minha opinião, o mais complicado aspecto da mitologia lovecraftiana a ser combinado com Numenéra envolve a sensação de impotência da humanidade diante de um universo impessoal. Estamos no Nono Mundo, e oito grandes civilizações vieram antes construindo bilhões de anos de história e progresso. Obviamente algumas dessas civilizações se destacaram e deixaram a sua marca no planeta através de realizações inacreditáveis. Nesse contexto, os humanos não são meras formigas diante dos Antigos, eles fizeram algo importante. Além disso, a raça humana teve contato com raças diferentes, seres de estrelas distantes e outras dimensões, e supostamente aprendeu com eles. Como incutir em personagens familiarizados com essas realizações um temor primitivo perante o desconhecido? 


A solução oferecida é instigante: talvez cada um dos oito mundos anteriores tenha sido arruinado pelas forças do Mythos. Talvez o despertar dos Antigos constitua um ciclo que marca a destruição de cada civilização. O que acontece quando um explorador de Numenéra descobre que todas as realizações estão fadadas a aniquilação por uma força impossível de ser derrotada? O que acontece quando ele compreende que não importa o que se faça, a espécie humana, está destinada a ser varrida da existência quando o momento chegar, assim como ocorreu com todos os que vieram antes? É um conceito interessante que oferece muito potencial narrativo. Será que os personagens suportarão a verdade sobre a destruição dos outros mundos e a revelação que o Nono Mundo também um dia irá ruir? 

Em se tratando de material, esse pequeno suplemento oferece ótimo conteúdo. Ele inclui uma mecânica sobre sanidade, na qual os personagens são afetados perdendo pontos de Intelecto. Há opções para lidar com conceitos de loucura e a gradual insanidade dos personagens. In Strange Aeons oferece também duas novas descrições para personagens (Mad and Doomed/ Louco e Amaldiçoado), que possuem suas própria vantagens, desvantagens, opções para GM Intrusion e Efeitos únicos.   

Finalmente temos alguns dos mais famosos monstros lovecraftianos com estatísticas convertidas para o sistema de Numenéra. Lá etão Abissais, A Grande Raça de Yith (que convenhamos é perfeita para Numenéra), os Fungos de Yugoth e até os Shoggoth! Alguns jogadores podem achar criaturas como os abissais pouco assustadoras ainda mais quando comparadas a certos habitantes do Nono Mundo, mas sempre é bom ver uma raça lovecraftiana numa outra roupagem. Além disso, o suplemento fornece conselhos para que o narrador reimagine algumas criaturas sob uma ótica dos Mythos de Cthulhu. 

O único porém no suplemento é um apêndice no qual o autor fala das tendências racistas de Lovecraft. Sim, todos sabemos das opiniões infelizes de Lovecraft a respeito de certos tópicos, mas havia a necessidade de falar a respeito disso aqui? 

O suplemento exclusivamente no formato PDF pode ser adquirido na página da Monte Cook Games e custa apenas 3 dólares, bem em conta. Fãs de Call of Cthulhu e de Numenéra não terão do que reclamar, já que encontrarão uma perfeita receita para a fusão de dois jogos sensacionais. In Strange Aeons é uma maravilhosa adição ao sistema Numenéra e a prova de que até um pequeno suplemento pode oferecer inúmeras opções.

Para quem perguntou "Nume o que"? Leia a resenha sobre esse fantástico RPG:

Numenéra - parte 1

Numenéra - parte 2

Numenéra - parte 3

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Fichários de RPG - Imprimindo e organizando Arquivos de PDF em pastas


Esses tempos eu estava arrumando meus arquivos no computador, fazendo aquela tradicional faxina, quando me dei conta de quantos PDF tinha ali.

Dois anos atrás, durante uma mega-promoção do site Drive Thru RPG, comprei vários PDF de livros de RPG bem baratinho. Foi uma daquelas pechinchas que a gente entra sem pensar duas vezes...

O que me dei conta é que nunca li boa parte desse material, alguns deles, ótimos livros. Simplesmente comprei, baixei e eles ficaram no meu HD esse tempo todo. A maioria, me satisfiz em dar uma olhada superficial e pronto...

Reconheço que isso se deve a um preconceito (não tão leve) que muitos fãs de RPG compartilham e no qual eu incluo a mim mesmo. Muitos leitores, jogadores e narradores simplesmente não gostam de ler material de RPG na tela do computador.

Parece bobagem, já que passamos boa parte de nossos dias na frente de um monitor, mas quando se trata de livros de RPG eu, e com certeza, outros tantos colegas somos de uma época em que ter o livro físico era essencial. Apesar do tablet e dos laptops terem se tornado relativamente comuns nas mesas de jogo, o livro em formato físico é outra coisa, sobretudo para os veteranos.

Mas aí surgem dois problemas: Primeiro, nem sempre é possível encontrar todos os livros que queremos, alguns não estão mais disponíveis tendo saído de catálogo anos atrás. E segundo, nem todas editoras, em especial as pequenas, aceitam pedido para entrega no Brasil ou se o fazem, o custo do frete é proibitivo, custando quase tanto quanto o próprio livro. 

Nesses casos o PDF é a única maneira de conseguir esses livros.

Mas não é a mesma coisa ler no computador...

Pensando nisso, decidi arregaçar as mangas e imprimir parte dos meus livros em PDF. Depois de imprimir uns dois ou três livros em uma gráfica, fiquei satisfeito com o resultado, mais ainda porque consegui um desconto em função da quantidade de cópias que seriam impressas.

O único senão era o formato da encadernação. Encadernar as páginas com uma capa dura sai caro, e a encadernação com espiral tira muito da graça de colecionar os livros, já que o legal é colocar os volumes na prateleira ou estante. Com a lombada em espiral, todos os livros parecem iguais, fica uma coisa muito sem graça...

Tive então a ideia de organizar o material em pastas de arquivo físico, aquelas pastas enormes de escritório. Coloquei as cópias de cada livro dentro de um saco plástico reforçado e encadernei nas pastas. 

Como toque final, dei uma decorada nas pastas para deixá-las com um aspecto mais condizente com as ambientações. 

No final, gostei muito do resultado e recomendo. Ficou bem mais barato do que comprar todos esses livros e a qualidade da impressão (capa colorida e miolo preto e branco) ficou excelente.

As fotos a seguir são dos dois arquivos (de Rastro de Cthulhu e Chamado de Cthulhu), já penso em fazer mais para outras ambientações/sistemas. 

PASTA DE TRAIL OF CTHULHU

A pasta com material de Rastro de Cthulhu tinha que ser num "verde doentio"
Eu usei fita adesiva para ficar com cara de álbum de recortes ou colagem.
Achei uma imagens bacanas na internet e depois de imprimir, colei na contracapa para dar um clima do jogo. 
É impressionante como cabe material nessas pastas de arquivo.
MUITO material! Aproveitei e mandei imprimir tudo que eu tinha de Rastro
As aventuras puristas do Graham Walmsley
As edições encadernadas Out of Time e Armitage Files
Os cenários mais recentes como Hell Fire, The Repairer of Reputations e o Arkham Detective Tales
Esses que ficaram mais extensos coloquei em uma bolsa plástica mais resistente.
E o Armitage Files eu dividi em duas partes. Para esse livro em especial, ficou muito bom ter as páginas em separado, já que algumas dá para usar como Handouts.
PASTA DE CALL OF CTHULHU

Já para o Chamado de Cthulhu, usei uma pasta preta.
Usei um adesivo de Cthulhu e um cartão postal para a capa.
E por dentro, o princípio é o mesmo. O material impresso fica nesses sacos de plástico transparente.
Eu imprimi muito material da Miskatonic River Press, uma editora que não entrega aqui no Brasil.
Red Eye of Azathoth e Our Ladies of Sorrow parecem muito boas campanhas e eu nem tinha lido.
Legacy of Arrius Lurco, Cathulhu e a Monografia "O Retorno de Jack, o estripador"
O material fica direitinho, acondicionado nesses sacos de plástico
E no fim, não fica devendo nada a edição original do livro.

domingo, 21 de setembro de 2014

Lugares Estranhos - A Caverna de Conchas de Margate - Um Templo para Deuses Desconhecidos


A pouco mais de trinta milhas ao norte de Dover, um percurso de 40 minutos de carro, encontra-se a cidade costeira de Margate. Localizada no distrito de Kent, ela tem hoje cerca de 57,000 habitantes e uma orgulhosa tradição marítima. Desde 1760 Margate é um dos destinos de férias prediletos para muitos moradores de Londres, ávidos por desfrutar de suas praias e mar.

No curso da história, houve violentos incêndios que destruíram prédios e construções antigas, sendo que a última grande destruição ocorreu com bombardeios nazistas em 1941. Desde metade do século passado a indústria pesqueira perdeu bastante espaço para concorrentes e a cidade entrou em decadência. Embora o lugar faça o possível para parecer uma colônia de férias, é difícil afastar a aura que pesa sobre ela, a de uma típica cidade litorânea que já teve mais importância. Na rua principal, à beira mar, é possível encontrar hotéis, lojas e restaurantes. Próximo do porto o visitante encontra uma estátua de bronze da Dama do Mar - uma figura típica da região, vista em vários souvenir vendidos em todos os cantos e que remete a uma sereia adornada com conchas, pérolas e contas coloridas. No passado ela era considerada uma figura assustadora, como uma bruxa maligna que arrastava os marinheiros para as profundezas, nas últimas décadas ela se transformou numa figura amistosa, como uma ninfa marinha.

Contudo, Margate é famosa por outra coisa.

O que torna Margate especial é a presença de um misterioso sistema de cavernas e grutas que se estende ao longo de toda região. As grutas estão em toda parte, mesmo embaixo das casas, jardins e ruas da cidade, algumas podendo ser acessadas a poucos metros da superfície.  

A palavra gruta, vem do italiano "grotto", em Latim pode ser traduzida como cripta. Cavernas ou grutas podem se formar naturalmente ou de forma artificial. Em formações naturais, o calcário é lentamente dissolvido por depósitos de água rica em carbono. O processo é extremamente lento, mas ao longo de séculos as rochas começam a ficar porosas e em seguida cedem, permitindo o surgimento de corredores, câmaras e recessos cheios de estalactites e estalagmites.


Cavernas sempre tiveram um papel importante na história humana. Elas foram usadas como proteção, moradia e como lugar de honra, fosse para sepultar os mortos ou para venerar os espíritos da terra. Em Lascaux (na França) artistas pré-históricos cobriram as paredes de uma caverna com algumas das representações rústicas mais belas e antigas conhecidas pelo homem. Nos tempos do Império Romano, as grutas também cumpriam um papel fundamental. O famoso Oráculo de Delphos vivia em uma gruta considerada sagrada. O maior e mais antigo cemitério de Roma se localizava em uma caverna natural. Na Odisséia de Homero, uma gruta permite que Odisseu derrote o monstruoso ciclope Polyphemus. Platão usava as grutas como uma alegoria para representar a diferença entre a ausência de conhecimento (aqueles que vivem na escuridão) e a obtenção do saber (aqueles que resolveram sair e ganhar a iluminação). Mesmo hoje, existem grutas onde as pessoas se reúnem para veneração. Por exemplo, as cavernas de Massabielle na cidade de Lurdes onde a Virgem Maria apareceu em um milagre em 1858. 

Apos o século XVI e dali em diante, as pessoas começaram a construir grutas artificiais em jardins na Itália e França. Decoradas com fontes, cachoeiras, estátuas de ninfas, pedras preciosas e conchas coloridas elas eram usadas como piscinas, capelas e teatros. Sabe-se que existe algo entre 20 e 30 grutas desse tipo na Inglaterra. Entretanto, é surpreendente que em Margate, exista uma das maiores e mais enigmáticas que se conhece.

Mas o que faz dessa gruta um lugar estranho, vocês podem estar se perguntando.

Em 1835, o diretor de uma escola local, o Sr. James Newlove desejava construir um lago artificial em seu jardim de campo. Enquanto escavava, sua pá desapareceu em uma abertura de baixo de uma placa de pedra. Removendo essa placa ele encontrou o que parecia ser a entrada para uma caverna muito profunda que estava imersa nas trevas. Ele amarrou seu filho Joshua em uma corda e o desceu pela abertura com um lampião. Depois de verificar o interior da caverna, o garoto foi puxado de volta e retornou falando de estranhas decorações nas paredes e de coisas que ele sequer conseguia descrever. "É como um outro mundo" disse o menino.  


Várias pessoas desceram e tiveram a mesma impressão: estavam diante de algo inexplicável. Para facilitar o acesso para a caverna uma rampa horizontal foi escavada e aberta ao público. Os corredores foram iluminados com lampiões à gás que concediam uma aura sobrenatural ao interior.

O que torna a gruta de Margate um mistério incomum é que não se sabe praticamente nada a respeito de sua origem. Não se sabe, por exemplo quem o construiu, quando e para qual propósito. Tudo indica que o lugar tenha sido erguido como uma espécie de Templo, mas não há qualquer pista de quais divindades eram veneradas naquelas câmaras profundas alagadas de acordo com a variação da maré. O trabalho de construir e ornamentar toda a caverna deve ter sido monumental, consumindo anos e indicando que um número considerável de pessoas esteve envolvida na tarefa. 

Pesquisadores calculam que mais de 4,6 milhões de conchas ornamentam as paredes, espalhadas ao longo de um paredão de 21 metros que se ergue como um mosaico até a superfície. As conchas de todos os tamanhos foram dispostas uma ao lado da outra em padrões simétricos diferentes: estrelas, espirais, triângulos, círculos... as imagens formadas com as conchas são alinhadas e lembram os padrões utilizados em igrejas ou catedrais medievais, exceto pelo fato de que são muitíssimo mais antigas.

Na câmara maior, onde Newlove encontrou a entrada para a gruta, existe um enorme bloco de pedra ornamentado com conchas que lembra um altar rudimentar. Diante dele, uma espécie de piscina ou túnel alagado ligava o centro da câmara a túneis inundados. Em 1850, essa piscina foi lacrada com pedras por motivo de segurança. O propósito desse acesso para o mar só pode ser especulado, mas tudo indica que a água tivesse uma importância vital nos rituais ali realizados. 

Os corredores terminam em portas no formato de arcadas e são exatamente do mesmo tamanho. Esses corredores ligam quatro câmaras distintas, três delas aparentemente naturais e a quarta escavada artificialmente. Os desenhos no interior das câmaras parecem reminiscentes de padrões orientais. Com um pouco de imaginação, é possível enxergar tartarugas, pássaros, flores, luas e árvores em alguns desenhos. Não há, contudo, nenhum símbolo que remete a cristandade, nem mesmo o peixe que era um símbolo associado aos primeiros cristãos. 


Oitenta por cento das conchas nas paredes são típicas da costa britânica, as outras parecem ter vindo de longe - algumas são típicas da Costa da França e Irlanda e foram colocadas em lugares de destaque como para evidenciar o fato delas terem sido trazidas de regiões distantes. Estudiosos afirmam que na câmara maior existem conchas cor de rosa que são típicas do Caribe e outras que só podem ser encontradas no litoral de Cuba. O fato seria apenas curioso se muitos não tivessem atribuído a construção da gruta a homens pré-históricos ou a pescadores anteriores ao período de ocupação romana nas Ilhas Britânicas, ou seja muitos séculos antes dos primeiros navegadores chegarem a América. 

Outra possibilidade, levantada por pesquisadores é que a caverna tenha sido construída por Fenícios. Esse povo que habitava as regiões que hoje conhecemos como Síria e Líbano tiveram seu apogeu entre 1500 e 400 antes de Cristo. Sabemos que os Fenícios eram excelentes navegadores e responsáveis pela criação de um alfabeto complexo. Entretanto, a cidade de Margate se localiza no ponto mais distante de Kent uma região que na época dos Fenícios dificilmente poderia ser atingida através da costa. Além disso, nenhum dos padrões remete a divindades cultuadas por esse povo.  

A verdade é que até hoje foi impossível precisar a idade das conchas que não são passíveis de análise por radiocarbono. É bem provável que na ausência de pistas adicionais, jamais venhamos a saber quando a Caverna de Conchas de Margate foi construída.

Outro tema polêmico diz respeito a utilização da gruta como Templo Pagão. Os desenhos permitem uma ampla especulação a respeito de sua origem, podendo ser Fenícios, Romanos, Egípcios, Cópticos e até Templários dependendo a quem se pergunta.  

O fato da Caverna ter servido como Templo religioso, no entanto, parece óbvio.

No final do corredor, na câmara principal existe um altar que tudo indica, era o ponto central da construção e onde a congregação devia se reunir para assistir as celebrações. No chão, ao redor do altar há indícios de que o piso foi gasto, formando um padrão de círculos concêntricos o que é condizente com várias religiões do mundo antigo, onde andar ao redor de um altar, fazia parte do rito. Apenas para citar alguns exemplos, os Dervishes dançavam em círculos concêntricos para se aproximar de Deus. Na Bíblia, o povo de Jericó precisou dar sete voltas em torno da cidade para causar a destruição de suas muralhas. Muçulmanos dão sete voltas em torno da Kaaba de Meca durante o Hajj para se elevar espiritualmente. Seriam as marcas no chão uma indicação de que as pessoas que usavam a gruta tentavam contatar um poder superior?


Se esse é o caso, quais Deuses teriam sido venerados naquela Caverna próxima do Litoral?

Muitos acreditam que Deuses e Espíritos Marinhos seriam as divindades mais prováveis de receber a atenção daquela congregação formada por homens do mar. Grupos de pescadores primitivos poderiam se reunir na gruta afim de pedir proteção ou o favor dos deuses para que eles proporcionassem uma pesca abundante. Comunidades pesqueiras desse tipo eram comuns em muitas regiões da Europa, mas em nenhuma se viu tamanho grau de devoção. 

Outro elemento importante é a piscina que leva a um túnel alagado que também sugere ser o mar um elemento importante dos rituais ali conduzidos. Especialistas não afastam a possibilidade de que esse túnel fosse utilizado para rituais de sacrifício, no qual vítimas poderiam ser lançadas no túnel para morrerem afogadas, cumprindo assim o papel de oferendas para divindades marinhas.

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Olha, eu realmente não faço ideia de quem construiu esse lugar. Mas a descrição da Caverna com seus desenhos, com o altar e principalmente com a "piscina" natural que leva a túneis alagados, é incrivelmente semelhante a descrição de templos usados para adoração de Dagon, Hidra e Cthulhu.

Da até para imaginar uma estátua de Cthulhu diante do altar profano, pescadores e híbridos postados ao redor de algum sacerdote com uma máscara cheia de tentáculos e abomináveis abissais emergindo da piscina para participar dos rituais.


Eu me pergunto até se algum dos autores de estórias sobre as divindades marinhas mais importantes dos Mitos de Cthulhu não teriam se inspirado na Caverna de Conchas de Margate como modelo para Templos ancestrais onde os Antigos eram venerados e sacrifícios oferecidos.

O que eu sei é que na próxima vez que eu usar Abissais em minhas estórias e eles tiverem um templo, eu vou usar as imagens dessa Caverna como referência direta.