Como qualquer fã do gênero terror pode atestar, encontrar um filme que realmente assuste é como procurar uma agulha num palheiro. Acho que, com o tempo, ficamos "curtidos" e o terror deixa de nos afetar, como um dia afetou. Nós acabamos gravitando em direção ao que nos assustou na juventude, buscando aquela sensação quase esquecida, esperando que algum filme de terror devolva os arrepios que um dia sentimos.
Colheita Estranha (Strange Harvest/ 2025), um pequeno filme independente que assisti semana passada, atendeu às minhas expectativas tão frustradas. Com imagens chocantes e uma abordagem de realismo quase documental, ele conseguiu o que muitos não passaram nem perto: foi assustador.
Agora, é importante dizer que esse hiper-realismo pode não agradar a todos, principalmente àqueles que preferem um terror mais estruturado e convencional. Colheita é um derivado do manjado found footage (aqueles filmes onde a ação se sustenta em imagens captadas por câmeras), mas ele consegue a proeza de renovar esse estilo. Escrito e dirigido por Stuart Ortiz, cocriador do competente Grave Encounters, ele tem um toque atemporal em sua abordagem. Feito sob medida para os entusiastas de true crime, Strange Harvest funciona como um conto arrepiante sobre um serial killer que soa real demais para nos deixar à vontade.
Narrada através de uma mistura de entrevistas, testemunhos, trechos de câmeras de segurança, imagens granuladas de cenas de crime e cartas, Strange Harvest constrói uma experiência imersiva e inquietante. O texto de abertura informa que "O caso à seguir é considerado um dos mais subnotificados na história do sul da Califórnia" — embora, se tivesse realmente acontecido, certamente seria um dos mais notórios da história dos EUA, dada suas reviravoltas. Óbvio que é tudo ficção, mas com uma construção tão competente que você sente um verniz de realidade.
Os fãs de documentários sobre crimes, um público crescente, vão sentir familiaridade com o modelo do filme. Os pormenores do caso são dissecados cuidadosamente por especialistas, detetives e testemunhas que passam uma sensação de estarrecimento diante dos crimes cometidos. As atuações são contidas e naturais, o que torna o horror que se desenrola ainda mais verossímil. Os "detetives" Joe Kirby (Peter Zizzo) e Lexi Taylor (Terri Apple) nos levam a uma odisseia de duas décadas de assassinatos ritualísticos medonhos. As atuações são bastante sólidas; tanto Zizzo quanto Apple convencem em seus respectivos papéis, e o ator que interpreta o assassino, se deleita como vilão.
Os elementos de found footage são usados de forma eficaz, sem se tornarem artificiais ou repetitivos. As sequências são tão bem enquadradas que às vezes a coisa soa genuína demais. Cada detalhe é tratado sob a ótica de um realismo brutal, sustentando o clima de suspense.
Mas misteriosamente, tão súbito quanto aparece, Mr. Shiny some sem concretizar suas ameaças.
O crime quinze anos depois é como o retorno de um pesadelo!
À medida que os detetives relatam os detalhes sobre os novos assassinatos, estes se tornam cada vez mais perturbadores. Por que Mr. Shiny está fazendo essas coisas? Qual é a sua verdadeira identidade? Pode haver um padrão nessas mortes aparentemente sem relação? Embora o filme responda essas perguntas, ele inteligentemente evita mostrar demais. Em vez disso, o roteiro sugere apenas o suficiente para deixar a imaginação correr solta com as inquietantes possibilidades. E o exercício de preencher as lacunas talvez seja o mais assustador, já que as mortes parecem atender os delírios de um louco e sua fixação com entidades obscuras, deuses esquecidos e alinhamentos planetários. Isso concede uma nova camada ao true crime, acrescentando um componente sobrenatural e uma pitada inesperada de Horror Cósmico.
Há alguns efeitos práticos memoráveis e um notável trabalho principalmente no design nos cadáveres que geram imagens grotescas. A produção dá atenção impressionante aos detalhes, mesmo nas fotos e imagens borradas de cenas de crime. Mas muito além dos efeitos é revigorante encontrar uma trama que estimula o espectador a participar da investigação - quase como se estivesse lá. Mr. Shiny permanece profundamente bizarro mesmo enquanto descobrimos detalhes sobre sua figura misteriosa. Os assassinatos que à princípio soam plausíveis, sofrem uma reviravolta sombria com a inserção do elemento sobrenatural. Em outros filmes isso poderia atrapalhar, mas aqui, esse fator inesperado parece apenas um novo desenvolvimento no caso. Mr. Shiny assume a forma de uma ameaça incontrolável, uma presença quase surreal.
Extremamente bem feito, Colheita Estranha não é para os fracos de coração.
É um filme que permanece na memória não só pelas cenas sanguinolentas, mas pelo contexto no qual elas estão inseridas. O ritmo segue frenético, martelando imagens cruas e costurando uma longa sequência de crimes hediondos. Fãs de filmes como Lake Mungo, The Poughkeepsie Tapes ou V/H/S provavelmente vão aprovar o estilo, ainda que ele tenha uma identidade exclusiva.
Com tudo isso dito, não posso indicar mais Colheita Estranha e colocá-lo entre os melhores filmes de terror do ano.
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