quarta-feira, 21 de março de 2012

A Mulher de Preto - O Horror Gótico está de volta ao cinema

Sinceramente, se eu fosse o tal Daniel Radcliff ia ficar chateado com o cartaz de "A Mulher de Preto". Dizem que o ator escolheu esse filme para fugir do personagem que lançou seu nome para a fama e estrelato, mas é claro, algum gaiato tinha que colocar em letras garrafais a frase: "Um filme com o ator de Harry Potter" em destaque.

Em letras bem menores, no entanto, está a informação que realmente importa para os fãs do horror: "A Mulher de Preto" é um filme produzido pela Hammer Films.

Para quem não sabe do que estou falando, a Hammer Films talvez seja um dos mais icônicos estúdios britânicos. Entre os anos 50 e 70 ele se notabilizou por produzir alguns dos melhores filmes de horror do período. A especialidade da Hammer eram os filmes de monstros clássicos como Drácula (vivido por Christopher Lee) e Frankenstein (onde o cientista que criava o monstro era quase sempre Peter Cushing). Embora o carro chefe fossem Drácula e Frankenstein eles fizeram muitos outros clássicos de terror gótico.

O ápice da Hammer foi a década de 60, época em que seus filmes atraíam multidões aos cinemas. Nos anos 70, o estúdio ainda conseguiu emplacar alguns filmes razoáveis, mas a decadência já começava a se instalar e produções meia-boca decretaram sua ruína financeira. No início dos anos 80, a Hammer já tinha sumido do mapa.

Em 2007, a Hammer ressurgiu após quase três décadas. O estúdio foi comprado e a marca trazida de volta do limbo. Depois de algumas produções com altos e baixos (como a refilmagem do filme sueco de vampiros "Deixe ela entrar"), o legendário estúdio decidiu retornar ao gênero em que fez história. "A Mulher de Preto" é o primeiro filme da Hammer fiel a sua biografia de Horror Gótico.

Com tanto em jogo, o que esperar?

Duas palavras definem bem esse filme: atmosfera e refinamento.

A Mulher de Preto é um filme de horror como se fazia antigamente, boa parte do filme parece ser uma homenagem aos antigos filmes de casa assombrada e fantasmas. Ele nos poupa de sustos baratos, efeitos digitais mirabolantes e banhos de sangue. O horror que ele conjura está nas entrelinhas, nos longos trechos em silêncio e nas expressões agoniadas dos personagens. Nada do que acontece na tela é gratuito, tudo é bem ponderado e executado. Trata-se de um filme de fantasmas e assombrações que remete aos contos de Edgar Allan Poe e Sheridan LeFanu, decanos do horror vitoriano.

Radcliff faz o papel de Arthur Kipps, um advogado viúvo que no início do século XX é contratado para viajar até o remoto vilarejo de Crythin Gifford na Inglaterra e descobrir se uma mulher deixou algum testamento ou herdeiro para seus bens. É a última chance de Kipps manter seu emprego, conforme avisa seu patrão e ele precisa superar a morte da mulher para o bem de seu filho. A viagem até o povoado é bastante similar a do personagem Jonathan Harker no Drácula de Bran Stoker. Ambientes bucólicos no interior da Inglaterra sempre parecem apavorantes e esse não é diferente.

Alguma coisa não parece certa na cidadezinha e seus habitantes só querer que o forasteiro vá embora e os deixe em paz. Logo ele descobre que a relutância dos moradores tem a ver com as mortes de várias crianças e com um espectro macabro culpado pela tragédia que aflige as famílias: é a tal Mulher de Preto.

A medida que vai bisbilhotando à respeito do mistério, outras perguntas vão surgindo. Quem era a tal mulher misteriosa? Qual a sua relação com o povo da cidade? E o que aconteceu em seu passado que causou tanto sofrimento?

As respostas se encontram na velha mansão que fica no meio de um pântano pra lá de traiçoeiro. O único acesso até o casarão é através de uma estrada engolida quando a maré está alta -- um recurso muito inteligente para salientar o isolamento da propriedade, existindo quase em outra realidade. Quando as estradas fecham, ninguém entra e principalmente ninguém sai.


Enquanto explora a assustadora mansão, uma figura sombria parece observar o advogado. É o tipo de situação bem comum em filmes de terror, mas isso não significa que o roteiro seja previsível. A bem da verdade, o filme se propõe a prestar uma homenagem a elementos clássicos do gênero: o isolamento, a sensação de estar sendo observado, os sussurros e batidas, a cadeira de balanço se movendo sozinha, as sepulturas recentes, os brinquedos sinistros, o nevoeiro impenetrável... nada disso é novo, mas a forma que essas coisas são usadas reforçam os elementos narrativos e deixam uma sensação de deja vu.

Bons filmes de horror na minha opinião precisam construir uma trama que mantenha o espectador em suspense à medida que os segredos vão sendo mostrados. A Mulher de Preto consegue criar interesse colocando o espectador na perspectiva do personagem principal. Enquanto Kipps investiga a casa assombrada, a câmera o segue para todo o lado e nós vemos exatamente o que ele vê. A inquietante impressão que alguma coisa está observando é transferida para nós. Trata-se de um filme que se esforça em criar uma atmosfera propícia ao suspense e a partir dele envolve o público.

O elenco é bem equilibrado e correto. Com uma atuação surpreendentemente madura, Radcliff consegue convencer como um sujeito amargurado e dividido entre o dever profissional e a obrigação familiar. Embora seja difícil desassociá-lo imediatamente de Harry Potter e aceitá-lo como o pai de um garotinho, ele merece elogios pela tentativa de fazer algo diferente. O restante do elenco dá um excelente apoio, sobretudo Ciáran Hinds um daqueles coadjuvantes de luxo que quase sempre roubam a cena. No papel de um sujeito afetado pela tragédia e cuja família ainda sofre com o choque da morte de um ente querido, ele concede dignidade ao seu personagem, o único na cidade a ajudar o forasteiro a ir até o fim em busca da verdade.

O final amarra perfeitamente uma narrativa angustiante sobre uma vingança cujo fogo não se apaga.

Com uma bela reconstituição de época, figurino impecável e uma música evocativa, a Mulher de Negro é um filme capaz de surpreender. Sem dúvida ele vai deixar um sorriso na face daqueles que gostam de histórias de fantasmas como se fazia nos velhos tempos.


Nos tempos da Hammer.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Seis arqueólogos mortos na India - Seria uma antiga maldição em ação?

Lendas sobre lugares amaldiçoados são bem difundidas ao redor do mundo. Várias culturas assumem que escavar cemitérios ou tumbas é uma atividade impura e que graves consequências aguardam aqueles que incidem nela.

A mais famosa lenda sobre "Maldição da Tumba", remete ao Egito antigo. A legendária maldição de Tutancamon teria atingido entre 8 e 15 pessoas dependendo da fonte consultada.

Chame de superstição ou coincidência, mas uma outra maldição parece ter recaído sobre arqueólogos, dessa vez na India. Seis arqueólogos de renome morreram em um espaço de poucos anos após assumir trabalhos de escavação em sítios históricos no país.

A situação chegou a tal ponto que se tornou um desafio para a Diretoria de Arqueologia e Museus (DAM) realizar novas escavações. Uma escavação nos arredores da cidade de Hampi se tornou especialmente problemática. Três arqueólogos morreram após iniciar trabalhos de escavação em antigas tumbas em um sítio local.

As escavações foram paralisadas uma vez que não há arqueólogos disponíveis para assumir a tarefa. O Dr. C Vasudevan, professor da Universidade de Hampi, foi instruído a escrever um resumo sobre o material descoberto pelos três arqueólogos falecidos - Dr C S Patil, Dr Balasubramanya and Dr Manjunathaiah. Entre os objetos estavam restos de potes, pedras, artesanato e ossos.

Dr. Patil, que era chefe diretor do DAM, morreu de ataque cardíaco poucos dias depois de iniciar as escavações. Dr Balasubramanya, que o sucedeu à frente dos trabalhos, também sofreu um ataque cardíaco fulminante após descer para inspecionar o progresso da escavação. O Dr. Manjunathaiah assumiu o cargo e poucos meses depois sofreu um acidente rodoviário fatal nas sinuosas estradas de Hampi. O trabalho no sítio foi então suspenso em parte pela ausência de trabalhadores interessados em continuar o trabalho.

Além desse caso específico, três outros renomados arqueólogos indianos morreram em sítios espalhados pelo país.

Varaprasad Rao do Centro de Pesquisas Arqueológicas da India morreu quando seu veículo se chocou com uma carroça numa estrada entre Yadgir e Dharwad. Ele vinha trabalhando em uma escavação no Vale de Sannathi. O Dr. Havalaiah, professor da Universidade de Mysore, foi vítima de um acidente aéreo próximo a Maddur quando se deslocava para Rajghatta a fim de prosseguir em uma escavação em um templo budista. Já o Dr. Subbaiah, colega de Varaprasad, sofreu um ataque cardíaco após supervisionar a descoberta de um magalito em Koppa no distrito de Chikmagalur.

Essas mortes podem parecer uma infeliz coincidência mas é no mínimo curioso que estes homens -- todos com idade entre 50 e 55 anos, e desempenhando a mesma função tenham morrido em um curto período de tempo.

Um oficial do DAM comentou em caráter anônimo que os problemas na escavação em Hampi se iniciaram após a descoberta de uma câmara contendo um grande número de crânios. Outro oficial relatou que arqueólogos foram aconselhado a abandonar o sítio na região de Chikmagalur. Segundo os escavadores envolvidos nesse trabalho, acidentes inexplicáveis aconteciam com alarmante frequência.

Fontes na Diretoria de Arqueologia e Museus afirmaram que tais rumores não estão sendo levados à sério e que escavações interrompidas serão reiniciadas em breve.

sábado, 17 de março de 2012

Dia de St. Patrick - A Ilha Esmeralda, Serpentes e o Mythos

Hoje 17 de março, é dia de São Patrício (ou St. Patrick)!

Há muitas lendas à respeito desse Santo da Igreja Católica, conhecido por ser o Padroeiro da Irlanda.

O pouco que se sabe à respeito da vida e trabalho de São Patrício vem de suas próprias escrituras em latim. Na coleção de manuscritos chamada Confissões, Patrick afirma ter nascido na Britânia dominada pelos romanos, o filho de Calpurnius, um diácono no vilarejo de Bannaven. Patrick teria sido capturado após um ataque de saqueadores irlandeses aos 16 anos, levado para a Irlanda, foi vendido como escravo. Ele serviu como pastor de ovelhas nas montanhas de Slemish, a serviço do chefe guerreiro Milchu. Nessa época, seus seguidores contam que ele já era capaz de falar com Deus e operar pequenos milagres.

Depois de seis anos de cativeiro, Patrick escapou e retornou para sua casa onde expressou o desejo de seguir carreira religiosa. Não se sabe ao certo onde ele recebeu sua educação, mas acredita-se que ele tenha abraçado o sacerdócio sob a tutela de St. Germanus de Auxerre.

De acordo com a crônica de Patrick, ele teve uma visão divina que o instruiu a retornar para a Irlanda a fim de converter os povos que lá viviam. Nesse ponto lenda e história se fundem para criar uma personagem capaz de realizar milagres grandiosos e de praticamente sozinho converter todo um povo ao catolicismo, crença que se mantém até os dias de hoje.

Bom, nesse momento você deve estar pensando: "Tudo bem, legal, mas o que isso tem a ver com o tema desse Blog?".

Muito justo perguntar. Há uma história interessante à respeito de St. Patrick.

Entre as grandes realizações do padroeiro da Irlanda consta um feito que ficou conhecido como "A Expulsão das Serpentes da Irlanda". E a coisa é tão marcante que as imagens de St. Patrick em geral vem acompanhadas de serpentes aos seus pés.

Segundo a tradição, certo dia Patrick, foi convocado para ir até um vilarejo a fim de confortar uma família que havia perdido a filha, vítima da picada de uma serpente venenosa. Compadecido pela tragédia, Patrick decidiu que a Irlanda se veria livre desses animais peçonhentos. Ele teria então realizado um grande milagre que fez com que todas as serpentes deixassem a Ilha. A lenda diz que St. Patrick encantou as serpentes com sua voz e cantando hinos religiosos marchou decidido até a costa seguido por um tapete vivo, composto de milhares de répteis venenosos. Ao chegar ao litoral, comandou as serpentes a entrar no mar, livrando assim a Ilha Esmeralda de sua presença.

É uma bela história e por muitos séculos ela foi tida como verdade, reforçada pelo fato de realmente não haver ofídios na Irlanda.

Em verdade, St. Patrick não expulsou as serpentes da Irlanda -- répteis não se adaptam ao clima frio, e o severo inverno irlandês sempre os afugentou. Na realidade, quando a lenda diz que St. Patrick expulsou as "serpentes" da Irlanda, estas são uma metáfora aos cultos que existiam lá até então.

Os povos que originalmente habitavam a Irlanda possuíam raízes pagãs. St Patrick converteu tribos e clãs inteiros, sem derramamento de sangue ou revoltas. Conforme os registros históricos, crenças muito antigas foram sistematicamente abandonadas e houve conversões em massa. Em pouco menos de 30 anos, a Irlanda se rendeu incondicionalmente ao Catolicismo, um feito impressionante.

Ainda assim, o que isso tem a ver com o Mythos?

Pois bem, faz alguns anos li uma matéria à respeito de mitos irlandeses e é incrível como certas coisas se encaixavam perfeitamente na mitologia lovecraftiana. Não apenas os Fomorian (diabos do mar) e a lenda de Balor olho maligno, há mais no folclore irlandês que clama para ser reconhecido como puro Lovecraft.

Nesse contexto, que tal supor que St. Patrick realmente expulsou as serpentes da Irlanda e que além disso foi o responsável por banir os cultos pagãos existentes. Sob uma ótica do Mythos é possível juntar essas informações em uma mesma conclusão:

St. Patrick teria expulsado o Culto do Povo Serpente na Irlanda.

Uma das coisas que eu realmente gosto é de interpretar fatos históricos e lendas sob um ponto de vista do Mythos. Se essas criaturas existissem como elas teriam influenciado acontecimentos históricos?

Podemos inferir que o Povo Serpente -- uma antiquíssima raça humanóide de homens com cabeça de serpente provenientes de eras antidiluvianas -- estava presente na Irlanda do século IV. De fato, as estórias mais clássicas sobre essas criaturas situam suas bases, nas Ilhas Britânicas (sobretudo Gales e Escócia), e não seria de todo impossível que eles habitassem também a Irlanda.

Talvez as lendas sobre serpentes afligindo o bom povo da Irlanda, se referissem não a répteis de verdade ou cultos pagãos, mas a coisas muito piores. O povo serpente é capaz de se misturar a população, assumindo a forma humana, dessa forma poderiam impor suas crenças nefastas e dominar as pessoas. Para piorar as coisas, eles veneram Yig, um dos Grandes Antigos, chamado de Pai das Cobras. Yig é uma divindade que demanda constantes sacrifícios e rituais macabros por parte de seus seguidores. Sua ira mortal se traduz na visita de serpentes venenosas na calada da noite.

Ao descobrir que a Irlanda era assolada pela presença de criaturas não humanas, Patrick deve ter ficado horrorizado. É possível que no contexto do Mythos ele tenha organizado a população local a enfrentar essa ameaça. Talvez ele tenha se tornado um líder que enfrentou as criaturas e cujo sucesso se traduziu na destruição completa do culto e de seus líderes. Quem sabe, Patrick conhecia alguma maneira de enfrentar as criaturas, visto que existem encantamentos capazes de revelar sua forma real. Seja como for, o culto foi derrotado. Como reconhecimento a sua façanha, o povo da Irlanda se converteu, acolhendo as suas crenças.

As histórias sobre os feitos de Patrick foram levadas através da Europa, em algum momento a verdadeira (e terrível) história perdeu seu contexto. A luta contra o povo-serpente se tornou a expulsão de serpentes normais. É possível entretanto, que a crônica desses fatos tenha de alguma forma sobrevivido em algum manuscrito em poder da Igreja, algo mantido trancado nos arquivos eclesiásticos.

O dia de St. Patrick é bastante popular na Europa, nos Estados Unidos e é claro, na Irlanda.

Saint Pat's Day é uma data festiva em que todos se vestem de verde (a cor da Irlanda) e usam broches "Kiss me, I'm a Irish" (beije-me, eu sou irlandês). Dizem que nessa data, beber cerveja pintada de verde garante que não vai faltar bebida o ano todo.

Talvez Patrick tenha sido também um inimigo do Mythos... quem sabe.

Mas para garantir, saúde!

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Mundo Tentacular faz três anos hoje!!!

O MUNDO TENTACULAR comemora hoje 3 anos no ar.

Parabéns para nosso pequeno blog!!!

Nesses três anos tentamos trazer o que há de mais horrível, mais perturbador e insanamente maligno no Universo do Mythos. Com imagens como a que ilustra esse artigo, creio que conseguimos algum sucesso. Cthulhu parece estar ao mesmo tempo feliz e constrangido.

Lovecraft e o Mythos de Cthulhu não são muito conhecidos no Brasil, por isso nos orgulhamos de apresentar essas monstruosidades a novos leitores, que através de nossa página descobrem o fascinante universo do Horror Cósmico.

É um orgulho também saber que um blog com conteúdo tão específico conseguiu se firmar lado a lado entre os blogs de RPG mais acessados do país.

Elogios, comentários e críticas construtivas são um incentivo para que o Blog continue no ar e siga adiante -- pelo menos até que as estrelas estejam alinhadas. Em três anos contabilizamos quase 500 mil visitas, colocamos no ar 470 artigos e arregimentamos mais de 200 seguidores regulares.

Nada mal para um Blog à respeito de um monstro colossal com cabeça de polvo e o excêntrico escritor que criou, além dele, uma horda de criaturas cujo nome é quase impossível pronunciar.

Sendo assim juntem-se a nós dizendo:

IÄ, IÄ, Cthulhu Ftagn
IÄ, IÄ, Mundo Tentacular

Lady Derringer - A melhor e mais mortal amiga das mulheres

Ann percebeu que olhos a seguiam pelo salão.

Apesar da música alta e da massa de pessoas dançando loucamente ao som da banda de Jazz, ela sabia que estava sendo vigiada. Ao sair pela porta dos fundos, sentiu o ar fresco da noite a envolver. Encostou-se casualmente em uma pilha de engradados e acendeu um cigarro. Tragou longamente enquanto aguardava.

Não demorou muito: BAM! A porta dos fundos se abriu e um sujeito corpulento surgiu apressado, olhando ao redor. Ao vê-la ali parada, sorriu confiante.

"Ora, ora o que temos aqui?" disse o fascínora com uma voz desagradável. Ann o reconheceu de imediato, um dos capangas do chefão Bonatto, responsável por inundar Arkham com bebida ilegal da pior qualidade. Ela o conhecia de reputação, um matador nato.

"Você vem comigo doçura. Pode gritar se quiser, eu adoro ouvir os gritos de uma belezinha como você!" disse se aproximando ameaçadoramente.

Ann foi mais rápida, enfiou a mão na bolsa e tirou dali algo pequeno e brilhante. O sorriso do bandido desapareceu quando ele viu o cano de uma pistola apontada a poucos centímetros de seu nariz.

"Se der mais um passo, a última coisa que você vai ouvir é o som da minha Derringer".

* * *

Os anos 20 foram uma época perigosa para as mulheres.

A liberdade que haviam acabado de conquistar vinha acompanhada de uma série de riscos. Nem todas as mulheres estavam dispostas a sair acompanhadas e andar sozinhas pelas ruas das grandes cidades podia ser muito perigoso. Muitos rufiões viam em mulheres desacompanhadas um alvo perfeito para suas investidas.

Elas precisavam se defender em caso de necessidade.

Sabendo disso, a companhia de armas Derringer (famosa pelas suas pistolas compactas) lançou no mercado aquela que viria a ser a primeira arma de fogo voltada para o público feminino. A pistola single-shot, imediatamente ficou conhecida como Lady Derringer.

A Lady Derringer era pequena o bastante para ser colocada na bolsa de qualquer mulher, em seu bolso do vestido, no chapéu, escondida na cinta da meia calça ou até mesmo na fenda do seu decote. A arma com cano de aço inoxidável media apenas 13 centímetros e pesava meras 420 gramas. O primeiro modelo colocado no mercado comportava uma única bala especial calibre 25, o suficiente para espantar ou eliminar um agressor.

Os armeiros da Derringer pensaram nos mínimos detalhes. A empunhadura era menor e mais confortável para uma mão pequena e delicada. O tambor de carregamento era aberto deslizando o cano como se fosse um batom. O gatilho era mais sensível e continha uma trava de segurança que podia ser movida rapidamente em caso de necessidade. O modelo original não era muito potente, fazendo dela uma arma perfeita para o disparo à queima roupa ou curta distância -- no máximo 1 metro.

O estampido era propositalmente mais alto, o som do disparo de uma Lady Derringer era oco e metálico e servia como alerta. A arma produzia também um forte cheiro de pólvora e deixava resíduo nas mãos do atirador.

Logo que foi lançada a Lady Derringer era considerada "a companhia perfeita para ser empunhada por qualquer mulher disposta a defender sua honra", ou ao menos era isso que dizia a propaganda da época. Ela custava 12 dólares, um valor alto para uma arma compacta.



"Suas pernas, nuas sem uma Derringer" -- uma ousada propaganda de 1924

Para agradar ao público feminino, a Derringer pensou em outros detalhes. A arma tinha acabamento de madrepérola ou marfim na coronha e detalhes entalhados com arabescos ao longo do cano. O formato da empunhadura podia ser ajustado sob medida e o desenho na coronha era pintado com esmalte. A Lady Derringer era uma pequena e mortal jóia.

Em 1925, uma dessas armas foi usada pela herdeira Eliza Hallbroke que em uma visita a Atlantic City a usou contra um ladrão. "Atirei quando ele chegou perto o bastante para eu sentir seu bafo de bebida" teria dito a moça logo depois do ocorrido. O fato é que esse incidente garantiu uma enorme propaganda para a Lady Derringer.

Várias outras companhias de armas, farejando o lucro, começaram a desenvolver seus próprios modelos de pistolas para senhoras. Eram as chamadas Deringer, com um único "r". Foi nessa época que surgiram os modelos que permitiam miniciá-la com cartuchos calibre 32, 38 e até mesmo a letal 45.

Os "modelos genéricos" embora fossem bem mais em conta, por vezes resultavam em defeitos e problemas. Na melhor das hipóteses uma dessas armas podia simplesmente travar e negar fogo, no pior dos casos ela podia estourar na mão da atiradora provocando sérios danos.

As Deringer passaram a ser associadas a armas perigosas que representavam um grave risco para as próprias mulheres. Em 1928, o assassinato de um congressista de Chicago por uma prostituta chinesa armada com uma Derringer causou comoção e fez com que a arma fosse proibida em vários estados da união.

A popularização das armas de fogo logo levou as mulheres a experimentar outros modelos além da Lady Derringer, e esse foi o fim das armas especiais para mulheres. Logo elas descobriram que não era necessário ter uma arma especial para elas, uma bala, podia matar à despeito do sexo de quem a empunhava.