domingo, 28 de abril de 2013

Arco do Telles - A Lenda da Feiticeira que aterrorizou o Rio Antigo

Dica do nosso colega Max de Carvalho, dei uma cavada e encontrei mais alguns detalhes.


A MISTERIOSA HISTÓRIA DO ARCO DO TELES.

Com base no texto de Guar Antiga

A Travessa do Comércio, na Praça XV, reduto da boemia carioca tornou-se famosa pelo arco construído sobre ela, no século 18 - o Arco do Telles.

O que pouca gente sabe (e quem sabe não comenta) é que o beco debaixo do arco testemunhou muita coisa estranha. Há quem o considere um lugar maldito e garanta que até hoje é mal assombrado. Dentre os diversos episódios estranhos que envolvem o lugar, veremos um dos mais terríveis: a história de uma das primeiras feiticeiras do Rio de Janeiro, certamente a mais cruel. Desculpem-me pelo relato forte e chocante. Todos os fatos que vou citar ocorreram e estão registrados em documentos antigos da polícia carioca.

Com a construção da Casa do Governo pelo governador Gomes Freire no Largo do Paço (atual Praça XV), as redondezas se valorizaram e passaram a ser frequentadas pela alta sociedade. Vendo isso, o português Antônio Telles Barreto de Menezes (juiz e proprietário de terras em Jacarepaguá e Baixada Fluminense) mandou construir uma série de casas para aluguel naquele logradouro, pelos idos de 1743.

Quando a obra chegou à travessa do Mercado do Peixe, o engenheiro Alpoim (responsável pelo projeto) teve que traçar um amplo arco sobre ela, para que a via dos mercadores não ficasse obstruída pela nova construção. Vem daí o apelido de "Arco do Telles". Os prédios foram todos alugados, ficando os térreos principalmente para os lojistas de secos e molhados; a casa maior, justamente a que ostentava o arco, foi ocupada pelo Senado da Câmara (equivalente hoje à Câmara dos Vereadores).

A má sina daquele local iria se revelar nessa época, mais exatamente em 20 de julho de 1790, na loja térrea próxima à rua Direita, onde existia uma loja de objetos usados denominada curiosamente de "O Caga Negócios". Um violento incêndio criminoso destruiu o prédio e deixou dezenas de feridos e dois mortos. O fogo atingiu o andar superior e consumiu o arquivo do Senado da Câmara, perdendo-se assim toda a documentação referente aos primórdios da cidade, inclusive os recibos e cobranças de foros (espécie de IPTU da época) e os registros gerais de imóveis. Além dos documentos, houve vítimas fatais e muitos feridos com graves queimaduras.

A partir desta tragédia, a área perdeu o viço e caiu em decadência. As famílias "de bem" abandonaram o local e as ruínas ainda chamuscadas, lambidas pelas chamas passaram a servir de refúgio para prostitutas, mendigos e perigosos marginais, como o Bentevi, o Juriti e o Olho de Gato. Também havia os loucos, como João Alberto Matias, autointitulado "Barão de Schindler", conhecido do povo como "Filósofo do Cais". Alto, de fraque verde, descalço, cachimbeiro e sempre com um alto boné de soldado com plumas. Seria descendente de uma nobre família alemã, combatente nas guerras napoleônicas. Um dia enlouqueceu de vez e foi recolhido ao manicômio.

Imagem de um semanário do século XIX
Apesar de ter sido colocado no alto da passagem um oratório de Nosssa Senhora dos Prazeres, a baixaria era tão grande que moradores das proximidades decidiram remover a santa para a Igreja de Santo Antônio dos Pobres, onde ainda permanece.

Foi nesse ambiente nefasto, em meio à escória da cidade, que Bárbara dos Prazeres certa noite apareceu, rompendo a penumbra do beco do Arco dos Telles. Começava ali uma história de pavor que assombrou a cidade.

A Travessa do Mercado, em 1790, era um verdadeiro antro de prostituição do mais baixo nível. A polícia não entrava ali por nada. Dizem que mais de uma centena de mulheres faziam ponto na área, a travessa era escura e favorecia os "negócios" feitos em plena rua para quem quisesse ver. Muitas das mulheres viviam mancomunadas com violentos gigolôs que assaltavam e em certos casos surravam os clientes.  Em pelo menos um caso, teria havido uma degola. Dentre as mais famigeradas figuras do Arco do Telles nessa época, sobressaiu-se uma prostituta e depois feiticeira que atendia por Bárbara dos Prazeres. A maior parte dos dados abaixo foram registrados pela Intendência Geral de Polícia, criada pelo Príncipe D. João, em 1809.

Nascida em Portugal no ano de 1770, tinha 18 anos de idade quando veio com o marido para o Brasil. No Rio de Janeiro, apaixonou-se por um mulato e assassinou o esposo para viver livremente com o amante. Consta que o homem, porém, passou a explorar a jovem e chegou a consumir a maior parte dos seus bens. Durante uma briga do casal, Bárbara o matou. 

Marcada pelos assassinatos e sem meios de subsistência, restou à jovem de 20 anos ganhar a vida se prostituindo. Fez seu ponto exatamente ali, debaixo do Arco do Telles, onde angariou vasta clientela. Por quase 20 anos, ela considerou ter encontrado a sua vocação e o seu lugar na sociedade. Era bonita e atraente, e chegou, dizem as más línguas a atrair gente da sociedade e mesmo da nobreza que vinha de longe para conhecê-la. Por algum tempo, Bárbara teve uma casa fixa e condições razoáveis de vida. Mas sempre se envolvia com tipos que a exploravam e irremediavelmente acabava perdendo tudo.  


Seu nome aparece nos registros do Intendente Geral de Polícia, desembargador Paulo Fernandes Vianna, como Bárbara dos Prazeres (por causa do oratório no Arco do Telles) e também como Bárbara "Onça" (referência à sua ferocidade). As expressões: "cuidado que a bruxa está solta!" e "olha que a Onça está solta!" teriam se popularizado em virtude da fama que ela ganhou anos mais tarde.


Placa na Travessa

Com o tempo a vida desregrada começou a cobrar seu duro preço. Bárbara havia envelhecido e já não atraía tantos homens. Os cabelos estavam embranquecendo, os dentes estavam podres e seus encantos, há muito haviam perdido o viço. Alguns riam de suas propostas e a ridicularizavam, ela cuspia e os xingava. Certa ocasião teria levado uma surra de dois escravos a mando de um senhor que se enfureceu com as suas maldições. A partir de então se queixava de dores nos ossos que a cada dia ficava mais insuportáveis.  É provável que tenha contraído sífilis e a fama de doente, somada a aparência desgrenhada afastava ainda mais os clientes.


Temendo cair na miséria e na solidão, desesperada, ela procurou um remédio nas muitas casas de feitiçaria e magia negra do Rio de Janeiro. Na época, não eram poucos os estabelecimentos que ofereciam respostas místicas para as mais variadas aflições: unguentos, passes, mandingas e patuás eram ofertados por "especialistas" que os prescreviam com a autoridade de doutores. Consumidos pela população, eles eram as soluções para a maior parte dos problemas. O que Bárbara buscava era uma poção que aliviasse suas dores e a tornasse bonita e jovem outra vez.

Uns dizem que custou todo o dinheiro que ela tinha juntado, outros, que o preço foi sua alma; de concreto, o que se sabe é que alguém lhe passou uma fórmula que teria o efeito desejado. Os componentes eram certas ervas que ela podiam juntar visitando as matas da cidade, mas o outro ingrediente era mais complicado. A receita exigia sangue humano ainda quente, melhor ainda, se fosse de criança.

Foi então que começou a raptar meninos pobres, filhos de escravos e mendigos. Andava pelas ruas sempre de olho em crianças sozinhas ou longe o suficiente das mães. Carregava no bolso da saia doces ou brinquedos que usava para ganhar a confiança dos pequenos e prometia mais se eles viessem até a sua casa. As crianças iam com ela, pois a feiticeira sabia se fazer de inocente e bondosa. Em sua tapera decadente na Cidade Nova, ela as esganava ou dava de beber uma dose de ervas misturada com cerveja amarga. Realizava então o sinistro sacrifício. Atava uma corda aos pés da vítima e a dependurava de ponta cabeça, içando-a sobre um balde ou tina colocada abaixo. Com uma faca afiada, cortava a garganta e entornava o precioso sangue, ainda quente correr dentro da tina onde depois se banhava. Em algumas ocasiões se banhava direto sob a torrente escarlate gargalhando loucamente.  


Não há números exatos, mas foram dezenas as vítimas que a feiticeira sacrificou em seu lúgubre ritual de rejuvenescimento. Ela contava vantagem para as colegas: dizia estar ficando mais bela, a pele mais alva do que antes e os cabelos mais escuros. Verdade ou não, sua loucura com certeza a fazia acreditar nos resultados do ritual. 

O pavor tomou conta da população do Rio de Janeiro a medida que crianças desapareciam sem deixar vestígios. Acreditava-se que um depravado estivesse agindo nas vielas escuras, raptando meninos e meninas para satisfazer suas vontades bestiais. Os cadáveres apareciam nos descampados e matas, simplesmente largados em lugares desertos. Os suspeitos eram muitos: um gigolô quase foi linchado, um escravo chegou a ser perseguido por uma turba furiosa e um comerciante foi apontado como culpado e teve de fugir antes de ser pego. Ao menos o medo serviu para dificultar a ação da assassina: as crianças passaram a ser trancadas em casa e a só sair na companhia de adultos. 

A Roda dos Inocentes na Santa Casa 
Bárbara precisava de vítimas e começou a ficar de tocaia na Roda dos Inocentes da Santa Casa, onde eram abandonados os bebês rejeitados pelas próprias mães. O bebê era colocado em uma espécie de bandeja giratória e um sino era tocado, fazendo a bandeja girar para dentro. Lá uma enfermeira apanhava a criança e a encaminhava para um orfanato. A roda evitou a morte de muitas crianças que antes eram simplesmente afogadas ou abandonadas nas ruas. Para Bárbara, a roda era uma chance de colocar as mãos em crianças que não podiam reagir e com quem ninguém se importava. 

Entretanto, em uma das vezes, ela foi vista tentando retirar um bebê da roda, e seus braços por pouco não ficaram presos no mecanismo giratório. Furiosa ela se afastou maldizendo a enfermeira que veio socorrer a criança.

Não se sabe ao certo como se descobriu o envolvimento de Bárbara nos crimes, se cogita que durante um momento de embriaguez ela tenha contado o que fazia a uma de suas colegas e que esta horrorizada foi até a polícia. A feiticeira logo se tornou a mulher mais procurada da cidade em todos os tempos, mas apesar de tudo, conseguiu ludibriar seus perseguidores fugindo para o outro lado da cidade onde se misturou com a população. Teria cortado os cabelos para se disfarçar e passou a usar um nome falso. Francamente ninguém reparava nela há muito tempo, e ninguém foi capaz de descrevê-la. 

Consta que teria vivido até 1830, quando simplesmente desapareceu próximo de completar 60 anos. Nesse ano, conta-se que apareceu um cadáver de mulher boiando próximo ao Largo do Paço, com as feições irreconhecíveis. Alguns afirmaram que era Bárbara dos Prazeres, mas ninguém soube dizer como ela teria morrido. 

O Arco continuou sendo um local mal afamado e perigoso, mesmo diretamente em frente ao Paço Imperial e fincado virtualmente no centro da cidade, até o começo do século XX, quando foi reformado pelo legendário Prefeito Pereira Passos durante o bota-abaixo. Não durou muito seu lustro, em pouco tempo se transformou em moradia de baixa renda, abrigando outras portuguesas famosas, Carmem e Aurora Miranda, que lá moraram durante a infância, entregando marmitas aos fregueses de sua mãe. Hoje a área foi valorizada novamente e a região do Arco do Teles é procurada nos fins de semana como região de entretenimento e lazer com restaurantes, casas de show e gafieiras sempre cheias.

O Arco do Telles hoje
Há quem suspeite que Bárbara dos Prazeres continua viva até hoje, graças ao segredo da fórmula de rejuvenescimento que não apenas tenha teria lhe conferido juventude, mas imortalidade. E mais: teria assumido a condição de feiticeira e aplicado a receita em alguns milionários, em troca de parte de suas fortunas.

Diz-se que ainda hoje, em certas madrugadas sem lua, quando já partiram os últimos garçons dos bares da Travessa do Comércio e cessou o movimento da boemia, escuta-se no beco a gargalhada de Bárbara Onça, a feiticeira, ecoando assustadoramente pelos vazios escuros do Arco do Telles.

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sábado, 27 de abril de 2013

Cinema Tentacular: A Entidade (Sinister)


Bons filmes de horror, sem que sejam um remake aproveitador ou uma sequência picareta são coisa rara hoje em dia. Por alguma razão parece que a fonte de ideias para nos deixar assustados inexplicavelmente secou. Por isso, quando um bom filme de horror finalmente aparece, a gente acaba soltando fogos de alegria. E se o tal filme tiver um toque lovecraftiano, então, haja fogos para iluminar os céus.

Pois bem, já estão ouvindo estouros?

Deixe-me compartilhar com todos o filme que assisti semana passada, um de que nem esperava muito, mas que me deixou uma boa impressão... o nome é "A Entidade" (Sinister) que passou nos cinemas brasileiros e sumiu rapidamente.

Alguém aí assistiu? Ouviu falar? Não?

Em Sinister (eu prefiro o título original), o bom ator Ethan Hawk interpreta Ellison um autor especializado em escrever livros sobre horríveis crimes verdadeiros. Ellison está com dificuldades para escrever seu próximo livro, sobretudo porque não consegue igualar a qualidade e sucesso de seu último trabalho. Desesperado em busca de inspiração, ele tem uma "ótima idéia", e se muda de mala e cuia, mulher e crianças inclusive, para uma casa onde a família anterior foi vítima de um assassinato chocante. Todos eles foram encontrados enforcados no pátio dos fundos, bem todos não... uma das filhas desapareceu sem deixar vestígios.


Não demora muito, Ellison acaba encontrando uma caixa de papelão cheia de velhas fitas super 8 no sótão da casa. Cada fita tem títulos como "Diversão na Piscina", "Trabalho no Pátio", "Churrasco em Família" e assim por diante. Curioso para saber do que se trata, ele arranja um projetor e descobre que cada fita apresenta uma horrível filmagem em que famílias são executadas de forma aterradora. As datas mostram que isso vem acontecendo há anos.

Naturalmente Ellison fica horrorizado e perturbado com o que assiste, mas ele também fareja material de primeira para seu próximo livro, a chance de contar a estória sobre um assassino em série sádico até então desconhecido. Com visões de fama enchendo sua cabeça, ele começa a fazer pesquisas e vai se metendo cada vez mais fundo em uma investigação que coloca sua própria família em perigo. É claro, sua esposa quando fica sabendo do segredo da casa fica furiosa, e mais ainda quando sons estranhos começam a ser ouvidos e presenças invisíveis se fazem sentir na calada da noite.


Sinister tem sua parcela de "lugar comum" e de coisas que você já viu em outros filmes de horror. Por exemplo, Ellison começa a sofrer de pesadelos cada vez mais barra pesada, coisas assustadoras parecem se mover no canto de seus olhos e sua filha passa a desenhar figuras assustadoras nas paredes da casa.    

Então, lendo isso, aposto que você deve estar pensando que a estória é sobre um fantasma que tenta fazer com que o sujeito descubra quem é é o assassino em série. Bom, felizmente não. Sinister tem algo de Lovecraft (seja voluntariamente ou não) em sua trama. Algo que realmente me chamou a atenção.

Bom, assim como o Cthulhu Mythos, certo conhecimento é melhor manter em sigilo, então saiba que daqui em diante temos alguns SPOILERS.


O mal que conecta todas as famílias que morrem nas filmagens é uma força ancestral, um tipo de divindade que representa morte, assassinato e loucura chamada "Bahghoul". Mas a coisa fica ainda melhor! Essa "entidade" (que está no título em português e meio que estraga a surpresa) se alimenta da alma das crianças no processo fazendo suas famílias sofrer. Não é uma graça? O monstro tem mais um truque na manga: qualquer imagem dele é ele. Isso significa que a tal entidade é capaz de ver, ouvir e agir através de pinturas, estátuas e sim, fitas de vídeo em que ela aparece. Essa é uma ideia bem interessante reforçando aquela sensação de que "quanto mais você olha para o abismo, mais o abismo olha de volta para você". Então, enquanto Ellison tenta encontrar detalhes nas filmagens (achando sempre a presença da entidade em algum lugar), Bahghoul também começa a se interessar pelo sujeito.

Tudo bem, o tal "Bahghoul" não é exatamente um Great Old One e suas ações parecem "humanas" demais, mas trata-se de um conceito interessante... e que diabo, quem não é capaz de imaginar o bom e velho Nyarlathotep por exemplo fazendo travessuras desse tipo para levar um pouco de loucura e horror a mente e coração dos homens? Tudo bem, a entidade não é um horror alienígena como Cthulhu e companhia, mas quando se trata de corrupção e maldade o monstro é bem convincente.

Fim do SPOILER.


Ainda que Sinister não seja um filmaço de arrebentar, ao menos ele é bem feito, bem amarrado e consegue promover algumas boas cenas de susto e tensão. Dirigido por Scott Derrickson, o responsável pelo excelente O Exorcismo de Emily Rose, o filme consegue ser melhor do que 90% dos filmes de horror que chegam aos cinemas atualmente. Há algumas boas sequências chocantes, sem mencionar algumas cenas perturbadoras, sobretudo as que apresentam as elaboradas mortes em família.

Acho que vai agradar a quem está em busca de um filme sem compromisso, apenas em nome da diversão.

Cotação:


Abaixo, está o trailer:

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Os Mortos que Correm - Uma Maratona para escapar de zumbis


Ok, a gente acha que já viu de tudo, mas aí alguém tem uma dessas idéias absolutamente birutas e por isso mesmo geniais.

Combinando corrida, maratona de curta distância, amor por filmes de horror e zumbis, dois estudantes criaram o Zombie Run, um evento onde os corredores participam de uma prova cujo objetivo não é apenas completar a competição, mas sobreviver a um ataque de mortos vivos.

Vamos a explicação:

Andrew Hudis e David Feinmen (de 19 e 20 anos respectivamente) são estudantes da Universidade da Philadelphia, os dois adoram correr e são fãs de filmes de horror, em especial de zumbis. Certo dia, os dois estavam conversando sobre o que poderia fazer com que as pessoas quebrassem recordes de corrida, e um deles brincando disse: "Ora, se soltassem um bando de zumbis famintos atrás dos corredores com certeza eles bateriam todos os recordes".

E desse comentário surgiu a ideia de simular essa modalidade de competição esportiva.

A primeira Zombie Run, realizada no Parque Iroquois, na Philadelphia aconteceu domingo passado e contou com 2.500 corredores inscritos. O objetivo deles era completar os 5 quilômetros do trajeto e cruzar a linha de chegada... vivos!

Voluntários vestidos e maquiados como zumbis vagavam pela pista de corrida tentando agarrar os competidores e impedir que eles completem a prova.


Para simular a situação, cada competidor carrega três balões vermelhos presos em um cinto ou em volta do pescoço. Os "zumbis" tentam estourar os balões que representam a vida e os órgãos vitais dos competidores. Quem perde os três balões é desclassificado da competição e considerado morto.

Além dos zumbis com maquiagem sangrenta e realista, havia ainda alguns detalhes bacanas no trajeto como os juízes da prova vestindo trajes anti-contaminação, militares armados fazendo a contenção da população, megafones avisando que os zumbis estavam vindo, auto-falantes gritando para que todos corressem sem parar e extintores de incêndio disparando em momentos inoportunos.


A Zombie Run foi um sucesso tão grande que outras edições estão sendo organizadas em várias cidades, algumas acontecendo simultaneamente. Em algumas corridas, há espaço para obstáculos, labirintos, armadilhas, mangueiras d'água, piscinas de lama e tudo mais que os organizadores pudessem imaginar.

Não demora a coisa vai chegar aqui... Zombie Walk é coisa do passado! Os mortos agora CORREM!

E o fascínio pelos mortos vivos continua crescendo.

Abaixo alguns vídeos dos Zombie Run na Philadelphia:





E esse Zombie Run na Flórida parece ter sido muito elaborado:



terça-feira, 23 de abril de 2013

Máximo Poder de Fogo - E o diabo criou a Gatling Gun


Era um conceito simples. Concentrar um incrível poder de fogo em um único mecanismo, capaz de disparar continuamente, daria uma enorme vantagem em uma guerra.

Antes da diabólica Gatling Gun fazer sua estréia nos campos de batalha durante a Guerra Civil americana, vários outros inventores tentaram criar uma arma capaz de efetuar disparos consecutivos. Da Vinci foi um dos precursores, é claro; James Puckle, Billinghurst, e Ezra Ripley, também tentaram. Este último chegou a conceber o conceito de um grande tambor de revólver montado, mas não teve sucesso. Cada um deles tentou, mas os planos esbarravam em defeitos mecânicos causados pelas limitações técnicas e munição pouco adequada para esse tipo de armamento. Um dos principais problemas é que as armas travavam, engasgavam ou simplesmente negavam fogo quando se tentava fazer com que elas disparassem continuamente. Alguns protótipos até explodiram durante os testes!

A solução para o problema coube a um dentista americano chamado Richard J. Gatling que nas horas vagas gostava de inventar aparelhos mecânicos. É curioso, mas Gatling defendeu até o final de sua vida que sua arma tinha motivações pacifistas e até humanitárias. A sua esperança era que uma arma tão poderosa e com um poder destrutivo tão absurdo acabaria com as guerras tornando um suicídio insistir nelas. Na verdade, Gatling ficou tão rico após ter patenteado sua invenção e fechado contratos com as forças armadas de vários países que ele podia se dar ao luxo de dizer o que bem quisesse. Ele chegou a receber uma comenda pela sua invenção após a Guerra Civil, ocasião em que teria dito que "sua arma tornava possível um único homem cumprir seu dever, ao invés de centenas".    

Gatling posa ao lado de uma de suas armas em 1893.
Antes da Gatling Gun surgir, armas de repetição já existiam, contudo o atirador tinha de realizar a manobra para ejetar a munição usada e engatilhar uma nova. A agilidade do atirador e a prática se tornavam requisitos essenciais para a operação. Gatling resolveu o problema adicionando um tambor giratório no corpo da arma, como se ela fosse um grande revólver. Ele substituiu também a munição embalada em papel por cartuchos de pólvora distribuídos em um carregador vertical que ficava no topo da arma, diminuindo assim o risco dela engasgar.

As primeiras Gatlings tinham quatro tambores giratórios, as seguintes possuíam seis. A arma era operada com uma manivela que girava o tambor e fazia com que o cartucho fosse disparado. A cada movimento da manivela uma bala era disparada e outra entrava na câmara, permitindo que ela atirasse continuamente. Os primeiros modelos eram capazes de executar até 200 disparos por minuto, algo impensável para qualquer atirador.

Dizem que quando a arma de Gatling foi apresentada aos comandantes da União, eles ficaram sem palavras. Durante sua demonstração, a arma disparou uma rajada contínua de 150 balas contra dezenas de manequins e derrubou praticamente todos em menos de um minuto. Um dos oficiais presentes teria dito as proféticas palavras: "Só o diabo poderia ter permitido a criação de uma arma tão destrutiva".

Levada ao campo de batalha da Guerra Civil pela primeira vez em 1865, a Gatling Gun causou sensação na primeira vez que foi empregada em combate. Felizmente, ela não chegou a ser utilizada em muitas ocasiões uma vez que as tropas confederadas se renderam poucos meses depois dela começar a ser distribuída para os quartéis.

O modelo Bulldog com tripé
Mas em pelo menos uma oportunidade a Gatling Gun deixou a sua marca. Benjamin Butler foi General da União, opositor declarado de Lincoln e de muitos outros oficiais de carreira que consideravam seus métodos brutais. Butler obteve notoriedade na ocupação da Louisiana, recebendo o apelido de "A Beasta de New Orleans". Ele teria comprado doze armas Gatling pagando do próprio bolso a quantia de US$1,000.00 para equipar sua tropa o mais rápido possível. Há boatos que ele próprio fazia questão de testar as Gatlings de preferência contra alvos vivos. Dizem que Butler chegou a ordenar que rajadas fossem direcionadas contra a população civil e que prisioneiros fossem fuzilados com essas armas. O episódio causou um mal estar tão grande dentro dos Estados Unidos, que os políticos chegaram a considerar a possibilidade de proibir o uso do armamento e romper os contratos já estabelecidos. 

Mas já era tarde demais, a essa altura a arma de Gatling já estava ganhando o mundo. 

Ela foi vendida para exércitos de outros países. Ela foi empregada em 1879 pelo exército peruano que enfrentava inimigos chilenos. A célebre Batalha de Tacna (1880) foi vencida, nas palavras de oficiais peruanos, graças ao uso da arma dos gringos. Máquinas idênticas foram enviadas para o Exército Real do Canadá que as utilizou na revolta de Saskatchewan em 1885 em que os revoltosos Metis foram massacrados.  Mais de 2000 foram compradas pelas Forças Federais do México e chegaram a ser usadas na Guerra Civil. Na Rússia czarista nada menos do que quatrocentas Gatling Guns foram usadas para conter o avanço da até então invencível cavalaria turca. Ela esteve presente na Guerra dos Boxers (1904), na China, quando produziu inúmeras mortes, bem como no Egito e na Guerra de Unificação do Japão (quando ela foi utilizada contra os últimos samurais!).  


A Gatling, no entanto, ganhou fama como uma das mais eficazes ferramentas de Colonialismo no final do século XIX. Utilizada pelos britânicos nos levantes dos beduínos (na península arábica), contra as forças do Mahdi (no Sudão) e as tribos Zulu (na África Oriental), essas armas ganharam fama por abafar revoltas populares massacrando as forças opositoras com uma chuvas de projéteis mortais. O Coronel Percy Carnahan, um conhecido oficial britânico teria dito: "Deem-me 1000 dessas armas e eu prometo tomar de volta o Sudão e acabar com os homens do Mahdi de uma vez por todas".

A Gatling foi usada pelos britânicos contra os Zulus.
Mas apesar de sua inquestionável capacidade, a Gatling Gun não era perfeita. Um de seus grandes problemas era o super-aquecimento. Se o operador, chamado também de artilheiro, rodasse a manivela muito rápido ela podia aquecer de tal forma que o cano sofria uma deformação que impedia a passagem dos disparos. No pior dos casos a arma podia explodir. Para resolver o problema, muitas vezes o artilheiro contava com a ajuda de um indivíduo responsável por refrigerar a arma. O "sistema de refrigeração" (se é que pode-se chamar de tal coisa) era arcaico e consistia em molhar com uma concha de água a parte externa do barril. Posteriormente um fluido foi desenvolvido para prevenir o aquecimento, embora nem sempre ele funcionasse.

Outra complicação era o carregador de munição. Se as balas não fossem acondicionadas corretamente elas podiam ficar presas. Nesse caso a arma engasgava, e podia até estourar. Para sanar o problema, um terceiro indivíduo, chamado de municiador, ficava responsável por trocar os carregadores, recarregar a arma e manter a câmara limpa.

Portanto, para garantir uma utilização satisfatória, a Gatling carecia de uma equipe de três homens minimamente treinados em sua operação.

Outra questão incômoda era o deslocamento. Os primeiros modelos pesavam até 80 libras, aproximadamente 40 quilos e era difícil mover a arma de um ponto a outro para fazer mira. Modelos especiais foram adaptados sobre rodas e armações de cachões possibilitando puxá-los com carroças. Algumas Gatling, como o popular modelo Bulldog começaram a ser montadas sobre tripés móveis que permitia ao artilheiro girar a arma e atingir alvos em um ângulo muito mais amplo.

Apesar dos contratempos, a Gatling continuou em operação. 

O modelo usado na Guerra Hispano-Americana
Três delas foram utilizadas pelo exército norte-americano na Batalha de San Juan Hill, durante a Guerra Hispano-Americana em 1898. As três armas mantiveram as tropas espanholas acuadas disparando uma barragem de mais de 18.000 tiros em pouco menos de oito minutos, permitindo o avanço da tropa e a conquista da colina. Quando os soldados chegaram a posição ocupada pelos inimigos encontraram uma verdadeira carnificina com cadáveres retalhados e uns poucos homens horrivelmente feridos.

Mas no fim das contas, o reinado da Gatling Gun, considerada em um momento como a arma definitiva foi curto, durando apenas 45 anos. Em 1911, os modelos ainda em uso foram declarados obsoletos pelo exército americano e pararam de ser produzidos. Na Inglaterra e na Alemanha, armas mais leves, baratas e eficientes estavam sendo produzidas em massa, uma nova geração de armas automáticas chamadas de metralhadoras (machine guns). Equipadas com sistema de resfriamento à gás e funcionando com um gatilho mais estável, elas eram capazes de despejar até 1.000 balas por minuto. Na Grande Guerra de 1914-1918, metralhadoras inglesas Vickers e alemãs Maxim se tornariam as armas mais mortais no campo de batalha.

Curiosamente, o sistema da Gatling considerado antiquado ressurgiu muitos anos mais tarde, em meados de 1950 para equipar aviões. Transformados em verdadeiros canhões, uma nova geração de armamento inspirado pela tecnologia desenvolvida por Gatling, tornou-se top de linha para as forças aéreas mundiais e encontram-se em uso até hoje

As Gatling Guns também foram a base para duas das mais mortais armas da atualidade, usadas como artilharia de apoio de tropas, montadas em veículos leves, helicópteros ou carregadas por tropas especiais. A primeira é o canhão automático M-61 Vulcan (capaz de disparar até 6600 projéteis por minuto, quem assistiu ao primeiro filme da série Matrix pode levantar a mão) e a M-134 Mini-Gun (capaz de lançar 6000 balas por minuto, e vista no filme Predador).

Algumas imagens de Gatling Gun em ação:

Esta é uma Bulldog 1876:


Uma daquelas feiras de armas nos EUA onde todo mundo atira (inclusive a criançada):


E nessa aqui em mais ou menos 1:20 podemos ver o poder de fogo das Gatling demolindo um carro:

sábado, 20 de abril de 2013

O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft - Resenha da Antologia de contos em português


Por Daniel Cenoz (do RPG Arautos, gentilmente cedido)

Lá no final de 2011 fiquei sabendo de uma campanha colaborativa Site Lovecraft, dedicado à obra de H.P. Lovecraft, a ideia bastante na moda nesse momento era um financiamento coletivo para editar uma edição realizada por fãs do autor. Uma seleção dos contos mais representativos para apresentar a obra a um público fiel.

A empreitada era complicada por várias razões. O motivo para começar o projeto todo seria a ausência de obras do autor em português que na verdade elas andavam pipocando há um tempo com qualidades variando do amador ao acadêmico. Lovecraft não é um autor fácil e normalmente é lido depois de uma recomendação ou seguindo referências de livros e filmes que caem no gosto pessoal (no meu caso, uma ficha na última página de uma revista sobre temas sobrenaturais que caiu na minha mão numa aula chata do horário noturno  na Era Antes da Internet e que trazia ilustrações do artista Druillet para as edições francesas de Lovecraft).

Hoje, Lovecraft é um autor cultuado (inclusive no meio acadêmico brasileiro) e passa por um revival entre o público nerd/geek. Além disso, a intenção era produzir um livro de qualidade profissional a base de trabalho voluntário e paixão pelo projeto. E finalmente, o problema do financiamento, feito em forma de compras na pré-venda numa época em que o crowdfoundig já estava ganhando espaço, o projeto todo ia funcionar na base da confiança.

Eu fiquei entusiasmado com o projeto e paguei a quantia um pouco salgada (pela tiragem limitadíssima) em comparação a produtos com a mesma qualidade editorial prometida, mas o que valia era fazer parte do projeto.


Se uma coisa eu tenho que admitir é que fiquei impressionado com a determinação do Denílson (o pai do site e do projeto), apesar de inúmeros problemas que foram surgindo (todo mundo era amador, caramba!), ele perseverou e manteve o trabalho andando, atrasou  em relação à expectativa de entrega inicial (bastante chutada), mas saiu e tive o prazer de receber meu exemplar (com o meu nome impresso!) e conferir o resultado desse ano de incerteza.

Um livrão de mais de 450 páginas, com qualidade gráfica excelente (ainda que muita coisa seja questão de gosto) e uma seleção de contos bem representativa da obra de H.P. Lovecraft, ainda que a gente sinta ausências notáveis que devem ter ficado de fora por causa da extensão (Herbert West - Re-animator e o Estranho Caso de Charles Dexter Ward, meu preferido).

Algumas pessoas encrencaram com a capa, que eu achei uma justa homenagem ao autor, ainda que não tenha muito impacto mas caramba, está boa…

O livro inclui uma muito bem vinda introdução e biografia de HPL, o tipo de coisa que faz muita falta e com fotos resgatadas da Internet que ajudam a visualizar um pouco o mundo do autor.

A lista de contos começa obviamente pelo Chamado de Cthulhu, um sinônimo de Lovecraft e passa por medalhões como O Sussurrador da Escuridão e a Cor Vinda do Espaço, contos canônicos dos Cthulhu Mythos, segue pelos contos mais góticos como O Sabujo e tem A Busca de Iranon, um representante do período “Dunnsaniano” (de Lorde Dunsany) na Terra dos Sonhos. Na minha opinião (de merda) uma seleção irregular mas dificilmente mudaria muita coisa, seria interessante agrupar em blocos temáticos para apresentar as fases do autor (sonho, gótico, mythos) de forma a perceber a evolução da obra como foi feito em antologias como a espanhola Los Mitos de Cthulhu, quase uma edição acadêmica. Mas ideia é dar uma amostra do ponto de vista do admirador e isso facilita para o leitor casual/admirador. Eu implico porque não tive que carregar os pianos desse projeto…

A Tradução

Traduções de Lovecraft são um problema porque é unanimemente aceito que ele era um péssimo narrador que complicava desnecessariamente a prosa (eu nunca consegui ler os contos no original porque o vocabulário está anos luz à frente do meu inglês macarrônico, imaginem para os pedreiros que eram o público da Weird Tales…), o estilo e vocabulário causaram o seu ostracismo em vida, e normalmente as traduções acabam melhorando a obra ao eliminar manierismos malucos do original (nas traduções francesas que apresentaram Lovecraft ao público europeu, parágrafos e páginas inteiras foram expurgadas nas primeiras edições…). Numa primeira folheada, gostei do que vi, só me chocou a tradução “O Forasteiro” para The Outsider (um dos meus preferidos) que me acostumei a pensar com “O Estranho”, que faz mais sentido, mas está bom! Parabéns a todos os tradutores (e foram muitos) envolvidos!

The Eldritch Society

Como agradecimento pela colaboração (meter a mão no bolso), o projeto recolheu os nomes dos compradores e listou todos sob o escudo da Eldritch Society (que baita nome para uma sociedade de investigadores!). Agradeço muito a ideia e fica ai eternizada a lista das pessoas que acreditaram e agora formam uma pequena comunidade que tem tudo para se orgulhar!

O projeto

Ná época do lançamento desse projeto, uma editora nova, a RetroPunk lançou um projeto semelhante para financiar o Rastro de Cthulhu (coincidência? as estrelas estão se alinhando…), deu certo mas foi um grande baque para a disposição da equipe em tentar levar mais projetos assim à frente, os inúmeros problemas técnicos que iam surgindo, o imediatismo do público e os sucessivos atrasos no projeto quase fizeram tudo naufragar. Recentemente, aconteceu outro baque forte na comunidade rpgística com o Caso Grognardia, que fez muitos desacreditarem da modalidade quando levada à frente por fãs e não profissionais.

Eu espero sinceramente que o Denilson continue trabalhando em outros projetos, apesar da dificuldade visível que enfrentou para levar este adiante. No início fez uma divulgação muito tímida e desconhecia estrategias para convocar público, mas foi aprendendo rápido e acabou alcançando todos os cantos do país, aproveitando o apoio de redes sociais, blogs e podcasts (olha eu fazendo propaganda da concorrência, desculpe, Santiago! segue aqui o link pra Terceira Terra). Só que ele podia ser um pouco menos turrão, chegou uma hora que eu simplesmente deixei de acreditar que fosse dar certo. Por sorte, ele não.

Parabéns, ao Denílson!

Agora, com licença, acho que ouvi alguma coisa inominável arranhando a porta…


*   *   *

Nota: Pelo que sei essa foi apenas a primeira edição, suponho que uma nova deve estar nos planos, então eu gostaria de convocar o Denílson que é o "pai da criança" para falar um pouco mais a respeito e como os interessados devem proceder. 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Magia Bruta - Resenha do próximo lançamento da Retro Punk para Rastro de Cthulhu


A Editora Retropunk anunciou seu próximo lançamento para Rastro de Cthulhu em português.

Trata-se de Magia Bruta (Rough Magic), suplemento que trata especificamente de magia, feitiçaria e tudo que diz respeito a poderes místicos no Universo do Mythos de Cthulhu.

A notícia já está circulando pela rede e vários Blogs já divulgaram a notícia sobre o lançamento do livro. Para não chover no molhado, resolvi colocar no ar uma resenha que escrevi depois de ter lido o Rough Magic, ou melhor, Magia Bruta.

E é claro, temos a excelente resenha de Clayton Mamedes que pode ser acessada no link a seguir: http://mundotentacular.blogspot.com/2011/02/rough-magicks-de-kenneth-hite.html

Magia Curta e Grossa
por Luciano Giehl

A primeira coisa que me chamou atenção em Rough Magic é que é um livro fino e aparentemente despretensioso  Quer dizer, ele tem apenas 40 páginas, um pouco mais que um suplemento de aventura como "A Morte de St Margaret", por exemplo. Isso não quer dizer muito, contudo Magia Bruta se propõe a ser uma espécie de manual de magia para Rastro o que me deixou um tanto apreensivo... afinal, dá para cobrir um tema tão importante em um livro tão enxuto?

A resposta afortunadamente é: SIM.

Magia Pura é um livro curto e grosso, ele vai direto ao assunto sem firulas e sem querer inventar. Ele deixa claro que não é preciso se alongar demais para descrever de forma completa e concisa o tema. É algo que propositalmente (ou não) está implícito no próprio título, na palavra "Bruta" (no original Rough).

Seguindo essa premissa, vamos direto ao ponto e sejamos "brutos".

"Magia Bruta" contém regras opcionais para utilização de feitiços na ambientação e uma série de novas magias para incrementar o terror dos jogadores e aumentar o arsenal profano dos cultistas. Magia no universo dos Mythos é algo misterioso, assustador e potencialmente perigoso. Não espere que os personagens dos jogadores dominem essas técnicas, as coisas descritas aqui são um expresso sem escalas para o reino da insanidade e são mais adequadas aos inimigos que seguem a cartilha do Mythos.

Manter as coisas dessa forma faz todo o sentido. Os heróis lovecraftianos raramente têm acesso a magias, tendo de se valer de astúcia, conhecimento e armas mundanas (nem sempre úteis) para combater as forças das trevas.

Uma coisa interessante é que o livro aborda diferentes modalidades de magia e não tenta definir qual a mais correta. É algo que condiz com o conceito Lovecraftiano de que "magia" é apenas uma forma de ciência que nós humanos não somos capazes de compreender. É algo que está além de nosso curto ângulo de visão. O texto não tenta explicar qual a verdadeira natureza da magia, seu propósito ou de onde veio, ao invés disso apresenta magia decorrente de processos bioquímicos, de interação com criaturas ou de tecnologia tão avançada e bizarra que mais parece algo sobrenatural. Cabe ao Guardião definir qual o mais certo ou deixar a resposta em aberto.

O livro apresenta um capítulo chamado Habilidade Mágica ("Magic Ability") com um sistema opcional de regras situando "Magia" como uma Habilidade Geral que pode ser aprendida pelos jogadores. Como regra geral, os personagens não podem começar com esse conhecimento e devem recorrer a tomos, pactos com criaturas que aceitem compartilhar esse conhecimento ou a algum feiticeiro solícito. Isso dá margem a uma boa estória e a busca por esse conhecimento por si só já concede várias idéias para cenários. Imagine um grupo tendo que convencer um shaman a ensinar o ritual que expulsa um avatar de Yog-Sothoth ou sendo obrigado a negociar com um bruxo o segredo para encantar armas místicas capazes de ferir o guardião de uma cripta.

O capítulo também discute como algumas criaturas do Mythos encaram a magia e como utilizam esse poder. É algo de que senti falta no livro básico e que é finalmente abordado aqui em detalhes. Monstros e raças que fazem parte do Mythos muitas vezes dominam as artes místicas e aqui estão as regras para o emprego desses poderes. O sistema é bem elegante e a meu ver funciona perfeitamente.

A seção seguinte Lançando uma Magia Mortal ("Cast a Deadly Spell") é a mais "suculenta" do livro pois se refere especificamente às novas magias. Estão presentes aqui os rituais de evocação e expulsão das criaturas e entidades icônicas do sistema, bem como algumas magias velhas conhecidas dos jogadores de outros sistemas. Cada magia recebe um tratamento bastante detalhado a respeito de seu funcionamento, o custo de estabilidade, o tempo que demanda sua realização, os requisitos necessários e a dificuldade. Eu gostei especialmente da biografia dos principais feiticeiros ligados ao Mythos. O que é mais sonoro que conjurar uma magia em nome de Eibon, Prynn ou Ibn-Ghazi?

Também digno de nota é o tópico sobre as impressões que as magias deixam depois de serem empregadas e como os investigadores podem detectar seu emprego usando as habilidades. Eu gostei muito dessas regras pois permitem que os jogadores possam de alguma forma interagir com magia, mesmo que não saibam o que ela é. Como é de costume, esses trechos são muito bem escritos e ricos em idéias para o mestre.

O capítulo seguinte expande o conceito de Magia Idiosincrática, que aparece no Livro Básico, e que trata de pequenos rituais e superstições que podem ser empregados pelos jogadores para se proteger ou garantir um insight em determinadas situações. É uma regra muito legal que dá margem para os jogadores formularem verdadeiras loucuras em termos de manias de seus personagens. Fico imaginando o que um bom jogador seria capaz de inventar usando essa regra. Finalmente o capítulo final trata de Teoria Mágica e Lovecraft, colocando em perspectiva os fundamentos de Magia e a visão de Lovecraft a respeito dela.

A parte gráfica é primorosa como de costume em todos os livros editados pela Pelgrane - e que é seguida pela Retropunk em sua encarnação no nosso idioma. A arte fica à cargo de Jérôme Huguenin, na minha opinião um dos mais talentosos ilustradores da atualidade. Os desenhos evocam a aura de mistério e incerteza que permeia o livro e faz um belo paralelo entre texto e imagem. Chama a atenção a belíssima arte da Capa (que está no alto dessa resenha) e que não por acaso foi usada como pano de fundo do Blog Mundo Tentacular por um bom tempo.

"Magia Bruta" não parece ser um livro muito impressionante, mas não se deixe enganar. O material é sólido e garante uma leitura muito interessante para o Guardião interessado em expandir os conceitos sobre Magia contidos no Livro Básico. Mais do um simples "Livro de Regras", Magia Bruta está mais para um livro conceitual, cheio de idéias fantasticamente perversas.

Nota: A resenha foi escrita com base no livro em inglês, portanto alguns termos aqui utilizados podem variar na tradução da Retropunk.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Predador Sanguinário - A caçada do Manticore

Brincando com a estória real dos "Devoradores de Homens do Rio Tsavo", criei uma criatura que poderia ser usada em uma aventura de horror selvagem. Não é exatamente uma entidade do Mythos, está mais para uma força perversa vinda de outra realidade que uma vez em nosso plano se dedica a promover massacres e disseminar o terror.

Usei essa gracinha de monstro como antagonista de um cenário anos atrás inspirado pelo filme "A Sombra e a Escuridão" que narrei usando as regras de Call of Cthulhu. O elemento sobrenatural adiciona um toque surreal à estória e faz dela algo ainda mais perturbador.

Quando usei ele, os únicos que conseguiam percebê-lo como uma criatura sobrenatural eram os que estavam marcados para morrer. Todas as outras pessoas os percebiam como dois leões incrivelmente inteligentes e astutos, a não ser pelo terrível odor de carniça que os acompanhava. Isso até um deles tentar matar um dos jogadores e revelar sua verdadeira forma.


MANTICORE 

Essas criaturas são nativas de um plano entre as dimensões, e capazes de acessar a nossa realidade apenas raramente, na iminência de condições propícias - em geral mediante raras conjunções astrais e alinhamentos de estrelas. Eles também podem ser invocados através de magias e complexos rituais. Felizmente, eles são estranhos a essa realidade e tendem a ficar pouco tempo nesse plano, o bastante, contudo, para espalhar morte e destruição.

A mitologia por trás dessas estranhas criaturas surgiu na Pérsia, onde eles eram conhecidos como Martyaxwar, o que pode ser traduzido do farsi antigo como "devorador de homens". A medida que a lenda foi carregada para outras terras, o nome sofreu mudanças, sendo que Manticore, uma palavra de origem grega, se converteu na mais conhecida.

Originalmente os Manticore são entidades incorpóreas e invisíveis, dotadas de consciência e inteligência. Apesar de não poder ser visto nesse estado, pessoas com sensibilidade apurada conseguem sentir sua presença (alguns se referem a um cheiro de carniça e de sangue fresco, lembrando um matadouro) quando a criatura está próxima. Outros sentem um desconforto, talvez reminiscente da presença de um predador contumaz.

O manticore pode dominar o corpo de animais e até de pessoas, embora prefiram feras selvagens ao invés de homens. Leões são os animais mais identificados com a lenda do Manticore, entretanto eles podem assumir inúmeras outras formas. O único propósito de sua existência parece ser caçar e matar, atividades que são extremamente prazerosas para eles. Uma vez preenchendo o corpo de um hospedeiro animal, a entidade realiza nele drásticas mudanças estéticas com objetivo de transformá-lo em algo ainda mais letal. Aparentemente a criatura é capaz de associar à forma ocupada características de outros animais que tenha dominado anteriormente. Por exemplo, um manticore que tenha previamente ocupado o corpo de um touro e que agora ocupa o de um leão, é capaz de fazer crescer chifres neste segundo. O resultado tende a ser uma combinação bizarra de vários animais, o que pode ter originado a lenda da chimera.

A combinação mais conhecida do Manticore, descrito em vários bestiários, inclusive pelo historiador grego Plínio é a de uma criatura com corpo leonino de cor vermelha ou cobre, asas negras de morcego nas costas, uma longa cauda venenosa de escorpião na parte posterior e a cabeça de um homem. Essa forma pode no entanto se referir a apenas um indivíduo em particular.

Embora a criatura em algum casos possua cabeça humana, ela não é capaz de falar nenhum idioma conhecido, e sua voz é descrita como o som metálico de um trompete. Isso não significa que o manticore não seja inteligente. Pelo contrário! Dotado de grande astúcia, ele é um caçador que emprega truques para atrair suas presas o mais perto possível para o ataque. Ardiloso ele também se livra de armadilhas e emboscadas, antecipando as ações e estratégias de caçadores.  

Nas lendas, o monstro devora suas vítimas por inteiro, o corpo, as roupas e objetos. Para os gregos, uma explicação para pessoas que desapareciam sem deixar vestígios, podia apontar para o ataque do manticore. Na realidade, a criatura tende a deixar vestígios bem claros de sua passagem. Restos retalhados de suas presas, carcaças mutiladas e membros perdidos são o mais comum. O prazer da caçada e de promover a carnificina é o que os motiva a continuar matando sem parar. Espalhar os corpos de suas vítimas, é uma forma de intimidação e de provocar temor, um estado emocional que os manticore apreciam sadisticamente. Alguns manticore preferem manter sua real natureza oculta, revelando sua forma bestial - e absurda, apenas no momento de matar sua presa.

O manticore é capaz de preencher o corpo da criatura escolhida por um período de até um ano, mas é raro que ele o faça por tanto tempo. Uma vez saciada de sua sede de sangue e violência, a criatura costuma abandonar o hospedeiro. Não é claro se o manticore então retorna a sua dimensão de origem, se adormece ou se simplesmente deixa de existir. De qualquer maneira, supõe-se que decorrido um determinado tempo, a manifestação começa a perder controle sobre o hospedeiro. Uma vez liberado de seu controle, o simulacro morre, revertendo a sua forma e identidade originais. O mesmo ocorrendo quando um manticore é morto. 

Ativo apenas no período noturno, o monstro precisa dormir durante o dia a fim de repor suas energias e consolidar seu domínio. Para isso escolhe cavernas e covis afastados da civilização onde pode ficar escondido. A fera possui sentidos extremamente aguçados e mesmo quando está em repouso, consegue se manter alerta e ciente da aproximação de qualquer perigo potencial. Eles são normalmente solitários, embora casos em que dois ou mais deles se juntam para promover chacinas não sejam inteiramente desconhecidos. 

Episódios de animais selvagens que repentinamente se convertem em assassinos podem estar ligados a presença de manticore controlando-o. O aterrador caso do urso pardo de Sankebetsu no Japão (1915), do elefante de Aberdare (na África ocidental nos anos 1940) que deixou um rastro de destruição por onde passou e dos notórios leões "devoradores de homens" do Tsavo (Quênia) que em 1899, resultaram em centenas de mortes, podem ser resultado da ação de um ou mais manticore. 

A existência factual dessa criatura é comentada em alguns poucos tomos, ainda que sua existência como lenda ser apreciada em vários tratados de povos antigos. O Daemonolatreia de Nicholas Remigius, escrito em 1595, menciona essa entidade dando a ela o status de um demônio da ira. Já o Saducismus Triumphatus de Joseph Glanvill comenta que essa besta é um espírito sangrento devotado a vingança. Nenhum dos dois livros contém rituais para a invocação da criatura. Dentre os tomos blasfemos do Mythos, apenas o incrivelmente raro Nyargho Codex contém uma descrição apurada do manticore e uma perigosa magia que permite sua invocação. O ritual decorre de uma modalidade obscura de magia negra africana, praticada no leste do continente. Um desses rituais supostamente teria trazido dois manticore que dominaram os leões de Tsavo.

Observação: O nome dessa criatura lendária, traduzida para o português seria "mantícora", no entanto o termo grego que o nomeia é considerado universal. Dessa forma preferi usar "manticore".

MANTICORE PARA CALL OF CTHULHU

MANTICORE, Predador sanguinário

O manticore abaixo é um exemplo clássico de nonstro com corpo de leão, face de homem e ferrão de escorpião. outros sem dúvida existem, cada um com as suas características inerentes.

STR     4d6+12
CON   2d6+6
SIZ      4d6+12
INT     2d6
POW   3d6
DEX    2d6+3

Bônus de Dano médio: +2d6
Ataques: Mordida 30%, dano 1d10+db
              Garra 50%, dano 1d6+db
              Ferrão 40%, dano 3d3 +veneno

Proteção: 4 pontos de couro

Habilidades: Climb 90%, Dodge 50%, Hide 60%, Sneak 80%, Rastrear pelo faro 80%

Sanidade: 0/1d6 por ver um Manticore, criaturas com características bizarras podem ocasionar uma perda mais severa.

O Manticore pode atacar duas vezes em sua rodada com duas garras, uma garra e uma mordida ou com uma garra e o ferrão.

O ferrão venenoso é usadopara injetar um veneno de escorpião com POT iguala CON da criatura. No terceiro round depois de ser ferido com o ferrão, o personagem deve fazer um teste na tabela de Resistência ou recebe um número de pontos de dano igual a potência do veneno.      

MANTICORE PARA RASTRO DE CTHULHU

Estatísticas de Jogo

Habilidades: Atletismo 15, Briga 22, Vitalidade 14

Limiar de Acerto: 4

Modificador de Prontidão: +1

Modificador de Furtividade: +3

Arma: +1 (mordida), +1 garra, -1 (ferrão)

Armadura: -3 contra tudo (pele)

Perda de Estabilidade: Em geral nenhum, mas tão logo a natureza sobrenatural da criatura fica evidente +1

Veneno: Teste de Vitalidade dificuldade 6, 10 minutos depois do ferrão injetar o veneno. Em caso de falha, a vítima perde um número de pontos de estabilidade igual a metade da Vitalidade total do manticore que o envenenou.

Biologia: Nenhum felino comum age dessa maneira! Nenhum animal caça por prazer e se diverte com a matança de forma tão sádica. Um comportamento dessa natureza é condizente com o grau máximo de perversidade e crueldade tipicamente humana.

Ciência Forense: O cadáver estava mutilado além de qualquer reconhecimento. O ombro havia sido mordido e um pedaço inteiro da clavícula  estava ausente. O mesmo havia ocorrido com o braço na altura do cotovelo e a perna direita na altura da coxa onde um osso branco surgia como se a carne tivesse sido cuidadosamente mastigada até descarná-lo. O rosto fora cortado, ou melhor, retalhado por garras que arrancaram pedaços inteiros deixando apenas filetes sangrentos. O pior é que a morte parecia ter demorado, quase como um prolongamento. O pobre diabo havia sido devorado, e estava vivo para sofrer com essa condição.

Sentir Perigo: Há um cheiro no ar, algo desagradável, estão sentindo? Como se a porta de uma barraca usada como matadouro tivesse sido deixada aberta e uma lufada de vento quente soprasse lá de dentro.

Sobrevivência: Olhe para estes rastros! Só podem pertencer a um leão,0 e ele é enorme. Simplesmente o maior que eu já vi.

*   *   *

Suponho que essa criatura possa também ser adaptadas a outras ambientações, mesmo ao Novo Mundo das Trevas e quem sabe ao Savage Worlds (fico pensando nessa coisa para uma aventura africana usando a ambientação de Solomon Kane, hmmmmmm...)  

domingo, 14 de abril de 2013

Os Devoradores de Homens do Tsavo - A verdadeira estória de "A Sombra e a Escuridão"



"Mesmo hoje, se você ousar encarar os olhos deles, sentirá medo"

Em 1898, os britânicos decidiram construir uma ferrovia na África Oriental. Esta ferrovia iria se estender de Mombasa na costa do atual Quênia até o Lago Victoria, e dali seguiria até o país vizinho, Uganda. Chamada de Uganda Railroad o empreendimento logo recebeu um apelido: "Ferrovia dos Lunáticos". Muitos diziam que ela virtualmente ligava "o nada, a lugar nenhum", e sua construção era um verdadeiro pesadelo, dificultado imensamente pelas condições do solo, do clima e do relevo.

Apesar disso, a construção da ferrovia tinha uma série de propósitos legítimos. Naquela época, a única rota para o interior do continente africano tinha de ser feita à pé. Havia muitas mercadorias agrícolas que poderiam ser transportadas através de uma linha férrea do interior para a costa a fim de ser em seguida distribuída para todo o mundo. Além disso, levar produtos (e comércio) ao interior da África, geraria um novo mercado consumidor de todo tipo de produto. Um transporte ligando a costa do Quênia ao interior também permitiria uma colonização mais eficiente. Missionários religiosos estavam interessados em levar a "palavra de Deus" aos povos do interior e as dificuldades da jornada por terra eram um constante empecilho  Finalmente, havia o incômodo problema do tráfico de escravos. Muitos acreditavam que a chegada da ferrovia encorajaria pessoas ligadas a captura de escravos a buscar outras atividades.

A construção da ferrovia permanece como um dos maiores feitos de engenharia do final do século XIX. Suas 580 milhas de trilhos cruzam o Vale do Great Rift, diversos rios, e alguns dos terrenos mais inóspitos que se possa imaginar. A construção se iniciou em 1896, e chegou a Nairobi em 1899. Ela prosseguiu até
a cidade de Kismu às margens de Lake Victoria em 1901. Levou mais 27 anos para que a ferrovia atingisse Kampala, além da fronteira de Uganda.

Boa parte da mão de obra empregada no empreendimento foi suprida por operários vindos da India, colônia sobre o controle dos Britânicos. Esses trabalhadores comumente chamados de "Coolies" à princípio não se saíram muito bem na função. Dizem que a vasta maioria dos operários (mais de 60%, segundo alguns historiadores) acabaram sucumbindo a doenças e acidentes. A maioria dos que sobreviveram acabaram se estabelecendo no Quênia, formando uma expressiva comunidade de indianos que existe até hoje na atual África ocidental.

De fato, esta ferrovia continua em operação, ainda que tenha perdido muito do esplendor do passado. Há passeios turísticos que levam pessoas de todo mundo através da "Ferrovia dos Lunáticos".

O trecho da ponte sobre o Rio Tsavo
Mas, a incrível estória que é foco desse artigo trata de um pequeno trecho do monumental projeto: a construção de uma ponte elevada cruzando o Rio Tsavo (Rio da Morte), a cerca de 132 milhas a noroeste de Mombasa.


O ano era 1898. O projeto de colocação dos trilhos da Uganda Railway havia chegado, e avançado até o rio Tsavo em meados de fevereiro. Uma ponte temporária foi erguida sobre o rio para que a construção de uma ponte definitiva pudesse ser realizada da maneira mais rápida possível. O trabalho era responsabilidade do Coronel John Henry Patterson. A ponte deveria ter aproximadamente trinta metros de comprimento, era um projeto ambicioso, de suma importância.


Patterson, era um homem jovem e idealista com pouco mais de trinta anos, que havia trabalhado na India na supervisão de alguns projetos de engenharia civil. Há alguns que duvidam se Patterson era realmente o arquiteto responsável pelo desenho da ponte, citando a pouca experiência dele no assunto e a ausência de documentos com o seu nome. Evidências, no entanto, sustentam que se ele não era o arquiteto, Patterson tinha uma importante participação no projeto.

De qualquer maneira, ele chegou a Mombasa em primeiro de março de 1898, sabendo que sua função era construir uma ponte em um trecho da Uganda Railway. Uma semana depois, ele recebeu ordens de seguir para Tsavo, e supervisionar a obra.

Coronel John H. Patterson
O trabalho começou assim que ele chegou ao local. Um dos maiores desafios na construção de uma ponte dessa natureza é encontrar pedras adequadas para estabelecer as fundações. O material foi encontrado a cerca de três milhas, e foi necessário colocar em funcionamento um ramal secundário de trem para trazer o material até Tsavo. As fundações demandaram um bom trabalho, sendo necessário construir uma pequena represa que possibilitasse escavar o leito do rio. Apesar das dificuldades, o trabalho progredia dentro do cronograma.


Poucos meses depois da chegada do Coronel Patterson, estranhos rumores começaram a circular entre os trabalhadores. Alguns operários simplesmente haviam desaparecido depois de se embrenhar na mata para realizar alguma tarefa. Na ocasião chegou-se a cogitar que leões podiam ser responsáveis, mas Partterson não acreditou nos boatos. Mas a despeito disso, homens continuaram desaparecendo o que forçou o Coronel a investigar mais a fundo o caso. Um pequena expedição liderada por Patterson descobriu os restos horrivelmente mutilados de dois operários em uma área isolada a apenas 800 metros do acampamento. Os rastros indicavam que não apenas um, mas dois grandes leões, eram os responsáveis pelas mortes. Nessa mesma expedição, um dos grandes felinos foi visto, mas as tentativas de alvejá-lo falharam. "O animal simplesmente desapareceu, como se fosse uma sombra entrando na escuridão" escreveu o Coronel.


Patterson ordenou que fossem construídas bomas (cercas de espinhos tradicionalmente erguidas por tribos africanas para manter predadores afastados) ao redor dos acampamentos, e que tochas fossem acesas toda noite para afastar os leões. Mas as medidas não surtiram efeito. Os leões literalmente ignoraram os obstáculos e fizeram mais uma vítima, dessa vez um homem que transportava água e foi atacado a pouco mais de 300 metros do acampamento.

O verdadeiro pânico se instalou quando certa noite, uma das feras rastejou por baixo da boma e entrou numa das tendas onde catorze trabalhadores dormiam. A fera derrubou a tenda, um dos homens foi morto e outro operário indiano gravemente ferido no ombro com uma mordida. A fera conseguiu escapar arrastando sua presa para fora do acampamento. Alguns homens chegaram a testemunhar o enorme felino arrastando o corpo do trabalhador aos gritos, o que causou enorme comoção. O moral despencou e o medo se espalhou ao longo dos acampamentos. Patterson determinou que fossem construídas casamatas com quatro metros de altura guarnecidas de iluminação onde atiradores ficariam à postos toda noite. Mais bomas foram construídas para restringir a aproximação das feras e armadilhas foram espalhadas por caçadores tribais contratados junto às tribos.

Mas as medidas não surtiram efeito. O mesmo leão atacou a tenda hospitalar do acampamento, onde o operário que havia sido ferido estava sendo tratado. A fera matou o sujeito e feriu outros dois homens até ser espantada com tiros. Para muitos, o leão havia retornado para terminar o seu trabalho. Ninguém estava seguro! Os supersticiosos diziam que a fera era na verdade um Espírito da Morte, que uma vez tendo marcado sua vítima, retornaria quantas vezes fosse necessário para levá-la. Para outros, a construção estava amaldiçoada e os homens brancos não eram bem vindos a Tsavo.

Foi decidido que o melhor seria mudar a tenda hospitalar de lugar. Ela foi movida para o centro do acampamento onde havia relativa segurança. Mas logo na noite seguinte, um leão atacou a tenda e matou um enfermeiro. O pobre coitado foi arrastado para a selva e a equipe de caçadores que seguiu os rastros encontrou a cabeça do homem e a parte inferior de seu corpo na mata. A tenda hospitalar foi movida mais uma vez, uma cerca de espinhos ainda maior e mais reforçada foi erguida ao redor dela como proteção.

Cena do filme "A Sombra e a Escuridão"

Em 23 de abril, Patterson colocou em ação um plano para abater os leões. Ele determinou que um vagão de trem fosse colocado em uma área fora do campo; um bode e uma cabra foram então amarrados na entrada como isca. Patterson e o médico ficaram no alto do vagão de guarda toda noite, armados com rifles. A idéia era que quando o leão entrasse na área um deles fechasse passagem prendendo o animal. A paciência dos dois foi recompensada quando um dos leões adentrou a armadilha. O médico no entanto se antecipou e disparou, mas o tiro passou longe do alvo. Patterson imediatamente fechou a armadilha prendendo a fera dentro da boma. Ele conseguiu fazer um disparo e atingiu de raspão a fera - na ocasião o coronel contou ter acertado a boca do animal e arrancado um de seus dentes, o que se descobriu ser verdade mais tarde. O felino soltou um rosnado assustador "o tipo de som desafiador de uma fera acuada" e saltou por cima da boma que tinha mais de 3 metros.

Depois disso, as coisas saíram de controle. Os trabalhadores esperavam que o Coronel matasse a fera e quando ele falhou muitos se desesperaram. A cada dia mais operários desertavam, alguns roubavam suprimentos e equipamento antes de fugir. O trabalho também não progredia. Com os nervos à flor da pele, Patterson se desentendeu com um dos capatazes, um homem que segundo dizem usava um chicote para forçar os operários a trabalhar. Patterson chegou a trocar socos com o homem depois de flagra-lo usando a chibata. O incidente correu pelo acampamento em diferentes versões, algumas afirmando que o Coronel havia agredido o sujeito sem motivo.

A insatisfação chegou a tal ponto que um grupo de trabalhadores decidiu que a culpa de toda a tragédia residia nos ingleses, sobretudo Patterson. A única forma de apaziguar a fúria dos animais era matar o maior número possível de estrangeiros e entregar o Coronel às feras. O plano era capturar o Coronel quando ele estivesse saindo de seu escritório e levá-lo até a floresta, onde planejavam amarrá-lo a uma árvore. Felizmente, a informação chegou a um de seus homens de confiança de Patterson que o avisou a tempo de que um atentado estava sendo planejado. Apesar de tomar medidas para se proteger, o Coronel chegou a ser emboscado por um bando usando máscaras tribais, armados com facões e lanças. Por pouco ele conseguiu escapar do ataque, alvejando mortalmente um dos assassinos com seu revólver Webley  e capturando outros dois. A polícia de Mombassa interrogou os prisioneiros e estes entregaram os chefes do complô.

Após o incidente na armadilha do vagão de trem, os leões desapareceram por alguns meses e uma aparente normalidade retornou ao canteiro de obra. Mais trabalhadores foram contratados e o serviço progredia. Durante esse tempo foram tomadas providências para manter a segurança - cercas, casamatas, torres de vigilância e uma patrulha de homens armados vigiava o perímetro. Essa foi apenas uma calmaria antes da tempestade de sangue que viria a seguir.

Fotos da época e os crânios de vítimas dos devoradores
No fim de setembro os leões retornaram. Um operário desapareceu depois de se afastar sozinho além da área protegida. Um dos guardas disse ter visto a fera, mas não teve tempo de acertar um tiro. O rosnado das feras podia ser ouvido fora da boma, mas as expedições de caça, comandadas por Patterson não encontravam nada. Mesmo assim o Coronel fazia essas incursões, acompanhado de seus rastreadores tribais toda noite. No acampamento, os homens rezavam para afastar os espíritos, a "Sombra e a Escuridão" como passaram a ser chamados.


Em 20 de outubro, enquanto o grupo estava longe, as feras atacaram o acampamento. Os dois leões de uma só vez apareceram "como por magia", entre as barracas comunais. O primeiro homem foi morto em silêncio, mas outro despertou a tempo de ver a fera se aproximando e deu o alerta. Houve correria e em meio a confusão um bando de coolies escalaram uma árvore onde esperavam escapar dos leões. Mas a árvore não aguentou o peso e partiu derrubando todos que estavam no alto. Os leões não se importaram e atacaram ferozmente. No fim haviam oito vítimas e os leões sumiram tão rápido quanto haviam surgido, sem deixar vestígios. Os guardas foram acusados de ter relaxado na vigilância e quando Patterson chegou se deparou com o caos que havia se formado. 


Os caçadores que o acompanharam até a selva, entre os quais um respeitado caçador da tribo Massai, desertaram, dizendo que aqueles não eram animais normais: "São devoradores de homens, feras que caçam e matam por prazer, não para se alimentar! Eles tomaram o gosto pela caça e pela carne dos homens e nada mais vai satisfazê-los".


Os leões se tornaram cada vez mais ousados. Certa noite enquanto Patterson estava na selva procurando por eles, um dos poucos caçadores que ainda restava sumiu sem deixar vestígios. Eles o procuraram até o amanhecer sem encontrar nada. Ao tomar o caminho de volta para o acampamento, descobriram seu corpo mutilado à beira da estrada. Era como se os animais de alguma forma soubessem que Patterson era seu inimigo e estivessem fazendo um convite para que ele tentasse agarrá-los. "Leões não se comportam dessa maneira" escreveu Patterson em tom de desabafo a um amigo, "eles sequer comeram o pobre diabo, simplesmente o mataram e abandonaram seu corpo onde nós poderíamos encontrá-lo no caminho de volta".

Em primeiro de dezembro, os trabalhadores decidiram parar de trabalhar. Um deles comunicou ao Coronel que eles não seriam mais "comida para leões ou demônios". Assim que o ultimato foi entregue, os operários deitaram na frente de um trem e quando este parou escalaram seu teto e ocuparam qualquer lugar vago. O projeto de construção foi interrompido. Apenas um pequeno número de operários decidiu ficar para trás, mesmo assim passaram a dormir no alto de árvores, nas caixas d´água ou em fossos escavados no chão cobertos de toras de madeira.   

Um leão sem juba do Serengeti
Em três de dezembro um supervisor da companhia chegou a Tsavo para avaliar a situação. "Era como adentrar uma cidade fantasma, os homens estavam apavorados, o medo em seus olhos era perceptível" escreveu em seu relatório. Ele trouxe consigo vinte homens armados com espingardas e rifles para auxiliar na caçada. Animado com a ajuda Patterson tentou usar novamente o vagão de trem como armadilha. Ele mandou que fossem soldadas barras de ferro no fundo do vagão onde os homens armados aguardariam os leões quando estes viessem atrás de uma isca colocada na entrada. Um mecanismo fecharia a porta para que o leão ficasse preso no interior do compartimento. O plano funcionou, mas não da maneira como o Coronel esperava. Um dos leões entrou no compartimento e a porta barrou a sua fuga, mas os três homens atrás da barra ficaram tão aterrorizados diante da fera que não conseguiram acertar um único disparo. Mais de quinze tiros foram disparados no pequeno compartimento e nenhum deles chegou a ferir a besta. Por fim, o leão conseguiu escapar derrubando a porta.

O episódio reforçou a aura sobrenatural sobre as feras. Os homens juravam que algo protegia os leões, uma força maligna, que impedia que os animais fossem atingidos, mesmo por disparos feitos à queima roupa. Um dos atiradores envolvidos teria se suicidado dias depois saltando do alto da ponte em construção para o rio turbulento. Logo, o supervisor e os homens partiram, sem oferecer uma solução para o caso. Patterson estava sozinho novamente. 

Os dias seguintes foram de apreensão. Com menos presas, os leões sem dúvida seriam atraídos para o acampamento. Os homens queimavam grandes fogueiras durante a noite para manter os felinos afastados e jamais se afastavam sozinhos. Patterson entregou uma arma para cada grupo de cinco homens e disse que deveriam atirar ao primeiro sinal de perigo. Em pelo menos três oportunidades os leões se aproximaram do acampamento, em uma delas chegaram a entrar nas tendas vazias. O Coronel chegou a relatar em seu diário que as feras estavam próximas o bastante para ele ouvi-las rondando do outro lado da boma.

Patterson teve outra ideia, mandou construir uma plataforma sobre quatro postes de madeira na entrada do acampamento. Esta plataforma chamada machan, era usada por caçadores indianos para matar tigres e servia como uma árvore artificial para esconder o caçador. Para anular o faro dos animais, o coronel ordenou que três cabras fossem mortas e o sangue espalhado junto com as carcaças aos pés do machan. E lá ele ficou acompanhado de um ajudante que mantinha três rifles de cano duplo ao alcance das mãos.

Na terceira noite de vigília, Patterson ouviu o som de gravetos se quebrando e detectou movimento. Um dos leões estava se aproximando, finalmente atraído pelo cheiro de carne. Antes que pudesse apontar a arma na direção da fera, ela saltou contra um dos poste de madeira e abalou a plataforma. Patterson manteve a compostura e conseguiu fazer mira alvejando o leão com um tiro na área do ombro. A fera rosnou e se embrenhou nos arbustos. O coronel continuou ouvindo os rosnados e deu mais cinco tiros. Os rosnados continuaram até parar de vez. Pela manhã ele e o ajudante desceram e encontraram o devorador de homens morto.

A notícia se espalhou rapidamente e uma comemoração teve início. A carcaça do leão foi levada para o acampamento. Era um macho sem juba, 2,94 m da ponta do focinho até o rabo. O leão havia sido alvejado duas vezes - um tiro no ombro na altura do coração (provavelmente o primeiro), e outro na pata traseira esquerda. Foi necessário o esforço combinado de oito homens para carregá-lo até o campo.

Uma das únicas fotos que comprovam o abate do primeiro devorador de homens.

Houve paz por alguns dias, até que a comitiva do supervisor da ferrovia, que veio ver o leão abatido, foi atacada pelo animal que restava. Ninguém foi morto ou ferido, mas o grupo teve de fugir às pressas. A lembrança do segundo leão fez com que Patterson reiniciasse a vigília. A fera estava acuada e pela primeira vez, caçava sozinha. Quem sabe do que ela seria capaz.

Repetindo a estratégia ele se colocou no alto do machan e ficou de guarda esperando o animal. A cada noite uma cabra era morta e colocada na posição. "O fedor de carne putrefata e sangue era insuportável" relatou o coronel.

Finalmente, o felino resolveu aparecer. Não na machan, mas no acampamento. Tiros alertaram o Coronel de que a fera estava próxima e os homens disseram que ele havia sido visto espreitando e que havia matado um dos bodes. Patterson juntou os homens e eles saíram imediatamente em busca da fera, seguindo uma trilha de sangue. Embrenhados na floresta, o grupo conseguiu encontrar o leão, mas o animal avançou contra o bando, ferindo um dos homens. Um tiro disparado, no entanto, o espantou, supostamente tendo acertado de raspão.

Patterson retornou ao alto da machan, camuflada agora com grandes folhas e passou a noite de natal de guarda. Na madrugada de 27 de dezembro enquanto cochilava, foi acordado pelo ajudante que percebera um movimento. O segundo devorador estava espreitando por perto. Ele conseguiu divisar o enorme felino   e apontou o rifle com paciência. Quando o leão estava a 10 metros, disparou. O tiro acertou, mas não foi preciso o suficiente para derrubá-lo. O coronel pressionou o gatilho mais três vezes enquanto o leão tentava fugir, mais uma bala atingiu o alvo.

Confiante de que o animal estava ferido, o Coronel e mais três rastreadores saíram em perseguição. Os rastros de sangue eram fáceis de seguir. À cerca de um quarto de milha adiante, eles o encontraram. Ele estava escondido na grama alta, rosnando para os homens com os dentes à mostra. O ferimento o deixava ainda mais arisco e imprevisível. Patterson mirou cuidadosamente e disparou. O leão se ergueu da posição e avançou rugindo bravamente com toda energia que restava. O coronel estendeu a mão para apanhar outro rifle e descobriu que o ajudante havia corrido para uma árvore. O coronel conseguiu retroceder o suficiente para fazer um segundo disparo, algo que jamais seria possível, se o primeiro não tivesse atingido o animal. Largando o rifle, ele escalou a árvore para se proteger e lá de cima atirou novamente, dessa vez com uma carabina. O devorador enfim tombou.    

Tolamente, Patterson desceu da árvore. Para sua surpresa, o leão avançou novamente! Um tiro no peito e um na cabeça finalmente derrubaram o animal. Mesmo assim o leão continuou mordendo selvagemente um pedaço de madeira até finalmente morrer.

Patterson teve de conter os rastreadores para que eles não fizessem o leão em pedaços. "Eles acreditavam que ele iria se levantar mais uma vez e que não morreria até que seu coração fosse arrancado" contou em sua biografia. Finalmente os homens se acalmaram e um deles correu para o acampamento a fim de trazer ajuda para carregar a fera que só foi vencida após receber seis tiros. Ele também tinha um ferimento antigo no flanco. O leão, um macho sem juba, media 2,89 m, da ponta do focinho até a calda. Décadas mais tarde, a caverna que servia de covil para os felinos foi descoberta, repleta de ossos humanos evidenciando que os devoradores haviam feito muitas outras vítimas. O número total nunca foi determinado, mas uma estimativa de mais de cem está dentro da realidade. O comportamento incomum e agressivo que até hoje intriga estudiosos do mundo animal que jamais encontraram caso semelhante.

A ponte sobre o Rio Tsavo hoje
Como em um conto de fadas, a estória teve um final feliz. Os trabalhadores retornaram e concluíram a construção da ponte sobre o Rio Tsavo. Em 30 de janeiro de 1899, o Coronel John H. Patterson recebeu uma bacia de prata presenteada pelos trabalhadores em agradecimento por sua bravura e determinação. No dia seguinte a inauguração da ponte uma tempestade como nenhuma outra caiu sobre Nairobi, como se a água servisse para lavar o sangue deixado nos trilhos.

Patterson partiu da África no final daquele ano. Mas ele retornou em 1906, e viveu muitos anos como guia de safari. Durante esse tempo ele escreveu o livro "Os devoradores de homens de Tsavo", que se tornou um grande sucesso. 

Em 1924, ele vendeu as peles e crânios dos leões para o Museu de História Natural de Chicago, Illinois. Os dois animais foram reconstruídos e colocados em exposição a partir de 1928. 

Eles estão lá até hoje.