domingo, 1 de julho de 2018

O Relógio Astronômico de Praga - Uma Lenda de genialidade e tragédia


Cidades antigas possuem algumas histórias incríveis. 

Lugares ancestrais tem histórias antiga, algumas delas se tornam lendas, viram parte do imaginário e com o tempo não se sabe mais se elas tem base em fatos reais ou se não passam de invenção.

Praga é uma dessas cidades antigas. A Capital da República Checa, o coração da Boêmia tem várias histórias impressionantes, nem todas com finais felizes. Uma das minhas favoritas diz respeito ao Relógio Astronômico na Cidade Velha, uma das atrações mais conhecidas e um de seus cartões postais. Visitados todo ano por milhares de turistas o Orloj (como ele é chamado pelo locais) foi montado na parede da prefeitura na porção mais antiga da cidade que remete ao período medieval. 

O mecanismo do relógio possui três componentes informativos distintos: Um calendário que marca a hora, dia, mês e ano com precisão, um mecanismo de corda com miniaturas de santos que aparecem nas horas cheias e batem os sinos e o mais impressionante, um mostrador astronômico, apresentando a posição do sol, dos planetas e as fases da lua. Uma obra impressionante já que o relógio astronômico foi desenvolvido no século XV. Entretanto, poucas pessoas que passam pela Cidade Antiga conhecem a história do Criador do Relógio, um Mestre artesão cuja vida ficou marcada pela sua obra prima.

O relógio original que ficava no topo da torre foi construído em 1410 por Mikulás de Kadan, mas em meados de 1500 ele foi alterado e modernizado pelo Mestre Hanuz de Ruze, que inseriu os componentes astronômicos que tornariam o relógio uma obra sem igual em toda Europa. Naturalmente os conselheiros da cidade estavam muito satisfeitos com o trabalho de Hanuz, considerado um gênio pela sua habilidade e criatividade. Pessoas viajavam grandes distâncias para conhecer o relógio e logo o centro de Praga se tornou uma parada obrigatória para viajantes. 

O orgulho dos cidadãos era enorme! Praga tinha o mais belo relógio da Europa, um fato que ninguém contestava. Foi então que começou a circular um rumor de que Mestre Hanuz havia recebido uma proposta para construir um relógio ainda mais belo em outra cidade. Diziam que ele passava horas e horas desenhando e fazendo cálculos para a construção de uma obra ainda mais sensacional.


Começaram a ser perguntar o que seria do prestígio de Praga? Como seus cidadãos poderiam suportar que a cidade não teria a obra de relojoaria mais perfeita do continente?

Os conselheiros decidiram se reunir e pensar em uma solução para a questão. Planejaram oferecer dinheiro ao mestre para que ele abrisse mão da proposta, mas os cofres da cidade não dispunham de uma quantia igual a que diziam havia sido oferecida. Cogitaram apelar para o senso de patriotismo do Mestre, mas concluíram que a proposta era realmente irrecusável. Tencionavam quem sabe ocupá-lo com outros projetos, mas até quando poderiam mantê-lo alheio? Sabiam que mais cedo ou mais tarde ele escaparia pelos seus dedos e partiria para cumprir algum outro projeto grandioso.

Eles pensaram por muito tempo, mas não chegaram a uma conclusão sobre como proceder.

Então, um dos conselheiros da cidade, um homem conhecido pelo seu coração perverso e marcado pela crueldade, ofereceu uma solução que a princípio chocou os demais. Era um plano sinistro, mas um conselheiro depois do outro foi gradualmente percebendo que aquela seria a única opção para garantir que o Relógio de Praga continuasse exclusivo.

Uma noite, Mestre Hanus estava sentado em sua oficina, revisando alguns planos e esquemas. Era tarde, seus ajudantes e criados já haviam partido há horas, e o Mestre estava sozinho na casa. Do lado de fora havia começado a chover, mas dentro estava quente e agradável. O fogo da lareira crepitava, desenhando estranhas figuras nas paredes, por vezes, uma madeira estalava levantando fagulhas que quebravam o silêncio. Mestre Hanuz estava absorto pelos seus cálculos precisos, verificando cada esquema e os detalhe complexos de seu trabalho. Ele pensava a respeito de novas invenções, em como tornar os componentes ainda mais extraordinários e mágicos.

De repente ouviu-se uma batida seca na porta da frente. "Abra, estamos com pressa!"

O Mestre correu para a porta e espiou para fora. Percebeu que lá estavam três homens grandes vestindo máscaras. Antes que pudesse perguntar o que queriam, empurraram a porta e forçaram sua entrada arrastando o relojoeiro para a oficina. Lá amordaçaram o Mestre e amarraram suas mãos com corda. Dois dos homens o seguraram com força enquanto o terceiro atiçou o fogo, colocando em meio às chamas uma adaga que trazia presa ao cinto. Ele a deixou lá até que o calor a fizesse brilhar vermelha. Percebendo o que os homens pretendiam, Mestre Hanuz tentou lutar, mas eles o agrediram até que ele perdeu os sentidos.


Ele acordou horas mais tarde, em uma agonia insuportável. Mestre Hanuz percebeu que estava deitado em sua própria cama, podia ouvir a voz de seu assistente principal e os lamentos de seus criados e amigos, mas via apenas escuridão. 

Os homens haviam arrancado seus olhos.

Por muito tempo o brilhante relojoeiro permaneceu deitado: doente e delirante, passava dias e noites nem estado miserável. Sua visão havia se perdido para sempre. Quando ele se recuperava um pouco, sentava-se no estúdio e pensava consigo mesmo: "Quem poderia ter feito uma coisa tão terrível comigo e por que"? 

Ele não tinha inimigos e todos o admiravam pelas suas obras que haviam trazido tanto orgulho ao povo de Praga. As pessoas o visitavam e lamentavam o ocorrido; vinham os mais pobres e os mais ricos, os mais próximos e os mais distantes, parentes e desconhecidos... e todos lamentavam a tragédia. Certo dia, vieram dois conselheiros da cidade que lamentaram o triste destino do Mestre - "uma tragédia, uma tragédia sem sentido", disseram os dois.

Mas quando deixaram a casa, o jovem assistente do relojoeiro ouviu a dupla se congratulando pelo serviço bem feito. O rapaz escutou quando um disse ao outro que agora não existia mais o risco de que Mestre Hanuz criasse um relógio astronômico para outra cidade além de Praga. Devastado o rapaz procurou seu Mestre e contou o que havia ouvido. 

E assim o brilhante relojoeiro descobriu quem havia ordenado que seus olhos fossem vazados. Ele não sentia mais dor, apenas uma amargura profunda e um desejo de desaparecer de uma vez por todas. Era daquela forma que os conselheiros da cidade o haviam recompensado pelo seu trabalho inigualável?


Depois da amargura, veio a raiva e então o desejo de vingança. O Mestre pensou em uma forma de extrair vingança daqueles homens terríveis e planejou o que ia fazer. Um dia ele disse ao seu fiel assistente que gostaria de ir até o Prédio da Prefeitura para ao menos ouvir o som de seu amado relógio e sentir as delicadas engrenagens trabalhando. Os conselheiros ficaram intrigados quando ele chegou, mas acabaram concordando em liberar o acesso do Mestre à sua obra prima.

Quando Hanuz ficou diante do gigantesco mecanismo, pôs-se a escutar o funcionamento da perfeita máquina de metal e madeira que conhecia tão bem. Apesar de cego, ele conseguia sentir todos os complexos mecanismos em que havia trabalhado laboriosamente, cada pequena parte, cada disco, mola e conexão. 

E então, sem nenhum aviso, o Mestre saltou para dentro do delicado mecanismo, grande como um órgão de igreja. Imediatamente seu corpo foi esmagado pelas engrenagens que começaram a se partir e arrebentar. O relógio começou a retinir, arranhar e chacoalhar, até que lentamente os sons foram desaparecendo até restar apenas um ensurdecedor silêncio. O último som do relógio se calou com o coração de Hanuz.

No bolso do Mestre descobriram uma carta onde ele relatava o que havia acontecido e o povo escandalizado com a crueldade dos Conselheiros revoltou-se exigindo que fossem presos e punidos. Os nobres, acataram esse pedido e cada um dos conspiradores foi lançado na masmorra onde jamais veriam o sol brilhar. Além do aprisionamento, chumbo derretido foi derramado em seus ouvidos para que jamais escutassem um som novamente.  E ao longo de todos esses anos, o aterrorizante silêncio foi uma lembrança contínua do crime que haviam cometido.  

O Relógio de Praga parecia estar quebrado para sempre. Foram necessários muitos séculos para que aparecesse alguém capaz de entender a complexidade do mecanismo e devolver a ele seu antigo brilhantismo.

E quando esse alguém apareceu,o relógio nunca mais parou de funcionar.

Um comentário:

  1. Assustador pensar no quanto as pessoas podem ser cruéis pra defender seus interesses.

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