quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Filhos de Kali - O terrível Culto dos Thuggees na India

Durante séculos, pessoas que viajavam pelas estradas da Índia corriam um risco inimaginável. Os membros de uma seita cuja origem remontava ao século XIII espreitavam em todo canto. Observavam, planejavam emboscadas, capturaram suas vítimas, as levavam para um de seus esconderijos e as assassinaram. Matar era uma espécie de arte sagrada, a derradeira prova de devoção.

A sociedade cujos rituais eram mantidos em segredo congregava diferentes pessoas, de todas classes sociais, hindus e muçulmanos unidos sob a mesma crença fanática. Eles acreditavam ser filhos da Deusa Kali, a Mãe Negra do folclore Hindu

Segundo a crença, Kali era responsável por enfrentar demônios devoradores de homens vindos do submundo. Quando ela cortou um desses demônios ao meio com sua espada, descobriu que cada gota de sangue que vertia se transformava em outro demônio. Face a horda diabólica, Kali criou dois guerreiros com seu suor e os incumbiu de ajudá-la em sua luta. Para não correr o risco de aumentar as fileiras diabólicas, ela deu a cada guerreiro uma tira de pano chamado "rumal" para estrangular os inimigos sem verter seu sangue. Depois de eliminar todos demônios, Kali instou os seus dois guerreiros e prosseguir em sua tarefa sagrada de geração em geração.

Os guerreiros deveriam espalhar a adoração de Kali entre aqueles que desejavam seguir seus passos. Eles fariam o trabalho da Deusa e seriam recompensados pois o roubo das vitimas era um de seus mandamentos.


Os membros do Culto começaram a chamar uns aos outros de Thuggees, que em sânscrito significa "ocultos" ou "escondidos", pois eles agiam dessa maneira na sociedade, matando sem chamar demasiada atenção. Usando dissimulação e estratégia os Thuggees se espalharam pela Índia, formando grupos nas maiores cidades do subcontinente. Cada um deles obedecia a um Alto Sacerdote que por sua vez comandava um Templo onde os rituais ocorriam.

[Como curiosidade, a palavra inglesa "thug" usada para designar bandidos ou rufiões deriva diretamente do termo Thuggee]

Na maior parte do tempo, os Thuggees viviam uma existência comum sem chamar a atenção. Eram artesãos, comerciantes, soldados... pessoas normais que compartilhavam a devoção cega à Kali em um dos remotos templos escondidos em florestas ou ruínas. Nestes centros de adoração se entregavam a rituais de sangue que misturavam danças, cantos e sacrifícios. Uma das regras impostas pela Deusa é que cada fiel tinha uma cota de assassinatos a ser atingida. Uma carnificina que se confundia com missão sagrada e precisava ser cumprida para não desagradar sua divindade.

Os Thuggees agiam longe de suas casas para evitar o reconhecimento e contavam com células organizadas de dez a cinquenta indivíduos. Sua tática preferida envolvia enganar suas vitimas, atraídas para algum lugar deserto mediante engodo. Os Thuggees se misturavam a caravanas de mercadores ou bandos de peregrinos aguardando surgir a oportunidade para cometer assassinato. Quando o momento chegava, os assassinos se aproximavam sorrateiramente, passavam os rumal pelo pescoço e apertavam, murmurando preces à Kali. Eles sentiam a vida se esvair do corpo de suas vítimas, um momento de profundo fervor religioso. 

Antes de uma expedição, os Thuggees se reuniam num templo onde o Sacerdote sacrificava um carneiro diante de uma imagem de Kali manchada de sangue e coberta com flores. Aos pés da macabra efígie ficavam suas ferramentas sagradas: corda, faca e picareta. A faca e a picareta eram usadas para a mutilação ritual dos cadáveres. Presumia-se que a mutilação facial agradava à Deusa e dificultava a identificação das vítimas. As cordas eram usadas para capturar vítimas escolhidas que eram imobilizadas com laços sagrados que apenas os membros da ordem sabiam desatar.

Os prisioneiros, sempre em dupla, eram levados até um templo de Kali onde ficavam presos por dias, semanas ou mesmo meses. Assistiam aos rituais e aos poucos eram preparados para assumir, eles próprios um lugar na seita. Se um deles aceitasse se tornar um Thuggee era obrigado a matar o outro. Se ambos aceitassem, eles eram forçados a escolher entre eles, quem mataria e quem seria morto. Se não chegassem a uma conclusão, o Sacerdote escolhia o papel que cada um iria desempenhar. O sobrevivente fazia então uma promessa de servir Kali, bebendo o sangue da sua primeira vítima e arrancando o coração de seu peito. A promessa não podia ser desfeita, sob pena de sofrer a Ira da Deusa: amaldiçoado em vida e sofrendo na eternidade. Sua família seria perseguida e sua alma devorada até o fim dos tempos. 

O novo membro da Irmandade jurava lealdade, doava parte de seus bens e ganhava um nome secreto pelo qual os irmãos o conheceriam. Dali em diante ele era um Thuggee e como tal estava obrigado a pagar o imposto de mortes e servir Kali em toda sua glória profana.

A Seita possuía um código de conduta único que limitava suas vitimas. Mulheres geralmente eram poupadas em deferência ao sexo de Kali, assim como homens santos, artesãos, músicos e poetas. Os leprosos e aleijados também estavam isentos, pois uma vítima devia ser pura. Não querendo arriscar represálias de seus governantes coloniais, os assassinos raramente molestavam europeus, mantendo seus ataques quase que exclusivamente contra a população local. 

Em todo subcontinente indiano os Thuggees tinham fama por serem implacáveis e mortais. Viajantes temiam se afastar e evitavam o contato com estranhos, entretanto, qualquer pessoa podia ser secretamente parte da irmandade. Ao longo de séculos, os Thuggees colecionaram inúmeras vítimas fatais. Estima-se que mais de um milhão de pessoas tenham perecido nas mãos dos Thuggees antes que uma campanha contra eles tivesse início. 

Em 1826 o Coronel britânico William Sleeman, Adminstrador Civil do distrito de Jubbulpore, na Índia Central deu início a supressão da seita. Os britânicos sabiam da existência de irmandades semelhantes, mas julgavam que suas ações eram isoladas, realizadas por bandos de ladrões que matavam simplesmente para roubar as vítimas. Quando Sleeman capturou três criminosos procurados e os interrogou, eles começaram a revelar os meandros de sua organização.

Os britânicos ficaram profundamente chocados quando tomaram ciência do tamanho da Seita e do âmbito de sua atuação. Os Thuggees devotos a Kali estavam em todas as maiores cidades da Índia. Informantes revelaram a localização de templos e o exército colonial foi mobilizado para fazer prisões e desbaratar as células. Grupos inteiros de Thuggees foram cercados e presos, mas muitos preferiam o suicídio antes de serem capturados. Na cidade de Saugor, mais de uma dúzia de Thuggees que haviam sido cercados em um templo se deixaram estrangular até a morte pelo seu sacerdote que em seguida consumiu uma dose de veneno. Ao entrar no templo os soldados encontraram todos mortos. 

Os Thuggees começaram a lutar contra os britânicos: realizaram emboscadas, eliminavam alvos militares e tentaram criar um regime de medo na população. Também tentaram insuflar um levante urbano, obrigando pessoas a pegar em armas e desafiar a autoridade europeia.

Em Bengala, os Thuggees fizeram vítimas entre colonos e nativos que trabalhavam para eles. A resposta dos ingleses foi imediata com a destruição de vários templos e prisão de milhares de pessoas suspeitas de participar ou simpatizar com a Irmandade. Em Madras as prisões ficaram lotadas de suspeitos, em Calcutá, berço de uma das maiores células, houve massacres e enfrentamento. Um templo foi destruído por tiros de canhão, a estátua de Kali arrastada para fora e reduzida a pó por golpes de marreta.

No final, milhares de pessoas foram julgadas sem muitas sutilezas jurídicas, com a distribuição de punições rápidas e rigorosas. Dos 3689 Thuggees julgados até 1840, quase 500 foram executados na forca. O restante foi condenado a prisão perpétua, exceto os informantes que concordavam em apontar outros membros da Seita.

Uma prova de bravura para os membros era reconhecer suas ações e desafiar os ingleses admitindo serem parte da Seita. Durante os julgamentos, acusados admitiam alegremente a autoria da morte de centenas de pessoas. Em Bangalore, um guia de caravana de 45 anos, afirmou ter matado ao menos 250 pessoas desde sua iniciação aos quatorze anos. Dezenas de cemitérios clandestinos à beira de estradas foram descobertos.

Em 1848, após um breve período de tranquilidade, um novo surto de homicídios irrompeu nas principais cidades indianas. Os Thuggees organizaram um levante armado no qual executaram várias testemunhas e informantes que os haviam delatado. Os britânicos agiram rapidamente e capturaram mais 651 homens que receberam julgamento e condenação. As ações também destruíram templos que operavam clandestinamente e que foram incendiados até o chão.

O Culto de Kali foi oficialmente declarado ilegal e autoridades religiosas hindus, muçulmanas e sikhs concordaram em decretar que a adoração a esse aspecto da Deusa era uma atitude condenável. Com efeito a adoração de Kali foi drasticamente reduzida e o culto perdeu muitos dos seus seguidores.

O último assassino Thuggee conhecido foi enforcado em 1882.

Apesar da Seita não ter realizado mais nenhuma ação coordenada, circulavam boatos de que seus membros continuaram agindo no submundo até meados do século XX. Quadrilhas criminosas se faziam passar por Thuggees e cometiam assassinatos usando os métodos da Seita para causar choque e despertar o medo entre seus rivais. Durante a Luta pela Independência vários movimentos de libertação também usaram os métodos dos Thuggees como forma de intimidar seus opositores colaboracionistas.

Mesmo hoje em dia, o Culto da Deusa Kali mantém seu status como "bicho papão" na sociedade indiana, desafiando as crenças e usando as superstições a seu favor. Os Kapalikas, o último "revival" dos Thuggees nos dias modernos supostamente se infiltraram em grupos criminosos adotando métodos cruéis e impiedosos similares aos empregados pelos discípulos de Kali. Esses Kapalikas foram duramente reprimidos, mas há boatos que eles ainda atuam em áreas rurais da Índia onde o medo dos Thuggees ainda existe.

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