quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Caçando Fósseis e Ovos de Dinossauros na Mongólia - A Expedição automotiva de Andrews


A despeito de todas as dificuldades, em abril de 1922, a expedição de automóveis Dodge comandada por Roy Chapman Andrews passou através de um portão na Grande Muralha da China, e tomou o caminho, rumo ao desconhecido.

O primeiro grande achado da expedição foram fósseis de Baluchitherium, um tipo de rinoceronte pré-histórico que viveu durante a Era do Gelo. Um dos motoristas percebeu uma mandíbula simplesmente brotando da terra como uma estranha planta cinzenta. A descoberta animou os cientistas: em que outro lugar do mundo seria possível achar fósseis literalmente brotando do chão?

O grupo montou um acampamento e desenterraram a maior parte dos ossos do enorme animal. A expedição conseguiu recuperar a ossada quase completa, inclusive o imenso crânio com os chifres ainda ameaçadores em perfeito estado. As peças foram removidas cuidadosamente e acondicionadas em caixotes de madeira recheados de palha. Como estavam no início da jornada, enviaram dois automóveis de volta para que os ossos fossem guardados por colegas na China.  

Os automóveis que retornaram foram ameaçados por bandidos, mas conseguiram passar por esse contratempo graças a uma demonstração de poder. Um dos motoristas colocou uma metralhadora Thompson para fora da janela e disparou uma rajada para o ar acabando com as pretensões hostis dos ladrões. A ossada enfim chegou a China e de lá foi remetida para Nova York, chegando a cidade em dezembro de 1922. Harry Osborn, o diretor do Museu de História Natural, classificou o transporte para os Estados Unidos como um dos maiores feitos da história da paleontologia. Até aquela data, tudo que se tinha de um espécime de Baluchitherium se resumia a alguns poucos fragmentos e sua existência chegava a ser contestada. A descoberta era tão significativa que os cientistas foram capazes de compreender o funcionamento daquele enorme animal, com quase dois metros de altura e mais de seis metros de comprimento, com base na sua estrutura óssea.

Mas era apenas o início. Muito mais estava por vir. 


O achado mais famoso da expedição Andrews ao centro da Asia foi feita em 13 de julho de 1923. George Olson, um assistente de paleontologista, retornou ao acampamento afirmando ter feito uma descoberta sem precedente: ele havia encontrado ovos de dinossauro nos penhascos flamejantes de Shabarakh Usu. A princípio os membros da equipe estavam céticos achando que a descoberta não passava de uma formação natural, mas depois de uma análise mais criteriosa chegaram a conclusão que estavam diante de algo incrível. Eram três ovos intactos e algumas cascas que haviam se fossilizado graças a ação da areia. Os cientistas ficaram pasmos. Os ovos estavam praticamente na superfície, desde que foram depositados naquele local no Período Cretácio. Ainda que existissem aves habitando aqueles penhascos, os ovos eram grandes demais e não eram compatíveis com nenhum desses animais. O grupo acabou concluindo que se tratavam de ovos legítimos de dinossauro, os primeiros encontrados em perfeito estado. Até essa descoberta, alguns cientistas não estavam sequer certos de que esses animais colocavam ovos ou se davam a luz aos seus filhotes como os mamíferos. As especulações a respeito da veracidade da notícia varreram o mundo. A confirmação veio dias depois quando outro ninho foi encontrado, e dentro deste os restos fossilizados de um dinossauro de dimensões menores e sem dentes - obviamente um filhote.

O preço dessas descobertas era o perigo constante e as dificuldades de se trabalhar no ambiente hostil do Gobi. Andrews contou que certo dia, o grupo decidiu acampar no alto de um promontório de pedra avermelhada que parecia a proa de um imenso navio. Fósseis eram abundantes nessa área e os membros da expedição decidiram que seria interessante ficar ali alguns dias, ainda mais porque o lugar oferecia uma proteção contra o sol causticante. O problema é que a área era o covil de outros habitantes do deserto, encontraram por lá centenas de covas rasas onde viviam letais Víboras do Gobi. Na primeira tentativa de escavar a área, dois homens foram picados e outro caiu em um buraco, sendo resgatado miraculosamente de uma trincheira onde estavam dezenas de víboras. Para escapar dos répteis, tiveram de usar suas armas e mataram nada menos do que 47 víboras. Um dos guias chineses ao atirar a queima roupa num dos animais teve os olhos borrifados com veneno e perdeu a visão.

Em outra ocasião, um dos motoristas mandou chamar Andrews. Um dos automóveis apresentava problemas mecânicos, mas nenhum dos homens queria chegar perto do veículo para executar os reparos necessários. Quando perguntado do motivo, Andrews foi informado que haviam centenas de escorpiões mortais que escolheram justo o motor como esconderijo. Foi preciso fumegar todo o carro com fumaça para desentocar os animais, mesmo assim, ao longo da viagem, escorpiões apareciam nas frestas do automóvel. Certa vez, um dos motoristas saltou do automóvel em pleno movimento e começou a tirar a roupa em desespero. Um escorpião havia caído do teto do automóvel dentro de sua jaqueta, por sorte ele não chegou a ser picado.   


Mas os perigos não se resumiam aos animais que viviam nas planícies inóspitas. O próprio clima parecia estar contra a expedição. As tempestades de areia eram tão fortes que ameaçavam carregar tudo, virar os automóveis e espalhar as provisões pelas planícies secas. Quando uma tempestade era avistada à distância, o comboio tinha de parar imediatamente, os animais eram enviados para o caminho inverso a fim de serem protegidos e barreiras para conter o vento eram erguidas. O pior era quando a tempestade se formava repentinamente, o que forçava os homens a agir sob pressão. Uma dessas tempestades repentinas, fez com que quatro camelos simplesmente desaparecessem. Os pobres animais foram sepultados de baixo de toneladas de areia quente.

É possível que uma das descobertas mais significativas da expedição não tenha sido um fóssil grande, mas um pequeno. Em 1923, Walter Granger encontrou um pequeno crânio num depósito de calcário do Período Cretácio. Ele identificou o achado apenas como "réptil desconhecido" e enviou a peça para um museu para ser estudado. Em 1925 uma carta chegou, endereçada à base do grupo que passava as férias de verão em Pequim. O crânio pertencia a um mamífero, não a um réptil. Mamíferos que viviam na era dos dinossauros eram extremamente raros, e praticamente todos eles se tornaram extintos, incapazes de competir com seus predadores naturais. O crânio achado por Granger, entretanto, vinha de uma linha de mamíferos que podia ser relacionada a animais dos dias atuais. A carta pedia a Granger e aos demais que buscassem por mais evidências de mamíferos contemporâneos do Cretácio. Ao retornar ao Gobi no ano seguinte, a expedição desenterrou mais seis crânios de mamíferos que provaram de uma vez por todas a presença desses animais no período. 

Mas naquele mesmo dia, a expedição enfrentaria um de seus maiores desafios. Andrews escreveu em seu diário que "acordou com uma sensação estranha, como se cada nervo de seu corpo estivesse vibrando". Sem pensar duas vezes ele vestiu seu coldre, apanhou um rifle e começou a patrulhar o perímetro do acampamento, sem achar nada fora do normal. Incapaz de dormir, montou vigília no teto de um dos automóveis observando o horizonte com um binóculo. Ele percebeu que o vento estava cada vez mais forte, mas só quando amanheceu Andrews conseguiu ver uma nuvem alaranjada se erguendo poucos quilômetros a frente - era uma tempestade devastadora que se formava. Os homens foram acordados rapidamente, não havia tempo a perder e não adiantava tentar salvar os camelos ou desfazer o campo. A única chance de sobreviver era correr. 


Os motoristas aceleraram velozmente, tentando escapar da tempestade, mas em poucos minutos ela os alcançou e engoliu o comboio por inteiro. Logo havia toneladas de areia sendo soprados contra os automóveis, com tanta força que produzia riscos no vidro do para-brisa e impedia que se visse além de poucos metros. Os automóveis foram então posicionados em um círculo com pesos posicionados junto das rodas para que o vento não virasse os veículos. A tempestade foi devastadora e durou 45 minutos. Quando enfim ela amainou, o cenário era surreal: os automóveis Dodge estavam enterrados. Os homens tiveram de cavar em busca de dois deles que ficaram completamente cobertos com os passageiros confinados em seu interior. Demorou quase duas horas para resgatar os homens que por pouco não sufocaram no interior do veículo. 

Depois desse incidente, a expedição achou melhor retornar a Pequim para se reequipar. Boa parte de suas provisões havia sido perdida e os poucos animais que restavam não dariam conta de prosseguir na árdua missão. Combustível, água e munições também foram perdidas na ventania abrupta. Além disso, os membros da expedição também estavam exauridos, física e mentalmente, conquanto, por sorte, ninguém havia morrido ou se ferido gravemente. De volta a capital chinesa, Andrews contratou dois novos membros para a expedição meteorologistas que seriam fundamentais dali em diante para identificar a formação de tempestades no deserto. Graças a atuação desses especialistas a expedição se livrou de grandes enrascadas nos anos seguintes.

Mas haviam outros perigos.

Nos primeiros anos, bandidos e guerrilheiros eram mais um estorvo do que uma ameaça. Andrews havia equipado os membros da expedição com armas modernas e o poder de fogo deles era bem superior ao dos bandoleiros que infestavam a região. Quando ficava claro que a expedição tinha armas e não exitariam em usá-las em defesa própria, os bandoleiros abandonavam seus planos de atacar. Os senhores da guerra também respeitavam a expedição e evitavam confrontá-la, o carro da frente tremulava uma bandeira americana e quando a viam os comandantes ordenavam que a expedição fosse deixada em paz. Alguns generais chegaram a negociar diretamente com Andrews e em troca de alguns presentes aceitavam escoltá-los através de algumas regiões perigosas. Um pelotão de russos brancos (soldados anti-comunistas) ajudou a expedição quando esta foi emboscada por bandoleiros chineses.


De acordo com as estórias, um dos arqueólogos da expedição Nels C. Nelson foi capturado por um grupo de bandidos mongóis que tencionavam trocá-lo por armas. Enquanto estava no cativeiro, Nelson descobriu que os homens eram extremamente supersticiosos e aproveitou essa peculiaridade para escapar. Ele tinha um olho de vidro, e quando o removeu e mostrou para seus raptores eles simplesmente fugiram aterrorizados. Nelson foi resgatado dois dias depois.

Mas as coisas mudariam a partir de 1926. A Guerra Civil estava se tornando cada vez mais brutal e todos os lados empregavam táticas de intimidação que incluíam massacres e execuções de civis. Pouco depois de deixar Pequim em direção ao Gobi, a expedição foi atacada por um contingente de soldados chineses rebeldes fortemente armados. Um dos guias abriu a porta, acenou a bandeira americana e acabou baleado na cabeça. "As balas atingiram os automóveis como se fosse uma tempestade de granizo" escreveu Andrews, "eles abriram fogo com uma metralhadora bem na nossa frente. Era possível ouvir os projéteis zunindo como abelhas furiosas acima de nossas cabeças". Pela primeira vez a expedição teve que retroceder diante de um inimigo melhor armado: além das armas automáticas, os guerrilheiros contavam com granadas.    

De volta a sua base as coisas se mostraram ainda mais complicadas. Os soviéticos acusaram a expedição de espionagem e de minar os esforços de rebeldes comunistas dentro do exército chinês. Havia um ar de ameaça nas acusações dos soviéticos. O governo chinês também começou a se ressentir da presença dos estrangeiros em seu território. Surgiu a suspeita de que membros da expedição haviam se apropriado de tesouros chineses mantidos em museus na capital. Os boatos se provaram infundados, mas dois professores chegaram a ser agredidos na rua por nacionalistas chineses. Ironicamente, Andrews acabou piorando a situação, ele leiloou um ovo de dinossauro por 5 mil dólares, a fim de angariar fundos para a compra de armamento para a expedição. Com o dinheiro, ele adquiriu três metralhadoras giratórias que foram instaladas no teto dos veículos o que irritou os chineses.

Incapaz de garantir a segurança de sua equipe, Andrews decidiu cancelar as expedições de 1926 e 1927. Em 1928 ele tentaria novamente, a expedição contava com armamento pesado: granadas, explosivos e metralhadoras, mas mesmo assim eles só conseguiram chegar a fronteira da Mongólia. No caminho eles encontraram vilas inteiras destruídas e civis massacrados por ambos os lados. Os cientistas estavam enjoados com aquele horror, alguns diziam que a expedição havia se tornado quase uma campanha militar. Para piorar, ao retornar a Pequim, os membros da expedição foram presos, acusados de roubo. A recém criada "Sociedade para Preservação de Objetos Culturais", acusava três membros da expedição da apropriação de tesouros do povo chinês. As armas e automóveis foram confiscados e Andrews passou seis semanas negociando a devolução do equipamento. Quando finalmente ele conseguiu reaver parte do material, não havia mais clima para prosseguir.

Em 1929, ele não recebeu a documentação necessária para retornar a China. O governo negou seu visto e advertiu que ele não poderia entrar no país. Em 1930, uma última expedição foi planejada. Andrews ainda tinha conhecidos no governo chinês e estes conseguiram, através de muitos subornos, documentos oficiais. Para equipar a expedição ele negociou diretamente com contrabandistas que havia conhecido nas expedições anteriores.

Nessa derradeira expedição, eles encontraram um espetacular cemitério de mastodontes, os antepassados dos elefantes e coletaram inúmeros fósseis. A despeito do sucesso, Andrews teve que admitir que as condições de trabalho na Mongólia haviam se tornado perigosas demais para continuar.

Assim se encerrou a Expedição à Ásia Central e com ela a era de ouro das grandes expedições científicas. Andrews retornou aos Estados Unidos e quatro anos mais tarde se tornou o Diretor do Museu de História Natural de Nova York. Em 1942 ele deixou o museu e seguiu para a Califórnia onde passou o resto de sua vida escrevendo sobre suas experiências. Ele morreu em Carmel, no ano de 1960.

O legado de Roy Chapman Andrews continua vivo entre os cientistas que exploram a vastidão do deserto mongol. Sessenta anos depois da expedição Andrews ter partido, o governo da Mongólia convidou uma expedição norte-americana do Museu de Ciências Naturais a retornar e refazer os passos da expedição Andrews.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Horror visita o Interior do Brasil - Resenha do livro "O Bairro da Cripta" de Marcos R. Terci



"É sempre treva no Bairro da Cripta"

Há um lugar sombrio para onde os horrores do mundo parecem convergir, atraídos, talvez, pelas promessas negras da madrugada ou quem sabe, pelo canto hipnótico de aves agourentas. 

Um lugar onde coisas estranhas, inexplicáveis e aterrorizantes acontecem com uma frequência alarmante. Um lugar mal-afamado; assombrado por ocorrências sobrenaturais que de tão fantásticas e imponderáveis, levam a pensar: porque um lugar seria tão maldito e atrairia tamanhos horrores.

Esse lugar tem nome, chamam-no de Tebraria.

Nesse lugar assustador, fantasmas, espíritos e mortos de toda lavra se reúnem para marchar silenciosamente pelas ruas tortuosas em uma procissão profana. Lá um jardim se alimenta da tristeza humana e cresce frondoso, irrigado pelas lágrimas dos infelizes suicidas. Lá, uma menininha, a mais pura face da inocência e da candura, cede aos caprichos de uma alma antiga que a transforma em algo maligno. Lá uma Casa de Prazeres proibidos, abre as suas portas para frequentadores dispostos a conhecer segredos e delícias ultrajantes, quase esquecidos, ao menos pelos vivos.

Em Tebraria.

É lá que um pescador amaldiçoado se esconde, aguardando por um horror vingativo que prometeu um dia visitá-lo para um ajuste de contas. Lá um sobrado ancestral, transformado em ruínas pelo tempo, atrai meninos que alheios ao perigo que ali espreita, descem a um porão imerso na escuridão. É lá que uma estátua ancestral, pranteada de terras distantes, jaz guardada no porão de uma Igreja como uma santa desconhecida, antiga quando o homem ainda era jovem.

Tudo isso em Tebraria.


A cidade fictícia localizada no interior de São Paulo, "a oeste do preguiçoso Rio Mogi" é o palco desses e de outros tormentos, encenados em um ambiente propício. Em Tebraria, uma vasta necrópole de pedra se estende sem parar, majestosos mausoléus e uma infinidade de lápides se espalham além dos limites murados do cemitério, confundindo-se com as casas, tanto as abandonadas quanto aquelas ainda habitadas. A morte invade o território dos vivos e se insinua em cada localidade ocasionando surtos de tragédia e loucura.

Os habitantes, resolutos de sua condição, chamam o distrito ermo de Bairro da Cripta, e não é para menos, pois aqueles que residem nas imediações tem por vizinhos os fantasmas, os vampiros, os lobisomens e toda sorte de coisa funesta, germinada nesse solo, fértil para a proliferação de horrores, deste e de outros mundos.

Essas e outras estórias macabras são contadas na antologia "O Bairro da Cripta - Tomo I - As Elegias", livro de Marcos R. Terci, editado pela LP-Books.

Nascido em Descalvado, interior de São Paulo, Terci é poeta, advogado e um escritor extremamente hábil com as palavras e com a descrição meticulosa de suas cenas medonhas. E não são poucas! As Elegias apresenta um desfile de situações fascinantes, desveladas com extrema habilidade e com uma qualidade literária invejável. 


O autor parece à vontade lançando mão de monstros tradicionais em um ambiente onde eles não são tão frequentes, o Brasil, mais especificamente, o interior paulista do século XIX e na primeira metade do século XX. Para aqueles que acham que o ambiente de nosso Brasil não é o mais adequado ao gênero, eu advirto: Livrem-se imediatamente desse tipo de preconceito!  

Os horrores contidos em "As Elegias" são legítimos representantes da melhor tradição do gótico e não tem nada de inocentes. Esqueçam as historinhas de carochinha e de monstros pueris, aqui os monstros que se escondem nas trevas são extremamente cruéis. Substituindo os castelos pelos casarões coloniais, as aldeias de camponeses pelas cidadezinhas do interior, os condes pelos coronéis e as superstições por elementos de nosso folclore e crendices populares, o resultado é uma transposição muito bem feita do gênero para nossa realidade. 

Como pano de fundo para todas as estórias temos a cidade de Tebraria e o sinistro Bairro da Cripta. As narrativas aos poucos vão revelando detalhes da geografia da cidade, o que existe em seus limites e arredores, os bosques ermos, os hortos proibidos, as margens do riacho sinuoso; da arquitetura pontilhada por edificações do período colonial, da história assombrosa e tumultuada e da gente estranha que escolheu viver nesse lugar, ou por ele foram atraídas. Em cada conto, encontramos menções a personagens de outra narrativa, o que contribui para criar uma sensação de familiaridade palpável com o lugar e uma vontade de saber mais sobre ele. Como um quebra-cabeças, o mapa de Tebraria vai se montando e a imagem que surge a partir de suas peças devidamente encaixadas é de aterrorizante beleza. 


O leitor atento reconhecerá em Tebraria ecos da obra de H.P. Lovecraft, onde cidadezinhas fictícias localizadas no interior da Nova Inglaterra, formavam a chamada Terra Lovecraftiana - Arkham, Kingsport, Innsmouth e Dunwich, lugares fantasmagóricos infestados pelas forças dos Mitos ancestrais. Aqui os horrores podem ser outros, não cósmicos, mas terrenos, contudo não são menos assombrosos. Não por acaso, a dedicatória do livro alude diretamente a Lovecraft ("o maior escritor de ficção científica e horror de todos os tempos"), sem dúvida, o bom Cavalheiro de Providence serviu de inspiração para vários desses contos.

Escrito com uma linguagem rebuscada e com um ritmo vertiginoso que faz o leitor virar as páginas avidamente, "O Bairro da Cripta" apresenta uma coleção de estórias curtas, 24 delas, cada uma mais perversa e delirante que a anterior. Previsto para ter cinco partes (uma pentalogia!), esse primeiro tomo sinaliza com uma série extremamente promissora e envolvente que vale a pena ser lida pelos entusiastas do gênero.

Eu indico esse livro para todos que tem uma atração pelo incomum e que gostam de se deixar envolver por estórias assustadoras. Vocês não irão se arrepender...

O livro pode ser adquirido através deste LINK, e para mais detalhes, acompanhe a página da obra no FACEBOOK.

Aqui está o book trailer do primeiro volume:


O Bairro da Cripta - Tomo I - As Elegias
por Marco R. Terci
Editora LP-Books
Lançado em 2014
167 páginas


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Cruzando o Grande Gobi - A Expedição automotiva de Andrews na década de 1920


Era a segunda semana da expedição e o aventureiro Roy Chapman Andrews já estava em dúvida quanto ao propósito de tudo aquilo. Sua ideia de procurar fósseis na isolada (e quase inexplorada) região da Mongólia central fora, desde o início, motivo de controvérsia. Vários cientistas zombaram de suas teorias, dizendo que buscar fósseis nos confins do deserto mongol era, no melhor dos casos uma perda de tempo, no pior, um disparate perigoso. Outros afirmavam categoricamente que era uma tolice tentar obter um perfil geológico de uma região coberta de areia e poeira inconstante. Mesmo Andrews havia expressado as duas preocupações no dia em que ele deixou Nova York para a sua audaciosa jornada.

Em uma reunião com Henry Osborn, presidente do Museu Americano de História Natural, que estava patrocinando a expedição, Andrews comentou que estava temeroso de que o esforço resultasse em um fracasso. 

"Besteira, Roy," respondeu Osborn, "Os fósseis estão lá, eu sei que estão, você sabe que estão. Vá até lá e os encontre. Além do mais o que você tem a perder? Além de sua reputação, credibilidade e respeito?"

Haviam se passado meses e Andrews estava sentado diante de sua tenda, talvez ponderando sobre o futuro da sua carreira na corda bamba. A paisagem inóspita do Deserto de Gobi se abria diante de seus olhos. O ano era 1928. Seus pensamentos se desfizeram pelo som de motores à distância e por uma nuvem de fumaça branca que se erguia no horizonte. Eram dois automóveis reluzindo sob o sol causticante. Walter Granger, o chefe paleontólogo da expedição, pulou de um dos carros ainda em movimento e correu em sua direção. Seu rosto estava escuro coberto de poeira e os cabelos emplastados. Granger e alguns cientistas haviam saído naquela manhã para pesquisar uma área que no levantamento topográfico parecia promissora e o grupo ficou de se juntar aos demais quando terminasse a exploração. A medida que Granger se aproximava Andrews percebeu que ele trazia em suas mãos uma bolsa de lona, e quando chegou perto o bastante começou a tirar de dentro dela vários fragmentos de osso: um dente de rinoceronte, uma costela fossilizada, um fragmento qualquer...


Foi então que Granger anunciou com um sorriso de triunfo, "Bem, Roy, nós conseguimos. Os fósseis estão aqui."

Roy Chapman Andrews nasceu em Beloit, Wisconsin em 1884. Andrews escreveu em sua biografia que mesmo quando criança tinha o desejo de viajar pelo mundo e viver aventuras: "Eu nasci para ser um explorador " ele escreveu no seu livro The Business of Exploring de 1935. "Nunca pensei em ser outra coisa, nunca houve qualquer dúvida. Eu não poderia fazer outra coisa e ser feliz.

Sua maior ambição era trabalhar para o Museu Americano de História Natural. Usando o dinheiro que ele acumulou em um trabalho como taxidermista, chegou a Nova York em 1906 após se graduar no colégio de Beloit. Quando Andrews se candidatou a um trabalho no museu, o diretor disse que não havia nenhum cargo aberto. Andrews persistiu, "Você precisa de alguém para esfregar o chão, não precisa?" O diretor admitiu que precisava de alguém para esse serviço. Andrews pegou o emprego explicando que não estava interessado em esfregar qualquer chão "mas o chão de um museu era diferente." Esse foi o humilde começo para o homem destinado a se tornar um dos mais famosos e bem sucedidos exploradores do mundo e décadas mais tarde o diretor daquela mesma instituição.

Ele começou esfregando o chão e seus conhecimentos básicos de taxidermia o levaram a trabalhar com os profissionais responsáveis por empalhar animais. Seu primeiro interesse foram as baleias. Ele ajudou a empalhar um espécime de baleia que havia sido lançado na costa de Long Island. Provando sua habilidade, Andrews foi aceito em expedições para coletar espécimes e viajou para o Alasca, Japão, Coréia e China em busca de mamíferos marinhos. Ele escreveu duas dissertações sobre eles ao mesmo tempo e completou seus estudos em mamologia pela Universidade de Columbia.


Entre 1909 e 1910 velejou como naturalista a bordo do USS Albatross para as Índias Holandesas. Além de fazer observações de mamíferos marinhos, coletou espécimens de serpentes e lagartos ainda desconhecidos. Capturou alguns pássaros e peixes curiosos e uma enorme coleção de insetos. Suas descobertas foram preservadas em vidros cheios de álcool. Em determinado momento, a coleção era tão grande que o porão do navio passou a ser chamada de "Arca de Andrews". 

Enquanto estava nas selvas do sudeste asiático, Andrews teve sua primeira experiência com os perigos de explorar regiões selvagens. Ele estava andando pela mata com seu guia quando de repente o homem saltou sobre ele:

"Uma serpente, Mestre! Uma serpente venenosa. Ali, logo na frente daquela árvore! Atire nela, rápido!"

O rapaz apontava para o lugar, mas Andrews não conseguia discernir nada de estranho a não ser um tronco de madeira suspenso na árvore. Então de repente, uma forma escura se moveu preguiçosamente e ele percebeu que o tronco era uma píton com uma circunferência equivalente a da cintura de um homem. O animal era enorme e estava escondido sob a vegetação preparado para o bote.

Andrews apanhou o rifle e disparou contra o enorme réptil que atingido se contorceu por mais de meia hora antes de morrer. Quando o animal enfim parou de se mover, Andrews descobriu que a píton tinha mais de seis metros de comprimento. Se o guia não tivesse alertado da sua presença, ele teria caminhado na direção do animal e provavelmente teria sido morto por ele. O explorador preservou a enorme serpente e passou a dizer que ela servia como um lembrete de que um explorador precisa contar com o inesperado quando adentra um território desconhecido.   

Por volta de 1920, Andrews estava pronto para uma nova aventura.


Já fazia oito anos que ele pensava a respeito de um projeto ousado visando "reconstruir inteiramente a história humana no Platô Central Asiático", incluindo sua geologia, coleta de fósseis, verificação do clima e categorizar a vegetação local. Ele pretendia também descobrir que tipo de animais haviam vivido naquela região, mamíferos e aves pré-históricas, e apurar o que havia acontecido com eles. Em resumo, o plano de Andrews era fazer um levantamento científico completo daquela vasta área desconhecida, a Mongólia Interior, uma região que até então era um grande espaço em branco nos mapas. Para esse propósito ele convidou o então presidente do Museu de História Natural, Henry Fairfield Osborn, para um almoço. Mais tarde Andrews lembrou da reunião, Osborn se recostou na sua cadeira, acendeu um cachimbo e perguntou, "Bem Roy, o que você tem em mente?"

Andrews explicou seu plano e Osborn ficou muito interessado. Osborn era um dos defensores da teoria de que a Asia Central havia sido o berço da vida no planeta. A partir daquela região, no passado luxuriante e cheia de vida, dinossauros e mais tarde mamíferos e ainda mais tarde o homem teriam se dispersado pela face da Terra. Uma expedição como aquela, proposta por Andrews, poderia confirmar a teoria que encontrava grande oposição de outros estudiosos. Após perguntar a respeito dos objetivos da expedição e como o colega planejava realizá-la Osborn enfim respondeu, "Nós precisamos levar isso adiante!"

O planejamento para a expedição exigia uma série de providências e preparativos. O interior da Mongólia era preenchido por um vasto e árido deserto de areia quase que inteiramente inabitado, exceto por algumas tribos de nômades. Eles teriam de adentrar o perigoso Deserto de Gobi, onde durante o verão as temperaturas atingiam 50 graus de dia, enquanto à noite decaíam ao ponto de congelamento. Pior do que essas condições de tempo, a equipe virtualmente não fazia ideia do que encontraria lá dentro. Não haviam mapas confiáveis, os guias interessados em conduzi-los eram poucos e não havia uma base de cálculo sobre quantos suprimentos deveriam levar. Para todos os efeitos, aventurar-se na Mongólia na década de 1920, podia ser tão surpreendente quanto viajar para Marte.

Dezenas de cientistas com diferentes especialidades desde cartografia até zoologia, passando por biólogos e paleontólogos seriam necessários para compor a equipe. Para transportar os pesquisadores Andrews decidiu inovar e desafiou a indústria automotiva americana a adequar os veículos às condições limítrofes que seriam encontradas no deserto. A Dodge Motor Company de Detroit acabou ganhando a disputa contra as outras empresas e apresentou um carro forte e resistente, capaz de transpor os mais difíceis obstáculos do deserto, suportar o clima inclemente e rodar mesmo na completa ausência de estradas. Uma frota desses automóveis Dodge foram especialmente adaptados com pneus desenhados para as condições do deserto. A propaganda dessa empreitada fez com que a Dodge se tornasse famosa em todo mundo.

Além dos veículos, a caravana contaria com 125 camelos carregados com comida, combustível, equipamento, água e suprimentos. Seriam vinte e seis cientistas e quarenta guias se embrenhando numa das mais remotas regiões do planeta, numa busca que poderia muito bem resultar em fracasso ou na morte de todos seus participantes. Uma exploração dessa magnitude não poderia durar apenas uma temporada. Os cientistas ficariam na Ásia por pelo menos cinco anos, aproveitando os meses de verão e se refugiando em Pequim no Inverno, quando sobreviver no deserto se tornava virtualmente impossível.     

Os perigos da Mongólia Interior não se resumiam ao clima e relevo extremos. 

Politicamente a área era instável. A China controlava a maior parte da Mongólia, mas toda a região central estava imersa em guerras civis, revoltas e agitação popular. O território era uma verdadeira colcha de retalhos com líderes tribais enfrentando Senhores da Guerra armados até os dentes por pequenas porções de terra. Poços de água e vilarejos eram disputados e não havia como saber qual lado estava vencendo. Para piorar, um verdadeiro exército de russos brancos (contrários à Revolução Bolchevique) haviam se refugiado na Mongólia, usando seus despenhadeiros como esconderijo para atravessar a fronteira soviética e realizar ataques aos comunistas. Os soviéticos por sua vez atravessavam a fronteira para enfrentar esses rebeldes, enfurecendo os chineses. Em suma, todos estavam armados e dispostos a matar.


Mas não apenas as correntes políticas podiam variar enormemente. Haviam tendências religiosas que seguiam tradições e filosofias orientais, misturadas com esoterismo russo e superstições das mais variadas. Muitos soldados seguiam seus líderes transformados em heróis, mártires, profetas e messias da noite para o dia. Russos brancos seguiam o legendário Barão Sangrento, Ungern Sternberg, tido como um Senhor da Guerra predestinado a derrubar o regime soviético. Chineses seguiam os preceitos do confucionismo, mas havia espaço para cultos e correntes muito mais estranhas. E é claro, os comunistas soviéticos enfrentavam toda essa babel com a inquebrantável certeza de que Deus, simplesmente, não existia. 

Todos esses pontos de vista transformavam a região em um barril de pólvora prestes a ir pelos ares com a menor faísca.  

Para armar todas essas correntes antagônicas, havia contrabandistas de armamentos, munições e equipamento pesado agindo às claras. A Mongólia era uma das áreas mais perigosas do planeta nesse período e um negociante de armas podia fazer uma verdadeira fortuna (ou morrer tentando). Um número assombroso de bandidos e saqueadores, homens que não tinham nada a perder, se reuniam nessas planícies dispostos a cair impiedosamente sobre uma caravana como uma verdadeira nuvem de gafanhotos famintos.

Não por acaso, Andrews deixou claro aos membros da expedição o que aqueles dispostos a acompanhá-lo nessa aventura enfrentariam. Os cientistas passaram por um rígido treinamento de sobrevivência no deserto e aprenderam noções de defesa pessoal e de tiro.

A expedição levava caixas contendo rifles ingleses Lee Enfield, milhares de cartuchos de munição, pistolas Colt 45 e até Metralhadoras Thompson. Para não parecer um alvo frágil a expedição científica necessitava mostrar que não iria se render diante de qualquer inimigo, e um dos requisitos para se juntar a expedição era saber manejar armas e ter fibra para matar se necessário.

Com esse espírito a expedição partiu rumo ao desconhecido.

(continua)

Achou interessante? Leia também:

O Barão Sangrento

Os seguidores do Barão Sangrento

O Lendário Verme Gigante da Mongólia

Mythos Expeditions - da Pelgrane Press

Expedição Nazista no Tibet

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Nos Velhos Tempos: O Fonógrafo - A incrível máquina de falar


Um dos pontos mais interessantes de jogos centrados no passado, é tentar reproduzir a época da estória da forma mais fiel possível.

Um dos grandes problemas que muitos narradores enfrentam é descrever o dia a dia dos personagens e inserir os jogadores acostumados com o estilo de vida moderno em um ambiente bem diferente. Um dos questionamentos centrais nas mesas de Chamado de Cthulhu, Rastro e de qualquer boa ambientação pulp (se passando entre os anos 1920-1940) é determinar o que existia, o que estava disponível e o que simplesmente ainda não havia sido inventado.

É curioso, mas essa é uma preocupação muito comum entre os narradores e que às vezes confunde os jogadores. 

Será que já existia máquina fotográfica manual em 1925 e como era tirar uma foto? Meu personagem pode ter uma filmadora para registrar um determinado evento ou esses aparelhos ainda não tinham sido inventados? Será que eu posso entrar no carro e dar a partida ou é preciso rodar aquela manivela para ele funcionar? Meu personagem precisa viajar para outro continente em 1930, já existe uma linha aérea que faz esse percurso ou ele precisa ir de navio? Como eu faço para gravar uma conversa em 1920?

São perguntas válidas para qualquer um que se propõe a narrar uma estória com o mínimo de fidelidade e comprometimento com a realidade. Na pior das hipóteses essas informações ajudam a realçar ou quem sabe até, enriquecer o panorama do cenário.

A ideia dessa série de artigos, chamados de "Nos velhos tempos" é pegar uma aspecto da vida no início do século e analisar como as questões eram resolvidas e o que estava ao alcance das pessoas para tornar suas vidas mais fáceis.

Nesse primeiro artigo, vamos falar de uma invenção revolucionária, patenteada pelo genial Thomas Edison e que progrediu muito na primeira metade do século passado. Uma invenção que levou o som e a música para dentro das casas; estamos falando do FONÓGRAFO.


Hoje em dia, quando queremos ouvir uma música, ligamos o rádio, a televisão, colocamos um CD para tocar ou clicamos num arquivo mp3 em nossos computadores. Assim podemos ouvir nossas músicas favoritas no conforto de nossas casas quando quisermos. Entretanto, CDs só surgiram há pouco mais de 30 anos e seus predecessores, os discos de vinil a pouco mais de 80 anos.

Apenas em meados dos anos 1920, discos de shellac e mais tarde vinil, começaram a substituir os arcaicos e frágeis cilindros de cera que dominaram a indústria fonográfica no período que antecedeu a Grande Depressão.

Embora a tecnologia de áudio-gravação já estivesse disponível, criada em 1860, não foi até o final de 1870 que Thomas Alva Edison inventou o fonógrafo (ou ‘gramofone’ como a invenção foi chamada na Grã-Bretanha), a primeira máquina capaz de ao mesmo tempo gravar, e então reproduzir som verdadeiro, e numa qualidade suficientemente boa para ser ouvida e compreendida. Mas como eram os primeiros aparelhos desse tipo? 

Edison anunciou a criação de sua inovadora "máquina de falar" nos últimos meses do ano de 1877. A máquina de Edison era surpreendentemente simples, mas conseguia algo considerado impossível no século XIX: Gravar sons! O aparelho incluía um amplificador, uma agulha de vibração ou stylus e um cilindro embalado com papel alumínio. A medida que Edison falava (ou melhor dizendo, gritava!) no amplificador, as ondas sonoras de sua voz, faziam vibrar a agulha que arranhava o papel alumínio preso no cilindro giratório. Quando ele falava alto ou baixo, mais funda ou rasa era a ranhura deixada no cilindro. Colocando a agulha no ponto de início do gravador, e girando novamente a manivela, o som da voz, suficientemente discernível, podia ser ouvido. As primeiras palavras gravadas dessa forma, foram Edison recitando um poema infantil: “Mary tinha um carneirinho, e sua lã era branca como a neve. E para onde quer que Mary fosse, o carneirinho a seguia!

Edison e sua invenção revolucionária
As primeiras gravações de Edison, embora surpreendentes, não tinham boa qualidade. Levou um considerável tempo para desenvolver uma maneira de tornar a captação e reprodução mais clara. Ele descobriu que se falasse alto suficiente, era possível fazer a agulha vibrar e que essa vibração era responsável por produzir as ranhuras que poderiam ser em seguida ouvidas. Mas ele precisava de um material mais confiável do que papel alumínio, algo que resultasse em melhor qualidade de áudio e que não fosse tão sensível a danos produzidos pela própria agulha. Edison fez experiências com outros materiais, e eventualmente desenvolveu uma combinação que foi saudada como revolucionária e que deu início a Era da Gravação.

Edison sabia que poderia ganhar uma fortuna comercializando sons gravados para as pessoas interessadas em sua invenção, mas antes de seguir adiante ele precisava encontrar um método confiável. Depois de ter enrolado dezenas de materiais no cilindro giratório, ele teve uma ideia genial: que tal usar o próprio cilindro para gravar os sons?

Edison desenvolveu cilindros feitos de cera moldável, produzidos em um molde. Assim ele podia produzir centenas, milhares de cilindros de gravação e vendê-los para quem quisesse reproduzi-los em seu aparelho. A maciez da cera permitia que a agulha produzisse ranhuras e sulcos perfeitos na superfície do cilindro, captando os sons de maneira mais distinta.

A melhor coisa a respeito dos cilindros de cera  é que eles eram fáceis de produzir e de usar. As pessoas podiam comprar cilindros com sons (em geral músicas) já gravados ou então cilindros em branco que podiam ser usados para gravar o que bem entendessem. Bem antes dos discos, das fitas k7, dos CDS ou mesmo dos arquivos de som, as pessoas já podiam ter suas coleções de música e som, na forma de cilindros de cera.

O grande problema dos cilindros é que eles precisavam ser reproduzidos manualmente. Era necessário girar uma manivela em um ritmo constante para que a reprodução fosse perfeita, do contrário havia distorção. Além disso, sendo feitos de cera, os cilindros eram muito frágeis e podiam quebrar facilmente. Mesmo o uso repetido do cilindro podia resultar em uma perda da qualidade de som. 

Os cilindros de cera de Edison hoje são peças de coleção
O salto de qualidade seguinte veio através dos discos de gravação, uma tecnologia que só foi substituída em meados dos anos 1980. A ideia para os discos veio do famoso compositor Emile Berliner. Ele percebeu que se a reprodução fosse feita em uma superfície horizontal, ao invés de vertical, a qualidade do som melhorava consideravelmente, já que a agulha não pulava tanto. 

Quando o Disco de Berliner foi produzido, os cilindros de Edison já haviam se espalhado por todo mundo e eram considerados confiáveis há décadas. Foi necessária uma cuidadosa campanha de marketing para que as pessoas adotassem o novo modelo. Berliner tentou recrutar cantores e músicos para mostrar que a qualidade de seus discos era superior a dos cilindros. Uma das grandes vantagens dos discos de Berliner é que eles eram menores e mais fáceis de guardar do que os cilindros de cera de Edison. Além disso eram mais fáceis de serem transportados e mais resistentes. Originalmente os discos eram prensados em folhas de shellac, um tipo de celuloide, que foi substituído por vinil no início dos anos 1940.

Quando ouvimos o som de um disco antigo em um filme ou no rádio, a primeira coisa que percebemos é a qualidade da gravação. Alguns discos eram surpreendentemente claros e agradáveis de ouvir, outros pareciam ter um som residual por baixo da gravação. Isso se dava, principalmente porque havia dois processos de gravação: o método acústico e o elétrico.

O método acústico veio primeiro e data do surgimento dos discos gravados. Nesse tipo de gravação os cantores e músicos se reuniam em torno de um enorme amplificador que captava suas performances. Os artistas deviam tocar (ou cantar) muito alto para que a agulha registrasse perfeitamente as ondas sonoras por eles produzidas.

Embora essa gravação resultasse em um som de qualidade aceitável, a reprodução da gravação quando transferida para outros discos era medíocre. Os próprios artistas reclamavam da qualidade do som, afirmavam que diferentes instrumentos se misturavam ou ficavam ocultos na gravação. A voz de alguns artistas também não saia como esperado o que irritava alguns cantores que chegavam a se recusar a gravar discos.

Em 1925, o microfone elétrico foi inventado, e ao redor do mundo, músicos e cantores puderam relaxar, fazendo gravações em que não era necessário gritar ou danificar seus instrumentos para atingir altas notas. Pela primeira vez, havia algo que amplificava o som para eles. Com esse implemento, as gravações ficaram mais claras, o som mais puro. Ao mesmo tempo, os fonógrafos foram ligados à eletricidade o que dispensava girar uma manivela constantemente para reproduzir a gravação. 

Procure uma gravação de uma faixa entre 1900-1925 e perceba que se trata de um som mais abafado e granulado. Procure então alguma coisa gravada depois de 1925 - a diferença da qualidade do som é surpreendente. O som se torna muito mais claro e agradável. Era o início da era do som elétrico.

Os discos de vinil foram o início da mudança.
Das primeiras gravações destoantes da década de 1880, passando para o som tolerável do início do século XX e finalmente evoluindo para o som mais claro dos discos nos anos 1930, em menos de sessenta anos, a humanidade assistiu um acelerado avanço da tecnologia de captura e reprodução sonora. Pela primeira vez, não era necessário contratar músicos ou viajar para ouvir o concerto de um artista famoso, bastava entrar em uma loja, adquirir um disco e ter em casa uma máquina capaz de reproduzir o som.

Com tudo isso, qual foi o impacto dos fonógrafos no início do século XX?

Em uma palavra: GIGANTESCO.

Em meados de 1920, fonógrafos podiam ser encontrados em qualquer grande cidade do planeta, vendidos em lojas, enquanto discos eram encomendados pelo correio e entregues na porta de casa. Os aparelhos se espalharam tão rapidamente, porque o custo de produção não era muito alto. Em termos atuais corrigidos, um aparelho de som, nos anos 20, custava o equivalente a 150 dólares atuais, enquanto cilindros ou os primeiros discos saiam por meros 3 dólares. Em 1930, o custo dos aparelhos caiu para 75 dólares, enquanto os discos custariam o equivalente a 5 dólares hoje em dia.

Uma vez que havia uma grande demanda, os fonógrafos conquistaram uma enorme fatia do mercado e foram produzidos em escala industrial. Não é raro em absoluto portanto que aparelhos desse tipo possam ser encontrados em cenários se passando na época.

Curiosamente, o mercado dos aparelhos reprodutores experimentou sua primeira crise na década de 1940, após o surgimento de um competidor direto que ameaçou sua hegemonia e que tomou o mundo de assalto - o rádio.

Mas essa é outra estória.

Obrigado por ouvir...

Ah sim, quando eu penso no cilindro de cera eu sempre lembro desse teaser do filme "Whisperr in Darkness". Ele dá uma ótima ideia de como era o som das gravações:

domingo, 7 de dezembro de 2014

A Fera de Bandai - Uma criatura desconhecida aterrorizou um vilarejo no Japão


Alguns mistérios são difíceis de inserir em uma categoria.

Há casos de misteriosas criaturas e aparições onde é impossível discernir se você está olhando para um típico enigma da criptozoologia, para um assombração ou para algo que remete ao fenômeno alienígena, ou então, algo totalmente diferente.

Certamente nesse contexto, encontra-se o curioso incidente ocorrido num recanto afastado, o Monte Bandai, localizado no centro do Japão. Trata-se de um caso no qual a população de um pequeno vilarejo se viu acossada pela presença aterrorizante de uma criatura desconhecida e maligna que permanece até os dias de hoje, não identificada. 

Os residentes da região do Monte Bandai, uma área de atividade vulcânica no distrito de Tohoku nos arredores de Fukushima, estão familiarizados com desastres e ocorrências estranhas. A montanha é mais conhecida pela sua erupção em 1888, que deixou 477 mortos, milhares de feridos e desabrigados, um dos mais severos desastres vulcânicos do Japão.  

Mas antes dessa tragédia, no final do século XVIII, um incidente pouco conhecido mas não menos assustador ocorreu no Vilarejo de Tohoku, aos pés do monte Bandai. Uma terrível criatura, um monstro como nunca antes visto, apareceu repentinamente e deixou um rastro de morte e caos.

O incidente começou quando aldeões relataram o avistamento de uma estranha criatura espreitando no bosque nos limites do vilarejo. Esse monstro, segundo as testemunhas parecia um grande primata, com uma boca cheia de dentes afiados, garras e pelo comprido avermelhado. Ele era visto geralmente depois do anoitecer, especialmente na alta madrugada, e seus olhos brilhavam refletindo a luz. A besta segundo relatos vagava furtivamente, como se estivesse espionando os moradores e evitava a luz das tochas como se as temesse. A criatura se escondia nas sombras de árvores e arbustos para observar as pessoas, como se estivesse curiosa de suas atividades. O único sinal de sua presença eram os olhos reluzindo na escuridão. Quando percebia que havia sido vista, a coisa rosnava e corria para a floresta, deixando no ar um guincho diabólico.

Com o tempo, os avistamentos foram se tornando cada vez mais frequentes. A coisa parecia estar cada vez mais confiante e ousada.

film_fest_uncle_boonmee
A fera espreita na escuridão
O monstro não ficava mais satisfeito em observar à distância, ele agora se aproximava do vilarejo. Ruídos guturais e claramente inumanos podiam ser ouvidos à noite, como se um grande animal estivesse próximo. Por vezes uivos medonhos também eram ouvidos na madrugada, um som que fazia os animais domésticos reagir com terror primitivo. Os camponeses estavam tão apavorados que não saiam de suas casas, trancavam as portas e se mantinham vigilantes. Certa noite, uma presença sombria adentrou o vilarejo, andou pelas ruas desertas e antes de partir tentou forçar a porta de uma casa. As pessoas lá dentro gritaram e a coisa fugiu para a floresta. Na manhã seguinte, os camponeses viram rastros de enormes pés inumanos na lama e marcas de garras na porta que a criatura tentou derrubar.

O pânico tomou conta de Tohoku. A ameaça daquele monstro na floresta e o fato dele ter entrado no vilarejo eram a certeza de que não demoraria até ele atacar. Os habitantes decidiram que deveriam enviar um grupo de homens para a cidade mais próxima, com o objetivo de pedir ajuda. Infelizmente, o lugar mais próximo ficava há dois dias de viagem, justamente através da floresta onde o monstro se escondia durante o dia. Apesar do temor, os homens partiram carregando a esperança dos demais habitantes.

Dois dias se passaram, três, quatro... e nenhum sinal do monstro ou dos homens que deveriam trazer ajuda.

No quinto dia, um camponês que havia ido buscar água no riacho próximo ouviu um ruído estranho e ao se voltar, deparou-se com o monstro em pé num tronco. Ele correu para o vilarejo aos gritos e depois de contar o que tinha visto, aceitou retornar acompanhado de um grupo armado com paus e foices. Ao chegar lá, o monstro havia sumido, mas no exato local onde havia sido visto, os camponeses acharam objetos que pertenciam aos homens que haviam partido em busca de ajuda. 

Foi então que o pesadelo do pequeno vilarejo realmente teve início.

Nos dias seguintes, o terror se espalhou rapidamente. A criatura - tratada como um monstro, uma assombração ou um demônio maligno, passou a visitar Tohoku regularmente. Mais agressiva e ousada do que antes, como se o cheiro do medo a deixasse mais forte. A coisa não retrocedia mais quando vista, ela rosnava e atirava pedras sempre que encontrava alguém. Os habitantes de Tohoku conseguiam ouvir o monstro do outro lado da porta, respirando pesado, rosnando ou guinchando. Ela também passou a escalar muros e pular em telhados, deixando as pessoas dentro das casas petrificadas de medo.   

Homens com tochas ficaram responsáveis por proteger o vilarejo em um esforço para manter o monstro afastado. O plano não surtiu o efeito desejado, pelo contrário. A criatura não foi intimidada, ao invés disso, reagiu furiosa quando os guardas gritaram e agitaram suas tochas diante dela. O monstro avançou contra dois deles, que apavorados abandonaram sua posição para buscar refúgio numa casa. Por pouco não foram alcançados pelo monstro que furioso tentou derrubar a porta, deixando as marcas de suas garras na madeira.

Ninguém mais queria servir de sentinela. O monstro passou então a atacar os animais que não ficavam protegidos - porcos e galinhas desapareciam toda noite. Um fazendeiro e sua família acordaram com uma algazarra vindo do galinheiro nos fundos da propriedade, na manhã seguinte, descobriram que todas as aves haviam desaparecido, restando só penas e manchas de sangue. O desaparecimento de animais continuou ao longo das noites e ao invés de esconder os animais, os fazendeiros agora se contentavam em amarrá-los nos limites do bosque para que o monstro assim se desse por satisfeito e não entrasse no vilarejo.

Numa das ocasiões em que levavam uma cabra para a entrada da vila, como sacrifício, o monstro foi avistado. A criatura perseguiu os camponeses e alcançou um deles saltando sobre as suas costas. Em seguida, o arrastou para a floresta aos gritos. O corpo do homem foi achado na manhã seguinte, estripado e semi-devorado pela besta. 

Mt. Bandai
Monte Bandai
A escalada de horror continuaria ao longo de um mês inteiro. 

Numa noite, o monstro conseguiu ganhar acesso a uma das casas; depois de subir no telhado de uma cabana, este cedeu com o seu peso. Uma vez lá dentro, o monstro matou quatro membros de uma mesma família: pai, mãe e duas crianças, escapando em seguida. A violência do ataque foi tamanha que os habitantes de Tohoku, quando se depararam com aquela cena de massacre, sequer cogitaram enterrar os cadáveres, preferindo atear fogo na cabana e nos restos da carnificina.

Segundo a lenda, o pesadelo só terminou quando um grupo de caçadores que passava pela região chegou em Tohoku. Eles haviam ouvido rumores sobre a presença de uma criatura que fora avistada nos arredores de um vilarejo vizinho e se aproximaram para perguntar se eles sabiam de algo. Os camponeses relataram sua horrenda estória e imploraram para os que caçadores matassem a besta sanguinária. Bravamente o grupo se embrenhou na floresta num esforço de encontrar o covil da criatura. Durante a caçada o monstro foi avistado repetidas vezes, se esgueirando e observando o bando. Sempre que eles tentavam acuá-lo, a criatura escapava. Próximo do anoitecer, os caçadores decidiram que era melhor retornar para a vila, do contrário teriam de acampar ao relento.

No caminho de volta, quando já estava escuro, a criatura surgiu diante deles no meio da estrada, avançando furiosa com intenção de matar. Um dos caçadores conseguiu erguer o mosquete e disparar, a bala atingiu a criatura no ventre, mas mesmo assim, ela continuou avançando se atirando sobre o homem que a feriu. Os outros caçadores tinham facas e lanças e começaram a apunhalar o monstro que mesmo ferido continuava lutando. Finalmente depois de causar vários ferimentos com suas garras e presas, o monstro parou de se mexer. Os caçadores para não correr nenhum risco, descarregaram suas armas uma vez mais para ter certeza que ele estava morto.

Os caçadores então arrastaram a carcaça do monstro para o vilarejo a fim de apresentar o resultado de sua caçada aos camponeses. A criatura foi descrita como um tipo de macaco com um metro e meio de altura, que andava curvado, mas que corria de quatro. Seu corpo era coberto de cabelo vermelho e sujo, sua grande boca era cheia de presas. O corpo havia sido horrivelmente mutilado durante o feroz confronto contra os caçadores, a cabeça tinha sido arrebentada por golpes sucessivos de porrete. A coisa não se parecia com nada que os aldeões ou caçadores, já tivessem visto antes ou depois. Ao longo de suas costas haviam tufos de pelos, duros e afiados como os de um porco-espinho. O nariz era comprido e suas patas terminavam em unhas resistentes e afiadas. A carcaça exalava um fedor rançoso, extremamente desagradável. Os aldeões acharam melhor atear fogo no monstro temendo que ele pudesse voltar à vida.

Com isso, os avistamentos, ataques e visitas noturnas cessaram por inteiro.

A sketch of the alleged creature.
Um desenho da e´poca mostra como era a criatura.
O caso do monstro de Bandai é um dos mais estranhos e famosos do folclore nipônico, contudo é pouco conhecido fora do Japão. A descrição da criatura não combina com nenhum demônio, fantasma ou monstro mitológico de sua rica cultura.
Com a descrição dada pelas testemunhas e pelos caçadores - supostamente veteranos conhecedores de vários animais, é difícil imaginar que a fera fosse um animal mundano, simplesmente confundido com um monstro. Não existe nada nas florestas do Japão sequer próximo da coisa descrita pelas testemunhas. Não há também qualquer outro relato de avistamento de uma criatura semelhante em parte alguma do país. O incidente em Tohaku parece ter sido único na história do país. O caso é considerado uma lenda nos dias atuais, mas até o século XIX era um tabu falar a respeito dele.  
O que teria aterrorizado aquele pequeno vilarejo rural aos pés da montanha? Seria um animal desconhecido de algum tipo? Se sim, de onde ele teria vindo? Será que a fera era uma espécie de urso trazido de terras distantes? Será possível que o vilarejo tenha sido tomado por uma histeria coletiva que fez todos acreditar que algo sobrenatural estava espreitando na floresta?

Infelizmente, considerando que esses eventos se deram em meados de 1780 e que a carcaça da criatura não foi preservada ou examinada, tudo o que se tem da besta de Bandai é um rico relato que vive através dos séculos e que provavelmente permanecerá como um enigma, para sempre.