Não há dúvidas de que nossa civilização ocupa apenas uma fração insignificante do tempo geológico da Terra. Estamos aqui faz muito pouco tempo. De fato na contagem do tempo geológico de nosso planeta, é como se a humanidade tivesse acabado de surgir. Além de jovem, somos incrivelmente frágeis. Toda nossa existência se equilibra em bases instáveis, e muitos fatores podem decretar nossa extinção.
Assim como aconteceu com os dinossauros que um dia governaram o planeta, podemos ser vitimas do apocalíptico choque de um meteoro. Podemos ser varridos da face da existência por um vírus mortal, pela incidência de devastadores tremores sísmicos, massivas erupções vulcânicas ou ainda pelo início de uma nova Era do Gelo. A humanidade é uma forma de vida frágil e embora sejamos capazes de nos adaptar e triunfar ante as adversidades, há inúmeros fatores que poderiam decretar nosso inevitável fim.
Para piorar, como espécie, provamos ser extremamente autodestrutivos: travamos guerras e causamos atrocidades, consumimos nossos recursos de forma desenfreada e somos um fator relevante na deterioração do meio ambiente do planeta. Observando a situação atual e as incontáveis variáveis as quais estamos submetidos, não é difícil imaginar que nosso domínio sobre a Terra será transitório. Parece inevitável a chegada de um dia em que tudo irá desmoronar: cidades outrora grandiosas ficarão em ruínas ou submersas pelo mar, populações inteiras irão desaparecer e tudo o que restar serão apenas alguns focos isolados de humanidade, ou talvez, absolutamente ninguém, apenas uma vasta paisagem de ruínas reverberando com os ecos do passado.
Chegará o dia em que tudo ao nosso redor terá desaparecido, sem que ninguém sobreviva para relatar o que aconteceu.
Pensando nisso, uma equipe de cientistas desenvolveu um plano para salvaguardar a trajetória da humanidade para a posteridade. Seu ambicioso projeto visa manter um registro para que, quem quer que nos encontre num futuro distante, possa saber quem fomos e o que aconteceu conosco. Com esse intuito uma equipe internacional projetou uma vasta estrutura de aço chamada "Caixa-Preta do Planeta Terra".
A Caixa-Preta é um projeto liderado pela agência de marketing Clemenger, em colaboração com a agência criativa The Glue Society e cientistas da Universidade da Tasmânia. Seu plano é construir um simulacro indestrutível que funcionará essencialmente como a caixa-preta de um avião e fornecerá, segundo eles, um "relato imparcial dos eventos que levaram à destruição do planeta" para qualquer um que ainda estiver vivo u que chegue até aqui e queira saber quem veio antes.
A equipe pretende documentar e registrar as inúmeras calamidades que enfrentamos, incluindo mudanças climáticas, extinção de espécies, poluição ambiental, guerras e outros eventos catastróficos, por meio da preservação de um registro meticuloso e constante atualização das informações. O projeto utilizará algoritmos projetados para vasculhar a internet em busca de tweets, posts, notícias e manchetes, publicações em redes sociais e todas as outras fontes de informação possíveis que possam registrar nossa jornada, do início até o amargo fim.
A estrutura em si será um monólito de aço de 9,75 metros de comprimento, aproximadamente do tamanho de um ônibus, revestido com aço temperado de 7,6 centímetros de espessura e equipado com painéis solares e baterias de reserva para alimentar o conjunto de discos rígidos em seu interior. Ela será resistente a explosões atômicas, abalos sísmicos, tsunamis e outros problemas.
Sua localização será em algum lugar em uma planície granítica geologicamente estável na costa oeste da Tasmânia, a cerca de 4 horas de Hobart, onde acredita-se que estará a salvo da maioria dos cataclismos e poderá permanecer relativamente intacta no fim dos tempos. Tudo isso visa fornecer informações cruciais e um registro de como a Terra chegou ao seu fim para qualquer pessoa que possa se deparar com ela em um futuro distante, bem como responsabilizar aqueles que causaram o desastre e dar pistas sobre como qualquer sociedade futura poderá evitar os erros do passado. O site Earth’s Black Box afirma sobre o ambicioso projeto:
"A menos que transformemos drasticamente nosso modo de vida, as mudanças climáticas e outros perigos causados pelo homem levarão nossa civilização ao colapso. A Caixa Preta da Terra registrará cada passo que dermos rumo a essa catástrofe. Centenas de conjuntos de dados, medições e interações relacionados à saúde do nosso planeta serão coletados continuamente e armazenados com segurança para as gerações futuras, a fim de fornecer um relato imparcial dos eventos que levam à destruição do planeta, responsabilizar as gerações futuras e inspirar ações urgentes. O desfecho dessa história depende inteiramente de nós."
O projeto ainda está em fase de planejamento, mas a previsão é de que seja concluído até 2028 e já se encontra na fase beta de testes, com gravações ambientais em tempo real. Embora pareça um plano intrigante, a equipe por trás do projeto tem enfrentado alguns obstáculos. Por exemplo, os discos rígidos têm uma capacidade de armazenamento limitada, suficiente para apenas 30 a 50 anos de gravações contínuas antes de se esgotarem. Por isso, a equipe está buscando uma maneira de aumentar essa capacidade. Outro problema é a manutenção dos painéis solares e dos discos rígidos, especialmente se entrarmos numa era em que o fim da civilização tenha chegado e ninguém esteja por perto para fazer isso ou esteja ocupado demais tentando sobreviver num novo mundo extremo e inóspito.
Outra questão fundamental é como fazer com que a pessoa que encontre a Caixa Preta tenha o conhecimento para acessar os dados armazenados nela. Como descendentes primitivos catapultados para uma nova pré-história poderiam acessar os terminais ou ainda, como exploradores das estrelas fariam para compreender as informações ali contidas? Um dos planos é ter os discos traduzidos em várias línguas e dialetos ou ainda, se valer de informações visuais ou auditivas que não necessitem do domínio de línguas.
É claro, o projeto foi criticado como nada além de uma jogada de marketing, mas seus criadores insistem em levar tudo muito a sério. Em um comunicado no lançamento do projeto eles defenderam que a "Caixa-Preta" pode ser o último legado da humanidade, capaz de sobreviver a todos nós.
É assustador imaginar que um dia, num futuro distante, os últimos remanescentes da humanidade, ou mesmo alienígenas, cheguem a este mundo desolado e sem vida e, vasculhando a poeira e as ruínas do que um dia foi, descubram este monumento contando sobre nossa destruição. Quem quer que o encontrasse seria capaz de decifrar o que há dentro dele, ou nossos últimos dias e o fim de tudo o que conquistamos como espécie permaneceriam para sempre esquecidos pelo universo, relegados ao esquecimento como se nunca tivéssemos existido?
Haveria alguém para encontrá-lo, daqui ou de algum outro lugar além do nosso mundo? Ou esta pequena rocha gira sozinha através de um universo absolutamente indiferente? Será que esse monólito negro ficará esquecido pela eternidade? Há uma triste certeza niilista... nosso mundo não é eterno, nosso sol é finito e a raça humana está fadada a sumir um dia, a não ser que consigamos nos espalhar pelo cosmos através das estrelas.
Seja como for, se não conseguirmos essa façanha, ao menos teremos o consolo deste monumento para contar quem um dia fomos e o que fizemos. Para o bem ou para o mal...




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