sábado, 11 de março de 2017

O Espelho do Rei - Um Livro Medieval de Lendas, Horrores e Maravilhas inacreditáveis


Ao pesquisar a história de acontecimentos estranhos, Charles Fort é um nome frequentemente lembrado. Sua contínua pesquisa a respeito de tudo que é incomum e inexplicável na primeira metade do século XX tornou-se um marco para uma comunidade crescente de seguidores que iriam posteriormente promover seu trabalho e seu nome. Hoje, incidentes de natureza peculiar muitas vezes são categorizados com o nome "Forteano", um termo reconhecido por estudiosos do assunto. 

A crônica do inexplicável de Fort inclui informações datando de muito antes da sua época, algumas vezes, documentando incidentes fantásticos como o aparecimento de veículos voadores, misteriosas "chuvas" de animais ou outros elementos incomuns caindo do céu, luzes no céu e nas profundezas do mar, e todo tipo de coisa esquisita que permanecem como um enigma indevassável. 

Entretanto, as pessoas podem se questionar, desde quando tais acontecimentos "Fortianos" tem ocorrido. A resposta mais razoável para essa pergunta pode ser: "Desde sempre"!


Ao tomar como exemplo alguns velhos arquivos e documentos ancestrais, é possível supor que acontecimentos extraordinários ocorriam no passado tanto quanto ocorrem nos dias atuais, deixando as pessoas sem palavras e incapazes de explicar de maneira razoável o que estavam vendo.

Um documento especialmente curioso data do ano de 1250. Ele oferece o que parece ser, um dos mais surpreendentes exemplos de "Fortiana" da Idade Média.

Conhecido como Konungs skuggsjá, que pode ser traduzido do Antigo Norueguês como "O Espelho do Rei" (Spekulun Regale em latim), ele é uma peça de literatura especulativa de primeira grandeza. 

O documento oferece fatos e descrições de maneira tão clara e detalhada a respeito de seus assuntos que pesquisadores por décadas acreditaram ser ele uma fraude. Escrito na forma de um diálogo entre um pai e filho, o "Espelho do Rei" trata de política, moralidade, a formação de estados, embora como mencionado anteriormente, exista espaço para vários temas fascinantes que vão muito além do convencional.

Embora atribuído a um norueguês, o autor desconhecido do "Espelho do Rei" discorre a respeito de outras nações, incluindo Islândia e Irlanda. Nele, vários "horrores e maravilhas" são apresentadas, coisas que o autor considera acontecimentos milagrosos. A descrição de estranhas criaturas e sua captura estão em um capítulo com o título "As Maravilhas da Natureza", que documentam o avistamento e a captura de animais fantásticos que guardam enorme similaridade com os relatos modernos do Pé Grande ou Sasquatch:

"Certa vez ocorreu nessa nação (no caso, o autor se refere a Irlanda) que uma criatura estranha foi capturada viva na floresta. Ninguém era capaz de dizer ao certo se ela era um homem ou algum tipo de animal até então desconhecido: Ela tinha a forma de um homem, em cada detalhe, as mãos, os pés e a face eram perfeitamente condizentes com um homem, mas seu corpo era coberto por pelos espessos como as bestas, e nas suas costas, havia uma longa crina de cabelos grossos como de um cavalo. A criatura produzia sons estranhos e parecia entender aquilo que seus captores diziam, como se fosse capaz de compreender o idioma, mas não era capaz de se expressar por conta própria. Ela andava ereta, caminhava como um homem e apanhava objetos que lhe eram entregues. Ninguém foi capaz de determinar a sua origem, e ela permaneceu em uma jaula até morrer depois de uma semana de cativeiro".

Em um trecho, o autor deixa claro que nem tudo no mundo ainda é compreendido, mas dá uma inequívoca demonstração de um espirito Fortiano: 

"Há coisas nesse mundo cuja explicação nos escapa, coisas que ainda esperamos encontrar novamente e que talvez então, possam oferecer uma explicação razoável".


Mais adiante, o autor se dedica a descrever vários avistamentos de coisas que flutuavam no ar. O primeiro trecho descreve algo que circulou a torre de uma Igreja também na Irlanda deixando as testemunhas estupefatas:

"Em Cork, havia uma Igreja dedicada a memória de um homem santo chamado Kiranus. Em um domingo enquanto a população do vilarejo estava reunida para a missa, algo estranho surgiu no céu. Não era uma nuvem, nem um pássaro e menos ainda a lua. As pessoas correram para ver e se maravilharam com a estranha coisa que flutuava. Era arredondada e feita de metal, lustrosa e brilhante, emanando uma luminosidade branca. De repente uma comporta se abriu em sua superfície e de dentro dela saiu um homem que também flutuava no ar, como se este fosse feito de água, e o estranho nadasse. As pessoas o chamaram e tentaram atirar pedras para derrubá-lo, mas ele estava muito alto para ouvir ou ser atingido. O Bispo que estava presente nessa ocasião, disse que aquele poderia ser um milagre divino, embora nem todos tivessem certeza do que estavam vendo. Assim que o homem completou meia dúzia de voltas em torno do objeto, retornou para o interior da comporta que se abriu uma vez mais. O objeto então voltou a se mover lentamente desaparecendo atrás das nuvens".

Enquanto obviamente fantástico em seus detalhes, é válido perceber que o testemunho guarda incríveis similaridades com as narrativas de fantásticos veículos aéreos, de tecnologia desconhecida que hoje em dia convencionamos chamar de Discos Voadores

Em outro trecho, o autor menciona um objeto similar, dessa vez sobrevoando os céus da Noruega:

"Tinha a forma de um escudo metálico arredondado. Luzes piscavam de seus lados como se fossem velas. Emitia um som contínuo, um rosnado baixo que chamava a atenção e obrigava as pessoas a sair de suas casas para ver sua passagem. Todos olhavam e apontavam surpresos. Movia-se devagar e por vezes parecia simplesmente parar. Então, luzes brilharam com mais força e de repente ele começou a se mover velozmente, deixando um rastro de fumaça branca que rasgou os céus".


Finalmente, um terceiro trecho é ainda mais evocativo a respeito da frequência com que tais objetos eram vistos nos céus da Noruega:

"As pessoas que viviam em Dermond sequer se importavam mais com a passagem daquelas esferas luminosas. Por vezes seis, sete delas surgiam ao mesmo tempo, voando em forma de cunha pelo céu, muito alto. A noite, quando surgiam, eram como estrelas cadentes que se moviam com velocidade, mas que ao contrário destas, evoluíam pelo céu e dançavam como vaga-lumes. Nessas ocasiões, era como se as estrelas estivessem se movendo no firmamento. Certa vez, algumas sobrevoaram o vale mais baixo lançando fachos de luz que iluminaram a escuridão como se o sol tivesse despontado no meio da madrugada".

Há muito debate entre estudiosos a respeito das narrativas descritas no "Espelho do Rei". Alguns suspeitam que o texto seja uma compilação de vários documentos, ou mais provável, de testemunhos e lendas do período, preservadas no formato de histórias orais. Há indícios de poemas e documentos até mais antigos que o "Espelho do Rei"  que tratam de temas similares, especialmente aqueles discutidos no capítulo "Maravilhas da Natureza". Os galeses documentaram uma série de encontros com animais estranhos em um documento medieval chamado "Topographia Hibernica" que pode ser uma das fontes do Espelho.

Laurence Larson do Departamento de História da Universidade de Illinois fez o seguinte comentário na introdução de uma monografia a respeito do Espelho do Rei:

"Por tudo que consta no tratado a respeito da Irlanda, pode-se afirmar com certeza que o autor tinha um grande conhecimento da geografia e topografia da região sobre a qual escreve. As histórias são suficientemente detalhadas para que se assuma que elas foram escritas (ou narradas)  por alguém que realmente conhecia a região por experiência própria. É perfeitamente possível que as descrições tenham sido oferecidas por viajantes que exploraram o interior da Irlanda, que navegaram pelos mares e usaram o sistema de rios. É provável que os noruegueses ainda tivessem colônias na Irlanda nesse período, ainda que a maioria da ilha estivesse sob controle dos ingleses o que explica a escolha do idioma".


É possível que o texto tenha sido coletado por exploradores ou membros de Expedições de noruegueses a Irlanda. Hakron II, um famoso explorador norueguês liderou uma expedição a Irlanda em 1239 na qual descreveu como encontrou ainda nos vilarejos algumas pessoas que falavam seu idioma.

O Espelho do Rei também descreve lendas e incidentes envolvendo o avistamento de estranhos animais marinhos: Sereias, Tritãos (homens peixe) e Krakens estão relacionados entre as "coisas que vivem nos mares e abaixo das ondas". Especificamente, a porção do documento que trata dos Kraken, que são discutidos em conjunto com outros animais de grande porte como baleias (tratados como "peixes grandes"), é interessante:

"Existe um animal, mencionado por marinheiros que viajam pelas águas a leste da Islândia que é tão grande que muitos homens o consideram uma lenda. Mas o Kraken de fato existe nessas águas geladas e profundas, ainda que seja muitíssimo raro. Ele é visto apenas por alguns poucos indivíduos que se afastam o suficiente da costa. É possível que exista apenas um ou dois deles hoje em dia. O Kraken vive em mar aberto e dado seu tamanho colossal, pode ser confundido com uma ilha ao invés de um animal. Eles precisam de muita comida para sobreviver, e talvez por isso sejam tão raros. Alimentam-se de cardumes e de baleias inteiras que são atraídas para seus tentáculos que as agarram e não permitem que escapem. Quando estão famintos, produzem um arroto altíssimo de baixo da água e liberam comida semi-digerida que atrai peixes de todos os tipos, grandes e pequenos, que surgem de lugares recônditos para se fartar com os restos. O monstro mantém a sua enorme bocarra aberta, com uma abertura tão vasta quanto um fjord e quando a fecha, devora tudo ao seu alcance que é empurrado goela abaixo. Por vezes, um kraken pode atacar uma embarcação. Ele lança seus tentáculos e agarra os barcos que se partem como gravetos lançando os tripulantes ao mar. O monstro então os engole inteiros. Ninguém que tenha sido jogado na água em que nada um Kraken, viveu para andar novamente em terra firme". 


Há trechos similares tratando de sereias e tribos inteiras de lendários homens peixe:

"As fêmeas dessa espécie marinha, muito mais antiga do que a dos homens, vive sob as ondas e respiram água. Elas tem a pele lisa e azulada e parecem mulheres, mas a parte inferior de seus corpos é escamosa. Não possuem pernas, e sim rabos dotados de barbatanas que as impulsionam na água. Nadam velozmente e são conhecidas por acompanhar embarcações tanto perto quanto em mar aberto. A noite, produzem um canto estranho, parecido com o lamento das baleias. Muitos homens que ouvem esse canto se sentem compelidos a saltar na água e nadar a luz das estrelas. Esses não voltam nunca mais, pois as sereias coletam escravos para servi-las".

Igualmente impressionante é a descrição feita das tribos de Homens-Peixe que habitam os despenhadeiros rochosos no litoral da Irlanda e a costa recortada da Islândia:

"São homens com escamas, olhos grandes de peixe e boca com dentes afiados. Nadam com grande velocidade e caçam com lanças e facas de pedra afiada. Eles não falam ou cantam como as sereias, as fêmeas da espécie e nem podem ser confundidos com homens comuns, pois suas feições são medonhas. No passado, dizem, eles atacavam vilarejos, apanhavam presas que eram arrastadas para de baixo d'água, mas com o tempo pararam de vir à terra, preferindo atacar as embarcações pesqueiras que se aventuram além da arrebentação. Em noites de lua eles são mais comuns, mas estão sempre nadando próximo dos barcos esperando a chance de puxar alguém para a água. Dizem que comem suas vítimas, mas também as escravizam".  


As mitologias da antiga Europa, consideradas da perspectiva forteana, sugerem uma longa e profunda relação entre a humanidade e certas criaturas lendárias. Nós somos pressionados pela razão a desconsiderar narrativas de nossos antepassados a respeito de humanos peludos, de objetos voadores tripulados cruzando os céus medievais, de luzes pulsantes, lulas gigantescas e tribos de humanoides marinhos. Talvez eles não sejam nada além do que narrativas bizarras cujas fontes são no mínimo questionáveis, relatos e superstições coletadas em uma mesma compilação de incidentes no distante ano de 1250.

Desde então, a percepção das coisas que nos cercam e do mundo em que vivemos mudou incrivelmente. 

Ainda assim, é surpreendente se deparar com descrições tão vívidas de seres tão curiosos que talvez jamais tenham existido, mas que ainda assim, se mostram um fascinante testemunho de crenças ancestrais que mesmo hoje ainda se encontram entre nós, na forma de criptídeos e ovnis.

4 comentários:

  1. Incrível esse relatos. Um prato cheio para narradores de RPG (like us!)..Ótima matéria. Parabéns ao blog!

    ResponderExcluir
  2. Acho que a cada 2 meses entro no site ora ter uma leitura imaginativa e curiosa, tomara que vocês nunca acabem com site.

    ResponderExcluir