quinta-feira, 7 de março de 2013

A Rosa de Stalingrado - A história da maior piloto de combate da Rússia


Hoje é Dia Internacional da Mulher e o Mundo Tentacular presta homenagem a suas leitoras contando a história de uma notável mulher que se destacou em uma das mais sangrentas frentes de batalha da Segunda Guerra Mundial.  

Em 13 de Setembro de 1942 uma esquadrilha de bombardeiros alemães atacava Stalingrado despejando bombas sobre a cidade já em ruínas. Escoltando os bombardeiros Junker 88 estavam os excelentes caças Messerschmitt BF109, um dos orgulhos da Força Aérea Alemã, a Luftwaffe. No lado dos defensores russos estava uma esquadrilha de YAK-1. 

No papel era uma tremenda desvantagem. 

Os Messerschmitt eram 100Km/h mais rápidos que os aviões russos. Seus potentes motores de 1.455 HPs humilhavam os patéticos motores de 1.180HPs dos YAK. Em se tratando de armamento, nem se fala. Os caças nazistas contavam com plataformas com múltiplas metralhadoras que eram mais potentes, com maior alcance e capacidade de munição muito superior.

Mesmo assim os russos não pensavam duas vezes e partiam pra cima dos alemães na base da dentada se fosse necessário. Aquela era uma batalha decisiva, se os nazistas tomassem Stalingrado, a União Soviética corria o risco de sucumbir.

Quando um dos bombardeiros JU-88 mergulhou em chamas metralhado, isso só serviu para aumentar a fúria de um dos pilotos alemães, que partiu atrás do inimigo responsável pela façanha. 

O alemão notou que aquele piloto russo, responsável pelo abate era muito agressivo, com um estilo de pilotagem ousado, contudo sua habilidade indicava que ele também não era nenhum novato. Voando sob o comando do General Wolfram Freiherr Von Richthofen, um parente direto do legendário Barão Vermelho, o Sargento Erwin Maier também era considerado um ás condecorado, com nada menos que 11 vitórias em combate aéreo e detentor de uma Cruz de Ferro.

Mas em uma batalha aérea o que vale é a capacidade do piloto não seu currículo. O caça russo partiu pra cima do piloto nazista, sentando o dedo no canhão de 20 mm até que, com o avião em chamas, o Sargento Erwin teve que engolir o orgulho e saltar de paraquedas. Capturado pelas tropas russas, pediu para conhecer o piloto que o havia derrotado. Quando se encontraram ele riu, achando que era brincadeira, até o piloto russo descrever em detalhes as manobras do combate. Nesse momento Erwin Maier descobriu que havia sido derrotado por uma mulher.

Para ser mais específico por uma jovem de 21 anos chamada Lydia Litvyak. Aquele era seu terceiro vôo em combate e o Messerschmidtt do Sargento Maier foi o primeiro caça derrubado por ela, e o primeiro na história abatido por uma mulher em combate aéreo.

Com 14 anos Lydia, que sempre amara aviões, entrou em um curso de pilotagem graças ao seu pai um aviador veterano. Ela fez seu primeiro voo solo aos 15 e se tornou instrutora em um Clube de Aeronautas aos 18 anos. Conhecia aviões como poucos e entendia do funcionamento e mecânica dos aparelhos. Com o início da guerra, ela tentou se alistar, mas entre as exigências havia a necessidade de ter um determinado número de horas de pilotagem e um registro militar. É claro, os russos também estavam em dúvida quanto a entregar um de seus poucos aviões a uma mulher. Diante da situação Lydia fez o que podia: mentiu descaradamente sobre sua experiência. Mas a medida que o exército alemão avançava, o esforço de guerra forçou os soviéticos a buscar toda ajuda disponível o que o levou a treinar mulheres para várias funções, inclusive combate aéreo.

Nos testes de voo Lydia conseguiu atingir todos os parâmetros necessários para se graduar e passou a integrar o Regimento de Defesa Aérea 586, formado apenas por mulheres responsáveis pela defesa de Stalingrado.   

Dizem que Lydia adorava flores, plantava pequenos jardins nas bases onde servia e sempre voava com um buquê de rosas brancas na cabine de seu caça, para desespero dos pilotos homens com quem dividia o avião. Para manter os cabelos bem loiros, pedia para uma amiga enfermeira, roubar água oxigenada no hospital. Mas apesar dessas demonstrações de feminilidade, quando estava no cockpit ela se transformava. Considerada como uma piloto de caça arrojada, Lydia era extremamente agressiva, atacava sem dar trégua ao adversário empreendendo perseguições de forma implacável. Em mais de um combate teve de retornar para a base porque esgotara totalmente as reservas de munição.

Ela recebeu uma alta condecoração, a Ordem da Estrela Vermelha por seu papel marcante na defesa aérea de Stalingrado e o posto de tenente. Logo depois foi selecionada para integrar a okhotniki, uma divisão de elite de pilotos de caça que podiam escolher seus alvos por conta própria. Conhecidos como "Caçadores Solitários" os okhotniki eram os melhores pilotos, responsáveis pela vanguarda da defesa do espaço aéreo russo. 

Em 22 de Março de 1943, Lydia atacou com outros cinco YAKs uma força inimiga composta de bombardeiros pesados e mais uma escolta de caças. Depois de derrubar um dos bombardeiros, seu avião foi atingido e ela foi ferida por estilhaços de metralhadora. Rangendo os dentes ainda conseguiu abater um Messerschmidt antes de retornar a base sangrando.

Em 16 de Julho, ela já estava de volta ao combate. Desta vez sua patrulha de seis YAKs se deparou com um comboio aéreo de trinta bombardeiros e seis caças de escolta. Ela sozinha derrubou um bombardeiro, ajudou na eliminação de outro, foi atingida e teve de realizar um pouso forçado de barriga. Lydia se recusou a receber tratamento médico e no dia 19 já estava de volta nos céus em mais uma batalha em que confirmou o abate de dois Messerschmidts. Rapidamente ela ganhava reputação entre os pilotos.

Em primeiro de Agosto de 1943, Lydia voava a sua quarta missão do dia, tendo derrubado dois caças alemães. Ela estava exausta mas aceitou a missão de acompanhar uma esquadrilha de bombardeiros soviéticos. Talvez fosse a exaustão, talvez o sol tenha atrapalhado, mas ela não viu dois caças inimigos descendo das nuvens em direção ao seu avião. As metralhadoras dispararam de surpresa e o YAK com o número 32 na fuselagem foi colhido pelas rajadas.

Seu colega, o aviador Ivan Borisenko conta que viu Lydia e os dois alemães entrando em uma nuvem. Depois por um momento vislumbrou o avião dela soltando fumaça e sendo perseguido por oito Messerschimidts que se juntaram a caça. Oculto de novo pelas nuvens, o avião de Lydia desapareceu. 

Nas semanas seguintes, os russos procuraram em vão por sinais de explosão, destroços, para-quedas, mas nada foi encontrado. Sem a confirmação de sua morte, seguiram-se boatos de que ela teria sido capturada pelos alemães ou que tivesse de alguma forma feito um pouso de emergência e estivesse escondida em uma fazenda no território ocupado pelo inimigo. A Guerra terminou e com ela a esperança de que ela um dia ressurgisse.


Apenas trinta e seis anos mais tarde e muitas investigações, a verdade apareceu. Uma Comissão do governo descobriu que o YAK-1 de Lydia, caiu nos arredores do vilarejo de Dmitrievka. Na época, o local se encontrava sob o controle dos alemães, mas os camponeses verificando que se tratava de uma conterrânea, retiraram o corpo das ferragens e a enterraram em uma sepultura onde escreveram apenas "piloto de caça". O corpo foi exumado e após exames médicos concluíram que era realmente a piloto.

Morta com apenas 21 anos, em sua breve vida Lydia, a "Rosa Branca de Stalingrado" participou de 66 missões oficiais, derrubou 12 aviões inimigos, auxiliou em outros tantos ataques e foi uma das duas únicas mulheres a ganhar o status de Ás no decorrer da Segunda Guerra Mundial.

Em 1990, o então Presidente da União Soviética Mikhail Gorbachev agraciou postumamente a Tenente Júnior Lydia Litvyak com a medalha de Heroína da União Soviética, a mais alta condecoração do país.


Ok, eu sei o que alguns podem estar pensando... o que isso tem a ver com Call of Cthulhu e horror cósmico?  Tudo bem, eu me rendo... NADA!

Contudo, eu abro um parenteses aqui para um pequeno pedaço de informação que pode ser interessante. A tenente Litvyak é considerada o modelo para muitas heroínas pulp surgidas em meados dos anos 40 até os 50. O fato dela ser bonita, talentosa e arrojada, é claro, fez com que ela se transformasse em exemplo de heroína internacional, capaz de suplantar até as questões doutrinárias e as disputas entre capitalismo e socialismo.

Vista como uma heroína na Inglaterra, Lydia serviu como modelo para mulheres britânicas em busca de direitos e de espaço na sociedade. Afinal, uma mulher tendo participação ativa na guerra, constituía a derrubada de uma das últimas barreiras entre os sexos. Mesmo na América associações de mulheres se uniram para aplaudir as ações dessa pioneira dos ares.  

5 comentários:

  1. Materia bem interessante.

    Boa escolha pra data.

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  2. É interessante fazer ligações entre as ações das mulheres pioneiras e as repercussões que elas influenciaram na sociedade.

    Mal consigo imaginar a totalidade da influência da tenente Lydia como heroina pulp e como exemplo a ser seguido pela mulheres do mundo.

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  3. Talvez Lydia Litvyak tenha inspirado de alguma forma personagens como a Mulher-Maravilha. A princesa Diana recebeu esse homem em homenagem a piloto Diana Trevor que se sacrificou para impedir a fuga dos deuses Titãs da prisão cuja entrada ficava na ilha Paraíso.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Tem um erro aqui. A foto do meio é de Natalya Meklin e a de baixo é de Maria Dolina.
    A Lydia Litvyak era essa aqui:

    http://img36.imageshack.us/img36/5171/litvyak02.jpg

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