quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Nos confins do Império - Explorando o passado na Muralha de Adriano


Em maio de 2019, tive a incrível oportunidade de viajar para o Norte da Inglaterra onde pude visitar a Muralha de Adriano. Foi algo surreal estar lá e explorar aquele lugar impressionante, carregado de significado histórico.

Durante toda viagem mantive um diário com anotações para cada lugar que visitei e fiz alguns comentários baseado no que ouvia e no que encontrava de informações. Algumas anotações foram feitas no próprio local para aproveitar a emoção que sentia.

Como estamos falando especificamente a respeito da Muralha de Adriano, quis compartilhar isso aqui no blog junto com algumas fotos que tirei no local. São alguns parágrafos soltos - não se trata de um texto corrente, mas trechos com apontamentos.

*       *       *    

17/05/2019

Ponto alto da Excursão Fronteira Histórica - Visita às ruínas da Muralha erguida pelo Imperador romano Adriano.

Curiosamente a muralha não foi erguida apenas para manter os bárbaros afastados, mas com o intuito de estabelecer limites e constituir uma fronteira protegida para o Império. Ela também era uma maneira de consolidar os interesses dos romanos na região. 

Os romanos viam essa Província (Britânia/Caledônia) com grande interesse e desejavam consumar seu domínio, mas não dispunham do contingente necessário homens e nem de recursos financeiros para tanto. Os pictos, as tribos que habitavam a Caledônia (Escócia), ofereciam grande resistência. Atacavam os postos avançados, pilhavam as cidades, matavam os colonos e incendiavam as fazendas. Eram considerados como bárbaros aos olhos dos romanos e dos britânicos já romanizados que foram enviados para colonizar a área.

A construção da Muralha se iniciou em 128 d.C por sugestão do próprio Imperador que via a necessidade de manter os bárbaros do lado de fora e salvaguardar suas fronteiras. Ele também desejava consolidar a posse das terras conquistadas. Considerava que ali seria o limite do Império, a "Fronteira da Civilização" - tudo que estivesse além daquele muro deveria ser considerado como "bárbaro" e "primitivo".

Trecho da Muralha
Restos de uma casa exterior colada ao muro
A construção da Muralha demandou pelo menos 12 anos. Os romanos não tinham como contratar operários ou pedreiros, escravos também eram muito caros para serem usados em uma tarefa como aquela. Decidiram utilizar como força braçal num primeiro momento prisioneiros de guerra, principalmente para o trasporte dos blocos. Posteriormente empregaram os próprios soldados na tarefa de cortar as pedras no formato desejado e edificá-las. 

Os soldados trazidos para o trabalho vinham de todos os cantos do Império: Gália, Grécia, Norte da África, Galícia, Pérsia, Egito... em geral eram soldados em final de carreira (25-30 anos) e com experiência como pedreiros e trabalhadores braçais. Os soldados que se juntavam à empreitada ganhavam um abono no momento em que aceitavam a incumbência. No final de 5 anos de serviço na Muralha recebiam pequenas propriedades na região onde poderiam se instalar e aproveitar sua aposentadoria. Era uma maneira de incentivar a colonização na região.

Segundo a guia, exames de DNA feitos na população local, realizados em 2013, apontaram que as famílias que hoje habitam a região possuem diversos traços raciais distintos. Herança do Leste Europeu, Oriente Médio e Norte da África. Muitas destas pessoas possuem antepassados que provavelmente foram trazidos de outros cantos do Império para trabalhar na construção da Muralha.

Parede do Portão de Entrada para o Forte de Vindolanda
Trecho do muro e contorno de uma construção externa provavelmente um posto de vigilância

O trabalho principal dos soldados durante a construção era o transporte das pedras e assentamento das mesmas para a construção da muralha. Era um trabalho repetitivo e pesado que envolvia trazer pedras usando carroças puxadas por mulas. As pedreiras ficavam há pelo menos 20 quilômetros de distância. O regime de trabalho era bem organizado, com horários bem definidos e turnos estabelecidos para descanso e rotatividade de funções.

A Muralha começou a ser erguida no sentido Leste-Oeste de costa a costa, começando e terminando no mar. 

Postos de Guarda foram dispostos a cada 500 metros, com pontos de observação para as sentinelas. Cada ponto tinha um contingente permanente de 8-10 soldados que permaneciam na vigília. Eles forneciam suporte uns aos outros e proteção no caso de uma invasão, a regra é que os homens deviam ficar a uma distância em que um grito pudesse ser ouvido.

As fortificações eram erguidas em pontos estratégicos que forneciam uma vantagem de observação. O objetivo era que os guardas pudessem enxergar os arredores e perceber a aproximação de invasores. O terreno baixo e plano da Escócia ajudava nesse sentido para que uma sentinela pudesse ver pelo menos 1 quilômetro adiante. Do posto de guarda que visitei era possível ver em todas as direções, o que sem dúvida oferecia uma excelente vantagem estratégica para as sentinelas incumbidas de vigiar os arredores.


Trecho do Muro
Posição defensiva e visão da muralha exterior do Forte

Cada forte funcionava de maneira autônoma e podia hospedar pelo menos uma guarnição de soldados - uma centúria (100 homens). Os fortes ofereciam alojamento para os soldados, refeitório e contavam com depósitos para estocar suprimentos. Os maiores fortes contavam com forja, curtume, pelaria, casa de banho, taverna e bordéis. Um muro adjacente a Muralha circulava os fortes e garantia a proteção. Colado ao muro era normal surgirem casas de civis que escolhiam viver perto do forte que concediam proteção. Muitas dessas famílias eram compostas por esposas, filhos, pais ou familiares de soldados ou ex-soldados que serviam naquela guarnição.

Os soldados podiam levar suas famílias, em especial esposas e filhos para dentro dos fortes em caso de ataque inimigo. Apenas os comandantes podiam trazer suas famílias para viver dentro do forte permanentemente.

Segundo o guia muitos dos soldados trazidos para trabalhar na construção da Muralha acabaram casando com mulheres da região  e com o tempo também acabaram se tornando nativos, aprendendo idioma, tradições e costumes dos povos escoceses.

Subindo até o topo do monte na direção do Forte com o muro aos fundos
O Imperador esperava que os bárbaros acabassem "assimilados" pelos romanos, mas no fim das contas os costumes de romanos e dos nativos acabaram se misturando. Aos poucos algumas tradições romanas foram abandonadas em nome de costumes locais. Os soldados se ressentiam da distância  e muitas vezes acabavam incorporando costumes locais que vinham de sua interação com os "bárbaros".

O Imperador Adriano jamais visitou a Muralha depois de sua conclusão. Ele jamais teria colocado os pés na Fronteira mais ao norte da Britânia por considerar uma região muito perigosa. Ele teria dito que a Muralha marcava o "Fim da Civilização", o que existia além daquele ponto era a barbárie em estado puro. A antítese do poder civilizatório de Roma.

O local parecia carregado de um profundo significado histórico. As ruínas em si não mostravam muito, estavam realmente muito deterioradas pelo tempo, ainda que as paredes se conservassem íntegras como se tivessem sido erguidas ontem e não 1800 anos atrás. Havia uma emoção no ar, a certeza de estar entrando num lugar de importância histórica, igualmente estranho e fascinante.

A trilha que margeava a encosta era ingrime e aberta aos elementos. Ao menos não estava chovendo apesar do céu estar bastante escuro e coberto de nuvens. Estava frio e úmido, com um vento gelado que cortava através dos três casacos que eu usava. Do local onde a van da excursão nos deixou, no sopé do monte até o forte no alto deste, seria uma caminhada de 30 minutos. O problema é que se tratava de uma subida bem aguda, então o esforço foi considerável. A trilha era coberta de cascalho que ao menos estava firme. 

Posição defensiva no forte
Visão do Forte em ruínas e de construções defensivas


Ovelhas pastavam ao redor e o cheiro de esterco era tão forte que chegava a arder no nariz. Havia bolas de lã presas na vegetação baixa de um verde quase cinzento. As ovelhas escocesas tem o corpo forte e parecem enormes bolas andantes de lã cinzenta. O rosto delas é de um preto muito escuro, assim como as patas. Quando elas fazem barulho o som é longo e arrastado.... Béééééééééééé. E quando uma começa a balir todas outras acompanham. Felizmente elas pareciam estar acostumadas com visitantes e simplesmente se afastavam a medida que eu passava por elas.

Um sol tímido me saudou quando atingi a metade do monte. A vista era incrível! Dali era possível ver as ruínas que se encontravam a mais uns 100 metros através de uma outra trilha. Depois de um esforço como esse, o suor pela atividade física era um problema. Escorria por dentro do casaco e através das mangas em tanta quantidade que pensei estar molhado de sereno. Eu nem cogitei tirar o casaco, pois o vento estava gelado.

No topo da colina, antes do forte havia uma loja de conveniência com café fresco que pareceu maravilhoso. Ali ficava ainda a bilheteria para quem quisesse entrar nas ruínas propriamente ditas. A loja apresentava alguns objetos achados nas ruínas, fotografias, maquetes e mapas. 

Mais uma subida ainda mais ingrime, com um trecho final escorregadio. Mas chegamos ao forte (Castrum) de Vindolanda.  

No entorno das ruínas foi colocado um muro de ferro com cancela que estava aberta.

A latrina
Ruínas da Latrina e Casa de Banho romana
Os visitantes tinham liberdade para passear pelas ruínas na ordem que bem entendessem, o que acaba sendo um pouco frustrante já que não há uma indicação por onde começar. Eu tentei traçar um caminho que me levasse a todas as construções antes de retornar. As únicas referências visuais são pequenas placas que identificam os prédios (ou o que resta deles). Há ainda placas maiores com representação de como deveriam ser os prédios no auge da ocupação e uma breve explicação de sua função.

As placas ajudam a imaginar como deveria ser o assentamento e como era a vida das pessoas que lá viviam.  Coisas simples como onde ficavam os guardas, onde eram os alojamentos, onde as armas ficavam guardadas, como os soldados dormiam, onde era a cozinha, onde ficava o refeitório e a latrina.

O forte era uma construção bem maior do que eu pensava. Estima-se que ele oferecia alojamento para até 5 centúrias de soldados, ou seja 500 homens, mas raramente contou com esse contingente. O mais provável é que ele fosse o lar de uma centena de homens. Isso sem contar as famílias que viviam coladas ao muro primeiro em acampamentos e depois casinhas simples de alvenaria. 
Posto de Observação dos soldados - repare na visão que eles tinham
Prédio externo - estábulo e galpão

Essas construções externas contavam com uma pensão, galpão, depósito usado para estocar grãos e estábulos. A maioria dos prédios do lado de fora do muro eram temporários e portanto feitos de madeira, por isso pouco restou deles.  


Do lado de dentro do forte, o alojamento e a latrina eram os prédios em melhores condições. Era possível reconhecer perfeitamente a latrina que tinha espaço individual para receber até 30 pessoas ao mesmo tempo. Sim, as pessoas simplesmente sentavam umas ao lado das outras quando precisavam usar a latrina sem nenhum senso de privacidade.

O prédio do alojamento era largo, com 30 metros de lado a lado e espaço para até 100 homens segundo estimativa do guia. Ele possuía duas lareiras com chaminés para garantir o aquecimento. O prédio ao lado servia como refeitório onde a comida era servida aos soldados e mais a frente ficava a cozinha e o depósito para estocar alimentos.

As lareiras eram essenciais para manter o conforto dos homens, os prédios não tinham janelas, mas possuíam dutos de ventilação no teto que podiam ser abertos ou fechados dependendo da estação do ano. Eles ajudavam a escoar a fumaça e permitiam a ventilação. No inverno a temperatura nessa região pode chegar a -20 graus, com neve, geada e vento forte. Durante o resto do ano a temperatura média é de 10 a 20 graus, com períodos de muita chuva.

Ruínas do Alojamento de soldados
As fundações de um prédio do Forte
Infelizmente a casa do Comandante da Guarnição desapareceu por completo, restando apenas duas paredes e o piso no chão. Todos os pisos por sinal são idênticos com pedra lisa unida por concreto. Há escadas e rampas que permitem o acesso às diferentes áreas da ruína. Não restou nenhuma construção com telhado inteiro e não existem também janelas nos prédios. O máximo de ventilação é proporcionado por frestas.

Já nos muros existem espaço para observação, que poderiam ser interpretados como brechas ou frestas através das quais os sentinelas podiam fazer a vigília. Eu tentei me colocar no lugar das sentinelas observando o horizonte cinzento e contemplando atentamente pelas frestas algum movimento suspeito. Dali era possível ver o entorno da fortificação e antecipar qualquer avanço inimigo.

À noite deveria ser frio, escuro e absurdamente assustador ficar olhando o vazio enquanto se esperava por um possível ataque. Os soldados ficavam nesse pequeno posto de vigilância, batendo os pés para afastar o frio da madrugada, esfregando as mãos para se aquecer minimamente. Nas noites mais frias eles podiam usar um manto comprido de lã que concedia alguma proteção contra o clima gelado, mas para pessoas vindas de regiões quentes do mediterrâneo, aquilo devia ser horrível.


Casa do Comandante Pretoriano
Caserna de guarda com a fresta para vigília
Fico imaginando o que pensavam e por onde seus pensamentos viajavam enquanto esperavam ali pelo amanhecer. Talvez pensassem a respeito do lugar onde nasceram, sobre suas famílias e sobre as dificuldades do dia a dia. Quais seriam suas expectativas, medos e esperanças? O que será que pensavam ao mirar o horizonte, tentando conciliar seus pensamentos com a  tarefa de vigilância. 

Quantos soldados ao longo de séculos não se enfiaram naquela mesma caserna apertada de vigília e se debruçaram para observar melhor o exterior enevoado? O que sentiam ao ver as planícies verdes, as trilhas ingrimes e as nuvens baixas? Será que temiam os povos locais, será que eram felizes ou estavam simplesmente aterrorizados de viver nesse lugar ermo? 

É difícil dizer, provável que a maioria deles eventualmente acabasse se acostumando à vida nos limites do Império. A maioria deles casava, tinha filhos e iniciavam suas famílias naquelas terras estranhas. Imagino que devia ser extremamente difícil para os soldados recém chegados. Devia ser inquietante especialmente à noite. Esses homens não tinham ninguém a quem recorrer exceto seus companheiros de armas.

Ao lado da estátua do Imperador Adriano
Busto do Imperador
Não é de se estranhar que os soldados criavam laços com os habitantes locais. Naquele lugar distante de tudo, os vínculos tinham de ser estabelecidos até por uma questão de sanidade. O isolamento era incrível! Não havia ninguém por perto. Viver ali devia ser uma provação. Era realmente uma fronteira e é impossível invejar a vida dura que essas pessoas levavam.

Quando enfim o Império Romano começou a desmoronar, os homens que habitavam esses fortes distribuídos ao longo da Muralha de Adriano  começaram a se sentir abandonados. Eles tinham cada vez menos notícias de Roma e havia cada vez menos legados e visitantes imperiais. Em dado momento devem ter se sentido desobrigados de continuar a vigília. A essa altura, a maioria já havia se misturado aos locais. 

Aos poucos os homens foram deixando as muralhas e a vigília. Sem olhar para trás juntaram seus poucos pertences, suas famílias e partiram para algum vilarejo. Se tornaram "bárbaros", como aqueles que deviam vigiar.

Poucos séculos depois, a Muralha de Adriano abandonada pelos seus soldados e com a manutenção sonegada regrediu a um estado de ruína. O forte foi sendo tomado pelo mato e ninguém o usou por muitos séculos. Durante a Idade Média ela era apenas uma curiosidade deixada pelos romanos um testamento de uma época em que um grande povo tentou traçar os limites entre civilização e barbárie.


Hoje a Muralha de Adriano continua lá e provavelmente continuará muito depois que eu (e todos que estão lendo isso) tiver partido. Foi nisso que pensei ao me me afastar do lugar e olhar uma última vez por cima do ombro enquanto descia pela trilha. 

Juro que ao me voltar para o posto de vigília onde havia estado poucos momentos antes, senti como se um sentinela romano estivesse ali. E foi impossível não levantar a mão em uma despedida solitária para algum soldado fantasma que observava. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Muralha de Adriano - Os Limites do Império Romano na Escócia


Próximo do fim do primeiro século, os Romanos já haviam incorporado ao seio do Império a maior parte do território hoje pertencente à atual Inglaterra. Não havia sido nada fácil dada a resistência dos povos locais decididos a não se submeter ao jugo dos invasores. Os romanos já haviam experimentado um histórico de violentas rebeliões no sul, sendo a mais famosa o levante comandado pela rainha celta Boadicea, em 61, que resultou na destruição de Londinium, povoado romano que deu origem a Londres. Outros levantes causavam sérios danos e constituíam um obstáculo às pretensões do Império. Havia líderes tribais hostis e os druidas, representantes das velhas crenças pagãs, condenavam a invasão dos romanos, que haviam recentemente adotado a crença cristã.

Demorou quase um século, apenas quando Cláudio chegou ao trono, para as operações nessa região se intensificarem e surgirem resultados favoráveis para os romanos. O que hoje é conhecido como Inglaterra, em especial a região sul e leste, foi enfim conquistada pelas legiões.

Em meados de 70 dC, a atenção dos romanos se voltou para o norte, um território chamado Caledônia, que oferecia vastas riquezas na forma de escravos e metais. Essa conturbada região que hoje corresponde à Escócia sinalizava como o próximo alvo natural para as expansões imperiais. Tratava-se de uma região selvagem e pantanosa, habitada por inúmeras tribos e clãs bárbaros que formavam um povo conhecido pelos romanos como Pictos. Os Pictos eram vistos como uma grave ameaça à seu domínio. Seu nome em latim significava "pintados" e se referia às tatuagens e pinturas corporais que eles adotavam quando iam para a batalha. Esses guerreiros implacáveis, de cabelos negros e pele morena, se entregavam ao calor da batalha de uma forma que assustava até os legionários mais calejados.  Os pictos lutavam nus e tinham uma bravura que beirava a insanidade. Saltavam para o combate com lanças e machadinhas, investindo sem se importar com a própria segurança.


As primeiras incursões romanas na Caledônia ficaram marcadas por mais derrotas do que vitórias. Os pictos se mostraram inimigos ferozes e dispostos a tudo para preservar as suas terras. Eles sabiam como se mover rapidamente pelo território e armavam emboscadas mortais que causavam sérios danos às tropas romanas. No mais famoso e ousado desses ataques, uma emboscada noturna teria causado baixas consideráveis à IX Legião. Os homens que retornaram da expedição à uma charneca foram literalmente massacrados pelos pictos usando flechas envenenadas. Os poucos que voltaram com vida estavam muito feridos ou enlouquecidos pela experiência.

De acordo com Tacito, cronista principal do Governador Julius Agrícola, o ponto de virada para os romanos foi a vitória conquistada em 83 dC, na sangrenta Batalha de Mons Grapius, que resultou numa verdadeira carnificina. Os romanos conseguiram atrair um grande contingente de seus inimigos para uma luta em campo aberto onde, sabiam, levavam vantagem. Acreditando que sua vantagem numérica lhes daria a vitória, os pictos invadiram o campo de batalha aos milhares. Foram derrotados pela melhor organização e disciplina dos romanos. Hordas de pictos foram rechaçadas uma após a outra pelas centúrias romanas dispostas ao longo do campo. Segundo o historiador, a ferocidade do combate foi tamanha que os caledônios que se viram forçados a bater em retirada abateram suas próprias mulheres e crianças temendo a represália dos inimigos. A maioria deles escapou para as Terras Altas no Norte da Ilha.

Parecia então questão de tempo até que os romanos conseguissem estabelecer controle total sobre as disputadas terra do norte. Contudo, não foi isso que aconteceu. Embora tenham conquistado uma vitória decisiva, ela não se mostrou definitiva já que os pictos restantes não estavam dispostos a ceder seu território sem luta.


Sabendo que não poderiam fazer frente aos romanos no campo de batalha, os Caledônios adotaram outra estratégia para enfrentar os invasores. Passaram a atacar os povoados e fortes estabelecidos pelos romanos, usando para isso bem elaboradas táticas de guerrilha. Os ataques aconteciam à noite e logo que os romanos se organizavam para o contra-ataque, os pictos escapavam para algum território pantanoso que conheciam bem e no qual podiam se refugiar para se defender melhor. Os romanos perderam muitos homens nesses ataques e nas perseguições que se seguiam. Isso afetava enormemente o moral das tropas que passaram a temer os pictos e reputar a eles rumores apavorantes. Diziam que os guerreiros eram mais feras que homens e que seus feiticeiros podiam se transformar em serpentes venenosas.

Os pictos por sua vez se mostravam cada vez mais ousados nas suas incursões. Os primeiros assentamentos romanos sofreram pesadas perdas nas mãos de saqueadores que roubavam gado, incendiavam fazendas e espalhavam o terror entre os colonos. Deixavam após sua passagem um rastro de morte e destruição ao longo de toda fronteira. A Caledônia logo passou a ser considerada uma das regiões mais perigosas do Império e o risco de se estabelecer nesse lugar selvagem afugentava a maioria dos colonos. Os constantes ataques de clãs pictos se tornaram um incômodo para Roma que precisava realizar campanhas regulares que consumiam fortunas em recursos e homens. Eles podiam ter conquistado as terras, mas os pictos continuavam sendo uma incômoda pedra em sua sandália.

Entra em cena então o Imperador Adriano.


Adriano havia reformado os exércitos, equipou as tropas e ganhou enorme respeito entre os militares ao adotar para si a vida de um soldado comum, marchando e carregando equipamento como qualquer outro legionário à serviço do Império. Mas embora contasse com o amor e devoção de seus exércitos, Adriano ainda tinha inimigos políticos - e temia ser assassinado em Roma. Decidido a manter distância desses rivais, ele deu início a uma série de visitas às Províncias do Império. Até então, aquilo era uma novidade, já que o Imperador raramente deixava Roma. Durante essas viagens ele arbitrava disputas, pacificava querelas e espalhava sua boa vontade, assumindo o papel de grande conciliador. Adriano defendia que Roma deveria estabelecer limites para o Império e refrear seu ímpeto de conquistas em favor de consolidar as terras que já possuía.

Um dos lugares visitados pelo Imperador Adriano foi a problemática Província da Britânia que constituía um exemplo perfeito para sua visão anti-expansionista. Do seu ponto de vista, de nada adiantava anexar novos territórios, se aqueles já governados estavam sujeitos a levantes e rebeliões. Adriano queria assegurar a posição de Roma sobre a Britânia e garantir que as terras fossem consolidadas de uma vez por todas.

O ideal seria manter os revoltosos à distância e impedir que eles cruzassem a fronteira para realizar ataques aos fortes e povoados já existentes. Tendo esse objetivo em mente, os romanos planejaram erguer um muro, protegido por sentinelas e fortificações. Dizem as lendas que o conceito do muro partiu do próprio Adriano que fez o desenho da muralha. Com esta criavam uma zona de exclusão capaz de manter os inimigos à distância, o que garantia a segurança e desenvolvimento dos assentamentos estabelecidos. Traçando esse limite, mostrariam que os romanos estavam ali para ficar. 


As obras para a construção da colossal muralha se iniciaram no ano 122 dC, à mando do Imperador Adriano em pessoa. O muro de pedras se estendia por mais de 120 quilômetros, atravessando planícies como uma linha divisória. Sua extensão cobria de costa a costa a região em que o território britânico se estreitava como um gargalo. Para acompanhar a construção do muro, os romanos despacharam tropas incumbidas de fazer a segurança dos operários. Pontuaram essa fronteira com nada menos do que 260 fortificações responsáveis por suprir os trabalhadores vindos de todos os cantos do império. Em meio à construção, mudaram o foco e os próprios soldados começaram a se ocupar do trabalho de erguer o muro.

A maior parte da matéria prima, pedra e turfa, foram obtidas no local, ainda que o transporte de um canto para o outro tenha sido um desafio considerável. Os operários talhavam as pedras, enquanto escravos as transportavam até o local desejado para sua colocação. Madeira e metais foram trazidos de longe ou negociados com líderes britânicos locais que se tornaram aliados dos romanos da noite para o dia. A edificação do muro ironicamente ajudou a pacificar rivais de longa data que se viram atraídos pela possibilidade de enriquecer com o enorme empreendimento.   

Os romanos fizeram de tudo para economizar onde podiam na obra, mas apesar disso, a qualidade da construção impressionava. O muro demorou quase 6 anos para ser construído e contou com pelo menos 15 mil operários. No final das contas, era uma obra sólida e extremamente resistente que cumpria a sua função de imediato. Com uma altura média de 4,5 metros por 2,5 metros de largura o muro fornecia uma defesa eficiente contra invasores. O seu topo era percorrido por uma estrada de 1 metro de largura, por onde transitavam as sentinelas. Os quartéis espalhados ao longo do muro, com torres de observação ofereciam abrigos de onde era possível ver os arredores e se precaver da aproximação de inimigos. Mais do que isso, os soldados podiam dormir, descansar e cozinhar sem abandonar o posto.


A Muralha de Adriano não foi erguida apenas por questões de segurança. Ela servia a outra importante função - gerar renda para o Império. Historiadores acreditam que a barreira possuía postos que cobravam taxas sobre circulação de mercadorias e pedágio para a passagem de pessoas. A muralha também ajudou a atrair um fluxo de colonos que se sentiam protegidos por ela. Não por acaso, povoados começaram a nascer junto da muralha ou próximo a ela permitindo a colonização da Província. Curiosamente, alguns povoados de caledônios também começaram a se instalar perto da muralha por indivíduos interessados no comércio que se desenvolveu gradualmente.

Mas os planos de Adriano de desenhar os limites do Império Romano e consolidar as terras esbarraram na ambição de seus sucessores. Em 138 dC, o Imperador Antonino ordenou uma nova invasão da Caledônia, reascendendo as disputas com os Pictos. As tropas romanas avançaram de forma significativa em território escocês, a ponto de construírem uma segunda muralha dedicada a Antonino, 160 km ao norte da de Adriano e já bem mais próximo das Terras Altas.

A Muralha de Antonino era menor, com 63 km de extensão, e erguida com barro em vez das pedras como a fortificação original. A construção só resistiu por 12 anos, até 154. As linhas romanas retrocederam para a Muralha de Adriano que se firmou como o ponto defensivo mais ao norte. O império faria mais quatro grandes invasões, incluindo uma, em 209, com 40 mil homens. Em 211, chegou-se a um acordo de paz com os clãs locais, já bastante romanizados tendo adotado tradições, religião e até mesmo o idioma.


Com a decadência do Império Romano nos séculos que se seguiram, a Muralha de Adriano, que ficava longe demais da sede do Império começou a perder homens e teve sua manutenção negligenciada. No século IV, os caledônios lançaram uma ofensiva que a muralha não foi capaz de conter. Às voltas com as invasões bárbaras em Roma, mais e mais tropas foram deslocadas das ilhas britânicas, até que em 410 teve fim a administração romana. Os povos locais passaram a controlar a Muralha que foi então gradualmente abandonada.

Os romanos, no entanto, haviam deixado um legado indelével tanto na paisagem quanto na história local. Britânicos e também os caledônios haviam assimilado muito de sua cultura. Roma também incentivou o surgimento de cidades o que ajudou a desenvolver a região antes isolada e perigosa. O comércio se estabeleceu e a adoção de leis diminuiu os riscos para os que viajavam. Estradas ligavam pela primeira vez os centros urbanos, assim como canais para abastecimento de água e técnicas de cultivo e colheita nos campos.

A Muralha de Adriano existe até hoje, é uma construção magnífica, verdadeiro testemunho da genialidade dos romanos e de sua capacidade de mobilização nos tempos antigos. Milhares de turistas a visitam anualmente e se impressionam com sua grandiosidade.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A Narrativa do Oficial Moledo - A conclusão do relato sobre um estranho incidente


Continuação...

O boletim do Oficial Portuário Moledo atestava que em 15 de março de 1918, ele e mais três agentes bateram a porta do Templo dos Mistérios Verdadeiros, na Ponta do Felix querendo conversar com o Pastor Tapio. Estavam em busca também de um homem chamado Norberto um bandido conhecido na região portuária. Alguns insistiam ter visto o sujeito em mais de uma reunião do Templo, apontando-o até mesmo como uma espécie de braço direito do Pastor. Assumiram que, ou ele fazia parte da congregação ou tinha algum tipo de negócio com ele.

Os agentes portuários foram expulsos e quando disseram que voltariam com apoio policial, acabaram ameaçados por alguns fiéis. Um eles alegadamente chegou a lhes mostrar uma arma de fogo como forma de intimidação. Dois dias mais tarde, Moledo retornou ao local conforme prometido, dessa vez acompanhado de duas viaturas e 12 homens enviados de diferentes delegacias da região. Os homens estavam armados e prontos para qualquer eventualidade. Alguns moradores locais, quando viram a chegada e souberam que haveria uma batida no Templo dos Mistérios, se voluntariaram a acompanhar o grupo. Afirmavam que estavam fartos da presença do estranho culto em Antonina e queriam sua remoção imediata.

Ao chegar ao templo no começo da noite, a diligência foi recebida por uma turba armada com porretes, pedras, facas e ao menos duas armas de fogo. Os homens se puseram diante da entrada com a clara intenção de impedir a ação. A resistência ferrenha eventualmente descambou para violência e os policiais terminaram por revidar, o que resultou em seis feridos, ao menos dois, fatalmente. Com os tiros, o bando se dispersou, sendo que alguns correram para o interior do depósito que servia de templo. Os policiais então os seguiram, adentrando no salão onde encontraram um grupo formado principalmente por mulheres e crianças que os recebeu com indignação. O bando foi rendido e escoltado para fora. Lá dentro prosseguiram até o salão contíguo, onde souberam mais tarde ocorriam as cerimônias. Foi ali que os policiais se depararam com acontecimentos de difícil explicação.


Havia um bando de indivíduos no amplo salão, todos homens de aparência grosseira e disposição rude, verdadeira malta. Alguns deles gritavam impropérios e desferiam xingamentos aos policiais, rasgavam suas roupas e chegavam ao absurdo de rosnar e babar conforme descreveu Moledo. Os homens tinham um olhar selvagem e arreganhavam os dentes ameaçadoramente. O pior é que eles estavam acompanhados de três enormes cães negros que o agente descreveu como maiores e mais agressivos que os infames capa-pretas (como se referia ao pastor alemão). As feras investiram contra os membros da diligência que logo se viu acossada pelos enormes animais - dois policiais e um civil foram derrubados no chão em meio a um turbilhão de garras e presas que os rodeava. Enquanto os homens gritavam em pânico, outros cederam ao medo irracional e fugiram apavorados. Felizmente alguns mantiveram sua determinação e dispararam contra os cães demoníacos que segundo Moledo, não largavam suas presas mesmo depois de alvejados repetidas vezes. O agente nesse momento se permitiu um estranho comentário afirmando que quando os animais eram feridos, os homens em torno gritavam como se os feridos fossem eles próprios (!) 

A algazarra de gritos e latidos se espalhou pelo ambiente, até que os animais foram abatidos e os homens arrastados para um canto e colocados sob vigia dos policiais armados. Terminada a luta haviam três policiais mortos, vítimas dos cães. Uma das feras ainda gania baixo em seus estertores. Moledo questionou os prisioneiros sobre o Pastor Tapio, mas não obteve nenhuma resposta coerente; estava claro que aqueles homens eram loucos e não haveria diálogo com eles. Gritavam palavras estranhas e clamavam por nomes bizarros, a medida que babavam em um frenesi como se fossem possessos. 

Nesse momento, nova gritaria irrompeu dessa vez do lado de fora do templo. Os homens correram para saber do que se tratava já apavorados com tudo aquilo. Encontraram ali dois policiais que haviam sido incumbidos de guardar o depósito e impedir a saída de suspeitos. Um dos policiais, um sujeito muito querido entre os demais chamado Manuel do Carmo, estava caído numa poça de sangue, seu rosto e garganta dilacerados pelo ataque de um animal de grande porte. Uma fera parecia tê-lo agarrado pelo pescoço e depois de sacudi-lo de um lado para o outro, como fazem os animais com suas vítimas, simplesmente o jogou de lado tal qual um boneco de pano. O outro, um rapazote de nome Antonio Bispo, estava agachado num canto tampando os olhos. Foi difícil fazê-lo contar o que aconteceu. Questionado, gritava sem parar, ora gargalhando, ora chorando. Quando finalmente conseguiu parar de matraquear, disse coisas sem sentido que fizeram as pessoas que ouviram a narrativa se benzer.

Ele concedeu uma explicação esdrúxula sobre o que os atacou na entrada do Templo. Era, segundo o tal Antonio Bispo, um enorme cão preto que investiu contra eles como uma tempestade; derrubou Manuel em um átimo e o matou facilmente. A enorme fera, muito maior que qualquer cão que o rapaz pudesse imaginar existir, era magro e musculoso, patas poderosas e uma bocarra repleta de presas. Andava de quatro, mas por vezes parecia um homem se colocando nas patas de trás. Quando passou por Antonio rosnou e o encarou com olhos injetados de predador que fizeram as forças abandonar seu corpo. Ao contar isso, o rapaz voltou a chorar e segundo Moledo, o pobre coitado ficou tão abalado que teve de ser mandado para longe.

Os homens se entreolharam assustados. Imaginavam que seria uma simples batida para prender contrabandistas, mas aquilo era muito pior. Um deles sussurrou que o lugar era o covil do diabo e que só algo cuspido pelo inferno seria capaz daquela atrocidade. Diante de todo aquele sangue e espetáculo de morte, ninguém se sentia pronto para contradizer essa noção.

Moledo relatou que mais tarde procurou explicação para o que havia sucedido. Ainda que absurda, a descrição da criatura demoníaca, acabou sendo repetida por três testemunhas que juraram ter visto uma fera de corpo sinuoso e escuro correndo pelo porto, oculta pelas sombras. Ninguém se interpôs no caminho dela e todos sentiram que se o fizessem, a fera os liquidaria de pronto. Foram categóricos em dizer que ela parecia feita de escuridão, quase uma sombra viva. E na escuridão desapareceu sem deixar rastro e menos ainda paradeiro.

Os cultistas mais furiosos, capturados no interior da Igreja foram escoltados para fora e colocados em algemas e na falta destas, amarrados com cordames. Não reagiam, mas continuavam sussurrando aquelas palavras sem aparente significado. Posteriormente foram levados para uma delegacia e colocados atrás de grades. Moledo não deu detalhes, pois parecia incomodado sobre o assunto e vago ao relatar que fim levaram aqueles sujeitos rudes. Ele contou que não encontraram o Pastor Tapio ou Norberto em lugar algum e assumiram que os dois escaparam. Talvez tenham sabido da batida e nem estivessem no templo em primeiro lugar. Fato é que as pessoas não queriam conjecturar muito a respeito, principalmente depois que alguns sugeriram que o enorme cão negro parecia ter vindo justamente dos aposentos do Pastor Tapio. Superstição e tolice, salientou o Oficial Moledo na carta, como se tentasse ele próprio afastar conceitos sobre os quais é bom não elucubrar em demasia.

Os jornais nos dias seguintes deram amplo destaque ao ocorrido, jornalistas escreveram sobre os acontecimentos e explicitaram o caráter estranho do culto e de seus integrantes. Contudo, foram bastante econômicos nos detalhes mais escabrosos, possivelmente por conta de um pedido expresso de pessoas ilustres que não queriam manchetes mencionando fanatismo no estado. Considerando tudo que aconteceu, foi um verdadeiro milagre a história não ter sido contada na íntegra. Por outro lado, quem acreditaria no que foi relatado, quanto mais sabendo que haviam ainda mais detalhes perturbadores.

Estes detalhes adicionais constavam na carta enviada por Vitorino Moledo ao Reverendo Granberg.  Eram pormenores que deixaram o religioso particularmente incomodado. De fato, ele ficou tão consternado com a história que muitos afirmaram tê-lo afetado a ponto de perder parte de sua disposição e vigor. Até então, o Reverendo era um homem cheio de energia e alegria, tornara-se por conseguinte taciturno e introspectivo. Talvez tenha ponderado muito a respeito de queimar a narrativa nos anos seguintes, e provavelmente o teria feito, se imaginasse que isso pudesse fazê-lo esquecer do incidente. Mas é claro, não poderia! Sentia haver verdade naquelas palavras e não duvidou em momento algum que Moledo ofereceu um panorama fidedigno dos acontecimentos. Não exagerou em nada, talvez pelo contrário, tenha censurado algo que julgou inacreditável.

O primeiro elemento macabro que preocupou o religioso mencionava que após a batida na igreja, as vítimas  naturalmente haviam sido removidos do local. Os corpos acabaram sendo amontoados em duas carroças cedidas por um comerciante de peixe local que as cobriu com uma lona para o féretro. As duas seguiram para uma casa de saúde, onde os corpos seriam preparados para serem entregues às famílias ou sepultados. Por falta de outro método para transportar os cadáveres, a carcaça dos cães negros também foram colocadas numa carroça a fim de serem incineradas conforme ordenou o Oficial Moledo. Entretanto, quando o comboio chegou ao seu destino, houve uma grande surpresa. O enfermeiro incumbido de remover os restos se deparou com um mistério. Encontrou numa carroça mais corpos do que o esperado. De fato, haviam três homens com ferimentos de balas na carroça onde foram colocados os cães. Um destes não era outro além de Norberto, o braço direito do Pastor Tapio. Em contrapartida, dos cães demoníacos não havia sinal e deles nunca se soube.

Em uma cidade pequena é difícil manter tal incidente em segredo. Sempre há alguém que revela o ocorrido, confiando na discrição do interlocutor. Muito se comentou a respeito do sumiço dos cães demoníacos e do surgimento dos corpos nus crivados de balas dentro da carroça. Felizmente, nem todos acreditaram no ocorrido e muitos disseram que se tratava de exagero ou de uma mentira deslavada. Muitos optaram por assumir uma coisa ou outra. Na impossibilidade de se explicar aquilo que não ten explicação, melhor duvidar de tudo.

O corpo de Norberto e dos outros dois homens não identificados foram enterrados em um terreno colado ao cemitério, sem identificação ou lápide. Foram simplesmente jogados ali numa vala e cobertos de terra.

O segundo detalhe perturbador ocorreu no dia seguinte. Uma vez esvaziado, o Templo foi revistado e de dentro dele começaram a ser trazidos alguns objetos de natureza inquietante. O incansável Oficial Moledo tomou parte nessa ação, coordenando o esforço. Alguns civis se ofereceram para ajudar, mais por curiosidade a respeito do que existia ali dentro do que qualquer outra coisa. No entanto, bastava uma olhada nas salas para que o ânimo deles arrefecesse. Havia uma aura ruim ali dentro e mesmo sem ninguém que os ameaçasse, as pessoas ali se sentiam intimidadas.

Na lista de objetos apreendidos constavam estranhas estátuas de aparência bizarra, coisas esculpidas em madeira, pedra e bronze, com figuras estranhas que suscitaram dúvidas quanto ao que o escultor quis representar. Algumas delas eram estranhas além da conta e um dos homens ao vê-las correu para fora dizendo que não ficaria nem mais um minuto naquele antro.

No aposento que pertencia ao Pastor Tapio, encontraram bíblias que nas palavras do oficial "não eram exatamente bíblias". Ele as descreveu como tomos volumosos de páginas amareladas com capas emboloradas repletas de desenhos medonhos. Estavam escritos em latim e outros idiomas que o oficial não foi capaz de decifrar. Contudo, ele não precisava compreender o que diziam para saber que aquelas páginas malditas estavam cheias de maus agouros. De fato, meramente folhear o material fez-lho ordenar que alguém ateasse fogo àquilo. No Templo em si recuperaram um cálice, uma faca de lâmina recurva e uma bacia de cobre, tudo manchado de sangue seco. Moledo mandou que destruíssem e queimassem tudo aquilo e só fez ressalva para alguns itens que recolheu e mais tarde colocou em uma caixa para remeter ao Reverendo Grenberg. Estes, chegaram às mãos do religioso algumas semanas mais tarde. Na caixa junto com o relatório estava uma daquelas "bíblias", um crucifixo enrolado num pano vermelho e a mitra que o Pastor usava.

O livro sem título chamou a atenção de Grenberg que folheou o volume incapaz de disfarçar o desgosto que sentia. A coisa era medonha, escrita em vários idiomas - que iam do latim ao português, do alfabeto cirílico a outros que ele sequer foi capaz de compreender. Haviam ainda incontáveis caligrafias que denotavam que passara de mão em mão ao longo de gerações. O conteúdo era pavoroso pelo pouco que o Reverendo conseguiu entender, trazia uma versão ainda mais blasfema das crenças da Seita, com trechos que o fizeram sentir náuseas. As gravuras eram grosseiras, mas com um poder latente de causar choque e asco. As cenas remetiam a rituais, quase todos sanguinolentos e de uma natureza atroz. Cães e lobos figuravam em várias páginas, destacados como os Predadores à serviço de um Deus vingativo e intempestivo, dado a arroubos de cólera e fúria. 

Contudo, foi o crucifixo que fez o Reverendo Grenberg quase perder o rumo. A peça estava embalada em um pano vermelho com glifos bordados. Era um objeto pesado e grotesco feito de madeira talhada (na cruz) e bronze moldado (na imagem). Era muito antigo, disso tinha certeza, verdadeiro artefato digno de museu. Representava um Cristo crucificado como os que são vistos na parede de qualquer casa cristã. Contudo, havia uma diferença marcante absolutamente blasfema naquele item: a cabeça do Cristo havia sido substituída pela de um cão. Uma besta nefasta similar à descrição daquelas feras abatidas no templo.

O Reverendo levou o crucifixo até seu escritório onde a mantinha trancada numa gaveta. Sempre que o analisava, o fazia com a porta trancada, retornando acabrunhado da experiência. Não desejava que mais ninguém visse a coisa profana, pois temia pela sanidade dos que pousavam demasiadamente os olhos nela. Averiguou que haviam inscrições no verso da cruz, em algum idioma desconhecido, supostamente os mesmos símbolos desconhecidos contidos no tomo. Talvez não saber o que dizia fosse melhor para todos.

Uma das poucas pessoas que teve acesso ao objeto foi justamente o biólogo João Forlan que visitou o amigo no ano seguinte. Ouviu atentamente a narrativa, leu o relatório e manipulou os artefatos mesmo depois do Reverendo dizer que aquelas coisas tinham a capacidade de atrapalhar o sono e causar pesadelos. Forlan copiou os símbolos cabalísticos e se encarregou de pesquisar suas origens. Disse que os símbolos remetiam aos que ele havia visto nas paredes do templo quando esteve na Assembléia um ano antes.

Nas suas pesquisas ele encontrou indícios de que os glifos estavam associados a um culto obscuro da Europa Oriental, "O Culto do Cão" oriundo do Norte da África. Este se espalhara por outras partes do globo, levado por seus cultistas. A Seita era devotada a uma divindade do Submundo, associada ao Deus Egípcio Anúbis e com a divindade Suméria Bau, ambos deuses com cabeça canídea. Ambos estavam ligados a Sirius - não por acaso uma estrela azul importante em tradições místicas. O Deus, no entanto, era ainda mais antigo e seu nome jamais era revelado. Diziam que a divindade também era reverenciado pelos temidos ghûls, os escavadores das profundezas que se fartavam com a carne dos mortos. Seus seguidores humanos eram dados a rituais terríveis que incluíam necrofilia, canibalismo e outras perversões. Em tempos idos ficaram conhecidos por lançar bebês recém nascidos nas presas de cães ferozes. Seus mitos eram descritos em livros raros, guardados em bibliotecas restritas. Forlan vasculhou esses lugares em sua busca e apurou outros detalhes. Rumores dando conta de que o culto ainda existia e que fora carregado para o Novo Mundo, atingindo terras distantes onde se entranhou na sociedade assumindo certos elementos de sincretismo religioso.

No fim, João Forlan acabou perdendo o interesse no assunto e se radicou na América em meados de 1923. Deu-se por enojado a respeito do tema, incapaz de prosseguir nele sem arriscar sua saúde física e mental. Ele faleceu em 1928, na Epidemia de Gripe espanhola que assolou Boston.

Triste sina também acompanhou os demais envolvidos no incidente que jamais conseguiram se desvencilhar de sua participação no ocorrido. O Reverendo Grenberg viveu pouco mais de cinco anos, falecendo no início de 1924 depois que um derrame deixou o lado esquerdo de seu corpo paralisado. Era acometido por frequentes pesadelos nos quais se via perseguido por uma fera de aspecto sombrio. Acordava aos gritos com frequência. Um dos seus últimos atos foi enviar a carta, o livro e o Crucifixo para um dos seus superiores clericais. Seu intuito era de que este tomasse ciência do ocorrido e se manifestasse a respeito. Até onde se sabe, a carta chegou à pessoa escolhida, mas se ele esta a levou a sério ou não, quem pode saber? O material supostamente permanecem em poder da Diocese de São Paulo.

O último personagem envolvido no incidente, o Oficial Portuário Vitorino Moledo responsável pelo relato faleceu em 1919, pouco menos de um ano após os eventos no Porto de Antonina. As circunstâncias de sua morte foram consideradas trágicas, e embora incomuns, não ensejaram investigação oficial, embora muitos a tenham considerado estranha a ponto de demandar tal coisa. Não existem muitos detalhes, mas sabe-se que o oficial não retornou de uma diligência ocorrida em um porto de Santa Catarina. Os rumores dão conta de que em algum momento durante uma inspeção na área de Navegantes, ele foi vítima de pessoa, ou pessoas que o atacaram, possivelmente com o intuito de roubá-lo. Testemunhas afirmaram ter visto o oficial cercado de três ou quatro homens armados com facas e porretes. Após ser agredido ele teria sido colocado em um barco que deixou o porto às pressas. Algumas pessoas revelaram algo curioso, afirmando ter ouvido muitos latidos e uivos na noite em questão. Uma testemunha teria ido mais longe, afirmando ter visto uma Besta se esgueirando nas sombras naquela na data fatídica. Mas como diferenciar exageros de fatos?

Seja lá o que tenha acontecido, Moledo sumiu e não se soube mais dele. Alguns amigos e parentes próximos contaram que o Oficial Portuário vinha agindo de maneira preocupada, sempre olhando por cima do ombro, reparando em quem estivesse próximo. Carregava no bolso uma pistola a partir de então, afirmando que com ela se defenderia de agressores que um dia haveriam de procurá-lo. Quando perguntado a respeito de quem seriam, ele não respondeu às indagações. Aqueles que eram mais íntimos dele afirmaram que ele parecia esperar esse confronto, dando-o como certo. Apesar das testemunhas, a falta de suspeitos tornou o crime difícil de ser resolvido. No final das contas, assumiram que o gênio irascível do Oficial e sua famosa retidão moral acabaram incomodando algum criminoso mais ousado.

É claro, os jornais noticiaram o fato e lembraram de sua participação na Batida no Porto de Antonina, mas não houve muitos que fizessem a conexão necessária para presumir crime de vingança. Um repórter chegou a mencionar que um Culto semelhante àquele que se instalou em Antonina havia se fixado no Norte de Santa Catarina, novamente em um porto. Mas, o autor não confirmou a fonte da notícia, se limitando a citar pessoas que viviam na área, gente simples que reclamava de uivos e rosnados nas noites em que a tal congregação se reunia sempre à portas fechadas para realizar seus rituais. O que se passava naquele lugar permanece mistério que ninguém soube explicar.

Passado o terror que se instalou no Porto de Antonina, as coisas voltaram aos poucos à sua normalidade. A vida dura nas docas demandava que as pessoas deixassem de lado os boatos e se concentrassem no dia a dia. Logo, mesmo aqueles que testemunharam os fatos começaram a deixar de lado o assunto, tornando-o dentro de algum tempo um simples rumor e mais tarde uma história de pescadores na qual era difícil de acreditar. Talvez o fato do antigo depósito na Ponta do Felix ter se incendido poucos meses depois tenha contribuído para a história ser gradualmente esquecida. Houve suspeitas de que os próprios trabalhadores das docas atearam fogo ao lugar como se vê-lo arder em chamas fosse um remédio contra as más lembranças que a sua presença incômoda conjurava. Ninguém assumiu a façanha, mas com certeza ela serviu para fazer a pequena comunidade dormir melhor.

Contudo, mesmo hoje, quando o som de latidos e uivos se faz ouvir em Antonina, os mais velhos que lembram daqueles dias estranhos se voltam para a Ponta do Felix preocupados com o que ali existia.





quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A Narrativa do Oficial Moledo - Um estranho relato de profanação e horror


Nos primeiros meses de 1916, um estranho visitante chegou ao Porto de Antonina no litoral Leste do Paraná. Muito pouco se sabia a respeito dele, além de que havia viajado desde a Bacia do Rio da Prata e que havia chegado à bordo de um pequeno navio de passageiros. O sujeito era estranho, com um olhar nervoso que parecia sempre examinar atentamente os arredores. Sua barba escura crescia sem cuidado e suas roupas estavam amarrotadas. Ele falava com um sotaque estranho e embora dominasse o idioma local, pontuava suas frases com estranha reticência. 

O homem, como alguns logo ficaram sabendo, era uma espécie de pastor itinerante. Ele viajava de porto em porto pregando e fazendo discursos religiosos. Naquela época isso era bastante comum, embora a maioria das pessoas não se desse muito ao trabalho de ouvir as palavras desses pregadores sem um endereço fixo. Os rudes e atarefados trabalhadores das docas também davam pouca importância a eles. Contudo, aquele forasteiro tinha definitivamente algo de diferente. Já na embarcação em que havia chegado, reuniu um pequeno grupo de seguidores, consistindo em sua maioria de imigrantes e alguns calejados pescadores locais. O bando era visto frequentemente rezando e repetindo palavras em castelhano, no idioma açoriano, num português quebrado ou noutros tantos dialetos. A maioria dos que passavam, davam de ombros e continuavam com seus afazeres. Mas alguns paravam para ouvir, sobretudo os mais desesperados.

Semanas se passaram e quem prestava atenção percebia que o grupo composto à princípio de meia dúzia de pessoas havia crescido. Tinham se tornado pouco mais de uma dezena, depois duas dezenas e então uma pequena aglomeração formada por algo entre 30 e 40 indivíduos. O estranho pastor, que chefiava o grupo falava e falava, as pessoas que o seguiam repetiam, sorriam, choravam e davam socos no peito. Era estranho, mas não particularmente bizarro. Vestiam-se de forma austera sempre de preto, os homens na frente, as mulheres e algumas crianças mais atrás. 

Em tempo, a estranha congregação se transferiu para um depósito abandonado nas docas da Ponta do Felix, prédio que havia se incendiado fazia algum tempo e cujas ruínas enegrecidas não tinham serventia para ninguém. Os marinheiros e estivadores até ficaram satisfeitos ao ver o grupo saindo do caminho, os oficiais portuários deram graças pois era um incômodo ter de lidar com aquela gente mau encarada que olhavam com raiva quando advertidos a não atrapalhar o funcionamento do porto. Felizmente, os encontros da congregação passaram a ser realizados à noite, quando as docas ficavam quase desertas e ninguém se sentia incomodado por eles. De fato, o grupo reformou o depósito, limpou a fachada e começou a restaurar o lugar em ruínas. Havia menos mendigos nas ruas e mesmo nas docas as coisas pareciam mais organizadas. Certo dia, alguém percebeu que haviam colocado sobre o portão de entrada uma placa onde se lia: "Primeira Congregação dos Verdadeiros Mistérios".

Poucos anos mais tarde, um estudante chamado João Henrique Forlan viajava pela área com intuito de coletar animais, visto que era biólogo. Dava especial interesse ao ramo da entomologia, o estudo e catalogação de insetos. Além de seus estudos de entomologia, ele também escrevia extensivas narrativas a respeito de tradições locais e folclore. Suas observações detalhadas e repletas de colorido permitiram que colecionasse vários colegas com quem mantinha correspondência regular.

Ao retornar para casa, Forlan escreveu uma carta particular ao Reverendo Emanuel Granberg um amigo de longa data que residia em São Paulo onde prestava trabalho na Diocese da cidade. Na carta ele descrevia um estranho culto que havia conhecido em sua excursão a Antonina. Granberg havia nascido no Leste do Paraná e embora não residisse mais lá, continuava sendo um homem respeitado que mantinha contato com suas raízes. Curiosamente, ele nada sabia a respeito da Congregação descrita pelo colega.

Na carta Forlan manifestava uma profunda preocupação com suas descobertas e pedia conselho ao Reverendo sobre o que fazer. Ele descreveu um encontro com um velho marinheiro bêbado (ou talvez louco) que dizia fazer parte de uma congregação diferente. O homem, em troca de um prato de sopa, contou que a congregação se diferenciava de todas as outras uma vez que venerava a verdadeira forma de Deus. O chefe do Tabernáculo era um homem santo, um Pastor itinerante que chamava a si mesmo de Tapio e que revelava durante suas pregações os mistérios desse Deus. 

As palavras do marinheiro não eram muito coerentes, assegurava o estudante, mas a narrativa entusiasmada, pelo que ele conseguiu entender, envolvia uma Estrela Azul de onde Deus havia vindo na companhia de anjos, para lutar com uma raça de Gigantes na aurora dos tempos. Os tais Gigantes haviam escravizado e abusado dos homens por milênios e Deus prometeu interceder por eles. A batalha teria sido monumental, e os homens por pouco não foram extintos, visto que os Gigantes, cruéis e perversos, matavam os que se bandeavam para o lado de Deus. A tal batalha teria durado séculos e no fim os Gigantes foram derrotados. Contudo, Deus estava exausto e decidiu partir para dormir e se recuperar, deixando os anjos para zelar pelos homens. Infelizmente, nas palavras do marinheiro, os homens haviam se esquecido da luta e passaram a venerar falsos deuses, ignorando o Deus verdadeiro que quase foi esquecido. A Congregação era, segundo ele, uma Igreja criada para restaurar a crença no único e verdadeiro Deus, que estaria prestes a despertar.

Forlan achou a história curiosa, pediu mais detalhes e o homem, secando a sopa que escorria do queixo e da barba, forneceu a direção até o Templo dos Verdadeiros Mistérios. Ao chegar lá, o estudante foi recebido por um grupo de pessoas que o olharam com desconfiança, ele pensou consigo mesmo que mais pareciam mendigos, com roupas pretas remendadas. Quando disse que queria entrar para conhecer a paróquia lhe informaram que estava fechada para estranhos e que interessados em conhecer a igreja, só eram admitidos em uma noite específica. Como ele ficaria na cidade por mais uma semana poderia participar do encontro, já que este aconteceria dali poucas noites.

No dia combinado, Forlan compareceu e foi recebido por um grupo bem mais amistoso, ainda que igualmente mau encarado. Eles ficaram claramente surpresos em conhecer alguém que se dizia um acadêmico, visto que a maioria dos membros vinham de classe muito baixa. De fato, João Forlan percebeu que os outros que lá estavam pela primeira vez, pareciam vagabundos, mendigos e imigrantes. Ele e os demais visitantes tiveram o mesmo tratamento e foram convidados a depois da missa fazer uma ceia no refeitório do templo. Até então Forlan não havia percebido nada de anormal na congregação, apesar das pessoas parecerem estranhas, não havia nada que o incomodasse sobremaneira. O salão paroquial era amplo e com cadeiras dispostas aqui e ali, diante de uma espécie de palco de paquete. As paredes pintadas de roxo eram decoradas com estranhos símbolos geométricos amarelos que ele não conseguiu reconhecer. Não havia altar, mas um pequeno púlpito de onde o Pastor se dirigia aos fiéis. Parecia uma igreja humilde, como qualquer outra, mas sua opinião mudou quando o Reverendo Tapio lhe foi apresentado.

O homem usava uma túnica cerimonial preta com escapulário remendado, um tipo de estola roxa bordada com aqueles símbolos e um ridículo chapéu de tecido que lembrava uma mitra. Não era nativo dessas paragens, com toda certeza e Forlan assumiu que fosse provavelmente um imigrante ucraniano, polonês ou mesmo russo. A maioria esmagadora dessas pessoas, gente reservada e esforçada, veio parar por aquelas bandas por conta dos fluxos migratórios. Buscavam oportunidades de trabalho em terras distantes e tinham uma vida dura e honesta. Mas havia alguns entre eles com outros interesses, como constatou Forlan. Tapio tinha uma barba escura que crescia selvagem pelo rosto comprido e seus olhos azuis reluziam com incrível poder de persuasão. Era alto e seu traje austero lhe concedia uma aparência ainda mais esguia e autoritária. 

O biólogo não simpatizou com o homem, embora não fosse capaz de precisar o motivo. Ele foi cortês e apertou sua mão com firmeza, olhando-o olho no olho quando as apresentações foram feitas. O Pastor não sorriu ou manifestou satisfação em conhecê-lo em momento algum, manteve um frio distanciamento pouco condizente com um religioso. Não lhe faltava carisma, não era isso, ponderou, era mais, uma flagrante ausência de empatia. 

Foi quando o Pastor Tapio falou, que Forlan se sentiu mais perturbado. Não apenas pelo que ele disse (e o que ele disse foi suficientemente estranho), mas como ele escolheu dizer. Há palavras que carregam peso e batem fundo na alma produzindo resultados inesperados. Aquele homem sabia como se comunicar e como ser convincente, mesmo que falasse absurdos. Era positivamente um fanático e suas palavras estavam repletas de um zelo messiânico virulento - o tipo de coisa que fazia os de mente fraca se mutilar, sacrificar e pior, matar quem deles discordasse. Ao discursar e apresentar os dogmas de sua estranha crença, o Pastor Tapio jamais ergueu sua voz, mas tinha uma determinação e seriedade, que traduziam um tom implícito de grave ameaça. Aquilo incomodou tanto o biólogo que ele considerou deixar o recinto e só não o fez por temer que alguém se sentisse ofendido pela atitude. Decidiu que seria de bom tom ficar lá até o fim, mesmo que as palavras transbordassem com insânia.

O Pastor Tapio revelou sua versão apocalíptica da Guerra entre seu Deus e os anjos, travada contra os Gigantes. Mas revelou detalhes que o marinheiro bêbado havia deixado de fora. Forlan lamentou que o tivesse feito, do contrário ele teria simplesmente ignorado o convite para conhecer a Congregação. Ao ouvir o discurso, ele prestou atenção na expressão de quem estava em volta e percebeu faces transfiguradas pela cega devoção e inabalável crença naquela fábula bizarra.

Para Derrotar os Gigantes, disse o Pregador Tapio, Deus havia ensinado a alguns homens seus mais profundos segredos, sendo o maior deles a transformação no que ele chamava de "feras". Essa habilidade havia sido transmitida apenas a alguns sacerdotes imbuídos de preservar esse conhecimento sagrado. Tapio alegava que aqueles com a habilidade de mudar sua forma tinham em suas veias correndo sangue divino. Para dividir com o restante da congregação esse sangue, o grupo realizava um tipo de Eucaristia na qual, ao invés de pão e vinho representado o corpo e sangue do salvador, os participantes bebiam o sangue do próprio Pastor. Forlan viu um cálice de metal baço e ensebado ser passado entre os membros mais importantes da congregação, que cerimoniosamente bebiam dele. Sorviam o que quer que estivesse ali dentro com respeito e reviravam os olhos até que só o branco deles ficasse à mostra. Com alívio ele soube que novos membros não tinham permissão de pousar os lábios no cálice.

O Pregador proclamou que o sangue servia para operar a mudança e fazer com que os escolhidos pudessem se tornar feras quando chegasse o momento. Ele disse ainda que o despertar de Deus estava próximo e que quando este acordasse apenas uns poucos, os que realmente acreditavam, estariam ao seu lado. Os demais, seriam punidos por serem ímpios, e caberia aos fiéis levar a esses inimigos a redenção. "Não somos as ovelhas do rebanho, somos as feras que caçam para o Deus Verdadeiro", proclamou em determinado momento, para júbilo geral.

Após o culto, o Pastor se retirou e a ceia foi servida conforme prometido. Membros da seita perguntaram a Forlan o que ele havia achado e o biólogo pensou que seria melhor manter sua opinião para si, se limitando a dizer que achara interessante. Os outros iniciados naquela noite, contudo pareciam convencidos das palavras do Pregador, mais ainda, estavam dispostos a retornar para assumir um lugar como parte do Culto.
    
Em sua carta ao Reverendo Emanuel Granberg, o biólogo João Forlan havia deixado claro a estranheza do culto, que ele acreditava contar com talvez uma centena de adeptos. Seu temor era que esses fanáticos pudessem mais cedo ou mais tarde cometer algum ato temerário. A região já havia sofrido com movimentos messiânicos que ensejaram levantes radicais e que descambaram para a violência. Bandos formados por fanáticos foram responsáveis por episódios traumáticos bastante recentes, em especial o Contestado, cujas cicatrizes ainda estavam abertas vertendo amargor.

O Reverendo agradeceu a Forlan pela carta e tratou de se informar sobre o que acontecia. Para tanto, entrou em contato com parentes que moravam nos arredores de Antonina e perguntou se sabiam algo a respeito da estranha congregação que se estabeleceu na Ponta do Felix. A resposta não tardou a chegar. Na carta uma parente distante, que tendia ao exagero (conforme reconhecia o próprio Reverendo), mencionava que as pessoas não sabiam exatamente do que tratava a Igreja surgida nas docas, mas que muitos desconfiavam do Chefe da Congregação, um sujeito taciturno que alguns tratavam como demente, mas que outros tinham como um homem santo. 

Diziam que ele comandava o lugar, frequentado por toda ordem de maltrapilhos e indigentes, alguns envolvidos com contrabando, jogo e prostituição, coisas infelizmente endêmicas em toda zona portuária. Havia no entanto, coisas ainda mais sérias que foram comunicadas como rumores, mas que faziam o povo de Antonina perder o sono e se preocupar. Primeiro eram os sons e ruídos misteriosos ouvidos na calada da noite - pareciam uivos, conforme mencionavam, lamentos longos que reverberavam pelo porto. Alguns se enervavam com aquela algazarra e já haviam reclamado, se perguntando se os fiéis mantinham animais no templo.  

Outro boato inquietante dava conta de estranhos desaparecimentos e de violência contra quem falava mal da Igreja. Alguns tinham medo e evitavam passar pela Ponta do Felix sobretudo à noite. A série de rumores atingiu o auge quando um fiscal das docas, que havia tido um entrevero com membros da congregação, sumiu. Seu corpo nu e mutilado foi içado das águas lamacentas menos de três semanas antes da Carta do Reverendo chegar e o incidente causou rebuliço. Embora muitos desconfiassem dos paroquianos, não havia provas que os ligassem ao ocorrido. Estranhamente, o corpo tinha ferimentos condizentes com mordidas de cachorro e uivos foram ouvidos na noite em que o fiscal sumira. As autoridades não sabiam o que pensar e os residentes estavam amedrontados. 

Mas além dos rumores, parecia haver algo mais... algo que os parentes do Reverendo alegaram não querer se aprofundar para que o parente da cosmopolita São Paulo não os tomasse como tolos supersticiosos de uma cidade provinciana. Se limitaram a afirmar que a seita estava metida com algo ruim e deveras reprovável. 

Granberg conversou com alguns conhecidos, gente importante de quem cobrou providências. Na época, o medo de levantes motivados por miseráveis com inclinação religiosa era palpável. Ninguém queria outro "monge" José Maria insuflando agitação popular. Prometeu-se investigar o caso, mas nada de concreto foi apurado. Sim, o culto era estranho e sim, a maioria das pessoas torcia o nariz para suas atividades, contudo não havia nada que corroborasse as suspeitas de algo mais sério. A solução para a angústia do Reverendo veio de um lugar improvável, através de um Agente Portuário da vizinha Paranaguá, um sujeito chamado Vitorino Moledo. 

Moledo tinha fama de incorruptível a ponto de não aceitar os agrados dados por contrabandistas que usavam o litoral sul para escoar suas mercadorias. Colecionava desafetos e efetuara uma quantidade impressionante de prisões e apreensões de carga ilegal. O Reverendo entrou em contato com Moledo por indicação de um amigo em comum. Na carta destacou habilmente que membros da Igreja estavam envolvidos em atividades ilícitas que justificavam uma investigação criteriosa. Ao que parece, já havia uma suspeita e a carta vinda de São Paulo, acrescida do nome de alguns políticos influentes, deu o empurrão necessário para colocar as autoridades em movimento. 

O Reverendo Granberg ficou sabendo da tragédia que transcorreu no Porto de Antonina alguns dias depois. Leu em jornais da capital pequenas notas de rodapé sobre uma confrontação ocorrida em sua cidade natal e buscou saber mais. Todas fontes diziam que policiais e membros de uma seita haviam se enfrentado e pessoas dos dois lados haviam morrido e se ferido. Contudo a ausência de detalhes, o deixava incomodado. Cogitou seguir para o Paraná assim que possível, para se inteirar em primeira mão sobre o que acontecera. Só não o fez pois chegou até seu endereço uma inesperada caixa de madeira, remetida pelo Oficial Portuário Vitorino Moledo. 

O pacote entregue às pressas continha objetos confiscados na Igreja e um relato detalhado dos acontecimentos sucedidos antes e depois da batida efetuada no lugar. Incapaz de interpretar o que eram aquelas coisas e ainda perturbado pela maneira como a ação transcorreu, o Oficial considerava ser melhor o Reverendo decidir o que fazer. Recomendava, no entanto, que ele destruísse aquilo tudo, o que ele, Moledo, só não fez por achar que cabia a um religioso interpretar o material. No relato transcrito por Moledo, composto de 20 páginas manuscritas, havia a menção de que os objetos foram confiscados na ação conduzida por ele no Templo, ocasião em que policiais e suspeitos acabaram mortos e outros tantos feridos. Policiais também acabaram afastados permanentemente de suas funções. O próprio Moledo afirmava que não fosse sua obrigação profissional, preferia não ter tomado parte na diligência. Ele mesmo reconhecia estar confuso com a situação que sobreveio à batida policial. 

"Se pudesse escolher, preferia jamais ter tomado parte naquilo, pois me sinto assombrado pelo que vi naquele antro" comentava na caligrafia impecável que introduzia o material despachado. "De toda forma, penso que lhe devo satisfação dos acontecimentos para sua ciência", ponderava antes de iniciar a transcrição dos eventos conforme segue.

(continua)