domingo, 10 de novembro de 2013

Simpatia pelo Demônio - Rock n' Roll e a tentação pelo mundo oculto


Por Michael Howard

Existe uma lenda no mundo da música de que por volta de 1930, o legendário bluesman Robert Johnson, que inspirou entre outros Muddy Waters, Bob Dylan, Rolling Stones e Eric Clapton, vendeu a sua alma ao demônio em troca de se tornar um grande guitarrista. Muitos acreditam que Johnson tinha uma maldição, e que acabou assassinado porque ele acreditava exercer poderes sobrenaturais sobre o sexo feminino. Ele seduziu a mulher de um dono de bar que para se vingar colocou arsênico na cerveja do músico. Muitos moralistas viram nesse fim precoce uma espécie de punição por ele ter se envolvido com as forças das trevas.

Segundo a história, Johnson teria vendido a sua alma ao Capeta durante uma cerimônia ocorrida em uma encruzilhada. Entretanto, essa lenda não começou com ele. Em 1920 e 1930 haviam muitos músicos negros e jogadores profissionais afirmando ter assinado um pacto com um misterioso homem negro numa encruzilhada. Exemplos famosos foram a cantora negra Clara Smith e o xará de Robert Johnson, Tommy Johnston, uma década antes disso. O estranho negro, foi identificado por alguns escritores como o Diabo Cristão e como o Deus Africano Exu, venerado por povos da África Ocidental e levado para o sul dos EUA pelos escravos.

Hoje em dia existem menos evidências de músicos e artistas do mundo do pop/rock vendendo as suas almas para o demônio, mas a ligação entre musica e o mundo oculto ainda é muito forte. Fundamentalistas cristãos afirmam que a proliferação de símbolos e letras envolvendo ocultismo no universo do rock, evidencia que Satã, o grande inimigo de Deus, escolheu esse tipo de música como seu predileto, mas a verdade é muito mais estranha do que qualquer fantasia religiosa.

A lenda de Robert Johnson continua dando frutos.
Algumas vezes, a alegada conexão de artistas famosos com o ocultismo vem à superfície através de fofocas e rumores infundados. Por exemplo, todos sabem que o destino trágico do músico glam Marc Bolan está ligado aos seus estudos de feitiçaria na França (de fato, ele chegou a admitir isso), que a diva pop Dusty Springfield participava ativamente de um grupo satânico chamado Templo do Príncipe de Manchester, e que Jim Morrison, vocalista do The Doors se envolveu com uma alta-sacerdotisa Wiccan (o que também é verdade).

Houve ainda o músico britânico Graham Bond, que nos anos 1970 foi acusado pelo seu colega de R&B,  Long John Baldry de sacrificar um gato durante uma cerimônia de bruxaria. Bond contava às fãs que era um praticante de "magia negra" e seguidor fiel de Aleister Crowley, e que seu talento musical permitia que ele contatasse "outros planos de existência". Bond também acreditava que havia sido amaldiçoado por outro ocultista. Quando em 1974 o músico sofreu um acidente quase fatal ao cair na linha do trem, no metrô de Londres sob misteriosas circunstâncias, muitos acharam que aquilo era um sinal claro da maldição em ação.

Beatles & Rolling Stones

Sabe-se bem que os Beatles flertaram com misticismo oriental e meditação transcendental durante sua fase psicodélica no final dos anos 1960. Alguns sugerem que eles também tinham interesse em coisas mais estranhas. Uma prova, seria o fato da Grande Besta 666, Aleister Crowley, estar presente (no lado esquerdo superior) da fotomontagem “pessoas que mais admiramos” do famoso álbum Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

O antiquário de livros e biógrafo de Crowley, Timothy D’Arch Smith conta que os Beatles participaram de um leilão de livros raros sobre bruxaria e ocultismo ocorrida em Londres. Jane Asher, namorada de Paul McCartney foi quem teria sugerido a participação e de acordo com D’Arch Smith, ela encorajou o músico a comprar vários desses volumes como investimento.

Os Stones - Sympathy for the Devil
Se os Beatles em algum momento se interessaram pelo oculto, não se pode dizer ao certo, mas seus principais rivais pelo sucesso e pela fama, os Rolling Stones, estiveram definitivamente interessados no tema. Apesar das origens respeitáveis de suas famílias, os Stones sempre foram deliberadamente promovidos como os ‘bad boys do rock’. O que é claro, incluía envolvimento com o oculto. É provável que isso fosse parte de uma estratégia de marketing construída pelo empresário Andrew Oldham, que também foi o criador da famosa manchete, ‘Você deixaria sua filha casar com um Rolling Stone?’ Se os pais da classe média e trabalhadora da Inglaterra soubessem das brincadeiras dos Stones envolvendo o mundo sobrenatural, a resposta com certeza teria sido negativa.

Os Stones sempre deixaram claro seu interesse pelo oculto e muitos diziam que essa postura era cuidadosamente calculada para construir uma imagem. Mick Jagger disse várias vezes que a música "Sympathy for the Devil" não deveria ser levada ao pé da letra, mas ele brincava que ela era uma espécie de homenagem ao patriarca do Rock n' Roll.

Ascensão de Lúcifer e os Stones

A suposta influência "satânica" sobre os Stones surgiu a partir da tutela do cineasta avant-garde, demonista e fofoqueiro de Hollywood Kenneth Anger. Ele se tornou interessado na carreira da banda e particularmente no guitarrista Brian Jones e de sua namorada na época Anita Pallenberg, uma atriz alemã e modelo. Jones tinha muito interesse no tema, ele e outro músico Robert Palmer, eram fascinados pelo poder de influência e força dos músicos Joujouka que viviam aos pés das Montanhas Atlas do Marrocos, no Norte da Africa. Esses músicos tribais, alardeavam que ao tocar seus instrumentos e cantar de forma alucinada praticavam uma espécie de ritual ancestral em homenagem ao Deus Pan (tipo como uma representação diabólica, marcada pelos excessos). Jones chegou a viajar para o Norte da Africa para gravar trechos das músicas tribais executadas por grupos de percussionistas pré-islâmicos.

Em uma entrevista para a revista Rolling Stone, Robert Palmer descreveu como ele testemunhou um dos rituais devotados a Pan. Ele disse que em meio a apresentação, os dançarinos tribais pareciam estar envolvidos em uma espécie de transe ou êxtase com os olhos rolando, cabeças agitando-se e corpos girando sem parar. Palmer contou que quando o "poder desceu dos céus" os dançarinos pareciam ter sido arrebatados. Nas suas palavras “alguma coisa” estava olhando através de seus olhos que brilhavam "como rubis na escuridão” (trecho da Rolling Stone, 23 March 1989).

Kenneth Anger acreditava que Anita Pallenberg e Brian Jones, que iria se afogar sob circunstâncias misteriosas na piscina da sua mansão em Sussex, eram bruxos. Alegadamente, Jones mostrou ao cineasta um mamilo supérfluo que havia crescido na lateral da sua virilha: “Em outros tempos, eles teriam me queimado em uma fogueira por causa disso.” Mamilos extras, segundo caçadores de feiticeiros era um sinal da marca do demônio, o símbolo de que a pessoa alimentava diabretes e familiares. Um amigo de Anita Pallenberg, Tony Sanchez, contou que ela mantinha as suas drogas guardadas em um baú de madeira no quarto do casal. Um dia ele olhou dentro dele sem que ela visse. Ao invés de drogas ele disse ter encontrado ossos humanos e a pele de "animais estranhos". Uma das namoradas de Mick Jagger, Marianne Faithfull descreveu como ele e Pallenberg costumavam sentar por horas lendo passagens do livro "The White Goddess" de Robert Graves e estudando o misterioso alfabeto místico celta.

Mick Jagger e Marianne Faithfull no final dos loucos anos 60
Em sua auto biografia Marianne Faithfull diz que Anger, um homossexual assumido tinha uma atração quase obsessiva pelo vocalista bissexual dos Stones que não era correspondida. Quando as investidas do cineasta foram rejeitadas, ele parou de ser convidado para as festas. Certo dia, ele apareceu de surpresa na casa do casal em Cheyne Walk, Chelsea e de forma bizarra ofereceu como presente vários livros e manuscritos do poeta e místico do século XVIII William Blake. Jagger ficou enojado por esse comportamento e queimou todas as cópias de trabalhos ligados ao ocultismo que possuía e que haviam sido dados de presente por Anger e que supostamente haviam pertencido a Crowley e ao ocultista francês Eliphas Levi.

Apesar disso, Marianne Faithfull ainda se envolveu no filme experimental de Anger Lucifer Rising, supostamente financiado por Anita Pallenberg, e com uma trilha sonora que incluía composições de Mick Jagger. De início, o vocalista dos Stones deveria ter assumido o papel do protagonista, mas ele acabou abandonando o projeto. Em uma das versões, concluída em 1967, o papel ficou com seu irmão Chris Jagger. Marianne Faithfull se envolveu com a segunda versão filmada em 1972 onde ela concordou em atuar no papel da deusa-demoníaca Lilith.

Faithfull descrevia a assassina de bebês Lilith como um dos personagens arquétipos femininos e a comparava a deusas pagãs como Diana, Astarte, Ishtar, Afrodite e Demeter. Entretanto, ela acrescentou que: “Do ponto de vista de uma sociedade patriarcal, é claro, ela tinha de ser vista como uma encarnação do mal”. Curiosamente, o papel do Deus egípcio Osiris no filme foi interpretado por Donald Cammell, filho de Charles Cammell, um amigo e biografo de Crowley. O jovem Cammell fez os seus próprios filmes incluindo o controverso Performance co-produzido por Nicholas  Roeg. Ele era estrelado por Mick Jagger, Anita Pallenberg e pelo renomado ator britânico Edward Fox. Donald Cammell cometeu suicídio em 1990.

A filmagem de Lucifer Rising foi realizada no Egito e Faithfull contou que logo que a equipe de produção e elenco chegaram ao país ficou óbvio que Anger não sabia o que fazer como diretor ou como feiticeiro. Nesse período de sua vida, Faithfull estava seriamente dependente de heroína e admitiu que também não sabia o que deveria fazer no set de filmagem. A produção toda foi uma receita de desastre. A última sequência do filme se passava durante o solstício de inverno e foi filmada em um sítio neolítico na Alemanha. Durante a filmagem, Faithfull sofreu um acidente e despencou de uma ravina. Segundo ela própria, alguma força invisível a protegeu e ela caiu de pé sem sofrer nenhum ferimento. Esse episódio a convenceu de que sua força interior e poder místico era muito superior ao de Anger. Em sua autobiografia ela se refere a Anger como um "ocultista de quinta categoria" e “um bruxo de tabloides de Hollywood.”

Cena de um dos bizarros filmes de Kenneth Anger
Marianne Faithfull alardeou que Mick Jagger e o guitarrista principal dos Stones Keith Richards também eram céticos a respeito do "hocus-pocus satânicos" de Anger e que não o levavam a sério. Entretanto, depois do incidente envolvendo o sujeito na casa de Londres, que agora pertencia a Richards e Anita Pallenberg, Faithfull começou a ficar assustada. Ela passou a acreditar que estava sob ataque psíquico. Alguns dizem que ela passou a usar amuletos de proteção ao redor do pescoço e dormir no centro de um círculo de proteção com velas acesas. Se esse comportamento paranoico foi motivado pela dependência de heroína, não se sabe.

Uma das músicas de Marianne Faithfull em seu álbum Broken English se chama ‘Witches Song’ (O Som das Bruxas). Ela a chamou de “minha ode às mulheres selvagens e pagãs que eu conheci e que sempre estiveram ao meu redor.” Faithfull conta que teve a ideia para a música depois que ela e Mick Jagger visitaram uma exibição em Madri de pinturas com o tema o Sabá das Bruxas, com várias telas do artista espanhol Francisco Goya. Sua autobiografia também descreve um incidente quando ela e Jagger tomaram LSD depois de visitar Primrose Hill no Norte de Londres “onde existem antigas ley-lines que ainda estão ativas” e onde neo-druidas realizam cerimônias. Sob a influência do ácido, o casal viu "uma enorme face no céu” que eles estavam convencidos pertencia ao deus celta Bran. Esse acontecimento parece ter marcado o início do interesse de Faithfull pelas crenças celtas. Em sua autobiografia ela diz que acredita em Deus, mas não no Deus-Pai, e sim em uma Grande Deusa cujo consorte é Pan.

Jimmy Page e a conexão com o Senhor Crowley

Em 1969 a aura satânica ao redor da mega-banda de rock Led Zeppelin chegou a tal ponto que empalideceu todos os ecos sobre Robert Johnson. Rumores circulavam na cena musical de Los Angeles de que os membros haviam assinado um pacto com seu próprio sangue com o demônio em troca de fama.

Page e Crowley
James Patrick ou simplesmente Jimmy Page sempre teve um conhecido interesse pelo ocultismo, o suficiente para alimentar rumores de supostas atividades satânicas para todos os membros da banda. Descrito pela revista AllMusic como “um dos artistas mais influentes pela versatilidade, talento e pelas suas letras,” Page tinha interesse em religiões alternativas desde a infância. Enquanto ainda era um membro dos Yardbirds, ele andava na companhia de Brian Jones e Anita Pallenberg em seu estúdio em South Kensington. Page jamais escondeu seu profundo interesse na filosofia de Aleister Crowley, e o famoso álbum Rune tem uma fotografia da Grande Besta em sua capa. Em uma entrevista para a revista Sounds em 1976 Page é citado afirmando que Crowley foi “um gênio incompreendido do século XX.”

Jimmy Page arrematou o maior número de artefatos e primeiras edições de obras que pertenceram a Crowley que conseguiu encontrar. Em 1969, Kenneth Anger alugou a antiga e (seriamente assombrada) casa que pertenceu a Crowley, Boleskine às margens do mítico Loch Ness onde a Grande Besta viveu no início do século por algum tempo. Quando ele foi a mercado para venda, Anger sugeriu que Page deveria comprá-lo. Ele fez isso, e contratou o artista e ocultista Charles Pace para pintar murais para compor a atmosfera mágica de cada aposento. O guitarrista do Led Zeppelin podia ser encontrado dirigindo pela área pantanosa como um lorde escocês em um Land Rover paramentado com chifres de gamo e um saiote. Page também visitou a Sicília e contemplou a ideia de comprar o velho vilarejo de Cefalu onde Crowley estabeleceu a Abadia de Thelema nos anos 1920.

No início dos anos 1970 Page abriu uma livraria dedicada a obras de ocultismo em Kensington chamada The Equinox. Ela foi construída em um estilo futurista com prateleiras de vidro e gabinetes de aço cromado seguros por pilares. Sob os seus auspícios, Page publicou um fac-simile da edição de 1904 escrita por Crowley sobre o grimório medieval Goetia.

Kenneth Anger aproximou-se de Jimmy Page e pediu a ele que compusesse uma trilha sonora para seu filme, o projeto Lucifer Rising. Infelizmente, a sociedade terminou de maneira amarga quando Page conseguiu produzir apenas 23 minutos de musica, enquanto Anger necessitava de 28. O cineasta acusou Page de ser um mero curioso nas artes ocultistas e um viciado em drogas, que foi incapaz de cumprir sua parte no acordo e compor as músicas do filme. Entretanto, em 1976 Page emprestou a Anger o porão de sua casa em London para que Anger pudesse fazer o trabalho de edição de um filme. Os dois homens não chegaram a se encontrar cara a cara, e supostamente Page realizou algum tipo de ritual visando amaldiçoar o cineasta. Page mais tarde taxou o incidente como “tolo e patético” e afirmou que respeitava Anger como ocultista praticante.

Houve muitas suspeitas de que Jimmy Page tenha em algum momento pertencido a uma das modernas versões de sociedades secretas devotadas a Crowley, como a OTO (Ordo Templis Orientis ou Order of the Eastern Temple). De fato, não há como saber se Page foi realmente um praticante de magia. A esse respeito, o jornalista Nick Kent da New Musical Express desconsidera os rumores d eque o guitarrista passasse seu tempo livre "com a cabeça escondida sob um manto sacrificando animais domésticos em rituais.” Kent ao invés disso, diz que a experiência de Page foi “apenas a de um curioso em busca de conhecimento esotérico, de um colecionador de livros empoeirados, e de um estudante interessado no assunto que obteve nada além de informações enciclopédicas". 

Page em frente de Boleskine, propriedade que pertenceu a Crowley
Embora o interesse de Jimmy Page na obra de Crowley e no ocultismo seja bem conhecido, seu colega de banda Robert Plant também tinha seus interesses esotéricos. Este se manifestava no estudo de folclore e mitologia nórdica e germânica, e na leitura de várias novelas no gênero ‘sword and sorcery’. Plant passou boa parte de sua vida vivendo na fronteira galesa segundo ele mesmo contou a revista Kerrang! visitando as Black Mountains no Sul de Gales. Lá ele redescobriu suas raízes celtas. Usando um mapa dpara vasculhar a região, ele vagou visitou sítios arqueológicos da Idade do Bronze e lugares em que os galeses batalharam contra os Saxões e onde praticavam importantes rituais.

O flerte de Bowie com o mundo além

Outro famoso astro do rock que abertamente admitiu seu interesse pelo oculto, magia e declarou sua devoção a Crowley foi David Bowie (nascido David Robert Jones). Nos anos 1970 ele disse ter estudado a Kabbalah e “Crowleyism” e mais recentemente ficou interessado pelo Gnosticismo. O músico utilizou cartas de Tarot e uma bola de cristal para prever o futuro, um tabuleiro de ouija para contatar espíritos, e realizou rituais de magia para exorcismo e proteção psíquica. Um de seus primeiros álbuns Hunky-Dory tinha uma música chamada ‘Quicksand’ que faz referências a Crowley ae ao grupo de místicos vitorianos a Ordem Hermética do Amanhecer Dourado (The Golden Dawn).

De acordo com a esposa de David Bowie, Angie em sua autobiografia, o interesse de seu marido no oculto era em parte pelo desejo de superar Jimmy Page. Supostamente, ele via o guitarrista do Led Zeppelin como um rival no campo do misticismo. Bowie eventualmente decidiu, possivelmente por causa do interesse de Page nele, que Crowley e seus trabalhos não passavam de "estupidez.” Por esa razão ele começou a estudar magia Tibetana que ele considerava mais poderosa do que qualquer coisa que a Grande Besta ou Page pudessem fazer.

Em uma entrevista a revista New Musical Express (Fevereiro de 1997) David Bowie admite seu gosto pela "magia antiga". Em 1970, ele disse que  na sua opinião Crowley não passava de um charlatão. Ele revelou que Arthur Edward Waite, um membro da Golden Dawn, e a ocultista galesa Dion Fortune, autora do livro Psychic Self-Defence (Auto-defesa Psíquica), haviam sido muito importantes para seu crescimento místico. De fato, Bowie utilizou os ensinamentos no livro de Fortune por que acreditava estar constantemente sob ataques psíquicos de pessoas que voltavam contra ele energias negativas. A casa de Bowe em Los Angeles em 1975, era decorada com todo tipo de artefatos egípcios, muitos deles colocados ali como proteção. “Eu tive esse interesse, muito mais do que passageiro pelo misticismo egípcio e os ensinamentos da Kabbalah…” (Stage Fascination: David Bowie the Definite Story por David Buckley).

Bowie usando trajes cerimoniais semelhantes aos de Crowley
Angie Bowie relatou que o músico esteve muito envolvido com atividades ocultistas nos anos de 1975-76. Isso coincide como período em que ele usou cocaína, e ficou extremamente paranoico. Segundo rumores, Bowie estocava garrafas de sua própria urina em um refrigerador e tomava muito cuidado ao se livrar de seu cabelo e das unhas que cortava. Isso porque ele temia que, algum praticante de magia obtivesse esses itens poderia usá-los como foco para lançar magias contra ele. Ele também construiu uma espécie de altar em um dos aposentos de sua casa onde costumava acender velas negras e meditar. Sua maior preocupação era sempre renovar os círculos de proteção que impediriam que alguém lhe fizesse mal. Angie Bowie certa vez testemunhou Bowie exorcizando uma piscina que ele acreditava estar amaldiçoada. 

Em certa oportunidade, quando o casal estava visitando propriedades para alugar em Hollywood eles encontraram uma casa antiga, onde viram um pentagrama de cinco pontas desenhado no chão. Bowie surtou e disse que não poderia sequer entrar em um prédio ou casa onde supostamente havia ocorrido um ritual de magia negra. Em outro dia, ele telefonou para sua esposa e disse alarmado que bruxas estavam tentando roubar o seu sêmen. Segundo ele, as feiticeiras planejavam criar um bebê de proveta e sacrificá-lo mais tarde em um sacrifício satânico. No final das contas, as bruxas, eram apenas um grupo de fãs inocentes que Bowie conheceu em um bar. 

A essa altura da vida, Bowie também flertou por um curto período de tempo com ideais Neo-Nazistas. Ele explicou em uma entrevista em 1993 que isso se deu pelo seu fascínio pelo uso de simbolismo oculto pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Ele estava interessado pela busca do Santo Graal empreendida pelos alemães. Bowie teria dito em algum momento que "seria interessante ter uma ditadura fascista na Grã-Bretanha", embora ele tenha negado que estava falando sério e dito que o comentário não passou de uma piada de mal gosto.

Black Sabbath e o Heavy Metal


Em parte como uma reação ao movimento hippie e a filosofia "paz e amor" do final dos anos 60, as bandas de heavy metal começaram a aparecer sugerindo violência e um suposto satanismo em músicas amplificadas até os últimos decibéis. Bandas como Warlock, Saxon, Venom, Motley Crue, W.A.S.P., Slayer, Iron Maiden, Incubus e Bathory lançaram álbuns com capas decoradas com crânios humanos, pentagramas, figuras encapuzadas, sepulturas, demônios com a cabeça de bodes e vampiros. Uma das mais bem sucedidas e famosas bandas do início do heavy metal, foi a lendária Black Sabbath surgida em Birmingham no ano de 1969. Combinando riffs pesados de guitarra com letras diabólicas e uma obsessão pelo lado gótico da arte, logo eles começaram a atrair uma legião de fãs.

O visual do Black Sabbath
O nome distinto da banda foi tirado de um filme de horror antigo estrelado pelo ator britânico Boris Karloff, famoso pela sua interpretação do monstro criado pelo Dr. Frankenstein a partir de restos de cadáveres. Originalmente, o Black Sabbath começou como uma banda de jazz-blues até que sus membros começaram a ser influenciados pelos romances de "magia negra" de Dennis Wheatley e trabalhos de Aleister Crowley. O líder da banda ‘Geezer’ Butler supostamente possuía um grimório místico do século XVII. O conteúdo desse livro de magia o deixou tão impressionado que ele resolver trancafiar o tomo em um armário. Durante a noite ele teria sido visitado por figuras sombrias que o estimulavam a ler mais daquele tratado e realizar os rituais ali descritos. Na manhã seguinte quando Butler abriu o armário o grimório havia desaparecido e ele nunca mais o viu.

Butler conta que em certa ocasião a banda havia sido convidada para tocar em um legítimo sabá de bruxas em Stonehenge, algo muito semelhante às novelas de Dennis Wheatley. Quando os rapazes se negaram a ir, o líder do cabal teria lançado uma maldição sobre os membros da banda. Geezer disse ter consultado uma "bruxa branca" que ajudou a remover a maldição e esta teria dito a eles que deveriam se apresentar usando cruzes para afastar as forças malignas que haviam sido voltadas contra eles. Aparentemente, o pai do vocalista Ozzy Osbourne, que era um tipo de faz-tudo, construiu as cruzes para os membros da banda usarem nas apresentações. 

Ozzy Osbourne sempre negou acreditar seriamente no ocultismo, embora ele tivesse um baralho de Tarot que gostava de consultar. Uma de suas frases mais famosas foi: "O único espírito maligno que me interessa é o whisky, gin e vodka". (Um jogo de palavras com "spirits" que serve para designar bebidas fortes e seres imateriais). Ozzy sempre se divertiu com os casos de pessoas estranhas atraídas pela aura de mistério e esoterismo do Black Sabbath. Ele chamava os indivíduos com o rosto pintado de branco ou usando capuzes negros de "esquisitões". Em outra frase, Ozzy comentou que a única coisa boa a respeito de usar todas essas coisas satânicas é que isso aumentou muito a publicidade e as vendas de discos.

Algumas outras bandas de heavy metal levavam um pouco mais à sério o interesse no mundo oculto. Uma dessas foi a Black Widow que tocava uma mistura de rock progressivo e folk, e que empregava imagens demoníacas em suas apresentações. Em 1968 o empresário da banda se aproximou de Maxine e Alex Sanders, os assim chamados "Rei e Rainha das Bruxas". Ele queria que a dupla recomendasse aos rapazes da banda que tipo de objetos e rituais poderiam ser transformados em músicas e decoração de palco. Alegadamente os feiticeiros cederam farto material que a banda utilizou em sua turnê. Alguns desses artefatos serviam para conjurar e adorar uma antiga entidade chamada Astaroth.

A Black Widow Band 
O ponto alto da apresentação era uma espécie de dança que foi ensinada pelos bruxos e que concedia um toque de dramaticidade cênica ao espetáculo. Durante os ensaios com os dançarinos contratados para o show, vários desmaiaram ou alegaram ter sido possuídos por espíritos malignos. Em desespero, a banda chamou um outro feiticeiro que deveria exorcizar os objetos. O empresário da banda contou que os bruxos que cederam os artefatos não quiseram reaver as peças e que elas foram todas queimadas para garantir uma espécie de purificação. 

Um boato que circulou por muito tempo relatava que o bruxo contratado para anular as energias diabólicas, ficou seriamente doente logo depois de realizar o exorcismo e veio a falecer de uma doença repentina em 1971. A turnê do Black Widow continuou, e em uma apresentação o vocalista da banda teria acidentalmente pisado em um círculo mágico de proteção. Maxine Sanders que estava na platéia durante o show percebeu então que vários demônios e espíritos malignos imediatamente se manifestaram para drenar psiquicamente os membros da banda.

Outra banda, mais contemporânea chamada Tool e seu líder o vocalista Danny Carey também são famosos pelo seu interesse no mundo esotérico. Carey é um colecionador de tomos mágicos que um dia pertenceram a Crowley, Kenneth Grant, Austin Osman Spare e Andrew D. Chumbley. Durante a gravação de um de seus álbuns, os membros do Tool teriam utilizado rituais de banimento para expulsar influências negativas que estariam habitando o estúdio. Eles também empregaram talismãs e artefatos de ocultismo que pertenceram ao médico e astrólogo da Rainha Elizabeth I, o célebre Dr. John Dee. Durante uma turnê na América do Sul, um grupo de carregadores se negou a levar os objetos da banda por considerá-los "satânicos". 

Inspiração Diabólica

Os anos 1990 assistiram o surgimento de uma ligação mais sinistra entre o rock e o Satanismo com o aparecimento das bandas de "black metal" e "death metal". Essas bandas eram comprometidas (ou assim diziam) com uma filosofia anti-cristã de anarquismo, niilismo, violência e obsessão com a morte capaz de fazer as apresentações do Black Sabbath parecerem uma celebração de coral. Possivelmente, as bandas mais dramáticas nessa postura vem da Escandinávia. Muitas professam crenças satânicas ou são devotas de um estilo de neo-paganismo muito particular. A Suécia parece ser o berço da maioria desses grupos. Outro ingrediente complicador é a ligação de algumas bandas com movimentos de extrema direita, radicais nacionalistas e defensores da superioridade branca. Essa combinação mortal fez com que shows terminassem em distúrbio, confusão e até assassinato. 

Capas "Satânicas" não são mais novidade no mundo da música
Em 1992 uma antiga igreja de madeira foi queimada até o chão por uma bomba incendiária arremessada por fãs da banda Killing Roar na Suécia. Supostamente haviam ainda disputas entre os seguidores de diferentes bandas que acusavam uns aos outros de serem apenas "posers" que não estavam comprometidos com a causa professada. Em 1993, a polícia foi chamada para conter os ânimos exaltados após um show de black metal em Malmo. Essa foi a gota d'água. Um rígido controle fez com que os membros das gangues, alguns envolvidos com roubos em cemitério e profanação, fossem presos e o problema aparentemente foi controlado. Em 1994, um suposto grupo de satanistas seguidores de bandas de black metal, foram acusados de causar distúrbios nos Estados Unidos, mas os membros logo foram detidos pelas autoridades. 

Na América, a imagem mais recente, relacionada a uma vertente cada vez mais voltada para o chocante, em se tratando da cena musical, diz respeito ao músico Marylin Manson que causou comoção e foi proibido de se apresentar em várias cidades americanas, como por exemplo Salt Lake onde ele foi declarado persona non grata. Muitos críticos afirmam que a imagem de Manson é cuidadosamente construída com o intuito de atrair os holofotes e que seu envolvimento com o mundo oculto não passa de uma campanha de auto-promoção. O próprio Manson se diz um artista cujo objetivo é chocar a sociedade.   

Hoje a quantidade de bandas de rock usando símbolos satânicos e uma postura voltada para o ocultismo é incontável. Mas o mais provável é que a grande maioria de seus membros não sejam realmente os ocultistas engajados que seus empresários tentam vender para o público. A rebeldia e o rock sempre estiveram ligados intimamente e choque muitas vezes está atrelado a quantidade de álbuns vendidos. Quanto mais diferente e inusitada a postura de uma banda, maior será a atenção dispensada a ela.    

O atual "alto-sacerdote" da Igreja de Satã nos EUA, Boyd Rice não por acaso é um músico. Críticos chamaram seu talento musical de "terrorismo sonoro como forma de arte" - seja lá o que isso signifique. Curiosamente, o antigo mestre satânico, Anton LaVey, que fundou a Igreja de Satã no início dos anos 1960, era um fã confesso de George Gershwin e Cole Porter.

Parece certo que enquanto existir rock n' roll, sempre existirão aqueles que afirmam, em alguns casos literalmente, que o diabo é responsável pelas melhores notas musicais.

4 comentários:

  1. Sympathy for the Devil é inspirada em "O Mestre e a Margarida". Ótimo livro, inclusive!

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  2. hahaha adorei o texto ! parabéns o/ mas olha como " músico amador de Rock 'n Roll " tenho que confessar que acho toda essa estória uma grande bobagem hahahahahhaha um golpe de publicidade gigantesco...exceto sobre o The Doors e o não mencionado Nirvana ( na pessoa de Kurt Cobain )...

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  3. ...ah sim...e sobre Robert Johnson claro...

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  4. http://www.youtube.com/watch?v=xBdpv3ZMofQ

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