quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Suor Maligno - A estranha epidemia que devastou a Inglaterra


A "Doença do Suor Maligno" ou "Mal do Suor Inglês" tem sido descrita como um dos buracos negros na história da epidemiologia. Ela surgiu pela primeira vez no início do reinado de Henrique VII e fez sua aparição final em 1578. Em duas ocasiões ela devastou a Inglaterra como um todo, mas estranhamente jamais avançou além da fronteira com a Escócia. Ela emergiu tanto em Dublin quanto em Calais mas curiosamente permaneceu como uma doença que vitimava majoritariamente apenas os ingleses. Similarmente, não existe nenhum registro de estrangeiros na Inglaterra que tenham sido afetados por ela. Seu repentino contágio e a incrivelmente rápida propagação aterrorizou a Inglaterra do século XVI.

Em 22 de agosto de 1485, a Batalha de Bosworth Field trouxe um fim para a sangrenta Guerra das Rosas e colocou Henrique VII no trono da Inglaterra. Dentro de semanas, uma nova e estranha doença apareceria entre os combatentes que sobreviveram à Batalha e que haviam retornado a Londres na companhia do novo monarca. 

Francis Bacon a descreveu da seguinte maneira:


"Nessa época do outono, em meados de setembro, começou a reinar na cidade, e em outras partes do Reino, uma nova doença: que pela sua maneira atípica de se manifestar passou a ser chamada de Doença do Suor Maligno. A doença tinha um contágio acelerado, ardia no corpo das pessoas afligidas, e passava para os saudáveis. Em apenas um dia a doença se instalava e contaminava, fazendo um homem que estava são pela manhã, manifestar seus efeitos danosos à noite. Se não bastasse a facilidade do contágio, havia algo de maligno no reinado dessa doença. Ela surgiu duas semanas antes da coroação real, no final de outubro, e rapidamente tornou-se uma epidemia mortal. Muitos acreditavam se tratar de um retorno da Peste Negra, mas ela não escurecia as veias e os humores, não fazia surgir sob a pele furúnculos, nem manchas púrpuras ou outros sintomas daquela febril pestilência. Médicos falavam de vapores que sequestravam os espíritos vitais: agitavam a vítima e causavam um suador não-natural. Não haviam remédios que diminuíssem sua incidência e uma vez instalado o contágio, a morte era o destino mais provável. Inúmeras pessoas morriam de maneira repentina, e não havia como cavar sepulturas a tempo para as vítimas que se empilhavam nas ruas".

Essa estranha doença fez mais cinco aparições na Inglaterra em 1506, 1517, 1528, 1551 e 1578. 

Ela ficou restrita a Inglaterra, exceto em 1528-1529, quando atingiu também o continente europeu, aparecendo em Hamburgo, atravessando a Escandinávia, o leste da Lituânia, Polônia e Rússia. A Holanda e Dinamarca também foram afetadas, mas França, Espanha e Itália passaram intocadas. Ela jamais foi além das fronteiras ao norte e a Escócia foi poupada em todas as ocasiões.


A Doença do Suor Maligno atingiu a Irlanda em 1528. Ela atingiu as maiores cidade irlandesas com grande violência matando em uma semana o Chanceler, o Arcebispo, dois lordes, quatro ministros e um número indeterminado de cidadãos. Uma vez que ela surgiu e se espalhou a partir da Inglaterra tendo entre suas vítimas quase que exclusivamente ingleses, estudiosos a chamaram de Sudor Anglicus (o Suor da Anglia).

Pesquisadores no século XVI debatiam sobre como ela teria surgido e se ela poderia ser, como muitos suspeitavam, uma maldição impingida contra o povo inglês. Religiosos acreditavam que a doença podia ser uma Provação Divina, um desafio proposto pelo Todo Poderoso para testar, tal qual Jó, a fé e devoção dos ingleses diante das adversidades.

Em Londres, ela causou um pânico sem precedentes, maior até que a Peste Negra.

Os primeiros doentes sentiam arrepios, dores no corpo e tremores que não eram condizentes com o frio. Instalava-se então uma febre alta, fraqueza, indisposição e incapacidade de se manter desperto. Contudo, o sintoma mais estranho era sem dúvida a transpiração excessiva que em muitos casos assustava as pessoas. Um suor acompanhado por cheiro fétido, recobria a pele e escorria sem parar. "Os doentes se desfaziam em um suor amarelado e nauseante, como uma bile que brotava espontâneamente nos poros" descreveu um médico aterrorizado com o mal. Após suar em profusão, surgiam feridas avermelhadas na pele que coçavam e depois descascavam. Em alguns casos se transformavam em bolhas dolorosas que coçavam e causavam enorme desconforto.

Aqueles contaminados podiam morrer em poucas horas, e estes sofriam menos. A maioria durava entre 14 e 24 horas, sendo que os estágios finais eram particularmente dolorosos já que a pele começava a se desfazer, "liquefazer" segundo alguns, "deixando carne e músculos expostos". Aqueles que sobreviviam ao estágio do suador sem desenvolver as bolhas e feridas geralmente sobreviviam. Alguns sofriam de um abundante fluxo de urina ao invés de suor e perdiam tanto líquido que morriam desidratados.


A desidratação ocasionava uma sede insuportável, intensa dor de cabeça, incoerência, convulsões e coma. Para piorar, os médicos ingleses acreditavam que ingerir água nesse estado poderia ser fatal e se negavam a dar aos pacientes o que beber. Como resultado, estes sofriam horrivelmente e morriam em decorrência dos tratamentos absurdos.

Diferente de muitas epidemias medievais, o Suor Maligno parecia se espalhar mais facilmente nas camadas elevadas e entre os mais abastados da sociedade. Para alguns isso provava que a doença tinha origem sobrenatural, pois os ricos eram testados com maior convicção. Os pobres e miseráveis de Londres apelidaram a doença com o nome "Mata Ricos". Em sua primeira aparição ela matou prefeitos, comerciantes, mercadores e lordes. É claro, morreram também pessoas mais pobres, mas era perceptível que o Suor Maligno tinha predileção pelos mais ricos. 

Em seu tratado sobre a doença, Johannes Caius escreveu:

"Aqueles que sofrem com esses suores e correm risco de morte em geral são homens com boa situação que se alimentam bem e bebem melhor do que os mais pobres. As razões para esse fenômeno são desconhecidas, já que, em geral, os mais bem alimentados tem mais propensão a uma vida saudável e longa".

Sobreviver a doença em uma epidemia não se traduzia em imunidade. O Cardial Wolsey sobreviveu a três surtos, sempre sendo contaminado e escapando mesmo depois de ser desenganado. Outra pessoa ilustre que sofreu com a doença foi Ana Bolena que se tornaria esposa de Henrique VIII.


Em contraste com outras epidemias como a de cólera e varíola, que não distinguiam a população, a Doença do Suor agia de forma completamente atípica. Isso apenas servia para aumentar o terror e causar pânico. Havia aqueles que acreditavam em curas alternativas que por vezes apenas levavam à morte mais rápida e dolorosa. Alguns acreditavam que uma cura poderia ser alcançada submergindo os doentes em água, óleo, cerveja ou outros líquidos que serviriam para limpar o suor maligno. Muitas pessoas eram submersas em banheiras, valas ou lagoas e debilitadas acabavam se afogando. Outra cura popular envolvia cobrir os doentes com gordura de porco e raspar a pele com uma espátula, tampando os poros e diminuindo a transpiração. Ervas como a cânfora também seriam um potente aliado no combate a doença, a queima dessas plantas, em um ambiente fechado, defumando o doente por completo servia para limpar o organismo da doença.

Mas haviam métodos ainda mais estranhos. Diziam que jumentos e burros poderiam extrair a doença do corpo, desde que os animais lambessem as feridas e os suores. Alguns cobriam as feridas com sal grosso - o que provocava uma agonia quase insuportável nos doentes que tinham de ser amarrados para suportar o tratamento. Purgantes e salmouras também eram prescritas por curandeiros. Para ingerir os chamados cordiais, enfiavam um tubo garganta abaixo do doente e faziam descer por ele soluções salinas, óleo de peixe, leite azedo, serragem diluída e quaisquer substâncias que acreditavam ser benéficas. Um dos tratamentos mais bizarros de que se tem notícia envolvia desfiar os restos puídos de um manto que pertencera a um santo, fervê-lo em um caldeirão, produzindo uma espécie de sopa imunda de aspecto repugnante que era bebida pelo doente. 

Nem é preciso dizer que esses métodos se mostravam ineficazes, dolorosos e muitas vezes letais.

Embora a doença fosse devastadora em populações locais, ela não tinha grande impacto demográfico no país. O pânico de 1485 resultou em um êxodo das populações das cidades, como ocorreu em Oxford que foi literalmente abandonada pelos seus habitantes. A primeira epidemia teve cinco semanas de duração e se encerrou a tempo de Henrique VII ser coroado na Abadia de Westminster em 31 d e outubro de 1485. Para as mentes supersticiosas do período, o surgimento súbito da doença e o início de um novo reinado pareciam estar em sintonia e representavam um péssimo presságio. Alguns começaram a culpar o Rei pelo ocorrido, questionando se a doença não teria ligação com a maneira como o Rei subiu ao trono (matando e exterminando seus opositores). Os rumores chegaram a tal ponto que Henrique VII recorreu ao Papa Inocêncio III para que ameaçasse excomungar qualquer um que desafiasse seu direito legítimo como monarca.

O segundo surto em massa ocorreu em 1508, quando por coincidência, o reinado de Henrique VII estava chegando ao fim. Novamente ela apareceu em Londres e chegou rapidamente a Oxford e Cambridge matando muitos senhores de terras e estudiosos das Universidades. Entretanto, sua duração foi ainda mais curta do que o surto anterior e poucos registros a respeito dela foram feitos. 


O terceiro surto em 1517, foi muito mais sério. Henrique VIII e sua corte tiveram de abandonar Londres e seguir para Windsor onde a doença ainda não havia aparecido. Londres se tornou perigosa demais e as vítimas fatais se multiplicavam entre os cortesãos que decidiram ficar. Em seis meses de duração ela matou cerca de um quarto da população da capital. Em outras cidades duramente atingidas, a população foi reduzida a metade. Mais uma vez, alunos e professores de Oxford e Cambridge estavam entre as vítimas. E mais uma vez ela parou de se espalhar quando chegou na fronteira com a Escócia. Durante esse surto, a morte podia chegar aos doentes em meras duas ou três horas depois dos primeiros sintomas, por isso alguns diziam "feliz no almoço, morto no jantar". A quantidade de mortos era tamanha que os religiosos deram permissão para que os cadáveres das vítimas fossem queimados, uma prática considerada anti-cristã, mas necessária já que os mortos se empilhavam e cadáveres apodreciam em todas as partes.

O primeiro surto que afetou pessoas que não eram inglesas ocorreu em 1528. Uma vez mais a epidemia surgiu em Londres, espalhou-se rapidamente pelas maiores cidades da Inglaterra parando na Escócia e em Gales. Mas ela então aflorou em Dublin onde as vítimas eram tanto ingleses quanto irlandeses. Navios mercantes levaram a doença através do Mar Báltico e Mar do Norte onde ela começou a fazer vítimas na Alemanha, Holanda, Dinamarca, Escandinávia, Polônia e Rússia. Dessa vez, a doença se combinou com o tifo que vinha devastando a Alemanha e se converteu em uma praga de grandes proporções.

Historiadores da Medicina se perguntam se a Doença do Suor Maligno foi uma das causadoras da redução da população na Europa Ocidental em 1528-1529. Na Inglaterra, o ressurgimento da doença foi considerado como um verdadeiro apocalipse e pessoas preferiam se matar, a esperar o contágio dado como certo. Muitas saltavam de penhascos ou ingeriam veneno para não ter de enfrentar o horror dos sintomas dolorosos. O Reino inteiro estava aterrorizado e agricultores simplesmente pararam de plantar - a fome atingiu a Inglaterra com força e matou ainda mais pessoas.

O último grande surto ocorreu em 1551 e dessa vez teve como foco inicial Schrewsbury ao invés de Londres. Nessa cidade, mais de 900 pessoas morreram nos primeiros dias. Para tentar conter a doença, a cidade foi incendiada e tentou-se criar acampamentos para os doentes. Nada disso surtiu efeito e a doença se espalhou pelo interior atingindo as maiores cidades da Inglaterra. Mais uma vez ela começou vitimando apenas ingleses no país e nas nações continentais. Estrangeiros não eram afetados e pareciam ser imunes. O surto atingiu as classes mais favorecidas vitimando Charles Brandon, Duque de Suffolk e Lady Mary, irmã de Henrique VIII. O Rei mais uma vez abandonou Londres e seguiu para o Sul exilando-se em Gales onde conseguiu escapar mais uma vez da epidemia que matou seu povo.

Desde seu surgimento, houve muitas especulações a respeito da origem da doença. Alguns atribuíam seu surgimento ao clima britânico, a umidade, os nevoeiros, os hábitos do povo inglês e outras condições específicas. Ironicamente ela também foi atribuída a uma mudança na atitude das pessoas, que buscavam limpar suas casas por recomendação de médicos. Esse comportamento atípico poderia, na concepção de alguns minar as defesas do corpo.


A Doença do Suor Maligno foi, de fato, uma epidemia infeciosa, semelhante a praga, tifo, escarlatina e malária. Assim como elas matava (e matava muito!), mas sua origem nunca foi compreendida. Por algum tempo, acreditou-se que ela seria uma variação do tifo, mas essa abordagem foi abandonada em decorrência dos sintomas e pela rapidez do contágio. Influenza também foi candidata a culpada, mas a ausência de sintomas respiratórios ou pneumonia contrariava essa suposição. Também se sugeriu que os métodos de tratamento comuns no século XV e XVI podem ter contribuído para a elevada taxa de mortes - o que pode explicar a grande quantidade de pessoas bem de vida (capazes de pagar por um tratamento) entre as vítimas. 

Recentemente epidemiologistas voltaram sua atenção para os arbovirus que eram transmitidos por insetos, como os mosquitos. De fato, a doença era mais comum em períodos em que os pântanos britânicos se enxiam por decorrência da estação das chuvas e que causavam uma proliferação de mosquitos. As montanhas na Escócia e Gales teriam impedido a migração desses insetos que também evitavam os climas mais frios do norte. Entretanto, o arbovirus é típico dos trópicos e apenas uma variação mutante poderia explicar seu surgimento na Inglaterra.

Em tempos modernos, a única doença que se assemelha aos efeitos do Suor Maligno é conhecida como Febre Militar (Síndrome de Schweiss-friesel ou Febre de Piccadily), uma doença que já apareceu na França, Itália, Norte da Alemanha, mas nunca na Inglaterra. Ela se caracteriza por um suor intenso, e se espalha como uma epidemia de curta duração desaparecendo em poucos dias. A doença é rara e pode ser tratada com o uso de antibióticos e drogas modernas. Um surto registrado em 1861 matou cerca de 170 pessoas apenas na França.

A grande verdade é que ninguém sabe exatamente o que causou as terríveis epidemias da Doença do Suor Maligno. Também não se sabe os motivos pelos quais os ingleses foram as vítimas preferenciais desse vírus. Por anos a crença de que algo sobrenatural estaria acontecendo foi muito difundida.

Na ausência de uma explicação científica, é da natureza humana perguntar a si mesmo, se os incidentes ao seu redor não são causados por fatores anormais. Até a Era Vitoriana, o temor de que a Doença do Suor Maligno retornasse, aterrorizava os ingleses de tal forma que qualquer surto era visto com pavor. Até bem recentemente, havia pessoas que acreditavam que a Inglaterra seria destruída por essa terrível doença que afetaria apenas aos habitantes das Ilhas e mais ninguém.

E considerando o histórico dessa estranha doença, os ingleses tem motivos para temer.

3 comentários:

  1. Mais um excelente texto! Parabéns! Minha dose quase diária para saciar a fome por acontecimentos estranhos e histórias curiosas! Continuem assim!

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  2. Ótimo conteúdo mais uma vez! Fico feliz quando pego o trem pela manhã e tenho um texto novo para ler.

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